COORNHERT ou KOORNHERT Théodore, personagem holandês envolvido, no século XVI, nas discussões políticas e religiosas que agitaram os Países Baixos, nasceu em 1522 em Amsterdã, de uma honrosa família de comerciantes. Dotado de talentos excepcionais, aprendeu, em sua infância, o francês, o espanhol, a música e a gravura. Em sua juventude, fez uma viagem à Espanha e a Portugal. Ao retornar à Holanda, desposou Cornélia Simons, que pertencia a uma família pobre, porém honesta. Este matrimônio trouxe-lhe muitos dissabores; seu pai, tendo falecido nesse ínterim, o havia deserdado, e sua mãe havia se oposto a essa união.
Para ganhar a vida, Théodore entrou como contínuo em uma nobre família. Não tardou a deixar esse cargo e estabeleceu-se em Harlem como gravador. Ocupava-se ao mesmo tempo de questões religiosas, mas em um espírito de novidades. Nesta ocasião, sentiu a necessidade de aprender as línguas antigas; aprendeu, portanto, na idade de 30 anos, o grego e o latim, e tornou-se tão forte nessas duas línguas que pôde traduzir para o holandês os 12 cantos da Odisseia de Homero e diversos escritos de Sêneca. Sua cultura literária permitiu-lhe orientar sua vida em uma via nova; tornou-se tabelião e, em seguida, secretário de Estado de Harlem.
Entrou em relações com Guilherme de Orange, o chefe dos partidários da supremacia espanhola nos Países Baixos. Como sustentava novidades em matéria religiosa, foi jogado, em 1567, na prisão e lá passou vários meses. Ao sair da prisão, expatriou-se e foi estabelecer-se em Cleves e em Emmerich, no baixo Reno, onde viveu vários anos, exercendo seu ofício de gravador. Em 1572, devido a uma mudança de circunstâncias, retornou à Holanda, onde se ocupou de brigantagem e de pirataria. Atraiu para si, por isso, o ódio dos piratas ou dos Mendigos do Mar, o que o obrigou a expatriar-se uma segunda vez.
Após a pacificação de Gante, retornou, em 1576, à Holanda, e estabeleceu-se de novo como tabelião em Harlem. As disputas religiosas, nas quais se imiscuiu, obrigam-no a mudar várias vezes de domicílio. Vê-se sucessivamente em Gravenhage, em Delft e, em último lugar, em Gouda, onde morre em 29 de outubro de 1590. Publicou vários escritos: políticos, literários, teológicos e ascéticos.
No terreno religioso, tomou uma posição pessoal, que lhe atraiu a animosidade e as perseguições dos calvinistas holandeses: de um lado, rejeita as prerrogativas e a autoridade divina da Igreja católica, e dela se separa; de outro, não vê nem em Lutero, nem em Calvino, nem em nenhum dos outros chefes das seitas protestantes o sinal de uma missão divina; olha como erros várias de suas doutrinas, por exemplo, a da reprovação absoluta. Eis as grandes linhas de seu sistema religioso: a religião cristã sofreu uma profunda decadência; é preciso esperar que Deus suscite novos apóstolos, marcados pelo sinal evidente da missão divina.
Até lá, há para todos os cristãos uma espécie de interím e uma fase de liberdade; não é de modo algum necessário agregar-se a qualquer comunidade cristã; ele mesmo pôs este princípio em prática; pode-se, contudo, permitir aos fracos esta agregação. Os pregadores devem limitar-se a ler aos fiéis passagens da sagrada Escritura, sem lhes acrescentar, por sua própria autoridade, qualquer comentário. Foi conduzido a esta ideia pelo princípio do livre exame, que defendeu em seus discursos e em seus escritos.
Estas novidades desagradaram aos calvinistas holandeses; e ele teria sofrido mais com suas perseguições, se não tivesse sido protegido pelos príncipes de Orange e por outros altos personagens. Aliás, buscou sempre defender em seus escritos a religião e a moral. Estes escritos, à exceção da tradução da Odisseia, foram editados em Amsterdã, em 1630, em 3 in-fol., com sua biografia.
Van der Aa, Biographisch Woordenboek der Nederlanden, 2e édit., t. III, p. 214; Alberdingk Thijm, Spiegel van Nederlandsche Letteren, Louvain, 1877, t. II, p. 124; Kirchenlexikon, 2e édit., t. VII, col. 1008-1040.
V. ERMONI.
Autor original: V. ERMONI
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