DIMERITAS

DIMERITAS

DIMÉCRITES. — 1° Partidários de Apolinário de Laodiceia. — Antes da defecção pública e comprovada de Apolinário, o moço, em 375, isto é, a partir do ano 360 aproximadamente, admiradores entusiastas do bispo de Laodiceia pretendiam ter ouvido de seu mestre que o Verbo, ao encarnar-se, tomara um corpo humano e uma alma sensível, mas não uma alma racional. Essa era, com efeito, a doutrina ainda desconhecida de Apolinário; pois, para salvaguardar a natureza divina de Cristo, ele havia julgado dever mutilar sua natureza humana e pôde ensinar que o Verbo tomara tudo da natureza humana, exceto o νοῦς ou o πνεῦμα, porque sua natureza divina fazia as vezes disso. Esse erro, que abria a porta ao futuro eutiquianismo, foi energicamente combatido e condenado, assim que se tornou conhecido. Ver t. I, col. 1505-1507. Mas, antes de ser abertamente professado pelo próprio Apolinário, alguns de seus discípulos não deixavam de atribuir-lha e de propagá-la. Ora, tal era a reputação de sabedoria do bispo de Laodiceia que, no momento em que santo Epifânio compunha sua obra contra as heresias, entre 374 e 377, o bispo de Salamina recusava-se a crer no que se atribuía a Apolinário, tanto mais que seus discípulos não concordavam entre si, pretendendo uns que o Verbo trouxera seu corpo do céu, e outros que tinha um corpo consubstancial à divindade. Ele, portanto, colheu informações: melhor informado, Epifânio teve de render-se à evidência. « É contudo, dizia ele, esse ilustre e venerável ancião, Apolinário de Laodiceia, que sempre nos foi caro, tanto quanto a Atanásio de bem-aventurada memória e a todos os ortodoxos, é ele quem foi o autor e o propagador desse ensinamento! » Hær., LXXVII, 2, P. G., t. XLII, col. 641-643. Por isso ele dedica um capítulo de sua obra àqueles que ele não chama de apolinaristas, mas simplesmente de dimeritas, porque, das três partes constitutivas do homem, segundo a tricotomia platônica, o σῶμα, a ψυχή e o νοῦς, pretendiam que o Verbo, ao encarnar-se, tomara apenas as duas primeiras, διμοιρία, donde διμοιρίτοι, dimeritas, como ele os chama.

2° Combatidos em Corinto e em Alexandria. — É na Grécia que se manifesta pela primeira vez o erro dos dimeritas. Uma disputa havia estourado entre partidários da fé de Niceia: dois partidos estavam em presença e sustentavam duas teses opostas, igualmente perigosas para a fé. Segundo uns, o corpo de Jesus Cristo devia ser consubstancial à divindade, sem o quê seria preciso admitir em Deus uma quaternidade em vez da Trindade. Daí esta alternativa: ou o corpo de Cristo não foi tirado de Maria, visto que é eterno como a divindade, ou a divindade do Verbo mudou de natureza, tornando-se carne, e por conseguinte sofreu. Segundo os outros, o Verbo, Filho de Deus, não era o mesmo que o Cristo morto na cruz, mas simplesmente descera nele como outrora nos profetas. E assim Cristo não era senão um homem adotado. Um sínodo condenou uns e outros. O bispo de Corinto, Epicteto, enviou as atas desse sínodo a santo Atanásio, pedindo-lhe que lhe dissesse como se deviam refutar tais erros. Daí a célebre resposta do bispo de Alexandria, Epist. ad Epict., P. G., t. XXVI, col. 1049-1069, inserida por santo Epifânio, Hær., LXXVII, 4, P. G., t. XLII, col. 645 sq. Aos primeiros, santo Atanásio opõe a doutrina de Niceia. « Não é do corpo de Jesus Cristo, diz ele, mas do próprio Filho de Deus que o concílio declarou que ele é consubstancial ao Pai; disse que seu corpo é tirado de Maria. Se o Verbo é consubstancial ao corpo, tirado da terra, e ao mesmo tempo ao Pai, o Pai deve ser consubstancial ao corpo. Mas, se assim fazeis o Pai consubstancial às criaturas, como censurareis os arianos por fazerem do Filho uma criatura? Se o corpo de Cristo é, antes de Maria, desde toda a eternidade, como o Verbo, para que serve o advento do Verbo? Quereria ele revestir-se do que lhe era consubstancial? Quereria oferecer-se por si mesmo em sacrifício e resgatar-se a si mesmo? » Mas não, segundo são Lucas, Jesus Cristo tomou um corpo semelhante ao nosso, da raça de Abraão e da substância de Maria, que verdadeiramente o gerou e o amamentou; é dela que ele nasceu, e não apenas nela. « Esse corpo sofreu a circuncisão, a fome, a sede, o trabalho e enfim a cruz. O Verbo, ao contrário, é impassível. Esse corpo estava no sepulcro, ao passo que o Verbo, sem dele se separar, desceu aos infernos, porque o corpo não era o Verbo, mas o corpo do Verbo, que se atribuiu os sofrimentos de seu corpo, a fim de que pudéssemos participar de sua divindade. Nada disso foi ficção ou aparência, mas verdade e realidade; sem o quê a salvação dos homens e a ressurreição não seriam senão ficção e aparência, como ensina Manés. » Ao fazer-se homem, ele assegurou a salvação de todo o homem; e o homem foi salvo realmente, corpo e alma, em tudo o que é. « Jesus Cristo disse depois de sua ressurreição: « Tocai-me e considerai que um espírito não tem « carne nem ossos, como vedes que eu tenho. » Luc., XXIV, 39. Ele não diz: « Eu sou carne e ossos, » mas: « Eu os tenho. » Quanto a esta palavra de são João: « O Verbo se fez carne, » Joa., I, 14, ela se assemelha à de são Paulo: « Cristo se fez maldição por nós, » Gal., III, 13, não que ele se tenha tornado a própria maldição, mas porque dela se encarregou. E, embora o corpo de Cristo seja de outra natureza que o Verbo, isso não é de modo algum substituir a Trindade por uma quaternidade, pois a criatura não pode ser igualada a Deus, e a divindade não recebe acréscimo. A encarnação nada acrescentou ao Verbo, é somente a carne que recebeu vantagens infinitas pela união do Verbo. » Aos outros, que negavam a identidade do Filho de Deus e de Jesus Cristo, Atanásio pergunta: « Por que, pois, desde seu nascimento, é ele chamado Emanuel, Deus conosco? Como diz são Paulo que ele está acima de todas as coisas, Deus, bendito eternamente? Rom., IX, 5. Por que são Tomé, ao vê-lo, exclamou: « Meu Senhor e meu Deus? » Joa., XX, 28. Se o Verbo de Deus veio ao filho de Maria como aos profetas, por que nasceu de uma virgem, e não de um homem e de uma mulher como os demais santos? Diz-se dos outros que a palavra de Deus lhes foi dirigida, e só deste que o Verbo se fez carne. É ele que o Pai mostrou, no Jordão e no monte, dizendo: « Este é meu Filho amado. » Não separamos o Filho e o Verbo, mas sabemos que o próprio Verbo é o Filho, por quem tudo foi feito e que nos resgatou. »

