CHEMNITZ (CHEMNITZIUS, KEMNITZ) Martin, célebre teólogo luterano, nascido a 9 de novembro de 1522 em Treuenbritzen, na Marca de Brandemburgo, falecido em Brunswick a 8 de abril de 1586.
— I. Vida. II. Escritos.
I. Vida. — Filho de um pobre tecelão, viveu primeiramente na miséria, mas, graças a um parente de Magdeburgo, tornou-se estudante nessa cidade (1539-1542), em seguida em Francoforte do Oder, finalmente a partir de 1545 em Wittemberg. Ali aprendeu as línguas, a matemática, a astronomia. Após a guerra de Smalkalde, em 1547, veio para Koenigsberg, cuja nova universidade tinha como reitor seu primo Georges Sabinus (Schiller), genro de Mélanchthon. Ali publicou suas Predictiones astrologicæ e foi recebido doutor; ao mesmo tempo, dirigia os estudos de jovens nobres polacos.
Em 1549, seguiu Sabinus para Wittemberg e entrou ali em relações estreitas com Mélanchthon, cujos Loci communes estudou com cuidado; no ano seguinte, o duque Alberto da Prússia, que apreciava muito sua ciência astronômica, nomeou-o seu bibliotecário em Koenigsberg. Graças a esta situação, aperfeiçoou-se no estudo do dogma e da patrística. Lutero morrera em 1546 e sua doutrina sobre a justificação era então atacada por Osiander; Chemnitz achou que este se aproximava demais do catolicismo, e logo se assinalou entre os seus adversários. Mas o partido dos osiandristas prevaleceu de início, e Chemnitz teve de deixar a cidade (1553); contudo, o duque, que lhe permanecia favorável, proveu-o com uma pensão.
De regresso a Wittemberg, retomou ali relações ainda mais estreitas com Mélanchthon, e acompanhou-o em 1554 ao convento de Naumburgo. Finalmente, foi chamado para Brunswick como coadjutor do superintendente Joachim Morlin e nomeado pregador em Saint-Gilles; casou-se em 1555 com Anna Jeger. No ano de 1567, sucedeu a Morlin como superintendente de Brunswick. Foi ali que viveu doravante e compôs a maior parte de seus escritos teológicos, que lhe valeram logo em toda a Alemanha protestante a reputação de um profundo teólogo; por toda parte solicitavam dele avisos, consultas dogmáticas; teve de assistir a numerosos colóquios, a fim de estabelecer «concórdias» entre os reformados; assim, mereceu o favor dos príncipes luteranos, Frederico II da Dinamarca, Luís do Palatinato, Augusto da Saxônia, Júlio de Brunswick. Em suma, teve um papel preponderante nos assuntos religiosos e até políticos da Alemanha e contribuiu mais do que qualquer outro para a organização e o fortalecimento da Reforma nesse país.
Assim, em 1566, foi chamado de volta a Koenigsberg para refutar definitivamente a doutrina de Osiander, e de comum acordo com seu colega J. Morlin, publicou ali um novo formulário dogmático, condenação explícita das ideias osiandristas, conforme quase em todos os pontos à doutrina luterana da Confissão de Augsburgo e aos artigos de Smalkalde; é conhecido sob o título de Corpus doctrinæ Prutenicum, 1567. O duque Alberto da Prússia deu-lhe sua sanção solene e tornou-o obrigatório para seus Estados.
Henrique, duque de Brunswick, morreu em 1568; Júlio, seu filho e sucessor, ardente luterano, encarregou Chemnitz, que se tornara superintendente, e Jacques Andrea, chanceler de Tubinga, de redigir para seu ducado um formulário da doutrina reformada. A nova ordenança, composta no convento de Wolfenbuttel (1568), apareceu sob o título de Corpus doctrinæ, Brunswick, 1569; Chemnitz publicou um resumo: Brevis et simplex forma, etc., e mais tarde: Enchiridion, que os pastores e os professores tiveram de assinar sob pena de exílio; ali também, esforçara-se por satisfazer todos os espíritos sobre os cinco artigos acerca dos quais menos se entendiam: a justificação, as boas obras, as cerimônias, o livre-arbítrio e a ceia. No entanto, parece que Chemnitz desesperava de obter êxito nessa conciliação, pois escreve a Morlin: «Prepara-se para fazer cessar as querelas pela violência e pelo punho, esquartejar-se-ão os flacinianos, depois seus partidários, após o que a ordem e a paz reinarão na terra!»
