CONSERVAÇÃO

CONSERVAÇÃO

CONSERVAÇÃO. Os escolásticos vinculam ao estudo da providência a questão da conservação. Designam, assim, a ação divina que mantém na existência todos os seres criados.

— I. Fato. II. Natureza. III. Agente. IV. Objeções.

I. Fato. — 1º O problema. — Certas maneiras de conceber a conservação constituem dificuldade apenas em alguns sistemas filosóficos que não temos de discutir aqui. Assim, a menos de negar a onipotência e o soberano domínio do criador, admitir-se-á que nenhuma criatura pode perseverar no ser sem a sua permissão. Sob este aspecto, Ele a conserva enquanto se abstém de aniquilá-la: conservatio negativa permissiva. Do mesmo modo, a menos de negar toda providência, conceder-se-á que Deus, ao regular o curso das coisas, previne a absoluta desaparição dos seres cuja sobrevivência Ele deseja. Ação positiva: é uma providência; mas indireta: sem influir sobre a criatura, ela afasta apenas o que poderia destruí-la: conservatio positiva indirecta. S. Thomas, Sum. theol., Iª, q. civ, a. 4.

A menos de admitir o ocasionalismo e de rejeitar o concurso de Deus, ver Concurso, reconhecer-se-á que Deus conserva as causas segundas umas pelas outras, ao cooperar com a sua ação, por exemplo, a nutrição dos viventes: conservatio directa mediata. S. Thomas, ibid. Mas, antes de agir, é preciso existir; quem conserva aos elementos a sua existência? Basta que o criador lhes tenha dado o ser de uma vez por todas, de tal sorte que eles se sustentem depois por sua própria virtude, ou é preciso que a causa primeira, de alguma maneira, os sustente por uma ação contínua? conservatio positiva directa et immediata. Tal é o ponto preciso do problema.

2º Provas escriturárias. — As primeiras idades teriam tido preocupações bem escolásticas se os primeiros livros da Bíblia trouxessem a esse problema uma resposta direta e precisa. Deus terminou a sua obra no sétimo dia, diz o Gênesis, II, 2, e descansou, naah, palavra por palavra, ele cessou de trabalhar. É, em aparência, a contraditória da tese, e isso dará precisamente, mais tarde, aos exegetas ocasião de precisar e de distinguir. Se os Salmos insistem sobre a nossa dependência em relação a Deus, é a sua onipotência que eles afirmam, mais do que uma ação incessante constitutiva do nosso ser. Auferes spiritum eorum et deficient; emittes spiritum tuum et creabuntur. Ps. ciii, 29, 30.

Numa época bem tardia, na Sabedoria: O espírito do Senhor encheu o universo, e ele que contém todas as coisas sabe tudo o que se diz. Sap., I, 7. E ainda: pois que todas as criaturas não devem o ser senão ao bom prazer do Senhor, «que ser subsistiria, se vós não o queríeis? ou como seria ele conservado, se vós não o chamásseis [à existência]?» Sap., XI, 26. Cf. Is., XLI, 4: Vocans generationes ab exordio. É, ao que parece, uma dependência na própria existência. Para resumir este discurso, diz o Eclesiástico, Deus é o todo, τὸ πᾶν ἐστιν αὐτός, XLIII, 29, isto é, como não há traço de panteísmo neste livro, ele é toda a razão de ser de tudo o que é.

A ideia é mais precisa em São Paulo. Deus não está longe de nós, ἐν αὐτῷ γὰρ ζῶμεν καὶ κινούμεθα καὶ ἐσμέν. Act., XVII, 28. Nós estamos nele, não somente porque ele está em toda parte, mas porque ele opera incessantemente em nós, αὐτὸς διδοὺς πᾶσι ζωὴν καὶ πνοὴν καὶ τὰ πάντα, Act., XVII, 25; de tal modo que somos a sua progênie e a sua raça, τοῦ γὰρ καὶ γένος ἐσμέν. Act., XVII, 28. Mais explícito ainda: Quoniam ex ipso et per ipsum et in ipso (gr. εἰς αὐτόν) sunt omnia, Rom., XI, 36, onde as três preposições designam mais provavelmente, ἐξ, a fonte da existência deles, διάν, a causa da sua conservação, εἰς, o seu fim último. Orígenes, contudo, e um número de latinos após Santo Agostinho veem nesta passagem, não a tripla dependência de uma mesma causa, mas a relação das criaturas a três pessoas distintas.

Mais significativo, dado o objetivo da Epístola inteira, o texto, Col., I, 16, 17, onde o Filho é distinguido de todo éon ou demiurgo criado ele mesmo ou imanente ao mundo: omnia per ipsum et in ipso (gr. εἰς αὐτόν) creata sunt... καὶ τὰ πάντα ἐν αὐτῷ συνέστηκεν. Mesma doutrina na Epístola aos Hebreus, com uma imagem frequentemente retomada pelos Padres e pelos escolásticos. O Cristo, a quem é atribuído, I, 10, sem glosa ou observação alguma, o que é dito no Ps. ci, 26, do próprio criador, sustenta por sua palavra o universo que uma palavra criou: φέρων τὰ πάντα τῷ ῥήματι τῆς δυνάμεως αὐτοῦ, I, 3.

