CRÍTICA

CRÍTICA

CRÍTICA. — I. Da crítica em geral. II. Da crítica bíblica em particular. III. Da crítica nos outros ramos da teologia.

I. DA CRÍTICA EM GERAL. — 1° Natureza. — Etimologicamente, a crítica, κριτικὴ τέχνη, κριτική, dos antigos, significa Julgamento, discernimento, arte de julgar. Desde o século XVIII, este nome tornou-se um termo técnico da arte do discernimento, e definiu-se como o exame racional das produções do espírito humano. É uma arte, que exige conhecimentos extensos, um talento de observação, tato e discernimento para distinguir, em todas as produções do espírito humano, o verdadeiro do falso, o que é de bom quilate daquilo que não o é. É um método de trabalho, aplicável onde quer que haja algo a aprender, a controlar, a apreciar ou a retificar.

Seu objeto é, portanto, tão extenso quanto a atividade humana. Segundo os objetos aos quais se aplica, tem-se a crítica artística, a crítica científica, a crítica filosófica, a crítica histórica e a crítica literária, etc. O discernimento do verdadeiro e do falso é necessário em todas as matérias nas quais o erro pode se misturar à verdade. Mas o termo crítica, tomado absolutamente, designa especialmente a crítica histórica e literária, isto é, a crítica aplicada aos documentos da história e às produções da literatura antiga.

Enquanto se exerce sobre os documentos escritos da antiguidade, pode-se defini-la como a arte de verificar a autenticidade de um texto e de apreciar sua credibilidade. Os fins diferentes ou as funções variadas da crítica histórica levaram a distinguir diversas espécies de crítica.

2° Espécies. — Elas não coincidem todas e não são, frequentemente, senão aspectos diferentes do mesmo fim. — 1. Distinguiu-se às vezes, em razão da importância maior ou menor do seu objeto ou do seu fim, mas de modo bastante impróprio, a alta e a baixa crítica. A primeira consiste em pesquisar se um escrito é autêntico, isto é, se é realmente do autor a quem é atribuído ou pelo menos da época à qual se refere. Ver AUTHENTICITÉ, t. I, col. 2586. Chama-se hoje, mais exatamente, crítica de proveniência.

A segunda consiste em verificar a conservação do texto, sua integridade, de modo a restabelecê-lo, tanto quanto possível, em seu estado primitivo, tal como saiu das mãos de seu autor. É a crítica mais justamente chamada textual. Ela é feita pela comparação dos manuscritos, das versões antigas, se houver, e consiste em rejeitar os erros de transcrição, em escolher entre as variantes a lição original e, por vezes, em constatar que o texto está alterado, sem ter o meio seguro de corrigi-lo, a não ser por conjectura. A crítica textual, fundada sobre os documentos, é dita científica; feita por conjectura, denomina-se conjetural.

Não se deve recorrer à conjectura senão quando não se tem à disposição nenhum meio científico de restituir um texto evidentemente alterado; está-se então no direito de propor modestamente uma emendatio ou correção. Algumas conjecturas, feitas por verdadeiros críticos, foram por vezes verificadas após a descoberta de novos documentos. Mas certos críticos abusam da conjectura e propõem reconstituições muito discutíveis dos textos que estudam ou que editam. Cf. Langlois et Seignobos, Introduction aux études historiques, 2e édit., Paris, 1899, p. 59-60. — 2.

A crítica de proveniência é dita externa, se a autenticidade é provada por testemunhos extrínsecos, atestando expressamente a atribuição ao autor ou, por citações e empréstimos, a existência do livro em tal época em que já era conhecido e empregado. Ela é dita interna, quando se apoia sobre o conteúdo do livro para confirmar sua atribuição ao autor ou à época aos quais se refere, ou ainda para provar que não pode ser deste autor ou desta época. Ver AUTHENTICITÉ, t. I, col. 2590-2591. Opoem-se, por vezes, estas duas sortes de crítica; isso é incorreto. Todas as vezes que elas coincidem, devem unir-se e sustentar-se.