3° Combatidos, mas tratados com benevolência por santo Epifânio. — Terá essa carta de Atanásio dado a Epicteto todos os argumentos necessários para reduzir os dimeritas em torno de Corinto? É de crer; mas havia-os também fora da Grécia, e não deixavam de perturbar a fé dos fiéis. O bispo de Salamina esforçou-se por trazê-los de volta, mas seus esforços permaneceram vãos. Ele nos conta seus insucessos e não tem uma palavra dura a seu respeito; ao contrário, é com moderação e defendendo-se por diversas vezes de qualquer sentimento de animosidade ou de ódio que expõe e refuta seus erros. Como se poderia não crer no que ele mesmo não creu de início, e para bem mostrar que nada inventa, sobretudo que não recorre à calúnia, ele cita por extenso a carta de santo Atanásio, de que acabamos de falar. Também ele os condenou, mostrando o que têm em comum com os erros de Valentino, de Marcião e de Manés, Hær., LXXVII, 15, col. 661, e observando que nada os justifica, nem os profetas, nem os evangelistas, nem os apóstolos. Ibid., 18, col. 665. Mas sua condenação é a de um amigo que não pode deixar de sentir estima pela dignidade de sua vida, a de um pai que gostaria de vê-los voltar ao lar. « Desejamos sobretudo e pedimos que não se separem da Igreja de Cristo e da tão doce sociedade dos irmãos, mas antes que abandonem seu gosto exagerado pela controvérsia. » Ibid., 18, col. 668.

4° Conferência de santo Epifânio com Vitalis, em Antioquia. — Em seu zelo apostólico, santo Epifânio dirigira-se diretamente a um dos chefes deles, o bispo Vitalis, homem de saber e de virtude, para pedir-lhe que fizesse a paz com Paulino, bispo de Antioquia. Vitalis escusou-se, porque acreditava que Paulino era maculado de sabelianismo. Epifânio quis certificar-se e pediu a Paulino uma profissão de fé. Este reproduziu a que era da própria mão de santo Atanásio. Ibid., 21, col. 672. Ora, ali se diz, ao contrário do erro dos dimeritas: οὔτε γὰρ ἄψυχον, οὔτε ἀναισθητόν, οὔτε ἀνόητον σῶμα εἶχεν ὁ Σωτήρ. Munido dessa profissão de fé, Epifânio, numa conferência pública, colocou a Vitalis algumas perguntas precisas para saber se o que aprendera em Chipre a respeito dos dimeritas era exato. — Cristo foi um homem perfeito? — Sim. — Tomou realmente a carne? — Sim. — Tomou-a no seio da Virgem Maria pelo Espírito Santo? — Sim. — É mesmo o Verbo, o Filho de Deus, quem tomou essa carne? — Sim. — Tomou uma alma, ψυχή? — Sim. — Tomou também uma alma racional, νοῦς? — Não. — Nesse caso, replica Epifânio, ele não é um homem perfeito, τέλειος. Mas Vitalis protesta que é um homem perfeito, porque, em Jesus Cristo, é a divindade que desempenha o papel dessa alma racional: τέλειον ἄνθρωπον λέγομεν εἶναι, εἰ τὴν θεότητα ποιοῦμεν ἀντὶ τοῦ νοῦ, καὶ τὴν σάρκα, καὶ τὴν ψυχήν, ὡς εἶναι τέλειον ἄνθρωπον ἐκ σαρκὸς, καὶ ψυχῆς, καὶ θεότητος ἀντὶ τοῦ νοῦ. Ibid., 23, col. 673. Epifânio tinha razão em reclamar, na natureza humana de Jesus, a presença da alma racional, sem o quê a encarnação era incompleta, mas não conseguiu convencer Vitalis. Ele constata com pesar e dor a obstinação de um homem tão distinto e de irmãos tão dignos de elogios, que não têm a seu favor autoridade alguma, nem a de um profeta, de um evangelista ou de um apóstolo, nem a de intérprete algum. Ibid., 24, col. 676.

