CATOLICIDADE

CATOLICIDADE

CATOLICIDADE. — I. Conceito da catolicidade da Igreja. II. A catolicidade de fato, propriedade e nota da verdadeira Igreja.

I. CONCEITO DA CATOLICIDADE DA IGREJA. — 1° O símbolo dos apóstolos e as outras profissões de fé nos obrigam a crer na «Igreja católica», isto é, universal. Ora, este qualificativo pode significar a universalidade da Igreja: 1. Em relação às Igrejas particulares que dela fazem parte; neste sentido, diz-se ainda hoje a Igreja universal, isto é, a totalidade da Igreja; 2. quanto ao lugar, e pode-se entender por isso ou que a Igreja tem a missão de ensinar o Evangelho no mundo inteiro e a virtude de produzir por toda parte frutos: Euntes..., in mundum universum, docete, Matth., xxviii, 19, ou que a Igreja está realmente difundida em todo o universo; 3. quanto às pessoas, isto é, que a Igreja se dirige a todos os povos sem distinção de raças ou de nacionalidades, a todos os homens seja qual for a sua situação social: Docete omnes gentes, Matth., loc. cit.; Prædicate evangelium omni creature, Marc., xvi, 15; 4. quanto à doutrina, noutros termos, que a Igreja possui e ensina sem diminuição alguma todas as verdades que se deve crer, todos os meios necessários à salvação: Docentes eos servare omnia quæcumque mandavi vobis, Matth., loc. cit.; ou ainda que todos os fiéis da Igreja submetidos ao mesmo magistério têm a mesma fé; 5. quanto à necessidade de entrar na Igreja: Qui non crediderit condemnabitur, Marc., xvi, 16; 6. quanto à duração, ou a permanência da Igreja sem interrupção até ao fim dos séculos: Ecce ego vobiscum sum omnibus diebus usque ad consummationem sæculi. Matth., loc. cit.

2° Para determinar qual é, entre estas diferentes espécies de catolicidade, aquela que responde diretamente ao artigo de fé: Credo Ecclesiam catholicam, é necessário, na ausência de uma definição autêntica da Igreja, consultar o uso tradicional. Constata-se então que, desde a origem, isto é, desde o início do século II, a denominação de católica tem sido constantemente empregada para designar a difusão manifestamente universal da Igreja, una e indivisível, fundada por Jesus Cristo.

4. Sob o nome de católica, os Padres sempre entenderam a totalidade da Igreja de Jesus Cristo e não apenas as Igrejas particulares tomadas isoladamente. São Inácio mártir (+ 107), que parece ter empregado primeiro o epíteto de católica, que parece, é verdade, tê-la aplicado às igrejas particulares quando escrevia à Igreja de Esmirna, Ad Smyrn., n. 8, P. G., t. v, col. 714: « Ubi comparuerit Christus, ibi sit multitudo, quemadmodum ubi Christus, ibi catholica Ecclesia »; mas, numa outra carta, ele explica que as igrejas particulares não formam senão uma só, que está espalhada sobre toda a extensão da terra: Omnes cum episcopo sentire debent ut Christus cum Patre sentit et episcopi per totum orbem constituti sentiunt cum Christo. Ad Eph., n. 3, col. 647; cf. Ad Smyrn., n. 1, col. 709. Cita-se ainda a carta dos fiéis de Esmirna relatando o martírio de são Policarpo (167), que ali é chamado Catholicæ Ecclesiæ Smyrnensis episcopus, n. 16, ibid., col. 1042; mas, além de a palavra catholicæ faltar no manuscrito, lê-se mais acima, n. 8, col. 1035, que Policarpo rendia glória a Jesus Cristo pastor catholicæ in toto orbe Ecclesiæ. É visível que a interpretação particularista da palavra católica, se alguma vez foi empregada neste sentido, não exclui, mas implica, pelo contrário, a significação que os Padres sempre deram desde então a esta palavra. Toda Igreja particular pode ser chamada católica no sentido em que diríamos «um departamento francês», para significar que ela faz parte de um todo que é católico.

2. Nos textos onde explicam em que consiste a catolicidade da Igreja, os Padres dão sempre a este termo, como única significação, a de difusão da Igreja em todo o universo, ou, o que é raro, se interpretam este termo de outra forma, colocam em primeiro plano a sua significação geográfica. Por exemplo, na sua catequese XVIII, n. 23, P. G., t. xxxiii, col. 1043, onde justifica por diversas razões o sobrenome de católica dado à Igreja, são Cirilo de Jerusalém dá, em primeiro lugar, o motivo seguinte: Catholica vocatur eo quod per totum orbem ab extremis terræ finibus ad extremos usque fines diffusa est (catolicidade geográfica). É então somente que acrescenta: Et quia universæ et absque defectu docet omnia quæ in hominum notitiam venire debent dogmata (catolicidade de doutrina). Tunc etiam ex eo quod omne hominum genus recto cultui subjiciat, principes et privatos, doctos et imperitos (catolicidade de pessoas). Ac denique quia generaliter quidem omne peccatorum genus... curat et sanat eadem vero omne possidet, quovis nomine significetur, virtutis genus, in factis et verbis et spiritualibus cujusvis speciei donis.

Muito claramente na sua carta ao cismático Vicente, Epist., xciii, c. vi, n. 23, P. L., t. xxxiii, col. 333, santo Agostinho rejeita como incerta qualquer interpretação que não seja a do sentido de difusão universal: Acutum aliquid tibi videris dicere cum catholicæ nomen non ex totius orbis communione interpretaris sed ex observatione præceptorum omnium atque omnium sacramentorum, quasi nos, etsi forte hinc sit appellata catholica quod totum veraciter teneat cujus veritatis nonnullæ particulæ etiam in diversis inveniuntur hæresibus, hujus nominis testimonio nitamur ad demonstrandam Ecclesiam in omnibus gentibus et non promissis Dei et tam multis atque manifestis oraculis ipsius veritatis. Antes de santo Agostinho, são Optato de Milevo mantinha para com os donatistas a mesma linguagem: Ubi proprietas catholici nominis cum inde dicta sit catholica quod sit... Ubique diffusa? Adv. Parmen., l. II, c. 1, P. L., t. xi, col. 942.

Ora, sempre de acordo com os Padres, esta ubicuidade da Igreja, significada pelo nome de católica, é essencialmente visível. Ecclesia... per orbem totum radios suos porrigit, dizia são Cipriano, De unitate Ecclesiae, P. L., t. iv, col. 502. Santo Agostinho explica-o com uma clareza maravilhosa: Nos catholici in omni terra sumus, quia omni terrae communicamus, quocumque gloria Christi diffusa est... O heretica insania!... Credis mecum Christum exaltatum super celos, quod non videmus, et negas gloriam ejus super omnem terram, quod videmus. Enarr. in Ps. lvi, P. L., t. xxxvi, col. 669 sq. Também um dos argumentos preferidos dos Padres contra os heréticos consiste em opor a estes a localização manifesta da sua seita comparada à presença manifesta da Igreja católica por toda a terra.