Finalmente, no quarto Evangelho, Nosso Senhor expõe o mesmo pensamento de uma maneira toda concreta: Pater usque modo operatur et ego operor. Joa., V, 17. Não são os milagres que são a obra incessante do Pai. Trata-se de uma outra ação, ordinária e contínua. O fato de uma ação conservadora incessante, qualquer que seja a sua natureza íntima, parece, portanto, bastante claro na Escritura. A notar, ademais, o que é dito do Ser próprio de Deus: Ego sum qui sum. Exod., III, 14. Cf. Sap., XIII, 1; Is., XL, 17; XLI, 4. Deus somente é verdadeiramente. Isso conduz a pesquisar em que medida e como a existência pertence às criaturas. A doutrina da conservação está ainda implicada naquela da ação divina dentro e pelas causas segundas. A menos de ser, com efeito, concebido como uma coação exterior, o concurso de Deus pressupõe a conservação: é porque ele é princípio in essendo, que Deus forma com o agente finito um só princípio adequado in operando. Ver CONCURSO.

3° Doutrina dos Padres. — 1. Padres gregos. — Bastaria relevar entre os Padres, e notadamente nas cadeias bíblicas mais difundidas, a exegese dos textos precedentes, para seguir a tradição desta doutrina. As teorias de Platão sobre o ser finito, mesclado de ser e de não-ser, sobre a matéria que não é por si mesma senão um puro determinável, e as do neoplatonismo alexandrino deviam favorecer mais do que entravar o seu desenvolvimento. Hermas escreve com alusão bastante provável a Heb., I, 3: «O nome do Filho de Deus é grande e imenso e ele suporta, βαστάζει, o universo inteiro.» Εἰ οὖν πᾶσα ἡ κτίσις διὰ τοῦ υἱοῦ [τοῦ] Θεοῦ βαστάζεται, τί δοκεῖς τοὺς κεκλημένους ὑπ’ αὐτοῦ, καὶ τὸ ὄνομα φοροῦντας τοῦ υἱοῦ τοῦ Θεοῦ. Sim., IX, xiv, 5, Funk, Patres apostolici, 2ª ed., Tubinga, 1901, t. I, p. 604. O ancião que converteu São Justino fala-lhe assim: «Outra coisa é o que se possui em participação, outra coisa a realidade mesma à qual se participa.

Ora, a alma participa da vida, posto que [Deus] quer que ela viva; do mesmo modo ela cessará de participar dela, quando Deus não quiser que ela viva. Pois, à diferença de Deus, a alma não tem a vida em próprio.» Dial. cum Tryph., 6, P. G., t. VI, col. 489.

« Todas as coisas, diz Atenágoras, foram criadas, ordenadas, conservadas pelo Verbo: » ὑφ’ οὗ γεγένηται τὸ πᾶν καὶ διακεκόσμηται καὶ συγκρατεῖται. Legat., 10, P. G., t. VI, col. 908. Cf. S. Teófilo, Ad Autol., l. I, n. 4, ibid., col. 1029. Santo Irineu escreve: « Todas as coisas que foram produzidas tiveram um começo de sua produção, e elas permanecem, tanto quanto Deus quer que elas sejam e que elas permaneçam. » Cont. haer., l. II, c. XXXIV, n. 3, P. G., t. VII, col. 823.

A providência, Clemente de Alexandria a ensina como um dogma essencial do cristianismo; ele quer, à diferença de Filo, que ela se estenda às menores coisas. Strom., I, 11, P. G., t. VIII, col. 749. O repouso do Criador no sétimo dia deve, portanto, entender-se não neste sentido de que Deus não faz mais nada, pois cessar de fazer o bem seria para Ele cessar de ser, Strom., VI, 16, P. G., t. IX, col. 869; mas neste sentido de que ordenar a matéria e lhe dar leis é um trabalho concluído: Ἔστι δ’ οὖν καταπεπαυκέναι τὸ τὴν τάξιν τῶν γενομένων πάντα χρόνον ἀπαραβάτως φυλάσσεσθαι τεταχέναι.. Ibid.

Deus não odeia nada do que existe, posto que nada pode existir do que Ele odeia: Οὐδὲ βούλεται μέν τι μὴ εἶναι, αἴτιος δὲ γίνεται τοῦ εἶναι αὐτὸ ὃ βούλεται μὴ εἶναι... οὐδὲν δὲ ἐστιν, οὗ μὴ τὴν αἰτίαν τοῦ εἶναι ὁ Θεὸς παρέχεται., Paed., I, 8, P. G., t. VIII, col. 325. Cf. Strom., VII, 49, P. G., t. IX, col. 496; Paed., II, 10, P. G., t. VIII, col. 680. Será esta vontade do Verbo uma pura permissão, uma condição que nada, aliás, pode suprir, ou Clemente a concebe, além disso, como a razão de ser da criatura a cada momento de sua duração? É o que se afirmaria com mais certeza se ele tivesse marcado mais nitidamente as consequências desta ação divina em nós. Encontrar-se-ão incompletas, neste sentido, suas reflexões. Strom., I, 418, P. G., t. VIII, col. 801; Protr., IV, 412, col. 143; Paed., I, II, 40, col. 517.

Com mais razão ainda, perguntar-se-á se Orígenes afirmou bem explicitamente o fato da conservação. Ele não interpreta neste sentido os textos conhecidos, In Gen., homil. III, n. 1, P. G., t. XII, col. 166. Ps. CIII, 29, é aplicado à vida da graça, In Joa., tom. XII, n. 24, P. G., t. XIV, col. 437; Rom., XI, 36, à Trindade. Cf. P. G., t. XIV, col. 154-155. Faltam-nos, é verdade, comentários de Orígenes que poderiam ser decisivos, mas é de notar que Santo Ambrósio, tão frequentemente dependente de sua exegese e que podia referir-se às obras completas, permanece tão impreciso ou inexato quanto o doutor alexandrino. Cf. Henan, Les isc. ox, 2, ed. de Viena, t. LXIV, col. 272; ed. de Viena, t. XXXII, fasc. 1, p. 260, 261.

