5. CLEMENTE V, papa, sucessor de Bento XI, eleito em 5 de junho de 1305, falecido em 20 de abril de 1314. Coube a Clemente V a difícil liquidação da situação deixada por Bonifácio VIII. Bento XI, de fato, o sucessor imediato desse pontífice, morreu ao cabo de sete meses de pontificado e sua mansidão para com Filipe, o Belo, havia engajado a política pontifícia na via das concessões. Contudo, a atitude de Bento XI não carecera de uma certa dignidade, ao passo que a de Clemente V pareceu, logo, manchada de fraqueza e até de servilismo para com o rei da França.
O conclave, que se seguiu à morte de Bento XI, realizou-se em Perúgia, onde o papa acabara de expirar (7 de julho de 1304); mas as rivalidades dos cardeais favoráveis, uns à memória de Bonifácio, outros à França, fizeram-no prolongar-se. O descontentamento dos peruginos forçou, todavia, os cardeais a terminar. Tiveram de lançar os olhos sobre um prelado estrangeiro ao Sacro Colégio e as intrigas do rei da França fizeram recair a escolha sobre Bertrand de Got, arcebispo de Bordéus, originário da Gasconha e de uma casa aparentada às famílias de Périgord e de Armagnac. Nascido em 1264, estudante de belas-letras em Toulouse, depois de direito em Orleães e em Bolonha, fizera uma rápida carreira como cônego de Bordéus, como vigário-geral de Lyon junto ao seu irmão Béraut, arcebispo desta cidade, e enfim como capelão do papa. Foi Bonifácio VIII quem o nomeou bispo de Comminges e, depois, arcebispo de Bordéus.
Bertrand de Got reconheceu esses favores com um verdadeiro apego. Embora tivesse conhecido Filipe, o Belo, na sua juventude, desafiou as proibições do rei e dirigiu-se, em 1302, ao concílio convocado por Bonifácio VIII, e, posteriormente, a sua fidelidade obrigou-o a permanecer algum tempo em Roma, longe da sua diocese de Bordéus, que pertencia bem ao rei da Inglaterra, mas sob a suserania da França. Após a morte de Bonifácio VIII, Bertrand de Got reconciliara-se com Filipe, o Belo, que julgou não poder encontrar um candidato à tiara mais capaz de se fazer aceitar pelo partido dos cardeais italianos e mais fácil de influenciar no sentido dos interesses franceses. É tudo o que é permitido dizer com segurança das relações do papa e do rei antes da eleição. Que tenha havido compromissos precisos, não é senão uma suposição bastante provável sugerida aos historiadores pela sequência dos acontecimentos, reforçada por alguns termos da correspondência íntima de Clemente V e de Filipe, o Belo. Quanto à historinha de Villani, que deu corpo à hipótese ao relatar uma entrevista de Filipe e de Bertrand em Saint-Jean-d'Angély, esta é demonstrada falsa pelos itinerários respectivos das duas personagens.
Bertrand de Got foi eleito por dez votos sobre quinze (5 de junho de 1305); a notícia da sua eleição alcançou-o em Lusignan, no Poitou, durante uma visita à sua província. Regressou imediatamente a Bordéus, onde declarou aceitar a tiara e tomar o nome de Clemente V (23 de julho). Clemente V era naturalmente bom, terno, generoso, mas essas qualidades degeneravam em fraqueza. Conhecia, por tê-lo visto com os seus olhos, o estado das facções italianas e a guerra sem quartel que faziam em Roma os Orsini e os Colonna, e nos mais minúsculos Estados, os Negros e os Brancos, os Guelfos e os Gibelinos. Bento XI não pudera manter-se em Roma, onde tantos pontífices, no século X, nem sequer tinham posto os pés. Clemente V temeu cair, ele estrangeiro, em tal vespeiro, e em vez de se dirigir a Perúgia, enviou a ordem aos cardeais para que o juntassem em Lyon, onde ocorreria a sua coroação.
Após as festas magníficas da coroação (14 de novembro de 1305), entristecidas pelo desmoronamento de uma muralha que matou várias pessoas e um próprio irmão de Clemente, o papa levou uma vida errante. Fez estadias em diferentes lugares, passando por Cluny, por Nevers, Bourges, não sem desagradar às igrejas que deviam arcar com as despesas de estadia de uma corte demasiado luxuosa. Uma doença reteve-o muito tempo em Bordéus, onde passou um ano (1306-1307). Em Poitiers, teve duas entrevistas com Filipe, o Belo, e deixou-se aí reter dezasseis meses, à mercê dos pedidos mais variados e incessantes (abril de 1307-agosto de 1308).