Optato de Milevo, loc. cit.; cf. S. Agostinho, loc. cit.; S. Cirilo de Jerusalém, Cat., xvi, n. 26, P. G., t. XXXII, col. 1047. Notemos, contudo: a) que os Padres não podiam afirmar a presença da Igreja além dos limites do mundo conhecido à época; as fórmulas: per totum orbem, super omnem terram, devem, portanto, ser tomadas neste sentido relativo onde quer que se questione a catolicidade efetiva da Igreja; b) que, dentro desses limites, a difusão universal da Igreja não significa, no pensamento dos Padres, a presença da Igreja em todos os lugares sem exceção alguma, nem que, onde ela está presente, deva reinar sozinha ou, pelo menos, ter a preponderância; c) que a questão do número de fiéis espalhados pelo mundo é deixada de lado pelos Padres; o essencial para eles é que a presença da Igreja em todos os lugares pudesse ser oposta aos seus adversários como um fato notório, tangível, inegável.

4. Finalmente, e sobretudo, os fiéis assim espalhados pela superfície da terra não constituem senão uma única Igreja: não uma Igreja formada pela confederação de sociedades cristãs, mas uma Igreja individual distinta de todas as seitas heréticas ou cismáticas e que as rejeita, precisamente porque ela é, em toda parte, uma na sua fé e no seu governo. Aqui também os testemunhos da tradição abundam. A Igreja católica é sempre nomeada no singular; cristã de nome, tem o sobrenome de católica. Christianus mihi nomen, catholicus cognomen, diz São Paciano de Barcelona. Ad Sympronian. Novatian. epist., i, c. 1 sq., P. L., t. xiii, col. 1054 sq. Os próprios hereges chamam-na assim, observa Santo Agostinho, De vera relig. c. vii, n. 13, P. L., t. xxxiv, col. 128; e ele gosta de chamá-la de católica, catholica, simplesmente. De bapt., i, c. iv, P. L., t. xliii, col. 111. Basta nomear o seu livro De unitate Ecclesiae, P. L., t. xliii; este título é igualmente o de uma obra de São Cipriano, P. L., t. iv. Uma como Deus é um, diz ainda Clemente de Alexandria, esta Igreja não admite nenhuma heresia: Quum unus sit Deus..., in unius naturae sortem cooptatur Ecclesia quam conantur hereses in nulla discindere. Et essentia ergo et catholican Ecclesiam in unitatem unius fidei. Strom., vii, P. G., t. ix, col. 541. Santo Ireneu, Cont. her., l. I, c. x, n. 1, P. G., t. vii, col. 550, dá a razão: A Igreja católica é aquela que guarda sem mancha a fé dos apóstolos: Ecclesia per orbem universum disseminata et ab apostolis et a discipulis eorum accepit eam fidem... et hanc fidem... diligenter custodit, quasi unam domum inhabitans... Daí esta conclusão: A catolicidade não é senão um modo da unidade da Igreja, da qual indica a extensão no espaço; por conseguinte, uma coleção de seitas díspares, quaisquer que sejam o número e a difusão dos seus aderentes, não poderia formar senão uma multidão incoerente que, longe de ser católica, seria a negação mesma da catolicidade. Cf. Suarez, Defensio fidei, l. I, c. xv, a. 7.

3º A análise da doutrina tradicional tocante à catolicidade da Igreja e os diversos problemas que se ligam a este dogma conduziram os teólogos a estabelecer distinções que é necessário conhecer:

— 1. Acaba de ser dito que a catolicidade implica: a) uma difusão visível da Igreja em todo o universo; b) a coesão que faz de todos os fiéis assim disseminados uma só e mesma Igreja unida pelos laços sociais instituídos por Jesus Cristo. O primeiro destes constituintes recebeu o nome de catolicidade material; o segundo, o de catolicidade formal. Assim, deve-se ver nesta distinção não duas espécies distintas de catolicidade, mas as duas partes essenciais da catolicidade integral, a qual é única na sua espécie.

2. Na catolicidade assim compreendida, é importante separar o direito e o fato. A catolicidade de fato não é outra coisa senão a expansão efetiva e visível da Igreja em todo o universo. Ora, este fato tem o seu ponto de partida naquilo que se chama a catolicidade de direito, que consiste no direito e na potência que a Igreja tem de se propagar no universo inteiro. Este direito é a consequência da missão que ela recebeu de Jesus Cristo de pregar o Evangelho a todos os homens, sem distinção de raças, de civilização, de nacionalidades. Não se poderia, aliás, separar desta missão o socorro sobrenatural que mantém na Igreja a vontade eficaz de pregar em toda parte o Evangelho contra todas as dificuldades e que tornaria esta pregação infalivelmente fecunda se Deus não deixasse ao homem a liberdade de lhe resistir. A catolicidade de direito é, pois, a causa, mas apenas parcial, da catolicidade de fato. Esta pressupõe, com efeito, que Deus, por uma cooperação especial à pregação evangélica, assegura, não obstante a malícia dos homens, a difusão da Igreja em todo o universo.

— 3. A catolicidade de fato pode ser ela mesma considerada sob vários aspectos diferentes: a) A presença visível da Igreja no mundo inteiro deve ser entendida no sentido estrito ou de uma maneira mais ampla? Se admitirmos o sentido estrito, dir-se-á, pelo mesmo, que a Igreja existe em todas as regiões do mundo sem exceção e que, em cada uma, ela é representada por uma massa considerável de aderentes: será a catolicidade física. Se, ao contrário, nos contentarmos com o sentido amplo, expressar-se-á que a Igreja, embora talvez ausente de certas regiões, existe todavia em contras bastante diferentes para que o seu caráter de universalidade seja inegável. Quanto ao número dos seus aderentes, permanecerá considerável no conjunto, mas poderá ser desigualmente repartido. A catolicidade de fato assim compreendida chamar-se-á catolicidade moral. Ela goza, como se vê, de uma certa elasticidade, pois não cessa de existir se a Igreja, diminuída ou mesmo aniquilada em alguma região, venha a reparar as suas perdas em outra parte.

