ALCORÃO. SUA COMPOSIÇÃO

I. ALCORÃO. SUA COMPOSIÇÃO

I. ALCORÃO. SUA COMPOSIÇÃO. — I. Recensão. II. Cronologia. III. Suratas de Meca e de Medina. IV. Variantes. V. Influências pagãs. VI. Influências judaico-cristãs.

I. RECENSÃO DO ALCORÃO. — Encontra-se entre os principais historiadores e tradicionalistas árabes, nomeadamente entre Bokhari, Tabari, Mas‘oudi, Suyouti, Tirmidi, a menção de certos fatos relativos à recensão do texto corânico. Destas informações resulta o seguinte relato: Durante a vida de Maomé e de seu primeiro sucessor Abou Bekr, suas pregações haviam sido conservadas em fragmentos em folhas de palmeiras, pedaços de couro, omoplatas, tabletes de pedras; sobretudo, eram guardadas na memória dos crentes; aqueles dentre eles que sabiam longas partes eram chamados "os portadores do Alcorão", hamalat ul-Koran.

Na sangrenta batalha dita do "Jardim da morte" contra o falso profeta Moseilimah, no ano 14 da hégira, pereceram muitos desses portadores do Alcorão, e pôde-se temer que uma grande parte do texto sagrado se perdesse. Omar aconselhou ao califa Abou Bekr que fizesse uma recensão. Esse trabalho, iniciado sob Abou Bekr e concluído nos primeiros anos do reinado de Omar, foi confiado a Zéid, filho de Tabit, jovem que havia servido de secretário ao profeta. Zéid reuniu todos os fragmentos que pôde recolher, depois entregou seu manuscrito ao califa.

Após a morte de Omar, este livro veio ao seu sucessor e de lá passou às mãos de Hafsah, filha de Omar, viúva do profeta. Esta primeira redação, feita sob a vigilância de Omar, que é sobretudo o seu responsável, não foi revestida de um caráter oficial. Outras redações continuaram a subsistir ao lado da de Zéid, e essas redações apresentavam entre si diferenças de certa importância. Podia-se temer que houvesse nessas divergências matéria para conflito e cisma.

Assim, Abou Mousa el-Ach‘ari possuía uma recensão que fazia autoridade entre o povo de Basrah; Ibn Mas‘oud tinha uma que fazia autoridade em Koufah; uma terceira, pertencente a el-Mikdad, filho de el-Aswad, era empregada em Emesse, e diferia ainda daquela de que se serviam em Damasco. Otman julgou útil unificar o texto sagrado. Dirigiu-se ainda a Zéid, filho de Tabit, que havia trabalhado na recensão de Omar; segundo as tradições mais prováveis, adjuntou-lhe como colaboradores ‘Abd Allah ibn ez-Zohéir, que se tornou mais tarde célebre por suas lutas contra os Omíadas, Sa‘id ibn el-’As e ‘Abd er-Rahman ibn el-Harit ibn Hicham.

Tomou-se por base o texto de Omar e recensões pertencentes a alguns coraixitas; esses textos foram fundidos. Quando o trabalho foi concluído, Otman ordenou destruir todos os textos corânicos então existentes, poupando apenas o exemplar de Hafsah, que pereceu pouco depois. Depois, fez fazer cópias de sua recensão e as enviou oficialmente às províncias. Foi assim que se fixou o texto do Alcorão.

II. CRONOLOGIA DO ALCORÃO. — O que é, pois, esse texto? Como deve ser encarado e estudado? Primeiramente, não existe dúvida sobre a autenticidade geral do Alcorão. O Alcorão é bem uma coleção das pregações de Maomé; ele é bem composto de palavras do profeta escutadas com atenção e conservadas com cuidado por seus adeptos. O acordo é universal sobre este ponto. A questão geral de autenticidade não se coloca. Mas o Alcorão é uma coleção feita sem ordem; as suratas (capítulos) mais longas foram colocadas no início, as mais curtas foram rejeitadas ao fim, segundo o uso ainda seguido no Oriente na confecção dos Diwans ou coleções dos poetas.