Clemente V estimou prudente afastar-se de um protetor tão tirânico. Julgou, talvez demasiado depressa, que era impossível fixar-se na Itália, onde os seus legados tinham obtido alguns sucessos sobre os venezianos e retomado Ferrara (agosto de 1309), mas onde não tinham podido restaurar a ordem e a tranquilidade. Tendo, aliás, convocado um concílio geral em Viena, convinha que estivesse ao alcance de lá se deslocar. Pensou, pois, em fixar-se, pelo menos provisoriamente, em Avinhão, cidade que pertencia ao conde da Provença, mas que estava encravada no Condado Venaissino, propriedade da Santa Sé. Uma viagem lenta através do sul, por Bordéus, Toulouse, Narbona, Montpellier, Nîmes, encontrou finalmente o seu termo em Avinhão, na primavera do ano de 1309.
Apesar da notificação feita desta escolha à cristandade, Clemente V não parece ter querido instalar o papado em Avinhão, pois não construiu ali palácio algum, contentando-se com um modesto alojamento junto dos irmãos pregadores, nem, sobretudo, transferir a Santa Sé para a França e procurar-lhe, nas margens do Ródano, um estabelecimento estável. Há, pois, alguma injustiça em fazer recair sobre este pontífice todos os males que os historiadores se comprazem em atribuir à "transferência" da Santa Sé para Avinhão. A medida tomada por Clemente V era, todavia, lamentável: afastava os papas da sua diocese sem vantagens evidentes para o conjunto da Igreja; mantinha-os na proximidade do rei da França cuja tutela, a julgar pela de Filipe, o Belo, podia tornar-se perigosa; abandonava aos seus desordens a Itália, onde a guerra reinava em estado endêmico; tornava mais difíceis as relações com todas as potências europeias, ciumentas da preponderância francesa; encaminhava, enfim, a Santa Sé para a eleição de um domicílio definitivo na França, devido à preponderância dos franceses no Sacro Colégio. O futuro haveria de revelar a grandeza do perigo de cisma. Estas graves consequências, não menos que a duração aproximativa de setenta anos, fizeram com que os historiadores comparassem a translação do papado para Avinhão ao cativeiro da Babilônia.
Desde a eleição de Clemente V, Filipe, o Belo, tinha cogitado um excelente meio de chantagem para pesar sobre o papa e o constranger a todas as complacências; era insistir para obter o reatamento do processo de heresia intentado contra a memória de Bonifácio VIII. O rei obteve primeiramente da fraqueza de Clemente V uma confirmação da absolvição já concedida por Bento XI, a anulação da bula Clericis laicos em tudo o que ela inovava no direito eclesiástico, e a declaração de que a bula Unam sanctam não acarretava nenhuma sujeição nova do rei e de seu reino à Igreja romana. Do mesmo modo, fez com que lhe concedessem toda sorte de exações pecuniárias sobre a Igreja da França sob o pretexto de cruzada, uma leva de nove cardeais franceses no sacro colégio, a nomeação por autoridade pontifícia de muitas criaturas reais para sedes episcopais, notadamente para as de Auxerre, de Bayeux, de Sens, de Cambrai, de Orléans, etc.
Mas o golpe de mestre do rei, aquele que rende mais honra à sua força de vontade e o menos ao seu espírito de justiça, foi arrancar do papa a supressão dos templários. Os templários, fundados como os hospitalários de Jerusalém, para a defesa da Terra Santa, após a primeira cruzada, haviam perdido um pouco de sua razão de ser desde a tomada de Jerusalém por Saladino (1187) e a expulsão definitiva dos cristãos da Palestina (1291). Não souberam dar a si mesmos um papel análogo àquele que os hospitalários iriam cumprir em Rodes e em Malta, onde foram por tanto tempo o baluarte da cristandade. Os grandes domínios possuídos pelos cavaleiros do Templo na Inglaterra e na França, em Portugal e em Aragão, sua habilidade financeira na gestão dos capitais e a segurança do dinheiro confiado aos seus «templos», construídos como fortalezas inexpugnáveis, eram para a ordem uma fonte de grandes riquezas. O Templo servia frequentemente de banqueiro aos papas, para o recebimento das somas devidas à Santa Sé, e mesmo aos soberanos, notadamente aos reis da França durante o século XIII.