As provas externas não são válidas senão na medida em que são confirmadas pelas provas internas, e estas não podem contradizer os testemunhos senão quando mostram evidentemente a falsidade de uma atribuição e a inautenticidade de uma obra para a época à qual se refere. Não levar em conta senão a elas mesmas e negligenciar de propósito as provas extrínsecas ou de testemunho é um método que Leão XIII condenou em sua encíclica Providentissimus Deus, de 18 de novembro de 1893, sob o nome de critique sublimior. — 3.

Distingue-se por vezes a crítica de proveniência em crítica negativa e em crítica positiva, segundo os resultados aos quais ela chega. Mas são antes duas funções diferentes do que duas espécies de crítica. Esta é negativa quando declara não autêntico um documento até então atribuído falsamente a um autor ou a uma época determinada; é positiva quando demonstra a autenticidade do livro que examinou. Se os argumentos são demonstrativos em um sentido ou no outro, os resultados são adquiridos e inatacáveis.

Mas porque certos críticos declararam, com demasiada facilidade e por razões insuficientes ou puramente subjetivas, a inautenticidade de vários escritos, o nome de crítica negativa assumiu um sentido pejorativo e soa mal aos ouvidos do público, porque pressupõe conclusões precipitadas ou mal fundamentadas. De si, porém, a crítica não é necessariamente negativa e destrutiva, e se ela dissipa um erro, ela não é menos real e positiva do que se ela estabelece ou confirma uma verdade. — 4. Fala-se por vezes também de crítica independente, autônoma.

Se se quer falar desta autonomia que faz com que a crítica histórica tenha, como arte, as suas regras próprias e o seu método especial, é evidente que a crítica deve ser independente de todo preconceito, e é inútil afirmar a sua independência. Mas, ao empregar este nome, fala-se ordinariamente da independência da crítica em relação ao dogma católico e à revelação divina. Ora, esta pretensa autonomia, que nada mais é do que a negação a priori do milagre e do sobrenatural, não é da essência da crítica. Segundo a expressão de Pio X, esta negação do sobrenatural é apenas um postulado de uma falsa crítica histórica.

A crítica, acrescenta o papa, não é por si responsável pelos abusos que dela se fazem; ela não é uma demolidora e permanece um meio legítimo de investigações felizes. Encyclique Jucunda sane para o 13e centenário de São Gregório Magno, de 12 de março de 1904, no Canoniste contemporain, 1904, t. XXVII, p. 288. Todavia, os racionalistas, alguns protestantes e os católicos ditos modernistas viciaram o emprego da crítica histórica pela introdução de ideias filosóficas, que, segundo a enérgica expressão de Pio X, na encíclica Pascendi de 8 de setembro de 1907, não conduz senão à desfiguração da história.

O seu método, inteiramente subjetivo, não é admissível, e o papa condenou-o justamente. — 5. À crítica de procedência, ou autenticidade, à crítica de restituição ou crítica textual, acrescenta-se a crítica de interpretação do documento, demonstrado autêntico e restabelecido no seu texto primitivo. Mas esta crítica entra antes numa outra disciplina que se chama hermenêutica. Como não fazemos aqui um tratado de crítica histórica, limitamo-nos a assinalá-la e remetemos o leitor aos manuais de crítica. Ver Ch. de Smedt, Principes de la critique historique, c. VII, VIII, Liège, Paris, 1883, p. 99-136.

Notemos enfim que se chama por vezes crítica interna esta crítica que consiste em compreender o sentido do documento, em controlar a sua afirmação, em julgar da sua verdade e em apreciar o seu alcance. Outros nomeiam-na crítica real.

