DIONÍSIO DE ALEXANDRIA (SANTO) nasceu na cidade desse nome provavelmente antes do ano 200, de pais pagãos. Levado ao cristianismo por sérios estudos, seguiu as lições de Orígenes. Em 231 ou 232, sucedeu a Heraclas na direção da escola catequética, e dezesseis anos mais tarde, sem cessar, ao que parece, o seu ensino na escola, à cadeira episcopal. O resto da sua vida foi um encadeamento de combates e de sofrimentos. Pôde subtrair-se pela fuga à perseguição de Décio (250-251), mas durante a de Valeriano (257-260) viu-se relegado primeiro a Céfro, na Líbia, depois a um lugar «ainda mais rude e líbio», diz Eusébio, na região de Colutião, na Mareótide. De volta a Alexandria em março de 262, encontrou ali a guerra civil, a peste e a fome. Morreu durante o primeiro sínodo de Antioquia contra Paulo de Samósata (264-265), ao qual as suas enfermidades não lhe haviam permitido comparecer. O apelido de Grande, dado a santo Denis, vem de Alexandria, e talvez lhe tenha sido atribuído pelos seus contemporâneos. Em todo caso, já é empregado por são Pedro de Alexandria, num fragmento conservado de sua Mistagogia, P. G., t. XVIII. Este título foi consagrado por Eusébio, H. E., l. VII, préface, P. G., t. XX, col. 657. Embora fosse homem de ação mais do que de doutrina, santo Atanásio o qualifica de καθολικῆς Ἐκκλησίας διδάσκαλος. Epist. de sentent. Dionys., c. VI, P. G., t. XXV, col. 487. São Basílio o chama κανονικόν, atestando assim a sua autoridade e a ortodoxia da sua fé. Epist., l. II, epist. CLXXXVIII, P. G., t. XXXII, col. 664. Interveio energicamente e com êxito nas questões que então agitavam a Igreja, tão decidido contra o erro quanto doce e solícito para com os que erravam. Publicou apenas escritos de circunstância, tendo em vista uma necessidade prática, num estilo vivo e desembaraçado, não isentos de obscuridades dogmáticas, mas sempre animados do zelo mais puro. Infelizmente possuímos apenas fragmentos deles, a maior parte salvos por Eusébio, recolhidos de modo demasiado incompleto por Migne, P. G., t. X, col. 1233-1344, 1576-1602. Cf. Pitra, Analecta sacra, t. II, p. 596-598; t. IV, p. XXXVI-XXXVII; fragmentos siríacos e armênios, t. IV, p. 169-182, 443-422; cf. Prol., p. XXIII-XXV. M. Feltoe recolheu de modo mais completo os fragmentos das obras de santo Denis: The Letters and other remains of Dionysius of Alexandria, Cambridge, 1904. Agrupou-os em seis categorias: 1° as cartas, entre as quais cumpre notar as cinco epístolas batismais; 2° Περὶ ἐπαγγελιῶν; 3° Περὶ φύσεως; 4° a controvérsia com Denis de Roma; 5° os fragmentos exegéticos; 6° fragmentos diversos. Utilizou fragmentos publicados por Holl, em Texte und Untersuchungen, 1900, t. XX, e por Sickenberger, ibid., 1902, t. XXII, fasc. 4, p. 62, 78-79, 82, 85, 86, 98. A lista das obras de santo Denis foi dada por são Jerônimo, De viris, 69, P. L., t. XXIII, col. 677-681. Deve-se assinalar a carta a santo Denis de Roma, a epístola διακονικὴ δι' Ἱππολύτου, a epístola τοῖς καθ' Αἴγυπτον περὶ μετανοίας, a epístola a Cônon, a epístola ἐπισθεοτικη, a carta a Orígenes, περὶ μαρτυρίου, etc. Conhece-se também apenas o título do Livro sobre as tentações, ὁ περὶ πειρασμῶν λόγος. Eusébio, H. E., l. VII, c. XXVI, 3, P. G., t. XX, col. 705. Os livros sobre a natureza, οἱ περὶ φύσεως λόγοι, Eusébio, loco cit. et Praep. ev., l. XIV, c. XXIII-XXVII, P. G., t. XXI, col. 1272-1289, provavelmente anteriores ao episcopado de Denis, eram uma sólida refutação do materialismo epicurista. De um comentário sobre os primeiros capítulos do Eclesiastes, I, 1-II, 11, Eusébio, H. E., l. VII, c. XXVI, 3, col. 705, que parece ser da mesma época, uma cadeia dá fragmentos consideráveis, certamente autênticos no conjunto. Os Dois livros sobre as promessas, περὶ ἐπαγγελιῶν δύο συγγράμματα, Eusébio, op. cit., l. VII, c. XXIV-XXV, col. 692-704, escritos por volta de 253-257, eram dirigidos contra Nepos, um bispo da região de Arsínoe, e a sua Refutação dos alegoristas. Ver Nepos. No l. I, Denis combatia os devaneios milenaristas de Nepos; tratava, no l. II, da autoridade do Apocalipse, composto por «um santo, inspirado por Deus», chamado João, não porém por são João Evangelista. Ver t. I, col. 1469. A adesão de vários bispos da Líbia à heresia de Sabélio foi a ocasião do concílio de Alexandria de 261 e da carta a Amônio