COTELIER, Jean-Baptiste, nasceu em Nîmes em dezembro de 1627, filho de Jean Cotelier, antigo professor protestante convertido ao catolicismo, e de Marie Deyronie. Esta descendia da antiga família dos Gros, à qual pertencera o papa Clemente IV. Foi batizado em Beaucaire. Instruído por seu pai, que dominava profundamente o latim, o grego e o hebraico, fez progressos incríveis nessas línguas, bem como em todos os gêneros de literatura. Aos sete anos de idade, compôs em versos um elogio das virtudes morais e, a 10 de junho de 1634, cumprimentou em versos franceses Henri de Bourbon-Condé.
No dia 11 de novembro do mesmo ano, recitou versos de sua autoria para Charles Schomberg, duque de Halluin, governador da Narbonense; este ficou tão sensibilizado que, em 15 de fevereiro de 1635, levou Cotelier a Avinhão, junto ao cardeal de Richelieu, que se dirigia a Roma. Em 20 de dezembro de 1636, Cotelier recebeu a tonsura clerical, mas não prosseguiu na carreira eclesiástica. No mês de outubro de 1637, no colégio dos jesuítas de Nîmes, recitou o combate de Ájax e Ulisses, extraído das Metamorfoses de Ovídio. Seu pai levou-o a Paris, em outubro de 1638.
Em 11 de novembro, foi apresentado ao cardeal de Richelieu e pronunciou o panegírico desse prelado. A 20 de março de 1639, convocado à presença do grande ministro, foi interrogado pelo Padre José e respondeu a todas as questões que lhe foram colocadas. Pierre Séguier fê-lo vir à sua residência, em 28 de novembro de 1639, e os numerosos convidados ficaram maravilhados com a sua ciência precoce.
Henri, duque de Ventadour, levou-o, em 13 de abril de 1640, ao colégio de Clermont, dirigido pelos jesuítas: Cotelier ali respondeu às questões mais árduas que lhe foram colocadas por Sirmond e Petau, e pronunciou o panegírico do cardeal de La Rochefoucauld. Em outubro de 1640, felicitou, em um discurso latino, Matthieu Molé, que acabava de ser elevado à dignidade de primeiro presidente do parlamento de Paris. Em 1641, foi convidado a assistir à assembleia do clero que se realizava em Mantes. Compareceu a ela em 30 de abril, apresentado pelo bispo de Chartres.
Esse prelado recordou que Cotelier, o pai, recebia da assembleia uma pensão anual de 660 libras para educar o filho na ciência sagrada. Para assegurar-se de que essa soma era bem empregada, interrogaram a criança, então com treze anos e meio, sobre o texto hebraico da Bíblia, que ele explicou a livro aberto, depois sobre o texto grego do Novo Testamento, por fim, sobre as definições de Euclides. A assembleia, maravilhada, elevou a pensão para mil libras e acrescentou trezentas libras para a compra de obras. No mesmo ano de 1641, a criança pronunciou uma harangue para felicitar Richelieu no seu regresso da Bélgica.
Ingressou nessa época no colégio de Grassins para ali estudar filosofia e prestou, a 14 de julho de 1643, as suas teses sobre a filosofia grega; elas valeram-lhe o título de mestre em artes. Em 22 de julho do ano seguinte, compareceu diante do rei e da rainha, que ficaram maravilhados com a sua ciência, depois dedicou-se ao estudo da teologia. Em 13 de fevereiro de 1647, foi recebido bacharel e, a 24 de dezembro de 1649, doutor. Em 1651, Cotelier perdeu o pai.
Três anos depois, Georges d’Aubusson, arcebispo de Embrun, levou-o para a sua cidade episcopal, onde Cotelier permaneceu durante quatro anos, com certo pesar, porque não encontrou ali nenhuma sociedade intelectual. De regresso a Paris, em 1659, começou a publicar trabalhos de erudição. Enviaram-lhe em 1660, da biblioteca do Escorial, quatro homilias inéditas de São João Crisóstomo sobre os Salmos, bem como o comentário desse Padre sobre o profeta Daniel; publicou em 1661: Homiliæ IV in Psalmos et interpretatio Danielis græce et latine, in-4°. Em 1667, J.-B. Colbert escolheu-o para catalogar os manuscritos gregos da biblioteca real.