Às vezes, Zéid acrescentou pequenos fragmentos a suratas mais longas, se o sentido o permitisse; o caso é conhecido nomeadamente para a surata IX. Uma tradição porta, aliás, que Zéid reuniu as suratas "com muita dificuldade e sem ordem". Portanto, a questão coloca-se de procurar restabelecer a ordem cronológica nesta sequência desconexa de fragmentos. Esta questão foi estudada um pouco pelos orientais. Encontra-se entre eles uma tradição apresentando certas variantes sobre a ordem das suratas e alguns ensaios de crítica fundados no estilo. De resto, o texto do Alcorão porta a menção "medinense" ou "mecana" no início de cada surata.

Essa repartição, que remonta a uma época muito antiga, reporta-se aos dois grandes períodos da vida de Maomé: aquele que precedeu a hégira, isto é, a emigração do profeta de Meca para Medina, e aquele que a seguiu. Os sábios do Ocidente tentaram levar mais longe do que puderam os muçulmanos o estudo da cronologia do Alcorão. É preciso citar, dentre os que se ocuparam desta questão, os historiadores Sprenger, Weil, Muir, sobretudo Noeldeke, que escreveu sobre a exegese do Alcorão um belo trabalho premiado em um concurso da Academia das Inscrições e Belas-Letras de Paris.

O sábio siciliano Amari havia enviado sobre o mesmo assunto uma memória que foi igualmente premiada, mas que não foi entregue à impressão. O inglês Rodwell publicou uma tradução do Alcorão, disposta segundo a ordem provável da composição das suratas. Os critérios, empregados pelos orientalistas para apreciar a data dos diversos fragmentos, são de duas sortes e de valor desigual. Uns são tirados do estilo, os outros da história.

Quanto ao estilo, é fácil notar que a eloquência de Maomé é mais ardente, mais inflamada no início de sua pregação, que ela vai em seguida arrefecendo, e que pouco a pouco o apóstolo em Maomé dá lugar ao político e ao legislador; pode-se notar ainda alguns indícios, dos quais daremos logo mais alguns exemplos. Esses critérios extraídos do estilo são bastante seguros em princípio, mas pouco precisos nos detalhes. Os critérios extraídos da história são bem mais numerosos, e permitem um estudo muito mais minucioso.

A vida de Maomé, sobretudo a partir da Hégira, nos é conhecida em grandes detalhes, por meio de uma quantidade de tradições, das quais muitas oferecem uma séria probabilidade de exatidão histórica. Essas tradições estão consignadas, seja nas obras especialmente consagradas à vida do profeta, como as de Wakidi, de Ibn Hicham e o Kitab el-Khamis, seja nos escritos dos historiadores, dos tradicionistas e dos comentadores.

Nessas obras encontram-se frequentemente dados concernentes às circunstâncias em que foi promulgado tal ou qual capítulo, tal ou qual versículo do Alcorão, e o número desses dados é bastante considerável para permitir um controle uns pelos outros. Daí a possibilidade de uma análise histórica do Alcorão; essa possibilidade não nasceria do próprio texto do livro, bastante pobre em alusões históricas. Por meio desses critérios, obteve-se certos resultados, que seria demasiado longo ou difícil de resumir aqui, mas dos quais eis alguns, a título de exemplos.

III. SURATAS DE MECA E DE MEDINA. — Entre as suratas de Meca encontram-se nomeadamente as suratas LXXXI e LXXXII, a do «sol que se enrola» e a do «céu que se fende»; sua situação na origem da pregação corânica é reconhecível pelo brilho do estilo, pelo acento de entusiasmo com que estão animadas. A surata XCVI é uma das primeiras também; ela começa pelas palavras: «Prega em nome do Senhor que criou tudo», pelas quais, segundo a tradição, o arcanjo Gabriel teria conferido a missão profética a Maomé. A surata LXXIV começa por versículos que são aqueles que Maomé teria pronunciado, após uma visão que teve do arcanjo logo no início de sua missão. A surata LI contém versículos relativos aos falsos deuses da Arábia (versículos 19-20) que, dizem os historiadores, teriam sido sugeridos a Maomé pelas conversações de muçulmanos retornados da Abissínia, no ano 5 da missão.

