COMPREENSIVA (CIÊNCIA)

COMPREENSIVA (CIÊNCIA)

COMPREHENSIVE (CIÊNCIA). A ciência ou conhecimento de um objeto dado é dita compreensiva por oposição àquela que se encontra apenas apreensiva. A palavra aplica-se à ideia ou conceito, assim como à ciência propriamente dita. — I. Noção geral. — II. Caráter específico. — III. Espécies múltiplas segundo os diversos sujeitos. — IV. Significações diversas. — V. Diferentes sujeitos. I. NOÇÃO GERAL. — Quando, pelo ato de ciência ou de conhecimento, um sujeito dotado de inteligência, embora atingindo realmente o seu objeto, não o abraça contudo por inteiro, ele o apreende incompletamente, parcialmente; ele o apreende sob certos aspectos apenas. Tal ciência ou conhecimento é puramente apreensivo. A psicologia, que observa o homem enquanto alma espiritual, a fisiologia, que o estuda como corpo vivo, a anatomia, que expõe sua estrutura, são ciências apreensivas, pois nenhuma delas envolve o homem por inteiro. Elas são tais ainda, porque nem uma nem outra, por mais perfeita que seja, chega a abraçar por inteiro até mesmo o objeto especial de suas pesquisas. Ao contrário, quando o sujeito cognoscente apreende o objeto em todo o seu ser e quando ele esgota sua inteligibilidade, ele o envolve completamente e o compreende totalmente. Tal ciência ou conhecimento, à diferença da precedente, é verdadeiramente compreensiva, segundo uma imagem emprestada ao mundo material e sensível. Lá, efetivamente, sendo dadas duas quantidades, se uma mede ou abraça a outra segundo todas as suas dimensões e em toda a sua extensão, dizemos que ela a envolve, a contém ou a compreende. II. CARÁTER ESPECÍFICO. — É, portanto, o objeto inteiramente conhecido que dá à ciência compreensiva seu caráter específico. Sem dúvida, já que se trata de conhecimento, a análise pode distinguir dois elementos necessários. Um é objetivo: é preciso que o objeto seja apreendido em toda a sua extensão inteligível; o outro é subjetivo: é preciso que a faculdade cognoscente ofereça um vigor, uma intensidade de penetração proporcionada a esta inteligibilidade objetiva. A ideia apenas de compreensão traz consigo estes dois elementos. Mas seria abusar da distinção propor a ciência compreensiva ratione extensionis e a ciência compreensiva ratione intensionis. A intensidade proporcional da inteligência é bem a condição sine qua non da compreensão, mas esta se determina e se mede pelo objeto apenas, enquanto ele é ou não abraçado de forma adequada. Um objeto encontra-se compreendido, escrevia Santo Agostinho, quando nada dele escapa ao conhecimento: Totum autem comprehenditur videndo, quod ita videtur ut nihil ejus lateat videntem. Epist., CXLVII, c. IX, P. L., t. XXXIII, col. 606. Precisando seu pensamento neste sentido, Suarez conclui da mesma forma: Si cognitio habet eam perfectionem et claritatem quæ sufficit ad cognoscendum objectum ex parte ejus exacte et perfecte..., talis cognitio est vera comprehensio. In IIIam, q. X, a. 40 disp. XXVI, sect. 1, num. 4. Cf. S. Thomas, Sum. theol., IIIa, q. X, a. 2; q. XII, a. 8; Cont. gent., l. II, c. LV, LVI. Segue-se daí que a natureza ou o modo do conhecimento não toca de modo algum o caráter específico da ciência compreensiva. Que a ciência seja de intuição ou de abstração; que ela seja adquirida ou infusa, divina, angélica ou humana, ela é compreensiva, desde que apreenda integralmente o seu objeto, ainda que à sua maneira. III. ESPÉCIES MÚLTIPLES SEGUNDO OS DIVERSOS SUJEITOS. — Importa, contudo, observar: pode haver, e há, de um mesmo objeto ciências compreensivas muito distintas, mais perfeitas em si mesmas umas que as outras, segundo a diversidade e a perfeição intrínseca dos sujeitos cognoscentes. Por exemplo, a ciência que Deus tem de um anjo, aquela que este anjo tem de si mesmo, são ambas compreensivas. Entre uma e outra, contudo, há distinção, não somente específica, mas transcendente, infinita. Deus compreende perfeitamente a natureza angélica, mas à luz de sua inteligência infinita; o anjo também compreende sua natureza, mas à luz infinitamente menos brilhante de seu espírito finito. Estas diferenças, todavia, decorrem, não da compreensão em si mesma, mas unicamente dos sujeitos cognoscentes, cujas faculdades científicas podem ser e são mais perfeitas umas que as outras, na sua essência e na sua clareza específica. É ainda o pensamento de Suarez, que o faz ressaltar em um exemplo bem apropriado: Comprehensio ejusdem angeli inferioris perfectior est in supremo angelo quam in alio inter- medio, licet nullam rationem, modum, aut habitudinem terminantem ejus cognoscat unus, non vero alius, in particulari et cum omni distinctione seu specificatione ex parte objecti. Dico tamen, quando cognitiones attingunt hunc gradum perfectionis ex parte objecti, illum alium modum in quo est excessus, non fundari in objecto, neque ut terminante, neque ut efficiente vel quasi efficiente cognitionem, sed fundari in sola perfectione cognoscentis, et ideo diversitatem illam nihil ad comprehensionem referre. Loc. cit., n. 415. Cf. n. 42. IV. SIGNIFICAÇÕES DIVERSAS. — Pela ciência compreensiva, o objeto encontra-se percebido em toda a sua inteligibilidade. Mas esta inteligibilidade mesma pode ser diversamente entendida, e prestar assim fundamento a significações muito diferentes da compreensão ou ciência compreensiva. 