DÍDIMO, O CEGO. — I. Vida. II. Obras. III. Doutrina. I. VIDA. — Dídimo, sem merecer ao pé da letra os elogios entusiásticos de seus contemporâneos, não deixa de ser uma das figuras mais curiosas, senão as maiores, do século IV. Nascido por volta de 313 em Alexandria, desde a idade de quatro anos, segundo Paládio, Hist. Laus., c. IV, P. G., t. XXXIV, col. 1012, ou de cinco anos, segundo são Jerônimo, Chronic. ad an. Abr. 2388, P. L., t. XXVII, col. 695, perdeu a visão. Em nenhuma parte falou ele mesmo de sua cegueira, embora moralmente tenha sofrido muito com ela, S. Jerônimo, Epist., LXVIII, ad Castrutium, P. L., t. XXII, col. 652 sq.; mal se encontra em seus livros uma única alusão, aliás muito duvidosa, In Prov., P. G., t. XXXIX, col. 1624. A cegueira do jovem Dídimo decidiu provavelmente a orientação de sua vida e assegurou certamente sua tranquilidade. A oração e o estudo foram desde então as doces e poderosas consoladoras de Dídimo; ele se dedicou em particular ao estudo com um ardor engenhoso e obstinado que deu todos os seus frutos, Rufino, H. E., II, 7, P. L., t. XXI, col. 516. Em verdade, Rufino, op. cit., Sócrates, H. E., IV, 25, P. G., t. LXVII, col. 525, 528, e Teodoreto, H. E., V, 26, P. G., t. LXXXII, col. 1189 sq., exageraram um pouco seu herói, exagerando tanto a profundidade quanto a extensão de seu saber; Dídimo não é mais um matemático, um astrônomo, um poliglota de primeira ordem, do que é um metafísico e um teólogo de gênio. Mas sua erudição, sem igualar a de um Orígenes ou de um Eusébio de Cesareia, não deixa contudo de ser vasta e variada, e de atestar, nos destroços que dela sobreviveram, seu culto apaixonado pela ciência. Sem jamais ter deixado sua cidade natal, e apesar de seu apego à fé de Niceia, Dídimo deveu à sua cruel enfermidade escapar às perseguições dos arianos, que aliás imaginavam nada ter a temer para sua causa de um sábio cego. Santo Atanásio, que conhecia Dídimo, Paládio, op. cit., confiou-lhe, não se sabe ao certo em que data precisa, a direção da escola catequética de Alexandria. Por convicção pessoal e por um piedoso respeito à memória de seu mais ilustre predecessor, talvez também por instigação de alguns monges origenistas e, entre outros, de Evágrio Pôntico, Dídimo fará reviver no Didascaleu o ensinamento de Orígenes, não sem, todavia, explicar em sentido ortodoxo as expressões ambíguas do mestre, nem sem modificar aqui e ali seu pensamento. Depois de ter exercido sua função com brilho e de ter contado entre seus alunos os Gregório de Nazianzo, os Jerônimo, os Rufino, os Paládio, os Isidoro de Pelúsio, etc., ele parecerá levar consigo a glória da célebre instituição que por tanto tempo honrara. A opinião comum, apoiada notadamente no De Trin., III, 1275, III, 1, P. G., t. XXXIX, col. 595, 768, 784, sustenta que Dídimo era casado e pai de família. O Sr. J. Leipoldt, Didymus der Blinde von Alexandria, Leipzig, 1905, p. 6, 7, apoia-se, ao contrário, nas tradições do Didascaleu, na austeridade da vida do douto cego, em suas relações familiares com os monges mais renomados de todo o Egito, para fazer de Dídimo um asceta. Situou-se sua morte ora em 395, segundo são Jerônimo, ora em 398 ou 399, segundo Paládio. Se é difícil apreciar o papel de Dídimo na história e no progresso da teologia católica, não se pode ao menos negar-lhe uma parte de influência sobre seus contemporâneos e sobre as gerações que o seguiram. Dídimo, com efeito, não morreu por inteiro; a prova disso está nas desgraças