3° A hipercrítica. — É o excesso da crítica; «é a aplicação dos processos da crítica a casos que não são passíveis dela. A hipercrítica está para a crítica assim como a sutileza excessiva está para a fineza. Certas pessoas farejam enigmas em toda parte, mesmo onde não os há. Elas criam sutilezas sobre textos claros a ponto de torná-los duvidosos, sob pretexto de purgá-los de alterações imaginárias. Distinguem casos de falsificação em documentos autênticos. Estado de espírito singular! À força de desconfiar do instinto de credulidade, começa-se a suspeitar de tudo.

É de notar que, quanto mais a crítica dos textos e das fontes realiza progressos positivos, mais o perigo da hipercrítica aumenta. Com efeito, quando a crítica de todas as fontes históricas tiver sido corretamente operada (para certos períodos da história antiga, é uma eventualidade próxima), o bom senso ordenará parar. Mas não se resignará a isso: refinar-se-á, como já se refina sobre os textos mais bem estabelecidos, e aqueles que refinarem cairão fatalmente na hipercrítica.» Langlois et Seignobos, op. cit., p. 107. A hipercrítica destrói o trabalho da crítica; ela prejudica também a boa fama da crítica com a qual a confundem erroneamente.

II. DA CRÍTICA BÍBLICA EM PARTICULAR. — 1° A sua utilidade e a sua necessidade. — Aplicar o método crítico à Bíblia não é uma impiedade? Alguns estariam talvez inclinados a pensá-lo e a dizê-lo. A consideração da sua natureza e do seu objeto próprio basta para afastar essa suspeita. A crítica não é por si mesma oposta à revelação. É, repitamos, um método de investigação, um instrumento de trabalho, que se aplica a toda produção literária. Além disso, ela não estuda a Bíblia como livro divino.

Não se usa para verificar o fato da inspiração dos Livros santos, que, atestado pela revelação e pela Igreja intérprete da revelação, escapa às presas da crítica, assim como a canonicidade, não obstante a pretensão dos protestantes. Ver CANON DES LIVRES SAINTS, t. I, col. 1555-1569. Ela não está encarregada tampouco de fixar o objeto próprio da revelação divina contida na Bíblia; nesta matéria existe a autoridade infalível da Igreja católica. A crítica pode apenas ajudar a preparar as definições da autoridade competente.

Mas a Bíblia é, pelo próprio fato da sua composição no tempo e da sua redação por homens inspirados, um livro humano, como ela o é pela sua transmissão, submetida às mesmas leis que a dos outros documentos da antiguidade e exposta aos mesmos perigos e às mesmas vicissitudes, embora esta transmissão se tenha realizado sob uma direção especial da providência na e pela Igreja.

Por esse motivo, enquanto livro humano segundo a sua forma exterior, tendo a sua origem e a sua história entre a humanidade, a Bíblia participa da condição geral de todos os livros e, particularmente, dos livros antigos e, a este título, é necessária e legitimamente objeto da crítica. Sempre se admitiu que ela poderia e deveria sê-lo, e a crítica, aplicada à Sagrada Escritura, tomou o nome de crítica sagrada. Assim, Leão XIII recomendou calorosamente o seu emprego nos estudos bíblicos, no mesmo nível que o estudo das línguas orientais antigas. Este conhecimento da arte da crítica, que hoje se estima tanto, é necessário ao clero. Os professores de exegese bíblica e os teólogos «devem ser mais doutos e mais exercitados que os outros na arte da verdadeira crítica». Encíclica Providentissimus Deus de 18 de novembro de 1893.

2° Crítica de procedência. — É precisamente a respeito da origem dos Livros santos que Leão XIII, ao mesmo tempo em que condenava a crítica dita superior, toda ela subjetiva, recomendou ao clero o cultivo da crítica. Pio X, na encíclica Pascendi de 8 de setembro de 1907, assinalou ainda mais energicamente os procedimentos subjetivos e arbitrários aplicados pelos modernistas à crítica de procedência dos Livros santos. A autenticidade desses Livros, embora não sendo definida como fé católica, é todavia muito importante e, quando repousa sobre uma tradição firme da Igreja, deve ser mantida e defendida com força e vigor. Ver AUTHENTICITÉ, t.