— b) Certos teólogos pensaram que a catolicidade de fato não exigia que a Igreja estivesse presente em todas as épocas da sua duração em todo o universo e emitiram a hipótese de uma catolicidade seja descontínua, seja sucessiva. Segundo Melchior Cano, De locis theologicis, l. IV, c. vi, ad 13m, ainda que a Igreja não estivesse espalhada hoje em todo o universo, poder-se-ia, contudo, chamá-la de católica desde que se provasse que ela teve no passado uma difusão universal. Satis est Ecclesiam in totum mundum esse fusam ut etiamnum catholica dicatur. Nam eadem Ecclesia est eamdemque fidem tenet quam apostoli in totam terram vulgarunt. Driedo, citado por Belarmino, De conciliis et Ecclesia, l. IV, c.

vii, e o próprio Belarmino parecem ir ainda mais longe. Em sua opinião, a Igreja seria católica ainda que nunca tivesse ocupado senão uma única província do mundo de cada vez, contanto que ela se tivesse assim transportado sucessivamente pelo mundo inteiro, permanecendo sempre idêntica a si mesma. Nota... non requirit... ut uno eodemque tempore in omnibus provinciis oporteat aliquos esse fideles, satis enim est si fiat successive. Ex quo sequitur quod si sola una provincia retineret veram fidem, adhuc vere et proprie diceretur Ecclesia catholica, dummodo clare ostenderetur esse unam eamdemque cum illa que fuit aliquo tempore vel diversis in toto mundo. Esse modo hipotético de catolicidade guarda o nome que Belarmino lhe deu de catolicidade sucessiva, por oposição à catolicidade simultânea, que supõe a necessidade da presença da Igreja ao mesmo tempo em todo o universo.

c) Enfim, designaram-se por vezes, sob os nomes de catolicidade absoluta e de catolicidade relativa, um duplo aspecto da catolicidade de fato. «A catolicidade absoluta, diz Mazzella, De Ecclesia, n. 701, consiste numa ampla difusão da Igreja em todo o universo, feita abstração de qualquer comparação com as seitas: a catolicidade relativa significa uma difusão superior à dessas seitas. Ora, pode-se tomar como termo de comparação seja o conjunto das seitas, tanto infiéis quanto cristãs, seja apenas as seitas cristãs tomadas coletiva ou individualmente.» Esta distinção reclama visivelmente um corretivo. A questão da catolicidade relativa só pode colocar-se comparando a Igreja a tal ou qual seita tomada isoladamente, pois um conjunto qualquer de seitas carece necessariamente de unidade e, por conseguinte, de catolicidade. A menos que se queira falar de catolicidade puramente material, ou, como sucede ordinariamente, que se compare simplesmente o número de adeptos de parte a parte, mas então já não se trata de catolicidade propriamente dita.

II. A CATOLICIDADE DE FATO, PROPRIEDADE E NOTA DA VERDADEIRA IGREJA. — O ensinamento comum dos teólogos, fundado sobre o da Escritura e dos Padres, pode resumir-se como segue:

1° Deus quis expressamente que a Igreja se espalhasse pelo mundo inteiro e que nela permanecesse espalhada até ao fim dos tempos;

2° esta catolicidade de fato da Igreja entende-se em sentido moral: ela é simultânea e não sucessiva;

3° ela constitui uma nota da verdadeira Igreja;

4° esta nota não se encontra senão na Igreja dita católica romana.

1° A difusão da Igreja em todo o universo é um fato expressamente querido por Deus e deve subsistir até ao fim dos tempos. — 1. Segundo este enunciado: a) afirmar que a Igreja é católica unicamente porque o é de direito, por outras palavras, em razão da sua missão universal e da sua aptidão para produzir frutos em toda a parte, não é dar uma ideia completa da catolicidade da Igreja; b) sendo a pregação dos apóstolos e dos seus discípulos ou sucessores o meio escolhido por Deus para realizar a difusão da Igreja, teve necessariamente de decorrer um certo tempo antes que a Igreja, católica de direito desde o seu nascimento, se tornasse igualmente católica de fato; c) contudo, desde o momento em que foi expressamente querida por Deus, a catolicidade de fato é uma propriedade necessária da Igreja. Pode-se mesmo dizer, em sentido muito verdadeiro, que ela está compreendida na instituição da Igreja, à maneira como as dimensões futuras de uma planta preexistem no seu germe.

2. Santo Optato de Milevo é o primeiro Padre da Igreja que fundou sobre a Escritura a catolicidade da Igreja. Para reduzir ao silêncio os donatistas, que atribuíam à sua seita uma origem apostólica, reuniu os oráculos dos profetas que tinham prometido ao Messias o império do mundo: Ps. II, 8; LXXI, 8; XLIX, 1; XCV, 1-3. De schismate donatistarum, l. II, n. 4, P. L., t. XI, col. 941-946. Concluiu destes textos que a verdadeira Igreja devia estar espalhada pelo mundo inteiro e que tinha como sinal a universalidade.

No seu livro: De unitate Ecclesiae, VI-XVII, P. L., t. XLIII, col. 398-423, Santo Agostinho demonstra longamente aos donatistas que a Igreja devia ser católica de fato. Apoia-se alternadamente no Antigo Testamento e nomeadamente na Lei, nos Profetas e nos Salmos; depois invoca o Novo Testamento, o Evangelho e as Epístolas apostólicas; finalmente, mostra a catolicidade de fato começando a estabelecer-se no tempo dos apóstolos.

Ordenados desta forma, os principais textos que estabelecem que a catolicidade de fato é uma propriedade da Igreja são os seguintes:

a) In semine tuo benedicentur omnes gentes, dizia Deus a Abraão, Gen., XII, 3; XXII, 18, e esta promessa foi repetida a Isaac, Gen., XXVI, 4, e a Jacob, Gen., XXVIII, 14. Ora, segundo São Paulo, Gal., III, 16, o descendente de Abraão designado pelas palavras in semine tuo é Cristo, em quem todas as nações serão benditas porque contará em toda a parte fiéis herdeiros da fé de Abraão, isto é, porque a sua Igreja possuirá a catolicidade de fato. Ver t. I, col. 410. Assim, Santo Agostinho, opondo aos donatistas a falta de catolicidade da sua seita, mostra-lhes que esta propriedade, já adquirida pela Igreja do seu tempo, era a realização necessária da promessa feita aos patriarcas: Date mihi hanc Ecclesiam, si apud vos est : ostendite vos communicare omnibus gentibus quas jam videmus in hoc semine benedici. Op. cit., c. VI, col. 400.

b) Em numerosos lugares, cf. S. Augustin, op. cit., c. VI, col. 400 sq., Isaías prediz uma Igreja que receberá no seu seio todos os povos do mundo. Tal é a profecia do c. II, 2: Erit in novissimis diebus mons Domini, et domus Dei in vertice montium et elevabitur super colles et venient ad eum omnes gentes. Cf. Mich., IV, 2. Ora, dizem os Padres, esta montanha é a Igreja. In monte sancto qui est Ecclesia, que per omnem orbem Romanum caput tulit sub toto celo. Optat de Mileve, De schism. donat., l. III, n. 2, P. L., t. XI, col. 996 sq. Domus Dei, in montium cacuminibus sita Ecclesia. S. Basile, In Is., n. 66, P. G., t. XXXI, col. 231. Santo Agostinho acrescenta: Sunt montes in una parte terrarum positi... Ille autem mons non sic, quia implevit universam faciem terre et de illo dicitur: paratus in cacumine omnium montium. In Epist. Joa., tr. I, n. 413, P. L., t. XXXV, col. 1988. Daniel, II, 35 sq., interpretando o sonho de Nabucodonosor, faz a mesma profecia: Lapis qui percusserat statuam factus est mons magnus et implevit omnem terram. Hoc est somnium ; interpretationem quoque ejus dicemus coram te, rex...

