DOCETISMO. — I. Observações gerais. II. O docetismo no tempo dos apóstolos. III. O docetismo no tempo de santo Inácio. IV. O docetismo entre os gnósticos. V. Refutações de que foi objeto. VI. Acusação de docetismo feita contra certos Padres.
I. OBSERVAÇÕES GERAIS. — 1° Natureza do docetismo. — Docetismo, da palavra grega δοκέω, parecer, δόκησις, aparência, serve para designar o erro daqueles que se recusavam a admitir que Jesus Cristo tivesse sido um homem verdadeiro, possuindo um corpo de carne como o nosso, e tratavam por consequência de pura ilusão ou de aparência enganosa o que os Evangelhos relatam e o que a Igreja ensina, seja sobre a concepção humana de Cristo, seu nascimento e sua vida, seja sobre seus sofrimentos, sua morte e sua ressurreição.
2° Sua origem. — Esse erro não constituía, a bem dizer, a nota distintiva, única e exclusiva de uma seita à parte, mas antes um dos elementos errôneos da maioria dos sistemas gnósticos que, durante os dois primeiros séculos da era cristã, tentaram suplantar o cristianismo, tomando-lhe ao mesmo tempo emprestados alguns de seus dados. Admitia-se com dificuldade que o Salvador fosse o Filho de Deus feito homem; os dois dogmas da encarnação e da redenção eram uma verdadeira pedra de tropeço para os partidários da gnose. Somente alguns sustentaram que ele não foi senão um homem. Tal Justino, a cujos olhos Jesus, filho de José e de Maria, simples pastor até a idade de doze anos, recebeu por intermédio de Baruc, em nome e por ordem de Elohim, a missão de pregar. Philosophoumena, V, iv, 26, edit. Cruice, Paris, 1860, p. 236 sq. Tal Carpócrates, ver t. II, col. 1800, que não viu no filho de José, embora educado no judaísmo, senão o adversário do Antigo Testamento, o pregador da salvação pelo desprezo libertador do mosaísmo. Tertuliano, De præscript., XLVIII, P. L., t. II, col. 66-67; Philosoph., VII, v, 32, p. 385. Tal, enfim, Cerinto, ver t. II, col. 2153, que, distinguindo duas personagens no Salvador, sustentava que Jesus nascera como todos os homens, sem nenhuma intervenção miraculosa, e que não havia servido senão de receptáculo passageiro ao Cristo, desde seu batismo no Jordão até antes de sua paixão: distinção arbitrária e em contradição manifesta com são Mateus, pois esse evangelista, depois de traçar a genealogia humana do Salvador, não diz Jesu, mas Christi autem generatio sic erat. Mateus, I, 18; S. Irineu, Cont. hær., I, xxvi, P.G., t. VII, col. 920. Quanto aos outros chefes da gnose, Simão o Mago, Saturnino, Basilides, Valentim, Marcião, e, depois deles, Manes, negaram a humanidade do Salvador e não quiseram ver nos fatos de sua concepção, de seu nascimento, de sua morte e de sua ressurreição senão fenômenos aparentes, sem a menor realidade objetiva. Já no tempo dos apóstolos, sob a influência de um judaísmo exagerado e de ideias filosóficas estranhas, alguns « naufragados na fé » haviam tentado introduzir o docetismo em seu ensinamento herético. Embora combatido por são Paulo e por são João, esse erro sutil não deixou de ser acolhido pelos adeptos da gnose. Estes, com efeito, comprazia-se em especular sem limites sobre as matérias filosóficas e religiosas. Pretendiam explicar tudo muito melhor do que o fazia o cristianismo. Não hesitavam sequer em servir-se do ensinamento cristão, ressalvado, é claro, desfigurá-lo e amalgamá-lo com outras ideias completamente heterogêneas, para compor esse modo superior de compreender e explicar as coisas que chamavam enfaticamente de gnose. Ora, uma das dificuldades era explicar a origem e a existência do mal neste mundo. Partiam desse falso postulado de que a matéria é de essência má, causa do pecado. Impossível, portanto, conceber que Deus, a própria santidade, pudesse entrar em contato imediato com ela, seja para criá-la, seja para resgatar a humanidade. A união real da natureza divina com a natureza humana na pessoa de Cristo, tal como a ensinava o cristianismo, devia, pois, ser rejeitada. Nem a encarnação, nem a redenção, no sentido da religião nova, eram admissíveis; considerava-se coisa inconcebível que o Salvador, de qualidade superior e mesmo divina, pudesse nascer como um homem, comer e beber como um homem, sofrer e morrer como um homem. A todo custo era preciso afastar tal doutrina; mas como, por outro lado, se pretendia concorrer com o cristianismo justamente em seu próprio terreno e com suas próprias armas, foi preciso buscar uma interpretação mais aceitável, e julgou-se encontrá-la no docetismo.
3° Suas diferentes formas. — Cada chefe gnóstico teve sua maneira própria de conceber o docetismo. Santo Irineu, em particular, é uma boa testemunha para o fim do século II e nos informa sobre as diversas formas do docetismo em sua época; ele conta quatro principais: 1. O homem Jesus não foi senão um receptáculo passageiro, no qual entrou o Cristo no momento do batismo e de onde saiu antes da crucificação; 2. o nascimento, a vida e a morte do Cristo não foram senão uma aparência sem realidade; 3. o Cristo teve um corpo visível, capaz de sofrer, mas nem material nem tomado da substância física da Virgem, tendo apenas passado através de Maria; 4. na cruz um homem morreu realmente, mas não foi Jesus, foi Simão de Cirene, de quem Jesus havia tomado os traços e a quem havia dado os seus. Cont. hær., I, xxiv, 4; III, xvi, 1, P. G., t. VII, col. 677, 920 sq. A primeira dessas formas de docetismo é a de Cerinto. Não a assinalamos senão para memória; pois não há, no sistema de Cerinto, nenhum traço de docetismo relativamente a Jesus, uma vez que Jesus nasceu e viveu como todos os outros homens e morreu realmente na cruz, ao passo que o Cristo, que não fez senão habitar transitoriamente em Jesus, não comporta nem nascimento nem morte fictícios. Quanto às três outras, diremos mais abaixo em que medida e com que nuances elas foram as dos outros chefes gnósticos. Clemente de Alexandria no Egito, Tertuliano em Cartago, santo Hipólito ou o autor dos Philosophoumena em Roma, assim como o autor dos cinco diálogos contra os gnósticos, falsamente atribuídos a Orígenes, ajudam a precisar os detalhes. Quanto ao docetismo de Manes e dos maniqueus, santo Agostinho no-lo faz sobretudo conhecer em sua refutação de Fausto. Outros erros ainda parecem implicar o docetismo, porque desconhecem os elementos constitutivos da natureza humana em Cristo. No século IV, por exemplo, Ário, ver t. I, col. 1787, e Eunômio não reconhecem em Cristo senão um corpo sem alma humana, um ἄψυχον σῶμα ou uma ψυχὴ ἄλογος; Apolinário, ver t. I, col. 1506, mutila sua natureza humana, não lhe concedendo senão um corpo animado, mas sem alma racional, sendo o νοῦς inútil onde o Verbo desempenha seu papel. Mais tarde, enfim, no começo do século VI, foi debatida no Egito, entre os eutiquianos, a questão de saber se o corpo de Jesus, durante sua vida e antes de sua ressurreição, havia sido corruptível ou incorruptível, donde o nome de aftartodocetas dado aos que sustentavam que ele havia sido incorruptível. Deixaremos de lado esses últimos erros para nos atermos apenas aos primeiros, os únicos em que o docetismo foi verdadeiramente ensinado, não sem alguns perigos para a fé.
