CONVULSIONÁRIOS. Ao longo da história eclesiástica, há menções diversas a indivíduos ou seitas que, sob a influência de um ardente sentimento religioso, foram presas de bizarras contorções, de fenômenos convulsivos ritmados, cadenciados e geralmente prolongados. Por vezes, até mesmo essas convulsões foram epidêmicas e atingiram o círculo daqueles que foram inicialmente acometidos. Na maioria das vezes, atribuíam-nas a uma intervenção do demônio. S. Agobard, Epist. ad Bartholomeum, P. L., t. civ, col. 179 sq.; Amolon, arcebispo de Lyon, Epist., 1, ad Theodbaldum, P. L., t. cxvi, col. 77.
Sem falar das pessoas acometidas pelo fogo de Santo Antônio, pela dança de São João ou de São Vito, é preciso citar, para uma época próxima da nossa, os flagelantes de Fareins, ver Bonsour, t. 1, col. 1008-1009, os acampamentos de oração (camps-meetings) da América do Norte, ver G. Chapman, Christian reviews, Londres, 1860, e certos camponeses suecos em meados do século XIX. Ver na Gazette médicale, Paris, 1843, p. 555 sq., uma memória do doutor Sonden de Estocolmo. Mas os convulsionários mais célebres são aqueles que se assinalaram a partir de 1731 em Paris, no cemitério da igreja Saint-Médard, sobre o túmulo do jansenista Paris.
Resumiremos os fatos antes de dar uma apreciação sobre eles.
1° Os milagres. — Nesta época, o caso da bula Unigenitus apaixonava a França inteira; cada um dos dois partidos, molinista e jansenista, reivindicava o favor do céu. Entre os apelantes mais irredutíveis, o diácono François de Paris, nascido em 1690, assinalou-se tanto por sua obstinação anticonstitucional quanto por sua caridade. Tendo permanecido simples diácono para evitar o sacerdócio, passou dois anos sucessivos sem comungar, mesmo na Páscoa. Fazia meias para os pobres, castigava sua carne por espantosas macerações, oferecidas "pelo corpo de Jesus Cristo (a Igreja) ultrajado pela bula".
Suas austeridades arruinaram sua saúde e ele morreu em 9 de maio de 1727, exibindo até o fim sua persistência em apelar da bula. Testemunhas de sua inesgotável beneficência e de sua penitência, os pobres de seu bairro começaram a visitar seu túmulo no pequeno cemitério Saint-Médard; assim, ele tornou-se o ponto de encontro dos jansenistas; quanto mais eram perseguidos, mais afluíam lá em multidão. Pretenderam venerar em Paris um santo de seu partido. Assim, a memória deste homem, de coração verdadeiramente generoso, mas de cabeça um pouco fraca, adquiriu logo uma imensa popularidade.
Peregrinações foram organizadas ao seu túmulo; beijava-se a terra que o circundava, levavam-se parcelas dela como relíquias ou como preservativos; os mais fervorosos estendiam-se sobre o próprio túmulo. O retrato do diácono foi gravado várias vezes, sua história posta em vinhetas, várias obras de piedade e diversos comentários da Sagrada Escritura foram-lhe atribuídos. Esse entusiasmo acentuou-se quando se falou de prodígios obtidos após novenas em honra do novo "bem-aventurado". Os apelantes acolheram com favor esse boato que mostrava Deus confirmando sua doutrina pelos milagres de seu piedoso servo.
No cemitério, a afluência cresceu ainda mais, atraída pela curiosidade de ver o maravilhoso, pelo contágio ou por uma supersticiosa credulidade; em poucos anos, contaram-se mais de duzentos milagres, constatados em autos assinados por cirurgiões, boticários, registrados depois por tabeliães. O cardeal arcebispo de Noailles, a princípio jansenista ele próprio e apelante, tinha permitido erigir ao diácono um túmulo de mármore, e encarregou vários párocos de Paris de fazer uma constatação dos prodígios que se diziam lá realizados; contudo, aos seus olhos, admitia ele, o maior milagre de Paris era sua extraordinária penitência.
