DÉSIRANT (BERNARDO)

DÉSIRANT (BERNARDO)

DÉSIRANT Bernard, teólogo e polemista belga, da ordem dos eremitas de Santo Agostinho, nasceu em Bruges a 21 de maio de 1656, de uma família honrada, mediocremente favorecida pelos bens da fortuna. Entrado ainda muito jovem entre os agostinianos de sua cidade natal, distinguiu-se muito rapidamente por sua grande penetração de espírito e seu ardor em defender suas convicções. Depois de seus estudos, encarregaram-no primeiro do curso de retórica no colégio de Bruges em 1679, depois, alguns anos mais tarde, do de filosofia no convento de Bruxelas. Mas logo se entregou por inteiro à teologia e especialmente às questões de controvérsia. Estas últimas ofereciam então um vasto campo à sua atividade naturalmente impetuosa. A universidade de Lovaina, onde obteve o grau de doutor em 1685, estava dividida em dois campos: o dos rigoristas de tendências jansenistas, representado por Van Espen e Huyghens, e o dos moderados, agrupados em torno de Steyaert e Dubois. O P. Désirant, numa tese retumbante, declarou-se por estes últimos contra os jansenistas, em 11 de maio de 1683. Desde essa época, ocupou a cátedra de teologia no interior de seu convento. Em 1689, a cátedra de história do colégio universitário de Busleyden foi-lhe confiada, apesar de várias oposições por parte do conselho dos Regentes, depois de dispensa concedida pelo papa Inocêncio XII e graças ao apoio do rei Carlos II, que já havia nomeado o novo titular historiógrafo real em 1688. Ao mesmo tempo, ocupou em sua ordem vários postos de confiança; foi definidor provincial em 1689, subprior de Lovaina em 1691, presidente do capítulo em 28 de abril de 1697, visitador dos conventos em 1700, e novamente definidor em 1703. Mas, no seio da universidade, as controvérsias tinham se tornado mais agudas, e o P. Désirant foi escolhido em 1692, pelo arcebispo de Malines, para transmitir a Roma as queixas suscitadas na Bélgica pelo ensino dos doutores rigoristas. Ele havia extraído das obras de seus adversários mais marcantes, 65 proposições que queria fazer condenar. Os doutores denunciados fizeram-se representar diante das congregações romanas pelo doutor Hennebet, e a condenação não foi proferida. Em 22 de abril de 1697, numa reunião realizada em Bruxelas, vivos descontentamentos irromperam de novo; queria-se, para remediar o mal, desorganizar a própria universidade. Nessa ocasião, o P. Désirant publicou, mas sem grande sucesso, o opúsculo: Accusatio et querela populi Belgici, dedicado ao geral de sua ordem. Em consequência de distúrbios políticos e por causa de seu ardor contra o rigorismo, foi relegado por Luís XIV, por cinco meses, à cidade de Saint-Trond. Restabelecido em suas funções, retomou seus estudos e suas controvérsias. Quatro anos mais tarde, sobreveio o caso conhecido pelo nome de "fraude de Lovaina". De notoriedade pública, os rigoristas desejavam ver a Bélgica transformada em República ou Províncias Unidas. Pretende-se que o P. Désirant se encarregou de fazer a prova de uma real conjuração, produzindo à luz numerosas peças acusatórias. Os acusados sustentaram energicamente que todo o dossiê não continha senão peças fabricadas pelo acusador para as necessidades da causa. Ver a coletânea publicada por ocasião do processo: Conclusio finalis pro consultissimo Domino Joanne Baptista Van Cutsem J. U. L. universitatis Lovaniensis promotore seu fisco generali, nomine officii actore, contra Patrem Desirant reum inquisitum, personaliter citatum, e assinado por H. Malcorps. Depois de um processo de 15 meses, o P. Désirant foi condenado em 18 de maio de 1708, destituído de seu cargo e banido dos Países Baixos. Todavia, a sentença traz apenas esta acusação: Tanquam suspectus qui concurrerit ad fabricandum prescriptas litteras, formularia et resolutiones. Depois de ter passado algum tempo em Aix-la-Chapelle, o P. Désirant foi chamado a Roma por Clemente XI, que lhe confiou a cátedra de Escritura Sagrada no colégio da Sapiência; o registro do geral dos agostinianos, Thomas Cervioni, acrescenta que ele foi nomeado prefeito dos estudos no colégio da Propaganda, e qualificador do Santo Ofício. Por sua vez, o imperador José I enviou-lhe em 15 de