O texto por vezes invocado, In Luc., VII, 13, n. 173, P. L., t. XV, col. 1745; ed. de Viena, t. XXXII d, p. 359: Denique et Deus ab operibus mundi quievit, Gen., I, 2, sed non ab operibus cujus sempiterna et jugis operatio est, sicut Filius ait: Pater meus usque modo operatur et ego operor, Joa., V, 17, ut ad similitudinem Dei secularia nostra opera non religiosa cessarent, faria bem mais dificuldade. Tem-se dificuldade em crer que ele encare a criação como uma obra temporal, e a conservação como de uma natureza totalmente diferente. Nada mais, ao que parece, no Ambrosiastro. Cf. In Rom., XI, 36, P. L., t. XVII, col. 155; In Col., I, 16, col. 423, 424; Orígenes, P. G., t. XIV, col. 820.

Encontra-se muito categórica, é verdade, em Orígenes também, a afirmação da providência. Cf. In Num., homil. XX, n. 4, P. G., t. XII, col. 750, onde são explicados Gen., II, 2, e Joa., V, 17. Lê-se, Cont. Cels., l. VI, n. 71, P. G., t. XI, col. 1405: διήκει μὲν γὰρ ἡ ἐπισκοπὴ καὶ ἡ πρόνοια τοῦ Θεοῦ διὰ πάντων..., καὶ πάντα μέν περιέχει... τὰ προνοούμενα ὡς δύναμις θεία καὶ περιειληφυῖα τὰ περιεχόμενα.. Deus rege todas as coisas; não é dito que ele precise sustentá-las. Quanto ao texto que cita Lessius: Quomodo ergo in Deo vivimus, movemur et sumus, nisi quod virtute sua universum constringit et continet mundum? De princ., l. II, c. 1, n. 3, P. G., t. XI, col. 184, Orígenes toma o cuidado ele mesmo de remeter à explicação que acaba de dar: Una namque virtus est, quae omnem mundi diversitatem constringit et continet atque in unum opus varios agit motus, ne scilicet tam immensum mundi opus dissidiis solveretur animorum. Ibid., col. 183.

Talvez ver-se-á a conservação nestas palavras sobre Sab., VII, 25, 26: Vapor est quidam virtutis Dei. É o Verbo: Intelligenda est ergo virtus Dei, qua viget, qua OMNIA visibilia et invisibilia vel instituit, vel continet, vel gubernat, quae ad omnia sufficiens est... quibus velut uni ita omnibus adest. De princ., l. I, c. II, n. 9, P. G., t. XI, col. 138. Mas não será antes uma nova afirmação do governo universal e absoluto de Deus, οἰκονομία?? Cf. Cont. Cels., l. IV, 14, P. G., t. XI, col. 1045. Ser-se-á tentado a crer nisso aproximando seu pensamento daquele de Filo, todo estoico também em número de casos. « É ele [o Logos], que estendido do centro às extremidades e das extremidades ao centro dirige o curso infalível da natureza, mantendo e ligando entre si todas as partes, δεσμὸν γὰρ ἄρρηκτον τοῦ παντὸς ὁ γεννήσας ἐποίει Πατήρ.. » Filo, De plantat. Noe, 2, ed. Cohn-Wendland, t. II, p. 135. Moisés, diz ele ainda, creu que « todo este universo era sustentado por raízes invisíveis que o demiurgo estendeu desde as extremidades da terra », τοῦ μὴ ἀνεθῆναι τὰ δεθέντα καλῶς προμυθούμενος.. De migratione Abraham, 32, t. II, p. 303. Ver J. Lebreton, Les théories du Logos au début de l’ère chrétienne, nos Etudes religieuses, 1906, t. CVII, p. 777 sq.

Vê-se que diferenças e que analogias separam e aproximam estas concepções. Esta lei do mundo é, segundo Crisipo, imanente; ela é distinta do mundo para Filo; ela é mesmo seguramente para Orígenes pessoa distinta: é o Verbo da Trindade cristã. Mas para o estoico seu panteísmo, para Filo sua matéria eterna, tendo portanto uma existência própria, impediram-nos de conceber a necessidade de uma conservação no sentido de Crisóstomo e de Agostinho.

Clemente e Orígenes, preocupados acima de tudo em opor ao Deus imanente do estoicismo o Deus transcendente do cristianismo, descreveram a providência como uma lei eterna, todo-poderosa, exterior às coisas; poderia ser, contudo, que eles não tivessem ido até as últimas consequências da criação ex nihilo, que eles não tivessem visto, ou não notado, esta exigência de uma ação constante de Deus em suas criaturas, que o torna, mas de toda outra maneira que o logos estoico, como imanente em nós por sua virtude.

Encontra-se em Santo Atanásio a mesma influência das especulações filosóficas, nas atribuições que ele dá ao Logos, μηδὲν ἔρημον τῆς ἑαυτοῦ δυνάμεως ἀπολελοιπώς. Orat. contra gentes, n. 42, P. G., t. XXV, col. 84; mas a ação conservadora que atinge o íntimo do ser é bem mais nitidamente marcada. O Logos veio às criaturas, porque sua natureza, datz 6n 2 odx Ovtwy Umootaaa, é fevarh xa d&obevnc. Deus, que só é verdadeiramente, cf. Exod., 11, 14, 15; Platão, Timeu, 27, 37, 38, ed. Didot, 1846, p. 204, 209, longe de ser ciumento de suas prerrogativas, "Ayala yup meet ovbevdc av yévorto p0dvos, Timeu, 30, ibid., p. 205, quis de fato que todas as coisas sejam, mas Ele não as abandona a si mesmas, iva un “WVOVVENGN TOALY gig TO BH etvat; Ele lhes envia, pois, seu Verbo, para que subsistam, &te On tod Ovtwe éx Llatods Adyou petadkaués- vouoa xat Ponvoupévn St’ adtod ei¢ 70 elvar. Ibid., n. 41, col. 81; cf. 11, 28; col. 56.