As informações tinham sido interrompidas pela morte do cardeal; mas vários párocos pediram ao seu sucessor, Monsenhor de Vintimille, para continuar o inquérito. Um dos milagres assinalados como notáveis era a súbita cura de uma moça chamada Anne le Franc; cem testemunhas tinham pretendido tê-la constatado no próprio cemitério; contudo, o interrogatório da maioria das ditas testemunhas, dos médicos, dos pais da milagrada, mostrou que, por um lado, o diagnóstico da doença tinha sido mal definido, que muitas assinaturas tinham sido falsificadas ou impostas à força, que, enfim, Anne estava tão doente quanto antes.
É por isso que, em uma ordenação de 15 de julho de 1731, Monsenhor de Vintimille declarou falso e ilusório o milagre atribuído a Paris. Em vez de interromper suas informações, vinte e três párocos jansenistas de Paris apresentaram, em 1º de agosto, um novo requerimento ao arcebispo, onde pretendiam atribuir ao diácono cinco novos milagres; muito mais, em 4 de outubro, assinalaram ainda outros treze.
Todos os dias citavam-se novas maravilhas; a capital e a província estavam inundadas de seus relatos entusiastas; muitos riam disso: ridicularizavam-nos e até mesmo os contrafaziam nos palcos dos teatros; ao mesmo tempo, várias ordenações de bispos os condenaram, tais como as do arcebispo de Sens, Languet, e de Vintimille. O Santo Ofício tinha proibido, em 22 de agosto de 1731, La vie de M. de Paris diacre, Bruxelas, 1731, publicada por Pierre Boyer. Em 30 de janeiro de 1732, o arcebispo de Paris condenou três vidas do diácono Paris.
O papa lançou um breve, em 11 de outubro de 1733, contra uma *Vie du diacre de Paris* e os milagres a ele atribuídos; ele condenou um mandamento do bispo de Montpellier, Colbert, que declarava autêntico um milagre ocorrido em sua diocese; o parlamento ordenou a supressão do breve. Clemente XII já havia condenado, por outro breve de 19 de junho de 1734, um mandamento de Caylus, bispo de Auxerre, sobre um milagre operado em Seignelay em 6 de janeiro de 1733. Bento XIV, *De canonizatione*, l. IV, c. vii, n. 20, discute os milagres atribuídos ao diácono Paris. Ver Picot, *Mémoires*, 3ª ed., Paris, 1853, t. 1, p. 308-318, 342-346, 394-395.
2° Convulsões. — Logo, outros fenômenos não menos extraordinários manifestaram-se no cemitério Saint-Médard. Por seu mandamento de 15 de julho de 1731, o arcebispo havia proibido prestar qualquer culto ao diácono Paris e honrar seu túmulo: o resultado produzido foi uma afluência maior do que nunca, não apenas com o intuito de assistir às curas dos enfermos, mas sobretudo de contemplar os sofrimentos dos convulsionários.
Com efeito, naquele mesmo mês de julho, uma tal Anna Pivert pareceu experimentar violentos espasmos ao contato com o túmulo, e entregou-se a todo tipo de bizarras contorções; alguns dias depois, uma surda-muda de Versalhes manifestou as mesmas convulsões, depois foi um eclesiástico coxo de Montpellier, o abade Bescherand. Então, viu-se acorrer pessoas de toda idade, que saltavam em torno do túmulo, gritavam, agitavam-se e contorciam-se: sua frenesi foi imediatamente qualificada de milagrosa.
Houve assim mais de cem convulsionários ao mesmo tempo, e parece que o sucesso de curiosidade, obtido pelos primeiros, inspirou a muitos outros a vontade de imitá-los. Em geral, eram pessoas do povo, artesãos ou mendigos; contudo, entre eles, deve-se citar o velho cavaleiro Jean Folard que se pôs a profetizar e que o ministro Fleury mandou repreender, e sobretudo um conselheiro do parlamento, Carré de Montgeron. Por muito tempo, este último havia se mostrado incrédulo e libertino; eis que, em 7 de setembro de 1731, aos 45 anos de idade, ele tem a ideia de ir assistir às cenas supostamente prodigiosas de Saint-Médard.