4° Seus perigos. — A fé, com efeito, encontrava-se ameaçada pela gnose em geral, pelo docetismo em particular; pois este, por sua maneira de conceber e de ensinar o papel do Salvador no mundo e a natureza da salvação, desfigurava completamente, ou antes arruinava pela base, dois dos dogmas fundamentais da fé cristã, a encarnação e a redenção. A Igreja professava crer que o Filho de Deus se fez homem para salvar os homens e que os salvou pela morte sangrenta na cruz. O docetismo, ao contrário, ao não ver nesse duplo mistério senão uma aparência sem realidade, suprimia-o radicalmente; pois, se o Verbo não se fez carne, que é feito do papel atribuído pelos Evangelhos à Virgem Maria? E se ele não morreu para o resgate da humanidade, que é feito da salvação? E, ao mesmo tempo, que é feito do cristianismo, que é feito da Igreja? Era, pois, uma questão de vida ou de morte que se colocava. Nada, portanto, mais urgente do que opor ao erro insinuante e perigoso, sob seu aparato científico, as afirmações positivas da ortodoxia e salvar a fé condenando a heresia. E foi exatamente esse o papel que assumiram os chefes avisados da Igreja. Mas eles não se contentaram em denunciar o erro e estigmatizá-lo, refutaram-no; não se contentaram em proclamar a verdade da fé cristã, provaram-na em nome da Escritura, da tradição e da razão. E foi assim que o perigo criado pelo docetismo se tornou, para a Igreja, a ocasião de uma luta e finalmente de um triunfo, graças aos trabalhos que ele suscitou entre os católicos.
II. O DOCETISMO NO TEMPO DOS APÓSTOLOS. — 1° Seu primeiro aparecimento. — É certo que, já no tempo dos próprios apóstolos, houve gnósticos docetas: tal, por exemplo, Simão de Gitta, que propôs em vão a são Pedro o vergonhoso negócio que se conhece e que quis fazer-se passar pelo Salvador. Ele teve escola em Antioquia; Menandro, seu discípulo, tornou-se o mestre de Saturnino e de Basilides. Teria ele já composto obras e formulado seu pensamento num corpo de doutrina sistematicamente ligado? É de crer. Mas nem o seu nome nem o de nenhum outro contemporâneo se encontram sob a pena de são Paulo ou de são João. E, no entanto, não há dúvida de que esses dois apóstolos visaram certos erros particularmente eivados de docetismo. Pois, seja em Antioquia, na Síria, seja em Éfeso e nas cidades vizinhas da província da Ásia, houve nos tempos apostólicos uma tal fermentação de ideias filosóficas e religiosas que a ortodoxia da fé se via ameaçada por isso. Hábeis exploradores, apresentando-se ao mesmo tempo como doutores da lei e mestres da gnose, começavam a minar, por um docetismo sutil, os dois dogmas fundamentais da encarnação e da redenção. A prova disso está em certos detalhes característicos que os apóstolos assinalam e na maneira como denunciam o perigo contra o qual advertem seus correspondentes.
2° São Paulo o combate. — Avisado por Epafras dos perigos que corria a fé dos cristãos em Colossos sob a ação de um falso ensinamento, são Paulo escreve aos Colossenses para preveni-los. Ele assinala, entre outras coisas, uma mistura de ascetismo e de culto idolátrico dos anjos, uma rígida observância de festas e de sábados, uma doutrina que se dava a si mesma o título de gnose. Tratava-se de vários sistemas de erro ou de um só? O apóstolo não distingue, e tudo leva a crer que ele visa simplesmente um primeiro ensaio de sincretismo gnóstico e judaizante, de gnose judaizante. Certo é que ele adverte os cristãos de Colossos contra « a filosofia e ensinamentos enganosos, que são segundo as tradições puramente humanas e os rudimentos do mundo, e não segundo Cristo, » Col., II, 8, cujo objetivo era rebaixar a ideia de Cristo e desnaturar seu papel. Como assim? Não somente pondo em dúvida sua divindade, mas também negando, em certa medida, a realidade de sua natureza humana e de sua morte sangrenta; e é aqui que aparece o docetismo, que ele combate ao mesmo tempo que outros erros. Pois, de um lado, insiste até três vezes, a poucas linhas de distância, para afirmar que Cristo possui a plenitude de Deus, todos os tesouros da sabedoria e da ciência, e que a plenitude da divindade habita nele corporalmente. Esta fórmula: ἐν αὐτῷ κατοικεῖ πᾶν τὸ πλήρωμα τῆς θεότητος σωματικῶς, Col., II, 9, é particularmente sugestiva, pelo emprego da palavra πλήρωμα em voga entre os gnósticos, e sobretudo pelo advérbio tão enérgico σωματικῶς. De outro lado, ele faz questão de lembrar a reconciliação dos homens com Deus pelo sangue da cruz, διὰ τοῦ αἵματος τοῦ σταυροῦ αὐτοῦ, pela morte de Cristo em seu corpo carnal, ἐν τῷ σώματι τῆς σαρκὸς αὐτοῦ διὰ τοῦ θανάτου. Col., I, 20, 22. Traços tão característicos só se explicam na hipótese de que são Paulo fazia questão de fechar a boca aos que negavam mais ou menos abertamente a realidade da encarnação e da redenção. O tipo desses judeu-gnósticos de tendências docetas é ainda mais acentuado nas Pastorais. São Paulo pede notadamente a Timóteo « que evite tudo o que se opõe a uma ciência que não merece esse nome », e que ele qualifica de mentirosa: ἀντιθέσεις τῆς ψευδωνύμου γνώσεως. I Tim., VI, 20. Ele afirma solenemente que há um só mediador entre Deus e os homens, o Cristo Jesus feito homem: μεσίτης Θεοῦ καὶ ἀνθρώπων ἄνθρωπος Χριστὸς Ἰησοῦς. I Tim., II, 5. Dificilmente se imaginariam fórmulas mais óbvias para combater o erro doceta; foi, aliás, exatamente assim que o entenderam Basilides e Marcião; pois, vendo-se retratados e refutados de antemão nas Pastorais, cuidaram de rejeitá-las do cânon do Novo Testamento.
3° São João o combate por sua vez. — No Evangelho que compôs, diz-se, para combater Cerinto, que negava a divindade de Jesus, são João inseriu alguns traços que visariam antes um erro eivado de docetismo: este, por exemplo, tão fortemente acentuado: « O Verbo se fez carne e habitou entre nós, » João, I, 14; e este detalhe da paixão, que só ele destaca: « Um dos soldados lhe traspassou o lado com uma lança, e logo saiu daí sangue e água. » João, XIX, 34. Em todo caso, em suas Epístolas, é bem o docetismo que ele combate. « Todo espírito, diz ele, que confessa Jesus Cristo vindo em carne é de Deus; e todo espírito que não confessa esse Jesus não é de Deus: é o do Anticristo. » I João, IV, 3. « Muitos sedutores apareceram no mundo; não confessam Jesus como Cristo vindo em carne: esse é o sedutor e o Anticristo. » II João, 7. Essas alusões eram claras para os destinatários dessas cartas e designavam suficientemente, sem que pudessem enganar-se, os mestres de erro que professavam tais doutrinas. Elas explicam este início, que seria tão estranho sem isso: « O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com nossos olhos, o que contemplamos e o que nossas mãos tocaram do Verbo da vida... » I João, I, 1. Outros traços ainda, e não menos significativos, fazem pensar em docetas que se recusam a crer que Jesus seja o Filho de Deus e o Cristo, e que esse Jesus, verdadeiramente Cristo, tenha derramado seu sangue.
« Aquele que confessar que Jesus é o Filho de Deus, Deus permanece nele. » I João, iv, 15. « Todo aquele que crê que Jesus é o Cristo nasceu de Deus. » I João, v, 1. « É esse mesmo Jesus Cristo que veio pela água e pelo sangue, não somente com a água, mas com a água e com o sangue. » I João, v, 6. Quem eram esses docetas? Sem dúvida os que, como Cerinto, distinguiam o Cristo de Jesus, mas também outros ainda, pois o acento do apóstolo recai com energia sobre a carne real de Jesus Cristo; mas nada diz, embora isso pareça bastante verossímil, que fossem judeu-gnósticos como os que são Paulo havia combatido. Cf. A. Wurm, Die Irrlehrer im ersten Johannesbrief, Friburgo em Brisgóvia, 1903, p. 1-84.
