DOCETES. — I. Fontes. II. Exposição do sistema. III. Crítica.
I. Fontes. — O que constituiu o fundo do docetismo, ver DOCETISMO, e o que o caracteriza sobretudo, foi sustentar que o Salvador não teve um corpo feito de carne e sangue como o do homem, mas uma simples aparência de corpo ou um corpo fantasma, e suprimir assim dois dos dogmas fundamentais da fé cristã, os da encarnação e da redenção. Mas este erro, com variantes de pormenor, foi comum, desde a origem e durante os primeiros séculos da Igreja, a várias seitas. Houve muitos hereges maculados de docetismo: mas houve uma seita especial cujos partidários trouxessem o título distinto de docetas? A alusão de Teodoreto leva a crê-lo quando fala daqueles que, no seu tempo, renovavam a heresia de Marcião, de Valentino, de Manes e dos outros docetas, δοκηταί. Hæret. fab. hæret., LXXXII, P. G., t. LXXXIII, col. 1264. E, no entanto, heresiólogos, tais como santo Epifânio e são Filastro, muito inclinados a multiplicar o número das seitas, não dizem uma palavra sobre esta; nem santo Agostinho, nem, antes dele, Tertuliano ou santo Ireneu assinalam uma seita à parte com este nome. O autor dos Philosophoumena é o único a fazê-lo e consagra-lhe um artigo. Fala, com efeito, de hereges que se davam a si mesmos o nome de docetas, δοκηταί. Por outro lado, segundo Clemente de Alexandria, Júlio Cassiano, ver t. II, col. 1829, foi no Egito o chefe do docetismo, ὁ τῆς δοκήσεως ἐξάρχων, Strom., I, 13, P. G., t. VIII, col. 1192, fazendo da δόκησις o tema principal do seu ensino, e tomando o nome de docetas para distinguir os seus partidários. Quando quer explicar os nomes das diversas seitas, Clemente de Alexandria coloca os docetas entre as que tiraram o seu nome particular, não do de seu chefe ou do lugar que as viu nascer, mas da matéria do seu ensino. Strom., VII, 17, P. G., t. IX, col. 553. Uma outra personagem, diz-nos Serápion, bispo de Antioquia, por volta de 190 e pouco tempo antes de Clemente, pertence à seita «daqueles a quem chamamos docetas», Marcião, Μαρκιανός. Eusébio, H. E., VI, 12, P. G., t. XX, col. 545. Este servia-se do Evangelho de Pedro, que era muito favorável ao docetismo, ao passo que Cassiano usava o Evangelho segundo os Egípcios. Strom., III, 13, P. G., t. VIII, col. 1198. Mas aqui se apresenta uma dificuldade, a de saber se o chefe anônimo da seita, de que falam os Philosophoumena, é o mesmo que Cassiano. No estado atual dos documentos, a identificação parece pouco provável, é mesmo impossível, pois nada se diz deste chefe que lembre o mínimo que seja o que sabemos de Cassiano. Além disso, embora se trate da mesma época, isto é, do fim do século II, a explicação do nome que se dá a estes hereges, ou que eles tomam a si mesmos, não recai exatamente sobre o mesmo ponto. Por que este nome, com efeito? No Oriente, ele lembra bem o erro do docetismo; mas, sob a pena do autor dos Philosophoumena, significa ainda outra coisa: viria, não de δόκησις, aparência, por alusão direta à teoria do docetismo, mas de δοκός, viga, por alusão à viga de que se fala no Evangelho, viga que estes sectários tinham nos olhos, o que os impedia de ver a verdade e fazia com que alguns cometessem loucuras, não em aparência, mas em realidade. «Ὧν οὐ τῷ δοκεῖν εἶναί τινας κατανοοῦμεν ματαίζοντας, ἀλλὰ τὴν ἐκ τοσαύτης ὕλης δοκὸν ἐν ὀφθαλμῷ φερομένην διελέγχομεν.» Philosoph., VIII, 1, 11, édit. Cruice, Paris, 1860, p. 408. É, pois, aos Philosophoumena, como fonte única, que devemos pedir as informações indispensáveis para conhecer esta seita; apesar da sua brevidade e da sua obscuridade, ver-se-á facilmente que estes docetas foram gnósticos sem grande originalidade.