As riquezas dos templários, seus privilégios, excitavam a inveja dos príncipes necessitados, das igrejas empobrecidas, do mesmo modo que o mistério no qual se mantinham seus capítulos e se conduziam suas operações criava ao redor deles uma atmosfera muito favorável às suspeitas, às acusações de crimes variados, aos rumores surdos e hostis. Havia, provavelmente, lugar entre eles para uma reforma, e os papas, há quarenta anos, pensavam e trabalhavam em uma fusão dos templários e dos hospitalários. Infelizmente, o ciúme das duas ordens, que havia prejudicado na Palestina a defesa dos Lugares Santos, impunha ainda obstáculo à reunião. Filipe, o Belo, não tinha queixas pessoais contra a ordem dos templários. Em 1303, ele havia feito entregar ao Templo o tesouro real, não tinha tampouco do que se queixar da atitude dos templários para com ele durante o rompimento da França com Bonifácio VIII; as cartas de proteção concedidas pelo rei ao Templo o atestam.
Contudo, desde o advento de Clemente V, e durante as próprias festas da coroação em Lyon, o caso dos templários foi discutido entre o papa e os homens do rei, e ele fez depois objeto de correspondências durante os dois anos que se escoaram até a entrevista do papa e do rei em Poitiers em 1307 (por volta do Pentecostes). As resistências do papa foram sérias. Jacques de Molay, o grão-mestre dos templários, convocado a Poitiers sob o pretexto do projeto de cruzada, pediu ao papa um inquérito que ele não podia recusar. Lettre au roi du 24 août 1307, Baluze, t. II, p. 75.
Mas Filipe sabia o que podia ousar contra a fraqueza e a irresolução do papa. Tendo obtido a permissão de começar um inquérito, ele quebrou todas as tergiversações de Clemente V, ao desferir um grande golpe. Por sua ordem expedida no mais absoluto segredo, todos os templários da França foram presos em 13 de outubro de 1307 em nome da inquisição. Os priores dominicanos haviam recebido do grande inquisidor da França mandato de internar e de interrogar os templários presos. Os verdadeiros motivos da medida estão contidos, sem dúvida, no memorial do legista Pierre Dubois, que se detém unicamente na consideração das riquezas pertencentes à ordem e que propõe enviar os templários ao Oriente e apropriar-se de seus bens. O golpe de rede tão brilhantemente executado, os meios do processo imediatamente iniciado, as queixas invocadas para justificá-lo revelam a mão, a audácia e a fecundidade de Nogaret, que havia feito suas provas, contra Bonifácio VIII, na arte de matar seus adversários desonrando-os.
Todas as acusações imagináveis são acumuladas no manifesto que foi lido ao povo por ocasião da prisão dos templários. Elas se resumem em quatro pontos principais: 1° renegação de Cristo; 2° costumes infames; 3° idolatria; 4° heresia. O papa, dizia-se em termos vagos a fim de deixar crer em um assentimento, havia sido consultado, e o rei, requisitado a agir pelo inquisidor de heresia. Assim se encontrou justificado perante a opinião o golpe de força, e atenuada, do ponto de vista do direito, a irregularidade de um processo iniciado contra uma ordem que dependia diretamente da jurisdição pontifícia.
Em conformidade com as instruções recebidas, os comissários do rei colocaram os bens dos templários sob sequestro e improvisaram-se seus administradores; quanto aos templários, eles os interrogaram sumariamente, depois chamaram os inquisidores, que procederam a um interrogatório acompanhado de torturas para obter confissões. Alguns templários permaneceram firmes em meio aos suplícios e sustentaram até o fim a inocência da ordem e de seus costumes. A maioria cedeu sob a tortura, mesmo homens que haviam feito suas provas de bravura, como o grão-mestre Jacques de Molay, e eles reconheceram, uns a renegação, outros a prática da sodomia, outros diversas imputações infamantes.