I, col. 2591-2593. Em 27 de junho de 1906, a Comissão Bíblica declarava, com a aprovação de Pio X, que os argumentos acumulados pelos críticos para atacar a autenticidade mosaica do Pentateuco não tinham peso suficiente para contrabalançar a tradição judaica e cristã que afirma que Moisés é o autor desses cinco livros. Em 29 de maio de 1907, a mesma Comissão reconhecia que a autenticidade joanina do quarto Evangelho está fundada tanto em testemunhos extrínsecos quanto em argumentos intrínsecos.

3° Crítica de restituição ou crítica textual. — A crítica ainda é necessária para estabelecer a pureza e a integridade do texto sagrado. A história da transmissão secular desse texto faz constatar a existência de numerosas variantes, de negligências dos copistas, de erros evidentes e de alterações de detalhe. É, portanto, necessário pesquisar, entre as diversas lições, aquela que era original, corrigir os erros de cópia e restituir ao texto sagrado, se possível, a sua pureza primeira sem mistura de elementos estrangeiros.

Longe de ser contrária à religião, como se parece acreditar por vezes, este trabalho de depuração é um ato de religião e de respeito pela palavra de Deus. Por isso, tem sido sempre tido em honra na Igreja. Orígenes empreendeu as suas Hexaplas com este objetivo, e Santo Agostinho dava este sábio conselho: Codicibus emendandis primitus debet invigilare solertia eorum qui Scripturas divinas nosse desiderant, ut emendatis non emendati cedant, ex uno duntaxat interpretationis genere venientes. De doctrina christiana, l. II, c. XIV, n. 21, P. L., t. XXXIV, col. 46.

Leão XIII, ele também, aconselha ao exegeta a determinar, antes de tudo, a verdadeira lição do texto que deve explicar: Post expensam, ubi opus sit, omni industria lectionem. É, portanto, acima de tudo necessário fazê-lo e dedicar-lhe toda a sua diligência. É que o texto é por vezes falho: Fieri quidem potest, ut quaedam librariis in codicibus describendis minus recte exciderint; quod considerate judicandum est, nec facile admittendum, nisi quibus locis rite sit demonstratum. Encíclica Providentissimus Deus. Cf. J. Didiot, Traité de la sainte Écriture, Paris, 1894, p. 34, 55, 181-183.

Mas Pio X, na encíclica Pascendi de 8 de setembro de 1907, justamente reprovou o abuso desta crítica, posta ao serviço das falsas ideias filosóficas e teológicas dos modernistas. A crítica textual exerce-se tanto sobre os textos originais dos dois Testamentos quanto sobre as versões antigas.

Ela não começou, propriamente falando, sobre o texto hebraico senão no século XVIII, e não existe ainda uma obra de conjunto. Muitos sábios alemães publicaram trabalhos parciais, mas introduzem muito facilmente no texto modificações arbitrárias. Sobre a crítica textual do Antigo Testamento, ver A. Loisy, Histoire critique du texte et des versions de la Bible, em L’enseignement biblique, 1892, p. 187-313; Buhl, Bibeltext des A. T., em Realencyclopädie für protestantische Theologie und Kirche, t. I, p. 713-728. Não existe ainda uma edição crítica da Bíblia hebraica, e as edições que contêm variantes são de data muito recente. D.

Ginsburg, Biblia hebraica. Massoretisch-kritischer Text des Alten Testaments, 2ª ed., Londres, 1906; R. Kittel, Biblia hebraica, 2 in-8, Leipzig, 1906. Mais conhecida e mais avançada é a crítica textual do Novo Testamento. Ver os Prolegomena de Gregory à 8ª edição maior de Tischendorf, Leipzig, 1884-1894, e Textkritik des N. T., do mesmo autor, 2 in-8° publicados, Leipzig, 1900, 1902. Cf. O. von Gebhardt, Bibeltext des N. T., em Realencyclopädie, etc., t. XI, p. 728-773. A história das edições do Novo Testamento grego foi escrita por E. Reuss, Bibliotheca N. T. graeci, Brunswick, 1872.

