DAVID DE DINANT

DAVID DE DINANT

6. DAVID DE DINAN (ou DE DINANT). — I. Vida. II. Erros. I. VIDA. — Assim nomeado, segundo o costume, pelo lugar de sua origem; mas trata-se de Dinan na Bretanha ou de Dinant, sobre o Meuse, na Bélgica? Não se sabe, e ignora-se a data exata de seu nascimento e de sua morte. O que há de certo é que seu nome aparece ao lado do de Amaury de Bene, uma primeira vez no julgamento do concílio da província de Sens, realizado em Paris, em 1210, e uma segunda vez no regulamento, dado em 1215 pelo legado do papa, Robert de Courçon, à universidade de Paris. Denifle, Chartularium universit. Paris., Paris, 1889, t. I, p. 70, 79. Relativamente a Amaury, o concílio parisiense ordena que seus restos sejam exumados para serem lançados fora da terra bendita, e que, em todas as igrejas da província eclesiástica de Sens, seja promulgada a sentença de excomunhão proferida contra este herege; relativamente a David, ordena que seus Quaternuli sejam entregues, antes da festa de Natal, ao bispo de Paris, que os queimará, e que qualquer um que, após a dita festa, tiver retido algum exemplar, será tido por herege. Por seu lado, o legado pontifício proíbe à universidade de Paris ler as obras de David de Dinan, de Amaury de Chartres e de Maurice d'Espagne.

II. Erros. — 1° Condenação de suas obras. — A interdição pronunciada por Robert de Courçon contra as obras de David autoriza a dizer que as consideravam, no mínimo, como um perigo para o ensino. Continham elas também alguma heresia? Ela não fala disso. Mas, à sua falta, a sentença do concílio de Paris é bastante explícita e permite responder afirmativamente. Sem dúvida ela não qualifica David de herege em termos expressos, como o faz para Amaury de Chartres; mas, a partir do momento em que declara que qualquer um que detivesse seus Quaternuli seria reputado herege, é porque a doutrina que neles se encontra é considerada como contrária à fé e manchada de heresia. Para julgar com conhecimento de causa, não temos mais esses Quaternuli, nem o De tomis, outra obra de David; eles desapareceram nas chamas da fogueira. E desde então, se não podemos duvidar da heterodoxia de David, é difícil saber em que consistia exatamente sua heresia.

2° Natureza de seus erros. — Com certeza, seu nome não foi fortuitamente aproximado do de Amaury na mesma sentença de condenação e de interdição; mas ainda assim tal aproximação não constitui de modo algum uma presunção em favor de uma relação estreita, muito menos de uma identidade, entre sua doutrina e a de Amaury; sem o que, teríamos amplas informações no resumo dos erros dos quais foram convencidos os discípulos de Amaury, Denifle, Chart. univ. Paris., t. I, p. 70, e no relato do processo de 1210 feito por Guillaume le Breton, De gestis Philippi Augusti, em Rerum Gallic. scriptores, t. XVI, p. 82-88, e por Césaire d'Heisterbach, Illustr. mirac. et historia memorabilis, l. V, c. XXII. Cf. Chronicon Laudunensis canonici, em Rerum Gallic. scriptores, t. XVI, p. 715. Ver t. I, col. 937-938. É preciso, portanto, procurar alhures; e sem os testemunhos concordantes de Alberto Magno e de São Tomás de Aquino, que conheceram e combateram o ensino de David, estaríamos reduzidos a conjeturas. Mas, graças a esta dupla fonte que nada pode fazer suspeitar, sabemos um pouco a que nos ater: David de Dinan professou um panteísmo materialista.

3° Sua obra, De tomis, id est de divisionibus. — Esta obra, da qual fala Alberto Magno, Sum. theol., part. I, tr. IV, q. XX, m. 1, recorda pelo seu título o Περὶ φύσεως μερισμοῦ de João Escoto Erígena. Partindo deste princípio de que, no conjunto das coisas, cada gênero contém a matéria das espécies que lhe são subordinadas, ele concluía que o gênero supremo, o mais universal dos gêneros, isto é, o ser, contém a matéria de tudo o que é, a dos corpos, a das almas e a das substâncias separadas; tripla matéria, distinta para nós, mas que se reduz à unidade no seio do ser, que constitui o ser e é o ser mesmo, isto é, Deus. Deus, portanto, é a matéria de todos os seres. Para partir deste princípio e chegar a esta conclusão, David usava raciocínios sutis e cheios de equívocos, dos quais eis uma amostra tal como é reproduzida textualmente por Alberto Magno, loc. cit. «A inteligência concebe ao mesmo tempo Deus e a matéria. Ora, a inteligência não compreende uma coisa senão sob a condição de assimilar-se a ela. É preciso, portanto, que ela se assimile a Deus, à matéria. Mas trata-se aqui de uma identificação completa ou de uma simples assimilação? Não pode tratar-se de uma pura assimilação, pois tal assimilação só ocorre por meio de uma forma abstrata do objeto inteligível, e nem a matéria, nem Deus, têm forma. Se, portanto, a inteligência os concebe, é porque ela lhes é idêntica. Logo, a inteligência, a matéria e Deus são uma mesma coisa.» Poder-se-ia ainda citar outros argumentos semelhantes, reproduzidos textualmente por Alberto Magno; mas este basta para dar uma ideia do procedimento dialético de David. Sua conclusão, sempre a mesma, é que não há senão uma substância única, que é ao mesmo tempo matéria, inteligência e Deus. Tal é o sistema de David de Dinan. São Tomás, que o caracteriza com uma palavra bastante dura, tratando-o de insensato, vai nos ajudar a precisá-lo.