Eusébio de Cesareia, seguindo o método dos primeiros apologistas, quer provar o acordo perfeito dos maiores pensadores pagãos com a filosofia da Bíblia. Ti yap tort Widrwv Mwors artixi~wv; Prep. ev., l. I, c. x, P. G., t. xxi, col. 873. Numênio, o pitagórico, assim como Plutarco e Platão, concorda em dizer que Deus só é verdadeiramente: é a palavra do Êxodo, 3, 14: Ego sum qui sum. As diferenças são grandes, no entanto; Eusébio não as indica. Ibid., c. IX-XII, col. 868 sq.

Citamos, dos Padres Capadócios, esta passagem de Gregório de Nazianzo. É com razão, diz ele, que o Verbo é nomeado 6vvautg > ouYTnONTIZO¢ THY yEevouevwy xal chy Tod auvéyecdat tTadta yoony@y Suvautv. Orat., XXX, n. 90, P. G., t. xxxvi, col. 129. É ainda o Verbo apenas que possui: thy dv memolnuev otxovoulay te xal ouvtionoty, ibid., n. 14, col. 417, e ele insiste, a muitas reprises, nesta ideia bem platônica de que Deus é, uma vez que só Ele é sem mudança. Ser, é portanto o nome que melhor Lhe convém. Cf. col. 125, 317, 477, 629.

São Gregório de Nissa escreve, estabelecendo que todos os atributos são em Deus uma única e comum essência: THTH TdvoLM nal xnOepovia xa TOD MaVTOG ETLOTAGLA... Hre GuvTAP|TIX“N THY Ovtdy... pla gorl xal odyd tpeic. Quod non sint tres dii, P. G., t. XLV, col. 128.

São Crisóstomo, em seu seguimento, insiste com grande eloquência sobre a absoluta dependência da criatura: OS yup maphyaye pdvov thy xtlow, aAX xa GuyxpoTtEl... nay gpqua yévntat tH¢ évepystacg éxelvyc ...drappet xat andddutat. Cont. anom., homil. XII, n. 4, P. G., t. XLVIII, col. 810-811. Sobre o texto, Heb., 1, 3: tov- té0tt zvbcovay xa Ta Stanintovta ovyxpatdy, e esta é obra mais maravilhosa ainda, diz ele, conservar todos os seres do que tirá-los do nada. In Epist. ad Heb., homil. II, n. 3, P. G., t. LXIII, col. 23. Cf. In Gen., homil. XI.

São os escritos de Crisóstomo que Teofilato utilizará de preferência. Enquanto Procópio não nos transmite quase nada sobre a conservação, ele reproduzirá e ampliará as asserções de São João. In Joa., P. G., t. CXXIII, col. 1206; edicta, t. CXXV, col. 45. Comentando Heb., 1, 3, ele nota que, em um sentido, conservar é mais do que criar: M&)iov 6 peiCov tod mapayayety Te TAVTA, TO Siactaordlovtm wat elg TO UH elvar usdhovta Tooywphoar ovyxpatetv. P. G., t. CXXV, col. 193. Reconhecer-se-á seu modelo: Crisóstomo, In Epist. ad Heb., homil. II, P. G., t. LXIII, col. 23. E Teofilato, de passagem, toma ocasião deste grande pensamento, tão análogo a Rom., 1, 36, e a Col., 1, 16, para reivindicar a atribuição paulina da carta aos Hebreus. P. G., t. CXXV, col. 193. Explicando um pouco mais adiante, Heb., 1, 7: odx eine 63, remarka-t-il, movhoac, &drX TOBY, TOUTEOTL GUYTNOGY TA AdYW xa’ dv eyévovto. P. G., t. CXXV, col. 197. A conservação é um ato sempre presente. Cf. In Epist. ad Rom., P. G., t. CXXIV, col. 495; ad Col., col. 1222.

2. Padres latinos. — Se voltamos aos Padres latinos, nos surpreenderemos pouco ao não ver nada em Tertuliano que responda a um problema tão abstrato. São Jerônimo observa, sem dúvida, que Deus só é em toda a força do termo: Cetera que creata sunt, etiamsi videntur esse, non sunt; mas eis a razão que Ele dá: quia aliquando non fuerunt et potest rursum non esse quod non fuit. Epist. ad Damas., 4, P. L., t. XXII, col. 357. A insuficiência da criatura em subsistir por suas próprias forças parece fora de seu pensamento; tivesse ele compreendido, não teria recusado a Deus o conhecimento dos mais minúsculos detalhes, por exemplo, do número de todos esses pulgões que Ele deve sustentar por Si mesmo na existência, tanto quanto os seres racionais. Cf. In Habac., 1, 1, P. L., t. XXV, col. 1286. Notar-se-á, para aproximá-la da de Agostinho, sua exegese de Gen., 2, 2: Complevitque Deus..., Deus, naquele dia, aperfeiçoa sua obra. P. L., t. XXIII, col. 940.