III. O DOCETISMO COMBATIDO POR SANTO INÁCIO. — No começo do século II, por volta de 107, santo Inácio de Antioquia, conduzido a Roma para ali ser martirizado, passa por Éfeso, onde recebe delegações das Igrejas vizinhas. Chegado a Troas, ele faz questão, antes de deixar a terra da Ásia, de agradecer por carta a seus visitantes e a seu anfitrião, são Policarpo. Ora, em quatro dessas epístolas, ele mescla à expressão de seus sentimentos de gratidão alguns conselhos apropriados às necessidades de seus destinatários. Estes, com efeito, nessa província da Ásia, encontravam-se às voltas com hereges muito agitados e perigosos, que buscavam implantar sua doutrina em detrimento da fé. Há aí, sem dúvida alguma, falsos doutores de tendências judaizantes, visto que santo Inácio adverte seus leitores contra « o velho fermento » e declara que crer em Jesus Cristo e viver como judeus é perder todo direito à graça; pois os próprios que foram educados no judaísmo — alusão aos apóstolos e aos discípulos — puseram de lado o sábado judaico para adotar a liberdade, a espiritualidade, o domingo. Mas há também de tendências gnósticas; e tudo leva a crer que são os mesmos, isto é, judeu-gnósticos, e que se trata de um único e mesmo erro, como em são Paulo, o gnosticismo judaizante ou o judaísmo gnóstico. Pois, embora, em suas cartas aos Tralianos e aos Esmirniotas, ele vise sobretudo os gnósticos, e naquelas aos Magnésios e aos Filadelfienses os judaizantes, ele emprega, contudo, a respeito de uns e de outros, os mesmos termos gerais; além disso, nas duas últimas, acrescenta alguns traços característicos que permitem concluir, sem inverossimilhança, por um único e mesmo erro judeu-gnóstico. Seja como for dessa dupla tendência, há aí um cunho de docetismo claramente acusado, e é particularmente o docetismo que santo Inácio ataca. Substituía-se, com efeito, o Cristo por um puro fantasma; todos os detalhes de sua vida, seu nascimento, seu batismo, sua tentação, seu julgamento, sua paixão, sua crucificação, sua ressurreição passavam por outras tantas coisas irreais e simplesmente aparentes. O perigo era grande e devia lembrar ao bispo mártir aquele que a gnose fazia correr à sua cidade de Antioquia. Ele destaca, por conseguinte, a maior parte das circunstâncias da vida de Jesus e, cada vez, acompanha-as do advérbio ἀληθῶς, aplicado ao nascimento, à alimentação, à carne e ao sangue, à morte do Salvador. Insiste mais particularmente sobre este fato: que, depois de sua ressurreição, o Cristo convidou seus discípulos a bem se convencerem, tocando-o, de que ele não era um espírito sem ossos nem carne. Ad Smyr., III, Funk, Oper. Patr. apost., Tubinga, 1881, p. 236. Esta passagem alude a esta outra de são Lucas, que vinha bem a propósito e que reaparecerá nas refutações do docetismo: « Vede minhas mãos e meus pés; sou eu mesmo. Tocai-me e considerai que um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que eu tenho. » Lucas, xxiv, 39. « Fechai o ouvido, diz santo Inácio aos Tralianos, se vos falarem sem Jesus Cristo, que, da estirpe de Davi, de Maria, verdadeiramente nasceu, comeu e bebeu, verdadeiramente sofreu perseguição sob Pôncio Pilatos, verdadeiramente foi crucificado e morreu. » Ad Trall., IX, 1, p. 208. Ele quer que os Magnésios estejam plenamente seguros « do nascimento, da paixão e da ressurreição, ocorridas sob Pôncio Pilatos e verdadeiramente cumpridas por Cristo. » Ad Magn., XI, p. 200. « Jesus Cristo verdadeiramente nasceu da estirpe de Davi segundo a carne,... verdadeiramente feito de uma Virgem,... verdadeiramente crucificado por nós em sua carne. » Ad Smyr., I, p. 234. A essas afirmações reiteradas e tão claras, santo Inácio acrescenta um argumento, que será retomado na sequência. «Se Cristo sofreu em aparência, diz ele, os próprios hereges são apenas uma aparência; por que, então, estou carregado de correntes e desejo lutar contra as feras?» Ad Trall., X, p. 208. Cristo «sofreu verdadeiramente, e não em aparência, como pretendem esses infiéis, pura aparência eles mesmos.» Ad Smyr., II, p. 236. «Se tudo o que Cristo Jesus fez não foi senão em aparência, também eu não estou acorrentado senão em aparência. Por que, então, me entreguei à morte, ao fogo, à espada, às feras?» Ad Smyr., IV, 2, p. 238. Cf. Lightfoot, The apostolic Fathers, Londres, 1881, part. II, t. I, p. 359-368. Os soldados que arrastavam o heroico bispo, os ferros de que estava carregado, a morte sangrenta que desejava e que ia sofrer em Roma, eram realidades; a Encarnação, o nascimento humano, a vida, a morte e a ressurreição de Cristo o eram igualmente.
IV. O DOCETISMO ENTRE OS PRINCIPAIS GNÓSTICOS. — Resta ver como os principais chefes da gnose entenderam o docetismo. Saímos aqui das generalidades para expor detalhes precisos, cujo conhecimento devemos aos Padres da Igreja ou aos escritores católicos que combateram o erro docético.
1° Simão o Mago. — O primeiro em data é o samaritano Simão de Gitton. Segundo ele, a redenção consistia em libertar o elemento espiritual, o éon divino, , da escravidão em que o retinham os anjos criadores, e em subtrair os homens a essa mesma escravidão. Para esse fim veio o Salvador, que não é outro senão o próprio Simão. S. Irineu, Cont. hær., I, xxIII, 3, P. G., t. VII, col. 672. Ora, Simão se manifestou como Pai aos samaritanos, como Filho aos judeus e como Espírito Santo aos gentios. Para realizar a obra redentora, ele desceu, portanto, conforme o haviam predito os profetas, e apareceu aos homens como um deles, embora na realidade não fosse homem; pareceu sofrer na Judeia, embora não tivesse sofrido. Philosophoumena, VI, 1, 19, p. 264-265. Isso não é senão uma parte mínima do sistema de Simão, cujo quadro abrangia todas as questões sobre Deus, a origem do mundo, a salvação etc., numa amálgama disparatada de ideias tomadas de empréstimo à filosofia e de citações escriturísticas, em que o alegorismo e a fantasia desempenhavam o papel principal. Mas, por um lado, isso bastava para oferecer aos amantes da livre especulação um caminho amplamente aberto; e, por outro, as conclusões práticas que daí se desprendiam bastavam para seduzir os espíritos desviados e as naturezas baixas, pois o sistema redundava na libertação dos instintos, na legitimação de toda relação sexual, e garantia, por acréscimo, a salvação a quem quer que desse fé em Simão e em sua companheira, Helena, mulher de má vida. Por mais extravagante e grosseiro que fosse tal sistema, ele nem por isso deixou de fornecer um quadro e um método para os gnósticos seguintes; o docetismo que dele fazia parte não foi deixado de lado, mas cada um o entendeu à sua maneira.
2° Saturnino. — Saturnino era de Antioquia; foi discípulo de Menandro, que tivera Simão por mestre. Sem pretender-se enviado de Deus e Deus ele mesmo, a exemplo do mago da Samaria, Saturnino ensina que o Salvador não nasceu como relatam os Evangelhos, que era sem corpo, sem forma e sem figura, e que só tinha do homem a aparência. S. Irineu, Cont. hær., I, xxiv, 1, 2, P. G., t. VII, col. 674; Philosoph., VII, 11, 28, p. 368.
3° Basílides. — Outro discípulo de Menandro, Basílides, encontrou o meio, admitindo embora a encarnação, de reduzir a redenção a um jogo de mãos. É assim, pelo menos, que santo Irineu nos apresenta o seu sistema. O Filho mostrou-se como homem, desceu à terra e ali operou milagres, mas não sofreu de modo algum; pois era o νοῦς do Pai sem nascimento, uma potência incorpórea, capaz de se transformar ao sabor de seus desejos. Assim, no momento da paixão, substituiu-se-lhe Simão de Cirene, de quem tomou os traços e ao qual emprestou os seus. Foi, pois, esse Simão que carregou a cruz e que foi crucificado pelos judeus, os quais criam crucificar Jesus. Jesus, ao contrário, sob a figura de Simão, assistiu à crucificação, de pé diante da cruz e escarnecendo dos algozes; inapreensível e invisível a todos os olhos, escapou ao suplício e subiu de volta para aquele que o havia enviado. Cont. hær., I, xxiv, 4, P. G., t. VII, col. 676. Bem diferente é a versão dos Philosophoumena: Jesus era verdadeiramente filho de Maria; nele desceu a luz que brilhara sobre o filho da hebdômada, e essa luz o iluminou e o encheu de seus fogos. Philosoph., VII, 1, 26, p. 362. Ele viveu e morreu como o narram os Evangelhos, ibid., 27, p. 363; sofreu na parte corpórea de seu ser. Ibid., p. 366. É, pois, Jesus somente, um homem como os demais, que suportou as dores da paixão, e não a luz ou o elemento divino que nele havia descido. Apesar da diferença das explicações, o resultado é o mesmo: há de fato uma vítima — a de Simão, segundo santo Irineu, mas Simão só tem a aparência de Jesus; a de Jesus, segundo os Philosophoumena, mas Jesus unicamente enquanto homem, e de modo algum o ser divino que nele estava.