1º Pode-se restringir esta inteligibilidade ao objeto tal como ele existe absolutamente, em si mesmo, com sua natureza e seus elementos constitutivos, com as propriedades ou atributos que deles derivam, isto é, suas potências ativas e passivas. Esta extensão restrita da inteligibilidade não poderia bastar à ciência compreensiva. O objeto assim penetrado não é compreendido em toda a sua extensão inteligível, a qual se prolonga muito além de seu ser concreto. De verdade, este objeto encontra-se inteligível de forma muito mais vasta. Ele pode e deve ser conhecido, não somente em si mesmo, mas também em todas as relações naturais e reais que o completam em sua individualidade própria. Assim é ele inteligível em suas relações reais à ordem geral do universo, em suas relações reais passadas, presentes ou futuras com as causas múltiplas que agiram, agem e agirão certamente sobre ele de uma maneira qualquer, e também com todos os efeitos diversos que seguiram, seguem e seguirão, imediata ou mediatamente, o exercício de sua atividade. Não se pode desconhecer que a ciência de todas estas relações importa à penetração de um objeto na medida mesma em que estas constituem um elemento de sua existência concreta e um tempo de sua história. E nessas condições, o conhecimento de um objeto dado seria já largamente compreensivo. Pode sê-lo ainda mais se envolver as relações simplesmente possíveis, que não existiram e nunca existirão, seja com a ordem geral do mundo real, seja com as causas e os efeitos em contato possível com esse objeto no mesmo mundo. É preciso confessar que a ciência dessas relações simplesmente possíveis com o mundo real importa para o conhecimento do objeto, na medida mesma em que ela revela a intensidade ou a extensão de suas potências ativas e passivas. Nesse grau, e do ponto de vista do ser natural, a compreensão seria total, a ciência adequada e compreensiva. É aí, ao que parece, tudo o que a Escola entende quando define a compreensão com Suarez: De ratione comprehensionis est ut sit cognitio tam clara et intensa quantum necesse est ad exacte cognoscendas et penetrandas in objecto omnes habitudines et connexiones, quas ex natura sua habet et habere potest cum omnibus rebus a quibus ipsum pendet, et quæ ab ipso pendere possunt. Loc. cit., n. 9. 2° Pode-se elevar sempre e requerer para a compreensão que o objeto seja, ademais, apreendido em todas as suas relações com a ordem geral de todos os mundos possíveis, com todas as causas e todos os efeitos em contato possível com ele nesses mundos que não são e nunca serão. Mas levar até esse ponto as exigências seria, talvez, sair da questão presente, quero dizer, da inteligência de um objeto dado, para entrar no domínio da toda-potência de Deus e de seu exemplarismo inexaurível. Para a compreensão de um objeto, parece bem bastar que ele seja percebido por inteiro, e no quadro onde se encontra naturalmente colocado, com a série determinada das relações que dele decorrem. É bem aí esgotar sua natureza e seu ser inteligível. O excedente pertence menos ao objeto do que à potência infinita de Deus. 3° O fato da revelação e a instituição da ordem sobrenatural nos ensinaram que a inteligibilidade de um objeto pode crescer ainda e franquear os limites da natureza. Esse objeto pode, se apraz a Deus, revestir-se de perfeições de ordem preternatural ou até sobrenatural e, por esse fato divino, adquirir uma inteligibilidade nova e proporcionada à sua elevação. Esses dados divinamente superadicionados entram no domínio da ciência compreensiva? É de se notar que essas perfeições de ordem superior, se supõem no sujeito chamado a recebê-las uma potência passiva e obediencial, não decorrem, contudo, de sua própria natureza e de suas forças, mas da única potência de Deus. Por conseguinte, pode-se concluir, aqui como anteriormente, que a inteligibilidade dessas perfeições diz respeito menos ao objeto do que à potência divina. A ciência compreensiva, simples e propriamente dita, parece bem dever ser limitada à natureza do objeto dado com todas as consequências reais ou possíveis que ela acarreta no mundo presente. É também o sentimento de Suarez: Satis est enim exhaurire naturam ejus (creaturæ). Nam cognoscere quæ per potentiam obedientialem fieri in ea possunt, magis est cognoscere Dei omnipotentiam quam creaturam ipsam perfectius cognoscere, præsertim quoad ea quæ naturalia ei sunt. Loc. cit., n. 10. V. DIFERENTES