In diebus regnorum illorum suscitabit Deus cœli regnum... comminuet autem et consumet universa regna hæc et ipsum stabit in æternum. Santo Agostinho faz notar que esta pedra foi destacada do reino dos judeus, o qual não tinha senão uma extensão limitada, ao passo que regnum Christi universum orbem terrarum cernimus occupare. In Joa., tr. IX, n. 45, P. L., t. XXXV, col. 1165. Finalmente Deus, pelo seu profeta Malaquias, I, 11, anuncia que: Ab ortu solis usque ad occasum magnum est nomen meum in gentibus et in omni loco sacrificatur et offertur nomini meo oblatio munda, quia magnum est nomen meum in gentibus. É visível que a catolicidade predita nessas diferentes profecias é a catolicidade de fato e não apenas a de direito.

c) Entre os Salmos, é preciso citar com santo Agostinho, op. cit., c. VIII, col. 405, Sl. II, 8, as palavras de Deus ao Messias: Filius meus es tu, ego hodie genui te. Postula a me et dabo tibi gentes hæreditatem tuam et possessionem tuam terminos terre. Quis christianus, diz santo Agostinho, unquam dubitavit hoc de Christo esse predictum, aut hanc hereditatem aliam quam Ecclesiam esse intellexit ? Sl. XXI, 28: Reminiscentur et convertentur ad Dominum universi fines terre. Quoniam Domini est regnum et ipse dominabitur gentium. Enfim, Sl. LXXI, 8: Et dominabitur a mari usque ad mare... Et adorabunt eum omnes reges: omnes gentes servient ei... Et benedicentur in ipso omnes tribus terre, omnes gentes magnificabunt eum. Ibi etiam dicuntur hæc, escreve santo Agostinho, ubi agnoscatur Ecclesia toto orbe diffusa omnibus etiam regibus subjecta.

d) Por outro lado, no Novo Testamento lê-se esta profecia de Jesus Cristo: Multi ab Oriente et Occidente venient et recumbent... in regno cælorum. Matth., VIII, 11. E, com efeito, no Apocalipse, VII, 9, são João viu a multidão dos eleitos vindos de todos os pontos do universo: Vidi turbam magnam quam dinumerare nemo poterat ex omnibus gentibus et tribubus et populis et linguis. É que os apóstolos, após terem recebido sua missão, foram pregar por toda parte e Jesus Cristo cooperou com a sua pregação: Illi autem profecti predicaverunt ubique, Domino cooperante, sequentibus signis. Marc., XVI, 20. Jesus Cristo lhes havia dito, aliás: Accipietis virtutem supervenientis Spiritus Sancti in vos et eritis mihi testes in Jerusalem et in omni Judea et Samaria et usque ad ultimum terre. Act., I, 8. Santo Agostinho, op. cit., c. XXI, col. 415, oferece deste texto este notável comentário: Quomodo coeptum sit ab Jerusalem et deinde processum in Judeam et Samariam et inde in totam terram ubi adhuc crescit Ecclesia, donec usque in finem etiam reliquas gentes ubi adhuc non est, obtineat, Scripturis sanctis ostenditur : quisquis aliud evangelizaverit, anathema sit.

e) Estas diferentes predições concernem visivelmente a uma só e mesma religião, fundada por Jesus Cristo, aquela nomeadamente que oferece o sacrifício sem mancha instituído por Ele, Malach., loc. cit., e que obedece ao magistério e à autoridade de governo com os quais Ele investiu os apóstolos e seus sucessores.

3. A perpetuidade da difusão da Igreja no mundo resulta com evidência: a) de que as profecias do Antigo Testamento não contêm nenhuma restrição. Daniel diz até expressamente sobre o futuro reino de Cristo: Ipsum stabit in æternum. Assim, santo Agostinho, dirigindo-se ao donatista Honorato, Epist., XLIX, n. 3, P. L., t. XXX, col. 190, perguntava-lhe sobre o que se apoiava para pretender que a herança prometida a Cristo no mundo inteiro lhe tinha sido tirada: Querimus ergo ut nobis respondere non graveris quam causam forte noveris quam factum est ut Christus amitteret hereditatem suam per orbem terrarum diffusam et subito in solis Afris nec ipsis omnibus remaneret.

— b) Euntes docete omnes gentes... Et ecce ego vobiscum sum usque ad consummationem seculi. Matth., xxviii, 19, 20. Em consequência, os apóstolos predicaverunt ubique, Domino cooperante, et sermonem confirmante. Marc., xvi, 20. Assim, a assistência prometida por Jesus Cristo compreendia uma especial cooperação. Esta não podia, portanto, deixar de produzir o resultado querido por Deus, a catolicidade de fato, durante todo o tempo em que durasse a cooperação divina, da qual a palavra apostólica deveria tirar sua eficácia, isto é, até ao fim dos séculos.

4. As citações patrísticas feitas acima e as trazidas mais acima para justificar a noção de catolicidade estabelecem plenamente, segundo os Padres: a) que a difusão efetiva da Igreja em todo o universo era um fato querido por Deus e predito por Ele nas Escrituras; b) que esta difusão universal constitui um modo de existência especial à Igreja de Jesus Cristo, a tal ponto que esta Igreja tira daí o seu sobrenome de católica. Trata-se, portanto, de uma Igreja única que não poderia deixar de ser espalhada por toda parte sem deixar de ser ela mesma. A unanimidade da tradição é tal que se tem o direito de sustentar esta doutrina como teologicamente certa.

