CATEQUESE

CATEQUESE

CATÉCHÈSE. — I. Durante os dois primeiros séculos. II. Do início do século III ao fim do século V. III. A partir do século VI.

I. DURANTE OS DOIS PRIMEIROS SÉCULOS. — 1° Noção. = A palavra catequese, xatńxnous, vem do verbo xarnxeiv que significa, propriamente, retumbar, fazer retumbar, e, em sentido figurado, ensinar de viva voz, instruir oralmente, sendo a palavra do mestre o eco à interrogação do discípulo, e a resposta do discípulo à questão do mestre. É neste último sentido que, dentre os escritores do Novo Testamento, apenas São Lucas e São Paulo empregaram o verbo xarnxeiv. De acordo com Atos, XVIII, 25, com efeito, Apolo era xarnxnuevos thy ódov tou Kupiou; São Lucas compõe seu Evangelho para lembrar a Teófilo o que ele já aprendeu, nepi wv xatnxnons, Luc., I, 4. São Paulo fala na éxxanoia para instruir iva xatnxnow, I Cor., XIV, 19, e quer que aquele que é instruído, ó xatnxouuevos, comunique-se com aquele que o catequiza, tu xatnxouvi, Gal., VI, 6. Daí, entre os Padres gregos, o emprego da palavra xatńxnous, e entre os Padres latinos a palavra catechesis, para designar tanto a ação de ensinar quanto o ensinamento em si ou seu objeto. Mas com a organização do catecumenato, este termo assume um sentido mais preciso e mais restrito: aplica-se muito particularmente ao ensinamento oral que serve de preparação para o recebimento do batismo e que, por conseguinte, dirige-se apenas a não iniciados. Cf. Crocquet, Catecheses christianæ, Douai, 1574, p. 5; Witfelt, Theologia catechetica, Munster, 1656, p. 2; Gilbert, Christianæ catecheseos historia, Leipzig, 1836, t. I, p. 1 sq.; Zezschwitz, System der christl. Katechetik, Leipzig, 1863, t. I, p. 17 sq.

2° A catequese apostólica. — O caminho a seguir na evangelização tinha sido claramente indicado por Nosso Senhor: Ensinai, tinha Ele dito; era o primeiro passo a dar. Qualquer um que desse fé à palavra do apóstolo recebia o batismo e tornava-se cristão. Os apóstolos pregam primeiro, batizam depois. São Leão Magno pôde dizer com razão que é conforme a prescrição dos apóstolos que os eleitos são preparados para o batismo por um ensinamento repetido. Epist., XVI, 6, P. L., t. LIV, col. 702.

Mas o que ensinavam os apóstolos? Qual foi o objeto da catequese apostólica? Este objeto variava forçosamente segundo os ouvintes aos quais se dirigiam. Em relação aos judeus, por exemplo, todo o debate se resumia em saber se Jesus era verdadeiramente o Messias anunciado, se Ele era Deus. É o que explica o discurso pronunciado por São Pedro após a descida do Espírito Santo: «Jesus de Nazaré foi um homem autorizado por Deus com milagres, prodígios e sinais que Deus operou por seu intermédio entre vós. Vós o crucificastes. Mas Deus o ressuscitou segundo a profecia de Davi, quando dizia ao Senhor: «Não deixareis « minha alma na habitação dos mortos, nem permitireis « que o vosso santo conheça a corrupção.» Irmãos, seja-me permitido dizer-vos ousadamente de Davi que ele morreu, que foi sepultado e que seu sepulcro está entre nós até este dia... Em sua presciência do futuro, foi da ressurreição do Cristo que ele falou, ao dizer que não foi deixado na habitação dos mortos e que sua carne não conheceu a corrupção. É a este Jesus que Deus ressuscitou, e nós todos somos testemunhas disto... Davi não subiu aos céus... Saiba, pois, com certeza toda a casa de Israel que Deus fez Senhor e Messias este Jesus que vós crucificastes.» Atos, II, 22-36.

