CLEMENTINAS (APÓCRIFOS). Trataremos sob este título das obras apócrifas atribuídas a São Clemente de Roma e não compreendidas no artigo CÂNONES DOS APÓSTOLOS, a saber:
I. As Homilias clementinas, as Reconhecimentos e os resumos gregos, siríacos e árabes das Homilias ou dos Reconhecimentos.
II. A obra conservada em árabe e em etíope, intitulada por vezes «o Apocalipse de Pedro» e mais frequentemente «Clemente».
III. As cartas às virgens, as cartas decretais e dois apócrifos etíopes pouco conhecidos de menor importância.
I. HOMILIAS, RECONHECIMENTOS E SEUS RESUMOS. — A história de São Clemente de Roma, dos «seus pensamentos durante a sua juventude», da sua conversão por São Pedro, das suas viagens na companhia de São Pedro e dos seus «reconhecimentos» sucessivos com os diversos membros da sua família teve, desde o século II, numerosas edições, umas «revistas e aumentadas», outras «revistas e resumidas», das quais não nos restam menos de sete tipos diferentes e que constituem o que se chama agora «as Clementinas». As viagens de São Clemente na companhia de São Pedro formavam, com efeito, uma estrutura muito flexível na qual era fácil introduzir instruções aos cristãos, apologias de certas virtudes ou de certos dogmas do cristianismo, polêmicas contra os gnósticos e os pagãos. Um certo número de edições está perdido e só nos é conhecido por algumas citações; mas as sete que nos restam ainda parecem todas derivar de uma edição primitiva aumentada, diminuída ou, pelo menos, orientada segundo o objetivo perseguido por cada editor.
Uma nos dá um resumo da história sagrada desde a criação, Recogn., I, 22, 26-72, uma teoria da Trindade, II, 2-11, e uma longa refutação da astrologia, IX, 2, 12-24; X, 7-12; outra preocupa-se sobretudo em aproximar o cristianismo do judaísmo, Hom., II, 49; IV, 7, 13, 22; V, 26-28; VIII, 6-7; XX, 22, e imagina ou reproduz, para defender a noção de Deus fornecida pela Bíblia, diversas teorias arriscadas como a das passagens inexatas introduzidas na Bíblia pelo Maligno, Hom., III, 38-41, 5; a do verdadeiro profeta, critério único de certeza, Hom., II, 18-III, 12; I, 11-44; XI, 19, e da criação por pares, o mal precedendo o bem, o mau profeta precedendo o bom, Hom., II, 15-17; III, 16, 21-27, 59. Esta teoria deve provar que Simão, o Mago, é o mau profeta por este único fato de que ele precedeu São Pedro em Cesareia. Assinalemos ainda uma dissertação contra os ídolos, Hom., IV, 8-VI, 25, e uma teoria sobre o poder dos demônios e a causa das doenças, Hom., IX, 8-22. Mas a maioria dos editores sobretudo encurtou o relato para reduzi-lo à história de Clemente, história prolongada por muitos até ao seu martírio. Tais são os resumos siríacos, gregos e árabes. Resta-nos dar a conhecer mais em detalhe cada um destes textos e as suas particularidades, colocar a sua importância em relevo e resumir as teorias literárias às quais deram margem.
I. ANÁLISE. — 1º Homilias. — A coleção tal como é possuída agora começa por uma carta de envio de São Pedro a São Tiago, P. G., t. II, col. 25-28; e uma recomendação (διαμαρτυρία) de São Tiago àqueles que recebem «estes livros». Estas duas peças parecem referir-se a «livros» perdidos e não às «homilias» seguintes. Vem depois uma carta de São Clemente a São Tiago e vinte homilias ou, melhor, vinte relatos. A carta de São Clemente faz parte do todo, pois ela é junta na sequência nos dois mss. que nos restam das homilias, ela começa a 1ª homilia da qual ela forma o primeiro parágrafo e ela nos dá o título do escrito: Κλήμεντος τῶν Πέτρου ἐπιδημιῶν κηρυγμάτων ἐπιτομή. Em suma, as Homilias não são outra coisa senão a carta de Clemente. A sequência é formada por dois assuntos entrelaçados que são: história de Clemente, dos seus pensamentos, da sua conversão e da conversão da sua família e, em segundo lugar, os atos e as pregações de Pedro. Há interesse para a clareza em separar estes dois assuntos no resumo, tanto mais que o primeiro é comum a todos os escritos que nos preocupam agora, enquanto o segundo sofreu grandes modificações ao gosto dos editores sucessivos, como já esboçamos.
1. História de São Clemente. — Sob o reinado de Tibério, um jovem romano, chamado Clemente, da raça de César, XII, 8, com a idade de trinta e dois anos, XII, 10, coloca-se os problemas da causa primeira, da natureza da alma e do destino humano. Ele não encontra nenhuma resposta satisfatória junto dos filósofos e pensa em dirigir-se ao Egito para ali evocar os mortos, quando ouve contar que o Filho de Deus apareceu na Judeia e promete a vida eterna a todos aqueles que quiserem viver em conformidade com a vontade de seu Pai. Clemente dirige-se, portanto, à Judeia para informar-se sobre o Filho de Deus. Passando por Alexandria, ele encontra São Barnabé, que reencontra um pouco mais tarde perto de Pedro em Cesareia Marítima. São Pedro promete-lhe os bens eternos, pede-lhe para o acompanhar nas suas viagens a fim de aproveitar assim os discursos de verdade que ele vai pronunciar em cada cidade até Roma, I, 4-16. Chega-se, enfim, a Antarados, onde Clemente narra a São Pedro a sua triste história: Sua mãe, Mattidia, contou um dia que um sonho a obrigava a deixar Roma com os seus dois filhos gêmeos Faustinus e Faustinianus, se ela não quisesse vê-los morrer de cruel doença; seu pai, Faustus, enviou-os a Atenas, onde eles não chegaram; ele pôs-se, portanto, à procura deles e desapareceu, por sua vez; Clemente tinha então doze anos, XII, 1-10. Desde o dia seguinte, Pedro e os seus companheiros passam à ilha de Arados para ali ver dois tronos de videira de uma prodigiosa grandeza e uma obra de Fídias, e São Pedro pergunta a uma mendiga por que ela não trabalha em vez de mendigar; ela responde que não o pode mais, pois ela roeu as mãos na sua dor e não pode mais servir-se delas. Ela conta também a sua história: seu cunhado perseguia-a com as suas assiduidade; para escapar-lhe, ela contou ao seu marido que um sonho lhe ordenava afastar-se com dois dos seus filhos. Um naufrágio lançou-a nesta ilha e ela não pôde sequer encontrar os corpos dos seus filhos. São Pedro reconhece Mattidia e, pouco depois, dois jovens amigos de Pedro, Nicétas e Aquila, reconhecem também a sua mãe. Eles são Faustinus e Faustinianus; piratas recolheram-nos após o naufrágio e venderam-nos sob nomes emprestados, em Cesareia Marítima. Justa, a Cananeia do Evangelho, cf. Matth., xv, 21-28, comprou-os e criou-os como seus filhos, i, 19.
Eles apegaram-se primeiro a Simão, o Mago, até ao dia em que Zaqueu os conduziu a Pedro, xii, 12-24; xiii, 41-8. Após o batismo de Mattidia, São Pedro inicia uma controvérsia com um ancião. Este sustenta que não há nem Deus nem providência e que tudo está submetido ao horóscopo. Ele cita como exemplo a esposa de um de seus amigos, nascida sob um horóscopo que a condenava a apaixonar-se por um de seus escravos e a perecer em um naufrágio. Tudo isso se realizara. Essa mulher havia partido com dois de seus filhos e perecera em um naufrágio, e o irmão do marido informara a este que sua esposa se apaixonara por um escravo e que não havia pretextado a necessidade de uma viagem senão para se entregar, sem obstáculos, à sua paixão. São Pedro não tem dificuldade em reconhecer Fausto, o pai de Clemente, e em provar-lhe que o horóscopo não tem influência alguma sobre a vontade humana, uma vez que sua esposa Matídia não morreu no naufrágio e não amou escravo algum, mas, pelo contrário, resistiu a seu cunhado, o qual a caluniou para se vingar, xiv, 2-10.
Contudo, Fausto não se admite vencido. A astrologia engana por vezes, diz ele; acaba de ter a prova disso, mas nem sempre é assim; ele acredita, sobretudo, na ciência de um astrólogo chamado Anúbio, que segue Simão, o Mago. Clemente oferece-se para discutir com Anúbio, quando o encontrarem em Antioquia, e então, alegres pelo reconhecimento (ἀναγνωρισμῷ ou propter recognitionem), vão descansar, xiv, 11-12. A versão siríaca termina aqui. Nas Homilias, tais como as possuímos, Fausto não se converte de maneira muito explícita; ele acompanha São Pedro e discute com ele ou, pelo menos, assiste às suas discussões com Simão, o Mago. Este, que é perseguido pelo centurião Cornélio, empresta seus traços a Fausto a fim de que seja preso em seu lugar. A semelhança é tal que Matídia e seus filhos são enganados por ela; Pedro revela-lhes a verdade e pensa em tirar proveito dessa metamorfose de Fausto. Ordena-lhe que vá a Antioquia sob os traços de Simão, o Mago, para ali louvar Pedro e fazer-lhe reparação honrosa; após o que, ele, Pedro, irá a Antioquia e restituirá a Fausto a sua forma original. Ao fim de dez dias, este manda Pedro vir com pressa, e a obra termina com a partida de São Pedro de Laodiceia para Antioquia, xx, 11-23. Aliás, a carta preliminar nos ensinou que São Pedro, prestes a morrer em Roma, impôs as mãos a São Clemente e o escolheu como seu sucessor. Epist. Clem., 2, 19.
2. Atos e pregações de São Pedro. — Enquanto se desenrola o romance precedente, São Pedro prega e luta, de cidade em cidade, sobretudo contra Simão, o Mago, a quem viera buscar em Cesareia, i, 22; iii, 29-57, e a quem persegue, em seguida, em Tiro, ii, 58; em Sídon, ii, 6; em Beirute, vii, 5; em Biblos, em Trípoli, vii, 12; em Laodiceia, xi, 1; xvi-xix, 24. Antes de discutir com Simão, acontece também a São Pedro prevenir seus amigos contra as objeções, ii, 4-53; iii, 2-28. Aliás, algumas de suas instruções são dirigidas ao próprio São Clemente, i, 18-22; xii, 25-33; xiii, 13-21; a Fausto, xv, 1-11; a seus discípulos, xx, 1-10; e aos habitantes de Tiro, vii, 1-5; de Sídon, vii, 6-8; de Beirute, vii, 9-12; de Trípoli, vii-xi. Em todas as cidades por onde passa, São Pedro ordena um bispo, presbíteros e diáconos. Ele não tem, de resto, o monopólio das controvérsias, pois São Clemente também discute longamente com Ápion a respeito dos ídolos, iv-vi, 25, e nos anuncia por duas vezes que discutirá com Anúbio em Antioquia a respeito da astrologia, xiv, 12; xx, 11-21, discussão que não figura no texto atual das Homilias.
2 Reconhecimentos. — Esta redação, assim denominada pelos «reconhecimentos» (ἀναγνωρισμοί) dos parentes de Clemente, está conservada apenas na tradução latina de Rufino. A carta de São Pedro a São Tiago e a «recomendação» de São Tiago faltam. A carta de São Clemente figurava nos mss. gregos que Rufino possuía, mas ele não a colocou no início de sua versão latina, porque já a havia traduzido alhures e porque a julgava posterior a São Clemente, que é o verdadeiro autor, segundo ele, dos Reconhecimentos. Cf. P. G., t. 1, col. 1207. A obra está dividida em dez livros resumidos. P. G., t. 1, col. 1171-1178.