Contudo, Clemente V havia ficado indignado com a operação de polícia feita em 13 de outubro, sem sua permissão e cobrindo-se com seu nome por uma alegação abusiva. Escreveu ao rei para se queixar do desprezo feito à sua pessoa e à sua autoridade (27 de outubro); mas, em vez de manter-se firme em nome do direito, pareceu logo abalado pelas confissões dos templários, a ponto de ordenar aos príncipes cristãos que prendessem os templários de seus Estados (22 de novembro).
Depois, uma nova reviravolta se produz em seu espírito, e ele toma finalmente as medidas próprias para assegurar o triunfo da justiça neste caso: ele suspende o processo dos bispos e inquisidores da França e evoca o caso para seu tribunal, e pede a Filipe que lhe entregue a pessoa e os bens dos templários (1308).
Enquanto o rei protesta a sua boa vontade, nomeia administradores particulares para os bens que se compromete a guardar em proveito da Terra Santa, Nogaret trabalha para quebrar as resistências de Clemente e inicia contra ele uma campanha de opinião que recorda, em todos os pontos, aquela que dirigira contra Bonifácio VIII: mesmas acusações aviltantes, reprovações de simonia, de nepotismo, de exações cometidas em detrimento das igrejas, mesmo recurso ao zelo católico do rei e à autoridade civil para proteger a Igreja contra os seus próprios pastores. Um Requerimento do povo da França, concebido neste espírito, foi difundido à profusão com o intuito de preparar a eleição dos deputados à assembleia que o rei convocava em Tours para o mês de maio de 1308, e que era apresentada à opinião como um instrumento de defesa para a Igreja e de ameaça contra o papa. De fato, os Estados-Gerais pronunciaram-se contra os templários.
Forte com este apoio, o rei juntou-se uma segunda vez ao papa que, após uma resistência bastante notável para a fraqueza do seu caráter, acabou por aceitar devolver aos bispos e aos inquisidores da França o direito de proceder no caso, de deixar nas mãos do rei os templários que ele guardará em nome da Igreja, e os seus bens que ele fará guardar por comissários escolhidos metade pelo rei, metade pelos bispos.
O papa separou a causa da ordem do Templo daquela das pessoas dos templários. A fim de resolver a primeira, convocou um concílio geral na cidade de Vienne, no Dauphiné, para o mês de outubro de 1310, e, enquanto isso, a segunda ia ser instruída nos tribunais episcopais de todos os países cristãos. Uma comissão pontifícia, presidida pelo arcebispo de Narbonne, preparou o trabalho do concílio ao recolher os testemunhos. Os homens que a compunham e que eram protegidos pela autoridade da Santa Sé eram hostis ao emprego das torturas, de modo que os cavaleiros interrogados podiam prometer a si mesmos mais liberdade para confirmar ou revogar as suas precedentes confissões. Se alguns irmãos persistiram nas suas confissões, se outros hesitaram e recorreram a subterfúgios, outros, em grande número, disseram claramente que as suas confissões arrancadas pela tortura eram contrárias à verdade. Cavaleiros, às centenas, sustentaram a inocência do Templo, assim que acreditaram poder falar com segurança.
Mas os conselheiros do rei, Guillaume de Nogaret, Guillaume de Plaisians, tinham encontrado meio de assistir às audiências; quando viram o rumo que tomava o processo de conjunto intentado contra a ordem, precipitaram o julgamento individual dos templários pelos bispos e inquisidores. Foi assim que o concílio da província de Sens foi convocado bruscamente pelo arcebispo de Sens, irmão do ministro Enguerrand de Marigny, e, como ele exercia a função de tribunal de inquisição para Paris, usou cruelmente do procedimento inquisitorial para condenar como relapsos, sem ouvi-los, cinquenta e quatro cavaleiros que acabavam de depor como testemunhas perante a comissão pontifícia e que tinham ingenuamente revogado as suas confissões. Eles foram condenados, depois queimados publicamente fora da porta Saint-Antoine, no mesmo dia, 12 de maio de 1310. Na sequência deste trágico acontecimento, que tornava ilusória a liberdade do testemunho e da defesa, a comissão de inquérito suspendeu durante seis meses as suas pesquisas e, aliás, não viu mais comparecer diante dela senão os templários "confessos" de todos os crimes e reconciliados pelos inquisidores.
