David pede para ingressar na nova milícia. Tais eram seu ardor, sua aplicação, sua piedade, sua virtude, e tais foram seus progressos na vida religiosa que ele logo mereceu ocupar o cargo de mestre dos noviços. Exerceu-o primeiramente em Ratisbona; e quando, em 1243, o bispo de Augsburgo, Sibot, ofereceu aos franciscanos um estabelecimento, David retornou à sua cidade natal, ainda encarregado da formação dos noviços. Aplicou-se a essas funções com sucesso; seus dirigidos retiraram vantagens tão preciosas que lhe pediram que consignasse por escrito as admiráveis lições de seu ensino oral. Daí sua Epistola ad novitios Ratisbone de eorum informatione, que é, por assim dizer, o prefácio para sua dupla Formula novitiorum de exterioris hominis reformatione, em 40 capítulos, e De interioris hominis reformatione, em 62 capítulos; daí também seu De septem processibus religiosi, em 42 capítulos, que resume seu ensino em matéria de formação religiosa. Mas a direção dos noviços esteve longe de absorver todo o seu tempo e toda a sua atividade. Pois ele tomou parte na evangelização dos meios populares com um de seus discípulos da primeira hora, Berthold de Ratisbona, seu amigo e seu emulo, tornado logo, por sua ação oratória, um arrebatador de multidões. Embora não lhe cedesse em eloquência, fez-se seu humilde companheiro e seu servidor. Foi com ele um dos primeiros na Alemanha a romper com o uso tradicional da pregação em língua latina; preferiu-lhe o idioma nacional, por mais informe que ainda fosse. E deixando resolutamente de lado as divisões, as distinções, as complicações tão pedantes quanto sutis da forma escolástica, falou ao povo a língua do povo, buscando atingir a imaginação, tocar o coração, convencer a razão, expondo simplesmente o Evangelho e denunciando com um vigor todo apostólico os males que corroíam a sociedade. Não se pode lamentar senão uma coisa, que é que nada tenha restado dessa pregação popular, da qual Trithemius afirma ter visto alguns sermões. De scriptoribus ecclesiasticis. David não se contentou em pregar: ao apostolado pela palavra, juntou o apostolado pela pena e compôs vários tratados de edificação e de espiritualidade. Morreu em Augsburgo, em 15 de novembro de 1271. Wadding conta, Scriptores ordinis minorum, 2ª ed., Roma, 1782, t. IV, p. 859, que viveu santamente, que sua morte foi revelada a seu amigo Berthold, o qual, estando na cátedra, anunciou-a aos seus ouvintes e pôs-se a recitar a estrofe dos confessores: Qui, pius, prudens, humilis, pudicus, etc.
II. OBRAS. — Além dos tratados dos quais foi questão, e redigidos em latim em favor de seus religiosos, David de Augsburgo compôs um tratado intitulado: De inquisitione hereticorum, publicado por Preger nas Abhandlungen der Münchener Akademie, 1879, t. XIV, p. 181 sq. Alguns desses tratados foram atribuídos a outros autores e inseridos erroneamente nas obras de São Bernardo ou de São Boaventura. É assim que a Formula novitiorum de exterioris hominis reformatione traz, em diversos manuscritos, o nome do doutor seráfico e encontra-se em sua forma original entre os opúsculos de São Bernardo com este título: Opusculum ad hæc verba: Ad quid venisti? É precisamente por causa destas últimas palavras que Vossius a atribuiu a São Bernardo. É de notar que este tratado, se o tomamos tal como se encontra no manuscrito de Munique 15312, difere totalmente pela forma do da edição de Augsburgo, B. Fr. David de Augusta pia et devota opuscula, Augsburgo, 1596; por outro lado, é idêntico àquele que, nas obras de São Boaventura, traz o título de De institutione novitiorum, Lyon, 1668, t. VIII, p. 613 sq. Pertence a David, mas, a bem dizer, não é a título de obra exclusivamente pessoal e original. David teria utilizado uma obra de origem franciscana, da qual teria escrito o prefácio e na qual teria inserido citações patrísticas. Por conseguinte, se realmente David compôs pessoalmente uma Formula, poderia muito bem ser aquela que começa no fol. 93 do manuscrito de Munique já citado. É um problema que resta ser resolvido. Quanto aos dois outros tratados, o De interioris hominis reformatione e o De septem processibus religiosi, embora se encontrem entre as obras de São Boaventura sob este título: De profectu religiosorum, eles são, sem sombra de dúvida, da mão de David, pois oferecem, com outros tratados alemães que são autenticamente de David, numerosas passagens e capítulos inteiros estreitamente aparentados e traindo uma origem idêntica. Alberto Magno citou frequentemente palavra por palavra o De septem processibus religiosi, em seu tratado De adhærendo Deo, se este tratado for dele. Os franciscanos de Quaracchi editaram o De exterioris et interioris hominis compositione secundum triplicem statum incipientium, proficientium et perfectorum libri tres, em 1899. Outras obras de David existem ainda em manuscrito e não foram publicadas, por exemplo, a explicação da regra dos franciscanos do manuscrito de Munique 15312, fol. 266 sq. É possível que um dia ou outro se venha a descobrir alguns de seus sermões.