II. EXPOSIÇÃO DO SISTEMA. — Como todos os gnósticos, estes docetas do fim do século II têm uma teogonia, uma cosmologia, uma cristologia e uma soteriologia à parte: quadro semelhante, explicações um pouco diferentes. Vamos fazer a sua exposição tão literal quanto possível.
1° Teogonia. — Deus é o princípio de tudo; mas é semelhante ao grão da figueira, que é muito pequeno quanto ao volume e muito grande pela sua potência de desenvolvimento. A figueira lembra a árvore que serviu de refúgio, de abrigo e de véu de pudor (a Adão e a Eva), e à qual por três vezes o Senhor pediu em vão fruto e que ele acabou por amaldiçoar. Ora, a figueira lança um caule, desdobra folhas e traz frutos de germes sem número. Do mesmo modo, deste Deus tão pequeno e tão reduzido saem três eons, que são, por sua vez, princípio de todo o resto. É isto que deu a entender Moisés quando disse que as palavras de Deus são em número de três: σκότος, γνόφος, θύελλα. Deut., IV, 22. Eles se desenvolvem, com efeito, e atingem a sua perfeição, que está no número dez, e tornam-se trinta; não diferem entre si senão pela distância que os separa do primeiro germe, e a sua potência prolífica está na razão direta desta vizinhança com Deus. Assim o mais próximo, , o incomensurável, decuplica-se e torna-se cem; o segundo, ἀκατάληπτος, o incompreensível, estando um pouco mais longe, sextuplica-se e torna-se sessenta; quanto ao último, que não é designado, sendo o mais afastado dos três, triplica-se e torna-se trinta. Este desenvolvimento lembra o da parábola do Salvador. «Grãos caíram em boa terra, e produziram frutos, um cem, outro sessenta, outro trinta. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça!» Matth., XIII, 8. Todos estes eons, os três e os que deles procedem em número infinito, são ao mesmo tempo machos e fêmeas. Saídos todos deste primeiro germe de concórdia e de unidade e tendo-se todos concentrado de uma só vez num único eon, engendraram um fruto comum, o Salvador de todos os que estão no meio, igual em poder ao germe da figueira, exceto que foi engendrado, ao passo que o primeiro germe é incriado.
2° Cosmologia. — Graças a estes três eons e a este filho monogênito, toda a natureza espiritual foi ordenada. E todas as coisas espirituais e eternas são de luz, mas uma luz que não é amorfa, nem rude; não tendo necessidade de nenhum informador, e possuindo, à semelhança da figueira, as ideias sem número de tudo o que vive aqui embaixo, e iluminando do alto o caos subjacente. Este demiurgo, iluminado e formado ao mesmo tempo por essas ideias superiores, solidificou-se e recebeu do terceiro éon as ideias superiores. Mas esse terceiro éon, vendo que todos os seus tipos luminosos estavam encerrados na nuvem tenebrosa subjacente e não ignorando o poder do σκότος, ao mesmo tempo que a simplicidade e a riqueza da luz, não tolerou que ali ficassem retidos por muito tempo e submeteu-os aos éons. Tendo, pois, firmado o firmamento, separou a luz das trevas e chamou dia à luz de cima e noite às trevas de baixo. Ora, de todas essas ideias infinitas do terceiro éon, encerradas nas trevas, saiu um fogo vivo, do qual nasceu o grande Arconte (o demiurgo), do qual Moisés disse: «No princípio, Deus criou o céu e a terra.» Gên., I, 1. É esse Deus ígneo que, segundo Moisés, falou do seio da sarça, isto é, do seio do ar tenebroso. E é esse Deus de fogo, nascido da luz, que fez o mundo, como o conta Moisés: Deus não subsistente, mas tendo o σκότος por substância e insultando os tipos eternos e superiores da luz que estavam retidos nas trevas. E foi até a manifestação do Salvador que esse Deus, nascido da luz, ou esse demiurgo ígneo, foi causa de que as almas não cessassem de errar; pois chamam-se assim, ψυχαί, às ideias, porque foram esfriadas nas trevas; essas almas passando de um corpo para outros corpos, todos guardados pelo demiurgo. Que assim seja, é o que se vê por estas palavras de Jó: «E eu, errante, passo de um lugar para outro, de uma casa para outra casa;» e por estas outras do Salvador: «Se quiserdes compreendê-lo, ele mesmo é Elias, que deve vir. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça!» Mateus, XI, 14-15.