sofridas por sua memória por causa do origenismo. Ver-se-á que foi excomungado, mais de um século e meio depois de sua morte, por ter sustentado as doutrinas da preexistência das almas e da apocatástase. No mês de março ou abril de 553, os bispos convocados para o V concílio geral e já reunidos em Constantinopla antes da abertura do concílio, 5 de maio a 2 de junho de 553, condenaram, juntamente com Orígenes, as teorias origenistas de Dídimo, o Cego, e de Evágrio Pôntico, morto por volta de 399. Os concílios ecumênicos VI, VII e VIII anatematizaram novamente, referindo-se todos por erro ao V concílio, Orígenes, Dídimo e Evágrio. Fr. Diekamp, Die Origenistischen Streitigkeiten im VI. Jahrh. und das V. allgemeine Konzil, Munster, 1899. II. OBRAS. — Dídimo escreveu muito. Mas não demonstra nenhuma preocupação literária; despreza a retórica, embora não a ignore. Seu estilo, prolixo, é simples e claro. Em contrapartida, nele se percebem numerosas negligências e faltas de gosto, o abuso de epítetos ociosos e de puro ornamento, o abuso de digressões, etc. Com raríssimas exceções, por exemplo, De Trin., I, 26; II, 1, P. G., t. XXXIX, col. 384, 452; In Job, col. 1125, 1128, nenhum colorido, nenhuma vida e movimento, nenhuma preocupação em persuadir e arrastar. A maior parte das obras de Dídimo pereceu ou desapareceu nas querelas origenistas, deixando apenas seu título ou breves fragmentos. Nas próprias obras que nos restam, as lacunas abundam. Os trabalhos de Dídimo versam, uns sobre o dogma, outros sobre a exegese. I. TRABALHOS DOGMÁTICOS. — 1° O primeiro em data talvez dos escritos de Dídimo, este opúsculo Contra Ário e Sabélio, Λόγος κατὰ Ἀρειου καὶ Σαβέλλιου, que nos foi conservado sob o nome de são Gregório de Nissa, P. G., t. XLVI, col. 1281-1302, e que remonta certamente a bem antes de 362, acaba de ser restituído a seu autor, e, ao que parece, de modo definitivo. Holl, Über die Gregor von Nyssa zugeschriebene Schrift Adversus Arium et Sabellium, em Briegers Zeitschrift für Kirchengeschichte, 1904, t. XXV, n. 3, p. 380-398. 2° O opúsculo Sobre o Espírito Santo, περὶ τοῦ ἁγίου Πνεύματος λόγος, um dos melhores escritos da antiguidade cristã em tal matéria, chegou até nós apenas na versão latina que dele fez são Jerônimo, a pedido do papa são Dâmaso, entre 384 e 389. P. G., t. XXXIX, col. 1031-1086; P. L., t. XXIII, col. 103-154. A perda do texto primitivo deve-se sobretudo às querelas origenistas, talvez também, em parte, à superioridade literária da versão sobre o original. M. Schanz, Geschichte der röm. Litteratur, 1904, t. IV, p. 437. Mas nem Jacques Basnage, em sua edição das Lectiones antiquæ de Canísio, Antuérpia, 1725, t. I, p. 202, nem o Sr. Schermann, Die griechischen Quellen des hl. Ambrosius in De Spiritu Sancto, Munique, 1902, p. 80, conseguiram convencer da infidelidade substancial da tradução de são Jerônimo. Tudo concorre para provar que essa tradução, longe de ser uma refundição do trabalho primitivo, reproduz sem alteração e sem mescla de ideias estranhas o pensamento de Dídimo, e até as inexatidões de suas citações bíblicas. Stolz, em Theologische Quartalschrift, 1905, t. LXXXVII, n. 3, p. 379-387. O opúsculo compreende 63 capítulos e se divide, independentemente da introdução e da conclusão moral, em duas partes: uma, que estabelece sucessivamente a divindade do Espírito Santo, sua consubstancialidade com o Pai e o Filho, a identidade da operação das três pessoas divinas ad extra; a outra, que explica, à maneira e no tom da homilia, as passagens escriturísticas em que se apoia a fé no Espírito Santo. 