A maioria dos ouvintes perguntando o que tinham a fazer, Pedro lhes respondeu: «Arrependei-vos e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para a remissão dos vossos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo.» Ibid. Junto aos judeus da diáspora, na sinagoga dos libertos de Roma, dos cireneus, dos alexandrinos, dos cilícios, dos asiáticos, Santo Estêvão vai mais longe: ele exalta Jesus acima de Moisés; ele declara sua doutrina independente dos ritos e das prescrições da lei, o que é o aviso de saída dado à antiga aliança. Diante de seus juízes, exclama: «Homens de dura cerviz, incircuncisos de coração e de ouvidos, vós resistis sempre ao Espírito Santo, vós assim como vossos pais.» Atos, VII-VIII. Estas poucas indicações já bastam para caracterizar a catequese apostólica junto aos judeus. Mas a Epístola aos Hebreus é mais explícita. Seu autor distingue entre o leite que se dá apenas aos principiantes e o alimento sólido que se reserva para os mais avançados. Ora, entre os elementos constitutivos deste ensinamento preliminar ou desta catequese, ele assinala, como fundamento, o arrependimento, depois a fé em Deus, a doutrina do batismo, da imposição das mãos, da ressurreição dos mortos e do juízo eterno. Heb., V, 12; VI, 1-2.

Todo outro é o ritmo da catequese apostólica dirigida aos gentios; e isto se compreende, pois os gentios não são preparados como os judeus; seu paganismo oferece um primeiro obstáculo a vencer. Era, portanto, necessário derrubar primeiramente este obstáculo antes de lhes propor abraçar a fé. Ora, eis como São Paulo falou ao areópago de Atenas. Tomando o texto desta inscrição: Ao Deus desconhecido, que ele acabou de ler, ele anuncia este Deus desconhecido. «É Ele, disse ele, que fez o mundo e tudo o que nele existe, sendo o Senhor do céu e da terra. Não habita em templos feitos por mãos humanas, pois não necessita de nada, sendo Aquele que dá a vida, o fôlego e todas as coisas. Fez de um só sangue todas as nações, obrigando-as a buscá-lo e encontrá-lo. É n'Ele que vivemos, que nos movemos e que somos. Como disseram alguns dos vossos poetas, somos de sua raça. Sendo, pois, de sua raça, não devemos acreditar que a divindade se assemelha ao ouro, à prata, à pedra, a um objeto qualquer esculpido pela arte ou pelo gênio do homem. Esquecendo, pois, esses tempos de ignorância, Deus ordena agora aos homens que todos, em todo lugar, se arrependam, porque determinou um dia em que deve julgar o mundo com justiça pelo homem que Ele destinou a isso e que Ele autorizou perante todos ressuscitando-o dentre os mortos.» Atos, XVII, 24-31.

Como se vê, é em poucas palavras a afirmação da existência de um só Deus, criador do céu, da terra e da humanidade, a condenação do paganismo, depois, como para os judeus, a necessidade de se arrepender, em vista do juízo futuro, ao qual presidirá Aquele que já ressuscitou dentre os mortos. Este discurso, interrompido pelos atenienses, deixa entrever a conclusão que era crer em Jesus Cristo e receber o batismo para ser salvo.

O quadro alargou-se; um elemento novo e necessário, a condenação do paganismo, introduziu-se na catequese e não desaparecerá mais. Seeberg, *Der Katechismus der Urchristenheit*, Leipzig, 1903, tentou restituir o catecismo que servia, no tempo dos apóstolos, para a instrução dos catecúmenos. Segundo ele, continha um ensino moral e um ensino dogmático. A indicação do ensino moral encontra-se em I Cor., iv, 17, na expressão «os caminhos», que a *Didaché* designa explicitamente como os dois caminhos da vida e da morte, da luz e das trevas. M. Seeberg reconstrói-os elaborando, a partir dos escritos apostólicos e pós-apostólicos, a lista dos pecados que os cristãos deviam evitar e a das virtudes que deviam praticar. Eph., v, 8-21; Rom., xii, 1, 2, 13; I Thess., v, 4; I Joa., i, 6, 7.

