DESESPERO. — I. Pecado de desespero. II. Tentação de desespero.
I. PECADO DE DESESPERO. — 1° Definição teológica. — É um ato da vontade que se desvia de Deus como fim último, porque se julga a aquisição da felicidade eterna inteiramente impossível para si mesmo. — 1. Desviar-se de Deus como fim último, porque se o odeia positivamente, é um pecado de ódio a Deus, imediatamente oposto à caridade, o pecado mais considerável de todos, visto que é o mais radicalmente contrário ao fim último. Ver t. III, col. 2261 sq. Afastar-se de Deus como fim último por causa do desânimo ou do abatimento causado por uma dificuldade julgada insuperável é o pecado de desespero, quer a impossibilidade recaia sobre o próprio fim último, quer sobre os meios necessários para alcançá-lo. — 2. Essa aversão é um ato positivo da vontade que afasta deliberadamente toda esperança. Uma viva impressão de desânimo, sobretudo se se prolonga e se causa alguma perturbação no exercício normal das faculdades, pode constituir um perigo de arrastamento para a vontade. Ela não pode ser uma falta enquanto a vontade não tiver consentido. O que também se deve aplicar às perturbações mais profundas de desânimo e de desespero que a alma pode involuntariamente experimentar nas purificações passivas que precedem sempre, no plano divino, os favores extraordinários dos estados místicos. — 3. A aversão da vontade supõe sempre um falso juízo da inteligência considerando a felicidade eterna como inacessível ao próprio indivíduo. Por esse falso juízo, nega-se absolutamente, ao menos para si, a concessão do indispensável socorro divino, ou persuade-se falsamente que toda cooperação pessoal é impossível ou demasiado difícil para ser tentada com êxito. No primeiro caso, há heresia formal, se se adere positiva e cientemente a essa proposição herética de que há ao menos um fiel de quem Deus não quer realmente a salvação. No segundo caso, não há heresia, mas apenas juízo errôneo. Em uma e outra circunstância, deve-se distinguir cuidadosamente entre a adesão positiva da inteligência e uma simples sugestão ou suspeita, mesmo persistente, à qual não se consente de modo gravemente culpável.
2° Malícia. — 1. Malícia específica. — a) Em si, o desespero é um pecado especificamente oposto ao preceito sobrenatural da esperança cristã, uma vez que suprime seu termo final, a recompensa eterna, julgada inacessível por falta de socorro divino ou de cooperação pessoal. — b) À violação específica do preceito da esperança podem acidentalmente juntar-se outros pecados, notadamente o pecado de ódio ou a infidelidade, ou de blasfêmia e abandono completo de todos os deveres religiosos com todo o seu cortejo de faltas. 2. Gravidade objetiva. — Diretamente oposto ao grave preceito da esperança cristã, o desespero plenamente consentido pela vontade é sempre uma falta mortal, qualquer que seja o juízo, herético ou simplesmente errôneo, que lhe dê origem. Contudo, uma imperfeição acidental do consentimento sempre impediria a gravidade subjetiva numa dada circunstância. Salmanticenses, Cursus theologicus, tr. XVII, disp. V, n. 43. 3. Gravidade comparada. — O pecado de desespero, quando não é acompanhado nem de ódio nem de infidelidade, é um pecado de gravidade menor que a desses dois pecados opostos à fé ou à caridade, mas mesmo nesse caso ultrapassa em malícia os pecados opostos às outras virtudes, por causa da excelência particular da virtude da esperança. S. Tomás, Sum. theol., IIa IIae, q. XX, a. 3; Suárez, De spe, disp. II, sect. II; Salmanticenses, Cursus theologicus, tr. XVII, disp. V, n. 8 sq.; Billuart, De spe, a. 5; Gotti, tr. XI, De spe theologica, q. 1, n. 32, Theologia scholastico-dogmatica, Veneza, 1750, t. II, p. 504. Praticamente, o desespero plenamente consentido é soberanamente nocivo e perigoso, mais ainda que a infidelidade e o ódio a Deus, porque, na alma em que continua a reinar, paralisa inteiramente todo esforço na ordem sobrenatural e estabelece, por assim dizer, a sentença da danação eterna, S. Tomás, loc. cit., embora o arrependimento seja sempre possível com o socorro da graça divina.