5° Textos escriturísticos alegados pelos dimeritas. — Esses discípulos de Apolinário apoiavam seus erros em alguns textos isolados, que tomavam ao pé da letra. Tal era o de são Paulo: « O primeiro homem, tirado da terra, é terrestre; o segundo vem do céu, » I Cor., XV, 47; alguns daí concluíam que Jesus trouxera seu corpo do céu. Do de são João: « O Verbo se fez carne, » outros concluíam que ele tomara uma carne animada por uma alma sensível, mas não por uma alma racional. Deste outro enfim: « Se a tivessem conhecido (essa sabedoria), não teriam crucificado o Senhor da glória, » I Cor., II, 8, alguns estimavam que a divindade sofrera. Por mais que se lhes recordassem outros textos de evidência ofuscante, não se rendiam. Epifânio citava-lhes, entre outros, aquele em que se diz que Jesus progredia em sabedoria, em estatura e em graça, Luc., II, 52; em idade e em estatura, isto é, quanto a seu corpo e a sua alma sensível, mas também em sabedoria, portanto quanto à sua alma racional. Ibid., 26, col. 677. Do mesmo modo, fazia-lhes observar, este outro: « Desejei com grande desejo comer esta páscoa convosco, » Luc., XXII, 15, não pode ser expressão nem da divindade só, nem do corpo só, nem da alma sensível sem a alma racional, mas da natureza humana perfeita, que compreende necessariamente a alma racional junto com a alma sensível e o corpo. Mas cada vez que, no terreno da interpretação escriturística, os apertavam demais, contentavam-se em responder: ἡμεῖς δὲ νοῦν Χριστοῦ ἔχομεν. I Cor., II, 16. Mas essa palavra do apóstolo, observa com razão santo Epifânio, ibid., 31, col. 685, nada tem a ver com o que lhe faziam dizer. Pois Paulo tinha seu próprio espírito e, ao receber o de Cristo, não perdia o seu. Cristo, portanto, tinha uma alma racional, νοῦν.

6° Outros erros dos dimeritas. — Independentemente do erro capital que acabamos de lembrar, os dimeritas, ao menos alguns, como disso se convenceu santo Epifânio em seu inquérito, professavam o quiliasmo; criam também que, depois do nascimento de Nosso Senhor, a santa Virgem tivera comércio com são José, e o bispo de Salamina admira-se de que tenham ousado dizê-lo. Ibid., 36-48, col. 695 sq.

7° O que se tornaram. — Tais são as informações fornecidas por santo Epifânio sobre aqueles que ele designa sob o nome de dimeritas e que não eram, a bem dizer, senão apolinaristas de antes da defecção de Apolinário. Apesar dos bons procedimentos que se usaram para com eles, não voltaram à unidade. Foram condenados, em 381, no concílio de Constantinopla, juntamente com os partidários de Apolinário; o que não os impediu de viver em grupos separados sob o nome de vitalianos, de sinusiastas, de polemianos, etc., até que as leis severas dirigidas por Teodósio contra os arianos e os macedonianos vieram atingi-los também a eles. Alguns se converteram; a maioria passou para outras seitas de tendências semelhantes às suas. E o concílio de Calcedônia, ao condenar os erros de Êutiques, que provêm dos de Apolinário, acabou por desacreditar de vez os que se reclamavam do famoso bispo de Laodiceia.

S. Athanase, Epist. ad Epict., P. G., t. XXVI, col. 1049-1069; Épiphane, Hær., LXXVII, P. G., t. XLII, col. 644 sq.; Tillemont, Mémoires pour servir à l'histoire ecclésiastique, Paris, 1701, t. VII, p. 602-606; Ceillier, Histoire générale des auteurs sacrés et ecclésiastiques, Paris, 1860, t. IV, p. 142-143; t. V, p. 87; p. 409; G. Voisin, L'apollinarisme, Louvain, 1901, p. 61-63.

Autor original: G. Bareille

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