São Agostinho, ao contrário, tratou da contingência do ser com uma nitidez e uma profundidade singulares. Ele escreve, comentando Gen., 2, 2: Potest etiam intelligi Deum quievisse a condendis generibus creature, quia ultra jam non condidit aliqua genera nova; mas Deus trabalha sempre para conservar o que Ele criou: Creatoris namque potentia causa est subsistendi omni creature. Quae ab eis quæ creata sunt regendis, si aliquando cessaret, simul et eorum cessarent species, omnisque natura concideret, pois não se passa com Deus como com um arquiteto que pode se retirar, uma vez construída sua casa. De Genesi ad litteram, 1. IV, c. XII, P. L., t. XXXIV, col. 304; 1. V, c. XX, n. 40, col. 333; 1. VIII, c. XXVI, col. 391. Os demônios mesmos só subsistem porque Ele lhes dá a vida, pois se subministratio ista auferatur continuo interibunt. Enchiridion, c. XXVII; P. L., t. XL, col. 245. Sabe-se da admiração do grande bispo por Plotino; comparar-se-á, portanto, voluntariamente estas duas passagens: «Todas as coisas, diz Plotino, têm necessidade de ser edificadas sobre Deus», ivndelong yup éxetvns [ths Educ] amobdeto av até’ amohouévng avtady tHS Bacews xaL TOD onnpitovtos ata, Enéadas, VI, 5, 9, ed. Didot, p. 453; e São Agostinho: Quid peto ut venias in me, qui non essem nisi esses in me? An potius non essem, nisi essem in te ex quo omnia, per quem omnia, in quo omnia. Confes., 1. I, c. II, P. L., t. XXXII, col. 661. Cf. Grandgeorge, Saint Augustin et le néo-platonisme, c. 1, p. 70 sq.

Notar-se-á, além disso, que as Confissões e os primeiros livros do De Genesi ad litteram, tendo sido escritos antes do estudo atento de São João Crisóstomo, que Agostinho deveu empreender para responder a Juliano de Eclana, suas visões sobre a conservação devem ser atribuídas à leitura da Escritura Sagrada e dos filósofos, mais do que à de Crisóstomo.

A influência de Santo Agostinho no Ocidente parece considerável. Sua explicação do texto, Gen., 2, 2, ultra non condidit aliqua genera nova, etc., é frequentemente retomada. Cf. S. Próspero, Sent., 278, P. L., t. LI, col. 467; S. Gregório Magno, eorum essentia rursum ad nihilum tenderet, nisi eam auctor omnium regiminis manu retineret, Moral., 1. II, c. XII, n. 20, P. L., t. LXXV, col. 565; Idem, In Job, 1. V, c. XVI, col. 700; 1. X, c. V, col. 936; 1. XVI, c. 48, col. 1143; Raban Maur, In Gen., 1. I, c. ix, P. L., t. cvii, col. 465, 466; Alcuino, In Joa., 1. III, c. ix, P. L., t. c, col. 808; V. Beda, In Hexaem., 1. I, P. L., t. xci, col. 34. Ela é notavelmente vulgarizada pela Glosa Ordinária e, por ela, influi sobre todos os Sentenciários. Cf. Walafrid Strabon, In Gen., P. L., t. cxiii, col. 82.

O fato da conservação é, aliás, ordinariamente notado por Strabon, quando a Escritura oferece a ocasião. In Gen., P. L., t. cxiii, col. 82; In Sap., col. 1168; In Act., t. cxiv, col. 460; In Joa., col. 377; In Epist. ad Heb., col. 644. Cf. De civ. Dei, 1. XII, c. xxv, t. xli, 375.

Os escolásticos. — Reconhecer-se-á a mesma dependência de Santo Agostinho na exegese de Abelardo, In Hexaem., P. L., t. clxxviii, col. 769, 770: Deus conserva as espécies antigas sem criar tipos novos; e alhures, In Epist. ad Rom., ibid., col. 937, ele explica como são conservadas até mesmo as almas das bestas após a morte: non tamen desinunt esse substantia.

Mais profundo é o ensinamento de Santo Anselmo: Dubium nonnisi irrationali menti esse potest, quod cuncta quæ facta sunt, eodem ipso sustinente vigent et perseverant in esse quamdiu sunt, quo faciente de nihilo habent esse quod sunt, Monol., c. xi, P. L., t. clviii, col. 161; e São Bernardo gosta de retornar a este pensamento: Quid item Deus? sine quo nihil est. Tant nihil esse sine ipso, quam nec ipse sine se potest. Ipse sibi, ipse omnibus est, ac per hoc quodammodo solus est, qui suum ipsius est et omnium esse. De consideratione, 1. V, c. vi, n. 13, 14, P. L., t. clxxxii, col. 796; Serm., iv, in dedicatione, n. 2, P. L., t. clxxxiii, col. 586; In Ps. Qui habitat, n. 1, ibid., col. 185.

Notar-se-á esta disposição bem natural dos grandes místicos, após Agostinho, Gregório o Grande e o pseudo-Dionísio, De div. nom., 10, P. G., t. iii, col. 936, a meditar com amor o nada da criatura, sem chegar, contudo, aos exageros do mestre Eckhart: Omnes creature sunt purum nihil. Denzinger, Enchiridion, n. 453.

É ainda Agostinho e Abelardo ao mesmo tempo que se encontra em todo este grupo de Sentenciários aparentados, Roland Bandinelli e Ognibene. Cf. Gietl, Die Sentenzen Rolands, p. 107-108; discípulo de Hugo de São Vítor, Summa sent., tr. I, c. vi, P. L., t. clxxvi, col. 90; o próprio Hugo, Erudit. didasc., 1. VII, c. 1, ibid., col. 811; Pedro Lombardo, Sent., 1. II, dist. XV, c. vii, P. L., t. cxcii, col. 683; Mestre Bandini, In IV Sent., 1. II, dist. XV, P. L., ibid., col. 1043. Mas, a bem dizer, perdem-se ao explicar como, longe de descansar desde o sexto dia do Gênesis, Deus cria sempre non nova, sed nota.