Tendo, com efeito, que tratar a questão de saber se Deus entra na composição dos outros seres, Sum. theol., Ia, q. III, a. 8, ele observa que há três erros sobre este ponto. Uns, diz ele, avançaram, como se vê em Santo Agostinho, De civ. Dei, l. VII, c. VI, P. L., t. XLI, col. 199, que Deus é a alma do mundo (Zenão, por exemplo, e Varrão, diretamente visado pelo bispo de Hipona e, no século XII, Pedro Abelardo, que dizia que o Espírito Santo é alma do mundo, Denzinger, Enchiridion, n. 312); os outros, como Amaury de Chartres e seus discípulos, afirmaram que Deus é o princípio formal de todas as coisas; outros, enfim, entre os quais David de Dinan, pretenderam loucamente que Deus não difere da matéria-prima: tríplice opinião, manifestamente falsa, pois Deus não pode entrar na composição de criatura alguma, nem como princípio formal, nem como princípio material. E é o que prova o doutor angélico. Alhures, ele se expressara assim: «O erro de alguns antigos filósofos foi admitir uma essência comum a Deus e a todas as coisas. Supunham, com efeito, que todas as coisas são um único ser e não diferem, como disse Parmênides, senão por simples aparências, ao julgamento de nossos sentidos. Esta opinião dos antigos filósofos foi seguida por alguns modernos, entre os quais se pode colocar David de Dinan. Com efeito, este dividia as coisas em três categorias: os corpos, as almas, as substâncias separadas. Ele chamava ὕλη (matéria) o primeiro indivisível que é o fundamento dos corpos, e νοῦς (espírito) ou espírito o primeiro indivisível que é o fundamento das almas; quanto ao primeiro indivisível entre as substâncias eternas, ele o chamava Deus; e dizia que essas três coisas são uma só e mesma coisa e, por conseguinte, que todas as coisas são por essência um.» In IV Sent., II, dist. XVII, q. I, a. 1; Cont. gent., l. I, c. XVII.

4° Panteísmo materialista: suas funestas consequências. — Assim, pois, David de Dinan professou o panteísmo como certos filósofos gregos e como Amaury de Chartres, mas com esta diferença característica de que, ao invés de fazer de Deus, como eles, seja a alma do mundo, seja o princípio formal dos seres, ele fez dele o princípio material. Ora, de qualquer maneira que se professe o panteísmo, as consequências não podem ser senão desastrosas do ponto de vista da fé e dos costumes. Não é, pois, de admirar desde então que David de Dinan tenha sido condenado pela Igreja, sob o mesmo título que Amaury de Chartres. As consequências desastrosas tiradas praticamente do ensinamento de Amaury por seus discípulos, nós as conhecemos: elas não visavam a nada menos que a arruinar de alto a baixo a fé, a religião cristã, seu culto, sua moral. Pretendiam, com efeito, que a história do mundo se divide em três períodos sucessivos, governados cada um por uma das três pessoas da Trindade, com a exclusão das duas outras. O primeiro, o Pai, encarnara-se na pessoa de Abraão e reinou pela lei escrita e o ritual mosaico até o momento em que o Filho, encarnando-se na pessoa de Jesus, substituiu o Evangelho, a Igreja e os sacramentos pela lei, pela sinagoga e pelos ritos judeus. Mas, por sua vez, o reino de Cristo chegava ao seu fim e deveria dar lugar definitivamente à economia nova, a do Espírito Santo. Pois doravante, pensavam eles, é o Espírito Santo que se encarna, não mais em uma pessoa isolada, mas em cada um de nós, e pelo mesmo nos liberta em relação ao Evangelho, à Igreja, ao seu símbolo, aos seus mandamentos, aos seus sacramentos e aos seus ritos litúrgicos. Era, vê-se, sob cor religiosa, sacudir todo jugo, proclamar a independência e a autonomia individual e, a bem dizer, suprimir não somente o catolicismo, mas ainda toda religião. Tão funestas consequências decorriam logicamente do sistema panteísta de David de Dinan com uma nota materialista ainda mais acentuada. Que David as tenha tirado ele mesmo em seus escritos ou em suas palavras, é o que nenhuma informação contemporânea autoriza a pensar. Mas elas eram fáceis de tirar, e bastava que seus princípios as contivessem para que sua doutrina fosse reprovada e condenada. Explica-se por aí que seus Quaternuli, notadamente, tenham sido interditos: eles continham em particular a heresia do panteísmo materialista.