«Ele ficou tão impressionado, confessa ele, que permaneceu imóvel de joelhos durante quatro horas, sem que a multidão que o oprimia por todos os lados pudesse enfraquecer a atenção profunda na qual sua alma estava absorvida..., de repente ele se sentiu derrubado por mil raios de luz que o iluminaram.»
Perturbada por seus excessos passados, sua imaginação doentia persuadiu-o, ao que parece, a entregar-se ele também aos transportes frenéticos dos quais era testemunha, e assim ele tornou-se o mais fervoroso adepto dos convulsionários; depois, pôs-se a escrever um relato detalhado de tudo o que os vira fazer ou ouvira dizer. Essa obra de um espírito manifestamente exaltado e desequilibrado foi oferecida a Luís XV e valeu ao seu autor um internamento na Bastilha, depois em Valence.
Não obstante, ele continuou suas extravagantes publicações que foram desautorizadas e refutadas pelos próprios jansenistas, tais como o abade des Essarts, dito Poncet, e o doutor Hecquet. Um deísta, convertido ao protestantismo, Lorde Georges Littleton, qualifica assim esses prodígios: «Não imagineis que a virtude emanada do corpo do bem-aventurado Paris tenha a força de ressuscitar os mortos, de devolver a audição a um surdo, de fazer caminhar um paralítico das pernas;... não, é um abade Bescherand que, deitado sobre o túmulo, salta até quebrar os ossos, e em acessos convulsivos, faz o salto da carpa sem se machucar...
São loucos que engolem carvões acesos, que engolem como pêssegos, seixos grandes como o punho, que são golpeados por meias horas sem que pareçam senti-lo, que sofrem dez homens caminhando sobre seu ventre... Os jansenistas não se honram em querer ganhar crédito por vias tão frívolas e meios tão opostos ao caráter da religião.» Entretanto, as cenas inauditas de Saint-Médard atraíam tal concurso que, em 27 de janeiro de 1732, o cemitério foi fechado, por ordenança real, com proibição de abri-lo senão para os enterros; guardas foram colocados ao redor.
A opinião pública irritou-se altamente; no muro, um gracejador escreveu a frase bem conhecida: *De par le roi défense à Dieu / De faire un miracle en ce lieu*. Em vão, prenderam os convulsionários mais notáveis, a frenesi das convulsões manifestou-se por fenômenos ainda mais bizarros nas casas de particulares.
Segundo Montgeron, com efeito, «mal haviam proibido a entrada do santo lugar que Deus parecia ter escolhido para nele operar seus prodígios, ele os multiplicou mais do que nunca: convulsões bem mais surpreendentes tomaram de repente uma multidão de pessoas.» Em vão também, Luís XV, por sua ordenança de 27 de fevereiro de 1733, proibiu aos convulsionários darem-se em espetáculo mesmo nas residências privadas, e a todos assistirem a essas assembleias, elas se perpetuaram até o fim do século.
Embora um grande número de jansenistas mais esclarecidos as tenham censurado abertamente, e que em 1735 trinta doutores publicaram uma declaração para condenar os fanáticos, seu principal resultado foi suscitar respostas e defesas de todo gênero.
Nesse ínterim, os convulsionários organizavam-se, formavam uma espécie de nova seita com seus chefes, seu regulamento, seus exercícios regulares e sua bolsa, que apelidaram de Boîte à Perrette, do nome da serva de Nicole. Suas reuniões secretas eram mais frequentadas do que nunca, pois a curiosidade dos assistentes era nelas excitada ao mais alto grau. Um dos atrativos dessas assembleias era, frequentemente, uma cerimônia sacrílega ou blasfematória: aqui uma irmã afirmava que "se os selvagens adoram o sol, é porque Deus é o sol".
Lá, outra irmã, estendida de costas, celebrava a missa em uma língua desconhecida, sacerdotes serviam-na; ao mesmo tempo em que oficiava com uma majestosa dignidade, ela se agitava, por vezes, de tal maneira que era preciso segurar suas vestes por decência (Montgeron). O irmão Augustin, deitado sobre uma mesa na postura do Cordeiro sem mancha, fazia-se adorar pelos "figuristas"; seus partidários eram os augustinistas. Barbier, Journal de la Régence et du siècle de Louis XV, 1718-1763, t. 1, p. 525. Os "eliseanos" honravam o profeta Elias na pessoa de um sacerdote chamado Vaillant.