No início da surata XX estão versículos que se diz serem aqueles pelos quais Maomé buscou provocar a conversão de Omar, conversão que ocorreu efetivamente no ano 6 da missão. O primeiro versículo da surata XXX fala de uma derrota dos gregos, verosimilmente ocorrida em uma guerra entre Bizâncio e a Pérsia, no ano 7 ou 8 da missão de Maomé. Buscou-se decompor em vários períodos todo esse lapso de tempo que decorre entre o início da pregação maometana e a Hégira. Muir julgou poder distinguir cinco períodos; o Sr. Nöldeke e o Sr. H. Derenbourg contam três.

No segundo período, Allah (Deus) é frequentemente chamado de Rahman, título de uma divindade anterior do paganismo; no terceiro, aparece frequentemente a apóstrofe: «Ó vós, homens!» O estilo vai arrefecendo de um período ao seguinte. As suratas do terceiro período mecanas são por vezes mescladas de fragmentos pertencentes ao período medinense. A pequena surata, chamada a Fatihah (a que abre), que foi colocada à frente do Alcorão e que é frequentemente recitada na oração muçulmana, marca, crê-se, a transição entre o primeiro e o segundo período.

A surata XIX é aquela que foi lida por um grupo de muçulmanos ao Negus cristão da Abissínia, na presença de enviados coraixitas, ainda pagãos. A época medinense é aquela em que o profeta combate seus inimigos pelas armas e organiza o Islã. As suratas desse período encerram preceitos legislativos e numerosas alusões relativas a eventos cujos detalhes nos são fornecidos pelos historiadores. O profeta aí ataca seus inimigos diversos, «hipócritas» ou maus crentes, judeus, cristãos, pagãos de Meca e de outros lugares.

A importante surata II, a mais longa do Alcorão, que encerra trechos de grande interesse do ponto de vista da legislação, é, em maior parte, da época que seguiu imediatamente à Hégira. A surata XVI é medinense, porque nela se fala claramente dos emigrados (mohadjir) no versículo 111; a surata XXIX sê-lo-á da mesma forma, porque o profeta nela dá o conselho de não polemizar com os judeus e os cristãos senão «da melhor maneira», isto é, pela força, o que ele não poderia ter dito antes da Hégira. No versículo 14 da surata XLVII, vê-se Maomé emigrado lamentando sua pátria.

A surata LIX contém alusões à luta contra os judeus de Nadhir; a surata XXXIII, da mesma forma; a surata LXIII coloca-se após a expedição contra os Banou Mostalik; a surata XLVIII provavelmente após a paz de Hodeibiyah. No versículo 37 da surata XXXIII, um homem é nomeado, Zéid, o único contemporâneo de Maomé expressamente nomeado no Alcorão com Abou Lahab; Zéid era filho adotivo de Maomé que, por esse versículo, dá a si mesmo a autorização de desposar sua mulher repudiada, Zéinab.

O versículo 29 da surata ix, ao aludir a uma modificação nos costumes da peregrinação, remete-nos ao tempo em que os muçulmanos haviam se tornado senhores de Meca; enfim, a surata ix (versículos 1 a 12 e 28) contém os versículos que o profeta fez ler por Ali aos muçulmanos reunidos para a peregrinação no ano 9 da hégira; esta surata é uma das mais significativas do ponto de vista histórico.