O romance de Clemente é o mesmo que nas Homilias; contudo, seu pai chama-se aqui Faustiniano (e não Fausto), enquanto Fausto torna-se o nome de um de seus irmãos. Além disso, Clemente não vai mais a Alexandria, mas encontra Barnabé em Roma mesma. Enfim, os últimos capítulos acrescentam o relato da chegada de São Pedro a Antioquia e da conversão de Faustiniano, pai de Clemente, x, 66-72. A diferença entre as Homilias e os Reconhecimentos é muito maior nos discursos, nas disputas e nos ensinamentos. Os Reconhecimentos deixam de lado três teorias principais: a das falsas passagens da Escritura ensinada por Pedro em Cesareia, Hom., II, 37-III, 10; a disputa de Clemente com Ápion em Tiro, Hom., IV-VI, e uma parte da discussão sobre o mal, Hom., XIX, 3-24. Contudo, diversos passagens dos Reconhecimentos mostram que seu autor conhecia essas teorias. Cf. Bigg, p. 183, nota 5.
Os Reconhecimentos omitem ainda a passagem sobre a filantropia, Hom., XI, 25-33, os discursos de São Pedro, de Tiro a Trípoli, Hom., VI, 26-VII, 12, e uma grande parte das teorias relativas ao verdadeiro profeta, Hom., I, 15-II, 28, e às contradições apontadas na Bíblia por Simão, o Mago, Hom., II, 15-18; II, 11-28. Por outro lado, os Reconhecimentos acrescentam um discurso de São Pedro que resume os eventos históricos desde a criação até sua chegada a Cesareia, I, 27-72; cf. I, 22, e um diálogo entre São Pedro, Faustiniano e seus filhos sobre o destino, VII, 3-X, 52. Aliás, mesmo nas passagens paralelas, os discursos e as instruções diferem muito nas Homilias e nos Reconhecimentos; as palavras, pelo menos, são na maior parte das vezes diferentes.
A primeira edição dos Reconhecimentos foi publicada em Paris em 1504 por Jacques Le Fèvre d’Etaples. Cf. Justi Fontanini, Historia literarie Aquileiensis libri V, Roma, 1742, p. 337; P.G., t. I, col. 1195. O exemplar conservado na Biblioteca Nacional de Paris traz na primeira página, em guisa de título: Pro piorum recreatione, et in hoc opere contenta : Epistola ante indicem ; Index contentorum ; Ad lectores ; Paradysus Heraclidis; Epistola Clementis; Recognitiones Petri apostoli; Complementum epistole Clementis; Epistola Anacleti; os Reconhecimentos, fol. 40 r-112 r, são precedidos pelo prefácio de Rufino ad Gaudentium, fol.
37 r, e pela carta de Clemente a Tiago como em P. G., t. II, col. 31-56 (tradução de Rufino), fol. 37 v-40. O complemento da carta de Clemente, fol. 112 v-116 r, é a adição que se encontra em P. G., t. I, col. 472, Pœnitemini, inquit, et veram... até o fim, col. 484. A carta dedicatória ante indicem é datada de 10 de fevereiro de 1508.
3° Os Epítomes gregos. — Restam-nos dois resumos das Homilias, um, um pouco mais longo, publicado pela primeira vez por Dressel, que o chamou de Epitome 1 (E1); o outro, editado por Turnèbe, depois por Cotelier e por Dressel, e nomeado Epitome 2 (E2). Este último encontra-se em P. G., t. II, col. 469-604. E2 está dividido em 179 capítulos e E1 em 185 capítulos correspondentes. Estes resumos gozaram de grande voga e são numerosos ainda em todas as bibliotecas. A Biblioteca Nacional de Paris possui três exemplares completos e um exemplar incompleto de E1 e quinze exemplares de E2. Cotelier conhecia nove exemplares, P. G., t. II, col. 469; os manuscritos que ele designa pelos n. 148, 804, são cotados agora 1178, 1463. A. d’Alés, Un fragment pseudoclémentin, na Revue des études grecques, 1905, t. XVIII, p. 218-223, editou o texto do ms. Suppl., n. 1000. Este fragmento compreende os § 143-162 do Epitome 1.
Segundo Dressel, p. v, os dois Epitome provêm das Homilias; E1 foi redigido após o concílio de Niceia e E2 foi extraído mais tarde de E1, p. vi. Langen, pelo contrário, via nos Epitome a edição mais fiel do texto original, do qual as Homilias e as Reconhecimentos eram reformulações mais tardias. Cf. Waitz, p. 7. Mas Langen não foi seguido e admite-se que os Epitome não passam de um resumo das Homilias. Waitz, em particular, mostra que os Epitome parafraseiam em alguns pontos as Homilias e as Reconhecimentos e, mais frequentemente, suprimem as passagens antiquadas ou de ortodoxia duvidosa, acrescentam extratos da carta de São Clemente a São Tiago, 145-147, da qual ele só fornece no início as cinco primeiras palavras (1) e do martírio de São Clemente por Simeão o Metafrasta, 149-173, com um final emprestado de Efraim, bispo de Quersoneso, 174-179; noutros pontos, E1 depende diretamente de E2. Cf. Waitz, p. 8-14. Faremos notar que o c. CXXXIX de E2 não se encontra nas Homilias, mas sim nas Reconhecimentos, X, 66, e que os longos desenvolvimentos, acrescentados por E1 ao c. XCVI, têm algumas frases paralelas numa citação das Πληροφορίαι feita por Paulo, o monge. Parece, portanto, que E1 e E2 não dependem unicamente da nossa redação das Homilias; com esta pequena restrição, vimo-los também como simples resumos e não teremos mais que falar deles.
4° A versão siríaca. — Esta versão, conservada em particular no ms. de Londres, add. 12150, escrito no ano 723 dos Gregos (412 da nossa era), contém Recog., I-IV, 1 (até hiemandum denuntiavimus) com as Homilias X, XI, XII, 1-24, XIII, XIV, isto é, história de Clemente, como indicam os títulos dos dois manuscritos siríacos, add. 12150, 14609; este último, do século VI, não contém as Homilias X-XIV. Os títulos das Homilias X-XII, que são: Terceiro contra os gentios, Lagarde, p. 124; Quarto, p. 132; Depois de Trípoli da Fenícia, p. 146, parecem emprestados às primeiras palavras que se seguem. O último título apenas: Homilia décima quarta, p. 162, não pode ser explicado senão pressupondo a existência, antes de 412, da coletânea das Homilias dividida como ainda o está hoje. Não se quer dizer que a versão siríaca dependa das Homilias atuais: Lagarde já assinalou, p. VII, que esta versão, como as Reconhecimentos, omite Hom., XII, 25-33, e segue o texto das Reconhecimentos e não o das Homilias, Hom., XII, 4.
Acrescentemos que por toda a parte na versão siríaca (cf. p. 149, lig. 20), como nas Reconhecimentos (cf. VII, 8), Fausto é o nome de um irmão de Clemente, enquanto nas Homilias (cf. XII, 8) é o nome de seu pai. Além disso, a versão siríaca, p. 146, lig. 35, como as Reconhecimentos, vii, 1, traz: quoniam plurimae fratrum turbae nobiscum sunt, em vez de: quoniam plurimae fratrum turbae nobiscum sunt, Hom., xii, 1; p. 147, lig. 13-14, como Recog., vii, 2: proposui ternis residere mensibus, em vez de: προήρημαι ἡμερῶν ἐπιμένειν, Hom., xii, 2; p. 147, lig. 17-19, como Recog., vii, 2: Hoc cupio ut in omni civitate faciatis, ut ita etiam invidiam fugiamus et fratres etiam per sollicitudinem vestram, absque vagatione, hospitia inveniant; o texto correspondente, Hom., xi, 2, é completamente diferente. Ela tem ainda, p. 147, lig. 24-25, como Recog., vii, 3: unum diem aut biduum, em vez de: ἡμερῶν δύο, Hom., xiii, 3; enfim p. 150, lig. 19-20, como Recog., vii, 12: sex stadiis, em vez de: τριάκοντα σταδίους;, Hom., xiii, 12. De resto, se é fácil explicar como Faustinianos das Reconhecimentos pôde tornar-se Faustinos na versão siríaca, parece-nos impossível fazer derivar a lição desta versão: Metrodora (cf. p. 149, lig. 19), de Mattidia, Recog., viii, 8, ou Matridia, Hom., xi, 8. Estas diferenças, por mais ligeiras que sejam, bastam para mostrar que o siríaco não deriva do nosso texto atual das Homilias, mas de um texto grego um pouco mais aparentado com as Reconhecimentos. A lição Metrodora, em vez de Mattidia, permaneceu na literatura siríaca. Ela reencontra-se numa elegia de Balai, autor siríaco do século IV ao V, que dedica doze versos ao naufrágio de Mattidia e à morte (suposta) de seus filhos. Cf. G. Bickell, Conspectus rei Syrorum litterariae, Münster, 1871, p. 46, nota 5, e Zeitschrift der Deutschen Morg. Ges., 1878, t. xxxii, p. 599, e no "Clemente" árabe, do qual se tratará mais adiante.
A versão siríaca prestou uma base muito especiosa à teoria de J. Lehmann, segundo a qual as Reconhecimentos não teriam compreendido na origem senão os três primeiros livros e não teriam sido completadas mais tarde senão por empréstimos feitos às Homilias e a outras obras. Die Clementinischen Schriften, Gotha, 1869. Pois se o tradutor siríaco tivesse tido diante dos olhos os l. V-VII das Reconhecimentos ao mesmo tempo que os l. I-III, não se explicaria bem por que ele teria emprestado das Homilias a continuação da história de Clemente, que teria figurado já nos l. V-VII. Pode-se, contudo, satisfazer esta dificuldade supondo que o texto grego, origem da versão siríaca, foi constituído em duas vezes. Este texto grego, que não contém "a transformação de Simão", cf. Recog., x, 56, 60, parece-nos ser mencionado por Rufino, assim como as Homilias, numa passagem do seu Prefácio a Gaudêncio, P. G., t. xxi, col.
que podemos traduzir da seguinte maneira: "Não ignoras, penso eu, que deste Clemente [título da obra em siríaco] há em grego duas edições [Homilias e Reconhecimentos] da mesma obra 'Ἀναγνώσεων, isto é, das Reconhecimentos, e dois agrupamentos de livros [Homilias-Reconhecimentos e versão siríaca], que diferem bastante, mas apresentam frequentemente o mesmo relato. Enfim, a última parte desta obra, onde é relatada a transformação de Simão, encontra-se num agrupamento [Homilias-Reconhecimentos] e não se encontra de modo algum no outro [versão siríaca]." » Não precisaremos mais nos ocupar da versão siríaca, uma vez que todo o seu conteúdo se encontra nas Homilias ou nas Reconhecimentos.
50 Os resumos árabes. — A Sra. M. Dunlop Gibson editou dois compêndios árabes das Clementinas, Studia Sinaitica, Londres, 1896, t. v; o primeiro a partir de um ms. do Sinai, o segundo a partir de um ms. de Londres. O primeiro tem por título: «Eis a história de Clemente que reconheceu seus pais graças a Pedro;» ele resume em uma página os três primeiros livros das Reconhecimentos e conta, em seguida, as «reconhecimentos». Somente o último parágrafo não tem seu correspondente no siríaco e corresponde a Recog., ix, 38. Faustus é também o nome de um irmão de Clemente. Este resumo nos parece, portanto, provir, se não do latim, ao menos de um texto grego aparentado às Reconhecimentos e não às Homilias.
O segundo, ao contrário, é uma tradução de um texto grego que deriva do Epitome III, isto é, das Homilias, tradução feita por Macário de Antioquia na cidade de Sinope em 1659. Como na edição de Turnèbe, a segunda parte do Epitome, c. cxlvii sq., é separada da precedente pelo título «martírio de Clemente».
II. DOUTRINA.
1º Homilias. — Cotelier editava-as sobretudo para fazer conhecer os erros dos primeiros hereges: Id apocryphum non indignum visum fuit quod ederetur typis, utpote utile cum ad alia, tum vero praecipue ad cognoscendos primorum hereticorum errores. Cf. Prefácio, não paginado. Estes erros são sobretudo os dos judaico-cristãos ou ebionitas. A escola de Tubinga buscava nesta obra o cristianismo primitivo. Hoje vê-se nela uma síntese, muito mal digerida, do cristianismo com diversas teorias filosóficas (gnósticas?) e judaico-cristãs. O autor justapôs teorias muito diversas sem chegar a fundi-las em um todo único. Assim, o Sr. Uhlhorn acreditou dever distinguir duas correntes, uma panteísta e a outra moral, quando quis resumir o ensino das Homilias relativo a Deus. Realencyclopidie, 3ª ed., t. iv, p. 173-174.