5. Diversas dificuldades foram levantadas, seja contra a existência, seja contra a perpetuidade da catolicidade de fato: a) A universalidade da redenção, disse-se, consiste em que a vontade salvífica e as graças do Salvador se dirigem a todos, pois está escrito que, se todos são chamados, há poucos eleitos. Do mesmo modo, e pela mesma razão, a catolicidade essencial, fundamental, apologética, está na missão e na vontade eficaz, realmente sustentada pela graça divina, de pregar o Evangelho a toda criatura. Cf. «Eglise», ut, no Dictionnaire apologétique de la foi catholique. Esta comparação é visivelmente defeituosa. Nem todos os membros da Igreja serão salvos; consequentemente, o pequeno número dos eleitos, se existir, não impede por si que a Igreja possa ter, em todos os tempos e em todo lugar, toda a difusão que pede a catolicidade de fato. Ora, Deus predisse que ela possuiria esta difusão universal e os Padres tiveram principalmente em vista este fato da difusão, já, dizem eles, realizada em seu tempo, quando dão à Igreja o nome de católica. Quanto à livre cooperação do homem, ela permanece necessária e não é de modo algum impedida pela infalibilidade da catolicidade de fato. Deus, diz santo Agostinho respondendo a semelhante objeção dos donatistas, previu o que os homens fariam livremente. Quasi vero nescierit Spiritus Dei futuras hominum voluntates... Cur ergo non hoc potius prenunciavit quod de voluntatibus hominum sciebat esse futurum? De unitate Ecclesia, c. ix, col. 407.

Isso não impede que Deus ponha a mão na realização desta profecia, não apenas, como diz a objeção, ajudando com sua graça a vontade da Igreja de pregar por toda parte o Evangelho, mas ainda cooperando, Domino cooperante, com a pregação da Igreja. É fácil compreender que Deus possa dar à palavra de seus pregadores uma eficácia que produza o resultado querido e que este resultado não exclua de modo algum a necessária e muito livre cooperação do homem. Com efeito, a catolicidade de fato supõe simplesmente que no mundo inteiro haverá visivelmente fiéis: ela não os determina individualmente, ela não fixa sequer o número nem a repartição entre as diferentes regiões. Quanto à perpetuidade da catolicidade de fato, ela é simplesmente um corolário da predição de Jesus Cristo: Et portae inferi non prevalebunt adversus eam. Matth., xvi, 18.

b) Para mostrar que a Igreja não deveria permanecer sempre católica, os donatistas interpretavam no sentido de uma apostasia final do mundo as palavras de Jesus Cristo: Filius hominis veniens, putas, inveniet fidem in terra ? Luc., xviii, 8. — Santo Agostinho respondia, De unitate Ecclesia, c. xv, P. L., t. XLIII, col. 420: Tanquam dubitans hoc Dominus dicit, Neque enim ait: Veniens Filius hominis non inveniet fidem in terra, sed : Putas inveniet fidem in terra? Cui utique cuncta scienti et prescienti de aliqua re dubitare non convenit, sed illius dubitatio nostram dubitationem figuravit propter multa scandala circa finem seculi pullulantia, hoc erat quandoque infirmitas humana dictura.

c) Sabe-se que em 359 numerosos bispos subscreveram a fórmula ariana de Rimini e de Selêucia. São Jerônimo diz a esse respeito: Ingemuit totus orbis et arianum se esse miratus est. Cont. Luciferian., n. 19, P. L., t. xxiii, col. 172. Parece, portanto, que nessa época a catolicidade naufragou. — Concluir-se-á diferentemente se observarmos que o próprio São Jerônimo, na obra citada, assume a tarefa de defender os bispos em questão da acusação de heresia. Além disso, esses bispos formavam apenas uma pequena parte da catolicidade. Santo Agostinho, Contra Crescon., l. III, c. iii, n. 3, P. L., t. XLIII, col. 497, diz, com efeito, que o erro de Novato foi condenado por vários milhares de bispos. Ora, tanto em Rimini quanto em Selêucia, eles dificilmente passavam de quinhentos. Santo Atanásio, fazendo o recenseamento das Igrejas fiéis à fé do concílio de Niceia, declara mesmo que o arianismo tinha a seu favor apenas algumas Igrejas do Oriente, paucis exceptis quae Arii heresim sequuntur. Ad Jovian. epist. de fide, n. 2, P. G., t. xxvi, col. 815. Além disso, a catolicidade exige apenas que a Igreja tenha em seu seio a maioria dos bispos católicos, e não a de todos os bispos de ordens espalhadas por todas as seitas heterodoxas tomadas em conjunto. Vacant, Le magistère ordinaire de l’Eglise et ses organes, Paris, 1887, p. 85-87.

2º A ubiquidade da Igreja entende-se no sentido moral; ela é simultânea e não sucessiva.

1. A Escritura e a tradição formulam com uma nitidez perfeita certas restrições à catolicidade que atribuem à Igreja.

a) A Igreja só pode existir onde o Evangelho foi pregado, Quo modo credent ei quem non audierunt ? Quomodo autem audient sine predicante? Rom., x, 14. Ora, o Evangelho só terá sido pregado por toda parte nos últimos tempos do mundo. Predicabitur hoc evangelium in universo orbe, in testimonium omnibus gentibus et tunc veniet consummatio. Matth., xxiv, 14. É somente quando as nações tiverem podido entrar na Igreja que os judeus se converterão, diz São Paulo, Rom., XI, 25: Cæcitas ex parte contigit in Israel donec plenitudo gentium intraret ; mas, segundo Oseias, III, 4, 5, esse retorno dos judeus só ocorrerá bem no fim do mundo: Revertentur filii Israel et querent Dominum Deum suum... in novissimo dierum.

b) Aliás, em toda época, a palavra evangélica encontrará refractários. Non omnes obediunt Evangelio. Rom., x, 16. Jesus Cristo dissera ele mesmo: Qui non crediderit, condemnabitur. Marc., xvi, 16. Haverá mesmo, em todo tempo e lugar, homens que perseguirão a verdade na pessoa de seus pregadores. Tradent vos in tribulationem et occident vos et eritis odio omnibus gentibus propter nomen meum. Matth., xxiv, 9. A última perseguição será a mais terrível: Erit... tunc tribulatio magna qualis non fuit ab initio mundi usque modo, neque fiet. Matth., xxiv, 21.

c) Finalmente, haverá deserções entre os fiéis, oportet haereses esse, I Cor., xi, 19 (II Tim., iv, 3), e isso até o fim do mundo: Spiritus manifeste dicit quia in novissimis diebus discedent quidam a fide. I Tim., iv, 1. Trata-se aqui da discessio contemporânea do Anticristo. II Thess., ii, 3.

d) Vários desses textos foram interpretados por Santo Agostinho em uma de suas cartas, Epist., XCIX, de fin. saec., P. L., t. XXXIII, col. 364, onde, após ter citado Rom., x, 14, 15, ele continua assim: In quibus ergo gentibus nondum est Ecclesia, oportet ut ones, qui ibi fuerint credant : omnes enim gentes promissae sunt, non omnes homines omnium gentium : in ceteris non credit et credentes odit. Quomodo enim et illud implebitur: Eritis odio omnibus propter nomen meum nisi in omnibus gentibus sint et qui oderint et quos oderint.