3° Cristologia. — O Salvador pôs fim à migração das almas e pregou a fé na remissão dos pecados. Com efeito, vendo as ideias superiores dos éons passarem através de corpos tenebrosos, esse filho monogênito quis descer e resgatá-las. Mas, sabendo que os éons não podem suportar a visão do pleroma e estão expostos a sofrer algum dano por causa da grandeza e da glória de seu poder, ele se contraiu à maneira de um relâmpago num corpo bem pequeno, ou antes à maneira da luz do olho que se esconde sob a pálpebra, e vai até o céu e aos astros brilhantes, onde se contrai ainda mais. E, fazendo isso, esse filho monogênito e eterno tomou emprestada uma ideia de cada um dos éons dos três éons; quando se encontrou na trintena (a do terceiro éon), foi ao mundo, bem pequeno, invisível, desconhecido, sem glória e sem ser crido. Mas, para se revestir das trevas exteriores, isto é, da carne, um anjo que o acompanhava do alto anunciou-o a Maria, como está escrito, e isso nasceu de Maria. Ele revestiu, pois, o que havia nascido e fez tudo como se conta no Evangelho. Mas, durante seu batismo no Jordão, ele tomou na água a imagem e o sinal do corpo nascido da Virgem, a fim de que, quando o Arconte condenasse à morte de cruz a sua própria obra, a alma nutrida nesse corpo não se encontrasse nua, mas revestisse a imagem que ele havia tomado em seu lugar no batismo. E é isso que diz o Salvador: «Ninguém, se não renascer da água e do Espírito, pode entrar no reino de Deus. Pois o que nasceu da carne é carne.» João, III, 5-6.
4° Soteriologia. — Esse monogênito havia, pois, tomado emprestada uma ideia de cada um dos trinta éons (do terceiro éon), e por isso viveu trinta anos, um ano para cada éon. Ora, as almas são, todas, as ideias provenientes de cada um dos trinta éons; e cada uma delas tem uma natureza capaz de compreender o Jesus que lhe é conforme; e é esse Jesus que o filho monogênito havia revestido nos lugares eternos, que são diversos. Daí tantas heresias combatendo-se entre si na busca de Jesus; cada uma tem seu próprio Jesus, diferentemente percebido segundo a diferença do lugar para o qual é levada; ela o ama e crê que o Jesus que se lhe assemelha e lhe pertence é o único, aquele que reconhecerá à primeira vista como seu próprio irmão, repelindo todos os outros como bastardos. Aqueles, pois, que têm uma natureza tirada dos lugares inferiores não podem ver as ideias superiores do Salvador. Mas, diz o chefe dos docetas, os que são do alto, a saber, da Década média e da excelente Ogdoáde, à qual pertencemos, conhecem o Salvador Jesus, não parcialmente, mas totalmente, e são, no alto, os únicos perfeitos, sendo todos os outros perfeitos apenas em parte.
