CONSTÂNCIA (VIRTUDE MORAL)

CONSTÂNCIA (VIRTUDE MORAL)

CONSTÂNCIA, virtude moral.

I. Natureza. II. Definição. III. Importância. IV. Vícios opostos. V. Meios de adquiri-la.

I. Natureza. — A palavra constância designa a firmeza ou a continuidade no bem, com uma nuance diferente segundo se faça derivar de constare, ser solidamente estabelecido, ou de sibi constare, estar de acordo consigo mesmo. São Tomás atém-se à primeira explicação: Aliquis dicitur esse constans ex eo quod in aliquo stat. Sum. theol., IIa IIae, q. cxxxvii, a. 3, sed contra. Lessius prefere a segunda. De justitia et jure, l. III, c. u, dub. vi, Louvain, 1605, p. 643. Em ambos os casos, há afinidade estreita entre a constância e a perseverança, considerada como virtude moral. Uma e outra têm por fim firmar no bem empreendido apesar das dificuldades que sobrevêm, perseverantia et constantia conveniunt quidem in fine, quia ad utrumque pertinet firmiter persistere in aliquo bono. S. Thomas, loc. cit., in corp. Mas a constância firma contra os obstáculos provenientes do exterior, enquanto a perseverança sustenta a coragem contra a dificuldade inerente à própria duração do esforço exigido. Estas duas virtudes diferem, portanto, unicamente em razão do gênero dos obstáculos que têm de superar, differunt autem secundum ea quae difficultatem afferunt ad persistendum in bono. S. Thomas, loc. cit. A diferença reduz-se, por conseguinte, a bem pouca coisa. Por isso, Lessius, loc. cit., observa que «nem os autores nem o vulgo costumam levar em conta esta distinção, aliás pouco importante do ponto de vista moral». Falaremos, portanto, aqui destas duas virtudes simultaneamente.

II. Definição. — Pode-se, pois, definir a constância: a virtude que dá à alma a continuidade no bem, apesar das dificuldades provenientes do exterior, e a perseverança: a virtude que dá à alma a continuidade no bem, apesar da dificuldade proveniente da própria duração do esforço exigido. Segundo o Doutor Angélico, Sum. theol., IIa IIae, q. CXXXVII, a. 2, a perseverança, como aliás sua companheira, a constância, relaciona-se à virtude cardinal da fortaleza. Relaciona-se a ela seja como parte integrante, seja como parte potencial. Ver Virtude.

1° Como parte integrante da fortaleza, a perseverança não é uma virtude especial, mas um elemento da virtude da fortaleza, elemento indispensável para que o ato desta virtude seja perfeito em seu gênero. Assim, por exemplo, um mártir, morrendo a fogo lento ou arrastado de suplício em suplício, só será verdadeiramente forte em toda a acepção do termo se perseverar até o fim. Cf. S. Thomas, Sum. theol., Ia IIae, q. cxiv, a. 1. O retrato do homem forte traçado por Horácio em suas Odes, l. III, carm. III, convém à constância assim considerada: Justum et tenacem propositi virum Non civium ardor prava jubentium Non vultus instantis tyranni Mente quatit solida... Impavidum ferient ruinae.

2° Como parte potencial da fortaleza, a perseverança é uma virtude que tem seu domínio próprio, seu objeto próprio. Este objeto são os atos de todas as virtudes, enquanto tornados difíceis por obstáculos externos ou pela duração. O objeto formal, que a faz uma virtude especial, é precisamente o mérito, a beleza moral desta firmeza, desta continuidade apesar da dificuldade.