2. A catolicidade da Igreja significa, portanto, uma universalidade apenas moral, largamente entendida. Assim, ela não abrange as regiões onde o Evangelho não teria ainda penetrado, regiões ainda desconhecidas ou momentaneamente inacessíveis ou obstinadamente fechadas à Igreja pela malícia dos povos. Mesmo onde o Evangelho penetrou, a catolicidade de fato não exige que a Igreja não tenha mais ninguém a converter, nem mesmo que ela aí seja dominante, nem, enfim, que se em algum lugar ela adquiriu essa preponderância, a conserve para sempre. Para que a Igreja possua a catolicidade moral, é necessário e suficiente que, do seu centro de propagação, isto é, de Jerusalém e da Palestina, o Evangelho tenha se espalhado progressivamente nas diferentes direções do mundo, e que, em seu seguimento, tenham se fundado Igrejas particulares, todas unidas entre si por sua submissão à mesma autoridade de magistério e de governo.

Aqui se verão Igrejas em estado nascente, acolá estarão florescentes, mais adiante terão sido dizimadas pela heresia ou pela perseguição; haverá mesmo regiões de onde terão desaparecido e outras onde não terão podido ainda se fundar; não obstante, a sua difusão terá tal amplitude que a sua universalidade será manifesta e que se poderá dizer que, com as suas malhas mais ou menos cerradas, segundo os tempos e segundo os lugares, a rede do pescador cobre todo o universo.

A grande maioria dos teólogos concorda em rejeitar a hipótese emitida por Belarmino de uma catolicidade puramente sucessiva e sustenta que, de acordo com a Escritura e os Padres, para ser católica, a Igreja deve estar simultaneamente presente em todo o universo no sentido moral amplo acima explicado.

Com efeito: a) As profecias da Escritura só podem entender-se de uma catolicidade simultânea. A herança prometida a Cristo: Dabo tibi gentes hereditatem tuam et possessionem tuam terminos terrae, Ps. II, 8, abrange necessariamente, ao mesmo tempo, o universo inteiro. A pequena pedra que se tornará uma grande montanha e encherá o mundo inteiro até o fim dos tempos é, em Daniel, a figura da Igreja; portanto, esta estará presente sem descontinuidade, e ao mesmo tempo por toda parte. Finalmente, se observarmos que, em Malaquias, o sacerdócio católico é oposto ao sacerdócio levítico, que era limitado a uma nação, o texto: Ab ortu solis usque ad occasum... in omni loco sacrificatur oblatio munda, toma necessariamente a significação de uma catolicidade simultânea.

b) O mesmo se dá nos Padres. O nome de catolicidade é para eles sinônimo da difusão visivelmente universal da Igreja na época em que escrevem. Em suas obras contra os heréticos, reprocham-lhes constantemente o fato de serem uma seita local em ruptura com a unidade de fé visível na Igreja espalhada por toda parte; por vezes, inclusive, para mostrar que ela é realmente ubique diffusa. S. Optat de Milève, Cont. Parmen., l. II, P.L., t. XI, col. 942 sq. Enfim, declaram expressamente que a Igreja nunca pode ser diminuída a ponto de ocupar apenas um canto do mundo. Assim, santo Agostinho, após anunciar em seu livro, De unitate Ecclesiae, que seu objetivo é investigar onde está a Igreja: Inter nos et donatistas quaestio est : ubi sit Ecclesia, c. II, demonstra que ela deve estar ao mesmo tempo espalhada por toda parte e conclui, c. xix, convidando os donatistas a provar que ela poderia estar reduzida a encontrar-se apenas na África. Tale aliquid proferte vel unum quo apertissime Africa declaretur, vel in reliquis sola derelicta, vel ad principium renovandi et implendi orbis sola servata.

c) As razões trazidas por Belarmino são, aliás, insuficientes. Não é necessário, diz ele, que a Igreja, para ser católica, exista em todos os lugares do mundo. Sem dúvida, mas isso não contradiz a necessidade de uma difusão moral e simultaneamente universal. O mesmo teólogo acrescenta que, mesmo reduzida a uma única província, a Igreja não deixaria de ser católica, desde que essa província tivesse mantido manifestamente a fé da Igreja católica dos tempos anteriores; mas essa afirmação não é exata. A província em questão seria, na realidade, toda a Igreja católica, e isso não pode ser, uma vez que a catolicidade própria da Igreja consiste em uma difusão universal e perpétua da Igreja no mundo.

3° A catolicidade moral e simultânea é uma nota da verdadeira Igreja.

1. Entre as propriedades que pertencem exclusivamente à verdadeira Igreja, várias são naturalmente visíveis e fornecem, desde logo, uma espécie de sinalização que permite reconhecer essa Igreja onde quer que ela exista: é por isso que se deu a essas propriedades o nome de notas da Igreja. A catolicidade é uma dessas notas. Com efeito, o fato da ampla difusão de uma sociedade religiosa no mundo inteiro é, por si, fácil de constatar: por outro lado, esse mesmo fato é uma propriedade exclusiva da Igreja fundada por Jesus Cristo. Este último ponto apenas deve ser estabelecido.

a) Os textos frequentemente citados da Escritura expressam claramente que a herança universal de Jesus Cristo, que a montanha que deve cobrir toda a terra são únicas em seu gênero e que nenhum culto universal se estabelecerá ao lado daquele que, da aurora ao poente, substituirá a religião particularista de Israel. É por isso que santo Agostinho, In Epist. Joa., tr. iii, n. 7, P. L., t. xxxv, col. 2001, partindo deste princípio de que não há duas heranças de Cristo, dizia aos donatistas: Tenemus Christi hereditatem : illi eam non tenent : non communicant orbi terrarum : non communicant universitati redemptae sanguine Domini.

b) A catolicidade significa a difusão em todo o universo da Igreja una e indivisível fundada por Jesus Cristo, e não a dispersão de diferentes Igrejas através do mundo. Portanto, sem a unidade de fé e de governo estabelecida por Jesus Cristo, não há verdadeira catolicidade. Mas esta fé, cuja catolicidade expressa a unidade universal, é a fé pregada pelos apóstolos; este governo, ao qual estão submetidos todos os fiéis no mundo inteiro, é o dos legítimos sucessores dos apóstolos. Portanto, ainda, sem apostolicidade, não há catolicidade. Consequentemente, a catolicidade é exclusivamente própria da verdadeira Igreja e a faz conhecer ao mesmo título que as duas notas que ela subentende. O vínculo dessas três coisas: unidade, catolicidade, apostolicidade, é colocado em evidência pelos Padres mais antigos, como testemunha santo Irineu, Cont. hær., iv, 33, n. 8, P. G., t. vii, col. 1077: Agnitio vera est doctrina apostolorum et antiquus Ecclesiæ status in universo mundo et character corporis Christi secundum successiones episcoporum quibus illi eam quæ in unoquoque loco est Ecclesiam tradiderunt. Cf. Franzelin, De div. trad., th. vi, vii.

c) Lembremos, enfim, o uso constante que os Padres, em seus escritos contra os heréticos, fizeram da catolicidade como um critério da verdade da Igreja que possui esta nota e da falsidade das seitas de onde ela está ausente.

d) Pode-se objetar que, se a catolicidade fosse uma nota da Igreja, ela teria existido, assim como a unidade e a apostolicidade, desde o início da Igreja. Ora, não é assim com a catolicidade de fato. É preciso responder que a catolicidade não é, como a unidade e a apostolicidade, uma nota constitutiva da Igreja: esta podia existir una e apostólica antes de ter atingido seu tamanho normal, medido pela catolicidade.