e Eufranor; mas enquanto só cuidava de fugir do escolho do modalismo, Denis quase caiu no do subordinacionismo; para exprimir com toda a clareza possível a distinção pessoal do Pai e do Filho, emprega termos e comparações que implicam uma distinção substancial. Acusado de seis erros perante o papa santo Denis, convidado pelo concílio romano de 262 a justificar-se, respondeu primeiro por carta, S. Atanásio, Epist. de sentent. Dionysii, 4, P. G., t. XXV, col. 485, e depois mais explicitamente por uma Refutação e Apologia, ἔλεγχος καὶ ἀπολογία em 4 livros, S. Atanásio, op. cit., 18, col. 500; Eusébio, op. cit., l. VII, c. XXIV, 1, col. 704; De synodis Arimini in Italia et Seleucia in Isauria celebratis, 43, P. G., t. XXVI, col. 769, que continha declarações absolutamente ortodoxas a respeito da Trindade. São Basílio conheceu a denúncia de santo Denis de Alexandria a santo Denis de Roma. Menciona a apologia do bispo acusado e faz justiça à sua fé a respeito da trindade. Precisa exatamente o erro de Denis, mas o explica e partilha a opinião indulgente de santo Denis de Roma e de santo Atanásio. De Spiritu Sancto, 72, P. G., t. XXXII, col. 201; Epist., IX, ibid., col. 269. Conheceu, pois, todo o caso e julgou-o como teólogo competente. Denis escreveu uma série de cartas relativas ao cisma novaciano e à questão dos lapsos. Exortava Novaciano e os seus adeptos a submeter-se ao papa legítimo e recomendava para com os que haviam caído toda a indulgência possível; particularmente bela é a carta ao próprio antipapa. Eusébio, op. cit., l. VI, c. XLV, col. 634. Na controvérsia sobre a validade do batismo dos hereges, Denis trabalhou sobretudo para levar uns e outros à paz. Eusébio, op. cit., l. VII, c. IV-IX, col. 641-657. No ano 264 ou 265, o velho bispo escreveu à Igreja de Antioquia contra a doutrina de Paulo de Samósata. Ibid., c. XXVII, 2, col. 705. A carta ao próprio herege, que se encontra em Mansi, Concil., t. I, col. 1039-1088, é mais uma superchería dos apolinaristas. Eusébio extraiu das cartas pascais de santo Denis alguns dados históricos, H. E., l. VII, c. XX-XXII, col. 681-692; a carta a Domício e Dídimo para a Páscoa de 251 continha um cânon pascal de oito anos e decidia que a festa devia sempre celebrar-se depois do equinócio da primavera. Ibid. Uma das cartas a Basílides, bispo da Pentápole, Eusébio, l. VII, c. XXXI, 3, col. 705, deve a sua conservação integral à circunstância de ter sido incluída pelos gregos entre as Epístolas canônicas. Routh, Relig. sacrae, 2e édit., t. I, p. 219-250; Pitra, Juris eccl. Graec. hist. et monum., t. I, p. 541-545, cf. p. 548 sq. A maior parte dos tratados de santo Denis foram escritos sob forma de cartas. Eusébio, H. E., l. VII, c. XXVI, P. G., t. XX, col. 704-705. O , como o Περὶ γυμνασίου, o Περὶ φύσεως e o Περὶ πειρασμῶν, dedicado a Eufranor, eram cartas. Santo Denis tem sobre a inspiração da Escritura as mesmas ideias que Orígenes. Atribui formalmente a Epístola aos Hebreus a são Paulo, e, neste ponto, vai mais longe que Orígenes. Cf. Eusébio, l. VI, c. XXV, col. 584 (para Orígenes), e l. VI, c. XII, col. 605, onde santo Denis cita Heb., X, 34, com esta introdução: Παῦλος ἐμαρτύρησε. É também testemunha da fé da Igreja a respeito da presença real do corpo e do sangue de Jesus Cristo na eucaristia: τοῦ σώματος καὶ τοῦ αἵματος τοῦ Κυρίου ἡμῶν Ἰησοῦ Χριστοῦ μετασχόντα. Eusébio, l. VII, c. IX, col. 656. Ensina-nos também que em Alexandria a sagrada eucaristia era conservada para os doentes: βραχύ τῆς εὐχαριστίας ἐπέδωκεν τῷ παιδαρίῳ. Eusébio, l. VI, c. XLIV, col. 632. Bardy, Les Pères de l'Église, trad. Godet et Verschaffel, t. I, p. 288-289; Dittrich, Dionysius der Grosse von Alexandrien, in-8°, Fribourg, 1867; Harnack, Geschichte der altchristl. Litteratur, t. I, p. 409-427; Foerster, De doctrina et sententiis Dionysii Magni Alexandrini, Berlin, 1865; Roch, Dionysius der Grosse über die Natur, Leipzig, 1882; Dictionary of christian Biography, art. Dionysios of Alexandria; Benson, Cyprian, 1897, passim; Feltoe, The Letters and other remains of Dionysios of Alexandria, Cambridge, 1904; Hurter, Nomenclator, 3e édit., t. I, col. 82-86; Chevalier, Répertoire. Bio-bibliographie, 2e édit., t. I, col. 1168-1169.
Autor original: C. Verschaffel
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