Com efeito, os reformados alemães dividiam-se cada vez mais; Chemnitz e Andrea recomeçam o trabalho; compõem, em 1574, uma fórmula de concórdia aprovada pelo convento de teólogos de Wurtemberg convocados em Maulbronn (fórmula de Maulbronn), reaprovada depois no colóquio de Torgau, reunido em 1576 pelo eleitor da Saxônia, e ao qual assistiram Chemnitz, Andrea, Korner, Musculus, Chytræus, etc. Segundo as palavras de Chemnitz, esta concórdia nova ou Livro de Torgau afasta qualquer traço do espírito de Mélanchthon; contudo, Andrea dizia então de Chemnitz que seria bom que ele deixasse a Saxônia, porque era «falso e desleal e faria voltar o reinado dos flacinianos»; por seu lado, Chemnitz dizia que, para chegar à paz e à união, seria necessário afastar Andrea.
De fato, o Livro de Torgau não teve mais sucesso que as concórdias precedentes, e, a fim de revisá-lo, o eleitor Augusto reuniu em 1577 o sínodo de Bergen, perto de Magdeburgo. Chemnitz, Andrea, Chytreus, etc., modificaram ali sobretudo os artigos do livre-arbítrio e do pecado original: no fundo, a nova concórdia ou Livro de Bergen sustenta muito estritamente a doutrina luterana, repele qualquer inovação inspirada no criptocalvinismo de Mélanchthon, rejeita absolutamente o sinergismo, nega qualquer disposição do homem à graça ou à salvação, limita a predestinação somente aos eleitos. Foi a última concórdia inspirada por Chemnitz: assinada pelos ministros da Suábia e da Baixa Saxônia, foi ainda discutida; finalmente, foi publicada em 1580, reunida à Confissão de Augsburgo, aos artigos de Smalkalde e aos catecismos de Lutero de 1529. O conjunto foi chamado Formulæ concordiæ: assim, graças a Chemnitz, a doutrina luterana pareceu solidamente estabelecida tanto na fé do povo quanto no ensino oficial dos Estados da Alemanha do Norte.
Exausto por tantos trabalhos, Chemnitz resignou, a 5 de abril de 1584, seu cargo de superintendente de Brunswick; no mesmo ano, compôs ainda, para o landgrave de Hesse-Cassel, um relatório sobre o calendário gregoriano; apesar de sua origem romana, concluiu pela sua aceitação. Dois anos depois, morria, deixando a seus herdeiros grandes bens, que seus inimigos lhe reprovaram por vezes.
II. Escritos. — Os escritos de Chemnitz, reputados entre as obras teológicas mais consideráveis da época, podem ser classificados em três categorias:
1º Escritos em favor das ideias luteranas, sobretudo sobre a ceia; sustentam a presença real, contra os sacramentários.
Tais são: Repetitio sane doctrine de vera presentia corporis et sanguinis in cena. Additus est tractatus complectens doctrinam de communicatione idiomatum, Leipzig, 1561, obra traduzida depois para o alemão pelo pregador J. Zanger; De duabus naturis in Christo, de hypostatica earum unione, de communicatione idiomatum et de aliis questionibus independentibus, etc., Iena, 1570, 1578. O que constitui a originalidade da opinião de Chemnitz sobre a ceia é o que ele chama de multivolipresentia Christi; com efeito, embora sustentando o ensino de Lutero sobre a ubiquidade, ele acredita em uma presença relativa, em todos os lugares, da natureza gloriosa e transfigurada de Cristo, dependente da vontade muito livre do Homem-Deus. Adesse possit et adsit, ubicumque, quandocumque et quomodocumque vult.