IV. VARIANTES. — Pareceria que não deveriam existir variantes do Alcorão, sendo a recensão de Otman supostamente única. E, de fato, não existem variantes importantes; mas encontram-se inúmeras pequenas diferenças de leitura, decorrentes seja de alguma incerteza quanto aos sinais de vocalização, que são sobrepostos à escrita árabe, seja da manutenção de certas tradições divergentes, pela memória ou de outra forma.

Com efeito, a destruição dos textos corânicos ordenada por Otman não pôde atingir as lições que estavam conservadas na memória dos crentes e, por outro lado, essa destruição não foi de todo completa: sabe-se que subsistiram vários exemplares do livro sagrado, dos quais os mais célebres são o de Obay, filho de Ka‘b, e o de Ibn Mas‘oud; essas recensões não parecem ter apresentado variantes muito importantes em relação à versão otmaniana. Pode-se dar conta, ao estudar um comentador bom filólogo, tal como Zamakhchari, da natureza e da pouca extensão das variantes do Alcorão.

Por exemplo, no versículo 2 da surata vii, onde é dito: «Suivez la loi qui vous est venue de votre seigneur, et ne suivez pas (lā tattabi‘ū) d’autres patrons que lui,», Zamakhchari relata a variante lā tabtag‘ū, que daria o sentido: «E não desejeis outros patronos além dele.» No versículo 8 da surata xxxvi, o texto traz: «Nous avons placé devant leurs mains (min baina aidīhim) un obstacle ;»; uma variante de Ibn ‘Abbas dá fī aidīhim; outra de Ibn Mas‘oud, fī aimānihim, que são expressões sinônimas.

De acordo com a tradição, o Alcorão teria sido revelado em sete dialetos (ahrof), o que se pode entender supondo que os diversos trechos teriam sido promulgados em diversos dialetos, ou que o conjunto do texto havia sido recolhido em sete formas dialetais distintas; uma tradição pretende que a primeira recensão teria reunido as variantes dialetais; é pouco provável. Esta questão dos dialetos é obscura, e pode-se sem dúvida interpretar a tradição como significando que a língua do Alcorão fazia a síntese da língua de várias tribos.

Algumas partes do Alcorão, quero dizer, da pregação corânica supostamente revelada, foram perdidas. Isso se concebe, dado o modo de conservação da pregação maometana; além disso, essa verdade provável é admitida no Islã; admite-se ali que pôde «cair algo do Alcorão»; uma tradição mostra-nos Omar procurando em vão um versículo em seu Alcorão, e alguém fazendo-lhe observar que esse versículo era uma parte do que havia caído do Alcorão. Diz-se também que a surata xcviii deveria ser mais longa na origem.

Estamos certamente autorizados a crer que, dentre as palavras atribuídas a Maomé, conservadas pelos hadith (as tradições), há algumas que foram pronunciadas nas mesmas condições que as do Alcorão, e que são verdadeiramente fragmentos do livro, esquecidos na coleção. Os xiitas, cismáticos muçulmanos partidários de Ali, serviram-se dessa possibilidade geral de variantes e de lacunas no Alcorão para pretender, ou que se havia alterado o livro santo, ou que se haviam retirado passagens favoráveis a Ali. Segundo eles, quinhentas passagens do Alcorão teriam sido alteradas. Essas pretensões dos xiitas não são aceitáveis.

Uma suposta surata onde Ali é colocado quase no mesmo nível que o profeta, e que foi editada por Garcin de Tassy e por Kazem Beg, é sem contestação apócrifa. Fora deste texto xiita, conhecem-se duas curtas suratas que teriam feito parte do Alcorão de Obay e que são orações sem grande interesse.

V. INFLUÊNCIAS PAGÃS. — Indicamos suficientemente como o estudo do Alcorão se ligava ao da vida de Maomé; não temos de fazer aqui a história dessa vida, mas devemos analisar as influências sob as quais se formou o pensamento maometano. Essas influências são as do paganismo, por um lado; por outro, as do judaísmo, do cristianismo e das religiões da Pérsia. Com relação ao paganismo, a obra de Maomé deve ser considerada como uma reação deliberada e violenta; isto é, que o islamismo não saiu, por uma evolução espontânea, do paganismo antigo; é o que foi bem posto em evidência, nomeadamente pelos trabalhos de M. Goldziher.