Atualmente, dentre os tratados em língua alemã publicados sob seu nome, Pfeiffer, Deutsche Mystiker, Leipzig, 1845, contam-se os seguintes: 1° Die sieben Vorregeln der Tugend; 2° Spiegel der Tugend; 3° Die vier Fittiche geistlicher Betrachtung; 4° Von der Anschauung Gottes; 5° Von der Erkenntniss der Wahrheit; 6° Von der unergründlichen Fülle Gottes; 7° Betrachtungen und Gebete; 8° Christi Leben unser Vorbild; 9° Die Erlösung des Menschengeschlechts. Apenas os dois primeiros devem ser retidos como autênticos; todos os outros são apócrifos, como demonstrou Preger, Geschichte der deutschen Mystiker, Leipzig, 1874, t. I, p. 269 sq. Por opinião unânime, Die sieben Vorregeln der Tugend e Spiegel der Tugend são considerados as "duas pérolas" da literatura alemã em seus primórdios. Pfeiffer compara o estilo deles a uma chama calma que brilhou com um brilho suave, cuja calorosa penetração animou a piedade, excitou o ardor, aqueceu e inflamou o coração. Tem-se razão em vangloriar os serviços que David prestou à língua alemã então em formação; mas o que mais interessa aqui é a sua doutrina, da qual bons juízes estimam que ela contém o "tutano da perfeição evangélica", e lhe merece um lugar ao lado de Santo Agostinho, de São Bernardo, de São Boaventura e de Gerson.
III. DOUTRINA. — Diante da impossibilidade de apreciar, por falta de documentos, o método e o valor do orador popular que foi David, é preciso contentar-se em estudar nele o autor místico, uma vez que esse é o título que lhe dão, não sem razão. Sua carta aos noviços de Ratisbona nos ensina que ele considera na religião duas coisas: o exercitium virtutis e o affectus internæ devotionis; ele os compara a Lia, a fecunda, e à bela Raquel. Nós diríamos a vida prática, representada por Marta, e a vida contemplativa, personificada por Maria. É muito certo que David aprecia altamente a vida contemplativa, mas ele insiste sobretudo na vida prática. Os dois tratados da Formula novitiorum visam à reforma do homem, seja no seu exterior, seja no seu interior. Ad quid venisti et propter quid?, pergunta ele no primeiro. E ele responde: por Deus e por causa de Deus. O dever essencial do noviço é, portanto, a obediência absoluta àquele que lhe fala em nome de Deus. Para isso, ele deve praticar uma humildade total que se traduza no gesto, no tom, na palavra, na atitude e em todo o exterior, e um respeito absoluto aos superiores a ponto de proibir-se de dizer ou de pensar mal deles e de não tolerar que se fale mal deles. David passa em seguida em revista todos os detalhes da vida, seja no interior da comunidade, seja no lado de fora do convento; nada falta ali. Ao levantar-se à noite, um noviço não deve pensar senão em Deus; no dormitório, no coro, no capítulo, à mesa, no altar, quando serve a missa, um noviço deve ter um bom comportamento, deve praticar a culpa, confessar-se três vezes por semana, c. XI, ocupar-se com diligência no trabalho, nas ocupações comuns, amar acima de tudo sua cela, reter sua língua, ler a Escritura, meditar em Jesus Cristo, "esse puro espelho, esse exemplar perfeito de alta santidade", c. XXXI, ser sempre gracioso e amável com seus irmãos, evitar em suas conversas as palavras inúteis, entreter-se acerca de Deus. Quanto aos cuidados a dar às almas, ele não deve pensar neles senão depois de ter passado um primeiro ano fazendo penitência de seus pecados passados, um segundo ano aperfeiçoando sua conversão, um terceiro perseverando no progresso realizado, um quarto desprezando toda honra ou todo louvor que viesse dos homens, para não buscar exclusivamente senão a glória de Deus e a salvação das almas. Fora do convento, ele deve dar por toda parte e sempre o bom exemplo, ser fiel às horas canônicas, evitar as mulheres, não falar com elas e não agir com elas senão como na presença de seu superior ou de seu próprio marido. Eis o que concerne à reforma exterior; eis o que concerne à reforma interior. Há, primeiramente, quatro precauções a tomar: Não se contradizer quanto à vontade que o conduziu ao claustro e não se esfriar do primeiro fervor; perseverar sempre nestas boas disposições; não julgar temerariamente os outros; não se deixar desorientar pelas provações ou tentações. Quatro espécies de tentações: a carne, a mundo, a diabolo, a Deo. Três tipos de religiosos: os bons, os melhores, os muito bons. Três estados: o dos principiantes, o dos que progridem, o dos perfeitos. Três potências a preencher de Deus: a razão, a memória, a vontade. Três orgulhos a evitar: não se comprazer em si mesmo nem se preferir aos outros; não desejar agradar aos outros; não buscar estar acima dos outros. Quatro defeitos a combater, porque inclinam ao mal: a ignorância, a concupiscência, a malícia, a enfermidade. O fim deste tratado da reforma interior gira em torno das afeições espirituais, o gosto pela doçura interior, os remédios contra o orgulho e os outros defeitos. O terceiro tratado, De septem processibus religiosi, enumera e caracteriza os seis progressos da vida ativa; o sétimo e último progresso é próprio da vida contemplativa. Tal é precisamente a divisão assinalada pela carta aos noviços de Ratisbona.
