CORÍNTIOS (SEGUNDA EPÍSTOLA AOS) - II. TEOLOGIA

CORÍNTIOS (SEGUNDA EPÍSTOLA AOS) - II. TEOLOGIA

II, EXEGESE. — I. OCASIÃO E PROPÓSITO DA EPÍSTOLA. — A I Epístola não tinha posto fim aos problemas que agitavam a comunidade de Corinto. Paulo tinha lá muitos adversários que contestavam sua autoridade e lhe dirigiam muitas recriminações. Um de seus adversários tinha, inclusive, gravemente ofendido a ele. II Cor., II, 5-8; VII, 12.

Tito, que tinha sido enviado a Corinto, tinha, é verdade, trazido boas notícias; tinha relatado, VII, 7, o ardente desejo dos coríntios de revê-lo, suas lágrimas e seu apego à sua pessoa, de modo que Paulo tinha experimentado consolação; o maior número dos coríntios tinha infligido, II, 6, um castigo ao seu ofensor; tinham acolhido bem Tito, arrependiam-se e voltavam para Paulo, VII, 8-16. Mas essas boas disposições não tinham desarmado a oposição; os partidos hostis continuavam a atacar a autoridade do apóstolo.

Sem dúvida, não se trata mais dos partidários de Paulo, de Apolo e de Cefas; o partido da oposição reivindica unicamente a Cristo, X, 7; os adversários de Paulo consideram-se como os apóstolos por excelência, XI, 5; XII, 14, e ministros de justiça; apresentam-se com cartas de recomendação, III, 1, e proclamam que são Hebreus, Israelitas, da raça de Abraão, ministros de Cristo, XI, 22-23; dirigiam contra Paulo ataques múltiplos, II, 17-29; IV, 2-3; X, 2-3, 10; XI, 1-16; XII, 1-10, 16. Esses ataques tinham atingido o prestígio de Paulo e abalado a confiança que os coríntios tinham nele.

O objetivo da carta é, portanto, por assim dizer, apologético: São Paulo responde às recriminações dirigidas contra sua pessoa e estabelece ao mesmo tempo sua autoridade de apóstolo.

II. DATA E LOCAL DE COMPOSIÇÃO. — Pode-se dizer que esta Epístola foi escrita aproximadamente seis ou dez meses após a I, conforme se admita ou não que São Paulo escreveu uma III carta entre a I e a II, o que examinaremos em breve de forma sumária. Ela deve ter sido, portanto, escrita no mês de setembro do ano 57 ou 58, ou por volta do início do ano 58 ou 59. Pode-se supor que foi escrita em Filipos, e que foi provavelmente confiada a Tito e aos dois irmãos enviados por São Paulo a Corinto para fazer a coleta em favor dos pobres de Jerusalém, VIII, 17-24.

III. A HIPÓTESE DE UMA III EPÍSTOLA. — 1º A maioria dos críticos admite geralmente que São Paulo escreveu, entre a I e a II de nossas Epístolas canônicas, uma II Epístola, à qual faria alusão em II Cor., II, 3-4; VII, 7-12. Alguns chegaram a falar de duas cartas. Cf. A. Jülicher, Einleitung in das N. T., Fribourg-en-Brisgau, 1894, p. 59-60; A. Harnack, Die apokryphen Briefe des Paulus an die Laodicener und Korinther, in-8°, Bonn, 1905.

Os críticos mais moderados admitem eles mesmos a possibilidade dessa II Epístola: «Nossa conclusão sem dúvida não exclui a possibilidade de uma carta entre a I e a II Epístola, mas esta carta, se existiu, está provavelmente perdida.» E. Jacquier, Histoire des livres du Nouveau Testament, Paris, 1903, t. I, p. 145. — 2º Todas as tentativas feitas para reconstituir essa carta não deram nenhum resultado apreciável. — 1. Pensou-se encontrar em II Cor., II, 10-23; IX, 1-X, 22; II Cor., XI, 2-3; XII, 20-21, restos da mais antiga Epístola aos Coríntios; mas isso é pura fantasia.

Uma opinião mais séria vê em II Cor., VI, 14-VII, 1, um desses restos; mas esta opinião não é, tampouco, provável, pois: a) os seis ἅπαξ λεγόμενα, a saber: ἑτεροζυγεῦν, μετοχή, VI, 14, συμφώνησις, Βελίαρ, 15, συγκατάθεσις, 16, μολυσμός, VII, 1, não significam nada; b) o termo: σάρξ, VII, 1, no sentido de «homem exterior», tem analogias em II Cor., VII, 3; IV, 10, 11; V, 16; VII, 5; Gal., IV, 13; c) o tom e os pensamentos não destoam dos de São Paulo; d) se a supressão dessa perícope não quebra o encadeamento literário, pois VII, 2, liga-se muito bem a VI, 13, isso não é uma razão para rejeitá-la como estranha à Epístola. Cf. A. Jülicher, op.

cit., p. 63. — 2. A hipótese dos quatro capítulos encontrou mais partidários. Ad. Hausrath e Schmiedel pensam que os c. X-XIII constituem a carta visada por II, 3-4; VII, 7-12. Essa hipótese apoia-se sobretudo nas razões seguintes: a) existe uma grande diferença de tom entre I-VIII e X-XIII; b) as apreciações são também diversas: VIII, 7, Paulo reconhece que os coríntios possuem abundantemente a fé, o discurso, a ciência, a solicitude e a caridade; pelo contrário, XII, 20, ele teme encontrá-los, à sua chegada, à mercê de muitos vícios; c) enfim, IX, 15, parece ser a conclusão de uma Epístola, e X, 1, o começo de outra.

Mas essas razões não são concludentes: a) a tradição ignora absolutamente essa hipótese; b) o contraste entre as duas partes explica-se pela diversidade dos leitores visados por São Paulo: na primeira parte, o autor dirige-se aos fiéis de Corinto que lhe permaneceram fiéis; na segunda, pelo contrário, ele toma partido contra seus adversários; c) aliás, após sua violenta investida contra seus adversários, Paulo retoma, XIII, 11-13, o tom de calma e de doçura da primeira parte, o que prova que os capítulos X-XIII são parte integrante da Epístola. Cf. Jacquier, op. cit., p. 143-145, e para mais detalhes, A. Jülicher, op. cit., p. 63-67.

IV. AUTENTICIDADE. — 1º A tradição patrística.

— Poder-se-iam ver alusões à II Epístola aos Coríntios em certas passagens dos escritos dos Padres apostólicos: I Clementis, LIX, 1, e II Cor., X, 17, Funk, Patres apostolici, 2ª ed., Tubinga, 1901, t. I, p. 116; S. Policarpo, Ad Philip., II, 2, e II Cor., IV, 14; IV, 1, e II Cor., VI, 7, Funk, p. 298, 300; Epístola a Diogneto, V, 13, e II Cor., VI, 10, Funk, p. 398. Os Padres que vêm imediatamente depois são mais explícitos. Cf. S. Irineu, Cont. hær., IV, XXVIII, 3, P. G., t. VII, col. 1064, e II Cor., IV, 4; Tertuliano, Adv. Marcion., V, 12, P. L., t. II, col. 501-502; Clemente de Alexandria, Strom., IV, 16, P. G., t. VIII, 430s. Marcião tinha inserido esta carta no seu Apostolicon. Cf. Zahn, Geschichte des N. T. Kanons, t. I, p. 513-515. Ela encontra-se, enfim, nas antigas versões latinas, na Peschito, e o cânone de Muratori faz menção dela.

— 2° A sua ligação com a II Epístola. — As duas Epístolas

Autor original: V. Ermoni

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