O ensino dogmático compreendia o símbolo da fé proposto por São Paulo. I Cor., xv, 1-5. Contudo, na opinião de Seeberg, a fórmula não era reproduzida pelo apóstolo em sua totalidade e deve ser completada por outras passagens de suas Epístolas. A mesma fórmula de fé encontrar-se-ia em I Pet., ii, 18, 22; iv, 5, em um estado um pouco diferente. Ela é, aliás, suposta como existente nas Epístolas pastorais, nomeadamente I Tim., iii, 16, por São Lucas em seu Evangelho e nos Atos, e na Epístola aos Hebreus. Este símbolo primitivo continha uma frase sobre Deus criador de todas as coisas, uma série de afirmações sobre o Filho de Deus, que se assemelhavam, se é que não eram idênticas, aos artigos correspondentes do símbolo atual dito dos apóstolos. Não falava do Espírito Santo e não dava a Jesus Cristo a denominação de Κύριος.

A catequese apostólica devia compreender ainda outras partes, a saber: instruções sobre o batismo, cuja forma não expressava a trindade das pessoas divinas, sobre a comunicação do Espírito que acompanhava o batismo, sobre a oração dominical e sobre a eucaristia. Estas instruções já eram formuladas de uma maneira fixa e transmitidas textualmente, pelo menos em certa medida. Estas conclusões repousam em parte sobre considerações que não são fundadas, tais como, por exemplo, a não autenticidade da fórmula batismal, Matth., xxviii, 19, e supõem combinações de textos que são frágeis e vacilantes.

3° A *Didaché*. — A *Didaché* é uma testemunha da época que seguiu imediatamente a dos apóstolos e nos oferece, em sua primeira parte, um modelo de catequese dirigida a catecúmenos antes da conferência do batismo sob a forma de uma brevíssima instrução moral — dir-se-ia um manual — sobre os Dois caminhos, o caminho da vida e o caminho da morte. O caminho da vida é aquele que se deve seguir praticando o duplo preceito evangélico, o amor a Deus e ao próximo, e este princípio de ordem geral: Não faças aos outros o que não queres que te façam. O caminho da morte é aquele que se deve evitar não cometendo os pecados que são enumerados. Ver t. I, col. 1683-1684; *Doctrina duodecim apostolorum*, edit. Funk, Tubinga, 1887, p. 3-21.

Esta catequese, é verdade, não encerra explicitamente nada do que se deve crer; ela se atém exclusivamente aos preceitos da vida moral. Mas é evidente que aqueles a quem ela é dirigida não deixaram de manifestar o desejo de renunciar à vida pagã para fazer profissão de vida cristã, com base em um conhecimento, rudimentar, se se quiser, mas suficiente e já adquirido do erro do paganismo e da verdade do cristianismo. E é por isso que se lhes indica apenas o que têm a praticar para receber o batismo, acrescentando-se as obras, seja de penitência como o jejum, seja de oração, em particular a ação de graças sobre o κλάσμα e o κλῆμα, sobretudo a oração por excelência ou oração dominical.

4° É tudo o que resta como catequese durante os dois primeiros séculos. Existem contudo outras obras que, manifestamente, refletem o método e o objeto do ensino dado aos pagãos daquela época para incitá-los a se tornarem cristãos, tais como, por exemplo, a primeira *Apologia* de São Justino, em Roma, e a *Exortação aos Gregos* de Clemente, em Alexandria. Por um lado, de fato, apesar da desordem e da irregularidade de sua *Apologia*, São Justino nos permite distinguir estes pontos principais deste ensino: condenação da idolatria ou do paganismo; proclamação da unidade de Deus, da existência do Pai, do Filho e do Espírito Santo, do dogma da criação; prova da divindade de Jesus Cristo, Verbo de Deus, filho único de Deus, encarnado para salvar todos os homens, crucificado, ressuscitado e futuro juiz do gênero humano; recompensa eterna dos bons, castigo eterno dos maus. Dir-se-ia já uma notificação do símbolo. E esta exposição dogmática, tão diferente da catequese dos Dois caminhos, insiste mesmo junto aos gentios sobre a divindade de Jesus Cristo, provada pela existência e pela realização das profecias.