5° Fonte de seus erros. — Onde, pois, David poderia ter haurido tal ensinamento? A questão, interessante do ponto de vista da origem e da filiação de seu panteísmo, é bastante difícil de resolver de maneira precisa, e exerceu a sagacidade investigadora dos eruditos. A simples justaposição de seu nome ao lado do de Amaury e de Aristóteles poderia deixar crer em uma relação de efeito a causa; não é nada disso, pois, assim como acabamos de ver, o pensamento de David não deve ser identificado nem com o dos filósofos panteístas da antiguidade grega ou latina, nem com o de Amaury de Chartres. Suspeitam-se, bem, suas ligações intelectuais seja, por Amaury, com João Escoto Erígena, seja com algumas obras de Aristóteles conhecidas então por traduções árabes, notadamente com a de um certo Alexandre, assim como acreditou Jourdain, Mémoires de l’Académie des inscriptions et belles-lettres, Paris, 1870, t. XXVI, p. 467-498, seja, como pensa Hauréau, ibid., 1879, t. XXIX, p.

319-330, e Histoire de la philosophie scolastique, Paris, 1880, IIe partie, t. I, p. 81, com o De unitate e o De processione mundi, do arquidiácono de Segóvia, Dominique Gundisalvi, que seria autor do livro falsamente atribuído a Alexandre, ou, enfim, com o Fons vitae de Avicebron, como acredita de Wulf, Histoire de la philosophie médiévale, Paris, 1900, p. 225. Mas, seja qual for a realidade desses vínculos, e quaisquer que sejam as influências que sofreu e as fontes em que bebeu, não resta dúvida de que ele não se deixou escravizar, que quis pensar por si mesmo e filosofar por sua própria conta. E verifica-se que sua filosofia é um racionalismo intemperante e um assalto desferido contra a fé católica. Por isso, muito mais ainda do que por seu panteísmo materialista, ele tem o direito de ser classificado entre os ancestrais dos livres-pensadores das eras seguintes. Albert le Grand, Sum. theol., part. I, tr. IV, q. XX, m. 1; S. Thomas, In IV Sent., l. II, dist. XVII, q. I, a. 1; Cont. gent., l. I, c. XVII; Sum. theol., Ia, q. III, a. 8; Guillaume Le Breton, De gestis Philippi Augusti, em Rerum Gallic. scriptores, t. XVII, p. 82-83; Chronicon Laudunensis canonici, ibid., t. XVIII, p. 715; Martin de Pologne, Chronicon, Anvers, 1574; Césaire d’Heisterbach, Illustr. mirac. et historia memorabilis, l. V, c. XXII; Triveth, Chronicon, em Spicilegium de d’Achery, Paris, 1723, t. III; Prateolus, Elenchus heres., Cologne, 1581; Du Boulay, Hist. univers. parisiensis, Paris, 1666, t. III, p. 678; Thomasius, Origines historiae philosophiae et ecclesiasticae, Halle, 1699; Duplessis d’Argentré, Collectio judic. de novis erroribus, Paris, 1728, t. I, p. 132 sq.; Brucker, Hist. critic. philosophiae, Leipzig, 1766, t. III, p. 692-695; Kroenlein, De genuina Amalrici a Bona ac Davidis de Dinanto doctrina, Giessen, 1842; Amalrich von Bena und David von Dinant, em Theologische Studien, 1847; Migne, Dict. des hérésies, t. I, p. 643-644; Morin, Diction. phil. théol. scolast., 1856, t. I, p. 758-766; Franck, Dictionnaire des sciences philosophiques, Paris, 1885; Nouvelle biographie universelle, Paris, 1855; Hefele, Histoire des conciles, trad. franç., Paris, 1872, t. VIII, p. 99 sq.; Kirchenlexikon, t. II, col. 1447-1448; Jourdain, Mémoire sur les sources philosophiques des hérésies d’Amaury de Chartres et de David de Dinan, em Mémoires de l’Institut impérial de France, Académie des inscriptions et belles-lettres, Paris, 1870, t. XXVI, p. 467-498; Hauréau, Sur la vraie source des erreurs attribuées a David, ibid., Paris, 1879, t. XXIX, p. 319-330; Histoire de la philosophie scolastique, Paris, 1880, IIe partie, t. I, p. 73-82; Jundt, Histoire du panthéisme populaire au moyen âge, Paris, 1875; Hann, Ueber Amalrich von Bena und David von Dinant, ein Beitrag zur Geschichte der religiösen Bewegungen in Frankreich zu Beginn des 13 Jahrh., Villach, 1882; Denifle, Chartularium univ. Parisiensis, Paris, 1889, t. I, p. 70-71, 79; Realencyclopädie, t. I, p. 505-506; De Wulf, Histoire de la philosophie médiévale, Louvain, Paris, 1900, p. 224-225; Chevalier, Répertoire. Bio-bibliographie, 2e édit., t. I, col. 1156-1157.

Autor original: G. BAREILLE

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