Existem várias destas edições feitas do ponto de vista crítico.

Basta nomear as de Tischendorf, Hort e Westcott, B. Weiss, Nestle, etc. Nenhuma tem a pretensão de ser definitiva. Infelizmente, este gênero de estudos foi deixado de forma demasiado exclusiva aos protestantes, e os trabalhos católicos (Aug. Scholz, Brandscheid, Hetzenauer) são inferiores, é preciso reconhecer. É de se desejar que a crítica textual do Novo Testamento seja entre nós mais honrada. Se não a cultivamos, deveríamos ao menos nos manter a par dos resultados adquiridos; o que nem sempre ocorre.

As antigas versões da Bíblia, representando os textos originais em um estado anterior ao texto dos manuscritos mais antigos que nos chegaram, têm uma importância capital para a reconstituição do texto primitivo. Infelizmente, seu estudo crítico é pouco avançado e ainda resta muito a fazer. A primeiríssima, a dita dos Septuaginta, já é mais conhecida. Suas edições diversas reproduzem diferentes manuscritos e outros códices já foram colacionados. Conhece-se, portanto, já o valor crítico dos diversos grupos de manuscritos, e dispõe-se de numerosos recursos para uma edição verdadeiramente crítica. Ver A.

Loisy, Histoire critique du texte et des versions de la Bible, em L’enseignement biblique, 1893, p. 32-163; Swete, An introduction to the Old Testament in greek, Cambridge, 1900. Este sábio publicou uma edição crítica do texto dos Septuaginta: The Old Testament in greek, according to the Septuagint, 2e édit., 3 in-12, Cambridge, 1897. As versões latinas, anteriores à de São Jerônimo, derivam dos Septuaginta. Desde a monumental obra de dom Sabatier, Bibliorum sacrorum versiones antiquae, sive vetus Itala, etc., 3 in-fol., Paris, 1739-1749, os documentos multiplicaram-se. col. 99-111.

A Academia de Munique faz executar os trabalhos preparatórios para uma edição crítica dessas velhas versões. Da Vulgata de São Jerônimo nós não possuímos ainda uma edição crítica. A edição oficial de Clemente VIII, pela admissão do próprio Papa, não é perfeita. Wordsworth e White publicam uma edição crítica do Novo Testamento. Os quatro Evangelhos e os Atos já apareceram: Novum Testamentum Domini Nostri Jesu Christi latine secundum editionem sancti Hieronymi, in-4°, Oxford, 1889-1898, t. I en 5 fasc.; 1905, t. III, fasc. Ier. Em 1907, o presidente da Comissão bíblica encarregou a ordem beneditina de continuar o trabalho, inaugurado pelo P.

Vercellone, barnabita, e de recolher nos manuscritos latinos as variantes da Vulgata em vista de preparar os materiais necessários a uma revisão oficial e crítica desta versão. Nova prova, se fosse necessária, de que a Igreja, longe de temer a crítica textual, favorece-a e espera tirar proveito dela para a correção e o aprimoramento do texto sagrado. 4° Crítica de interpretação. — Os Livros santos, sendo ao mesmo tempo livros divinos e humanos, exigem ser interpretados fora das regras de hermenêutica comuns a todos os documentos antigos, seguindo regras especiais conformes ao seu caráter divino e inspirado.

Ver INTERPRETATION DE LA SAINTE ECRITURE. 5° Falsa crítica e hipercrítica. — Em sua encíclica Jucunda sane para o 13° centenário de São Gregório Magno, de 12 de março de 1904, Pio X denunciou vários abusos da falsa crítica, que nega a priori o sobrenatural e pretende excluí-lo da história: Ejusmodi sunt Jesu Christi divinitas, mortalis ab eodem assumpta caro, Spiritus Sancti opera, sua ipse virtute a mortuis excitatus, omnia denique fidei nostrae cetera capita. Canoniste contemporain, 1904, t. XXVII, p. 288. É pela mesma razão que M.