Por outro lado, o *Protréptico* de Clemente de Alexandria é um convite premente endereçado aos pagãos para fazê-los abandonar seus erros e prestar ouvidos ao ensino salutar do Verbo. Por que o abandono do paganismo? Em razão de seu absurdo e de suas ignomínias. Por que a adesão ao ensino de Cristo? Porque Cristo é o Verbo que teve piedade de nós desde o início e veio nos libertar; porque ele é o Deus feito homem que nos enviou o Paráclito para nos exortar ao conhecimento da verdade; porque ele é o caminho, a verdade, a vida, a salvação. Conclusão: Expiei vossos pecados por uma sincera penitência, lavai-os nas águas do batismo, apegai-vos a Jesus Cristo, abraçai sua doutrina, obedecei às suas leis para ter parte em sua herança; caso contrário, temei os castigos que não devem ter fim. Era o método de Teófilo de Antioquia em seus três livros a Autólico.

Assim, pois, exame do paganismo para difamá-lo e condená-lo, apelo à história para nela mostrar a intervenção misericordiosa de Deus em relação ao homem, evocação das lembranças evangélicas para assinalar o papel de Cristo salvador, considerações morais e ensino dogmático para fazer abraçar a fé e as práticas cristãs, único meio de salvar-se, de obter a recompensa ou de evitar o castigo da vida futura, tais são, em resumo, os pontos principais que formam a trama da catequese primitiva.

II. DO COMEÇO DO SÉCULO III AO FINAL DO SÉCULO V. — Desde que o catecumenato começa a funcionar como uma instituição regular, a catequese continua a buscar, por meio do ensino, a instrução religiosa e a educação moral daqueles aos quais se dirige.

Mas como estes pertencem a diversas categorias e não se encontram no mesmo grau de preparação, não sendo uns ainda senão simples postulantes, outros catecúmenos propriamente ditos, competentes ou neófitos, o catequista é obrigado a proporcionar seu ensino à situação e às necessidades imediatas de seus ouvintes. É evidente que aquele que acaba de ser iniciado pelo batismo será instruído de maneira diferente do competente, que o competente será tratado de outra forma que o catecúmeno, e o catecúmeno de outra forma que o simples postulante, que bate à porta da Igreja pela primeira vez. Daí, nas catequeses do período que vai do início do século III ao final do século V, diversas nuances que é importante compreender e caracterizar na medida do possível. Ver CATECHUMENAT.

1° Catequese de admissão ao catecumenato. — Uma catequese especial precedia a admissão ao catecumenato. Embora nenhuma catequese deste gênero tenha nos sido conservada pelos documentos do século III ou do século IV, o fato de sua existência não poderia ser posto em dúvida. Por outro lado, sendo o objetivo da catequese conduzir à fé, segundo a palavra de Clemente de Alexandria, etç mlotiv meptayet, Pedag., I, 6, P. G., t. VIII, col. 285, o objetivo particular da catequese de admissão era preparar os caminhos, traçar a marcha a seguir, bem como a conduta a manter, seja indicando os obstáculos que deviam ser afastados, seja notificando em seu conjunto e de maneira sumária as principais verdades a crer e os deveres a praticar.

Santo Ambrósio nos dá uma informação preciosa a este respeito. Ele escreve, com efeito, que é preciso agir em relação aos pagãos como São Paulo agira para com os membros do Areópago. Além disso, ele dá o programa a preencher: é, primeiramente, ensinar que não há senão um único Deus, que esse Deus é o senhor de tudo e que o dever do homem é amá-lo; é, em seguida, condenar e reprovar a idolatria; é, enfim, mostrar que Jesus Cristo trouxe a salvação, por conseguinte que é preciso crer nele, porque a história apenas do que ele fez sobre a terra até a sua ressurreição é uma prova de sua divindade. In Luc., VI, 104-105, P. L., t. XV, col. 1096-1097.

