CIRO

CIRO

CIRO, patriarca grego monotelita de Alexandria, no século VII. A primeira vez que encontramos este personagem é em Fásis, metrópole da província da Lázica, no Mar Negro. Ciro era metropolita desta cidade quando, no ano de 626, durante uma longa estadia que fez nestas regiões, o imperador Heráclio tentou conquistar o prelado para as ideias monotelitas que Sérgio, patriarca de Constantinopla, difundia nas sombras e para as quais recrutava aderentes de peso.

Ciro foi, então, solicitado a aprovar um decreto do imperador a Arcádio, arcebispo de Chipre, e uma carta do patriarca Sérgio ao mesmo Arcádio, dois escritos nos quais era proibido «de parler des deux énergies de Notre-Seigneur Jésus-Christ après l’union des deux natures.» Ciro protestou primeiramente contra esta doutrina, que lhe parecia estar em contradição com o tomos do Papa São Leão I, mas, observa ele próprio, «je reçus l’ordre de me taire à l’avenir sur ce point, de ne pas contredire et de te (Sergius) demander de nouvelles instructions sur la nécessité d’admettre, après l’union des deux natures, une seule énergie dirigeante.» Ciro escreveu, de fato, imediatamente a Sérgio uma carta, da qual extraímos estas informações.

Mansi, Concil., t. XI, col. 557-561. Temos a resposta de Sérgio, Mansi, op. cit., t. XI, col. 524-528, a qual, de acordo com o Libellus synodicus, Mansi, t. X, col. 606, teria sido redigida em um sínodo realizado em Constantinopla em 626 ou 627. Sérgio confirma aí plenamente Ciro nas ideias monotelitas que lhe tinha já sugerido o imperador e envia-lhe, para este fim, todos os documentos que tinha reunido há alguns anos a fim de conquistar adeptos.

Todavia, de boa vontade, Ciro obteve como recompensa a sé patriarcal de Alexandria, que o imperador lhe ofereceu após a morte de Jorge II, entre os meses de maio e agosto do ano de 631, de acordo com A. von Gutschmid, Kleine Schriften, Leipzig, 1890, t. II, p. 478, ou no outono do mesmo ano, segundo A. Butler, The arab conquest of Egypt, Oxford, 1902, p. 176. Chegou ao Egito com os poderes de augustalis ou de vice-rei, e apenas o rumor da sua chegada pôs em fuga o patriarca copta Benjamim, que deixou Alexandria.

Reunindo em suas mãos os dois poderes, espiritual e temporal, Ciro, o terrível Mukaukas (o Caucasiano), como o chamam os indígenas, tinha como programa determinado efetuar a união da Igreja copta, ou melhor, das diversas Igrejas coptas, com a Igreja bizantina oficial. Empregou-se nisto o melhor que pôde, não recuando, se necessário, diante da perseguição, mas as suas crueldades, longe de trazer de volta os dissidentes, tiveram como resultado exasperá-los contra a dominação bizantina e prepará-los para a ocupação árabe. Contudo, com a sua fórmula ambígua monotelita, Ciro obteve um pequeno sucesso.

Em 8 de junho de 633, reconciliava com a Igreja grega a seita dos teodosianos, fração importante do partido monofisita do Egito. A carta e o documento de união em 9 artigos, subscrito pelos teodosianos e que ele enviou a Sérgio após a cerimônia, Mansi, t. XI, col. 561-568, mostram bem que é a doutrina católica das duas energias e das duas vontades em Cristo que custou o preço desta reconciliação. Sérgio não expressou menos os seus agradecimentos ao seu amigo. Mansi, t. X, col. 971-976. Não aconteceu o mesmo com o monge palestino Sofrônio, que tinha assistido à entrevista de Alexandria entre os teodosianos e os católicos.

Protestou em alto e bom som contra uma tal união e foi imediatamente queixar-se em Constantinopla junto a Sérgio, a quem não suspeitava do complô e que o tranquilizou sobre a ortodoxia do seu confrade. P. G., t. LXXXVII, col. 3171. Entrementes, Sofrônio tornava-se patriarca de Jerusalém e o Papa Honório, enganado pelas cartas de Sérgio, tomava em 634 partido de Ciro contra Sofrônio e proibia no futuro o uso das expressões uma ou duas energias. Mansi, t. X, col. 527 sq. Um pouco mais tarde, porém, Honório voltou a sentimentos melhores em relação a Sofrônio.

Negociou com os embaixadores que este último lhe tinha enviado e pediu-lhes que determinassem o seu patriarca a não utilizar mais a expressão de duas energias; em contrapartida, comprometia-se a pedir a Ciro que não utilizasse mais a expressão de uma energia. De fato, Honório diz-nos ele mesmo, Mansi, t. XI, col. 580 sq., que escreveu nesse sentido cartas particulares a Sofrônio, a Ciro e a Sérgio. Em suma, a questão não tinha dado um passo e Ciro podia vangloriar-se de ter a seu favor a corte romana.

No outono do ano de 638, Sérgio renovava a discussão fazendo publicar por Heráclio a Ecthese, édito dogmático composto pelo próprio patriarca de Constantinopla em 636. Mansi, t. XI, col. 9. Ciro fez ler publicamente a Ecthese e agradeceu a Sérgio por uma carta que ainda temos, Mansi, t. X, col. 1004 sq., e que data de outubro ou novembro de 638. A sua adesão ao monotelismo não é, portanto, contestável, e São Máximo de Crisópolis, assim como os concílios de Latrão em 649 e de Constantinopla em 680-681, representam-no sempre como um dos principais chefes desta heresia.

Todavia, importa notar bem que Ciro provavelmente não conheceu as condenações proferidas pelos papas, sucessores de Honório, contra a doutrina de uma só energia e de uma só vontade.

Os últimos dias de Ciro foram ocupados sobretudo pela invasão árabe. Seu título de vice-rei obrigava-o a tomar medidas políticas e militares contra os invasores; ele não falhou a esse dever. Ilustrou-se durante o cerco de Babilônia ou do Cairo e concluiu com os sitiantes um tratado, que a corte bizantina julgou demasiado desfavorável, 640. Desgraçado e exilado por este motivo, o ativo patriarca voltou ao poder em setembro de 641 e defendeu Alexandria contra os árabes. Teve a tristeza, antes de sua morte, ocorrida em 21 de março de 642, de ver-se mais uma vez destituído e de assistir à tomada de sua querida Alexandria e à conquista do Egito. Para o papel de Ciro na questão monotelita, ver meu artigo, *Sophrone le sophiste et Sophrone le patriarche*, na *Revue de l’Orient chrétien*, 1902, p. 36-41 da separata; para seu papel político e religioso no Egito, ver A. Butler, *The arab conquest of Egypt*, in-8°, 1902, passim.

Autor original: S. Vailhé

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