Estes resumos gerais, ao que parece, nunca estão isentos do espírito de sistema que faltava, pelo contrário, ao autor das Homilias. Este autor preocupa-se constantemente em refutar adversários e apreende, portanto, o argumento ou a definição que encontra ao seu alcance sem harmonizá-la com o conjunto de sua obra. Teremos, portanto, talvez, uma ideia mais justa de sua doutrina expondo seu objetivo e os meios escolhidos para alcançá-lo, em vez de classificar sob lugares-comuns filosóficos e teológicos brevíssimos extratos recolhidos em toda a sua longa obra.
O autor propõe-se a ensinar a verdade a Clemente — e, em sua pessoa, a todos os neófitos — mas o faz sobretudo refutando objeções, por exemplo, as de um taumaturgo, Simão, o Mago, que também opera prodígios e ataca o Deus da Bíblia em nome da razão. O Deus dos judeus não é o Deus soberano, pois é míope, ignorante, ciumento, arrepende-se, necessita de sacrifícios, I, 39; existem, portanto, vários deuses, como mostram aliás diversas passagens da Bíblia, XVI, 6-14. Pedro responde citando outras passagens da Escritura, III, 55-57; XVI, 7, e deve convir que seu raciocínio não é convincente, uma vez que a Bíblia fornece textos a favor e contra, III, 9-10; XVI, 9.
Para convencer seus ouvintes — ao menos seus ouvintes de escolha, pois há razões que não se pode dar a todos — ele expõe as teorias do verdadeiro profeta, das falsas perícopas e das sizígias. Os filósofos não chegaram à certeza, I, 3-4; I, 7-8; a Escritura santa fornece razões a todos, II, 10, e pressupõe, portanto, que se saiba distinguir o verdadeiro do falso; por conseguinte, o único critério da certeza será a autoridade do verdadeiro profeta. Quando uma casa está cheia de fumaça, é preciso um homem para abrir as janelas, expulsar a fumaça e fazer entrar o sol. É o verdadeiro profeta que nos prestará esse serviço, I, 18-19. Pedro expõe em seguida suas marcas, I, 20; I, 6; I, 41-45. Se uma das coisas preditas aconteceu, reconhecer-se-á aí o verdadeiro profeta e dever-se-á crer em seguida em todos os ensinamentos que seus discípulos dão em seu nome, I, 9-12.
Quem é este verdadeiro profeta? O pensamento do autor é aqui um pouco flutuante. Para ele, o verdadeiro profeta é quase sempre Jesus Cristo, I, 18-19; XI, 29; XV, 7; XVII, 6; mas — como não pode dizer que a verdade foi ignorada até a chegada de Cristo, uma vez que vincula muito estreitamente e mesmo estreitamente demais, VII, 4; VIII, 6-7, a antiga lei à nova — ele deve admitir tipos de encarnações do verdadeiro profeta, que percorre o mundo desde o princípio, mudando de forma como de nome, III, 20. Adão parece ter sido o verdadeiro profeta, III, 21-25, talvez também Enoque, Noé, Abraão, Isaac e Moisés, XVI, 4; XVIII, 16, ou melhor, Deus, desde o princípio, chamou à verdade os homens que eram dignos dela, I, 11-12.
Para refutar as objeções extraídas da Bíblia, o autor gera uma teoria, nova então, que ele declara com razão não poder revelar ao vulgo, I, 39. Ele supõe que a Escritura contém passagens inexatas introduzidas posteriormente pelo demônio, II, 38, para enganar os homens, II, 5; XVI, 10, 13-14. É falso que Deus minta, tente os homens, arrependa-se, seja ciumento, ame a gordura e as vítimas, II, 41-44. Adão não transgrediu; Noé não se embriagou; Abraão não teve três esposas ao mesmo tempo; Jacó não teve quatro, das quais duas irmãs; Moisés não foi homicida, II, 52. Este é, naturalmente, o ensino do verdadeiro profeta e, para prová-lo, o autor só tem de modificar ligeiramente um texto da Escritura, III, 54; III, 50; XVI, 20. Cf. Marc., XII, 24. Ele chega assim a fazer Nosso Senhor dizer que é preciso saber distinguir o verdadeiro do falso na Escritura. Além disso, o Pentateuco não é de Moisés, pois relata sua morte, III, 47.
Esta teoria, se não tem qualquer outra vantagem, atinge ao menos o objetivo visado pelo autor e fecha a boca a Simão, o Mago: «Quando eu não conhecia o teu sentimento sobre a Escritura, eu resistia e discutia; agora eu me afasto,» XIX, 21. Resta, contudo, ainda um ponto fraco: Pedro fala, diz ele, em nome de Jesus Cristo, o verdadeiro profeta, e opera prodígios, mas Simão pretende ser o filho de Deus e ele opera também prodígios. Pedro — isto é, o autor das Homilias — encontra-se bastante embaraçado para encontrar um critério, e a prova disso é que ele apresenta vários: não se deve acreditar naquele que fala contra o Deus criador, III, 42; XIX, 21-22; deve-se procurar para que servem os prodígios, os de Simão são inúteis, II, 33-34; aliás, Simão é apenas um impostor e um mágico, dois de seus antigos discípulos encarregam-se de nos convencer disso, II, 18-32; enfim, Pedro imagina a teoria dos pares ou das sizígias, à qual ele retorna com frequência: Deus criou tudo por pares, primeiro o melhor e depois o pior, como o céu e depois a terra, Adão e depois Eva, mas entre os homens é o inverso, os maus nascem antes dos bons: Caim antes de Abel, Ismael antes de Isaac, Esaú antes de Jacó, João Batista antes de Nosso Senhor e, ao fim dos tempos, o Anticristo antes de Cristo. Ora, Simão precedeu Pedro, pois ele é discípulo de João Batista e precedeu Pedro em Cesareia; é, portanto, Simão quem é o sedutor, III, 15-18. Muitos caem no erro por falta de conhecer esta lei das sizígias; por isso Pedro retornará a ela frequentemente, III, 16.
Há até dois gêneros de profecias: a profecia macho criada primeiro, mas que só vem em segundo lugar neste mundo, e a profecia fêmea. A primeira procede de Adão e a segunda de Eva, III, 22-28. Simão, naturalmente, herdou apenas a segunda. Cristo está repleto da divindade, nada lhe é impossível, I, 6; é o filho de Deus, I, 7, 8; o verdadeiro profeta, I, 17; X, 4; XII, 29; XV, 7; XVI, 6; o Senhor, I, 34; XI, 35; ὁ διδάσκαλος ἡμῶν, II, 12; XI, 30; XVI, 10, 15; XVII, 4, 18; XVIII, 12. Ele parece ser o objeto da passagem, III, 17-20; e nela ser chamado "um homem formado pelas mãos de Deus", "um homem que teve o santo espírito de Cristo"; de qualquer modo, uma passagem subsequente nos ensina sem ambiguidade que, se Cristo é filho de Deus, ele não pode, contudo, ser chamado Deus, XVI, 14-15. O Filho, aliás, foi GERADO e, portanto, não pode ser comparado àquele que não foi GERADO ou que o foi por si mesmo, XVI, 16.
Após nos ter fornecido belas definições da divindade, II, 12-13, 45; III, 37; X, 19-20; XV, 17-18, o autor chega ao antropomorfismo, XVI, 19-20; XVII, 7-11. "Deus tem uma figura para a primeira e única beleza, ele tem todos os membros, não para se servir deles..." Assinalemos ainda algumas exagerações próximas dos erros ebionitas e relativas à pobreza, XV, 10; a Deus e à natureza da alma, XVI, 16; à dependência da nova lei em relação à antiga (passagens judaico-cristãs), II, 19; IV, 7, 13, 22, 24; V, 26-28; VII, 22; XI, 35; XX, 22; ao inferno onde as almas dos pecadores seriam inteiramente aniquiladas, III, 6, e à possibilidade de suprir o batismo, XI, 20.
Finalmente, os demônios têm poder sobre os homens que comem com eles ou que se submetem uma vez a eles, VII, 3; VIII, 20; IX, 15, 23; cf. XX, 16-17; a verdadeira religião os põe em fuga, IX, 8-11; o mal liga-se à perversidade dos primeiros homens e aos anjos decaídos, VIII, 11-20. Ao lado destas teorias que justificam amplamente o julgamento severo de Cotelier, encontram-se também numerosas passagens irrepreensíveis contra a incredulidade, III, 31; o politeísmo e os ídolos, IV-VI; X, 7-18; sobre as obras de Deus, III, 32-36; a imortalidade da alma, III, 37; XV, 4-2; a fé e as obras, VII, 5; a grandeza e os deveres do homem, X, 3-6; XI, 22-24; o batismo, XI, 25-27; a pureza, XI, 28-33; a filantropia, a caridade e o retrato do justo, XIII, 25-33; XV, 5-9; a providência, XV, 3-4, e a origem do mal, XIX-XX, 9. Reina, aliás, por toda a obra um natural e uma simplicidade unidos a uma elevação constante do pensamento que encantam o leitor e o levam a ser indulgente quanto às manchas de um escrito tão antigo.
2° Recognitions. — As Reconhecimentos são de muito superiores às Homilias pela eloquência e o rigor empregados nas discussões, a coerência e o acabamento dos detalhes e a ortodoxia das teorias. Aqui, sem qualquer vacilação do pensamento, o verdadeiro profeta é o Cristo eterno, I, 43, 63, 69; V, 10; cf. VII, 37; ele é superior a Moisés, I, 59; ele é o Filho de Deus e o início de tudo, I, 45; ele é o Deus dos príncipes e o juiz de todos, II, 42; ele apareceu a Abraão e a Moisés, I, 33, 34. A teoria das falsas perícopes não tem lugar nesta redação. Os textos que nos parecem contrários são, na realidade, concordantes, mas nós não os compreendemos, I, 34; "é estudando a lei sem mestres e erigindo-se em doutores que se é conduzido a proferir absurdos contra Deus", II, 55; X, 42.
A doutrina das sizígias (Rufino traduz por paria) é conservada, III, 59, 61, mas o autor dela tira poucas consequências e não a recorda a todo propósito como o autor das Homilias. É pela natureza dos seus prodígios que se reconhece o verdadeiro enviado de Deus. Somente ele opera prodígios úteis à salvação dos homens ou que lhes conferem bem, III, 60. O autor atribui o maior valor ao método. Simão pergunta: "Uma vez que Deus fez tudo, de onde vem o mal?" e Pedro responde-lhe: "Esta maneira de interrogar não é a de um adversário, mas a de um aluno. Se, portanto, queres aprender, confessa-o, e eu te ensinarei primeiro como deves aprender, depois, quando tiveres aprendido a escutar, começarei a instruir-te." Quando Simão aceitou ser instruído, Pedro acrescenta: "Se queres instruir-te, aprende primeiro que interrogaste de maneira bem inábil, pois dizes: Uma vez que Deus fez tudo, de onde vem o mal? mas antes desta pergunta havia (a fazer) três tipos de interrogações: 1° o mal existe? 2° o que é o mal? 3° para quem e de onde?" III, 15-16.
Toda a discussão com Simão é regida pelo mesmo rigor escolástico. O problema da origem do mal, que já é objeto do Livro das Leis dos Países de Bardesanes, ver t. II, col. 395, preocupa muito o nosso autor, pois ele retorna a ele ainda mais tarde, IV, 8-24. Não há lugar para acusar a providência, que havia criado o homem com um espírito puro e um corpo ao abrigo das doenças e da velhice.