Outro atrativo eram os êxtases, os discursos dos improvisadores e dos profetas, seja em francês, seja até mesmo em línguas desconhecidas. Como se estivessem sob a inspiração do Espírito Santo, certos convulsionários discursavam com uma eloquência inflamada sobre os males da Igreja perseguida, sobre os efeitos irresistíveis da graça; anunciavam o fim do mundo, desvendavam os pensamentos mais secretos dos corações. O próprio Montgeron escandaliza-se com a pretensão deles.
"Houve deles, sobretudo nos primeiros tempos, cujo espírito era iluminado por uma luz sobrenatural; mas, nestes últimos tempos, alguns desses discursos não eram senão a produção de uma imaginação aquecida, e os dos augustinistas e dos vaillantistas pareceram ser o efeito da sugestão do demônio." D’Alembert acrescenta: "Assegura-se que, desde o dia seguinte à expulsão dos jesuítas, os convulsionários começaram a prevê-la; é assim que eles sempre profetizaram.
E quando se viu que as predições não se cumpriam, nada mais simples: Deus deixava penetrar o falso na obra, para melhor cegar os endurecidos." O grande sucesso dos convulsionários foi, antes de tudo, um conjunto de fenômenos extraordinários, explicados quase todos pela patologia atual, mas que, naquela época, foram acolhidos com um empresamento cego graças ao fanatismo dos jansenistas, ou ainda, talvez, imaginados por esperteza.
Frequentemente, as mulheres manifestavam uma incrível insensibilidade física, casos de anestesia sem exemplo: umas representavam ao vivo a agonia e a paixão de Cristo, tal como a irmã Françoise, que permanecia duas horas e meia pregada em uma cruz, e isso várias vezes; outras faziam-se perfurar por espadas, como os saltimbancos de nossas feiras, ou passavam pela prova do fogo, como a irmã Sonet, dita a Salamandra. Poncet cita uma jovem que rasgava o rosto com as próprias unhas.
Outras queixavam-se primeiramente de dores violentas e contorciam-se sob a impressão de seus sofrimentos; então, para aliviá-las, acorriam homens vigorosos chamados irmãos socorristas; golpeavam-nas nos rins, no ventre, sulcavam-lhes as carnes com uma ponta de ferro chamada "açúcar de cevada" ou um ancinho de ferro, beliscavam-nas com tenazes; uma pedra de cinquenta libras, chamada "biscoito", era içada por uma roldana e, então, largada com todo o seu peso sobre o peito das pacientes; algumas vezes, os socorristas subiam, até dez deles, em uma tábua que era suportada pelo corpo de sua vítima.
Golpeavam com toras de madeira a cabeça de uma tal Nisette, punham-se aos quatro para sobrecarregar de socos a cabeça de Catherine Turpin; com uma tora que era preciso agarrar com as duas mãos, golpeavam-lhe o ventre, o dorso, as costelas, até mesmo o rosto; chegavam, assim, a dois mil golpes. E essas infelizes nem sequer pareciam sofrer. Eram os grandes socorros, ou socorros mortíferos. Havia também os pequenos socorros, dos quais Montgeron deixa adivinhar a indecência, pois ele suplica aos irmãos que evitem em sua obra as armadilhas do demônio.
Segundo o relato de dom La Taste, veem-se jovens que homens apertam, balançam, que rezam enquanto são puxadas pelos braços, pelas pernas... revirando-se com as pernas para o ar. Barbier cita detalhes ainda mais típicos, provando que as paixões encontravam amplamente seu contentamento por ocasião de todas essas convulsões. Contudo, nem todos os apelantes eram favoráveis às convulsões. Os partidários e os adversários desses estranhos fenômenos realizaram, de 1732 a 1783, conferências nas quais foi decidido que seriam estabelecidas regras para prevenir os desvios dos convulsionários. Mas estes não quiseram submeter-se a elas.
A divisão instalou-se, então, no partido. Os convulsionistas admiravam todas as manifestações e atribuíam-nas todas a Deus.