III. Importância. — A importância destas duas virtudes é soberana. Sem elas, as outras virtudes estão fadadas a desaparecer a curto prazo, pois, para a natureza decaída, onde não há dificuldades na prática do bem? Primeiramente, todo homem deve vencer sua versatilidade natural. Hoc ipsum quod est diu insistere alicui difficili speciem difficultatem habet. S. Thomas, Sum. theol., IIa IIae, q. cxxxviii, a. 4. Depois, é preciso triunfar sobre os obstáculos que provêm do interior, das críticas do mundo, de seus escândalos, por vezes até de suas perseguições. É por isso que a Sagrada Escritura está cheia de elogios às duas virtudes de constância e perseverança e de pressantes exortações a praticá-las: Sta in testamento tuo.... et in opere mandatorum tuorum veterasce, Eccli., xi, 21; stabiles estote et immobiles, abundantes in opere Domini semper. I Cor., xv, 58. Cf. Job, II, 9; Eccli., XXVII, 12; Matth., x, 22; Luc., ix, 62; Joa., vi, 34; XVII, 4; I Cor., ix, 24; Gal., vi, 9; II Thess., iii, 13; II Tim., iv, 7; Heb., iii, 14; vi, 11; II Joa., v, 9; Apoc., ii, 26; iii, 11. Se alguns destes textos visam diretamente a perseverança efetiva, eles se aplicam, contudo, também às virtudes de constância e perseverança, que são um dos meios mais poderosos para perseverar na realidade. Cf. Merz, Thesaurus biblicus, Paris, 1892, p. 103-104, 477-480.

IV. Vícios opostos. — A virtude de constância e perseverança mantém o justo meio entre dois extremos: a inconstância ou moleza e a obstinação. Uma peca por falta, a outra por excesso. S. Thomas, Sum. theol., IIa IIae, q. cxxxviii, a. 2. A inconstância é o vício que nos faz abandonar sem motivo razoável a busca de um bem. Se se trata de um bem a fazer que ainda está apenas em projeto, é a inconstância propriamente dita; se se trata de um bem que já se empreendeu e que se abandona por causa das dificuldades que sobrevêm, é a moleza. S. Thomas, loc. cit.; Lessius, De just. et jure, l. III, c. u, dub. vi, Louvain, 1605, p. 643; Polman, Breviarium theologicum, IIa IIae, n. 1082, 1083, Malines, 1729, p. 401. Há pecado mortal se se abandona a prática de uma obra que cai sob um preceito grave; pecado venial somente, se a matéria do preceito for apenas leve. Mas se nenhuma lei está em jogo, há culpa, ao menos venial, em negligenciar o cumprimento de uma boa resolução que se tomou? Alguns autores afirmam, outros negam. «As duas opiniões são prováveis», diz Santo Afonso. Theol. mor., l. III, n. 199, Roma, 1905, t. I, p. 499. Portanto, na prática, lex dubia non obligat. Deve-se, contudo, notar que o que, per se, não é um pecado, pode tornar-se facilmente per accidens, se se negligenciasse, por exemplo, manter uma resolução sob a influência de uma paixão desordenada. A obstinação, pertinacia, é o vício que leva os homens a permanecerem apegados mais do que a razão à sua maneira de ver ou de agir. S. Thomas, loc. cit., a. 2. Chamar-se-ia voluntariamente de teimosia, se a palavra não fosse vulgar demais. O homem obstinado é o αὐθαδεια ou o ἰδιογνώμων de Aristóteles. Eth., l. VII, c. ix. Assim entendida, a obstinação é, segundo Lessius, loc. cit., um pecado venial ou mortal, conforme a matéria.

Seria o caso, por exemplo, de um legislador que, por obstinação, recusasse revogar uma lei que sabe ser funesta ao seu Estado.