4° Valentim. — Depois de ter ensinado no Egito, Valentim transportou-se para Roma, onde se encontrou ao mesmo tempo que Marcião, por volta de meados do segundo século. O seu docetismo, tanto quanto se pode julgar pelo de seus discípulos, parece ter sido mais artificial que os precedentes. O redentor é, de fato, Jesus, mas Jesus nada deve diretamente ao pleroma. Ele é formado em parte pela Acâmot, o aborto ou sofia exterior, que lhe comunicou algo do mundo da ogdóade, e em parte pelo demiurgo, o deus néscio da hebdômada, o criador das essências psíquicas, segundo estas palavras: «O Espírito Santo virá sobre ti e a virtude do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra;» pois o Espírito Santo é a sofia exterior, e o Altíssimo é o demiurgo. O seu corpo nada deve a Maria, pois ele nasceu, não de Maria, mas por Maria, não lhe tendo a Virgem comunicado nada de sua substância e não tendo sido para ele senão um lugar de passagem. διὰ Μαρίας καθάπερ ὕδωρ διὰ σωλῆνος. S. Irineu, Cont. hær., I, VII, 2, P. G., t. VII, col. 513. Daí esta fórmula muito clara de Marino, no diálogo De recta fide, IV, P. G., t. XI, col. 1844: διὰ Μαρίας ἀλλ’ οὐκ ἐκ Μαρίας. Assim nascido por Maria, esse Jesus veio para corrigir as coisas do mundo terrestre e emendar as faltas da alma. Philosoph., VI, II, 36, p. 298. Mas de que maneira? Nenhuma informação nos é fornecida sobre o modo da redenção; quando muito, por analogia, pode-se supor que esse modo se assemelhou ao que é descrito para a salvação do pleroma e para a salvação do mundo intermediário, isto é, que a salvação se operou aqui embaixo pela iluminação da ciência ou pela comunicação da gnose. Nada, pois, que lembre a redenção pela morte sangrenta da cruz.
Que homens são salvos? Isso depende da categoria a que pertencem; pois, segundo os valentinianos, há os hílicos, aqueles em quem domina o elemento material, obra do diabo, os psíquicos, aqueles em quem domina uma alma animal, obra do demiurgo, e os pneumáticos, aqueles em quem domina o elemento espiritual. Ora, os hílicos são fatalmente condenados, por mais bem que façam, por causa de sua natureza má; os pneumáticos são fatalmente salvos, seja qual for a falta que cometam, em razão de sua natureza espiritual; quanto aos psíquicos, podem perder-se ou salvar-se na medida em que recusam ou aceitam deixar-se esclarecer e guiar pela gnose; é sem dúvida junto a estes últimos que o salvador Jesus pode ser de alguma utilidade, não por sua morte, mas pela gnose. S. Irineu, Cont. hær., I, VI, 2, P. G., t. VII, col. 505.
Professava Valentim, então, o docetismo? Admitia ele a historicidade dos relatos evangélicos sobre a paixão e sobre a morte? Nada no-lo ensina. Contudo, o que escrevia a Agatópode, Clemente de Alexandria, Strom., III, 7, P. G., t. VIII, col. 1161, permite crer que ele era docético em certa medida, tal como a maioria dos outros chefes gnósticos; pois, diz ele, «Jesus, sendo continente, adquiriu a divindade; comia e bebia de maneira especial, sem devolver os alimentos.» Em todo caso, seus partidários da escola italiana professavam o docetismo. Os da escola oriental, entre os quais se contavam Axiônico, Bardesanes e Teodoto, pretendiam que Jesus tivera um corpo pneumático ou espiritual, ao passo que os da escola italiana, Heracleão e Ptolomeu entre outros, sustentavam que ele tivera apenas um corpo psíquico; foi nesse ponto que divergiram. Philosoph., VI, II, 35, p. 296. Segundo estes últimos, Jesus tinha de Acâmot sua essência pneumática, do demiurgo sua essência psíquica, e da economia divina a arte inenarrável com que tudo fora preparado para que se tornasse visível, palpável e sensível. Cont. hær., I, VI, 1, P. G., t. VII, col. 505. No dia do batismo, recebeu em si o Cristo, salvador do mundo superior, e esse Cristo, por sua natureza, era impassível. Assim, quando Jesus foi conduzido diante de Pilatos, o Cristo o abandonou, e Jesus ficou só a padecer. Cont. hær., I, VII, 2, col. 516. Nessas condições, observa santo Irineu, a redenção era puramente ilusória; pois, se o nosso Salvador não tomou o seu corpo de carne no seio da Virgem, não foi o homem real e verdadeiro de quem os Evangelhos contam que sofreu fome e sede, que chorou no túmulo de Lázaro, que suou um suor de sangue e que deixou correr de seu lado aberto sangue e água. Cont. hær., V, II, 2, col. 1128.
5° Marcião. — Esse «lobo», como o chama Tertuliano, nascera em Sinope, no Ponto, e fora cristão. Acorrido a Roma, onde encontrou Cerdão e Valentim, deixou-se seduzir pelo sistema deles e ultrapassou a ambos. Graças a rigorosas práticas de ascetismo, exerceu uma influência preponderante e contou partidários até o século V, pois Teodoreto declara ter encontrado dez mil marcionitas na diocese de Ciro.
Por reação contra os judeus e o judaísmo, ele estabeleceu como tese que o Evangelho e o Novo Testamento, únicos instrumentos de salvação, não têm analogia nem vínculo, ou antes estão em contradição completa com a Lei e o Antigo Testamento. Para ele, Jesus é a manifestação, não do Deus dos judeus, ser inferior, justo mais do que bom, mas do Deus supremo e bom por essência, sem relação possível com a matéria, que é obra do demiurgo, e único Salvador de tudo o que o Deus dos judeus detinha ou molestava indevidamente. Ora, o Cristo Jesus, em quem o Deus supremo e bom se manifestou pela primeira vez, é igualmente estranho a este mundo material e sensível; não tem ascendência nem genealogia humana; aparece subitamente no décimo quinto ano do reinado de Tibério, sem que a sua vinda tivesse sido preparada ou anunciada de nenhuma forma, Philosoph., VII, 11, 31, p. 383; Adv. Marcion., IV, 7, P. L., t. II, col. 369; não tem corpo de carne e sangue e, portanto, não pôde nascer de uma Virgem nem conviver com os homens como um deles. Sua vida e sua morte não foram senão puras aparências. Desceu aos infernos para ali chamar os justos; mas Abraão, Jacó, Davi e os demais, crendo reconhecer nele o Jeová que os havia enganado, abstiveram-se de responder ao seu chamado; em contrapartida, todos os malditos do Antigo Testamento se puseram a segui-lo e o acompanharam ao céu.
O docetismo de Marcião difere, como se vê, do dos gnósticos precedentes. Estes atacavam sobretudo a paixão e a morte, às quais negavam toda realidade objetiva, e admitiam um verdadeiro nascimento humano, como Basílides, ou uma aparência de nascimento, como Valentim. Marcião, ao contrário, suprime todo nascimento humano para o Salvador tal como o entende, pois não quer que ele tenha dependido em nada do demiurgo ou Deus dos judeus. Em consequência, ele suprime do único Evangelho que conservou, o de são Lucas, a genealogia e tudo o que se refere ao nascimento e à infância de Jesus.
Para ele, Jesus não teve mãe segundo a carne, visto que, quando lhe disseram: «Vossa mãe e vossos irmãos estão aí fora e pedem para vos ver,» ele respondeu: «Quem é minha mãe? e quem são meus irmãos? Não outros senão aqueles que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática;» visto também que, quando uma mulher exclamou: «Bem-aventurado o ventre que vos trouxe e os seios que vos amamentaram,» ele replicou: «Muito mais bem-aventurados os que ouvem a palavra de Deus e a observam;» visto, enfim, que depois de sua ressurreição o que disse a seus discípulos manifesta que ele não era senão um espírito: «Um espírito não tem carne nem ossos, e vós vedes que eu os tenho como os têm os espíritos.» Tertuliano nos dirá o que se deve pensar desses procedimentos de exegese e dessas pretensões injustificáveis.