Os discernentes queriam que se fizesse um discernimento do que vinha de Deus e daquilo de que o demônio poderia ser o autor. O segundo partido tinha à sua frente os bispos de Montpellier e de Senez, e os abades Boursier e d’Etemare. Mas este não podia dar regras suficientes de discernimento. Em 7 de janeiro de 1735, trinta doutores de Paris, do número dos apelantes, assinaram uma Consulta sobre as convulsões.
Eles não podiam atribuir imediatamente a Deus todas as convulsões; rejeitavam as profecias dos convulsionários, condenavam os socorros e as provas, censuravam os discursos, as usurpações das funções hierárquicas, os quadros móveis e falantes e pensavam que, se as curas eram reais, elas não podiam ser atribuídas senão a um agente muito distinto de Deus. Outros apelantes nem sequer admitiam a mistura do divino e do diabólico e eram nitidamente anticonvulsionistas. Os convulsionários responderam à *Consultation*, e a luta foi viva no partido. Os escritos multiplicaram-se a favor ou contra as convulsões.
Formaram-se seitas fanáticas: os augustinistas, partidários de um Augustin Coz; os vaillantistas, que seguiam um padre da diocese de Troyes, Vaillant, que pretendia ser o profeta Elias; os montgeronistas, que reconheciam o conselheiro Montgeron como um escritor manifestamente inspirado por Deus. As extraordinárias manifestações jansenistas produziram-se em Paris até a Revolução, e ilustres personagens, impelidos por sua corrupção ou seu ceticismo, quiseram contemplá-las. É assim que La Condamine e d'Alembert contam detalhadamente as cenas de crucificação das quais foram testemunhas.
Em resumo, o conjunto dos fatos atribuídos aos convulsionários de Saint-Médard constitui um episódio muito curioso da história do jansenismo francês.
II. APRECIAÇÃO DESSES FATOS. — Pode-se admitir que um certo número desses fenômenos são contrafações inspiradas pelo desejo de atrair adeptos à seita, ou ainda para obter, para os pretensos miraculados, os favores materiais dos jansenistas; que muitos detalhes foram exagerados e falseados pela exaltação ou pelas ideias preconcebidas de suas testemunhas.
Parece, contudo, que vários dos supostos prodígios realizados pelos convulsionários permanecem ainda quase inexplicáveis por uma causa natural: assim, Dom La Taste afirma que, quando se apresentavam relíquias do diácono Pâris fosse a crianças, fosse a outras pessoas que não podiam suspeitar, até mesmo a pessoas adormecidas, essa aplicação suscitava nelas convulsões; logo que as relíquias eram retiradas, as convulsões desapareciam.
A mulher Thévenet, sempre segundo La Taste, elevava-se por vezes nos ares, a sete ou oito pés de altura, enquanto suas saias e sua camisa se dobravam por si mesmas sobre sua cabeça; ela carregava até mesmo, a três pés do solo, duas pessoas que pesavam sobre ela com todas as suas forças. Deve-se admitir, como pretende La Taste, a intervenção do demônio nesses últimos casos, e em outros tão bizarros, em particular naqueles de inacreditável anestesia aliviada pelos grandes socorros?
Parece, todavia, que eles apresentam uma grande analogia com inúmeros fatos também extraordinários devidos a causas que se pode reconduzir atualmente à prestidigitação, ao ocultismo, ao espiritismo, ao magnetismo e, sobretudo, ao hipnotismo. É evidente, com efeito, que a maior parte dos atos dos convulsionários é de uma origem puramente natural; provêm ou da histeria, ou de um estado mórbido que se reconduz a uma mesma causa nervosa.
O Papa Clemente XIII pensava que muitas dessas manifestações, tão ímpias quanto absurdas, eram o resultado natural do cegamento pelo qual Deus havia atingido uma seita que havia afetado sobretudo os aspectos da austeridade e da santidade: «Quas feditates cum legeremus, in mentem nobis venit, jansenianorum, per simulationem pietatis jactare se volentium in Ecclesia, quam graviter superbiam Deus percusserit, et pestilentissimæ sectæ conatus ad hæc dedecora tandem rediisse permiserit.» Breve ao bispo de Sarlat de 19 de novembro de 1764.