A ociosidade conduziu o homem a pensamentos ímpios, a negar a providência e a necessidade da virtude, uma vez que ele se encontrava bem-aventurado sem ter feito nada para isso. Deus teve, portanto, que introduzir no mundo os labores, as aflições e a necessidade do trabalho, a fim de levar os homens que haviam abandonado Deus na prosperidade a buscá-lo na adversidade. Veio o dilúvio para purificar a terra, mas muitos homens inventaram falsas religiões para nelas encontrar um pretexto para festins e devassidões, e Deus teve que enviar seus apóstolos ao mundo para fazer conhecer o verdadeiro culto de Deus revelado aos patriarcas e conservado por eles. Aqueles que não os escutarem serão submetidos, desde esta vida, a diversos demônios e a diversas enfermidades; depois, após a sua morte, sua alma será supliciada eternamente (in perpetuum), pois Deus não é apenas bom, mas também justo, e não o seria mais se não retribuísse a cada um conforme as suas obras, IV, 8-14.
Nada é mau em substância; não se pode, portanto, acusar o criador das substâncias, mas apenas o nosso livre-arbítrio, IV, 23-24. Os I, V e VI são consagrados à refutação de objeções contra a providência e contra o governo divino. O autor retorna ainda ao mesmo assunto no L. VIII: «Pergunta-se se o mundo foi feito ou não; se não foi feito, ele será esse (ser) inato de onde tudo deriva. Se foi feito, dividir-se-á ainda esta questão em duas: Foi feito por si mesmo ou por um outro? Se foi feito por si mesmo, a providência é excluída sem dúvida alguma. Se a providência não é admitida, é em vão que a alma é exercitada na virtude; é em vão que a justiça é observada, uma vez que não haveria ninguém que recompensasse o justo segundo os seus méritos; a própria alma não parecerá imortal se a dispensação de nenhuma providência a receber após a morte do corpo», vu, 10-
Os capítulos seguintes XI-XIII, onde o autor estabelece a existência da providência a partir das harmonias da natureza e do corpo humano, podem ser aproximados, sem desvantagem, dos *Etudes de la nature* de Bernardin de Saint-Pierre. A refutação da astrologia, que ocupa o l. IX e uma parte do l. X, é também muito bem conduzida e era de interesse capital para os cristãos dos primeiros séculos que viviam no Oriente entre os adoradores dos astros.
II. TEORIAS LITERÁRIAS RELATIVAS ÀS CLEMENTINAS. — Resumimos rapidamente os trabalhos mais antigos, cf. *Realencyclopädie*, 3ª ed., t. IV, p. 176-179, para desenvolver apenas os últimos trabalhos de Waitz e de A. Harnack. Baur e sua escola, 1835 e ss., buscaram nas Clementinas o cristianismo primitivo ainda muito aparentado ao judaísmo, e opostos ambos ao paganismo; a obra teria sido escrita na comunidade romana e seria uma prova de que o judaísmo nela dominava.
Schliemann (1844) escreveu contra Baur uma obra erudita e bem ordenada na qual se esforçou para demonstrar que as *Récognitions* dependiam das *Homélies*. Schwegler (1846) adotou também essa tese, conservando ao mesmo tempo as ideias *a priori* de Baur. Até aqui, não se tinha buscado reencontrar sob as Clementinas uma ou várias obras desaparecidas.
Hilgenfeld, o primeiro (1848), após ter suposto que as *Homélies* dependiam das *Récognitions*, deu-lhes por fonte um KΚΚήρυγμα Πέτρου, escrito antigo de origem romana e de caráter judaico, escrito pouco após a destruição de Jerusalém, compilado nos três primeiros livros das *Récognitions*, e que se pode reconstruir a partir de sua análise dada, *Recog.*, II, 75. Hilgenfeld edifica então toda uma série de revisões e de reformulações a partir dos tempos apostólicos para chegar às *Homélies* em Roma, sob o pontificado de Aniceto (151-161). Simão é uma personagem fictícia; é, na realidade, São Paulo que é visado sob seus traços. Notemos de imediato que, segundo o Sr. A. Harnack, «considerar Simão como uma personagem fictícia foi um grande erro da crítica.» *Dogmengeschichte*, 3ª ed., t. I, p. 233, nota 1.
O Sr. G. Uhlhorn (1854) defendeu a prioridade das *Homélies*, mas reconheceu que, em certos pontos, as *Récognitions* pareciam, contudo, ser anteriores. Foi, pois, conduzido também a um escrito fundamental reformulado nas *Homélies*; o autor das *Récognitions* tinha simultaneamente as *Homélies* e o escrito fundamental diante dos olhos; todos esses escritos proviriam da Síria de 150 a 170, à exceção das *Récognitions*, escritas em Roma pouco após 170 para aproximar a obra do cristianismo.
Lehmann (1869) colocou-se em um ponto de vista intermediário entre Hilgenfeld e Uhlhorn. Ele dividiu as *Récognitions* atuais em duas partes, I-III e IV-X. Para a segunda parte, ele reconhece, com Uhlhorn, que as *Homélies* têm a prioridade, mas a primeira parte é a mais antiga e conservou, melhor que as *Homélies*, o escrito fundamental. Ele coloca acima de tudo o KΚΚήρυγμα Πέτρου, do qual se tem o sumário, *Recog.*, II, 75. Essa obra reformulada deu os l. I, XIV-III das *Récognitions*. Não se fazia menção de Clemente nela. Por volta de 170, o redator das *Homélies* acrescentou ao escrito precedente, *Recog.*, l. I, 1-XI, e *Recog.*, l. IV-X, e formou a presente edição das *Récognitions*.
Lipsius (1872) vai ainda mais longe nessa via. Ele supõe que o escrito mais antigo teria sido os *Acta Petri*, compostos muito antes de 150 com uma tendência antipaulinista; eles narravam as lutas do verdadeiro apóstolo das nações, Pedro, com Simão, isto é, o apóstolo São Paulo. Eles terminaram em Roma com a queda mortal de Simão e a morte de Pedro na cruz. Os restos desses Atos foram conservados em redação ortodoxa nos *Acta Petri et Pauli*, editados por Tischendorf. *Acta apostolorum apocrypha*, Leipzig, 1851, p. 1-39. Um fragmento dessa antiga obra foi reformulado em um sentido antignóstico e intitulado KΚΚήρυγμα Πέτρου de 140 a 145; a este KΚήρυγμα refere-se a carta de Pedro e a διαμαρτυρία. Esta última obra, reformulada e interpolada — em particular, nela se introduziu Clemente de Roma — conduziu aos Περίοδοι Πέτρου ἀναγνωρισμοὶ Κλήμεντος, dos quais nos restam duas redações: uma, a das *Homélies*, com tendência antimarcionita; a outra, a das *Récognitions*, com tendência mais moral que dogmática.
Frommberger (1886) rejeitou para o segundo plano todas as preocupações religiosas e viu sobretudo nas Clementinas o romance de Clemente; para ele, as passagens ebionitas e judaico-cristãs são apenas traços acessórios e acidentais; aliás, as passagens étnicas são numerosas.
Langen (1890) viu nas Clementinas um escrito destinado a estabelecer a apostolicidade e a primazia de diversas Igrejas. O escrito fundamental seria um KΚΚήρυγμα Πέτρου, composto em Roma por volta de 135, para substituir Jerusalém por esta última cidade; pouco antes do fim do século II, foi reformulado em Cesareia em um sentido judaico-cristão com a intenção de ganhar a primazia para Cesareia, donde as Homélies; no começo do século III, uma nova reformulação foi feita em favor de Antioquia, estas são as Récognitions. Toda essa construção é artificial, pois, diz Uhlhorn, a questão do primado, no século II e no século III, não teve a significação que Langen lhe dá.
Bigg (1890) supõe que o escrito fundamental não era herético, mas católico, p. 185; foi escrito por volta do ano 200, p. 188, depois foi alterado e reformulado por um ebionita, p. 188, ou por um cristão ariano de nacionalidade síria que teria crido encontrar na doutrina ebionita uma teoria histórica e quase filosófica de um salvador ariano, p. 192. As Homélies não puderam ser escritas por um grego, nem por um grego romano, mas por um grego oriental, p. 160-161; pode-se aproximar esta obra de Apameia e do livro de Elxai trazido a Roma, por volta de 220, por Alcibíades de Apameia, p. 182; ela tem, contudo, pontos de contato com Alexandria, p. 190-191.
Para Waitz (1904), há um escrito fundamental que não é diferente das Clementinas, mas é simplesmente uma redação mais antiga delas, p. 48; as citações dos Padres nos mostram sua existência, p. 39-48; tratava-se de uma apologia do cristianismo e de uma polêmica contra os hereges e os pagãos, escrita sob a forma de romance e destinada a converter os pagãos e os judeus das esferas elevadas e cultas, bem como a fortalecer os neófitos, p. 60; foi composto em Roma, p. 60, de 220 a 232, p. 75. Este escrito fundamental, que é a fonte das Homilias e das Reconhecimentos, baseava-se ele mesmo em dois escritos mais antigos que são os Kerygmata Pétrou e os Práxeis Pétrou.
Os dez livros dos Kerygmata Pétrou que se pode reconstituir graças à análise que deles é dada, Recog., III, 75, são eles mesmos um retrabalho de uma obra mais antiga judaico-cristã gnóstica escrita por volta do ano 135, em Cesareia, p. 151, 160. A carta de Pedro a Tiago refere-se a esta última obra que era, portanto, um livro secreto, p. 125.
Aos Práxeis Pétrou pertencem a história de Simão, o Mago, e as lutas de cidade em cidade de São Pedro e de Simão. Estes Atos, conservados nas Clementinas, têm, aliás, numerosos pontos de contato com os outros Atos de Pedro e de Simão, ou de Pedro e Paulo, etc., editados por outro lado, p. 189-194; pode-se admitir que eles são uma parte dos Atos de Pedro e de Simão, os quais são uma fonte dos Atos de Pedro e Paulo conservados em diversas versões, p. 243. O autor dos Práxeis Pétrou seria um clérigo de Antioquia, que escrevia de 150 a 220, p. 245, provavelmente de 211-217, p. 248, segundo antigas tradições.
Ao lado destas duas fontes principais, pode-se ainda colocar duas fontes secundárias, pelo menos: o Dialogos Pétrou kai Appionos mencionado por Eusébio, H. E., III, 38, P. G., t. xx, col. 296, que serviu de base ao diálogo de Clemente e de Ápion, e o diálogo de Bardesanes com seus discípulos περὶ εἱμαρμένης citado já por Eusébio. Nós demos várias razões tendentes a provar que os Reconhecimentos não beberam diretamente no diálogo de Bardesanes, mas apenas na citação que dele faz Eusébio. Nau, Une biographie inédite de Bardesane l’astrologue, Paris, 1897, p. 4-5. O Sr. Waitz supõe que os Reconhecimentos e Eusébio beberam de uma fonte comum, p. 257, que é a tradução grega do original siríaco, p. 248, o que não é impossível tampouco. O Sr. Harnack acredita, contudo, que é mais fácil tirar o texto dos Reconhecimentos do texto de Eusébio. Die Chronologie, Leipzig, 1904, t. II, p. 535.
Tais são as quatro principais fontes do escrito fundamental das Clementinas. Mais tarde, as Homilias retrabalharam o escrito fundamental, rejeitaram ao final, Hom., XVI-XX, 10, diversos traços do início, apegaram-se sobretudo às passagens filosóficas em detrimento das passagens históricas e anedóticas, após o concílio de Niceia, mas antes do fim do século IV na Síria, p. 368-370. Um outro retrabalho do escrito fundamental produziu os Reconhecimentos. O redator oriental, preocupado sobretudo com questões morais, é pós-niceno e parece ser ariano, p. 370. Ele não pode ter escrito antes de 350, nem depois de 411, ao menos para Recog., I-IV, 1, p. 372. Um grande número de passagens ortodoxas figuravam já no original grego que foi traduzido fielmente por Rufino, pois várias passagens que o Sr. Waitz acredita terem sido modificadas por Rufino, p. 387; cf. p. 370, n. 3, encontram-se tal qual na tradução siríaca. Pode-se admitir também a existência de uma redação ortodoxa citada por Máximo, o Confessor, no século VII, depois por João Damasceno, o jovem, Nicon, Cedreno, Miguel Glicas, Nicéforo Calisto, p. 372-373. Restam, pelo menos, dois Epitome ortodoxos; um que traz em apêndice o martírio de Clemente (segundo Simeão, o Metafrasta) não seria anterior ao século X e poderia até ser atribuído a Simeão, o Metafrasta, como disse Cotelier, é o texto dos Menáios; o outro Epitome é ainda mais recente.
