DIONÍSIO (SANTO), papa, 259-268. Sucessor de santo Sisto II, que morreu mártir a 6 de agosto de 258, Denis, presbítero de Roma, foi eleito papa a 22 de julho de 259. Ocupou a sé no tempo do imperador Galiano, sob o qual a Igreja esteve em paz. Os textos não concordam sobre a duração do seu pontificado; mas parece que viveu até 26 ou 27 de dezembro de 268. Duchesne, Liber pontificalis, introduction, p. ccxlviii; Jaffé-Loewenfeld, Regesta pont. rom., t. I, p. 22. É sobretudo conhecido pelas suas relações epistolares com o seu homônimo, Denis, bispo de Alexandria, em diversas questões disciplinares ou doutrinais, e pela sua carta consolatória à Igreja de Cesareia da Capadócia. O seu papel é de verdadeira importância no desenvolvimento do poder pontifício romano, em razão de um caso de apelo à Igreja de Roma a respeito de uma questão de doutrina, em razão também da generosidade da Igreja de Roma para com as Igrejas estrangeiras, em razão enfim do desenvolvimento dado à própria Igreja de Roma.
1° Questão batismal. — Entre as cartas de Denis, bispo de Alexandria, à Igreja de Roma, várias foram escritas sob Estêvão e Sisto II (257-258) aos membros mais em evidência do presbitério romano, entre outros a Filémon e Denis, para levá-los, na questão batismal, a disposições mais brandas que as do papa Estêvão para com as Igrejas em que se obstinavam em não reconhecer o batismo conferido pelos hereges. A quarta das suas cartas é dirigida ao único presbítero Denis, e Eusébio, que no-la assinala, observa que o seu correspondente o chama um homem λόγιος τε καὶ θαυμάσιος. H. E., VII, 7, P. G., t. XX, col. 652. É lícito crer que ele inclinou Sisto II e todo o clero romano à conciliação.
2° A questão do sabelianismo. — Denis de Alexandria correspondeu-se ainda com o seu homônimo, depois de sua elevação ao pontificado, sobre a questão sabeliana. Tendo escrito várias cartas às Igrejas da Pentápole para desviá-las dessa doutrina cirenaica, que acabava de se espalhar ali, foi denunciado por uma delas, à sua revelia, ao papa Denis, e acusado de seis erros. Este julgou o caso importante, convocou um sínodo em 262, veja Santo Atanásio, De sententia Dionysii, 13, P. G., t. XXV, col. 464; De synodis, 44, P. G., t. XXVI, col. 749, examinou a carta incriminada, e nela descobriu impropriedades doutrinais, nomeadamente o emprego do termo criatura, ποίημα, ao falar do Filho de Deus, a concepção de uma trindade em três hipóstases tão distintas que se podiam ver nelas três deuses, enfim uma repugnância marcada pelo termo ὁμοούσιος, consubstancial. Cf. Duchesne, Histoire ancienne de l'Église, 2e édit., Paris, 1906, p. 486. Depois, em seu nome e em nome do concílio, escreveu a todas as Igrejas do Egito uma carta circular em que condenava, guardando um justo meio, ao mesmo tempo o unitarismo sabeliano e o triteísmo subordinacionista. Sem nomear ninguém, refutava, com grande lógica, tanto os que confundiam as três pessoas divinas por causa da unidade de substância, chamando indistintamente o Pai de Filho ou o Filho de Pai, quanto os que afirmavam que o Verbo era uma criatura, que ele tinha se tornado, que houvera um espaço de tempo em que o Pai existia antes do Filho. Queria que se conciliasse a unidade ou a monarquia divina com a trindade, que se reconhecesse em Deus o Pai todo-poderoso, Jesus Cristo, seu Filho, e o Espírito Santo, e especialmente que se dissesse do Filho que ele é autor de todas as coisas na unidade de substância com o Pai. Insistia mesmo, a julgar pelas respostas de Denis de Alexandria, na utilidade de empregar o termo ὁμοούσιος para designar mais exatamente as relações do Filho com o Pai. S. Atanásio, De decretis Nicæn. synod., 26, P. G., t. XXV, col. 464-465, citando a Epistola adversus sabellianos, de santo Denis de Roma, P. L., t. V, col. 416. Cf. Denzinger, Enchiridion, 10e édit., n. 48-51.
Por carta separada, o papa convidou Denis a explicar-se. Este enviou uma justificação em quatro livros intitulados: Refutação e Apologia, dos quais santo Atanásio nos conservou extratos, e que deve ter satisfeito a ortodoxia romana. Ver Feltoe, The Letters and other remains of Dionysius of Alexandria, Cambridge, 1904, p. 182-198. Em resumo, em todo este caso, Denis de Roma aparece como um homem de governo e de doutrina: precaveu para sempre os alexandrinos contra o origenismo, que estava na base das teorias de Denis, e preparou-os de longe para a luta contra o arianismo, quando este nasceria cinquenta anos mais tarde entre eles.
3° Carta à Igreja de Cesareia. — Denis escreveu também à Igreja de Cesareia da Capadócia, aflita pela invasão dos persas. Enviou-lhe socorros em dinheiro para o resgate dos fiéis, arrastados ao cativeiro pelos bárbaros. Sua carta era preciosamente conservada nos arquivos da Igreja, no tempo de santo Basílio, que na sua correspondência com o papa Dâmaso a recorda, chamando seu autor Διονύσιον ἐκεῖνον, τὸν μακαρίτωτατον ἐπίσκοπον. Epist., LXX, P. G., t. XXXII, col. 436. Este ato de caridade, sucedendo às relações tensas que haviam existido pouco antes entre Firmiliano, bispo de Cesareia, e os predecessores de Denis, era de natureza a estreitar a união das Igrejas orientais com Roma. Cf. Salmon, Infallibility of the Church, p. 375. Encontra-se ainda o nome de Denis de Roma, como destinatário da circular dirigida pelos bispos após o último concílio de Antioquia contra Paulo de Samósata: ela chegou talvez a Roma depois de sua morte (Eusébio, H. E., VII, 30; P. G., t. XX, col. 709); S. Jerônimo, De viris, 71, P. L., t. XXIII. Eusébio, H. E., VII, 9, P. G., t. XX, col. 657, menciona uma outra carta de Denis de Alexandria a Denis de Roma, sobre Luciano, sem dúvida o presbítero de Antioquia, de quem se reclamava Paulo de Samósata; esta carta não chegou até nós.
4° Desenvolvimento da Igreja de Roma. — O Liber pontificalis, edição Duchesne, t. I, p. 157, segundo algum documento ou alguma tradição, relata que Denis fez uma nova delimitação das igrejas e cemitérios, sem dúvida desorganizados após a perseguição de Valeriano. Cf. Duchesne, ibid., introduction, p. C. Assinala também as suas ordenações e acrescenta apenas que este papa foi sepultado no cemitério de Calisto. Routh, Reliquiæ sacræ, 1846, t. III; Mansi, Concil., t. I, col. 1041; Jaffé-Loewenfeld, t. I, p. 22; Liber pontificalis, édit. Duchesne, t. I, p. 157; Harnack, Geschichte der altchristlichen Litteratur, 1893, t. I, p. 659; Langen, Geschichte der römischen Kirche, Bonn, 1881, p. 353; Duchesne, Histoire ancienne de l'Église, Paris, 1906, t. I, p. 486; U. Chevalier, Répertoire. Biobibliographie, 2e édit., t. I, col. 1178. Ver o artigo seguinte.
Autor original: A. Clerval
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