setembro de 1710 um diploma dos mais lisonjeiros, no qual o declarava theologum cæsareum. Enfim, o principal acusador do P. Désirant, Pierre Nicolas Tourteau, prestes a morrer, fez redigir por seu confessor, assistido por duas testemunhas, um ato de retratação, no qual declarava caluniosas suas antigas imputações contra esse religioso e pedia humildemente perdão de suas culpas. Ver Petri Nicolai Tourteau Lovaniensis pœnitentia christiana, dum die 17 octobris 1713 in articulo mortis declarat se falsitatis labe inuisisse eximium Patrem Bernardum Desirant, ordinis eremitarum S. Augustini, etc., ab eoque veniam petit, et in revocatione jurata pie ut confiditur, quarto die post defungitur. Contra D. Henricum Malcorps tanquam evulgatorem famosæ conclusionis finalis, Colônia, 1713. O P. Désirant continuou em Roma, cercado de consideração, a guerra sem tréguas que havia declarado aos jansenistas e a seus partidários: desempenhou notavelmente um papel apreciável nas contendas em que esteve envolvido o cardeal de Noailles. Morreu em 2 de março de 1725, com 74 anos de idade. Tem-se dele um grande número de obras, dirigidas em sua maioria contra os jansenistas. Damos a seguir a lista quase completa: 1° De Ecclesia et pontifice, in-4°, Louvain, 1684, 1686; 2° Oratio de veritate SS. cruoris Domini, qui Brugis Flandrorum... colitur, in-4°, Louvain, 1686; 3° De auxiliis divinis in via media S. Augustini, in-4°, Louvain, 1687; 4° Clarissimi Domini Zegeri Bernardi Van Espen juris utriusque doctoris et professoris Palinodia Palinodiæ bullæ Clementis VIII, quintuplex capitulis corruptio, silentium multiplex et cetera, sive confutatio Apologiæ de verbo ad verbum, Louvain, 1686; 5° Theses theologicæ et conclusiones in theologia universa, Louvain, 1683, 1688; 6° De Romani pontificis infallibilitate, in-4°, Louvain, 1687; 7° De methodo romano-catholica remittendi peccata, Louvain, 1688; 8° De prescriptionibus sacrosanctæ eucharistiæ ad protestantes nostri temporis, in-8, Louvain, 1689, 1691; 9° Epistolica responsio ad Valentinum Randour S. facultatis theologicæ Duacenæ pro tempore decanum et Theodorum van Converden ejusdem facultatis S. theologicæ doctorem et professorem, s. l. (Bibl. Angelica, Q. 5. 24); 10° Conmonitorium ad orthodoxos de accusatis in urbe doctrinis DD. Gummari Huygens, Joannis Liberati Hennebell, Zegeri Bernardi Van Espen, Joannis Opstraet cum suis, sive imposturarum quæ ipsorum nomine prodierunt confutatio dispunctoria, in-4°, Louvain, 1701, condenado pelo Santo Ofício, em 26 de outubro de 1707; 11° Apologia pro P. Bernardo Desirant... contra impressam conclusionem finalem consultissimi H. de Malcorps, in-8°, Liège, 1709; 12° Consolatorium pro romano-catholicis per unitas provincias dispersis contra sex calumniatoria edita per octo Ultrajectinos missionarios lapsos, cum octo aliis Amstelodamensibus et novemdecim similibus Delphis, circa excommunicationem partim a nuncio pont. Coloniensi, de expresso SS. christianitatis parentis mandato legitime per nuntiaturam adversus Matthiam Tork, partim contractam per quosdam filios iniquitatis, Liège, 1709; essa obra apareceu em flamengo no mesmo ano, e foi traduzida para o francês pelo P. Théodose Bouille, carmelita; 13° Concordantia litterarum Z. B. V. E. (Zegeri Bernardi Van Espen) Lovanii in januario 1707 et litterarum Henrici Grasper ibidem in sequenti februario delectorum, De variis consiliis adversus romanum pontificem, in-8°, Liège, 1709; 14° Dialogi pacifici inter theologum et jurisconsultum contra libellum de quæstione facti Jansenii, variæ quæstiones juris et responsa, aliosque anonymos cum designatione V famosarum propositionum in libro Jansenii, Liège, 1710; 15° De nullitatibus aliisque defectibus schedulæ, quam D. Henricus Malcorps cum suis corruperunt, publicisque typis donarunt sub nomine sententiæ latæ contra P. Bernardum Desirant, 1710, apologia pessoal, condenada pelo Santo Ofício, em 31 de janeiro de 1713; 16° Christiana salvatio testium catholicorum rev. admodum Patrum Silvani a S. Francisco... et Leopoldi a S. Theresia, adversus schediasma Maximiliani Delbecque cujus titulus: Justitia et veritas vindicata adversus calumnias, errores et falsitates quibus scatet Apologia