III. Crítica. — Reduzido a esses termos, esse resumo, que o autor dos Philosophoumena qualifica não sem razão de confuso, basta para mostrar que os docetas tomaram o quadro dos gnósticos e procederam à sua maneira sem a menor originalidade, salvo num ponto que assinalaremos. Mesma exposição um tanto esotérica, unicamente acessível aos iniciados; pois o vínculo lógico que devia sem dúvida ligar entre si os diversos elementos do sistema para torná-lo coerente, bem como os motivos que deviam justificar o aparecimento do mundo luminoso das ideias e seu aprisionamento nas trevas, a ação do demiurgo ou do grande Arconte sobre a organização da matéria e sobre as almas prisioneiras, e o fato de o Salvador tomar emprestado um elemento de cada um dos éons, tudo isso é passado em silêncio; mas somos informados por outros sistemas gnósticos. Mesmas citações tomadas da Escritura de modo desconcertante e que não oferecem com a passagem onde aparecem senão relações bastante vagas, quando muito simples aproximações de imagens ou de termos. Mesmo apelo a fontes apócrifas, pois a citação atribuída a Jó, Philosoph., VIII, 1, 10, p. 404, não é senão um empréstimo feito a um apócrifo, que a coloca nos lábios da mulher de Jó e que foi indevidamente acrescentado ao texto escriturístico. Jó, II, 9. No conjunto do sistema, mesmo ponto de partida: um germe imperceptível, que quase nada é e que se torna tudo por uma incessante evolução; um primeiro princípio quase reduzido ao nada, mas de um poder de expansão extraordinário: desenvolve-se à maneira da figueira; essa figueira lembra a árvore imensa de que se trata no sistema de Simão, o Mago. Philosoph., VI, 1, 9, p. 247-248. Mesma multiplicação fantasiosa de intermediários entre esse primeiro germe e o mundo material, cuja existência, aos olhos dos gnósticos, não poderia explicar-se por uma ação direta e imediata de Deus, mas por um demiurgo, que é, como em Basilides, o grande Arconte. Por que apenas três éons no primeiro estágio do desenvolvimento germinativo? É um número novo? Mas ele se encontra no elemento ternário dos Naasenos, dos Peratas e Setianos, bem como na tripla filiação de Basilides. O primeiro, diz-se, chama-se ἀνεννόητος e o segundo ἀκατάληπτος. E o terceiro? É sem dúvida o ἀνεννόητος, o ignorante, da terminologia valentiniana, que junta esse último qualificativo aos outros dois. S. Irineu, Cont. hær., I, XI, 5, P. G., t. VII, col. 568. Por que, no segundo estágio da evolução, um primeiro desenvolvimento de perfeição, que dá 30 éons, e um segundo de produção, que dá 190? O de 30 explica-se por um empréstimo a Valentim; pois trata-se da ogdoáde e da década intermediária, o que evoca a lembrança da dodecáde do sistema valentiniano. Quanto ao de 190, salvo a alusão à parábola da semente, ele ainda está longe dos 365 céus de Basilides. Em compensação, e é aqui o ponto especial do sistema, os éons não procedem aqui por casais de macho e fêmea ou por sizígias, mas possuem cada um o duplo sexo masculino e feminino. Essa concepção lembra os mitos orientais dos deuses andróginos ou hermafroditas. Por outro lado, vê-se bem que o Salvador, como no sistema valentiniano, S. Irineu, Cont. hær., I, II, 6; XIII, 4, P. G., t. VII, col. 465, 576, é o produto do pleroma inteiro, mas não se diz que isso ocorra por modo de reconciliação depois de uma grande desordem no mundo dos éons. Vê-se também que ele toma emprestado, antes de descer à terra, uma ideia ou um elemento de cada um dos éons, mas não se fala que os restitua depois de sua obra redentora. Ele reveste o corpo nascido da Virgem, devido à intervenção do grande Arconte após o anúncio do anjo, mas esse não é um corpo aparente, é um corpo real, que será crucificado; corpo emprestado, aliás, ao qual ele substitui sua imagem ou aparência no batismo para retomá-la no momento da crucificação. Vê-se, enfim, que ele age como redentor, mas resgata apenas o elemento espiritual, o dos éons, que se encontra aprisionado nas trevas sem que se tenha dito por quê.
Que é feito então da redenção do homem? Os da década intermediária e da excelente ogdoáde, à qual pertencem naturalmente os docetas, aproveitam sem dúvida a redenção, quanto à sua ψυχή, isso é evidente, mas que é feito do corpo? E que é feito dos da dodecáde, quanto à alma ou ao elemento espiritual? Mistério, ou antes, segundo a solução dos outros sistemas gnósticos, estes últimos são condenados tal como os corpos. Em resumo, essa seita dos docetas, tal como no-la dá a conhecer o autor dos Philosophoumena, é uma seita gnóstica, na qual o docetismo não desempenha propriamente um papel preponderante e exclusivo. Ela nada tem de verdadeiramente original e característico; seu sistema é antes uma obra eclética, feita de empréstimos aos sistemas gnósticos em voga, que está longe de ter tido o valor e a influência do gnosticismo de Basilides, de Valentim e de Marcião. Cruice, Philosophoumena, Paris, 1860, p. 397-408, 496-498; Smith e Wace, Dictionary of christian biography, v° Docetae;
Autor original: G. Bareille
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