Cotelier trabalhou ali com o erudito Du Cange durante cinco anos e recolheu numerosos documentos patrísticos inéditos. Foi assim que publicou, em 1672, uma edição dos Padres apostólicos muito superior a todas as que a tinham precedido: Sanctorum Patrum qui temporibus apostolicis floruerunt, Barnabæ, Hermæ, Clementis, Ignatii, Polycarpi opera, una cum Clementis, Ignatii, Polycarpi actis atque martyriis, in-fol., Paris, 1672. Esta primeira edição foi quase inteiramente destruída no incêndio do colégio Montaigu. Uma edição mais completa, feita por Le Clerc, traz este subtítulo: Accesserunt Beveregii codex canonum Ecclesiæ, J.
Usserii dissertationes Ignatianæ et J. Pearsonii vindiciæ epistolarum sancti Ignatii, 2 in-fol., Antuérpia, 1698; 3ª ed., 2 in-fol., Amsterdã, 1724. Os textos patrísticos são acompanhados de notas e de comentários de elevada erudição. Um certo número de textos patrísticos desta obra, com as notas de Cotelier, foram reimpressos mais tarde, por exemplo: Sancti Clementis epistolæ duæ ad Corinthios, interpretibus P. Junio et J.-B. Cotelerio, 1687, 1694, 1870; Clementis Romani homiliæ, versionem latinam Cotelerii, 1847, 1853; Evangelium infantiæ Christi adscriptum Thomæ apostolo cum versione J.-B.
Cotelerii, em Fabricius, Codex apocryphus Novi Testamenti, 1708, 1719; S. Justini philosophi apologia I pro christianis, subjunctis emendationibus et notis Cotelerii, in-8°, 1700; Tatiani oratio ad Græcos adnotationibus C. Gesneri selectisque Cotelerii suas adjecit W. Worth, in-8°, 1700; Barnabæ epistola catholica, una cum versione latina, em Russell, Sanctorum patrum apostolorum opera, 1746.
Como recompensa por seus trabalhos, Cotelier foi nomeado, em 12 de julho de 1676, professor de língua grega no Collège royal, desde então Collège de France. Sua principal obra é uma coleção de autores gregos eclesiásticos compreendendo numerosos escritos, dos quais vários inéditos, e todos extraídos dos manuscritos da Bibliothèque du roi ou daquela de Colbert: Ecclesiæ Græcæ monumenta, 3 in-4°, Paris, 1677-1686. O t. III apareceu dois dias antes da morte do autor. Um t. IV adicionado mais tarde não é outra coisa senão as Analecta græca publicadas por dom Bernard de Montfaucon em 1688, com um título novo e a data de 1692. Cf.
Ittig, De bibliothecis et catenis Patrum, Leipzig, 1707, p. 402-443. Os textos gregos são acompanhados de uma tradução e de notas críticas de alto valor. Cotelier morreu em Paris, em 12 de agosto de 1686, e foi sepultado na igreja Saint-Benoît perto de seu pai. «Ele se esforçava muito ao fazer suas obras, tendo sempre o texto grego e a versão ao alcance da mão quando escrevia, não citando nada em suas notas que não verificasse nos originais, e estando por vezes vários dias a procurar uma passagem.
Ele era de uma probidade, de uma simplicidade, de uma candura digna dos primeiros tempos, sem fausto, sem ostentação e de uma modéstia surpreendente. Ele vivia em grande retiro, quase não fazia nem recebia visitas, comunicando-se pouco e com poucas pessoas, parecendo melancólico e reservado, mas era no fundo bom e familiar.» Muitos de seus papéis são conservados nas bibliotecas de Paris. Notice sur Cotelier por Baluze endereçada ao sábio Bigot e inserida na edição dos Padres apostólicos de Cotelier por Le Clerc, 1698; Ellies du Pin, Nouvelle bibliothèque, Ancillon, t. XVIII, p.
186 sq.; Mémoires concernant la vie et les ouvrages de plusieurs modernes célèbres dans la république des lettres, Amsterdam, 1709, p. 379 sq.; Nicéron, Mémoires, t. IV, p. 243 sq.; Biographie universelle, t. X, p. 64-65; Kirchenlexikon, t. II, col. 1157-1159; Realencyclopädie, t. IV, p. 305-306. J.-B. MARTIN.
Autor original: J.-B. Martin
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