Se a resposta que ele fez in modum catechismi a Frigitil, rainha dos Marcomanos, que lhe havia pedido ut scriptis ipsius qualiter credere deberet, tivesse chegado até nós, não há dúvida de que teríamos aí um exemplo desse gênero de catequese. Vita Ambrosii, 36, P. L., t. XIV, col. 39.

Em contrapartida, podemos extrair informações não menos preciosas, seja da Grande catequese de São Gregório de Nissa, P. G., t. XLV, col. 9 sq., seja do De catechizandis rudibus de Santo Agostinho, P. L., t. XL, col. 309 sq. São Gregório, é verdade, apesar do título de seu discurso, não nos dá uma catequese propriamente dita ou uma alocução a pagãos; é, antes, uma lição para o uso dos catequistas sobre a maneira de realizar a catequese e, mais especialmente, de provar pelo raciocínio os mistérios da fé àqueles que não se submetem à autoridade da Igreja. Consequentemente, ele adverte os mestres cristãos a variar seus procedimentos segundo as necessidades de seus catequizandos, a se colocarem sempre no ponto de vista particular do adversário, a segui-lo passo a passo e a aproveitar de suas concessões para conquistar sua adesão. É de maneira diferente, efetivamente, que se deve agir conforme se fala a um pagão que nega a unidade de Deus, ou a um judeu que não crê em Jesus Cristo, ou a um herege que, ao atacar a divindade de Nosso Senhor, erra sobre a trindade. O procedimento indicado é o de um controversista ou de um apologista diante das dificuldades que se opõem aos dogmas cristãos, muito mais do que o de um catequista; sem dúvida porque os habitantes de Nissa deviam ter o espírito raciocinador dos gregos e não a simplicidade dos homens de boa vontade. Seja como for, o tom pode divergir, mas o objeto da catequese permanece o mesmo: é assinalar os principais dogmas, tais como o da trindade, da encarnação e da redenção, os dois sacramentos do batismo e da eucaristia, bem como a dupla sanção da vida eterna; e o objetivo é idêntico: é levar os infiéis à fé. Cf. J. H. Strawley, The catechetical oration of Gregory of Nyssa, in-8°, Cambridge, 1903.

Santo Agostinho é muito mais explícito; graças a ele, conhecemos o método e o objeto da catequese de que falamos. Atitude a ter, plano a seguir, matéria a tratar, é toda uma teoria desse gênero de catequese que ele endereça a Deogratias, diácono de Cartago, com dois exemplos ou modelos como suporte, um mais longo, outro mais curto, segundo o tempo de que se dispõe. 4. Trata-se de um iletrado, de um rudis et indoctus? — É preciso mostrar-lhe, antes de tudo, por uma rápida exposição da história do mundo, que tudo o que Deus fez, ele o fez por amor, a fim de levá-lo a responder a esses avanços divinos pelo amor de um coração puro, de uma consciência reta, de uma fé não fingida; pois ali está o fim do preceito e a plenitude da lei: tal é o objetivo a atingir, que é importante nunca perder de vista e ao qual é preciso tudo reportar ut ille cui loqueris audiendo credat, credendo speret, sperando amet. De cat. rud., IV, 8, P. L., t. XL, col. 316.

E para melhor provocar esse amor, falar da severidade de Deus, pois o temor é sempre salutar para tocar o coração dos mortais. Mas, antes de entrar na matéria, é preciso conhecer bem o estado de alma desse iletrado, seja informando-se junto àquele ou àqueles que o apresentam, seja interrogando-o ele mesmo sobre os motivos de sua determinação: é o exórdio. Se ele alega um motivo falso, partir dessa mentira, não certamente para censurá-lo, mas para louvar um sentimento em si digno de elogios, que ele acabará talvez por sentir realmente e por ser feliz com isso. Se ele alega um motivo estranho à fé, repreendê-lo com doçura, desenganá-lo, indicando-lhe brevemente e com gravidade o verdadeiro objetivo da doutrina cristã, para levá-lo a querer de bom grado o que ele não queria, de início, por erro ou dissimulação. Se ele confessa, ao contrário, ceder a uma inspiração, a uma advertência, ou a um sentimento de terror que vem de Deus, é excelente entrada de matéria mostrar então o grande cuidado que Deus tem conosco. Fazer ver, em seguida, a intervenção de Deus na história, desde as origens até os tempos atuais, através das seis idades do mundo, não sendo o Antigo Testamento senão a preparação e o anúncio profético do Novo, e o Novo não sendo senão a realização ou a revelação do Antigo: é a narratio.