Nos países estrangeiros, a tortura tendo sido menos empregada, as confissões tornaram-se também mais raras. É lamentável para a memória de Clemente V que ele tenha incitado os reis da Inglaterra, de Aragão, de Portugal a usar a tortura. Parece que ele quis ter sob a sua mão o maior número de argumentos para legitimar uma supressão resolvida no seu espírito. Mas os bispos da Alemanha, de Aragão e de Castela, da Itália, tinham mostrado menos complacência que os da França e absolvido em massa os templários.
O concílio de Vienne reuniu-se somente no mês de outubro do ano 1311. O episcopado reunido na cidade contava trezentos membros, que tinham tido tempo de estudar este caso e que traziam de diferentes países convicções favoráveis à ordem dos templários. Tornou-se logo evidente que não se obteria dos Padres do concílio uma pura e simples ratificação do procedimento francês, nem uma paródia de justiça como aquela que se tinha desenrolado perante os inquisidores e bispos da França.
De Lyon, onde vigiava o concílio, o rei Filipe, o Belo, dirigiu-se a Vienne com um grande cortejo, e foi na sua presença e na daquele do concílio que o papa Clemente V fez ler a bula Vox in excelso, datada de 22 de março de 1312, que é uma imagem fiel das tergiversações do seu autor. Ele diz não ter motivos para condenar, propriamente falando, os templários; mas estes são odiosos ao rei da França, o seu processo causou escândalo, importa não deixar dilapidar bens consideráveis. Consequentemente, Clemente V não profere nenhuma sentença definitiva e não condena a ordem do Templo, mas, por solicitude para o bem da Igreja e por via apostólica, ele a suprime e a extingue em todos os países da cristandade.
Uma bula ulterior, de 2 de maio, adjudica os bens do Templo aos irmãos hospitalários. Filipe, o Belo, muito a contragosto, teve de se desfazer deles: exigiu a apuração das contas da tesouraria que tinha tido outrora a sua sede no Templo e recebeu por este título 200.000 libras tornesas; fez-se pagar 60.000 libras a título de reembolso pelas despesas do processo, embora já tivesse recebido os rendimentos dos bens colocados sob sequestro. Não foi, aliás, senão Luís, o Teimoso, que entregou enfim à ordem de São João de Jerusalém as possessões dos templários, não sem se fazer ainda atribuir a metade dos móveis e ornamentos de igreja.
Apesar destes resgates consideráveis retirados pelo rei, os hospitalários receberam em bens de raiz grandes riquezas, e não se concebe bem por quais provas se sustenta a opinião de santo Antonino de que eles foram não enriquecidos, mas empobrecidos pelo donativo feito à sua ordem.
Os templários que persistiram nas suas confissões após a publicação da bula Vox in excelso receberam a liberdade; aqueles que as retrataram foram condenados como relapsos pelos tribunais de inquisição. O grão-mestre Jacques de Molay e Geoffroy de Charnay, o preceptor da Normandia, reservados ao julgamento do papa, não foram definitivamente julgados senão em 1314. Condenados à detenção perpétua, acusaram-se de ter traído a ordem por covardia para salvar as suas vidas e proclamaram alto a sua inocência. Foram logo entregues à justiça do rei e queimados no mesmo dia em um patíbulo (18 de março de 1314).
Os templários eram culpados? Os historiadores estão há muito tempo divididos, mas as pesquisas mais recentes são cada vez mais favoráveis à sua inocência. De prova material contra eles, não há nenhuma, assim como não há documento real. Todo o andaime do processo repousa sobre os depoimentos de testemunhas. Ora, é verdade que as acusações contra a ordem são consideráveis e resultam de um conjunto de confissões que podem causar impressão e que desviaram o julgamento dos contemporâneos e dos historiadores. Todavia, essas confissões de conjunto só foram obtidas na França, onde a justiça inquisitorial e a dos sínodos obedeceu ao rei e generalizou o emprego da tortura; a maioria dos cavaleiros retratou as suas confissões assim que se viram na presença da justiça da Santa Sé, menos cruel nos seus meios de instrução. Ao pé do cadafalso, a maioria dos templários queimados sustentou corajosamente a sua inocência. Finalmente, o desprezo pelas formas da justiça e a fraude que anulava sábia e ferozmente a liberdade de defesa bastam para demonstrar a iniquidade das sentenças das quais os templários foram vítimas. As desordens reais da sua ordem ofereciam matéria para reforma, mas não para uma repressão tão selvagem, levada até a inteira destruição.