Mas vê-se que o exercitium virtutis tem um desenvolvimento mais considerável do que o affectus internæ devotionis, sem dúvida porque este não é senão o desfecho e o coroamento daquele; a fecunda Lia ocupa muito mais Davi do que a bela Raquel. Quer isso dizer que aquilo que constitui mais particularmente a vida mística seja negligenciado? Longe disso. Os c. IX-XV do De interioris hominis reformatione e os c. XXXV-XLI do De septem processibus falam disso com detalhes suficientes. Aliás, todo o ensino de Davi sobre essa dupla reforma exterior e interior converge para este fim. O ideal, com efeito, é a união da alma com Deus tão estreita quanto possível e o repouso suave na doce alegria que disso resulta. Hæc est, diz ele, hominis in hac vita sublimior perfectio ita uniri cum Deo, ut tota anima cum omnibus potentiis suis et viribus in Deum collecta unus fiat spiritus cum Deo, ut nihil meminerit nisi Deum, nihil sentiat vel intelligat nisi Deum... Imago enim Dei in his tribus potentiis ejus expressa consistit, videlicet in ratione, memoria et voluntate, et quamdiu illæ non sunt ex toto Deo impressæ, non est anima deiformis. Forma enim animæ Deus est, cui debet imprimi sicut sigillo sigillatum, c. XXXVI.
Tratando assim da vida mística e colocando a sua essência na união da alma com Deus por todas as suas potências e forças, nomeadamente pela razão, pela memória e pela vontade, Davi não esquece certos fenômenos, que são por vezes sujeitos a reserva, tais como o jubilus, a ebrietas, o spiritus, a liquefactio, etc., e que retornam sem cessar na linguagem dos místicos para exprimir misteriosas realidades; ele emite sobre eles um julgamento muito são que mostra todo o seu pensamento. Davi é, portanto, um místico, se se quiser, já que coloca tão alto o ideal da perfeição cristã, mas é um místico preocupado antes de tudo com as realidades práticas da vida e cauteloso contra as ilusões e os perigos de um misticismo inconsistente e nebuloso. Ele tinha a experiência da vida religiosa. Aos religiosos humildes, como ele os queria, podia sem dificuldade recomendar uma doçura inalterável de caráter e o suporte paciente das acusações injustas ou caluniosas; pois a humildade assim praticada atrai a graça divina e leva direto à caridade, à rainha das virtudes. Mas ele conhecia também a sua época e partilhava a opinião então geral, que via nos hereges inimigos da Igreja e da sociedade, contra os quais não bastava colocar-se em guarda, mas que era preciso reduzir à impotência. Daí a sua mudança de tom no seu De inquisitione hæreti-corum. Ele fala aí como os seus contemporâneos, nessa idade de fé; mas é permitido lamentar que, por esquecimento dos seus próprios princípios, ele se tenha mostrado tão duro para com essas «raposas e esses lobos», que se deve tratar sem piedade e dos quais se deve desembaraçar a sociedade a todo custo, a menos que venham a resipiscência.
B. Fr. David de Augusta, O. M., pia et devota opuscula, Augsbourg, 1596; Bibliotheca maxima Patrum, Colônia, 1618, t. XIII, col. 413-479; P. L., t. CLXXXIV, col. 1189-1198; Wadding, Scriptores ordinis minorum, 2ª ed., Roma, 1782, t. IV; Trithème, Scriptores ecclesiastici, citado na Bibliotheca maxima Patrum; Pfeiffer, Deutsche Mystiker, Leipzig, 1845, t. I; Deutsche Mystiker, em Zeitschrift für deutsches Alterthum, 1853, t. IX; Preger, Geschichte der deutschen Mystiker, Leipzig, 1874, t. I, p. 268 sq.; Tractatus Fr. David de inquisitione hereticorum, nas Abhandlungen der Münchener Akademie, 1879, t. XIV, p. 181 sq.; Denifle, em Historisch-politische Blätter, t. LXXV, p. 672 sq.; Kirchenlexikon, t. III, col. 1413-1417; Realencyklopädie, t. IV, p. 503-504; U. Chevalier, Répertoire. Bio-bibliographie, 2ª ed., t. I, col. 1555-1556.
G. BAREILLE.
Autor original: P. ÉDOUARD d'Alençon
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