6° Manes e os maniqueus. — Muito depois dos gnósticos de que acaba de tratar-se, na segunda metade do terceiro século, surgiu no Oriente o maniqueísmo. Manes e seus discípulos procuraram conciliar o cristianismo com seu dogma fundamental da existência de dois princípios em luta um contra o outro, o princípio do bem ou a luz e o princípio do mal ou as trevas. Julgaram encontrar na Escritura a justificação de sua tentativa e apenas conseguiram fazer numerosos enganados. Segundo eles, o Cristo, enviado pelo Pai, não foi de modo algum o que dizem os Evangelhos, a saber, um homem nascido da Virgem, passível e mortal, realmente crucificado, pois assim estaria sob a dependência do princípio mau, que viera combater. Tudo, portanto, em sua vida e em sua morte, não foi senão pura aparência. Entre tantos outros erros, e dos mais graves, professados pelos maniqueus, o docetismo teve de ser objeto de refutação especial; pois, a pretexto de emendar o cristianismo dobrando-o ao seu sistema, os maniqueus o desfiguravam e o aniquilavam; atribuíam ao Salvador uma natureza e um papel em contradição absoluta com o texto formal dos Evangelhos. E é por isso que os defensores da fé insistiram contra eles, com tanta razão, sobre a realidade da encarnação, do nascimento e da morte sangrenta de Cristo, assinalando todos os detalhes relatados pelos evangelistas, que só se podem explicar sob a única condição de que Jesus tenha verdadeiramente tomado e possuído a natureza humana sem deixar de ser Deus.
V. REFUTAÇÕES DE QUE O DOCETISMO FOI OBJETO. — Não tendo o docetismo formado um erro à parte, mas achando-se misturado a outros erros nos diversos sistemas em que encontrou lugar, não foi objeto de uma refutação especial por parte dos heresiólogos ou dos Padres da Igreja. Foi apenas por ocasião dos próprios sistemas que ele foi assinalado, refutado e condenado. Como seria demasiado longo levantar todas as passagens em que dele se trata, limitar-nos-emos a recordar a maneira como foi combatido por santo Irineu, Tertuliano e santo Agostinho; por santo Irineu contra os gnósticos em geral, por Tertuliano contra os marcionitas e por santo Agostinho contra os maniqueus.
1° Santo Irineu refuta o docetismo dos gnósticos. — No livro III de sua grande obra contra as heresias, ele corta cerce a sutil distinção que pretendia ver dois personagens no Salvador, Jesus e o Cristo: não, Jesus e o Cristo não fazem e não são senão um único e mesmo personagem, o Filho de Deus encarnado, Cont. her., III, xvi, xvii, P. G., t. VII, col. 919 sq., 932 sq.; não é o Cristo que desceu sobre Jesus no batismo, mas o Espírito Santo, I, xvii, col. 929 sq. Ora, acrescenta ele, Jesus Cristo é, de fato, da raça de Davi enquanto homem; não nasceu de José, III, xix, col. 938 sq., mas da Virgem Maria, segundo a profecia de Isaías: «Eis que uma Virgem conceberá.» Is., VII, 14, Teodocião, Áquila, os ebionitas e os judeus traduzem de maneira fantasiosa: «Eis que uma jovem mulher conceberá e dará à luz.» Onde estaria então o sinal extraordinário dado ao profeta, pois é bem natural que uma mulher conceba e dê à luz. Os Setenta, que não se podia suspeitar de ter querido favorecer os cristãos, visto que a sua tradução é muito anterior à era cristã, puseram uma virgem e não uma mulher, III, xxi, xxii, col. 945 sq., 955. Jesus é verdadeiramente homem e tem uma carne tirada de Adão como a nossa, II, xxii, col. 955. Ele sofreu verdadeiramente, e nos salvou derramando o seu sangue e morrendo por nós, III, xvii, col. 932 sq. Não há, portanto, nada, nem no seu nascimento e na sua vida humana, nem na sua morte, que tenha ares de aparência. Como podem então os gnósticos discutir, quando magister eorum putativus fuit? Aut quemadmodum firmum quid habere possunt ab eo, si putativus et non veritas erat? Quomodo autem ipsi salutem vere participare possunt, si ille, in quem credere se dicunt, semetipsum putativum ostendebat? E conclui santo Irineu: Putativum est igitur, et non veritas, omne apud eos. Cont. her., IV, xxx, 5, col. 1075.
Mas, como certos gnósticos, embora professando o docetismo, criam na presença real de Jesus na eucaristia e celebravam a ceia à maneira dos cristãos, o bispo de Lião aproveita para um argumento ad hominem: «Como poderão estar seguros de que o pão da ação de graças é o corpo de Nosso Senhor, e que o cálice é o seu sangue, se não o reconhecem como Filho do criador? E como dizem que a carne que se nutre do corpo e do sangue do Senhor está sujeita à corrupção e não recebe a vida? Que mudem de opinião ou que deixem de oferecer.» Cont. her., IV, xviii, 4, col. 1027.
Acrescenta mais adiante: Quomodo autem juste Dominus, si alterius Patris exstitit, hujus conditionis, quæ est secundum nos, accipiens panem, suum corpus esse confitebatur, et temperamentum calicis suum sanguinem confirmavit? Et quare se Filium hominis confitebatur, si non eam, quæ ex homine est, generationem sustinuisset? Cont. her., IV, xxx, 2, col. 1073.
Volta a isso ainda no último livro: Jesus Cristo nos resgatou verdadeiramente pelo seu sangue, é por isso que tomou uma carne da mesma natureza que a nossa no seio da Virgem. Pois, se não nos resgatou pelo seu sangue, segue-se que o cálice da ação de graças não é a participação do seu corpo; pois o sangue não existe sem as veias nem sem a carne e sem as outras partes que constituem a substância do homem. Se, pois, o Cristo só tomou essa substância em aparência, e se a carne e o sangue dados como preço de nossa redenção não foram senão pura aparência, como pode ele dar-nos essa mesma carne e esse mesmo sangue na eucaristia? Cont. her., V, ii, 2, 3, col. 1124-1127.
2° Tertuliano refuta o docetismo de Marcião. — A respeito dos valentinianos, contra os quais compôs um tratado especial, Tertuliano nada nos ensina que já não saibamos. Como santo Irineu, é aos da escola italiana que ele se dirige; resume as suas opiniões: PER virginem, non EX virgine, quia delatus in virginem transmeatorio potius quam generatorio modo processerit; PER ipsam, non EX ipsa; non MATREM eam, sed VIAM passus, dizem eles de Jesus; e acrescentam que o Cristo desceu sobre ele no batismo sob a forma de pomba e só permaneceu com ele até antes da paixão. Adv. valent., xxvii, P. L., t. II, col. 581-582.
Tertuliano de modo algum se deixa enganar pela explicação arbitrária que dão da encarnação, em contradição tão manifesta com os textos da Escritura, nem pela sua distinção fantasiosa entre Jesus e o Cristo. Para ele, como para santo Irineu, Jesus não se distingue do Cristo; o Cristo é o próprio Jesus. Por isso dá a uma de suas obras não o título De carne Jesu, mas o bem significativo De carne Christi. A seus olhos, esses gnósticos não passam de cristãos fictícios: Omnia in imagines urgent, plane et ipsi imaginarii christiani. Adv. valent., xxvii, P. L., t. II, col. 582.
Quanto a Marcião, combate-o em seu próprio terreno, com o auxílio do Evangelho tal como aprouve a esse herege conservá-lo; pois ele basta amplamente para refutar o seu docetismo, apesar das amputações que lhe fez sofrer e das interpretações mentirosas que dele deu. Afasta primeiro a objeção que Marcião tirava da aparição dos anjos sob forma humana a Abraão. Isso não era, pretendia Marcião, senão a aparência de um corpo de homem, sem realidade como sem nascimento; ou então, se os anjos tiveram realmente um corpo humano, esse corpo deveria necessariamente ter nascido da carne. De modo algum, replica Tertuliano; o corpo deles foi um verdadeiro corpo de homem por causa da veracidade de Deus, que é estranho à mentira e ao engano, e também por causa das relações que deviam ter com os homens, mas foi um corpo de carne sem nascimento.