Sanday disse que a crítica é infinitamente temível assim que se torna um instrumento servindo para justificar empiricamente um postulado da ordem especulativa. Cf. Mgr Batiffol, La question biblique dans l’anglicanisme, Paris, s. d. (1905), p. 34-44. Por outro lado, é justo dizer ainda com Mgr Batiffol, op. cit., p. 31-34, que a intemperança hipercrítica sempre grassou especialmente no estudo da Bíblia. Sem querer esgotar o assunto, bastará citar como exemplos as conclusões dos Srs.

Havet, Maurice Vernes, Dujardin, sobre a modernidade dos profetas de Israel, cujos escritos seriam posteriores ao cativeiro dos Judeus na Babilônia e da época grega; as da escola holandesa sobre a autenticidade e a data das Epístolas de São Paulo, e, na ordem histórica, a importância concedida por Cheyne em sua Encyclopedia biblica, 4 in-4°, Londres, 1899-1903, ao pequeno clã de Jérahméélites, mencionado duas vezes apenas em todo o Antigo Testamento.

Tais excessos causam dano à crítica bíblica, e é necessário, especialmente nestas matérias, fazer a distinção muito exata entre a crítica e a hipercrítica, a crítica objetiva e a crítica subjetiva, entre os resultados certos e as hipóteses vazias, entre o emprego legítimo e o abuso. J. Danko, De sacra Scriptura ejusque interpretatione commentarius, Viena, 1867, p. 134-142; Encyclopédie des sciences ecclésiastiques de Lichtenberger, t. III, p. 475-479; Kirchenlexikon, t. VII, col. 1197-1209; Realencyclopädie für protestantische Theologie und Kirche, t. XI, p. 119-146; A. Loisy, De la critique biblique, em L’enseignement biblique, 1892, n.

6, Chronique, p. 1-46, e em Etudes bibliques, Paris, 1901, p. 7-25; F. Godet, Introduction au N. T., Neuchatel, 1898, t. I, p. 38-70; V.

Ermoni, Du rôle et des droits de la critique en exégèse, dans la Science catholique, 1895, t. IX, p. 402-444, 482-505, 703-742; Mgr Mignot, L’apologétique et la critique biblique, dans la Revue du clergé français, 1901, t. XXVIII, p. 14-45; Id., Critique de la foi catholique-de Jaugey, Paris, s. d. (1889), col. 659-670; Mgr Legendre, De la critique biblique, dans la Revue des Facultés de l’Ouest, 1905, 1906.

III. DA CRÍTICA NOS OUTROS RAMOS DA TEOLOGIA. — Não há, fora da Bíblia, nenhum dos ramos da teologia aos quais os diversos tipos de crítica não possam aplicar-se. Obras dos Padres, dos escolásticos e dos próprios teólogos modernos são submetidas à tríplice crítica de proveniência, de restituição e de interpretação, assim como podem dar lugar à hipercrítica. Limitemo-nos a algumas indicações como simples exemplos.

1° Crítica de proveniência. — É claro que importa grandemente ao teólogo estar exatamente informado sobre a autenticidade dos escritos patrísticos e teológicos que ele cita ou que ele utiliza. Suas citações só têm valor enquanto são tomadas de obras que foram realmente compostas pelo Padre ou pelo teólogo cujo testemunho é invocado. Ora, é de notoriedade que certas obras foram atribuídas falsamente a autores que não as haviam composto. Basta nomear as obras do pseudo-Dionísio, o Areopagita, e as Falsas Decretais pseudo-isidorianas. Já se fez aqui mesmo a triagem entre os escritos autênticos e os escritos apócrifos de santo Atanásio, t.