Enfim, como conclusão, insistir na ressurreição futura, no juízo final e na sanção eterna do bem e do mal; colocar de sobreaviso a enfermidade desse iletrado contra os escândalos de fora e de dentro; lembrar-lhe breve e convenientemente os preceitos da vida cristã. E se então ele aceita entrar no caminho da salvação, que ele não atribua a ninguém senão a Deus todo o mérito, que ame a Deus e ao próximo por causa de Deus, pois Deus que o amou inimigo o justificará amigo.

2. Trata-se de um homem que já possui algumas noções da santa Escritura e das letras cristãs? — Ser muito breve sobre tudo o que toca à Escritura santa ou às letras cristãs; não dar a entender que se está ensinando a esse homem o que ele já sabe, mas enumerar, como se ele o soubesse, tudo o que se diz em caso semelhante aos rudes e aos indocti, pois isso fornece a ocasião de lhe ensinar o que ele ignora. Não é, certamente, inútil interrogá-lo, a ele também, para saber a quais livros, a quais tratados em particular ele atribui o seu desejo de conversão. Se forem conhecidos, elogiá-los; mas se forem obra de hereges, opor-lhes a autoridade da Igreja universal, fazendo notar que mesmo os bons podem por vezes enganar-se ou dar margem, quando mal compreendidos, a que outros se enganem; pois há quem se engane na interpretação da Escritura. Por aí, evitar-lhe toda presunção. Quanto ao resto, isto é, no que diz respeito às conclusões práticas, falar como acima aos ignorantes.

3. Trata-se, enfim, de espíritos cultos do ponto de vista literário, mas ignorantes do ponto de vista da fé? — Àqueles, mais ainda do que aos iletrados, recomendar a contenção e a humildade para impedi-los de desprezar os que evitam mais facilmente as faltas de conduta do que a incorreção da linguagem; ensinar-lhes, sobretudo, a instruir-se nas Escrituras, a não as considerar de um ponto de vista puramente humano e como livros ordinários, a aderir mais ao sentido do que aos termos, ao espírito do que à letra, à alma do que ao corpo; a escutar delas as explicações verdadeiras mais do que aquelas que são diretas, sem deter-se na linguagem incorreta ou bárbara daquele que as interpreta, pois na igreja não se está no tribunal. Quanto ao sacramento a receber, basta aos mais entendidos compreender o que ele significa; face aos mais lentos, usar de explicações e comparações para que não desprezem o que veem.

Depois da teoria, a prática; depois do conselho, o exemplo. Santo Agostinho acrescenta, com efeito, o modelo seguinte, próprio para agir sobre o espírito e a vontade de um iletrado, não do campo, mas da cidade, que confessa querer tornar-se cristão tendo em vista a vida futura.

Exórdio: É muito bom, deve-se dizer-lhe, e felicito-o. Pois a felicidade só está em Deus e não nos bens da vida presente; estes são falsos e entregam-nos a um Deus que julga e pune. A verdadeira felicidade, mesmo nas provações de aqui de baixo, está no amor aos preceitos daquele que a prometeu, numa boa consciência. Tornar-se cristão por um motivo interessado ou de ordem temporal é correr para a reprovação; faz-se, sem dúvida, parte da Igreja desta forma, mas como a palha faz parte da eira, de onde uma rajada de vento pode expulsá-la. Aquele, pelo contrário, que se torna cristão tendo em vista a eterna felicidade em Deus, está no bom caminho; mantém-se de guarda contra a tentação, não se deixa corromper pela prosperidade nem abater pela adversidade; é modesto e temperante na abundância, forte e prudente na tribulação.