3° Os três livros Sobre a Trindade, περὶ τριάδος βιβλία τρία, P. G., t. XXXIX, col. 269-992, foram encontrados por J. A. Mingarelli num manuscrito muito defeituoso e mutilado do século XII; foram publicados em 1769 em Bolonha por cuidados do mesmo sábio, com uma tradução latina. Desses três livros, o I trata principalmente da pessoa do Filho, e o II da pessoa do Espírito Santo; o III, depois de um resumo rápido em 55 silogismos do dogma da trindade, discute e resolve as objeções escriturísticas mais fortes dos hereges da época. É essa a obra-prima de Dídimo. São Jerônimo, De viris, 109, P. L., t. XXIII, col. 705, não a menciona, sem dúvida porque em 392 ela ainda não havia aparecido. J. Leipoldt, op. cit., p. 12. Em todo caso, a obra é muito provavelmente posterior ao concílio de Constantinopla de 381, isto é, à condenação de Macedônio e de seus partidários. Explica-se assim o ardor incomum que Dídimo emprega contra a nova heresia pneumatômaca, a ponto de quase esquecer os arianos e os eunomianos. Stolz, loc. cit., p. 400. 4° Restou-nos no texto original um opúsculo (18 capítulos) Contra os maniqueus, κατὰ μανιχαίων, P. G., t. XXXIX, col. 1085-1110. Refutação filosófica do maniqueísmo, ao mesmo tempo que exame dos textos sagrados nos quais os maniqueus se apoiavam. Numerosos e poderosos no Egito, os maniqueus foram sempre o alvo predileto de Dídimo, notadamente em seus trabalhos de exegese. Encontra-se no início de nosso opúsculo uma lacuna, que os Paralelos sagrados de são João Damasceno, P. G., t. XCVI, col. 1532, preencheram em parte. 5° Há grande aparência de que os dois livros pseudo-basilianos (l. IV e V) Contra Eunômio, P. G., t. XXIX, col. 671-774, sejam obra de Dídimo, e nos ofereçam em definitivo um resumo de seus dois livros, mencionados por são Jerônimo, De viris, 109, loc. cit., o De dogmatibus e o Contra arianos. Funk, Compte rendu do IV congresso científico internacional em Friburgo (Suíça), 1897, t. III, p. 217-248; Kirchengeschichtl. Abhandlungen und Untersuchungen, Paderborn, 1899, t. II, p. 291-329; Theologische Quartalschrift, 1901, p. 113-116. O Sr. J. Leipoldt, op. cit., p. 26-31, não percebe, porém, nada, nem no estilo nem nas ideias do pseudo-Basílio, que ponha fora de dúvida a paternidade de Dídimo. 6° O Sr. Stolz, loc. cit., p. 395-396, atribui a Dídimo os sete diálogos Sobre a Trindade, que chegaram até nós sob os nomes de santo Atanásio e de são Máximo, o Confessor, P. G., t. XXVIII, col. 1115-1388. O Sr. Leipoldt, op. cit., p. 24-26, não reconhece neles o estilo habitual do célebre cego. 7° Ainda não se recuperou o opúsculo escrito por Dídimo em 386 sobre a morte das crianças pequenas, S. Jerônimo, Adversus Rufinum, I, 28, P. L., t. XXIII, col. 478; o Πρὸς φιλόσοφον, do qual não nos resta senão uma única frase, P. G., t. XXXIX, col. 1109; o Περὶ ἀσωμάτου, do qual são João Damasceno nos conservou um breve fragmento, P. G., t. XCVI, col. 1532; t. XCVI, col. 524; o περὶ ψυχῆς, salvo um fragmento de descoberta recente, J. Leipoldt, op. cit., p. 16; os opúsculos Περὶ προνοίας καὶ κρίσεως; a célebre apologia do περὶ ἀρχῶν de Orígenes, S. Jerônimo, op. cit., I, 6; III, 41, 16, P. L., t. XXIII, col. 401-402, 434, 438-439, etc. II. TRABALHOS DE EXEGESE. — Dídimo havia abarcado tudo em seus trabalhos de exegese, o Antigo e o Novo Testamento. Desses vastos trabalhos, nos quais o autor permanecia fiel, não sem algumas reservas, ao método alegórico de Orígenes, e por isso mesmo se guardava em geral de seguir o rumo de santo Atanásio e dos Capadócios, não possuímos mais senão destroços, dispersos em sua maior parte nas Cadeias. 