Enfim, o Sr. A. Harnack, Die Chronologie der altchr. Lit. bis Eusebius, Leipzig, 1904, t. II, p. 518-540, admite a maioria das conclusões do Sr. Waitz. Ele distingue também três camadas superpostas:
1º um escrito judaico-cristão de um caráter sincrético (Kerygmata) e um escrito antignóstico sobre Pedro e Simão, o Mago (Práxeis Pétrou);
2º uma compilação das duas fontes precedentes sob a forma de um romance de Clemente para aproximá-las da comunidade cristã e do mundo helênico (escrito fundamental);
3º duas redações feitas ambas sobre o trabalho precedente por redatores católicos para edificar e divertir (Homilias e Reconhecimentos). As Homilias ressentem-se mais do escrito judaico-cristão primitivo. O escrito fundamental (o 2º) teria sido compilado em Roma por volta de 260, p. 532; por conseguinte, as Homilias e os Reconhecimentos seriam, no mais cedo, do fim do século III; pode-se colocá-las de 290 a 360.
Quanto ao Kerygma Pétrou que Waitz coloca por volta do ano 135, não se o capta senão no início do século III, é preciso, portanto, permanecer em torno do ano 200, p. 537-538. Não é certo que seu local de origem seja Cesareia. Os Práxeis Pétrou eram um escrito católico, antignóstico, do início do século III.
IV. CONCLUSÃO. — As Clementinas prestam-se, como se acaba de ver, às teorias literárias mais diversas. Parece certo que as Homilias e os Reconhecimentos não provêm um do outro, mas derivam ambos de um escrito da mesma família ou escrito fundamental que se pode reconstituir. É mais difícil definir e reconstituir as fontes do escrito fundamental, pois aqui as hipóteses se superpõem às hipóteses precedentes e aumentam, portanto, as chances de erro; não se pode senão escolhê-las de maneira a satisfazer o maior número possível de dificuldades. Nesta ordem de ideias, a decomposição adotada por Waitz em Kerygmata e em Πράξεις Πέτρου é digna de crédito. Não se esquecerá, contudo, que o Sr. Paul de Lagarde se enganou, quando quis restabelecer o escrito fundamental da Didascalia e dos seis primeiros livros das Constituições apostólicas, ele suprimiu como interpolações muitas passagens originais, cf. Altchrist. Litteratur. Die Ueberlief., p. 515, pois é a Didascalia inteira que parece constituir o escrito fundamental. É, portanto, sempre possível que se engane em algum ponto, quando se quer reconstituir o escrito fundamental das Homilias e dos Reconhecimentos e sobretudo as fontes deste escrito.
— É certo também que a obra apresenta elementos sírios bem como elementos romanos. Waitz levanta esta dificuldade colocando na Síria a redação das fontes e em Roma a redação do escrito fundamental.
— É certo que as Homilias contêm numerosos trechos judaico-cristãos ou ebionitas e que certo trecho das Reconhecimentos parece ser ariano; mas é difícil decidir em que medida estes trechos devem ser atribuídos às fontes ou aos autores das Homilias e das Reconhecimentos, pois estes últimos puderam reproduzir alguns trechos heréticos que não aprovavam, ou puderam modificar em um sentido herético ou ortodoxo, segundo as suas próprias ideias, diversos trechos do escrito fundamental. O escrito foi bastante rejuvenescido. Em meados do século precedente, situavam-se as fontes e as reedições do fim do século I até meados do século II, Harnack, Die Chronologie, t. 1, p. 519; em todo caso, não se descia abaixo de 180; atualmente, tende-se a situar as fontes apenas no século I, o escrito fundamental teria sido redigido por volta de meados do século III, e os últimos escritos, as Homilias e as Reconhecimentos, sê-lo-iam apenas no fim do século III ou mesmo no início do IV. Estas diversas datas são mais ou menos verossímeis, mas todas são hipotéticas e dependem de postulados ou de conclusões precedentes, também elas hipotéticas.
Por exemplo, se admitirmos que as Reconhecimentos citam Bardesanes segundo a Preparação evangélica de Eusébio, segue-se que a sua última redação não pode ser situada senão após a Preparação evangélica, isto é, bastante longe no século IV, mas se supusermos que utilizaram diretamente a fonte citada por Eusébio, o terminus a quo encontra-se remetido para antes da morte de Bardesanes (+ 222). Consideramos a primeira hipótese mais provável, mas a segunda também tem chances de ser exata; pode-se, portanto, distanciar ou aproximar a composição das Reconhecimentos ao se apoiar em uma ou em outra.
Do mesmo modo, a Filocalia de Orígenes e o seu comentário sobre São Mateus contêm um fragmento muito longo das Reconhecimentos e uma citação de Clemente que não se reencontra textualmente nas Homilias e nas Reconhecimentos. Cf. Harnack, Altch. Litt. Die Ueberlief., p. 219-221; Waitz, p. 40-44. Enquanto estas citações foram atribuídas a Orígenes, obteve-se para terminus ad quem das Clementinas em geral e das Reconhecimentos em particular o ano 232. Waitz, p. 70. As Reconhecimentos teriam sido, pois, compostas entre a redação (ou a tradução grega) do Diálogo das leis do país por Bardesanes (por volta de 200) e o ano 232. Mas se admitirmos, com o Sr. Robinson, que a citação das Reconhecimentos não foi feita por Orígenes, mas foi introduzida por Basílio e Gregório de Nazianzo, compiladores da Filocalia, se admitirmos também com o Dom Chapman que a citação de Clemente no comentário sobre São Mateus não é de Orígenes, mas foi tomada do Opus imperfectum in Matthaeum, obra de data incerta, e introduzida posteriormente no comentário de Orígenes sobre São Mateus, o terminus ad quem desce até Eusébio. Cf. Waitz, p. 70-71; Harnack, Altchr. Litt. Die Chronologie, t. 11, p. 532. Estes dois exemplos mostram bem o quanto são hipotéticas as datas propostas.
Em suma, pode-se, segundo o ponto de partida escolhido, situar a redação atual das Reconhecimentos ou bem no início do século II, ou bem no início do IV; a crítica interna mostra também que as Homilias parecem apresentar mais trechos arcaicos do que as Reconhecimentos e não devem ser situadas em uma data posterior.
— A crítica moderna, que rejuvenesce as Clementinas, diminui tanto quanto pode a sua importância; "depois de terem sido demasiado louvadas", diz o Sr. Uhlhorn, "elas são agora demasiado desprezadas." Realencyclopädie, 3ª ed., t. IV, p. 179. É talvez uma simples reação que dará lugar novamente a mais considerações. "Um século que se preocupa com tanto ardor quanto o nosso com a literatura apócrifa não poderá deixar de retirá-las do canto onde se pretende relegá-las para produzi-las novamente", escreve o Sr. G. Krüger, Kritische Bermerkungen zu A. Harnacks Chronologie, em Gott. Gel. Anzeigen, janeiro de 1905. Em realidade, estes antigos escritos tão numerosos e tão aparentados apresentam aos pesquisadores uma mina há muito inesgotável para pesquisar as suas relações mútuas, a sua proveniência e as suas fontes, as crenças dos seus autores imediatos ou mediatos e as do meio onde nasceram, a organização da Igreja naquela época e o modo de polêmica meio-escriturístico e meio-racional adotado pelo autor; um grande número de fragmentos pode ser estudado à parte e comparado aos restos da mais antiga literatura cristã; a São Justino, a Bardesanes, a Eusébio, etc. O Sr. Harnack reclama, antes de tudo, uma edição crítica anotada das Reconhecimentos, pois os manuscritos oferecem aqui grandes divergências. Esta edição é preparada pelo Sr. Richardson, Altchr. Litt. Die Ueberlief., p. 229-230.
Não duvidamos que monografias cuidadosas, no gênero dos estudos ou recensões de Waitz, p. 259-361, de Van Nes e de Preuschen sobre as citações bíblicas, não devolvam às Clementinas parte da importância que elas perderam.
I. TEXTOS. — O texto das Homilias foi citado pela primeira vez por Turrianus (Torrès), Adversus Magdeburgenses centuriatores pro canonibus apostolorum libri quinque, Florença, 1572. A maior parte das suas citações foi reproduzida por Preuschen, na Altchristliche Litteratur de Harnack, Die Ueberlief., p. 215-249. Encontramos seis citações feitas por Torrès, l. II, c. 1, XVI; l. V, c. IX, que não foram levantadas pelo Sr. Preuschen. As Homilias foram publicadas pela primeira vez com tradução latina por Cotelier, SS. Patrum qui temporibus apostolicis floruerunt, Barnabæ, Clementis, Hermæ, Ignatii opera edita et inedita, Paris, 1672, p. 525-746, segundo o ms. grego de Paris, n. 930, mutilado ao final. Cotelier nos informa em seu prefácio que procurou inutilmente o ms. utilizado por Torrès. Um grande número de exemplares da edição de Cotelier foram destruídos por um incêndio, por isso Clericus (Le Clerc) não tardou a reproduzi-la, Antuérpia, 1698; Amsterdã, 1724; depois Gallandi, Bibliotheca Patrum, Veneza, 1766, t. II, p. 608-770; A. Schwegler, Clementis Romani quæ feruntur homiliæ, Stuttgart, 1847. Estas novas edições não adicionaram senão erros à de Cotelier. Cf. P. G., t. I, col. 21. Por volta de 1837, A. R. M. Dressel descobriu em Roma um novo ms. das Homilias, Ottob. 443, menos bom que o manuscrito de Paris, mas que permitia felizmente completá-lo, cf. P. G., t. I, col. 485, nota 64; ele publicou, então, uma nova edição completa com tradução latina, Clementis Romani quæ feruntur homiliæ viginti, nunc primum integre, Göttingen, 1853. Esta edição foi reproduzida, P. G., t. II, col. 19-468. Paul de Lagarde deu uma nova edição em 1865, Clementina, Leipzig, sem tradução; ele passou cinquenta e seis horas, diz ele, a colacionar todo o ms. de Paris e colacionou as duas últimas homilias sobre o ms. de Roma.
O texto das Récognitions foi editado pela primeira vez por Le Fèvre d’Etaples, Paris, 1504, e depois por Jean Sichard, Basileia, 1526, que não conheceu a edição do seu antecessor. Esta foi muito frequentemente reproduzida, cf. P. G., t. I, col. 1208; citemos em particular a pequena edição de Colónia, 1547: D. Clementis opera omnia, quæ quidem in hunc usque diem extare comperta sunt, unacum apostolorum canonibus per eumdem Clementem in unum congestis, nunc primum in hanc enchiridii formam redacta, que compreende as Récognitions, a tradução latina dos 84 cânones dos apóstolos e de cinco cartas atribuídas a São Clemente. Finalmente, Cotelier, loc. cit., p. 390-524, publicou uma nova edição com o auxílio de bons manuscritos, que lhe permitiram, em particular, colmatar a lacuna deixada por Rufino no início do l. III, 2-11. Cf. P. G., t. I, col. 1281, nota 81. Esta edição foi reproduzida, como a das Homilias, por Le Clerc e Gallandi, op. cit. Em 1838, E. G. Gersdorf publicou em Leipzig uma nova edição com indicação de manuscritos incompletos conservados em Leipzig. Esta edição foi reproduzida em P. G., t. I, col. 1204-1455. por Turnèbe, Paris, 1555; sob o título: Clementis Romani episcopi de rebus gestis, peregrinationibus, atque concionibus sancti Petri epitome ad Jacobum Hierosolymorum episcopum, ejusdem Clementis vita. Turnèbe não divide nem em capítulos nem mesmo em parágrafos, mas após o c. CXLVI, P. G., t. II, col. 580, ele acrescenta o título Κλήμεντος βίος antes dos c. CXLVIII-CLXXIX; segue-se uma tradução latina por Joachim Perionius; as duas obras são dedicadas a Nicolas Mallar, teólogo da Igreja de Paris. Cotelier publicou uma nova edição a partir dos manuscritos de Paris, e acrescentou o Martírio de São Clemente e o relato de Efrém sobre um milagre operado por São Clemente, loc. cit., p. 747-844. A edição dos Padres apostólicos de Cotelier foi várias vezes reproduzida, em particular em P. G., t. II, col. 469-645. A. R. M. Dressel publicou finalmente uma nova edição do Epitome I, a partir de manuscritos de Roma, e acrescentou-lhe pela primeira vez o Epitome II, utilizado por Cotelier, em particular a partir do ms. de Paris 804 (hoje 1163), mas ainda não publicado: Clementinorum epitome duæ altera edita correctior inedita altera, Leipzig, 1859; no final desta obra, p. 247-331, encontram-se numerosas notas críticas de Fr. Wieseler sobre o texto grego das Homilias. Tischendorf tinha publicado alguns extratos de dois manuscritos do Epitome I, em Anecdota sacra et profana, Leipzig, 1855, utilizados desde então por Dressel e reproduzidos, P. G., t. II, col. 1279-1292. Um fragmento do Epitome I foi editado por A. d’Alés, a partir do ms. grego, Suppl. 1000, da Biblioteca Nacional de Paris, na Revue des études grecques, 1905, t. XVIII, p. 211-223.