É bastante difícil precisar a parte de responsabilidade que cabe a Clemente V nesta tragédia. Em que medida foi ele enganado pelo rei? Em que medida os templários confessos que se deixava chegar até ele e as confissões que lhe eram relatadas o convenceram da culpabilidade da ordem? Infelizmente para ele, diversas circunstâncias deste processo contribuem para carregar pesadamente a sua memória. Se ele tivesse podido fazer perante a cristandade a prova de horríveis desordens entre os templários, ele não teria hesitado em atingi-los, sem sequer julgar necessário arrastá-los perante um concílio geral. Não é apenas a piedade por pobres pessoas que faz tanto hesitar o pontífice e o faz recorrer a perpétuos meios dilatórios, é também o sentimento de que inocentes são perseguidos por um ódio injusto. Todas as medidas favoráveis à justiça no caso dos templários são devidas à intervenção do papa, mas nenhuma é sustentada por ele com firmeza e perseverança. Não se pode defender do sentimento de que ele temeu III. — 3 para si mesmo as violências do rei da França e as calúnias de Nogaret, das quais o seu predecessor Bonifácio VIII tinha morrido, e que a sua falta de caráter fez dele um instrumento na mão de um político sem escrúpulos. Este não é o único exemplo na história de pessoas soberanas cuja fraqueza de vontade causou mais mal aos seus súditos do que a crueldade ou a violência.
Era em parte para escapar às obsessões de Filipe, o Belo, de quem tinha sofrido os assaltos nas duas entrevistas de Poitiers, que Clemente V tinha estabelecido a sua sé em Avinhão. Mal instalado nesta cidade, tinha tido a satisfação de ver fracassar a candidatura ao trono imperial de Carlos de Valois, irmão de Filipe, o Belo. Ele tinha tido a fraqueza de escrever a seu favor aos bispos e aos príncipes da Alemanha, mas se ele talvez não trabalhou secretamente contra o príncipe que sustentava em aparência, ele colocou um verdadeiro empenho em ratificar a eleição do conde Henrique de Luxemburgo, que foi o imperador Henrique VII (bula de 26 de julho de 1309). Clemente estava assim livre da preocupação que lhe teria causado um crescimento da influência francesa na Europa.
O afastamento relativo de Avinhão não permitiu, contudo, ao papa escapar às instâncias do rei, que queria consumar o seu triunfo sobre Bonifácio VIII, obtendo uma condenação infamante para a memória deste pontífice. Já, nas entrevistas de Poitiers, o rei tinha retomado as suas perseguições, com o pensamento de tornar Clemente V mais maleável no caso dos templários. Ele tinha produzido quarenta e três chefes de acusação e pedia que o papa ouvisse os testemunhos. Após ter usado de todos os meios dilatórios ao seu alcance, Clemente V teve de se executar. Por uma bula de 23 de setembro de 1309, ele citou perante a Santa Sé para a quaresma seguinte todas as pessoas que quisessem intervir no processo. Comissários foram nomeados para ir à Itália recolher os depoimentos das pessoas retidas na sua pátria. Nogaret, cuja absolvição estava em jogo, trazia a este caso toda a paixão de que era capaz, toda a sua arte de montar uma acusação. Encontra-se o seu método na exageração dos crimes: vergonhosas devassidões, blasfêmia, heresia, irreligião, assassinatos, que são imputados a Bonifácio, na audácia com a qual testemunhas subornadas inventavam as piores torpezas.
Clemente V acabou por compreender tudo o que reverteria de vergonha sobre a Igreja e sobre o papado nestes lamentáveis debates e, invocando o apoio de Carlos de Valois junto ao seu irmão, suplicou a Filipe, o Belo, que desistisse (maio de 1310). Não é senão no mês de fevereiro do ano seguinte, no momento em que o processo dos templários encaminhava a sua ordem para uma ruína definitiva, que o rei cedeu às instantes preces do papa. Ele recebeu, aliás, todas as satisfações imagináveis fora de uma condenação formal de Bonifácio: a memória deste papa é pura e sem mancha, mas as intenções do rei, no processo, foram retas; ele é inocente das violências exercidas contra o pontífice; as constituições de Bonifácio são anuladas em tudo o que prejudicaria os direitos do rei e do seu Estado, e as minutas serão rasuradas na chancelaria pontifícia (27 de abril de 1311). Finalmente, Nogaret recebeu a absolvição das censuras, assim como os seus cúmplices. O triunfo de Filipe, o Belo, estava consumado.