Narratio: Resumo da história do mundo, criação, queda, reparação futura pela encarnação do Verbo. Este último mistério entrevisto e crido de antemão salvou os santos, como nos salvará a nós mesmos; o Verbo encarnou-se e redimiu-nos. Há sobre a terra duas cidades, onde os bons estão misturados aos maus; mas elas serão reveladas no dia do juízo. Tudo, nas cinco eras precedentes, foi uma figura do que se cumpriu na sexta, a nossa, aquela em que Jesus veio, onde morreu, onde ressuscitou, de onde subiu ao céu para nos enviar o Espírito Santo, aquela onde vivem doravante os que põem a sua fé em Deus, praticam a caridade, contam com as recompensas eternas, compõem atualmente a Igreja, aquela onde a Igreja vive nas tribulações e nas provações. Ora, tudo isso foi anunciado; vemo-lo cumprido sob os nossos olhos; e essa realização do passado é um penhor do cumprimento dos acontecimentos futuros, tais como a ressurreição, o juízo e a vida eterna.

Conclusão: Crer firmemente nestas coisas, sem se deixar desconcertar; manter-se de guarda contra os demônios e seus sequazes, sejam pagãos, judeus ou mesmo cristãos; apegar-se de preferência aos bons, sem colocar a sua esperança neles, pois não a devemos colocar senão em Deus; e, fazendo isso, perseverar na fé apesar das tribulações; conservar a humildade, pois Deus não permite que sejamos tentados acima das nossas forças.

O que há de notável neste modelo de catequese, redigido segundo a fórmula supracitada, não é apenas a maneira como Santo Agostinho encara a sucessão das eras como uma espécie de filosofia religiosa da história, onde brilham, numa série ininterrupta, as atenções de Deus para com o homem, e faz da pessoa de Cristo o ponto central da história do mundo, é ainda a habilidade com a qual ele ensina aí os artigos do símbolo, sem revelar que façam parte da fórmula de fé, e a eles liga toda a moral cristã; é, sobretudo, o objetivo muito preciso que persegue de inspirar a fé, a esperança e a caridade. Assim, não hesita em voltar por diversas vezes quer sobre as recompensas prometidas aos fiéis, quer sobre os castigos reservados aos ímpios e aos maus cristãos; meio excelente de inspirar, pelo temor, um começo de amor a Deus. E é bem esse o gênero da catequese, endereçada durante o período patrístico àqueles que pediam para entrar no catecumenato tendo em vista a futura iniciação cristã.

2º A catequese dos catecúmenos. — Uma vez admitido na categoria dos catecúmenos, enquanto durava o primeiro estágio da sua probação, o futuro batizado devia aprender a conhecer melhor a doutrina e a prática cristãs. Ora, a homilia ordinária ou a instrução que, ao começo do serviço divino, servia de explicação à passagem da Escritura santa cuja leitura se acabara de fazer, era insuficiente devido à reserva e à discrição que eram inspiradas pela lei do segredo desde a instituição do catecumenato. Certos assuntos, com efeito, eram de propósito omitidos.

Nesse ensino público, tratava-se apenas de questões gerais de fé ou de moral, ou então limitava-se a simples alusões, a explicações sumárias, que captavam muito bem os iniciados, mas que permaneciam puras enigmas para os não iniciados. Os catecúmenos tinham, portanto, necessidade de um suplemento de informação. Por outro lado, se liam os livros do Antigo Testamento, mesmo os deuterocanônicos, Origène, In Num., homil. xxvii, 1, P. G., t. xii, col. 780, ou certas obras tais como a Didaché e o Pastor de Hermas, S. Athanase, Epist. fest., xxxix, P. G., t. xxv, col. 1437, eles estavam certamente longe de compreender o seu alcance ou de entender a sua doutrina: daí, ainda, a necessidade de um ensino suplementar e especial.