Por quê? Porque só o Cristo devia nascer da carne e fazer-se carne, a fim de reformar o nosso nascimento pelo seu nascimento e de destruir assim a nossa morte pela sua morte, resurgendo in carne, in qua natus est ut et mori posset. Ideoque et ipse cum angelis tunc apud Abraham in veritate quidem carnis apparuit, SED NONDUM NATA, QUIA NONDUM MORITURA. Adv. Marcion., III, ix, P. L., t. II, col. 333-334.
Marcião, aliás, só imaginara o docetismo para subtrair o Salvador à ação do criador, que distinguia arbitrariamente do Deus supremo. Mas Tertuliano prova longamente que o criador e o Deus supremo, longe de serem distintos, não são senão um único e mesmo Deus. Marcião alegava as duas passagens de são Lucas, assinaladas mais acima, Luc., VIII, 21; XI, 27, para provar que Jesus não tivera mãe segundo a carne. Interpretação errônea, replica Tertuliano, pois a própria maneira como Jesus fala implica que tinha mãe. Si ergo matrem et fratres fecit qui non erant, quomodo negavit eos qui erant?... Ex hoc magis matrem et fratres confitebatur, quod illos nolebat agnoscere; quod alios adoptabat, confirmabat quos ex offensa negavit, quibus non ut veriores substituit, sed ut digniores. Adv. Marcion., IV, xix, P. L., t. II, col. 405-406; cf. De carne Christi, VII, col. 769.
E na sua resposta à mulher que exclamara: «Bem-aventurado o ventre que vos trouxe,» Jesus não nega mais que tivesse tido mãe segundo a carne do que o havia negado na passagem anterior: Rursus proinde felicitatem ab utero et uberibus matris suæ transtulit in discipulas; A QUA NON TRANSTULISSET, SI EAM NON HABERET. Ibid., IV, xxvi, col. 427.
A propósito da passagem do Evangelho em que se diz que Jesus desejou com grande desejo comer a páscoa com seus discípulos, Tertuliano faz este argumento ad hominem: Acceptum panem, et distributum discipulis, corpus illum suum fecit «hoc est corpus meum» dicendo, id est figura corporis sui. Figura autem non fuisset, NISI VERITATIS ESSET CORPUS. Ibid., IV, xl, col. 460. Do ponto de vista dogmático, tal fórmula pode deixar a desejar, mas mostra claramente o pensamento do doutor africano, que é que o Cristo não teria podido fazer o que fez na última ceia se não tivesse tido um corpo verdadeiramente humano. Abordando em seguida a questão da morte de Cristo, Tertuliano reúne todos os detalhes que provam manifestamente a realidade dessa morte. Daí este dilema: se em tudo isso não há senão uma aparência ou um fantasma, é porque o Cristo ali estava; ou, se o Cristo ali não estava, foi ele mesmo quem retirou o fantasma. Não resta, pois, à ímpia heresia senão sustentar que ali só restava o fantasma de um fantasma. Ibid., IV, xlii, col. 465. Resta a ressurreição, cujas circunstâncias, assinaladas por Tertuliano, proclamam a realidade. De corporis autem veritate, quid potest clarius? pergunta ele. Os discípulos hesitam, crendo ter diante de si um fantasma, e o Cristo lhes diz: «Vede as minhas mãos e os meus pés; sou eu mesmo. Tocai-me e considerai que um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que eu tenho.» Luc., XXIV, 39. Mas, segundo o seu costume, Marcião torturou este texto para lhe fazer dizer outra coisa bem diferente. Quæ ratio tortuositatis istius? Por que, então, se não tinha ossos, oferece o Cristo os seus pés e as suas mãos, membros que compreendem ossos? E por que acrescenta: «Sou eu mesmo,» isto é, aquele que sabiam ter tido um corpo real? Ou, se nunca fora senão um fantasma, por que os repreende agora por olhá-lo como um fantasma? E por que, ante as suas hesitações, lhes pede alimentos? Ibid., IV, xliii, col. 466-468. Tertuliano tem razão de concluir a sua investigação e a sua refutação minuciosa com estas palavras: Marcion, frustra laborasti, Christus enim in Evangelio tuo, meus est. Ibid., col. 468.
No seu tratado De carne Christi, Tertuliano, contra o docetismo dos valentinianos e dos marcionitas, trata da realidade da carne de Cristo: an fuerit et unde, et cujusmodi. Os mesmos argumentos a respeito do corpo dos anjos, que, não tendo vindo para morrer, não tinham de nascer como o Cristo. De carne Christi, VI, P. L., t. II, col. 764. As mesmas explicações das passagens escriturísticas de que se prevaleciam. Ibid., VII, col. 769. Em seguida passa em revista as diferentes explicações que se davam do corpo de Cristo: uns diziam-no celeste; mas, então, que significam a fome, a sede, as lágrimas, o sangue de que se trata? Outros pretendiam que Jesus tinha uma carne da natureza da alma; é um erro, pois ele tomou uma alma humana, não fazendo-a carne, mas revestindo-a de carne. Ibid., XI, col. 774. Outros ainda criam que o seu corpo era da natureza dos anjos; erro novo, pois o Cristo não tomou a natureza angélica, mas a natureza humana; fez-se homem para resgatar o homem, homo perierat, hominem restitui oportuerat. Ibid., XIV, col. 777. Valentim atribuía-lhe uma carne espiritual, mas o texto de Isaías de modo algum se justifica pela fórmula «tortuosa» que ele propõe: PER Mariam, mas por esta: EX Maria. Ibid., XX, col. 785.
3° Santo Agostinho combate o docetismo dos maniqueus. — Segundo a teoria de que a matéria pertence ao princípio do mal, os maniqueus, tal como a maioria dos gnósticos, não admitiam que o Cristo pudesse ter relação de nenhuma espécie com a matéria, mesmo com a carne humana. O Salvador não pudera, portanto, nem encarnar-se, nem nascer à maneira dos homens, nem sofrer e morrer realmente. Sendo sem nascimento humano e não tendo corpo, a sua paixão, a sua morte e a sua ressurreição só podiam ser uma aparência ilusória. Nec fuisse in carne vere, sed simulatam speciem carnis ludificandis humanis sensibus prebuisse, uti non solum mortem verum etiam resurrectionem similiter mentiretur. Her., XLVI, P. L., t. XLII, col. 37-38. Tal é o docetismo professado pelos maniqueus.
Fausto, um dos seus doutores, contemporâneo de santo Agostinho, procurava apoiá-lo na Escritura e mostrar que os católicos se enganavam. O bispo de Hipona, seguindo passo a passo o tratado de Fausto, prova que ele pratica uma exegese de fantasia e que atribui aos católicos sentimentos que não são os seus. Antes de tudo, observa santo Agostinho, pretender que o Cristo desceu do mundo da luz para combater o mundo das trevas é uma fábula; pois o Cristo é ao mesmo tempo verus et verax Filius Dei, verus et verax filius hominis, de viro homine carnis originem duxit. Cont. Faust., II, IV, P. L., t. XLII, col. 214. O Cristo não tomou carne, sustentava Fausto, pois as genealogias são obra estranha ao Evangelho, ibid., II, I, col. 209, e além disso se contradizem entre si. Ibid., III, I, col. 213.
Não, responde santo Agostinho; as genealogias fazem, ao contrário, parte integrante do Evangelho, e nada autoriza a suprimi-las. Quanto às contradições que se pretende nelas ver, são mais aparentes do que reais. Mas, diz Fausto, o Cristo nunca afirmou que tivesse nascido, que tivesse tido pai ou ascendentes terrestres, ibid., VII, I, col. 237; ensinou, ao contrário, que não é deste mundo, que desceu do céu, que não tem por mãe e por irmãos senão os que fazem a vontade de seu Pai celeste. E é por esse motivo principal que Fausto rejeita as genealogias.