O concílio de Vienne, onde devia se liquidar a causa dos templários, devia também ocupar-se de doutrina e de disciplina. Os erros dos begardos e das beguinas e de João Pedro Olivi foram condenados pelo papa e pelo concílio.
As memórias pedidas pelo papa aos bispos sobre as reformas desejáveis oferecem um grande interesse à informação quanto ao estado real dos costumes cristãos; mas o concílio, dividido por causa do caso dos templários e mais temido pelo papa do que consultado, não fez quase nada nesta matéria. É, contudo, em Vienne que o papa rendeu um decreto para obrigar as grandes universidades a instituir duas cátedras para o ensino do hebraico e do árabe.
Após o concílio, Clemente V retornou a Avinhão, onde coroou o rei Roberto de Nápoles, filho de Carlos II, e enviou cinco cardeais a Roma para ali coroarem o imperador Henrique VII. A viagem do imperador só ocorreu em meio a distúrbios: ele precisou travar um combate para entrar em Roma e ser coroado sob a vigilância hostil dos guelfos e de um exército napolitano, de modo que a expedição, da qual o papa esperava ver sair a pacificação da Itália e talvez o restabelecimento de seu poder temporal, resultou apenas em uma retomada geral das armas, em meio à qual Henrique viu-se ameaçado de excomunhão por Clemente V por suas ameaças contra o reino de Nápoles. A morte do imperador, ocorrida inesperadamente perto de Viena em 24 de agosto de 1313, impediu talvez um novo conflito entre o papado e o império. A situação da Itália permanecia incerta como de costume.
Após a morte de Henrique VII, Clemente V publicou duas decretais, cujo tom contrastava com a atitude do papa para com o rei da França. Os juramentos do imperador eram nelas assimilados a juramentos de fidelidade feudal e o direito de administrar o império durante a vacância reivindicado para a Santa Sé. Clemente V contribuiu para estender o sistema de fiscalidade que deveria suscitar muitos descontentamentos contra a Santa Sé. A ausência das rendas fornecidas ordinariamente pelos Estados da Igreja e a manutenção de uma corte fora de seus domínios forçaram-no a pedir às igrejas da França e da Inglaterra meios de subsistência. Os prelados franceses queixaram-se ao rei. Na Inglaterra, onde Clemente V, desde o início de seu reinado, reservou-se por dois anos as rendas de um ano de todos os benefícios que viessem a ficar vagos (fructus primi anni), ele precisou mostrar-se acolhedor aos desejos do rei Eduardo I em matéria de dízimos eclesiásticos e severo para com o arcebispo Robert de Winchelsea, que tanto lutara por Bonifácio VIII e que o rei perseguia por crime de traição.
Nos primeiros anos, sobretudo do pontificado, as expectativas de benefício, as dispensas de idade ou de residência foram extremamente numerosas; em 1307, o papa anulou por uma bula as comendas que havia multiplicado de forma muito indiscreta. Registre, n. 2263.
Clemente V canonizou o papa Celestino V, a pedido de Filipe, o Belo, que perseguia ainda nisso sua vingança sobre Bonifácio VIII (5 de maio de 1313). O papa Clemente V havia reunido em um livro as decretais que publicara, fosse no concílio de Viena, fosse anteriormente. Essa coletânea de «Clementinas», que tomou lugar no Corpus juris canonici na sequência do Liber sextus de Bonifácio VIII, estava pronta para a publicação quando o papa morreu em Roquemaure, no Ródano, em 20 de abril de 1314, enquanto se dirigia de Avinhão a Bordéus para rever mais uma vez sua pátria, que ele amara demasiado. Após sua morte, o tesouro pontifício, onde ele havia amealhado grandes somas visando à cruzada, foi saqueado.