I, col. 2154-2165, de santo Agostinho, ibid., col. 2286-2310, de santo Anselmo, ibid., col. 1330-1334, e de são Boaventura, t. III, col. 966-974. Demonstrou-se que a Summa sententiarum, atribuída a Hugo de São Vítor, não poderia ser dele, mas deveria ser atribuída a um de seus discípulos que sofreu a influência de Abelardo, t. I, col. 52-54. Nas notícias de diversos teólogos, faz-se, na ocasião, a distinção entre o autêntico e o apócrifo em suas obras.

2° Crítica de restituição ou textual. — As edições críticas dos Padres e dos teólogos, quando existem, devem ser citadas de preferência a qualquer outra. Isso se compreende, uma vez que o texto foi fixado a partir dos melhores manuscritos e com a ajuda dos recursos combinados da erudição moderna. As edições dos Padres pelos mauristas são ordinariamente de boa marca. Para os Padres apostólicos, é de toda necessidade recorrer às edições recentes, não somente por causa de textos novos recentemente descobertos, tais como a Didaché, mas também em razão das melhorias que seu texto sofreu graças aos trabalhos de diversos críticos.

As edições do Corpus scriptorum ecclesiasticorum latinorum de Viena e dos Griechischen christlichen Schriftsteller der ersten drei Jahrhunderte, publicados em Leipzig, são ordinariamente superiores às suas antecessoras. Utiliza-as aqui na ocasião e fê-lo especialmente para Clemente de Alexandria. Por razões análogas, a edição das Opera de são Boaventura, feita em Quaracchi, e a edição dita leonina de são Tomás de Aquino têm um texto mais seguro e mais crítico que todas as precedentes. Não há sequer a edição muito recente da Theologia moralis de santo Afonso de Ligório pelo P. Gaudé, que não apresente, sob o aspecto do texto, mais exatidão.

3° Crítica de interpretação. — É manifesto também que os textos de um Padre da Igreja, de um teólogo escolástico e até de um teólogo moderno não podem ser tomados isoladamente fora do contexto, do conjunto da doutrina do autor e do meio histórico no qual ele viveu. Correr-se-iam graves riscos de erro de interpretação ao não levar em conta diversos fatores e todos os elementos de controle. É por isso que nos esforçamos, nos artigos doutrina de cada Padre ou grande teólogo, bem como nos ensinamentos próprios a cada época teológica.

Pode-se fazer entrar na mesma ordem de ideias a verificação das citações feitas dos Padres e dos teólogos anteriores pelos teólogos posteriores. Ela permite constatar falsas atribuições de opiniões, citações truncadas e o recurso a obras apócrifas. As edições críticas fornecem ordinariamente o resultado dessas verificações. Assinalemos em particular a revisão crítica que os Padres Ballerini e Palmieri, Opus theologicum morale in Busembaum Medullam, fizeram de todas as citações e referências de santo Afonso de Ligório e aquela que o P. A. Walter fez em sua tradução latina dos escritos dogmáticos do mesmo santo doutor: S.

Alphonsi Mariae de Ligorio Ecclesiae doctoris Opera dogmatica ex italico sermone in latinum, 2 in-4, Roma, 1903. Se esse trabalho de retificação se generalizasse, muitos erros, que têm curso no mundo teológico, desapareceriam dos manuais, onde eles proliferam e onde persistem, mesmo depois de terem sido assinalados, tal é a sua tenacidade.

4° Hipercrítica. — A hipercrítica pode dar-se livre carreira seja a respeito da autenticidade ou da interpretação dos documentos antigos. Limitemo-nos a recordar as interpretações extravagantes dadas recentemente à inscrição de Abercius, ver t. I, col. 59-64, e as suspeitas de inautenticidade da bula Unam sanctam de Bonifácio VIII. Ver t. II, col. 999-1003.

Citaremos ainda as dúvidas levantadas contra os escritos da abadessa Hroswitha. Esses exemplos não são menos ridículos do que aqueles do Pe. Hardouin, atribuindo aos monges da Idade Média as obras de Virgílio e de Horácio. Nessas matérias, a extrema desconfiança é tão funesta quanto a extrema credulidade.

Autor original: E. Mangenot

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