SUJEITOS. — 4° Sob todos os aspectos, Deus tem a ciência compreensiva de seu ser absoluto e infinito, e também de todos os seres participados e finitos que saíram ou podem sair de sua potência. Na eterna e inefável visão que é ele mesmo, ele se penetra e se abraça por inteiro até o infinito de sua natureza e de suas pessoas. Por sua tripla ciência, ciência de simples inteligência, ciência de visão, ciência média, ele alcança, envolve, esgota todos os seres, nas profundezas de sua natureza como em toda a extensão de suas relações, em suas causas como em seus efeitos, em seus princípios como em suas consequências, por mais distantes que sejam, na ordem real como em todas as ordens possíveis, no mundo da simples natureza como em todos aqueles da natureza elevada às perfeições preternaturais ou sobrenaturais. Essa ciência compreensiva e absoluta da divindade e de tudo o que dela pode proceder ou procede ao exterior é comum às três pessoas da Trindade santa. Mas a teologia deve apropriá-la ao Verbo, que, procedendo por via de inteligência, é imagem e a expressão adequada e pessoal da pessoa e da natureza do Pai. É, aliás, pela mesma razão que atribuímos ao Verbo todas as ideias divinas e todos os fiat divinos. Os anjos, a alma separada, sendo puros espíritos, encontram-se, segundo a linguagem da Escola, inteligíveis em ato: apreendem, portanto, cada um, sua natureza por inteiro, por intuição ou percepção direta. A esse respeito, sua ciência é compreensiva. Vai ela até o conhecimento total e atual de todas as relações que derivam da natureza? A coisa, por complexa que pareça, pode não ser impossível em si. Pois o objeto assim entendido permanece bem finito. De fato, os elementos de determinação nos faltam. Os anjos superiores têm também, por suas ideias infusas, a compreensão dos anjos inferiores. Ela se detém, todavia, nos secreta cordis, dos quais Deus só é a testemunha inevitável. Enfim, os anjos compreendem ou podem compreender as naturezas inferiores, pois deles têm, com sua própria natureza, conceitos infusos, próprios ou supereminentes. 3° O que concerne à ordem sobrenatural, de si, escapa ao olhar da inteligência criada, qualquer que seja. Para entrar nesse domínio, é preciso que as faculdades naturais sejam elevadas a novas perfeições pela potência divina. Logo que estão providas desses poderes novos e totalmente gratuitos, até onde se estende seu campo de ação? Não parece impossível que uma inteligência assim elevada possa penetrar a fundo e sem reserva uma criatura posta na ordem sobrenatural, pois, então, mesmo essa criatura, apesar de seus privilégios eminentes, não deixa de ser menos finita e, por conseguinte, proporcionada à atividade intelectual de uma outra criatura finita, mas elevada também. Os teólogos tratam a questão em toda a sua amplitude a propósito do conhecimento dos anjos. Ver t. 1, col. 1232-1235. 4° Para o homem, ao permanecer na ordem natural, pode-se recordar com razão este dito muito justo, que ele não conhece o todo de nada. Com efeito, ele não apreende nenhum objeto em si mesmo, em toda a sua integridade e em todos os seus elementos essenciais. Menos ainda os abraça em toda a multiplicidade de suas relações. Por si só, essa constatação deveria bastar para tornar a ciência humana sempre modesta, por mais profunda ou extensa que possa dizer-se sobre um objeto dado. No que diz respeito à ordem sobrenatural, os teólogos admitem que os bem-aventurados podem chegar à visão compreensiva, em Deus, de certos objetos. Mas, por maior que seja o homem glorificado, ele não tem e não poderia ter a visão compreensiva de Deus mesmo. Sem dúvida, a teologia deu-lhe o nome de comprehensor, porque ele enfim alcançou o Deus fielmente perseguido, não porque ele o apreenderia adequadamente, por meio de suas faculdades sempre finitas, apesar de sua bem-aventurada elevação. Ele vê, certamente, o Ser infinito face a face, e como Ele é infinitamente simples, pode-se dizer, neste sentido, que ele o percebe inteiro, totum, como dizem os teólogos, mas não se poderia dizer que ele o percebe adequadamente, totaliter, porque ele não o vê infinitamente. O defeito de compreensão vem aqui, não do objeto que se comunica direta e inteiramente, mas do sujeito que é incapaz de compreendê-lo jamais. Ver ABSTRAITE (Connaissance), t.1, col. 280-282; DIEU, son incompréhensibilité; INTUITIVE (Vision); JÉSUS-CHRIST, sa science; os lógicos, quando tratam da divisão dos conceitos, da ideia apreensiva ou compreensiva, Liberatore, Institutiones philosophicæ, Logica, c. 1, a. 3, n. 414, Prato, 1881, t. 1, p. 24; T. Pesch, Institutiones logicales, l. II, c. 1, sect. 1, n. 2, Fribourg-en-Brisgau, 1888, p. 248; os teólogos, quando expõem a incompreensibilidade de Deus, a ciência de Cristo, o conhecimento angélico, a visão beatífica e sua extensão.

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