II. TENTAÇÃO DE DESESPERO. — 1° Natureza. — Essa tentação, já o observamos, é uma sugestão da imaginação ou da inteligência, acompanhada na maioria das vezes de uma perturbação sensível, e que constitui para a vontade um perigo de arrastamento ao pecado de desespero. Como qualquer outra tentação, pode produzir-se sem falta alguma de nossa parte, mesmo in causa, e não é em si mesma uma falta enquanto seu objeto não for ratificado pela vontade. Mas ela constitui para a vontade um perigo mais ou menos imediato e mais ou menos grave de se deixar arrastar ao consentimento. 2° Causas e remédios. — Em cada caso particular, várias causas podem contribuir para o nascimento ou o desenvolvimento da tentação. O confessor ou o diretor deverá analisá-las com cuidado para determinar os remédios espirituais mais apropriados. — 1. Essa tentação pode ter origem na grandeza e na frequência das faltas passadas e na impossibilidade presumida de quebrar-lhes o jugo. Dever-se-á opor o motivo soberanamente eficaz da infinita misericórdia de Deus e da onipotência de sua graça sempre assegurada às almas de boa vontade. — 2. A tentação pode ainda provir do hábito de escrúpulos não combatidos e que dominam inteiramente a inteligência e a vontade. O remédio será um paciente e perseverante tratamento do escrúpulo, sujeitando a consciência pela regra da obediência a não levar em conta as dúvidas infundadas que a torturam sem descanso. — 3. A causa determinante das tentações pode ser por vezes a leitura de autores moralistas ou ascéticos demasiado rígidos, que descrevem os preceitos cristãos ou os conselhos de perfeição como inacessíveis à fragilidade humana. O mesmo efeito pode resultar de uma direção espiritual cujas exigências excessivas repelem e desencorajam. Em um e outro caso, dever-se-á afastar essas funestas influências e substituí-las por uma direção sábia e prudente, sempre proporcionada às forças morais do penitente. — 4. Essas diversas causas podem ser poderosamente aumentadas por uma disposição habitual de tristeza ou de melancolia proveniente do temperamento ou da doença. Se se quiser, nesse caso, exercer uma influência salutar, dever-se-á recorrer aos meios terapêuticos ou preventivos necessários ou úteis. — 5. Os casos mais excepcionais de tentação particularmente permitida por Deus para purificar a alma e dispô-la aos mais altos favores sobrenaturais merecem uma atenção especial. — a) A ocasião principal desse profundo sentimento de desespero é a consciência íntima que se experimenta da grandeza de suas faltas e da extensão de suas misérias e falhas. Quanto mais a alma é favorecida com luzes extraordinárias que lhe manifestam a infinita santidade de Deus, tanto mais ela tende a rebaixar-se na consciência de sua própria indignidade; e, se não cuida de apoiar-se fortemente na confiança em Deus, pode facilmente ser levada ao desânimo e ao desespero. Philippe de la Sainte-Trinité, Summa theologiæ mysticæ, Paris, 1874, t. 1, p. 455 sq. — b) Para uma alma que ama a Deus sinceramente, o sofrimento que causa esse violento estado de abatimento é o mais doloroso e o mais intenso que se possa sentir, sobretudo porque o mal que se teme é eternamente irremediável. — c) Nessa temível provação, é frequentemente difícil julgar em que medida se pôde consentir imperfeitamente. Mas, tratando-se de almas muito desejosas de unir-se a Deus e muito cuidadosas em evitar as menores faltas, pode-se facilmente presumir que não ofenderam Deus de modo algum, sobretudo em circunstâncias em que o jogo normal das faculdades está tão transtornado. Aliás, graças especiais sustentam essas almas em vista dos altos favores a que Deus as destina. Schram, Theologia mystica, 2ª ed., Paris, 1848, t. 1, p. 425 sq. — d) O principal esforço do diretor espiritual deve ser sustentar a confiança e a generosidade dessas almas atribuladas, mostrando-lhes nessas grandes provações uma marca do amor todo especial de Deus, que quer depois colmá-las de inefáveis favores e que saberá sustentá-las por sua graça todo-poderosa. Que se esforce sobretudo por mantê-las numa generosa e constante conformidade à vontade de Deus, ditada por seu amor e sustentada pelos heroicos exemplos de almas semelhantemente provadas, e depois liberalmente recompensadas por Deus. Philippe de la Sainte-Trinité, op. cit., p. 458 sq.; Meynard, Traité de la vie intérieure, 3ª ed., Paris, 1899, t. 1, p. 266 sq. Entre os teólogos moralistas e místicos, pode-se consultar particularmente: S. Tomás, Sum. theol., IIa IIæ, q. xx, a. 3; Suárez, De spe theologica, disp. II, sect. 1; Philippe de la Sainte-Trinité, Summa theologiæ mysticæ, Paris, 1874, t. 1, p. 455 sq.; Salmanticenses, Cursus theologicus, tr. XVIII, disp. V; Antoine du Saint-Esprit († 1677), Directorium mysticum, tr. II, disp. VII, sect. 1, n. 313 sq., Paris, 1904, p. 167 sq., 171 sq.; Salmanticenses, Cursus theologiæ moralis, tr. XXI, c. VI; Thomas de Vallgornera, Mystica theologia divi Thomæ, q. II, disp. VII, a. 9, Turim, 1890, t. 1, p. 293 sq.; Billuart, Tractatus de spe, a. 5; Schram, Theologia mystica, 2ª ed., Paris, 1848, t. 1, p. 425 sq.; Meynard, Traité de la vie intérieure, 3ª ed., Paris, 1899, t. 1, p. 259 sq., 266 sq.; Lehmkuhl, Theologia moralis, t. 1, n. 340 sq.
Autor original: E. Dublanchy
A extração e a tradução foram feitas por IA e em caso de algum erro podem entrar em contato com o editor