Há aí um equívoco, observa santo Agostinho; e ele o dissipa por esta distinção capital: sim, quanto à divindade, o Cristo não tem ascendência humana; mas tem-na quanto à sua humanidade. Ele é ao mesmo tempo o filho de Deus e o filho de Maria, mas não sob o mesmo aspecto. É filho de Deus de toda a eternidade; é filho de Maria no tempo; filho de Deus enquanto Deus, filho de Maria enquanto homem, pois foi no seio da Virgem que tomou a natureza humana. O apóstolo o dá a entender bastante claramente, quando diz: Misit Deus Filium suum, factum ex muliere, factum sub lege. Gal., IV, 4. São Paulo bem disse, insiste Fausto, que o Cristo nasceu segundo a carne da semente de Davi, mas reconheceu o seu erro e o corrigiu nestes termos: «De agora em diante não conhecemos mais ninguém segundo a carne, e se conhecemos o Cristo segundo a carne, agora já não o conhecemos dessa maneira.» II Cor., V, 16. Pura chicana, replica santo Agostinho, e contradição inexistente. Pois, se a Escritura apresentasse uma contradição, aut codex mendosus est, aut interpres erravit, aut tu non intelligis. Ibid., XI, V, col. 249. Ora, no caso presente, não há erro nem no texto nem no intérprete: os manuscritos estão aí, e a interpretação que se dá é conhecida. Dos três meios de solução, resta unicamente o último: Fausto não compreendeu. Pois é certo que são Paulo, por diversas vezes e de diferentes maneiras, falou do nascimento humano de Cristo; este é um ponto adquirido e fora de contestação. Ele parece dizer o contrário em sua Epístola aos Coríntios, mas não é nada disso, porque ele fala de coisa bem diversa do seu nascimento humano; fala do Cristo ressuscitado, do estado de seu corpo a partir desse momento; e o que o apóstolo quer dizer é que a ressurreição introduziu na natureza de seu corpo uma mudança característica, a saber, que ele não está mais sujeito, como antes, à corrupção, à paixão e à morte, mas que é doravante incorruptível, impassível e imortal; desde então sua linguagem se explica e se justifica, longe de contradizer em nada a realidade anterior do nascimento de Cristo segundo a carne. Se Cristo não nasceu, como pôde padecer? A essa objeção respondo, dizia Fausto, que isso é perfeitamente possível; pois é sabido que Elias, que foi apenas um homem, não morreu contudo. Do mesmo modo Cristo, embora não tendo nascido, pôde padecer. Ibid., XXVI, I, col. 479. Sim, replica santo Agostinho, Cristo, como Adão, poderia ter tido um corpo diretamente formado por Deus; poderia também ter tomado elementos alheios e convertido-os em seu corpo humano; poderia tê-lo criado ex nihilo; mas não é essa a questão. Não se trata de saber o que ele poderia ter feito, mas o que fez de fato. Ora, o Evangelho nos ensina que ele nasceu de uma virgem: et vere natus, et vere mortuus quia veritas est Evangelii. Ibid., XXVI, VII, col. 483. Fausto insiste: si natus est ex femina Jesus, ergo et seminatus ex viro est; si vero seminatus ex viro non est, ergo nec natus ex femina est. Ibid., XXVII, I, col. 484. Pura infantilidade, replica santo Agostinho: nam Jesus et nasci potuit non satus, et pati non partus; sed unum horum voluit, alterum noluit. Nasci enim non satus voluit, pati autem non partus noluit, quia partus est passus. Ibid., XXVII, I, col. 486. A esse docetismo relativo à paixão, à morte e à ressurreição de Cristo, que consistia em guardar os termos depois de tê-los esvaziado de seu sentido óbvio, santo Agostinho se contenta em responder que não passa de uma inconsequência; pois era igualmente fácil aos maniqueus sustentar o docetismo relativamente ao nascimento humano de Jesus e reduzi-lo a uma pura aparência; mas não, eles pretendem que não houve nascimento humano algum. Ora, tal pretensão é puro arbítrio. Pode-se disso dar-se conta, a partir desses exemplos de refutação do docetismo tomados a santo Irineu, a Tertuliano e a santo Agostinho: os Padres não negligenciaram nenhum dos aspectos sob os quais esse erro se apresentava, nenhum dos argumentos que se faziam valer em seu favor. Mas o falso ponto de apoio sobre o qual ele se sustentava não era senão a ideia errônea que se fazia da matéria para explicar a origem do mal, sem levar em conta a solução cristã. Esse era o erro fundamental de todos os sistemas maculados de docetismo. Os Padres cuidaram de não o negligenciar; e foi apenas ao refutar os próprios sistemas que tiveram ocasião de refutar o docetismo que neles se achava misturado. Disseram o suficiente para mostrar o perigo que podia trazer à fé cristã uma doutrina tão inconsistente, que pretendia apoiar-se na Escritura e que se abrigava sob um aparato científico dos mais sedutores.
VI. ACUSAÇÕES DE DOCETISMO FEITAS CONTRA CERTOS PADRES. — Certos Padres da Igreja, notadamente Clemente de Alexandria e Orígenes, foram acusados de docetismo. Com razão ou sem ela? É o que convém elucidar em poucas palavras.
1° Foi Clemente de Alexandria docete? — Sim, se dermos crédito a Fócio, Biblioth., CIX, P. G., t. CIII, col. 384, que o acusa formalmente de ter incorrido em docetismo, em certas passagens das Hipotiposes. Estando essa obra do doutor alexandrino perdida, ou ao menos não sendo atualmente conhecida, é impossível controlar e verificar tal acusação. É certo, por outro lado, que Clemente de Alexandria atribuiu ao Salvador um corpo real. Mas, sem precisar sempre de modo nítido o fundo de seu pensamento, ele empregou por vezes, nas obras que dele restam, uma linguagem que poderia prestar-se a equívoco. É assim, por exemplo, que ele diz que seria ridículo crer que o Salvador teve necessidade de sustentar e alimentar seu corpo para mantê-lo em vida. Ele comia, sem dúvida, não por necessidade, mas por causa daqueles com quem vivia, para que não viessem a crer, como se fez em seguida, que ele tinha apenas uma aparência de corpo, que não era senão um puro fantasma. Strom., VI, 9, P. G., t. IX, col. 292. Essa passagem, como demonstra Le Nourry, Dissert., II, c. VI, a. 7, P. G., t. VII, col. 1131-1132, entende-se facilmente. O Salvador tinha um corpo real; podia, sendo Deus, sustentá-lo por sua virtude onipotente, sem recorrer à alimentação ordinária; alimentava-o, contudo, para evitar a seus discípulos o erro de crer que ele tinha apenas um corpo aparente. Clemente de Alexandria não duvida em nada da realidade do nascimento, da vida humana e da morte de Cristo, como resulta de uma passagem subsequente da mesma obra. Strom., VI, 15, col. 352. Para quem quer que, diz ele, não conheça a verdade, toda a economia relativa ao Senhor, predita pelos profetas, parece uma pura parábola. Que o Filho de Deus, que tudo fez, tenha tomado a carne e tenha sido concebido no seio da Virgem, pois sua carne sensível foi engendrada, e consequentemente que tenha padecido e ressuscitado, um o diz, os outros o entendem, é, segundo a palavra do apóstolo, um escândalo para os judeus, uma loucura para os gregos. Mas as Escrituras, falando àqueles que «têm ouvidos», mostram a verdade e proclamam que é virtude e sabedoria de Deus, da parte do Senhor, ter padecido na carne que havia tomado: ⟦grego ilegível⟧. Strom., VI, 9, P. G., t. IX, col. 352. Aliás, por diversas vezes, Clemente afirma a verdade da encarnação: sua fórmula é: δι' ἡμᾶς ἄνθρωπος ἐγένετο. Péd., I, 5; II, 2, P. G., t. VIII, col. 277, 428. Cristo tomou a carne que, por sua natureza, é passível, τὴν σάρκα τὴν ἐμπαθῆ φύσει γενομένην ἀναλαβών. Por amor aos homens, ele não desdenhou a fraqueza da carne humana, mas revestiu-se dela para a salvação comum dos homens, ὅς γε, διὰ τὴν ὑπερβάλλουσαν φιλανθρωπίαν, σαρκὸς ἀνθρωπίνης εὐπάθειαν οὐχ ὑπεριδὼν, ἀλλ' ἐνδυσάμενος. Strom., VII, 2, P. G., t. IX, col. 442. Ele bebeu, não com excesso, mas com moderação; tomou vinho, ele também, pois ele também era homem. Εὖ γὰρ ἴστε μετέλαβεν οἴνου καὶ αὐτός, καὶ γὰρ ἄνθρωπος καὶ αὐτός. Péd., II, 2, P. G., t. VIII, col. 428. Ele salvou o gênero humano por seu verdadeiro sacrifício. Isaac o prefigurou; ele era filho de Abraão como Cristo é Filho de Deus; foi uma hóstia como o Senhor, mas não foi oferecido como o Senhor; carregou a lenha do sacrifício como o Senhor, mas não foi imolado, não padeceu e não foi morto, deixando ao Verbo esse privilégio da paixão; sorriu misticamente para mostrar que o Senhor nos encheria de alegria, pois é pelo sangue do Senhor que fomos resgatados da morte e da corrupção. Ἐγέλα δὲ μυστικῶς, ἐμπλῆσαι ἡμᾶς προφητεύων χαρᾶς τὸν Κύριον τοὺς αἵματι Κυρίου ἐκ φθορᾶς λελυτρωμένους... τὰ πρωτεῖα τοῦ πάθους παραχωρῶν τῷ Λόγῳ. Péd., I, 5, P. G., t. VIII, col. 277. Em outro lugar, Clemente de Alexandria diz que o Verbo é tudo para a criança: pai, mãe, pedagogo e nutridor; pois ele disse: «Comei minha carne, bebei meu sangue.» E eis, acrescenta Clemente, os alimentos convenientes que o Senhor nos oferece, a saber, sua carne e seu sangue. Ταύτας ἡμῖν οἰκείας τροφὰς ὁ Κύριος χορηγεῖ, καὶ σάρκα ὀρέγει, καὶ αἷμα ἐκχεῖ. Péd., I, 6, col. 301. Salvo textos novos, notadamente os das Hipotiposes, que não possuímos mais, essas passagens bastam para mostrar que, no Pedagogo e nos Stromata, Clemente é estranho ao docetismo.