As visões profundas de Agostinho sobre a contingência do ser são mais ou menos negligenciadas. Cf. Pedro Lombardo, Sent., 1. II, dist. XII, XV, P. L., t. cxcii, col. 677, 683; Bandini, In IV Sent., 1. II, dist. XLII, ibid., col. 1040 (onde se deve ler de modis, para de malis, e informiter para uniformiter); Alexandre de Hales, Summa, part. I, q. LVI, m. 1. É verdade, ao menos, que este último fala alhures da conservação, part. I, q. XXVI, m. I, com citação de Strabon, P. L., t. CXIV, col. 644, e mais especialmente Summa, part. I, q. XXII, m. III, De mutabilitate creaturarum.

Os comentadores do Mestre das Sentenças tratam ordinariamente da conservação In I Sent., dist. I ou II, ou omitem a questão. Cf. S. Boaventura, Opera, édit. Quaracchi, t. II, p. 866, schol. 1.

O texto de Santo Agostinho, In Gen., 1. IV, c. XII, P. L., t. XXXIV, col. 304; sua comparação da luz que não subsiste sem fonte luminosa, a maior parte das passagens da Escritura que citamos, notadamente Sap., VII, 26; Joa., V, 17; Heb., I, 3; alguns textos de São Gregório o Grande, In Job, 1. XVI, c. IX, P. L., t. LXXV, col. 1125; de São João Damasceno, e um texto atribuído erroneamente a São Jerônimo, cf. S. Boaventura, Opera, édit. Quaracchi, t. I, p. 146, nota 4, formam em geral as provas positivas principais.

O catecismo do Concílio de Trento resume a teoria da conservação. De symbolo, in-8°, 1890, t. I, n. 22, Puan. No século XVI, a questão é tratada com amplitude por Suarez, Disput. met., XXI, e por Lessius, De perfectionibus moribusque divinis, l. X. Ela permanece abarrotada de exemplos e objeções emprestados da física aristotélica: influência dos corpos celestes incorruptíveis, teorias do calor e da luz, etc. Ademais, todos os escolásticos, quanto ao fundo, estão de acordo: Idem docent omnes scholastici, escreve Lessius, nemine excepto, etiam Durandus. De perfectionibus, lib. III, cap. 5.

5° Provas de razão. — Eis os principais argumentos da Escola. A conservação é, em suma, uma pura consequência da criação. Argumenta-se a partir da natureza mesma do ser criado. Visto que ele não tem a existência em si próprio, como a causa primeira, mas que a recebeu ab alio, ele não pode durar senão pela continuação do ato mesmo que, no primeiro instante de sua existência, supriu sua insuficiência essencial. S. Boaventura, In IV Sent., 1. II, dist. XXXVII, a. 1, q. II; S. Tomás, Sum. theol., Ia, q. CIV, a. 1: oportet quod idem sit causa rei et conservationis ipsius, nam conservatio rei non est nisi continuatio esse ipsius. Cont. gent., l. III, c. LXV, n. 2, 3.

Com efeito, a mesma indigência que caracteriza o ser da criatura no primeiro instante de sua produção, de onde resulta que ela não pode existir senão pela virtude de um outro, subsiste nela enquanto ela é o que é.

Suarez, disp. XXI, sect. I, n. 16: quia semper est idem et quod per se primo ei convenit, semper ei convenit. Cf. n. 12. O que supõe que a aptidão a sustentar-se por si mesma no ser, ainda que fosse por um instante, a sufficientia essendi, é uma perfeição incomunicável. S. Tomás, Sum. theol., Ia, q. XIV, a. 2, ad 2um.

Na verdade, se a concebemos como uma perfeição simples, visto que ela é em Deus o princípio de perfeições simples, ou como infinita, visto que ela é a essência mesma do ser infinito, como conceber que ela possa ser participada a um grau finito, e portanto de maneira não unívoca, mas análoga, permanecendo em rigor de definição vera sufficientia essendi? Argumenta-se ainda, e é no fundo outra forma do raciocínio precedente, da essencial dependência que existe entre o efeito e a causa. Nenhuma modificação, nenhum devir se prossegue senão durante a aplicação da causa: impossibile est quod fieri alicujus rei maneat cessante motione moventis. Conclui-se daí, em parte, que nenhuma existência pode sustentar-se sem a ação contínua da causa primeira. S. Tomás, Cont. gent., 1. III, c. LXV, a. 4; Suarez, disp. XXI, sect. I, n. 11. Esta prova é submetida por Caetano, In Sum. theol., Ia, q. CIV, a. 1, e por Suarez, disp. XXI, sect. I, n. 7, a uma crítica minuciosa. Cf. Th. de Régnon, Métaphysique des causes, l. VIII, c. IV, Paris, 1886, p. 584-594.

Os escolásticos veem, aliás, essa repugnância ao fato de que o ser finito possa perdurar por sua própria virtude, pois ele seria, assim, ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto da existência, causa e efeito de si mesmo. S. Thomas, Sum. theol., Ia, q. CIV, a. 2, ad 2um. Suarez, loc. cit., n. 14, extrai ainda um argumento da onipotência divina. Todos afirmam o domínio soberano de Deus; ora, Deus não o possui se sua ação não é essencial à duração das coisas; pois ele não é mestre absoluto daquilo que não pode aniquilar, e ele não pode aniquilar se não conserva, no sentido mesmo da tese. Deixemos, com efeito, as metáforas: aniquilar em uma palavra, reduzir ao nada, etc. Não se pode aniquilar por uma ação positiva, destruir o ser como se dispersam ao vento fragmentos de argila; o resultado de uma ação positiva deve ser contabilizado por um efeito positivo, não por zero. Se, portanto, Deus não pode aniquilar agindo, resta-lhe apenas um meio de consegui-lo: cessando de agir, isto é, por subtração de uma ação indispensável à duração dos seres; essa ação é a conservação.

