ALEANDRE JÉRÉME

ALEANDRE JÉRÉME

ALEANDRE, Jerónimo. Aléandre nasceu em Motta, pequena cidade na Marca Trevisana, em 13 de fevereiro de 1480. De 1493 a 1508, estudou em Motta, em Pordenone e, sobretudo, em Veneza e Pádua. Aprendeu latim, grego e hebraico, o que o faria ser frequentemente denominado, mais tarde, o doutor das três línguas; a estas somou o siríaco e o caldeu, iniciando-se em todas as ciências conhecidas de seu tempo. Em Veneza, integrou a Academia de Aldo Manúcio. Em 1508, por conselho de Erasmo, partiu para Paris a fim de lecionar humanidades. Ensinou durante cinco anos na França, quase sempre em Paris (4 de junho de 1508 a 8 de dezembro de 1510; 19 de junho de 1511 a 4 de dezembro de 1513), e alguns meses em Orleães (10 de dezembro de 1510 a 14 de junho de 1511). Durante esses cinco anos, Aléandre ministrou aulas de latim e hebraico, talvez de caldeu e siríaco, mas especialmente de grego: foi ele quem fundou, entre nós, o ensino dessa língua. Em 18 de março de 1513, foi eleito reitor da Universidade de Paris.

Em 4 de dezembro de 1513, Aléandre tornou-se secretário do procanceler da França, Etienne Poncher; ao final do ano seguinte, vinculou-se ao príncipe-bispo de Liège, Erard de la Marck. Em 16 de março de 1516, partiu para Roma para ser o agente de La Marck. Dois anos depois (27 de julho de 1519), Leão X nomeou-o bibliotecário do Vaticano; em julho de 1520, núncio junto a Carlos V e à dieta que se reuniria na Alemanha: devia obter a aceitação da bula Exurge, que condenara Lutero (15 de junho de 1520). Após longas e penosas negociações, conseguiu que fosse promulgado contra Lutero o célebre Édito de Worms (8 de maio de 1521).

Esta missão foi o ponto culminante da vida de Aléandre. Orientou os seus trabalhos pelo resto de seus dias. Até então, fora antes de tudo um humanista; tornar-se-ia, sobretudo, um homem de Igreja: suas duas preocupações seriam derrotar a Reforma protestante e assegurar a Reforma católica, particularmente através da reunião de um concílio.

Em 8 de agosto de 1524, Clemente VII nomeou Aléandre arcebispo de Brindisi e núncio junto a Francisco I, com a missão de promover a paz entre este e Carlos V. Em 24 de fevereiro de 1525, foi feito prisioneiro em Pavia, retornando a Roma (3 de agosto de 1525). De 8 de março de 1527 até meados de 1529, residiu em sua diocese de Brindisi; em 1531-1532, foi enviado à Alemanha para preparar o concílio e a defesa da cristandade contra os turcos; de 1533 a 1535, foi núncio em Veneza. Nos anos seguintes, foi em Roma um dos principais conselheiros de Paulo III, sobretudo para as negociações relativas ao concílio. Em 22 de dezembro de 1538, foi criado cardeal e, oito dias depois, nomeado legado para presidir o concílio que deveria reunir-se em Vicenza. Esta tentativa fracassou e Aléandre foi enviado como legado à Alemanha, tendo em vista um entendimento a ser alcançado com os reformados (1538-1539). Regressou a Roma sem sucesso; ali faleceu em 1º de fevereiro de 1542, inquieto com o progresso da Reforma. Dois dias antes de sua morte, compôs este epitáfio:

Θαρσαλέως κ’ αέκων, ὅτι παύσομαι ἀλγύνεσθαι Πολλάκις, ὦ θάνατε, σ’ ὥσπερ ἰατρὸν ἐπικαλέω.

«Morro sem arrependimento: finalmente deixei de ver coisas mais tristes que a morte.»

Aléandre possuía memória prodigiosa, espírito vivo e inteligência brilhante; contudo, era mais capaz de assimilar do que de criar. Por toda a vida, foi um colecionador de documentos; por isso, prestou um serviço inestimável à história: merece ser chamado o pai da história da Reforma. Até os 45 anos, manteve costumes muito menos dissolutos do que a maioria dos humanistas, ressalvados alguns desvios de juventude. Sua conversão definitiva data de cerca de 1525. Aliás, foi somente nessa época que recebeu a ordenação sacerdotal. Declarou em seu testamento: quod in omnibus suis legationibus nullum unquam munus accepit. É, no século XVI, um dos mais belos exemplos de homens que chegaram à celebridade por meio de sua inteligência e energia.

Aléandre compôs e mandou imprimir o édito latino de Worms contra Lutero (8 de maio de 1521). A editio princeps parece ser aquela contida no vol. XVII do Armário LXIV dos Arquivos Vaticanos, Acta Wormatiensia, fº 130-138, sine loco et anno; foi impressa em Lovaina de 19 a 26 de junho de 1521.

É um dos autores do Consilium delectorum cardinalium et aliorum praelatorum de emendanda Ecclesia, composto em 1536-1537 e publicado sub-repticiamente por Jean Sturm, Estrasburgo, 1538, in-4°; colaborou na Reformatio proposita Paulo III a deputatis cardinalibus sobre os abusos da Dateria (1537). Arch. Vat., Arm. LXIII, t. vi, fº 359-372, orig., publicada a partir das cópias por F. Dittrich, Regesten und Briefe des Cardinals Gasparo Contarini, Braunsberg, 1881, in-8°, p. 279-288.

Além disso, algumas partes da herança manuscrita de Aléandre tratam mais especificamente de teologia. São os mss. Vat. 3914, 3915, 3917, 3918, 3919, 3926, 3927, 3928, 6261, 6262 e Chigi R., II, 49º Esses manuscritos formam dois grupos. Os cinco primeiros são coleções de documentos sobre a Reforma da Igreja; os seis restantes são coletâneas de notas filológicas, filosóficas e teológicas, em latim, grego, hebraico e caldeu. Os manuscritos Vat. 3915, 3918, 3919 são os quatro livros Sobre o futuro concílio, de que fala Vittorelli em suas adições a Ciaconius: «Quos (sc. libros) confectos libros Tridentine Synodo usui plurimum fuisse intellexi.» A. Ciaconius, Vitae et res gestae pontificum et cardinalium, Roma, 1630, in-fol., col. 1523; Roma, 1677, in-fol., t. III, col. 626.

J. Pasquier, Jéréme Aléandre, Paris, 1900, in-8°. Um capítulo preliminar contém as obras de Aléandre e os principais autores que escreveram sobre ele.

Autor original: J. Pasquier

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