2° Professou Orígenes o docetismo? — Sim, segundo os inimigos do célebre doutor; pois, entre as censuras dirigidas à sua doutrina, encontra-se a acusação de docetismo, que são Pânfilo assinala em quarto lugar, Apol., I, V, P. G., t. XVII, col. 579; mas não, segundo o próprio são Pânfilo, que mostra o infundado de semelhante imputação. Ibid., col. 585-588. Huet, que estudou a questão de perto, pronuncia-se igualmente pela negativa, e não sem razão. Origeniana, L. III, c. II, q. III, n. 11-18, ibid., col. 809-813. Quando se lembram as acusações feitas por Celso contra a impossibilidade da encarnação do Verbo e os sarcasmos que ele se permitiu contra todos os detalhes do nascimento, da vida e da morte do Salvador; quando se sabe a maneira com que Orígenes refutou esse impostor, ver t. II, col. 2095-2096, é difícil imaginar que Orígenes tenha sido o docete que se pretende, pois ele se guardou bem de negar a realidade da encarnação, do nascimento humano e da morte sangrenta de Jesus, e de nela ver apenas uma vã aparência. Ele a afirma, ao contrário, em conformidade com os relatos evangélicos, e mostra a perfeita conveniência da encarnação do Verbo, as razões profundas de seu estado humilhado, de seus sofrimentos e de sua morte. Nada parece mais probante para destruir a falsa acusação de docetismo lançada contra Orígenes. Mas, além de seu tratado contra Celso, suas outras obras encerram passagens características demais para que possa subsistir a menor dúvida. Assinalaremos apenas algumas.
É verdade que, em seu comentário sobre são Mateus, Orígenes lembra uma tradição segundo a qual Jesus se mostrava, ora sob uma forma, ora sob outra, de tal modo que às vezes era difícil reconhecê-lo; ele não a julga incrível, mas se contenta em relatá-la sem garantir-lhe a verdade. In Matth., comment. series, 100, P. G., t. XIII, col. 1750. E é verossimilmente uma das passagens que deu ensejo à acusação de docetismo de que foi objeto da parte de seus inimigos; mas a acusação não passa de uma calúnia. «Que me respondam», diz ele, «os hereges que iludem o nascimento de Cristo como um fantasma: por que ele é chamado filho do homem?» Ele afirma, por sua vez, que foi filho do homem. In Ezech., homil. I, 4, P. G., t. XIII, col. 672. E em outro lugar: Suscipiens naturam carnis humanae, omnes proprietates implevit, ut non in phantasia habuisse carnem existimaretur, sed in veritate. In Matth., comment. series, 92, P. G., t. XIII, col. 1743. Alhures ainda, comentando esta passagem de são Paulo, Rom., VI, 5-6: «Se fomos enxertados nele (Cristo) pela semelhança de sua morte, também o seremos pela de sua ressurreição, sabendo que o nosso velho homem foi crucificado com ele, a fim de que o corpo do pecado fosse destruído, para que não sejamos escravos do pecado», Orígenes lembra que hereges (os docetas), entendendo-a mal, concluíram daí que Cristo não morreu verdadeiramente, mas apenas em aparência. Responder-lhes, diz ele, seria muito fácil para mim, e considero inútil recorrer a outros textos do Apóstolo ou dos Evangelhos, onde se trata simplesmente de sua morte e não de um simulacro de morte, quando posso dizer-lhes: se houve apenas um simulacro de morte e não uma verdadeira ressurreição, também nós não ressuscitaremos senão em aparência e não em realidade, também nós pareceremos morrer para o pecado sem morrer realmente; e, portanto, tudo o que foi feito ou se faz não passa de pura aparência. Não resta então senão concluir que fomos salvos em aparência, e são outras tantas absurdidades. In Rom., V, IX, P. G., t. XIV, col. 1044; cf. Cont. Cels., II, 46, P. G., t. XI, col. 828. Falando do corpo humano de Cristo, esse é, diz ele, o sinal de contradição, pois uns pretendem que ele desceu do céu, outros que teve um corpo semelhante ao nosso. E Orígenes censura estes últimos, In Luc., homil. XVIII, P. G., t. XIII, col. 1844. Deve-se concluir daí que ele julgava que o corpo de Cristo fosse diferente do nosso? Longe disso, pois ele se explicou a esse respeito no início do Περὶ ἀρχῶν, 4, P. G., t. XI, col. 417. Cristo, diz ele, tomou um corpo semelhante ao nosso, mas com esta diferença: que o que nasceu da Virgem é do Espírito Santo. E porque Jesus Cristo nasceu e padeceu em verdade, e porque não sofreu a morte em aparência, ele está verdadeiramente morto e verdadeiramente ressuscitado. Inútil prosseguir a investigação; as passagens que acabamos de ler, das quais algumas visam especialmente o erro doceta, bastam para desculpar Orígenes da acusação de docetismo. A verdade é que ele combateu os gnósticos, tal como Clemente de Alexandria, mantendo a ortodoxia da fé quanto à realidade da encarnação e da redenção, que comportam, para o Filho de Deus, a verdade de um nascimento e de uma vida humanos, de uma paixão e de uma morte sangrentas.
I. FONTES. — S. Irénée, Cont. hær., P. G., t. VII; Philosophoumena, edição Cruice, Paris, 1860, l. VI-VIII, X, 4, 12-16, 19 sq.; Tertuliano, De praescriptionibus, 80; Adv. Marcionem; Adv. valentinianos; De carne Christi; pseudo-Tertuliano, De praescript., 46-53, P. L., t. II, col. 44, 243, 538, 774 sq.; pseudo-Orígenes, De recta in Deum fide, IV, P. G., t. XI; S. Agostinho, De haeresibus; Contra Faustum, P. L., t. XLII; S. Epifânio, Hær., XXI-XXXIII, P. G., t. XLI, col. 286-555; Teodoreto, Hæret. fab., V, XI-XIV, P. G., t. LXXXIII, col. 488 sq.
II. TRABALHOS. — Massuet, Dissert. in S. Irenæum, P. G., t. VII; Le Nourry, Dissert. in Clementem, P. G., t. IX; Huet, Origeniana, P. G., t. XVII; Tillemont, Mémoires pour servir à l'hist. eccl., Paris, 1701, t. II, p. 40, 50, passim; Ceillier, Histoire des auteurs sacrés et ecclésiastiques, passim; todos os autores que trataram da gnose e do gnosticismo, cuja bibliografia mais detalhada será dada em cada um desses artigos; artigos especiais no Dictionary of christian biography, Londres, 1877; Kirchenlexikon, Fribourg-en-Brisgau, 1880; Realencyklopädie für protest. Theologie und Kirche, Leipzig, 1897.
Autor original: G. Bareille
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