V. MEIOS DE ADQUIRI-LA. — Estes meios são diferentes, segundo a virtude da perseverança seja considerada em sua oposição à inconstância ou à obstinação. Eis os principais:

1º Contra a inconstância. — 1. Meditar frequentemente sobre a loucura da inconstância. Si stulti estis, ut cum spiritu cœperitis, nunc carne consummemini. Gal., iii, 3. Os próprios pagãos não diziam: Maximum indicium malæ mentis est fluctuatio. Sêneca, Epist., cxx. Luís de Granada traça este quadro da inconstância nos exercícios de piedade: "Certos caracteres são incapazes de perseguir com constância um mesmo desígnio... verdadeiros Sísifos que se obstinam em rolar uma rocha ao alto de uma montanha de onde ela cairá imediatamente." De l’oraison et de la considération, parte I, c. i, § 10, Œuvres complètes, trad. Bareille, Paris, 1863, t. xi, p. 280-283. Meditar, por outro lado, sobre a necessidade e as vantagens de uma perseverança obstinada. Para atingir um objetivo, não basta começar, é preciso continuar. "A perseverança é a plenitude das forças, o coroamento das virtudes, a raiz do mérito, a fonte da recompensa." S. Bernardo, Epist., cxxix, P. L., t. clxxxii, col. 284.

2. Prever os obstáculos e fortalecer sua alma antecipadamente: reduzindo às suas proporções verdadeiras as dificuldades que uma imaginação louca exagera; destacando o coração dos falsos bens pelos quais seus inimigos gostariam de seduzi-lo; desprezando os males com os quais ameaçam: "Não temais aqueles que matam o corpo e que, depois disso, nada mais podem fazer", Luc., xii, 4; sobretudo contando com o socorro de Deus: "Tudo posso naquele que me fortalece." Fil., iv, 13; I Cor., ix, 13.

3. Exercer sua atividade sobre um campo restrito. Este conselho convém sobretudo à perseverança nos exercícios de piedade. Os santos recomendam fixar um pequeno número de resoluções cuidadosamente controladas. Cf. Lohner, Biblioth. manualis concionatoria, tit. CXVI.

4. Enfim, a educação viril desempenha aqui um papel considerável. Portanto, uma das regras da pedagogia deve ser a de formar homens de caráter, perseverantes na tarefa, constantes apesar de tudo. Cf. Guibert, Le caractère, c. i, § 3; c. i, § 25; c. vi, § 3, Paris, 1905, p. 15-21, 79-115, 227-247.

2º Contra a opiniatridade. — 1. Combater o orgulho e a busca da vanglória, que estão quase sempre na raiz deste vício.

2. Considerar o quanto todo homem está exposto a se iludir por sua própria conta e recordar, em particular, as ocasiões em que a obstinação foi perniciosa.

3. Persuadir-se bem de que não há vergonha em confessar seu erro. No prefácio da 2ª edição de sua Teologia moral, Santo Afonso faz esta confissão: "Reconhecendo-me homem, reformei, após exame mais maduro, algumas das minhas opiniões. E não me enrubesci por fazê-lo, visto que o próprio Santo Agostinho não temeu se retratar em mais de um ponto. É o que fez igualmente São Tomás, em sua Suma teológica, IIIa, q. ix, a. 9. E, na verdade, como disse Cícero: Nunquam laudata fuit in una sententia permansio." Theol. moralis, Roma, 1905.

S. Tomás, Sum. theol., IIa IIæ, q. CXXVII, CXXXVIII, e seus comentadores, sobretudo Caetano, In IIæ IIæ, q. CXXXVII, CXXXVIII, Roma, 1570, p. 326-329; Lessius, De justitia et jure, l. II, c. i, dub. vi, Lovaina, 1605, p. 642, 643; S. Afonso, Theol. moralis, l. III, n. 199, Roma, 1905, t. i, p. 499; Marc, Institutiones alphonsianæ, n. 406, 18ª ed., Roma, 1906, t. i, p. 260. — Para a parte prática, Luís de Granada, De l’oraison et de la considération, parte II, c. i, § 40, Œuvres complètes, trad. Bareille, Paris, 1863, t. xi, p. 280-288; Lohner, Bibliotheca manualis concionatoria, tit. CXVII, Bassano, 1787, t. v, p. 174-189; Guibert, Le caractère, Paris, 1905.

Autor original: G. Blanc

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