2° Escritos contra a Igreja católica e sobretudo contra os jesuítas. — Jean Monheim havia publicado em Düsseldorf, sob o título de Doctrina celestis, um catecismo que os jesuítas de Colônia refutaram por uma Censura de precipuis doctrine celestis capitibus, 1560. Chemnitz respondeu com uma crítica muito viva da sua teologia: Theologie jesuitarum precipua capita ex quadam ipsorum censura, que Colonie, anno 1560 edita est, adnotata, Leipzig, 1562; in-8°, La Rochelle, 1589; trad. alemã por Zanger. A mesma obra foi publicada em 1623 sob este título: Theologie jesuitarum brevis ac nervosa descriptio et delineation ex precipuis capitibus censure ipsorum que anno 1560 Colonie edita est, adnotata, in quo origo et arcana jesuilavum aperiuntur. Chemnitz diz ali, entre outras coisas, que « se a ordem dos jesuítas se tivesse limitado a fundar o colégio de Roma e não tivesse feito nada mais, mereceria por isso ser olhada como a mais perigosa inimiga do luteranismo ». — « Os celerados que se fazem chamar jesuítas, por uma presunção singular e criminosa, não fazem caso nenhum da santa Escritura, que é a única regra dada por Cristo. » No ardor com o qual os jesuítas defendem « a idolatria da missa », ele fareja « o odor do excremento do diabo; eles conhecem o bom rendimento que a missa lhes proporciona; eles acham vantajoso vender suas orações pelos vivos e pelos mortos; eles amam o dogma do purgatório que guarnece tão bem sua despensa e sua adega ». Canisius respondeu-lhe, depois Jean Aller, professor em Ingolstadt, por um memorial em alemão sobre a Companhia de Jesus contra Chemnitz e Zanger (1563). O teólogo português Andrada (ver t. I, col. 1179) refutou-o também em Explicationum orthodoxarum de controversis religionis capitibus libri decem, e De Societatis Jesus origine libellus contra Kemnitii cujusdam petulantem audaciam, in-4°, Colônia, 1565. Como ele ali desenvolvia a doutrina católica do concílio de Trento, Chemnitz respondeu com seu Examen concilii Tridentini quadripartitum; a 1ª parte apareceu em Frankfurt em 1563, a IVª em 1573; ele levou, portanto, oito anos para publicar estes 4 in-fol. (traduzidos para o alemão, em 1576 por Georges Nigrinus, pastor em Giessen, reeditados em 1599 em Frankfurt, traduzidos de novo por Georg. Johannes em Frankfurt, 1707, e ainda em 1862). Cada uma das partes é precedida por uma epístola dedicatória a um príncipe alemão; no início da Iª há uma peça de versos: Narratio de synodo nicena versibus exposita, autore Mathia Bergio Brunsvicensi. É um verdadeiro curso de teologia para o uso das Igrejas luteranas; foi tão apreciado que colocou seu autor no primeiro escalão entre os teólogos protestantes do século XVI. A grandes reforços de argumentos colhidos na exegese, na história e no dogma, ele se esforça para combater cada um dos decretos do concílio de Trento. Além das refutações que fizeram Bellarmino, Gregório de Valência, Ravenstein, professor em Lovaina, é preciso citar a de Andrada que morreu em 1577 antes de sua publicação, aparecida em Lisboa sob o título: Defensio Tridentine fidei quinque libris comprehense adversus calumnias hereticorum et presertim Martini Chemnitii, Lisboa, 1578; Colônia, 1580; Ingolstadt, 1597. Chemnitz reconhece ele mesmo a eloquência e a erudição desta réplica. J. Vanini publicou também: Apologia concilii Tridentini contra Chennitium; Martin Gartner escreveu: Chennilius reformatus circa eucharistiam, 1666.
