ALEATORIBUS, DE (TRATADO SOBRE JOGOS DE AZAR NA PATRÍSTICA)

São Domingos

I. Objeto. II. Natureza e autor. III. Doutrina. IV. Texto.

O De aleatoribus, classificado, desde o século VII, entre as Opera adscripta sancto Cypriano, tem sido estudado, nestes últimos anos, por vários estudiosos que não conseguiram chegar a um acordo nem sobre a data, nem sobre o autor deste opúsculo. Sua natureza exata também é incerta.

I. OBJETO. — Este escrito é dirigido contra aqueles que se entregam sem restrições aos jogos de azar e, principalmente, ao jogo de dados. Nos quatro primeiros capítulos, o escritor, «sucessor daquele sobre quem Jesus Cristo fundou a sua Igreja», faz ressaltar a importância do encargo apostólico que recebeu e os graves deveres que lhe incumbem em virtude deste cargo; ele deve repreender os pecadores com severidade, se não quiser ser ele mesmo punido. Estigmatiza, em seguida, aqueles que se entregam a estes jogos de azar, que devem ser classificados entre os maiores crimes. As consequências são funestas, pois são a ruína da alma e são acompanhadas das perversidades mais terríveis. Tudo deve afastar o cristão disso: aquele que foi o inventor do jogo, ao qual se faz prestar um culto religioso; os anátemas que a Escritura lança contra os jogadores; e ainda as consequências desta paixão, a ruína e a desgraça temporal e eterna dos jogadores, caso não façam penitência. Que os fiéis fujam, portanto, do jogo de dados; que consagrem os seus bens ao Senhor e pratiquem as virtudes cristãs. Tal é, em resumo, o conteúdo do De aleatoribus.

II. NATUREZA E AUTOR. — Este escrito é uma homilia ou uma carta encíclica dirigida aos bispos? As palavras do início, onde o autor diz que recebeu o governo apostólico e que é o sucessor legítimo daquele sobre quem Cristo fundou a sua Igreja, provam que o escritor é um pontífice romano. Mas será que ele se dirige aqui a toda a Igreja? Ele diz que tem o encargo de toda a fraternidade (universa fraternitas); parece também falar a todos os bispos: Nam ut constaret nos, id est episcopos, pastores ovium esse spiritalium, e traçar-lhes os deveres do seu cargo; estas palavras, é verdade, podem ser entendidas num sentido mais restrito. A universa fraternitas seria toda a comunidade, da qual o escritor é o chefe, como bispo, e este plural: nos episcopi, poderia ser o plural de majestade; pois o escrito não se dirige, na realidade, aos bispos, uma vez que, em várias passagens, e desde o início, os leitores ou ouvintes são chamados de fideles. É, portanto, provável que o De aleatoribus seja uma homilia pronunciada por um pontífice de Roma perante a comunidade romana. Possui todos os caracteres de tal; a língua é o latim vulgar, Wölflin e Miodonski, Anonymus adversus aleatores, p. 18; o tom é enérgico, quase violento; o jogo é um ato de idolatria, uma apostasia, é um crime horrível, é a armadilha da morte. Das próprias palavras desta homilia, devemos concluir que o autor é um papa (Universa fraternitas, apostolatus ducatus, vicaria Domini sedes, origo authentici apostolatus, aplicando-se-lhe as passagens de Mt 16,18; Jo 21,15); mas qual dos papas? As opiniões divergem. Seria o papa Vítor I (190-200), segundo Harnack; Calisto (218-223) ou um dos seus sucessores, segundo o P. Bäumer; Melquíades (310-314), segundo Sanday e Miodonski. As duas primeiras hipóteses devem ser descartadas pelo fato de que o De aleatoribus depende certamente dos escritos de São Cipriano (início do século III-258). E, primeiramente, temos neste opúsculo expressões e numerosas passagens que se reencontram nas obras autênticas do bispo de Cartago, Wölflin, op. cit., p. 26; várias particularidades de língua lhes são comuns; as fórmulas de citação da Sagrada Escritura, assim como a repartição dos escritos bíblicos em Scriptura divina, Evangelium, Apostoli, são idênticas e, como são bastante especiais em São Cipriano, esta prova é categórica. Em suma, as semelhanças são tais que se explica muito bem que o De aleatoribus tenha podido ser atribuído a São Cipriano. Contudo, um exame atento prova que não é dele. O estilo é mais rude e pouco elegante, enquanto o do bispo de Cartago é nobre e harmonioso. A retórica também difere nos dois escritores. Mais ponderada em São Cipriano, ela é arrebatada pela paixão no De aleatoribus. É inútil mostrar que São Cipriano não foi o imitador e que não pode ser o De aleatoribus que foi a fonte e que lhe forneceu as voltas de frase, expressões e ideias. Se, portanto, é preciso colocar o autor do nosso opúsculo após São Cipriano, pode-se pensar no papa Melquíades que, originário da África, pôde falar este latim que recorda o do bispo de Cartago. Além disso, conhecendo bem as obras deste, pôde pronunciar uma homilia que parece ser um centão dos escritos de São Cipriano. Notemos, contudo, que este latim, pretensamente africano, era simplesmente o latim vulgar, tal como era falado em Roma e na África, e que não era de modo algum necessário a um papa ser africano para conhecer e imitar as obras de São Cipriano.