De fato, Jesus Cristo quisera que o Evangelho fosse anunciado primeiro em Jerusalém, na Judeia e em Samaria, aos gentios no mundo inteiro. Não obstante, a Igreja acusou, desde suas origens, sua tendência à catolicidade. Quando, ao sair do cenáculo, os apóstolos falaram a cada um de seus primeiros ouvintes em sua própria língua, isso pressagiava, dizem os Padres, que a Igreja falaria todas as línguas do universo. Cf. Hurter, SS. Patr. opuscula selecta, t. xxvii, p. 187 sq. São Paulo podia já dizer que o Evangelho era pregado por toda parte, Rom., i, 8; cf. i, 23, e santo Inácio mártir mostrava aos fiéis de Esmirna os bispos espalhados por todo o universo, episcopi per orbem sparsi.

2. Desde que a nota de catolicidade distingue a verdadeira Igreja das seitas heréticas ou cismáticas, nunca poderá acontecer que nenhuma delas se estenda a ponto de eclipsar a universalidade da verdadeira Igreja. Ou bem ela permanecerá puramente local, ou bem, ao se estender, dividir-se-á. Sarmenta ubi præcisa sunt ibi remanserunt, dizia santo Agostinho das heresias de seu tempo. Serm., xlvi, de cura pastor., c. viii, n. 18, P. L., t. xxxviii, col. 280. Mas não poderia acontecer que o número de adeptos de uma seita confinada em alguma parte do mundo viesse a igualar ou a superar o número dos católicos? Suarez, Defensio fidei, l. i, c. xvi, n. 8, diz muito justamente que não se deve confundir o número dos fiéis com sua difusão; que esta é elemento essencial da catolicidade. É, portanto, possível, absolutamente falando, conclui ele, que o número total dos heréticos, ou mesmo o dos adeptos de uma única seita, supere o dos católicos.

3. Pode-se, enfim, perguntar se a catolicidade não seria um motivo de credibilidade que permitiria demonstrar diretamente a divindade da Igreja? É preciso responder afirmativamente com o concílio do Vaticano que, Const. de fide, c. III, Denzinger, n. 1042, coloca a unidade católica, catholicam unitatem, no número dos motivos de credibilidade. Jamais, com efeito, de outra forma que não por uma intervenção divina, o mesmo credo poderia ter-se imposto desde tantos séculos, apenas pela força da convicção e apesar de tantos obstáculos, no mundo inteiro, a nações de civilizações tão diferentes e a homens de toda condição social. Como se vê, a catolicidade da Igreja está intimamente ligada a dois outros motivos de credibilidade, a admirável propagação e a invencível estabilidade da Igreja, duplo milagre de ordem moral sem o qual a perpétua catolicidade da Igreja não saberia ser explicada. A validade desta prova não é enfraquecida pelo fato de que os infiéis são muito mais numerosos do que os filhos da Igreja. Estes últimos não formam menos uma sociedade considerável pelo número e que, por sua difusão universal, se impõe ao mundo inteiro. É assim, diz Santo Agostinho, Cont. Faust. l. xl, cc. xlviii, t. VIII, col. 294, que numa colheita, é o bom grão que prevalece, embora a palha faça mais volume. Agnoscenda est paucitas illa quam Dominus precipue commendat in ingenti atque innumerabili multitudine toto orbe diffusa ; que paucitas tanquam granorum in comparatione multitudinis palearum paucitas dicitur; per se autem tantam massam frumenti facit ut omnes... incomparabili multitudine surgeret.

1. Somente a Igreja católica romana possui a verdadeira catolicidade. — Há lugar para examinar separadamente as seitas protestantes, depois as Igrejas cismáticas do Oriente e da Rússia, enfim a Igreja católica romana.

2. Por sua vez, as seitas protestantes podem ser consideradas coletivamente ou isoladamente. — a) Tomadas coletivamente, as seitas protestantes não têm entre si nenhum vínculo de unidade, ver Unidade, pois o nome de protestantismo, que parece reuni-las, é apenas um nome de guerra e significa simplesmente que elas rejeitam a fé e a autoridade da Igreja romana. Em realidade, elas formam tantas Igrejas distintas pelo nome que carregam oficialmente, por seus símbolos ou confissões de fé, enfim pela autoridade suprema, geralmente nacional, que reconhecem em matéria religiosa. Consequentemente, estivessem eles espalhados por todo o universo, os protestantes não formariam uma única Igreja espalhada por toda parte. Por outro lado, as condições nas quais o protestantismo nasceu, se propagou e viveu não são de forma alguma aquelas que deveriam, pela vontade de Jesus Cristo, preparar, acompanhar e conservar a catolicidade de fato. A Igreja deveria nascer em Jerusalém, ao sair do cenáculo; de lá, ela se espalharia por toda parte convertendo os gentios e, prolongando-se assim no espaço e no tempo, ela não cessaria de permanecer a mesma. Ao contrário, o protestantismo, nascido quinze séculos tarde demais, repudiou desde logo a catolicidade ao submeter-se por toda parte à autoridade civil; seus progressos vieram-lhe da defecção de populações até então católicas e não da conversão dos gentios, obra da qual ele só tardiamente se ocupou; cf. Kirchenlexikon, art. Mission, t. vi, col. 1614 sq.; enfim, ao expandir-se, o protestantismo dividiu-se em seitas independentes que quase nada conservaram da doutrina que ensinava no início.

b) Pelos mesmos motivos, nenhuma das seitas protestantes pode pretender a catolicidade. O anglicanismo é a única que pode deter por um instante a atenção em razão de sua unidade e de sua difusão aparente. Contavam-se, em 1879, cf. Ragey, L’anglocatholicisme, p. xlvi sq., espalhados por todos os pontos do globo, 277 bispos anglicanos em comunhão com a sede de Cantuária. Mas percebe-se imediatamente que todas essas sedes episcopais, salvo oito ou dez, estão estabelecidas nos países de colonização ou de dominação inglesa. Seu conjunto pode bem formar uma Igreja inglesa, mas não uma Igreja católica, isto é, internacional. Esse caráter de particularismo é nitidamente acusado no artigo 27 da Confissão anglicana (1562), onde a autoridade religiosa suprema é devolvida ao poder real. Essa autoridade não pode, aliás, exercer-se senão no Reino Unido. Fora dele, os bispos anglicanos, isto é, quase dois terços, não estão unidos a Cantuária senão pelos vínculos de uma comum simpatia e não pela submissão e pela obediência. Entre eles, nenhum vínculo legal. Enfim, do ponto de vista da fé, sem falar das divergências doutrinárias que existem entre a Alta, a Larga e a Baixa Igreja, os anglicanos estão divididos sobre um número de pontos da mais alta importância.