Seja como for, nenhum desses fenômenos pode ser atribuído à intervenção de Deus ou dos bons anjos; nenhum desses supostos prodígios apresenta as garantias de verdade resplandecente, de moralidade indiscutível, de gravidade plena de uma imponente simplicidade; nenhum parece o testemunho de uma vontade e de uma sabedoria totalmente divinas, tais como aparecem sempre os atos, as palavras e os sofrimentos extraordinários dos santos canonizados pela Igreja Católica.
Além disso, longe de servir à causa do jansenismo, seu resultado mais claro foi o de lançar o transtorno nas consciências, de incitar as zombarias dos filósofos e dos incrédulos que, em seus sarcasmos, os confundiram de propósito com os do Evangelho mesmo. «Quanto mais se aprofundam as matérias religiosas — escreve Barbier a propósito do diácono Pâris — mais se vê a incerteza dos milagres recebidos pela Igreja, que se estabeleceram nesses tempos remotos com tão pouco fundamento como o que se passa hoje sob nossos olhos.» *Journal*, 2ª ed., Paris, 1857, t. I, p. 363.
É assim que as extravagâncias dos convulsionários, ao mesmo tempo em que satisfizeram a frívola curiosidade do fim do século XVIII, causaram o maior dano à antiga fé da nação francesa às vésperas da Revolução.
I. FONTES. — Barbeau de la Bruyère, *Vie de M. François Pâris, diacre*, in-12, Paris, 1731; *Relations des miracles de saint Pâris*, Bruxelas, 1731; Boyer, *Vie de M. François de Paris*, in-12, Bruxelas-Paris, 1731; Barthélemy Doyen, *Vie de M. de Paris, diacre*, in-12, Paris, 1734; aumentada por Goujet, 1733-1743; Carré de Montgeron, *La vérité des miracles opérés par l’intercession de M.*
de Paris e outros apelantes, demonstrada contra Monsenhor o arcebispo de Paris, in-4°, Paris, 1737; o 2º vol. apareceu em 1741 sob este título: Continuation des démonstrations des miracles, avec des observations sur les convulsions, in-4°; um 3º vol. seguiu-se em 1748; uma refutação foi feita em 1749: Illusion faite au public par la fausse description que M. de Montgeron a faite de l’état présent des convulsionnaires; Suffrages en faveur de M. de Montgeron, in-12, 1749; Abrégé des 3 volumes de Montgeron sur des miracles de M.
de Paris, 3 in-12, 1799; La Taste (dom Louis, beneditino, bispo de Belém), Lettres théologiques sur les convulsionnaires, 2 in-4°, Paris, 1733-1740; Recueil de littérature, de philosophie et d'histoire, Amsterdã, 1730; Littleton, La religion chrétienne démontrée par la conversion et l’apostolat de saint Paul, 1747, trad. franc. por Guenée, in-12, Paris, 1754; Bernard Picart, Cérémonies et coutumes religieuses de tous les peuples du monde, Amsterdã, 1736, t.
IV; D’Hecquet, Le naturalisme des convulsions, dans les maladies de l’épidémie convulsionnaire, Paris, 1733; Barbier, Journal de la Régence et du siècle de Louis XV, 1718-1768, 1842; 2ª ed., 1857.
II. TRABALHOS. — Picot, Mémoires pour servir à l’histoire ecclésiastique pendant le XVIIIe siècle, 3ª ed., Paris, 1853, t. II, p. 333-336, 352-356, 375-387; 1854, t. III, p. 4-6; Grimm, Correspondance, 1759-1761; P.-F. Mathieu, Histoire des miracles et des convulsions de Saint-Médard, Paris, 1864; Hipp. Blanc, Le merveilleux dans le jansénisme, Paris, 1865; Richer, Études cliniques sur la grande hystérie, appendice, hystérie dans l’histoire, sect. I, p. 866 sq.; Waffelaert, Convulsionnaires, Jaugey, Paris, s. d. (1889), col. 628-642.
Autor original: L. LOEVENBRUCK
A extração e a tradução foram feitas por IA e em caso de algum erro podem entrar em contato com o editor