6ª Nota da tese. — O concílio do Vaticano, const. De fide, sess. III, c. 1, Denzinger, n. 1633, diz: Universa vero quae condidit, Deus providentia sua tuetur atque gubernat, attingens a fine usque ad finem fortiter, et disponens omnia suaviter. Este texto não diz respeito à conservação, mas ao dogma, mais geral, da providência. Cf. Collect. Lacens., Acta concil. Vat., Fribourg-en-Brisgau, 1890, t. VII, p. 105, 1018. Herética, sem dúvida, toda doutrina que negasse a providência; teologicamente errônea, aquela que lhe recusasse um influxo positivo, ao menos indireto, sobre a conservação dos seres. Se se trata, como nestas páginas, de uma ação íntima, direta e imediata, parece que essa doutrina deva ser qualificada como muito comum e certa.

II. Natureza. — Um ligeiro desacordo divide os escolásticos sobre este ponto. Para o maior número, a conservação não é em Deus um ato novo, é a continuação do ato criador, non est per novam actionem, sed per continuationem actionis que dat esse. S. Thomas, Sum. theol., I, q. civ, a. 1, ad 4um; Lessius, loc. cit., n. 80. Eis a única diferença: o conceito de criação implica que o ser não existia no instante precedente, esse post non esse; o de conservação, que ele existia já, esse post jam esse. A ação divina não difere, portanto, nos dois casos, senão ratione, connotatione: única em si, ela comporta dois nomes conforme as relações diversas de seu efeito com o tempo e com nossa maneira de conceber. Suarez, disp. XXI, sect. I, n. 2 sq. E é ainda a enfermidade de nossa inteligência que nos obriga a falar de criação continuada, como se a ação de Deus se prolongasse no tempo: não há duração em Deus, visto que não há mudança. Scot, In IV Sent., l. II, dist. I, q. 1, n. 4, 17-25.

Alguns fazem restrições e parecem exigir, entre a criação e a conservação, uma diferença específica. Cf. Henri de Gand, Quodlib., X, q. VII; Quodlib., I, q. IX; Aureolus, In IV Sent., dist. I, q. IV, a. 2; Grégoire de Rimini, In IV Sent., l. II, dist. I, q. VI, ambos citados e refutados por Capreolus, In IV Sent., l. II, dist. I, q. II, a. 2, concl. 3, édit. Pègues, t. I, p. 41 sq., e Suarez, loc. cit., sect. I. Para certos autores, a conservação pede apenas um influxo geral e como um menor esforço da parte de Deus. Opinião ilógica, uma vez que ela só se sustenta admitindo a contraditória mesma dos argumentos que estabeleceram a tese: possibilidade para a criatura de se manter no ser, ao menos em certo grau, por si mesma, e possibilidade de ser causa de si mesma, ao menos em certa medida. Ela é ininteligível se se entende por concurso geral uma influência indeterminada de Deus que seria especificada pela causa segunda. Ver a refutação em Lessius, op. cit., c. IV, n. 26 sq.

Em suma, convém falar exatamente da mesma maneira da criação e da conservação, e não será a melhor fórmula a de São João Damasceno: ἡ ποιητικὴ δὲ αὐτοῦ δύναμις καὶ συνεκτικὴ καὶ ἡ προνοητικὴ ἡ ἀγαθὴ αὐτοῦ θέλησίς ἐστι... Θέλει συνίστασθαι τὸν κόσμον καὶ συνίσταται καὶ πάντα ὅσα θέλει γίνεται.. De fide orthodoxa, l. II, c. XXIX, P. G., t. XCIV, col. 964.

III. AGENTE. — Se a ação é rigorosamente a mesma, o mesmo agente é requerido. Ver CRIAÇÃO. Esta questão não oferece, portanto, dificuldade especial: é um corolário da precedente. São Tomás, todavia, Sum. theol., I, q. civ, a. 2, faz notar que Deus conserva todas as coisas, sem excluir a influência das causas segundas, embora ele seja sempre causa principal; e São Boaventura, In IV Sent., l. II, dist. I, p. II, a. 2, q. 1, observa também que a conservação não pertence a Deus ut a tota causa. Se se quer evitar confusões, há lugar para distinguir nas coisas, com Valentia, In IV Sent., l. I, disp. VIII, q. II, p. 81, seu ser substancial (esse simpliciter) e sua natureza específica (esse specificum): criaturas cambiantes, mutáveis, elas podem, com efeito, existir sem existir sempre sob a mesma forma e na mesma espécie.

É claro, desde então, que a ação e a reação recíprocas das causas segundas explicam somente a permanência de seu estado específico ou acidental; assim, na estrutura de uma abóbada, todas as pedras se sustentam mutuamente, Clément d’Alexandrie, Strom., VIII, 9, P. G., t. IX, col. 597; assim, as afinidades químicas explicam bem a estabilidade mais ou menos grande de tais compostos definidos, não a existência mesma dos elementos. Apesar da influência mútua que faz da alma e do corpo humano um homem vivo, nem este nem aquela se conferem mutuamente a existência.

É preciso dizer o mesmo de todos os compostos no sistema aristotélico da matéria e da forma. Se esses componentes são, com Deus como causa principal, causas parciais da conservação, isso deve, pois, ser entendido neste sentido preciso: que, mantidos por Deus e por Deus só na existência (esse simpliciter), eles concorrem com ele para a manutenção do estado específico do composto. Se a conservação não é senão uma criação continuada, ela releva unicamente daquele que só pode criar, S. Thomas, Sum. theol., Ia, q. VIII, a. 2.