O islamismo formou-se sob a influência das outras religiões que acabamos de citar, das duas primeiras sobretudo, o judaísmo e o cristianismo; contudo, essa influência não parece ter se exercido sobre Maomé de uma maneira direta, mas sim por intermédio de seitas judaico-cristãs, de espírito sincrético. Vamos desenvolver um pouco esses pontos de vista.

O paganismo, na época de Maomé, reinava em toda a Arábia.

Ao sul, no Iêmen, haviam florescido os reinos himiaritas que deixaram uma epigrafia; ao norte, em direção à região de Medina, haviam habitado diversos povos, tamudenos, lihianitas, nabateus, que deixaram também alguns documentos epigráficos, mas de uma época mais remota do que a da epigrafia himiarita. Encontra-se no Alcorão a adaptação de certos usos da antiguidade pagã à religião nova do islã, ou a modificação ou a condenação muito enérgica desses usos, ou simplesmente a menção de fatos, de costumes, de ídolos e de lendas.

Maomé adaptou à sua religião todo o conjunto do culto que era prestado, desde tempos imemoriais, à Ka‘bah, "casa santa" ou "oratório sagrado" de Meca; este culto comportava uma peregrinação, visitas a diversos lugares ao redor do santuário, cumpridas com certos ritos, e sacrifícios. Esses diversos traços da religião pagã passaram para o islã: a fé na santidade deste santuário, sur. II, 90, 91; XXI, 25, 30; a obrigação da peregrinação, II, 149-151; IX, 19, 28; a visita ao monte ‘Arafat, II, 198, às colinas de Safa e de Merwah, II, 153; os sacrifícios no vale de Mina, a visita ao poço de Zemzem, a veneração da pedra negra.

Maomé foi também forçado a reconhecer os "meses sagrados", IX, 5, 36; III, 244, isto é, quatro meses do ano durante uma parte dos quais era proibido portar armas. A reação contra os usos pagãos, fora o derrubamento do paganismo em si e dos ídolos, incidiu sobre os seguintes pontos: Maomé proibiu aos peregrinos que girassem nus em torno da Ka‘bah; proibiu a intercalação de um mês a cada três anos, pela qual os pagãos harmonizavam o seu ano com o ano solar, IX, 36; o ano muçulmano foi lunar.

Maomé proibiu enterrar vivas as filhas, LXXXI, 8-9, ou simplesmente de se queixar do nascimento de uma criança do sexo feminino, XVI, 60-61; XLIII, 16; em geral, proibiu o assassínio das crianças por motivo de pobreza ou escassez, VI, 138, 152. Ele reagiu contra o culto aos mortos, contra o uso de lamentações em honra dos mortos, das carpideiras pagas e dos lutos prolongados; condenou o culto prestado às pedras ou estelas erguidas sobre os túmulos dos mortos ilustres, V, 92.

Ele condenou também o uso que as tribos pagãs tinham de exaltar a sua própria origem e de denegrir a de outrem; proscrito a crença na influência dos astros sobre a vegetação, a consulta da sorte por meio de flechas, V, 92, a feitiçaria pelos nós, CXIII, 4. — Encontram-se mencionados no Alcorão, de forma explícita ou por alusão, certos fatos cuja memória restou da época do paganismo: a ruptura do dique de Mareb, XXXIV, 15; o reinado dos tobba‘ ou reis do Iêmen, XLIV, 36; a expedição do rei do Iêmen Abrahah contra Meca, CV, 1-5, no próprio ano do nascimento do profeta.