A versão siríaca das Récognitions foi publicada por Paul de Lagarde, Clementis Romani Recognitiones syriace, Leipzig, 1861, com uma concordância dos textos, p. VI-VII. — Os Epitome árabes com o martírio de Clemente e a pregação de Pedro foram publicados pela Sra. M. D. Gibson, Studia sinaitica, n. 5, Londres, 1896. Os testemunhos antigos relativos às Récognitions e às Homilias são reproduzidos, P. G., t. 1, col. 1457-1472; t. 11, col. 9-12, e em Harnack, Altchristliche Litteratur. Die Ueberlieferung, p. 249-229; em particular as citações feitas pelo pseudo-João Damasceno, nos Sacra parallela, foram recolhidas e comentadas por K. Holl, em Texte und Untersuchungen, nova série, Leipzig, 1899, t. v, fasc. 2. J. E. Grabe reuniu também numerosas citações dos escritos atribuídos a São Pedro e a São Clemente, no seu Spicilegium SS. Patrum, Oxford, 1714, t. 1, p. 55-81, p. 254-302; cf. 305-311. Assinalemos finalmente o erudito estudo de M. Ernst von Dobschütz, Das Kerygma Petri kritisch untersucht, Texte und Untersuchungen, Leipzig, 1893, t. x1, fasc. 1. Nenhum dos dez fragmentos conservados do Kerygma Petri encontra-se textualmente nas Clementinas, apenas um (o 3º (cf. p. 32-33), corresponde de forma bastante distante às Récognitions, v, 20, ou às Homilias, t. x, 16; por conseguinte, é ainda completamente hipotético considerar o Kerygma Petri como a fonte das Clementinas. Não se pode apoiar em nenhum facto. M.
Robinson via no Kerygma a fonte da Apologia de Aristides, do Aléthès logos de Celso, da carta a Diogneto e dos versos sibilinos. Cf. Dobschütz, p. 80. H. U. Meyboom publicou uma tradução neerlandesa das Homilias e das Récognitions em colunas paralelas, pondo em evidência o que é próprio ou comum às Homilias, às Récognitions e aos Epitome gregos. Num segundo volume, ele fornece um estudo muito detalhado da literatura clementina e acrescenta uma série de notas para servir de comentário aos textos que traduziu, 2 in-8º, Groninga, 1904.
II. TRABALHOS. — Encontrar-se-á a antiga literatura em Fabricius, Bibl. greca, ed. Harles, t. vi, p. 24-32, e a recente em Waitz, p. 376-378. Vimos D. von Cölln, art. Clementina, na Encyclopädie de Ersch e Gruber, Leipzig, 1828; J. Lehmann, Die Klementinischen Schriften, Gotha, 1869; R. A. Lipsius, Die Quellen der römischen Petrussage, Kiel, 1872; Funk, art. Clementinen, no Kirchenlexikon, Friburgo em Brisgóvia, 1884; G. Frommberger, De Simone Mago, Breslau, 1886; Harnack, Dogmengeschichte, 2ª ed., Leipzig, 1894, p. 292-300; M. H. van Nes, Het Nieuwe Testament in de Clementinen, Amesterdão, 1887; o autor propõe no fim, p. 127-137, um certo número de correções à edição de Paul de Lagarde; C. Bigg, The Clementines Homilies, em Studia biblica et ecclesiastica, Oxford, 1890, p. 147-193; A. Harnack, Die altchristliche Litteratur bis Eusebius. Die Ueberlieferung, Leipzig, 1893, t. 11, p. 212-231, 322-327; Die Chronologie, Leipzig, 1904, t. 11, p. 518-540; Index of the noteworthy words and phrases found in the Clementine writings commonly called the Homilies of Clement, Londres, 1893 (o autor é W. Chawner); G. Uhlhorn, art. Clementinen, na Realencyclopädie für prot. Theol., Leipzig, 1898, t. iv; E. Preuschen, Antilegomena, Giessen, 1901; J. Bergmann, Les éléments juifs dans les pseudo-Clémentines, na Revue des études juives, Paris, 1903, t. XLVI, p. 89-98; G. Krüger, Geschichte der altchristlichen Literatur, Friburgo em Brisgóvia, 1895, 1897, p. 232-236; Bardenhewer, Gesch. der altkirchlichen Literatur, Friburgo em Brisgóvia, 1902, t. I, p. 350-360; H. Waitz, Die pseudoklementinen Homilien und Rekognitionen, Leipzig, 1904, em Texte und Unters., t. xxv, fasc. 4.
Citámos a partir de Uhlhorn: F. Chr. Baur, Die christliche Gnosis, Tubinga, 1835; A. Schliemann, Die Klementinen, Hamburgo, 1844; A. Schwegler, Das nachapostolische Zeitalter, Tubinga, 1846, t. 1; A. Hilgenfeld, Die Klementinischen Rekognitionen und Homilien, Iena, 1848; G. Uhlhorn, Die Homilien und Rekognitionen, Gotinga, 1854; J. Langen, Die Klemensromane, Gotha, 1890. Ver também A. Hilgenfeld, Die Einleitungschriften der Pseudo-Clementinen, em Zeitschrift für wissenschaftliche Theologie, Leipzig, 1904, t. XLVI, p. 24-72.; Id., Pseudo-Clemens in moderner Façon, ibid., p. 545-567; Meyboom, Het nieuwste over de Clementynen, em Theol. Tydschrift, 1904, p. 545-567; Tixeront, Histoire des dogmes, Paris, 1905, t. 1, p. 480-483.
II. O APOCALIPSE DE PEDRO ou Clemente. — Esta obra, conservada em árabe e em etíope, é aparentada bastante estreitamente com as Reconhecimentos, e tem a vantagem de nos mostrar, em sua primeira parte, como uma antiga fonte siríaca, «A caverna dos tesouros», pôde ser transformada em apócrifo clementino: A obra já foi assinalada, segundo uma redação árabe dividida em oito livros por Assémani, Bibliotheca orientalis, t. 1, p. 508; t. II, p. 282; cf. Harnack, Die altch. Litt. Die Ueberlief., p. 780; depois, segundo uma redação árabe dividida em 91 capítulos, por Gersdorf, P. G., t. 1, col. 1203. Harnack, loc. cit.
A primeira parte da obra árabe foi publicada por Bezold, Die Schatzhöhle, Leipzig, 1888 (à exceção das primeiras páginas), em frente ao texto siríaco correspondente. Esta mesma primeira parte, à exceção das últimas páginas, foi publicada e traduzida para o inglês sob o título de Kitab al Magall, or the book of the Rolls, Londres, 1901, pela Sra. M. D. Gibson. A versão etíope foi analisada por A. Dillmann, cf. Bericht über das Aethiopische Buch Clementinischer Schriften, em Nachrichten von der Georg-Augusts-Universität und der Königl. Gesell. der Wiss. zu Göttingen, 1858, p. 185-226. A primeira parte da obra é uma tradução, em parte literal, da Spelunca (die Schatzhöhle) siríaca, escreve o Sr. Bezold. Segue-se que, para esta primeira parte, a única publicada, as duas obras: 1° árabe em oito livros e etíope; 2° árabe em 91 capítulos, distinguidos pelo Sr. Harnack, loc. cit., sob os n. 33, 34, parecem formar apenas uma única obra. Talvez não seja o mesmo quanto à continuação, pois o Sr. Bezold, p. 1°, indica de maneira mais particular, como fonte do «Clemente» etíope, o ms. árabe n. XXXIX do Vaticano, do Segundo o Sr. Dillmann, a obra etíope, que compreende sete livros, divide-se em duas partes.
Na Iª (l. I, II), Pedro narra a Clemente a criação e o nascimento da santa Virgem com a história do mundo até Jorão, enquanto a Spelunca e a obra árabe dividida em 91 capítulos vão até o nascimento da santa Virgem. Pedro narra em seguida a Clemente o que Cristo lhe ensinou sobre os segredos do céu e o futuro, sobre a criação do céu e da terra, a Trindade, as ordens dos anjos, a Jerusalém celeste, o paraíso, a criação dos anjos, seu aspecto, a queda de Satanás, o futuro do cristianismo sobre a terra; ele deixa para depois o relato do que acontecerá na ressurreição; ele enumera 70 heresias de Simão, o Mago, até Apolinário. Há uma relação entre as matérias desta primeira parte e as Reconhecimentos, I, 22, 27 segs. Lemos, com efeito: Cumaque hee diwisset exponere mihi singula de his, que in questione esse videbantur legis capitulis cepit, ab initio creature usque ad id temporis, quo ad eum Cesaream devolutus sum... Meministi, o amice Clemens, que mihi fuerit de eterno seculo ac finem nesciente, narratio? (I, 22)... Exposuisti per ordinem, a principio mundi usque ad presens tempus consequentiam rerum, et si placet, possum memoriter [ait Clemens] universa retexere (I, 25)... Propter quod eo magis repetamus que dicta sunt, et confirmemus ea in corde tuo; id est, quomodo vel a quo factus sit mundus ut tendamus ad amicitiam conditoris... Breviter ergo tibi hec eadem firmioris causa memorie retexemus, I, 26. Após o que são Pedro resume novamente, diz ele, a criação e a história santa até a sua chegada a Cesareia.
Parece, portanto, que a obra árabe ou etíope é, ou antes, apresenta-se como o primeiro relato de são Pedro a são Clemente, aquele mesmo que ele se limitou a resumir em seguida firmioris causa memorie nas Reconhecimentos. Na IIª parte, que trata das leis e da ordem da Igreja cristã, são Pedro dá a são Clemente as ordenanças que ele deve transmitir aos metropolitanos, aos bispos, etc., traça-lhe os deveres dos prelados e dos clérigos e dita-lhe uma multidão de regras particulares e de cânones penitenciais. Esta IIª parte aproximar-se-ia, portanto, mais da Didascalia. Contudo, as Reconhecimentos também têm o seu lugar, pois encontra-se perto do fim, diz o Sr. Dillmann, a fuga de Simão, o Mago, para Roma e a sua queda diante de são Pedro. A obra é, aliás, cheia de repetições, e deve ter sido escrita no Egito, de 750 a 760, pois, sob a sua forma atual, descreve o poder do islã.