III. DOUTRINA. — Não se deve esperar encontrar, numa homilia tal como o De aleatoribus, uma exposição doutrinal expressa em termos precisos; é possível, contudo, extrair dela algumas doutrinas importantes. Primeiramente, a afirmação muito clara da supremacia da Sé de Roma, pelo fato de que o pontífice romano é o sucessor legítimo daquele sobre quem Cristo fundou a sua Igreja: quoniam in nobis divina et paterna pietas apostolatus ducatum contulit et vicariam Domini sedem celesti dignatione ordinavit et originem authentici apostolatus super quem Christus fundavit ecclesiam in superiore nostro portamus, accepta simul potestate solvendi ac ligandi et cum ratione peccata dimittendi, de onde decorre o encargo de toda a cristandade: magna nobis ob universam fraternitatem cura est. Os bispos receberam o Espírito Santo pela imposição das mãos; eles são os pastores dos fiéis e os dispensadores da doutrina evangélica, os procuradores do Evangelho. O orador, flagelando o abuso que os jogadores de dados fazem das suas mãos, passa em revista a vida cristã: manus que jam ab injuriis humanis expiata est et ad sacrificium dominicum admissa et quod ad salutem totius hominis pertinet ipsa de Dei dignatione suscipit, ipsa ad laudem Domini in oraculo exurgit, ipsa divina sacramenta consummat. Alhures, faz alusão ao sacrifício de Jesus Cristo, V, ao sacrifício do Senhor, VII.

Hilgenfeld sustentou que o autor do De aleatoribus era novaciano, devido à seguinte passagem, x: Nam quod delicti in Deum nulla fit excusatio nec indulgentia ulla et nemina venia datur; in Evangelio Dominus dicit, si qui, inquit, dixerit blasphemiam in Filium hominis, dimittetur ei: qui autem peccaverit in Spiritum Sanctum, non dimittetur illi nec hic nec in futuro seculo. Em seguida, são citados também outros textos análogos da Sagrada Escritura: I Re., iii, 25; I Cor., iii, 16-17; Mt., vii, 23; I Jo., ii, 8. Todos esses textos reportados foram, de fato, empregados pelos montanistas e pelos novacianos para estabelecer a impossibilidade absoluta do perdão após o pecado. Mas pode-se e deve-se, com os Padres da Igreja, ver neles apenas uma grande dificuldade para o pecador retornar a Deus. E é bem nesse sentido que o orador o entendeu, uma vez que todo o seu discurso tende a exortar o pecador à conversão; ele afirma positivamente a possibilidade da remissão dos pecados: ut peccata tua donentur tibi eleemosynis, xi, e os pecados, dos quais se trata aqui, são os do jogador de dados, os quais foram estigmatizados nas páginas precedentes e assimilados aos mais graves crimes. Encontramos mesmo no De aleatoribus a prova mais antiga de que o perdão dos pecados era precedido de um exame racional: Accepta simul potestate solvendi ac ligandi et cum ratione peccata dimittendi.

IV. TEXTO. — O texto do De aleatoribus pode ser constituído com a ajuda de quatro manuscritos: o Codex Monacensis, século IX; o Trecensis, séculos VIII-IX; o Reginensis, século IX e o Parisiensis, século IX. Segundo Miodonski e Wölfflin, os três primeiros manuscritos são os melhores e é segundo eles que estabeleceram sua edição do De aleatoribus. Para a discussão do valor dos manuscritos, ver Miodonski e Wölfflin, op. cit., p. 10. Hartel preferiu o Parisiensis e dele se serviu sobretudo em sua edição das obras de São Cipriano. O De aleatoribus encontra-se também na P. L., t. IV, col. 827-836. Tinha sido impresso pela primeira vez em Paris, em 1564, entre as obras de São Cipriano, editadas por Morellius. Pamelius (1568), Baluze e Maran (1726) o colocam ao lado dos escritos inautênticos (spuria) de São Cipriano.

BIBLIOGRAFIA: Ad. Harnack, Der pseudo-cyprianische Traktat De aleatoribus, Die älteste lateinische christliche Schrift, Ein Werk des römischen Bischofs Victor I (saec. II), em Texte und Untersuchungen zur Geschichte der altchrist. Literatur, t. V, fasc. 4, Leipzig, 1888; Funk, Die Schrift De aleatoribus, em Historisches Jahrbuch, t. XI, p. 1-22; Joh. Haussleiter, em Theologisches Literaturblatt, 1889, n. 5, 6; P. v. Heensbreech, Die Schrift De aleatoribus als Zeugnis für den Primat der römischen Bischöfe, em Zeitschrift für kath. Theologie, t. XIV, 1890, p. 1-26; A. Miodonski e E. Wölfflin, Anonymus adversus aleatores, Leipzig, 1889; A. Hilgenfeld, Libellum De aleatoribus, Friburgo, 1890; Étude critique sur l’opuscule De aleatoribus par les membres du séminaire d’histoire ecclésiastique établi à l’Université catholique de Louvain, Louvain, 1894.

E. JACQUIER.


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