1° Antigo Testamento. — Deve-se à Cadeia do monge Nicéforo, Leipzig, 1772-1773, alguns fragmentos sobre o Gênesis, sobre o Êxodo, sobre o II livro dos Reis, P. G., t. XXXIX, col. 1111-1120. Mencionemos aqui, além disso, uma escólia latina, Gen., I, 27, publicada por dom Pitra, Spicilegium Solesmense, t. I, p. 284. Um fragmento sobre o III livro dos Reis foi assinalado num manuscrito do Escorial por Faulhaber, Die Katenenhandschriften der spanischen Bibliotheken, em Biblische Zeitschrift, 1903, t. I, p. 251. À Cadeia de Nicetas, editada por P. Junius (Young), Londres, 1637, devemos importantes fragmentos sobre Jó, P. G., ibid., col. 1119-1154. Talvez a passagem de Dídimo, inserida nos Paralelos sagrados, P. G., t. XCVI, col. 1256, seja extraída da explicação de Jó. Ver também o Λόγος εἴς τὸν Ἰώβ, P. G., t. XCVI, col. 141. A relíquia mais considerável da exegese de Dídimo, um longo fragmento da explicação do Saltério, foi encontrada pelo cardeal Mai, Roma, 1854, P. G., t. XXXIX, col. 1155-1616, e aumentou singularmente os achados anteriores de B. Cordier, Expositio Patrum Græcorum in psalmos, Antuérpia, 1643, e de Mingarelli, Bolonha, 1784, P. G., ibid., col. 1617-1622. Cf. Faulhaber, loc. cit., p. 300. O cardeal Mai publicou também escólias sobre os Provérbios, P. G., ibid., col. 1621-1646; entre os textos de Mai e os de Th. Peltanus, Catena Græcorum Patrum in Proverbia Salomonis, Antuérpia, 1614, o acordo não é completo. A Cadeia de J. Meursius, Eusebii Polychronii, Pselli in Canticum canticorum expositiones græcæ, Leyde, 1617, p. 19, contém uma escólia sobre o Cântico dos Cânticos. Uma velha Cadeia, ainda inédita, contém escólias sobre o Eclesiastes. J. Leipoldt, op. cit., p. 20. Os Paralelos sagrados, P. G., t. XCVI, col. 1093, 1196; t. XCVI, col. 525, conservaram-nos fragmentos de uma explicação da segunda parte de Isaías, mencionada por são Jerônimo, De viris, 109, P. L., t. XXIII, col. 705; Prol. in Isaiam, ibid., t. XXIV, col. 21. Dos dois amplos comentários escritos em 386 a pedido de são Jerônimo, De viris, 109, um em três livros sobre o profeta Oséias, o outro em cinco livros sobre o profeta Zacarias, não subsiste mais nada, exceto um fragmento do primeiro, recolhido nos Paralelos sagrados, P. G., t. XCVI, col. 1381; t. XCVI, col. 520. Ghisleri, In Jeremiam prophetam commentarii, Lyon, 1623, t. I, p. 89; t. II, p. 740, 753, colocou entre os textos dos Padres gregos e latinos três breves fragmentos de Dídimo sobre Jeremias. Faulhaber, p. 107, indica um quarto inédito. Encontram-se em Faulhaber, Die Propheten-Catenen nach römischen Handschriften, em Biblische Studien, Friburgo em Brisgóvia, 1899, t. IV, fasc. 2 e 3, p. 169, 179, duas escólias sobre Daniel. 2° Novo Testamento. — A explicação do Evangelho de são Mateus, o texto original das escólias sobre a Iª Epístola aos Coríntios, das quais são Jerônimo nos conservou fragmentos numa versão latina, P. L., t. XXII, col. 511, 968-970, o comentário sobre a Epístola aos Gálatas, anterior ao ano 387, a breve explicação, commentarioli, da Epístola aos Efésios, também pereceram. Encontram-se escólias sobre o Evangelho de são João nos Paralelos sagrados, P. G., t. XCVI, col. 484, na Cadeia de B. Cordier, Catena Patrum Græcorum in sanctum Joannem, Antuérpia, 1630, e na de Cramer, Catenæ Græcorum Patrum in Novum Testamentum, Oxford, 1844, t. II, enfim na Bibliotheca nova de Mai, P. G., t. XXXIX, col. 1645-1654. J. Chr. Wolf, Anecdota Græca, Hamburgo, 1724, t. IV, forneceu, a partir de uma Cadeia, fragmentos sobre os Atos dos apóstolos, P. G., ibid., col. 1653-1678; deve-se a Cramer, op. cit., t. III, uma trintena de fragmentos novos. Encontram-se ainda alguns em Teofilato. Lê-se além disso em Cramer, op. cit., t. IV, p.