Alguns, mesmo entre os dignitários dessa Igreja, rejeitam a doutrina da trindade, a divindade de Nosso Senhor e a necessidade de pertencer a uma Igreja qualquer. A unidade falta, portanto, totalmente ao anglicanismo. É bastante dizer a inanidade do sonho que ele acaricia de uma união em corpo com a Igreja católica romana, união cuja base seria o reconhecimento por Roma deste princípio, de que a Igreja anglicana é uma porção da Igreja de Jesus Cristo. Esse sonho tem, contudo, o mérito de mostrar que o anglicanismo sente a necessidade de uma catolicidade que lhe falta manifestamente.

3. A maioria das observações precedentes aplica-se igualmente à Igreja cismática do Oriente, a da Rússia inclusa.

— a) Esta Igreja carece da unidade e da difusão necessárias, pois está dividida em diferentes patriarcados independentes uns dos outros, e que todos reunidos não têm autoridade além das fronteiras do antigo império dos Turcos ou do dos Russos. O cisma oriental, ele também, deve sua existência à defecção de Igrejas particulares que se puseram assim fora da unidade católica: quanto a converter, segundo a ordem de Cristo, as nações infiéis, nem os Gregos nem os Russos tiveram, a bem dizer, preocupação. Cf. Kirchenlexikon, loc. cit., col. 1635 sq. Eles creem, contudo, na Igreja católica, no sentido de que a Igreja não está limitada a nenhum tempo, a nenhum lugar, a nenhum povo, ou ainda que sua fé, que, dizem eles, é também a deles, se espalhou no mundo inteiro, mas eles não ousam afirmar que sua Igreja possua de fato essa universal difusão. Cf. Wilmers, De Ecclesia Christi, n. 342.

— Com muito mais razão, nenhuma das partes do cisma oriental, nem a Igreja grega sozinha, nem a Igreja russa, podem reivindicar a nota de catolicidade. Contudo, não se poderia dizer que elas são uma parte da Igreja universal da qual a outra fração seria a Igreja do Ocidente? Esta hipótese mesma é insustentável, uma vez que todos os vínculos de união entre as Igrejas cismáticas do Oriente e a Igreja ocidental estão rompidos. Elas não possuem a fé da Igreja ocidental, uma vez que negam a primazia do papa e a PROCESSÃO do Espírito Santo a Patre Filioque; elas estão separadas da Igreja ocidental, uma vez que não reconhecem no papa o chefe supremo da Igreja; não podem, portanto, formar com os ocidentais uma única Igreja que seja católica. Digamos, enfim, que se a Igreja devesse resultar desta federação de Roma com o Oriente cismático, seria preciso concluir que a Igreja deixou de existir pelo fato da ruptura entre essas duas frações da Igreja.

3. A Igreja dita católica romana possui manifestamente a nota de catolicidade.

— a) O que me retém na Igreja, dizia santo Agostinho, Cont. epist. Manich. fundament., c. iv, n. 5, P. L., t. XL, col. 175, é o nome de católica que se dá a ela somente, a tal ponto que nenhum herético, quando um estrangeiro lhe pergunta onde se reúnem os católicos, ousa indicar a sua igreja ou a sua casa de oração, e contudo todos eles querem que os chamem de católicos. É claro que este fato, cuja atualidade é sempre surpreendente, é uma confissão imposta pela própria evidência.

— b) Com efeito, a Igreja romana, cuja unidade é a mais estreita que se possa imaginar, está manifestamente difundida em todo o universo. Seus bispos e seus estabelecimentos de missões são vistos em todos os pontos do mundo; seus fiéis falam todas as línguas do globo e pertencem a todas as nacionalidades que o partilham. O seu número é, aliás, imponente: sob este aspecto, como sob o ponto de vista geográfico, nenhuma seita cristã pode comparar-se à Igreja romana. Parece mesmo que esta Igreja supera numericamente todas as seitas reunidas. A sua catolicidade, tanto absoluta quanto relativa, está, portanto, fora de dúvida. Cf. Werner, Orbis catholicus.

— c) Jesus Cristo quis que a sua Igreja se tornasse católica pela conversão das nações, e que o permanecesse sempre. Ora, a catolicidade da Igreja romana apresenta, em grau surpreendente, este duplo caráter. Esta Igreja converteu todas as nações onde pôde ter acesso, e continua esta obra capital contra todos os obstáculos, tal é potente o impulso interno que a leva a fazer penetrar por toda parte o Evangelho. Sem dúvida, no curso dos séculos, ela sofreu graves defecções, aquelas, por exemplo, devidas ao cisma do Oriente ou da grande heresia protestante, mas a sua catolicidade não foi eclipsada por estes dolorosos eventos. Constata-se, com efeito, que nas épocas em que eles ocorrem, a Igreja romana reparava alhures as suas perdas por novos acréscimos. Assim, no tempo que decorreu entre o início do cisma de Constantinopla (século XI) e a defecção total da Rússia (por volta de meados do século XV; cf. Pierling, La Russie et le Saint-Siège, Paris, 1896), a Igreja tomava pé e se estabelecia na Alemanha setentrional, na Noruega, na Finlândia, na Lituânia, na Transilvânia, para não falar apenas da Europa; assim, no século XVI, a conversão das Índias ocidentais e da América espanhola vinha equilibrar e ultrapassar as perdas causadas pelo protestantismo. Graças a essas compensações providenciais, a Igreja romana sempre conservou, não obstante todas as deserções, o glorioso sobrenome sob o qual os séculos não cessaram de designá-la com são Paciano: Christianus mihi nomen, catholicus cognomen. Bellarmin, De conciliis et Ecclesia, l. IV, c. 11; Suarez, De fide, disp. III; Defensio fidei, l. I, c. XIV sq.; Murray, Tract. de Ecclesia Christi; Mazzella, De Ecclesia; Wilmers, De Ecclesia Christi, Ratisbonne, 1897; Kirchenlexikon, art. Kirche; Dictionnaire apologétique de la foi catholique, art. Eglise, III; J. Turmel, Histoire de la théologie positive depuis l’origine jusqu’au concile de Trente, Paris, 1904, p. 163-166, 242.

Autor original: H. Moureau

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