IV. OBJEÇÕES. — Suas fontes principais são:

1. A ignorância da questão. — Visto que a questão da conservação se põe para explicar a perseverança dos seres na existência, ela concerne estritamente às coisas às quais convém propriamente o conceito de ser e, consequentemente, às únicas substâncias completas, ou, nos sistemas filosóficos que lhes reconhecem uma existência própria, às partes substanciais, matéria e forma. Desde então, ao reivindicar para a causa primeira apenas a conservação das substâncias, não se pretende excluir nem a cooperação das substâncias na conservação de certos estados acidentais ou específicos, nem as modificações das substâncias umas pelas outras.

2. Assim, quando, com o concurso de Deus, o artista terminou a sua estátua, a forma subsiste no mármore pela ação de Deus que a conserva sozinho, isto é, sem o artista, mas não sem o intermediário da substância: conservação imediata para esta, mediata para aquela. Ver col. 1187. Os acidentes, não tendo realidade independente da substância, são conservados nela e por seu meio.

3. Mas a conservação contradiz as modificações, contudo evidentes, e a evolução de todas as coisas! — De modo nenhum. O que a contradiria seria a aniquilação; ora, constata-se por toda a parte transformação, não aniquilação. S. Thomas, Sum. theol., Ia, q. civ, a. 4. Muito mais, é porque Deus conserva os elementos substanciais e, consequentemente, as energias e virtudes que derivam de sua natureza, que a criação não está fixada na imobilidade: evolução e conservação não se opõem. Deus mantém toda a quantidade de ser que tirou do nada, e não se vê por que a aniquilaria jamais; mas ele se contradiria ao impedir substâncias que fez ativas de reagir umas sobre as outras, ou de evoluir na medida da plasticidade que lhes deu: os elementos químicos atacam-se, alteram-se, dissociam-se, combinam-se novamente; as causas razoáveis, sem criar nem aniquilar jamais, modificam, moldam, agenciam os materiais existentes. As coisas só são, portanto, estáveis na proporção de suas qualidades ou energias naturais, e das visões muito sábias de Deus.

2° A ilusão do conceito vulgar. — Esta é uma causa mais profunda das objeções ordinárias. Não temos noção mais abstrata que o conceito de ser; é, portanto, por ela que concebemos todas as coisas, é a nossa unidade de pensamento. Torna-se muito natural que a olhemos como representando algo absoluto e subsistente. Nada mais tolerável no comércio ordinário; em uma pesquisa filosófica, ao contrário, há que se notar que a criatura só existe por participação; desde então, não pode haver senão uma pura analogia entre o ser contingente e o absoluto verdadeiro, entre o analogatum princeps, diria a Escola, e seus inferiores. Convém, portanto, não partir de uma concepção do ser finito a priori, por óbvia e segura que pareça, mas, após ter posto como o Ser em quem se verifica a noção perfeita de subsistência, a causa primeira, deve-se pesquisar sem partido tomado o que pode ser a subsistência dos seres criados. Eles parecem, é verdade, sustentar-se por si mesmos; a razão mostra e a fé previne que isso não pode ser senão uma aparência. «É, portanto, um erro, escreve Lessius, imaginar a criatura como não sei que sólido realmente distinto do influxo de Deus, capaz de subsistir após subtração ou parcial ou total de sua influência. Não é assim que se deve concebê-la em relação a Deus, mas como o termo intrínseco da ação divina, tal como a luz é o termo intrínseco da ação do sol.» Op. cit., Deus cumque Deus preencheu sua criatura com o ser que lhe dá sem descontinuar; ele a retém para aproximá-la da fonte da vida; ele a sustenta, para que não caia no nada; ele a contém, para que não se desagrege. Cf. S. Grégoire le Grand, Moral., l. II, c. xm, P. L., t. LXXv, col. 565; Lessius, op. cit., n. 25, 64.

Na verdade, não é por esta via apenas que pode se resolver ou se atenuar o problema tão árduo, mesmo uma vez provada a criação, da coexistência do finito e do infinito? Em rigor, não se tem mais diante de si ser e ser, mas um único ser: Ego sum qui sum, Exod., m1, 14, 15, e o resto, reliqua quasi non sint. E essas duas ordens de realidades não podem se adicionar em uma soma comum, já que não há nada nos seres criados que não derive adequadamente do incriado. Assim como uma luz que se reflete em numerosos espelhos: várias imagens, uma única luz; plura entia, dizem os manuais, non plus entis. S. Bonaventure, In IV Sent., édit. Quaracchi, t. 1, p. 866, scholion; Suarez, Disput. metaph., disp. XXI, Opera, Paris, 1866, t. xxv, p. 785-802; Lessius, Opuscula, Paris, 1881, t. 1, De perfectionibus moribusque divinis, 1. X, e nesses três autores numerosas referências aos escolásticos; Petau, De Deo uno, l. VIII, c. 1; Wirceburgenses, Theologia dogmatica, Paris, 1880, t. III, appendix, p. 497-515; Hontheim, Theodicea, 1893, p. 766; Urraburu, Theodizea, disp. VI, c. III, t. II, p. 707 sq. 3 Kleutgen, S. J., La philosophie scolastique, Paris, 1868, t. II, p. 476-519; t. III, p. 7-27; Scheeben, La dogmatique, Paris, 1881, t. III, p. 21-29; t. 1, p. 241-259; Heinrich, Dogmatische Theologie, Mayence, 1888, t. v, p. 279-296.

Autor original: H. Pinard

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