196 sq., um fragmento sobre a Epístola aos Romanos, e, t. VII, p. 131 sq., outro fragmento sobre a Epístola aos Hebreus. O cardeal Mai publicou fragmentos extensos da explicação da IIª carta aos Coríntios, P. G., ibid., col. 1679-1732. O que há de menos mutilado como tradução é o comentário das sete epístolas católicas, In Epistolas canonicas enarratio. Resta-nos dele a versão latina de Epifânio, o amigo de Cassiodoro; Lücke, em sua edição crítica do texto, juntou-lhe alguns fragmentos gregos, P. G., ibid., col. 1749-1818. Deve-se também a Cramer alguns outros fragmentos gregos, op. cit., t. VIII. Um fragmento de Dídimo sobre a Iª Petri é assinalado em dois manuscritos do Escorial por Faulhaber, em Biblische Zeitschrift, 1905, p. 405 sq. A autenticidade integral da tradução latina foi outrora contestada por Klostermann, em Texte und Untersuchungen, Leipzig, 1905, t. xxvii, fasc. 2. Cf. J. Leipoldt, op. cit., p. 22-93. III. DOUTRINA. — A teologia de Dídimo não é um monumento, a obra de um pensamento original e poderoso; dir-se-ia antes um mosaico, cujas peças, de proveniências diversas, atestam, com a erudição do autor, o curso das ideias e o estado dos espíritos no século IV. Origenista antes de tudo, Dídimo não é, contudo, o eco servil de Orígenes, e, por mais acentuado que seja o ar de família entre as duas doutrinas, constatam-se nelas mais de uma dissonância. A teodiceia, a angelologia, a psicologia, a escatologia de Dídimo trazem em particular a marca do mestre que o havia fascinado. A simplicidade de Deus, οὐσία ἀπλῆ, P. G., t. XXXIX, col. 1064, 1560, etc., com seus corolários naturais, imutabilidade, espiritualidade perfeita, invisibilidade, transcendência soberana, etc., constitui o fundo da teodiceia de Dídimo, que de bom grado reduziria Deus a não ser senão uma espécie de ponto matemático. O ardor da luta contra a filosofia aristotélica de Aécio e de Eunômio o arrasta a insistir fortemente na incompreensibilidade de Deus. O homem não pode formar aqui embaixo nenhuma ideia de Deus senão por via de analogia, col. 308, 1066. A própria Escritura não nos dá senão um conhecimento muito imperfeito e desproporcionado à natureza divina, col. 505. Só no fim dos tempos adquiriremos um pleno conhecimento de Deus, col. 1317. Como Orígenes, Dídimo admite a criação ab æterno; Deus, com efeito, age sem cessar, t. XLV, col. 1288; pensar, para ele, é agir, t. XXXIX, col. 277. Os anjos saíram os primeiros das mãos de Deus. Bons ou maus, não são, no sentido rigoroso da palavra, puros espíritos; todos têm, senão um corpo terrestre análogo ao do homem, col. 481, 1773, ao menos um corpo mais ou menos etéreo e sutil, conforme a eminência de sua perfeição ou a profundidade de sua queda, col. 1109. Enquanto os demônios conspiram nossa perda, col. 1157, 1171, os bons anjos velam por nós e intercedem por nós; de modo que lhes devemos um culto, col. 1039, 1772, 1773. Mas não há anjos que sejam as almas dos astros e lhes comuniquem o movimento com a vida, col. 428. Enquanto Dídimo rejeita a fábula da metempsicose, col. 