2° A obra árabe intitulada «Apocalipse de são Pedro», segundo o Catalogue des mss. arabes de Paris, 1883-1895, p. 18-19, é mais conhecida que a obra etíope, pois a primeira parte foi editada pelo Sr. Bezold e pela Sra. Gibson; além disso, a maior parte dos títulos dos 91 capítulos são reproduzidos e traduzidos no Catalogue des mss. arabes, de la bibliothèque Bodléenne, pelo Sr. Nicoll, Oxford, 1821, t. II, p. 49. Notaremos que o título varia. O ms. 76 de Paris traz no alto de cada página o título «Clemente» como o etíope; o ms. 77 traz em cabeçalho: «Este é um dos livros de são Clemente, discípulo de Simão Pedro, chefe dos apóstolos... É um dos livros reservados que são Clemente ordenou esconder do vulgo. Ele é chamado Kitab-al-Madjall, isto é, folhas cheias de mistérios, e contém muitas ideias, umas profundas, outras claras, tocando nos mistérios que Nosso Senhor e Deus e Salvador, Jesus o Messias, tinha dado a conhecer a im’oun-al-Safa Petros e ao seu discípulo Yaq’ob (são Tiago). Estes trataram das coisas que ocorreram desde a criação e do que acontecerá até o fim dos tempos; falaram da segunda vinda de nosso Deus e Senhor Jesus Cristo, e do que farão os homens virtuosos e os maus. É o livro que, desde o tempo dos santos apóstolos, permaneceu escondido em Nicósia, cidade da ilha de Chipre.» Segundo a nota que figura em cabeçalho do ms. 76, o ms. era conservado em Chipre «na morada de um bispo».
Como se vê, o título e o prefácio ligam estreitamente esta obra à carta de são Pedro a são Tiago, P. G., t. II, col. 25-32, e aos ensinamentos atribuídos a são Pedro pelo Iº livro das Reconhecimentos nas passagens que acabamos de citar. Este fato é tanto mais notável quanto o «Clemente» seria de origem árabe e a carta de são Pedro a são Tiago e as Reconhecimentos não foram traduzidas para o árabe, a nosso conhecimento, pois não se pode considerar como uma tradução os curtos resumos publicados pela Sra. D. Gibson. Em 956-957, Masoudi menciona este «livro de Clemente» e acrescenta que muitos cristãos não admitem a sua autenticidade. Cf. Notices et extraits des mss., Paris, 1810, t. VII, p. 140, 177.
Na 1ª parte, o autor árabe retoma a Spelunca siríaca atribuída a São Efraim e a faz preceder de uma curta introdução, Gibson, p. 1-3, na qual São Clemente nos ensina que se apegou a São Pedro, assim como seus dois irmãos Fausto e Faustino; vinte anos mais tarde, São Pedro revelou a ele, assim como a seu pai e a sua mãe Metrodora, os mistérios que lhe havia confiado N. S. Jesus Cristo no monte das Oliveiras. Duas questões, sobretudo, preocupam São Clemente; ele gostaria de conhecer os eventos desde o início do mundo, a fim de que os judeus não pudessem censurá-lo por não conhecer a lei deles; ele gostaria também de aprender a genealogia da Santíssima Virgem; o autor insere então a Spelunca, que responde bem a essas duas questões, pois ela resume a Bíblia desde a criação até o nascimento da Santíssima Virgem, de quem ela acrescenta, depois, a genealogia, p. 56-58. De lugar em lugar, para melhor demarcar a obra, o autor introduz a locução: «Ô mon fils Clément,», cf. p. 40, 42, 45, 47, enquanto o siríaco traz simplesmente: «Ô frère selon la loi» (M. Bezold traduz erroneamente por: Ô frère Némésius). Temos, pois, ali um interessante exemplo da constituição de um apócrifo clementino com a ajuda de um antigo escrito.
A publicação de Sra. D. Gibson para no c. XXI, a de Bezold estende-se um pouco mais longe; os outros capítulos (XXII-XCI) tratam do nascimento de N.-S. Jesus Cristo e de sua vida (XXII-XXIV), depois dos mistérios ocultos: a Trindade, a criação, as ordens dos anjos (XXVI-XXVII). Vêm mais adiante passagens apocalípticas concernentes aos reis, aos povos e a diversas calamidades que os atingirão (XLVI-L), etc. O c. LXXXVIII é consagrado aos discípulos Festus e Festinianus. Por simples supressão de um ponto, esses nomes próprios podem ser lidos no árabe como Constant e Constantin. O nome de Mattidia tornou-se Métrodia e o ms. 76 de Paris, fol. 412, restabeleceu na margem: Metrodora, que é a lição da versão siríaca das Récognitions.
Estes poucos detalhes sobre obras das quais apenas a menor parte foi publicada bastam para mostrar que elas se ligam ao ciclo dos apócrifos clementinos e que reservam ainda muitos assuntos de estudos para determinar suas fontes e a época da composição da obra definitiva (século VI) e de suas fontes. Cremos — sem ter podido controlar esta ideia que repousa apenas nas análises, no fragmento publicado pela Sra. Gibson e nos mss. de Paris — que as três redações mencionadas mais acima: o etíope, o árabe dividido em oito livros e o árabe dividido em 91 capítulos formam uma única e mesma obra. Resta publicá-las, ver em que medida os detalhes podem diferir e procurar qual das três divisões tem mais chances de ser primitiva.
III. OUTROS APÓCRIFOS CLEMENTINOS.
1. AS CARTAS ÀS VIRGENS.
1° Generalidades. — A versão siríaca dessas cartas está conservada em um ms. único escrito perto de Mardin em 1470; ela foi publicada pela primeira vez por J. Wetstein em 1752, depois reeditada por Gallandi e Migne com numerosos erros, enfim por Beelen, Lovaina, 1856. Além disso, ela foi traduzida para o alemão por P. Zingerle; para o francês por Mgr Clément Villecourt, bispo de La Rochelle e de Saintes, e enfim para o latim por M. Funk, Patres apostolici, Tubinga, 1881, t. I, p. I-vi, 1-27. Essas cartas são visadas por Santo Epifânio, Hær., XXX, 45, P. G., t. XLI, col. 429, e São Jerônimo, Contra Jovin., I, 12, P. L., t. XXIII, col. 228; a primeira é citada por volta de 457 por Timóteo de Alexandria.
Esta citação traduzida para o siríaco está conservada em um ms. do século VI. Fragmentos gregos foram inseridos por Antíoco, monge de São Sabas, em suas Pandectes, por volta do ano 620. Cf. Cotterill, Modern Criticism and Clement’s epp. to virgins, Edimburgo, 1884, p. 115-126. Todos esses autores atribuem as cartas a São Clemente de Roma. Enfim, Maruta, bispo de Maiphercat, em seu esboço da história do monaquismo, menciona no começo do século V «a carta» de Clemente às virgens; ele reconheceu nela um fragmento da história antiga do monaquismo e acrescenta que ela era endereçada a Dionísio, o Areopagita.
2° Análise. — A primeira carta é mais teórica; ela ensina o que se deve fazer; a segunda é mais prática; ela narra o que faz o autor em diversas conjunturas e o que fizeram os patriarcas. Remetemos à divisão em capítulos introduzida por Wetstein e reproduzida nas outras edições.
1ª carta. — Não basta o nome de virgem, é preciso a fé e as obras (II); o nome sem as obras não pode introduzir no céu, pois é pelos frutos que se reconhece a árvore (II). É preciso renunciar ao mundo e arrancar-se de todos os prazeres do corpo sem se limitar a renunciar apenas ao: Crescite et multiplicamini (IV); louvor da virgindade (VI); deveres das virgens (VII), o autor deve retraçar esses deveres por causa dos homens que permanecem com as virgens sob pretexto de piedade, que viajam com elas nos desertos, que vão encontrá-las em sua morada sob pretexto de visitá-las, de ler as Sagradas Escrituras, de exorcizá-las ou de instruí-las (X); são ociosos semelhantes às viúvas que vão de casa em casa para conversar, ensinam o que não conhecem (XI). Contudo, o autor condena apenas os abusos e termina dizendo que é bom ir ensinar quando se é capaz (XI), como visitar as viúvas e os órfãos e, sobretudo, aqueles que têm muitos filhos e os enfermos (XII); é bom também não invejar o próximo, fazer com piedade as obras do Senhor e imitar aqueles que agiram bem (XII).
IIª carta. — O autor ensina aos seus correspondentes como se age no país onde ele se encontra: não se habita com as virgens, não se come com elas; se alguém se encontra num país onde há irmãos, entra na casa de um deles, convoca os outros e instrui-os (1); se for demasiado tarde para regressar a casa e se os irmãos insistirem, vela-se com eles, depois retira-se para junto de um homem santo (consagrado a Deus?) e não se admite ali nenhuma mulher, nem virgem, nem casada, nem idosa, nem consagrada a Deus, nem serva cristã ou pagã (II); num lugar onde todos os homens são casados, pode-se ficar também, mas deve-se adverti-los de que não se come com as mulheres, que não se dorme onde elas dormem (III); num lugar onde não há cristãos, mas apenas cristãs, reúne-se com elas, exorta-se ao bem, lê-se-lhes a Sagrada Escritura, depois pede-se a uma pessoa idosa que encontre uma habitação onde não entrará nenhuma mulher (IV); num lugar onde há apenas uma mulher cristã, não se deve deter nem ler as Sagradas Escrituras (V); num lugar onde há apenas pagãos, conduzir-se-á de maneira a edificá-los, mas não se cantará ali e não se lerão as Sagradas Escrituras (VI). Seguem-se depois os exemplos dos patriarcas: de José (VII), de Sansão (IX), de Davi (X), de Amon e Tamar (XI); de Salomão (XII); de Susana (XIII), dos profetas e dos apóstolos (XIV), de N. S. Jesus Cristo (XV). O autor conclui: «Pedimos-vos, a vós que sois nossos irmãos no Senhor, que observeis tudo isto convosco como (nós o fazemos) conosco... Aquele que quer verdadeiramente conservar a castidade escuta-nos, e a virgem que quer verdadeiramente conservar a virgindade escuta-nos, mas aquela que não conserva em verdade a castidade não nos escuta.»
3º Teorias literárias. — Encontramos ainda aqui as teorias opostas defendidas com igual convicção. O primeiro editor, Wetstein, depois Mons. de Villecourt e Beelen consideram estas cartas como um escrito autêntico de São Clemente de Roma; refutam os adversários e abundam em argumentos extrínsecos e intrínsecos em favor da sua opinião. Outros, muito mais numerosos, não admitem a autenticidade das cartas, mas não concordam, aliás, sobre a época e o lugar da sua composição. Citemos entre os últimos e os principais os Srs. Funk, Cotterill, Bardenhewer, Krüger, Uhlhorn e Harnack. O Sr. Funk faz notar que o autor das cartas introduz, sem fazer menção expressa, as passagens da Escritura, e utiliza todo o Novo Testamento, enquanto São Clemente menciona os livros que cita e cita apenas alguns livros do Novo Testamento; aliás, o seu estilo é diferente, as semelhanças assinaladas por Beelen baseiam-se apenas em lugares-comuns; finalmente, as desordens assinaladas pressupõem um relaxamento e uma época bastante tardia. As cartas não foram escritas antes do século III e são talvez do início do IV. O Sr. Cotterill imaginou que elas tinham podido ser compostas na Idade Média para corresponder às menções de Santo Epifânio e de São Jerônimo; esta teoria que inverte o problema não merece reter a atenção. O Sr. Harnack supõe que as duas cartas não puderam ser escritas antes do início do século III nem muito tempo depois. Segundo ele, a sua data de composição poderia ser atribuída com grande verossimilhança aos dez primeiros anos do século III. Além disso, na origem, as duas cartas formavam apenas uma, pois a primeira não tem final e a segunda carece de incipit. Maruta menciona também «a carta» e não «as cartas» de Clemente; aliás, elas não traziam o nome de Clemente, pois nada no conteúdo indica que se tenha querido fazê-lo passar pelo redator. Mas mais tarde, esta carta foi dividida em duas para ocupar, no fim das Bíblias, o lugar das duas cartas de São Clemente aos Coríntios; foi sem dúvida nesta ocasião que se acrescentou o título: «Cartas do bem-aventurado Clemente, discípulo do apóstolo Pedro.» Esta última modificação foi verossimilmente feita depois de Eusébio, que não menciona estas cartas, e prende-se talvez aos numerosos falsos cometidos na Palestina por volta de 360 (pseudo-Inácio, Constituições pseudo-apostólicas). Outros sustentam que elas foram atribuídas a São Clemente pelo próprio compositor, pois o silêncio de Eusébio prova apenas que ele não conhecia este escrito ou já não tinha memória dele no momento em que escrevia a sua História eclesiástica. Westcott situa a sua composição no século III.
