4. DAMIÃO, patriarca copta de Alexandria, 578-605, e fundador da seita dos damianitas ou tetraditas. Desde as controvérsias entre Severo de Antioquia e Juliano de Halicarnasso sobre a corruptibilidade ou não do corpo de Cristo, o partido monofisita contava duas grandes frações: os severianos ou corruptícolas, os julianistas ou aftartodocetas e fantasistas. No Egito, na morte do patriarca Timóteo IV, 8 de fevereiro de 536, cada um dos dois partidos deu-lhe um sucessor, Teodósio I para os severianos, Gaiano para os fantasistas. Nem um nem outro pôde manter-se no cargo, em consequência da oposição da corte bizantina, que exilou os dois concorrentes e impôs o candidato calcedoniano. Teodósio I morreu no exílio em 22 de junho de 567. A vacância da sé patriarcal durou até 576, quando bispos sírios enviados por Paulo, o patriarca monofisita de Antioquia, elegeram e sagraram um certo Teodoro. Furiosos com essa escolha, na qual não tinham tido qualquer participação, os teodosianos opuseram-lhe, no outono de 576, Pedro IV, que rompeu a comunhão com Paulo de Antioquia. Este último, de resto, estava então desavindo com o famoso Tiago Baradeu, que estava em excelentes relações com Pedro IV. Quando este morreu em 19 de junho de 578, nomeou-se para seu sucessor um sírio de origem, Damião, que adotou sua linha de conduta e deu seu nome aos seus partidários. Chamavam-nos, com efeito, alternadamente severianos ou teodosianos ou damianitas, ou angelitas, por causa do lugar onde se reuniam em Alexandria. Damião rejeitava a doutrina calcedoniana, a heresia fantasista de Juliano, a dos triteístas lançada por João Filopono, assim como se vê por sua carta sinódica e sua carta sobre a morte de Tiago Baradeu. Michel le Syrien, Chronique, trad. Chabot, t. I, p. 325-334, 339-342. Ao mesmo tempo, ele anatemizava «o insensato Sabelius da Líbia», Michel le Syrien, t. II, p. 331, col. 2, de quem o acusam, contudo, de reproduzir a doutrina. O triteísta João Filopono tinha admitido «a pluralidade das essências e das naturezas na Trindade santa, dividindo e separando com as pessoas a única essência indivisível». Parece que, por ter querido refutar demais os defensores desta doutrina: João Filopono, Probus, Sérgio o Arménio, etc., Michel le Syrien, t. II, p. 362 sq., Damião tenha caído na heresia contrária, no sabelianismo. Timóteo de Constantinopla, De receptione hereticorum, P. G., t. LXXXVI, col. 60, acusa-o de admitir, com a distinção das três pessoas divinas, «um Deus comum, uma espécie de deidade inexistente, pela participação indivisa da qual cada uma das três pessoas é Deus.» Nesse sistema, ainda segundo Timóteo, o Pai, o Filho e o Espírito Santo são denominados θεοί, e cada pessoa, tomada à parte, é Deus; quanto ao Deus comum, é denominado substância e natureza. É por isso que se censurava Damião por ser tetradita, isto é, por admitir quatro deuses. São Sofrônio, Epistola synodica ad Sergium, P. G., t. LXXXVII, col. 3193, louva as refutações que Damião tinha feito do sistema triteísta, mas trata-o de «novo Sabelius». Do mesmo modo, o patriarca monofisita Pedro de Antioquia, seu grande adversário, censura-o por dizer que «as propriedades constitutivas das pessoas da Trindade santa eram as pessoas mesmas.» Michel le Syrien, t. II, p. 365. Do mesmo modo ainda Atanásio de Antioquia, pouco após o acordo feito em 609 com os discípulos de Damião, confessa que, segundo este último, «a innascibilidade é a pessoa do Pai, a filiação a pessoa do Filho, a procissão a pessoa do Espírito Santo.» Michel le Syrien, t. II, p. 387, col. 2. Em suma, segundo o conjunto desses testemunhos contemporâneos, que contradizem o de Timóteo de Constantinopla, Damião tinha colocado em circulação o sabelianismo. Essa doutrina foi vivamente combatida pelos monofisitas de Antioquia, sobretudo pelo patriarca Pedro, que escreveu três tratados sobre este assunto. Tentou-se chegar a um acordo na conferência de Gabita na Arábia, por volta de 586, mas em vão, em consequência da má vontade que Damião ali demonstrou. Michel le Syrien, t. II, p. 369-371. Mais tarde, após a morte dos dois adversários, numa série de conferências que se realizaram particularmente em Alexandria no ano 609, o entendimento foi restabelecido entre as duas Igrejas monofisitas de Antioquia e de Alexandria, e os dois patriarcas dessas Igrejas, Atanásio e Anastácio, publicaram, sob sua assinatura comum e a de vários bispos, o ato oficial de união. Era uma exposição da verdadeira doutrina sobre o mistério da Trindade, na qual não se censurou nem Damião de Alexandria, nem Pedro de Antioquia; o ato de união não vê em suas disputas teológicas mais do que uma «querela de palavras». Michel le Syrien, t. II, p. 391, col. 1. Mas sabemos pelas cartas de Atanásio que a doutrina de Damião foi formalmente rejeitada nas conferências e que, se o ato de união não fala dela, é porque os alexandrinos tinham se oposto a isso. Houve ainda damianitas, que permaneceram fiéis à doutrina do mestre. Ver as peças oficiais desta reunião em Michel le Syrien, t. II, p. 381-399. S. VAILHÉ.
Autor original: S. VAILHÉ
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