1145, 1332, sem contradição ele crê na preexistência da alma humana, col. 773, 777, 1755, etc. Não é certo que Dídimo seja tricotomista. Pois, além de em muitas passagens, col. 765, 1145, 1185, 1520, etc., professar a dicotomia e não perceber no homem senão um corpo e uma alma, os numerosos textos nos quais ele reconhece, ao lado do corpo e da alma, ψυχή, um outro elemento constitutivo, νοῦς, não implicam necessariamente uma terceira substância; por que não entendê-los, ao contrário, como uma distinção modal, uma distinção entre a alma e sua faculdade mais nobre, a razão? O pensamento da parusia não parece ter assombrado o espírito de Dídimo; ele só falou uma vez, col. 765, talvez sob o império de uma viva e passageira emoção, do fim próximo do mundo. Quanto às esperanças fantasiosas do milenarismo, ele as reprova com energia, col. 1756. Não há dúvida de que ensina a ressurreição da carne, col. 1309, e que, ao fazer ressaltar as qualidades novas do corpo ressuscitado, col. 1709, 1818, mantém a identidade essencial desse corpo com nosso corpo da terra, col. 1309. São Jerônimo, Adversus Rufinum, I, 6; II, 11, 16, P. L., t. XXIII, col. 401-402, 437, 438-439, acusa Dídimo de ter sustentado a apocatástase de Orígenes. Disso nos admiramos a princípio um pouco; pois não é raro ouvir Dídimo falar da eternidade das penas do inferno, P. G., t. XXXIX, col. 669, 749, 1104. Cumpre notar, todavia, que Dídimo nem sempre emprega as palavras eterno e eternidade em seu sentido preciso e rigoroso, col. 516-517. Confessemos, aliás, que sua teoria do caráter essencialmente medicinal dos castigos divinos, col. 673, 1088, 1108, 1176, 1261, 1404, etc., e sua outra teoria da eficácia soberana da redenção, col. 404-405, 409, 1759, 1770, se enquadram, a bem ver, no sistema da restauração universal e parecem dar razão à acusação de são Jerônimo. Diante do dogma da trindade, Dídimo, espírito pouco especulativo, carece por vezes de precisão e de nitidez em sua linguagem, assim como de fixidez e de coesão em seus pensamentos; mas, tudo considerado, a ortodoxia de sua doutrina, a qual se ressente ao mesmo tempo de santo Atanásio e de são Basílio, está fora de dúvida, S. Jerônimo, Adversus Rufinum, II, 27, e P. G., t. XXXIX, col. 438, 477; nem os arianos, nem menos ainda talvez os macedonianos encontrarão algo a colher na doutrina de Dídimo. As duas faces, por assim dizer, do dogma trinitário, a unidade numérica da natureza divina, μία οὐσία, col. 405, 452, 476, 565, 581, etc., e a distinção das três pessoas em Deus, com sua perfeita igualdade, De Trinit., I, 16, 26, 27; II, 2, col. 332-336, 389, 396, 792, e sua absoluta consubstancialidade, De Trinit., I, 18, 20, col. 356, 369, ali são respeitadas e postas em relevo. A célebre fórmula, μία οὐσία, τρεῖς ὑποστάσεις, em seu sentido tradicional, é provavelmente de Dídimo; encontra-se, ao menos, sob sua pena, antes que ela recebesse do concílio de Alexandria, em 362, seu diploma de ortodoxia, e que os Basílio e os Gregório de Nazianzo a tivessem popularizado. Dídimo é também o partidário decidido do homoousion, que aplica seja à Trindade inteira, seja a cada uma das pessoas divinas em particular. De Trinit., I, 19, 27, 28, col. 368, 397, 409. Mas, ao reconhecer no seio da Trindade a unidade da vontade e, por conseguinte, a unidade da ação, μία ἐνέργεια, Dídimo não deixa de se mostrar indeciso e impreciso. Pois ora entende essa μία ἐνέργεια em todo o rigor dos termos, De Trinit., I, 7, 8, 15, col. 565, 624, 717; ora