Encontra-se nele também a menção de antigas populações que se tornaram lendárias, os ‘aditas, os tamuditas, e de certos adivinhos ou sábios, Salih, Houd, Khidr, Lokman, cujas lendas, tais como se apresentam no Alcorão, parecem ter sido trabalhadas pelas seitas judaico-cristãs. Finalmente, Maomé nomeia diversas divindades do paganismo; adotou para título de seu deus o nome de uma delas, Rahman, e talvez até mesmo o nome de Allah seja o de uma divindade pagã; o Alcorão nomeia el-Lat, Wadd, Sowa‘, Menat, Djibt, e el-‘Ozza. Os nomes de Sowa‘ e de el-‘Ozza foram reencontrados na epigrafia himiarita; o nome de Wadd aparece na epigrafia tamudena.

VI. INFLUÊNCIAS JUDAICO-CRISTÃS. — As grandes religiões com as quais a Arábia pagã se encontrava em contato eram, dissemos, o cristianismo, o judaísmo e o mazdeísmo. Cristandades existiam no Iêmen, particularmente em Nedjran; na Abissínia, império que estava em relações com o Iêmen; a leste da península arábica, no Bahrein, em Hatta e no país dos Katrayé, ao norte desta península, no reino dos lakmidas, vassalo do império persa, no reino dos gassânidas, vassalo do império grego, e do lado da península sinaítica. Certas tribos nômades eram cristãs, por exemplo, a importante tribo de Iyad, espalhada pelas planícies da Mesopotâmia.

— O judaísmo havia existido no Iêmen; o rei Dou Nowas havia se convertido a ele. Comunidades judaicas floresciam em Meca, em Medina e encontravam-se em grande número na região de Medina; Maomé teve de combater as tribos judaicas de Nadir e de Koraizah, os judeus de Khaibar, de Wadi’l-Kora e de Teimah. — Os adeptos da religião mazdeísta são chamados de magos pelo Alcorão. Esta religião podia ser conhecida na Arábia, por causa das relações frequentes deste país com a Pérsia. Além disso, os persas haviam se apoderado do Iêmen durante a vida de Maomé e detinham ainda essa província na época da hégira.

Nenhuma dessas três grandes religiões agiu diretamente sobre o islã. O cristianismo foi talvez, das três, a menos imperfeitamente conhecida por Maomé. Uma lenda quer que Maomé tenha conhecido um monge cristão na sua infância, quando foi com uma caravana à Síria; esse monge é chamado Bahira, Sérgio ou Nestor, e sua lenda foi muito desenvolvida na literatura árabe cristã.

Huart contesta isso, bem como a própria viagem de Maomé à Síria; não se pode, contudo, contestar as relações de Meca com a Síria cristã, nem o respeito e a simpatia de que o profeta árabe fez prova em relação aos monges. Talvez, entretanto, as relações de Meca com os cristãos da região de Hirah sejam conhecidas de uma forma mais positiva. — As horas da oração muçulmana lembram muito as horas canónicas da liturgia cristã. Os preceitos do jejum e da esmola podem ter sido inspirados ao mesmo tempo pelo judaísmo e pelo cristianismo. O Evangelho, que não foi conhecido diretamente por Maomé, fornece no Corão o fundo da lenda de Maria e de Zacarias.

Maomé opôs-se com força aos dogmas cristãos da Trindade e da geração divina, IX, 30-31. Ver CORAN, SA THÉOLOGIE. A Bíblia também só foi conhecida pelo profeta através de intermediários. O Corão emprestou dela a noção e o sentimento intenso do monoteísmo, o fundo do dogma do profetismo e o fundo de diversas lendas onde figuram personagens bíblicas: Noé, Abraão, José, Moisés, Salomão. Maomé levantou-se contra os judeus, que ele pretendia culpados de alterações do texto sagrado, e combateu-os pelas armas. O resto da lei maometana é emprestado de judeu-cristãos ou de seitas sincréticas destacadas do deísmo.