O seu lugar de origem seria a Síria ou a Palestina, pois Santo Epifânio, São Jerônimo e Maruta puderam conhecê-las nesses países; aliás, é na Igreja síria que elas foram acrescentadas ao fim da Bíblia e utilizadas. Faremos notar aqui que estas cartas, escritas em grego, distinguem muito nitidamente o país de origem do país de destino, o autor opõe o primeiro ao segundo; a Síria poderia, portanto, ser apenas o país de destino das cartas.
Ainda não se deve confundir o país que conserva uma tradução de um escrito com o país que o viu nascer ou o recebeu, senão a Etiópia seria o país de origem ou de destino do livro de Enoque, da Pequena Gênese e de todas as obras conservadas apenas numa tradução etíope. Em suma, estas duas cartas, que podiam, na origem, ser apenas uma, foram escritas em grego numa época muito antiga, pois pressupõem que não existe ainda um mosteiro propriamente dito, as virgens e as pessoas consagradas a Deus continuando a habitar as suas próprias moradas. Os pregadores vão ainda de aldeia em aldeia para pregar e ler as Escrituras. Cf. Didache, cc. XI-XII.
Os abusos de coabitação visados pelo nosso autor, nos quais nos apoiamos em geral para rejuvenescer a sua obra, parecem-nos provar antes a sua antiguidade. Pois tais abusos derivam tão diretamente da natureza humana que existiram de todos os tempos; é bastante tarde que, com a ajuda de regulamentos positivos e de penalidades, se pôde fazê-los desaparecer mais ou menos provisoriamente. O c. xv da Didascalia já é consagrado às falsas viúvas cuja ocupação única consiste em interrogar, errar, mendigar e ter ciúmes das suas vizinhas. Cf. Epístolas às virgens, 1, 10-12.
Luciano de Samósata descreveu no fim do século II abusos ainda mais gritantes; pregadores escreviam (inventavam) livros (santos), impunham-se às viúvas e aos órfãos por aparências piedosas e aproveitavam para amealhar dinheiro. Cf. Sobre a morte de Peregrino. Finalmente, o próprio São Paulo, após uma passagem (II Tim., III, 2-5) que parece visada na primeira Epístola às virgens, c. VIII, acrescenta: Ex his enim sunt qui penetrant domos et captivas ducunt mulierculas oneratas peccatis quæ ducuntur variis desideriis. II Tim., III, 6. Noutros lugares, ele reclama para si, como para os outros apóstolos, a faculdade de se fazer acompanhar por uma «mulher irmã». I Cor., IX, 5-6. É, portanto, desde os tempos apostólicos que houve controvérsias a respeito das relações entre os pregadores e as «irmãs», e a crítica interna permite situar essas cartas tanto no século II quanto no III.
Elas foram escritas por um pregador que habitava um país de rígida observância (o Ocidente? Egito?) para ganhar para o seu gênero de vida os habitantes da Síria ou da Palestina, pois ele opõe, em vários lugares, cf. 1, 4, 16, a sua maneira de agir àquela de seus correspondentes, a menos de admitir — já que o campo das hipóteses é ilimitado — que esses detalhes, por si mesmos, não constituam senão um falso a mais e que o escrito tenha sido composto na Síria ou na Palestina pelo Peregrinos de Luciano de Samósata ou por um de seus émulos para espantar seus ouvintes e para captar, assim, mais seguramente a admiração e a confiança deles.
I. EDIÇÕES. — A primeira edição foi publicada com uma tradução latina, por J. Wetstein: Due epistole S. Clementis Romani; discipuli Petri apostoli, quas ex codice manuscripto Novi Testamenti syriaci nunc primum erutas, cum versione latina apposita..., Leida, 1752. Essa tradução latina foi reproduzida por Mansi, Concil., t. 1, col. 144-156, e, com o texto siríaco, por Gallandi, Bibl. vet. Patrum, t. 1. Elas foram traduzidas novamente por Zingerle, Die zwei Briefe des heiligen Klemens von Rom an die Jungfrauen, Viena, 1827, e por Monsenhor Clément Villecourt, Les deux Épîtres aux vierges de S. Clément Romain, disciple de S. Pierre, avec une dissertation qui en établit l’authenticité, Paris, 1853. Migne reeditou o texto siríaco segundo Gallandi com as dissertações e a tradução latina de Monsenhor C. Villecourt, P. G., t. 1, col. 349-452. Finalmente, J. Th. Beelen publicou: Sancti Patris nostri Clementis Romani epistolæ binæ de virginitate, in-4°, Lovaina, 1856. Este volume forma um verdadeiro monumento literário. Após longos prolegômenos, ele edita o texto siríaco segundo uma colação cuidadosa do manuscrito e acrescenta uma nova tradução latina, p. 1-143. Reproduz, em seguida, o texto siríaco munido de pontos vocálicos com numerosas notas gramaticais, p. 145-244. Finalmente, reimprime em páginas paralelas as traduções de Wetstein e de Zingerle, p. 246-293. Vêm ainda alguns fragmentos exegéticos extraídos do ms. da Bíblia que conservou as duas cartas de Clemente, índices e um errata, p. 295-329.
II. TRABALHOS. — Funk, Opera Patrum apostolorum, Tubinga, 1881, t. II, Introdução, p. I-VII, e tradução latina, p. 1-273. Id., Patres apostolici, 2ª ed., Tubinga, 1901, t. II, p. I-VIII, LXI-LXVIII, 1-27; A. Harnack, Sitzungsberichte der Ak. der Wiss. zu Berlin, phil. hist. Classe, Berlim, 1891, p. 361-385; Die altchristliche Litteratur. Die Ueberlieferung, Leipzig, 1893, p. 548-549; Die Chronologie, Leipzig, 1904, t. II, p. 123-125; J.-B. Lightfoot, S. Clement of Rome, t. 1, p. 407-414; G. Krüger, Geschichte der altchristlichen Literatur in den ersten drei Jahrhunderten, Friburgo em Brisgóvia, 1895, p. 226-227; Uhlhorn, Realencycl. für prot. Theol., Leipzig, 1898, t. IV, p. 170-171; O. Bardenhewer, Geschichte der altkirchl. Literatur, Friburgo em Brisgóvia, 1902, t. 1, p. 413-418. Encontrar-se-á toda a antiga literatura em Beelen.
III. AS CARTAS DECRETAIS. — Essas cartas, em número de cinco, foram publicadas nas diversas coleções de direito canônico e P. G., t. 1, col. 459-508. A primeira, endereçada a Tiago, irmão do Senhor, não é outra senão a carta já descrita no início das Homilias Clementinas, que foi interpolada «por Isidoro Mercador ou, melhor, por um autor muito mais antigo», P. G., t. 1, col. 463, e alongada por um longo apêndice, col. 472-484, que teria sido acrescentado por volta do ano 800. Ibid., col. 471, nota 12. É este apêndice, desde Pleas inquit, et veram agite pœnitentiam, col. 472, que Le Fèvre d’Étaples rejeitou ao fim de sua ed. das Reconhecimentos, sob o título de: Complementum epistolæ (sic) Clementis. Ver col. 204. A segunda carta, endereçada também a Tiago, irmão do Senhor, é intitulada: De sacratis vestibus et vasis, ou ainda: De sacramentis Ecclesiæ.
Ela trata, com efeito, na primeira parte, da conservação e da administração da santa eucaristia, dos cuidados a serem dados aos vasos sagrados, etc. A terceira carta, que teria sido traduzida do grego por Rufino, é endereçada aos bispos, aos sacerdotes, aos diáconos, etc., sobre o ofício do sacerdote e dos clérigos. Nesta carta e nas duas seguintes, encontra-se um grande número de passagens paralelas às Reconhecimentos, e, por vezes, os mesmos termos. Citemos o batismo no nome trine beatitudinis, col. 493, a teoria do verdadeiro profeta, col. 494, etc.; cf. col. 495, nota 38; col. 497, n. 58.
Parece, portanto, que essas três últimas cartas tenham sido extraídas em parte das Reconhecimentos para justificar seu título em certa medida. Na quarta carta endereçada a seus discípulos Jules e Julien e às nações, São Clemente é tido como exortando seus correspondentes, caídos no erro, a voltar à verdade; ele lhes dá diversos ensinamentos sobre a separação dos fiéis e de seus parentes infiéis, sobre o batismo, a confirmação, o matrimônio. A quinta carta endereçada a São Tiago e aos habitantes de Jerusalém recomenda-lhes a vida comum e lembra-lhes que devem pedir à tradição o sentido das passagens da Escritura.
Estas cartas estão, pois, repletas de preceitos excelentes; admitiu-se por muito tempo sua autenticidade; Turrianus, em particular, defendeu-a vivamente. Cf. Adversus Magdeb, centuriatores pro canonibus apostolorum et epistolis decretalibus libri quinque, Florença, 1572. À exceção da metade da primeira carta que existe em grego e que é relativamente antiga, esta coleção tem todas as chances de ter sido compilada bastante tarde. Não é certo, por outro lado, que não tenha havido ainda outras cartas atribuídas a São Clemente, pois encontra-se uma citação de uma «nona carta» de Clemente que não se reencontra naquelas que nos restam. Cf. Harnack, Altchr. Litt. Die Ueberlief., p. 778. Consultar-se-á, a respeito das cartas decretais, os Corpus e as histórias do direito canônico; Maassen, em particular, fornece a lista das coleções que contêm as cartas I e II, Geschichte der Quellen und der Literatur des can. Rechts im Abendlande, Graz, 1870, t. I, p. 440-444.
III. DOIS APROCRIFOS ETIOPES. — Talvez se encontrem novos apócrifos relativos a São Clemente. Podemos assinalar dois que ainda estão por identificar; um figura nos manuscritos etíopes ao fim do Testamentum D. N. J. C. Ver t. I, col. 1616. Segundo o Sr. o abade Guerrier, professor em Notre-Dame de la Roche (Rhône), o início é um apocalipse muito próximo do apocalipse do Testamentum; depois, os apóstolos, quase todos nomeados, escrevem "à Igreja do Oriente, à Arábia e ao Ocidente" as revelações e os ensinamentos de Nosso Senhor; o trecho termina assim: "Está concluído o Testamento de N.-S. J.-C. em sua paz, pelos séculos dos séculos. Amém." É, portanto, também um Testamento e dever-se-á investigar se não deriva do Testamento dado aos apóstolos por Nosso Senhor no monte das Oliveiras, conservado em vários manuscritos etíopes da Biblioteca Nacional, n. 252 e 253.
O segundo sucede o precedente no ms. de Abbadie, n. 54. Cf. Catalogue raisonné des manuscrits éthiopiens appartenant à Antoine d’Abbadie, Paris, 1859, p. 62, notas 3 e 4. De acordo com uma análise que devemos ao abade F. Martin, professor no Instituto Católico de Paris, este escrito trata primeiramente do segundo advento de Cristo e da ressurreição dos mortos: "Aqueles que são de Cristo pedem-lhe que lhes indique os sinais de seu advento e do fim do mundo, para que eles os façam conhecer àqueles que virão depois deles e para que os convertam ao cristianismo. Cristo responde: Muitos virão e dirão: Eu sou o Cristo. Não os acrediteis. Eu virei como o relâmpago que aparece do Oriente ao Ocidente; minha cruz me precederá... Cristo intercederá junto a seu Pai pelos pecadores; não se deve revelar-lhes este mistério, com receio de que contem com a misericórdia divina e aproveitem-se dela para pecar. Cristo revelou este mistério a seu discípulo Pedro, o qual o revelou, por sua vez, a seu discípulo Clemente."
Segue-se depois o mistério grande e secreto sobre a condenação dos pecadores, solicitado por São Pedro a Nosso Senhor por causa de sua misericórdia para com Adão, que parece ainda uma mistura de relatos escriturísticos, de interpretações pessoais do autor e de passagens apocalípticas e escatológicas. Esta obra deveria ser aproximada do Clemente etíope e árabe. É evidentemente de pouca importância, mas não deixa de ser necessário que seja publicada para nos fazer conhecer toda a literatura clementina, pois as piores obras podem repousar sobre algumas fontes antigas perdidas ou pouco conhecidas e nos dar, por vezes, novos vislumbres sobre os outros apócrifos que lhes são aparentados.
Autor original: F. Nau
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