As falhas políticas deste papa são reais; mas encontrar-se-iam sem dificuldade muitas desculpas para elas. Sua irresolução e sua fraqueza deviam-se talvez, em parte, a uma saúde muito precária; os italianos haviam, com suas próprias mãos, afastado o papa de sua verdadeira sede, se não inteiramente de seus Estados; Filipe, o Belo, que rompia tão abertamente com a política capetiana, era, na situação falsa herdada de Bonifácio VIII e de Bento XI, um protetor tão temido quanto necessário. Por outro lado, os cronistas italianos denegriram a perder de vista Clemente V, não podendo perdoar-lhe o afastamento da sede pontifícia e, com a cumplicidade dos historiadores, tornaram-no responsável por todos os males da Igreja que lhes aprouve atribuir à estada dos papas em Avinhão, enquanto seria de boa justiça atribuir uma parte ao conjunto da política centralizadora e teocrática dos papas da Idade Média, e uma parte, também, aos sucessores de Clemente V, que não tinham, para se instalar permanentemente no Ródano, as mesmas razões que ele, ou, se se preferir, as mesmas desculpas. A mesma fraqueza que tornou Clemente V demasiado dócil aos desígnios de Filipe, o Belo, tornou-o também acessível às tentações do nepotismo. Quatro de seus próximos entraram no sacro colégio e dois receberam o episcopado. Clemente V teve por sucessor o papa João XXII.
A morte consecutiva de Clemente V (20 de abril) e de Filipe, o Belo (29 de novembro), no mesmo ano, atingiu vivamente a imaginação popular e deu lugar à lenda de Jacques Molay convocando, do alto de sua fogueira, o papa e o rei para uma data próxima ao tribunal de Deus. A lenda é bonita, mas é uma lenda.
Regesta Clementis V, édit. des bénédictins, 9 in-fol. et appendice, 1885-1892; Baluze, Vitae paparum avenionensium, Paris, 1693, t.1; Muratori, Scriptores rerum Italicarum, t. 11, p. 673; t. iii, p. 441; t. iii ec, p.147 (Villani, Histoire florentine, l. VIII, IX, Florence, 1823); Raynaldi, Annales ecclesiastici, Turin, 1866, t. xxi, p. 364; Hefele, Conziliengeschichte, édit. Knopfler, t. vi, p. 391; Ehrle, Archiv fur Litteratur und Kirchen- geschichte des Mittelalters, 1886, p. 353; 1887, p. 1; 1889, p. 4sq.; Christophe, Histoire de la papauté pendant le xive siècle, Paris, 1853, t. 1; Rabanis, Clément V et Philippe le Bel, Paris, 1858; Boutaric, La France sous Philippe le Bel, Paris, 1861; Souchon, Die Papstwahlen von Bonifaz VIII bis Urban VI, Brunswick, 1888; Leclère, L’élection du pape Clément V, dans les Annales de la faculté de philosophie et des lettres de Bruxelles, 1890, t. I, fasc. 1; Kenig, Die paepstliche Kammer unter Clemens V und Johann XXII, 1894; Lindner, Deutsche Geschichte unter den Habsburgern, 1890, t. 1, p. 167; Poehlmann, Der Roemerzug kaiser Heinrichs VII, 1875; Wenck, Clemens V und Heinrich VII, 1882: Renan, Etudes sur la politique de Philippe le Bel, Paris, 1899; Lacoste, Nouvelles études sur Clément V, 1896; Berchon, Histoire du pape Clément V, Bordeaux, 1898; W.
Otte, Der historische Wert der alten Biographie des Papstes Clemens V, Breslau, 1902; ver as obras gerais mencionadas no artigo Bonifácio VIII sobre o litígio da Santa Sé e da França.
Sobre o fim dos templários, ver os textos publicados por J. Michelet, Procès des templiers, na Collection de documents inédits sur l’histoire de France, 1841-1851, e por K. Schottmuller, Der Untergang des Templerordens, 1887; trabalhos especiais: Gmelin, Schuld oder Unschuld des Templer Ordens, 1893; H. C. Lea, Histoire de l’inquisition au moyen âge, trad. por Salomon Reinach, Paris, 1902, t. 1, p. 284-404; Langlois, Le procès des templiers, na Revue des Deux Mondes, t. cit (1891), p. 382; Delaville Le Roulx, La suppression des templiers, na Revue des questions historiques, t. XLVIII (1890), p. 29; Lavocat, Le procès des frères de l’ordre du Temple, Paris, 1888; Prutz, Kritische Bemerkungen zum Prozess des Templerordens, na Deutsche Zeitschrift für Geschichtswissenschaft, 1894, p. 242; informações bibliográficas na Revue historique, maio de 1889, e no Archivio storico italiano, 1895, p. 225.
Autor original: H. Hemmer
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