3° Escritos de Chemnitz aparecidos após sua morte, e de uma grande notoriedade entre os protestantes: Loci theologici, in quibus Philippi Melanchthonis loci communes rerum theologicarum perspicue explicantur, et quasi integrum doctrine christiane corpus Ecclesie Dei sincere proponitur, Frankfurt, 1591. Embora ali se encontre um estudo aprofundado da história dos dogmas, é uma obra inacabada, segundo o próprio Chemnitz. Ele resume sua teoria assim: De usu et utilitate locorum theologorum semper cogitandum est, Filium Dei non eam ob causam prodiisse ex arcana sede eterni Patris et revelasse doctrinam celestem, ut seminaria spargeret disputationum quibus ostendandi ingenii causa luderetur, sed potius ut homines de vera Dei agnitione et omnibus iis, que ad eternam salutem consequendam necessaria sunt, erudirentur. Ideoque precipua cura esse debet in singulis locis : quomodo et qua ratione doctrina tradita accommodanda et referenda sit ad usum in seriis exercitiis penitentie, fidei, obedientie et invocationis. Na edição de 1623 encontra-se também uma Oratio de lectione Patrum seu doctorum Ecclesiae. Após sua morte, apareceu ainda sua Harmonia evangelica, Frankfurt, 1593. Chemnitz não é autor senão dos 51 primeiros capítulos; sua obra foi continuada por Jean Gerhard e por Polycarpe Lyser. Outros opúsculos e coletâneas de cartas foram igualmente publicados.
Chemnitz não foi um inovador brilhante como Lutero; ele se mostrou, em suma, pouco original, antes conservador; contudo, tinha uma erudição imensa. Nessa época de distúrbios religiosos tão intensos, ele aparece como um reformador moderado; confessou até, às vezes, que havia algo de bom no catolicismo. Embora discípulo e amigo de Melanchthon, foi em geral adversário do seu criptocalvinismo; frequentemente combateu seu Corpus doctrinæ Philippicum, e permaneceu um dos teólogos mais apegados à estrita doutrina de Lutero. Todavia, tentou sempre conciliar as doutrinas novas, sobretudo com o objetivo de unir os reformados da Baixa-Alemanha, e obteve êxito em parte. Os protestantes olham-no, portanto, com razão, como um dos principais fundadores do luteranismo. Dizia-se dele: Si Martinus (Chemnitz) non fuisset, Martinus (Luther) vix stetisset.
É, pois, com justiça que o apelidaram: o outro Martinho, alter Martinus (Lutherus). J. Rehtmeyer, Der berühmten Stadt Braunschweig Kirchenhistorie, part. II, 1710, p. 273 sq.; Epistolæ Chemnitii ad M. Ritterum, Frankfurt, 1712; Gasmer, Oratio de vita, studiis et obitu M. Chemnitii, 1588; Ed. Preuss, Examen concilii Tridentini per M. Chemnitium scriptum, Berlim, 1861, appendix : Vita M. Chemnitii, p. 925-958; Lentz, Dr. Martin Kemnitz, Gotha, 1866; Hachfeld, Martin Chemnitz nach seinem Leben und Wirken, Leipzig, 1867; Th. Pressel, Martin Chemnitz, Elberfeld, 1862, em Leben und ausgewählte Schriften der Väter und Begründer der luth. Kirche; Kirchenlexikon, t. III, col. 115-118; Realencyclopädie, t. III, p. 796-804; R. Mumm, Die Polemik des Martin Chemnitz gegen das Konzil von Trient, Leipzig, 1905. L. LÉVENBRUCK.
CHERBURY, Edouard Herbert, primeiro lorde, deísta inglês (1583-1648), nasceu em Eyton-on-Severn, perto de Wroxeter, em 9 de março de 1583 (v. s. 1582), de uma família antiga cujas glórias descreveu longamente em sua autobiografia. Após bons estudos em Oxford, foi casado aos dezesseis anos com uma de suas primas e levou uma vida
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