P. Desirant, Utrecht, 1710; 17° De la réformation régulière contre le libelle du Révérend D. Nicolas Heyendal: Orthodoxie de la foi et de la doctrine de l'abbé et des chanoines réguliers de Saint-Augustin de l'abbaye de Roduel, Maastricht, 1710; em latim, no mesmo ano; 18° Consolatorium secundum ad romano-catholicos per unitas provincias dispersos, contra calumniatoria nova Matthiæ Tork et similium circa lethargiam anno majorem novorum protestantium in demerita sua excommunicatione insordescentium, cum approbatione legati apostolici, Aix-la-Chapelle, 1711, traduzido também para o francês e o flamengo; 19° Antidotum doloris contra crudelia gaudia exultantium quod D. Petrus Codde in finali erga sedem apostolicam inobedientia excesserit, sive responsio ad libellum vernaculum cui titulus: Succincta relatio vitæ et mortis Revmi et Illmi D. Petri Codde archiepiscopi Sebasteni et per unitas provincias vicarii pontificii qui obiit Ultrajecti die 18 decembris 1710, Aix-la-Chapelle, 1711; 20° Honorius papa vindicatus, salva integritate concilii VI, sive historia monothelismi contra ultima jansenistarum effugia, Aix-la-Chapelle, 1711; a Biblioteca Angelica (Cod. A, 7, 10) contém um retrabalho inédito do mesmo trabalho, do qual o autor esperava dar uma segunda edição; 21° Dissertatio dogmatica de oratione Pharisæi et publicani sive de catholico sensu orationis dominicæ contra R. D. Nicolai Heyendal prioris Rodensis Apologiam pro abbate et priore monasterii Rodensis, Aix-la-Chapelle, 1712; 22° Actio epistolaris de gratia et libero arbitrio contra jansenismum latentem in 33 propositionibus excerptis e quibusdam R. D. Nicolai Heyendal, abbatiæ Rodensis prioris et doctoris, dictatis, Aix-la-Chapelle, 1712; 23° Prosecutio actionis epistolaris, in qua principaliter impenditur judicium cum censura S. facultatis theologicæ Coloniensis, super propositiones sex ex libro cui titulus: Defensio scriptorum theologicorum de gratia Christi a Nicolao Heyendal dictatorum, et pro generali totius causæ notitia, præmittitur brevis historia de vita, doctrina, et moribus Paschasii Quesnel, jansenistarum antesignani, Colônia, 1713; 24° Auctoritas episcopalis vindicata, sive expostulatio contra R. D. A. van Ertborn per diœcesim Antuerpiensem librorum censorem, tanquam approbatorem scripti cui titulus: Sub et obreptio demonstrata in causa libri abbatis Rodensis cui titulus: Defensio scriptorum theologicorum, Colônia, 1713; 25° Nullibista castigatus seu defensio pœnitentiæ christianæ contra anonymam satiram cui titulus: Epistola familiaris ad jurisconsultum Aquisgranensem, cum exactius instruens de prætensa P. Tourteau defuncti revocatione in causa P. Desirant et contra jansenismi reliquias, Colônia, 1714; 26° Consilium pietatis de non sequendis errantibus, sed corrigentibus injustas retractationes: I. Philippi IV Galliarum Regis, seu ministrorum eius circa gesta contra Bonifacium papam VIII; II. Joannis Charlier Gersonii circa suas novitates ad appellantes ad futurum concilium generale, 2 vol., Roma, 1720-1725; 27° S. Augustinus vindicatus contra centum et unam damnatas Paschasii Quesnelli propositiones, et contra Joannis Frickii, luterani Ulmensis, in clementiam Clementis examinantem, 1714; Joh. Wolfg. Jægeri, luterani tubicensis, bullam novitiam pont. maximi Clementis XI sub examine vocantem, 1714; Gottlob Friderici Jenichen, luterani lipsiensis, historiam et examen bullæ Clementis XI, 1714; et contra anonymi (seu Paschasii Quesnelli cum suis) Hexaplas, 1715; Libri centum et unus, opus in 7 partibus distributum, in-4°, Roma, 1721-1728. Ossinger, Bibliotheca augustiniana, p. 291-292; Lanteri, Postrema secula sex religionis augustinianæ, t. I, p. 27-29; Hutter, Scriptores eremitani ordinis sancti Augustini, em Ciudad de Dios, 1883, t. VI, p. 157-159; Hurter, Nomenclator, t. II, col. 1026-1027; Biographie nationale (de la Belgique), t. V, p. 734-741; P. Keeloff, Histoire de l'ancien couvent des ermites de Saint-Augustin à Bruges, p. 245-261; Goethals, Lectures relatives à l'histoire des sciences, etc., en Belgique, t. I, p. 200-218.

Autor original: N. Merlin

A extração e a tradução foram feitas por IA e em caso de algum erro podem entrar em contato com o editor