se reduz a dizer que as três pessoas divinas agem sempre em comum, De Trinit., II, 1, col. 452; ora atribui a cada uma das pessoas divinas sua atividade especial, De Spiritu Sancto, 27, col. 1058, e parece repartir entre elas a obra da redenção. De Trinit., III, 39, col. 980. Quanto à distinção do Pai, do Filho e do Espírito Santo, Dídimo, depois de parecer a princípio considerá-la como puramente nominal, ou quase, De Trinit., I, 36, col. 440, volta atrás e sustenta que ela repousa sobre um fundamento real. De Trinit., II, 6, col. 552. Entre as pessoas divinas tudo é idêntico, salvo o que decorre de suas relações. É próprio do Pai gerar, ser pai. É o caráter próprio do Filho e do Espírito Santo procederem um e outro, aquele do Pai somente, este do Pai e do Filho, aquele por via de geração, γέννησις, este por via de espiração, ἐκπόρευσις. De Trinit., I, 9, 15, 31; II, 388, col. 277, 320, 437, 976. Dois atos eternos e contínuos, sem começo e sem fim. Mas a inteligência completa da diferença desses dois atos está absolutamente acima do alcance de todos os espíritos criados. De Trinit., II, 1; III, 88, col. 448, 976. Dídimo, aliás, proclama bem alto e sem rodeios a divindade do Espírito Santo. A cristologia de Dídimo, embora um exame superficial nela revele mais de um empréstimo ao vocabulário de Ário, reflete na realidade a cristologia de santo Atanásio e prepara a de são Cirilo de Alexandria. Tudo nela se inspira do axioma dos primeiros séculos cristãos, τὸ ἀπρόσληπτον ἀθεράπευτον, quod assumptum non est, neque sanatum est. Ao contrário de Ário, Dídimo, seguindo Orígenes, reconhece uma alma humana no Verbo encarnado. De Trinit., III, 2, 21; In Ps., col. 797, 900, 904, 1289, 1465. Ao contrário de Apolinário o jovem, que combate sem o nomear e sempre com perfeita cortesia, em Jesus Cristo reconhece, independentemente da ψυχή, o νοῦς humano, a alma racional. In Ps., col. 1456, 1465. Insurge-se também contra a ideia atribuída ao bispo de Laodiceia, de que o corpo de Jesus Cristo desceu do céu, De Trinit., I, 8; In Epist. I Joa., col. 849, 1796; e refuta de passagem alguns hereges de seu tempo que relegavam para o sol, até o tempo da parousia, o corpo de Jesus ressuscitado. In Ps., col. 1269. Não obstante certas locuções impróprias ou equívocas, não se pode duvidar de que Dídimo ensine, sem contudo formulá-lo explicitamente, o dogma das duas naturezas em Jesus Cristo, De Trinit., I, 9; III, 4, 3, 816, 817; In Ps., col. 289, 817, 1283; e que professe igualmente o da unidade da pessoa do Homem-Deus. De Trinit., I, 27, col. 397. Por isso, compraz-se em saudar Maria com o nome de Mãe de Deus, θεότοκος, De Trinit., I, 31; III, 4; III, 6, 41, col. 421, 481, 484, 848, 988; e em proclamar sua virgindade perpétua, ἀειπαρθένος, De Trinit., I, 27, col. 404. Tillemont, Mémoires, 1780, t. X, p. 185-452, 330; Fabricius Harless, Bibliotheca Græca, t. IX, p. 269 sq., em P. G., t. XXXIX, col. 134-140; J. A. Mingarelli, De Didymo commentarius, ibid., col. 1389-216; Epistola de opere antiqui theologi inedito, ibid., col. 993-1080; Th. Schermann, Die Gottheit des hl. Geistes, c. VII, p. 189-223; Bardenhewer, Les Pères de l'Église, nouv. édit. franc., Paris, 1905, t. I, p. 124-128; J. Leipoldt, Didymus der Blinde von Alexandria, Leipzig, 1905, em Texte und Untersuchungen, t. XXIX, fasc. 4; Stolz, Didymus, Ambrosius, Hieronymus, em Theologische Quartalschrift, 1905, t. XXXVII, n. 3.
Autor original: P. Godet
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