Várias destas seitas levavam o nome de sabeus. A literatura árabe conhece duas sortes de sabeus, aqueles que são citados no Corão e aqueles que habitavam Harran; estas seitas tinham o uso da adoração dos astros e a prática das abluções. Maomé conta os sabeus entre as «gentes do livro», isto é, entre as nações que possuem livros sagrados, uma parte da revelação. Foi deles aparentemente que ele recebeu o desenvolvimento da doutrina do profetismo, as lendas dos profetas e o costume das abluções; ele levantou-se contra a adoração dos astros.

As descrições do paraíso, a importância dada aos anjos e aos génios parecem derivar também da influência das seitas persas. Maomé dá-se a si mesmo como hanif e partidário da «religião de Abraão»; os hanif eram uma dessas seitas das quais falamos, mais ou menos formalmente constituída. A palavra, na origem, quer dizer «aquele que desvia, herético»; é, pelo contrário, tomada em boa parte no Corão, o que indica que Maomé sofreu a influência de alguns personagens considerados como heréticos pelo judaísmo.

Provavelmente uma parte da doutrina professada pelos hanif provinha, aos seus olhos, de revelações feitas a Abraão. É do lado da Pérsia que estas influências se propagaram na Arábia; elas espalhavam-se pelas vias do comércio; questões religiosas eram agitadas nas tabernas; poetas faziam delas o sujeito dos seus cantos. Citam-se, como tendo podido instruir Maomé neste sentido, ou como tendo professado opiniões análogas às suas, os poetas Zéid, filho de Amr, filho de Nofail, e Omayah, filho de Abou’s-Salt.

4° Principais historiadores e tradicionistas muçulmanos. — Tabari, Annales, édit. de Leyde, 1879 sq.; Masoudi, Les prairies d'or, édit. et trad. Barbier de Meynard et Pavet de Courteille, Paris, 1861-1877; Masoudi, Le livre de l'avertissement, édit. de Goeje, Leyde, 1894; trad. Carra de Vaux, Paris, 1897; Bokhari, Les traditions islamiques, trad. Houdas, 1903 sq.; Wakidi, Muhammed in Medina, trad. abrégée par J. Wellhausen, Berlin, 1882; Ibn Hicham, Das Leben Muhammeds, édit. Wüstenfeld, Goettingue, 1858, 1860.

2° Principais trabalhos europeus sobre a vida de Maomé. — Sprenger, Das Leben und die Lehre des Mohammed, 2e édit., Berlin, 1869; Weil, Das Leben Muhammeds, Stuttgart, 1864; Krehl, Das Leben und die Lehre des Muhammed, Leipzig, 1884; William Muir, The Life of Mahomet, Londres, 1858.

3° Trabalhos especiais sobre a composição do Corão. — Noeldeke, Geschichte des Qorans, Goettingue, 1860; H. Derenbourg, La composition du Coran, dans Opuscules d'un arabisant, Paris, 1905. — Traduction du Coran où les morceaux sont disposés d'après leur ordre chronologique présumé : Rodwell, Londres, 1861. — Sur les diverses influences ayant agi sur la composition du Coran : Caussin de Perceval, Essai sur l'histoire des Arabes avant l'islamisme, Paris, 1847; Goldziher, Muhammedanische Studien, Halle, 1888-1890; J.

Wellhausen, Reste arabischen Heidenthums, 2e édit., Berlin, 1897; Dozy, Israélites à La Mecque, Leipzig, 1864; Carra de Vaux, La légende de Bahira ou un moine chrétien auteur du Coran, Paris, 1898; Clément Huart, Une nouvelle source du Coran, dans le Journal asiatique, 1904 (sur le poète Omayya); L. Chéikho, Poètes arabes chrétiens, p. 141 (sur le poète el-Barraq); E. Power, Umayya ibn Abi es-Salt, dans les Mélanges de la faculté orientale de l'université Saint-Joseph de Beyrouth, 1906.

Autor original: CARRA DE VAUX

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