Mas esse próprio ensino, confiado a didascalas, doutores ou catequistas, leigos ou clérigos, diáconos ou sacerdotes, devia naturalmente ser proporcional às necessidades atuais dos catecúmenos. E como estes últimos só eram iniciados pouco a pouco, progressivamente, segundo o grau de sua provação, segue-se que o ensino apropriado que recebiam era, forçosamente, ele mesmo encerrado em certos limites. Seu objeto não podia consistir senão em um desenvolvimento mais detalhado, mais acentuado e mais completo da primeira catequese, tal como nos fez conhecer Santo Agostinho, ou da homilia tal como se praticava então. Nada, é verdade, era mais próprio para ajudar nisso do que a explicação da Escritura. O dogma, desde o da criação e da queda até o da ressurreição e do juízo geral, tinha aí o seu lugar com um realce da bondade e da justiça de Deus, da encarnação do Verbo e da redenção; mas, sobretudo, a moral com a explicação dos diversos preceitos do decálogo ou do duplo mandamento do amor.

Ora, se a catequese, endereçada aos catecúmenos, era uma instrução de natureza a provocar uma adesão mais firme do espírito à fé e a fixar a confiança em Deus, era também uma terapêutica para curar as almas da loucura do paganismo e das investidas do pecado; era essencialmente uma formação moral da vontade, um treinamento do coração na prática do bem, isto é, uma educação. E, sob esse ponto de vista, por exemplo para fazer desprezar a idolatria ou a superstição, para inspirar seja o desgosto de uma moral fácil e corrompida, seja o amor de uma moral sã e austera, nada mais apropriado do que a leitura e a explicação do livro da Sabedoria. O livro do Eclesiástico não tem por objetivo, segundo a observação do prefácio de seu autor, ensinar a bem regular as suas obras e a colocar a sua vida em harmonia com a lei de Deus? E onde encontrar, para almas mal desprendidas do paganismo ou em vias de se desprenderem, lições mais tocantes e mais bem apropriadas de fé, de confiança em Deus, das virtudes morais, do que aquelas que se desprendem dos livros de Tobias ou de Ester? Compreende-se o que a Bíblia e o Evangelho ofereciam de recursos para tal educação.

Restaria ilustrar com um exemplo o que acabamos de dizer sobre essa catequese dos catecúmenos; infelizmente, ele nos falta: daí a impossibilidade de desenhar o seu quadro ou de mostrar a sua trama, e a necessidade de recorrer à hipótese. Pois, no que diz respeito à existência de um tal ensino durante o primeiro período do catecumenato, não se poderia colocá-la em dúvida. As Constituições apostólicas, VIII, 32, P. G., t. I, col. 1132, fazem clara alusão a isso, e também Santo Agostinho, quando diz que é preciso ensinar com mais diligência e insistência aos competentes o que já lhes foi inculcado anteriormente: Quod autem fit per omne tempus, quo in Ecclesia salubriter constitutum est ut ad nomen Christi accedentes catechumenorum gradus accipiat, hoc fit multo diligentius et instantius his diebus, quibus conpetentes vocantur. De fide et oper., VI, 9, P. L., t. XL, col. 208. Cf. Griber, Des hl. Augustin Theorie der Katechetik, Salzburgo, 1820; Ratisbona, 1870; Schéberl, Die Narratio des hl. Augustin und die Katechetiker der Neuzeit, Dingolfing, 1880.

8º A catequese dos competentes. — Quando o catecúmeno passava ao nível dos competentes, isto é, quando era admitido a preparar-se de maneira imediata e próxima para a recepção do batismo, ver CATECUMENATO, ele devia receber o seu complemento de instrução religiosa. A catequese que lhe era destinada tinha uma importância particular e envolvia-se de certa solenidade. Ela tratava, segundo as Constituições apostólicas, VII, 39, P. G., t. I, col. 1040, da criação, da providência, da trindade, das leis da Igreja, do juízo, dos fins últimos, e, segundo a Peregrinatio Silviæ, 46, edit. Geyer, Viena, 1898, p. 97, que é uma testemunha dos usos de Jerusalém no final do século IV, da lei, da fé e da ressurreição da carne. Segundo Santo Agostinho, assim como acabamos de ver, ela tinha o mesmo objeto que a catequese dos catecúmenos, o de indicar aos competentes quais devem ser a fé e a vida do cristão, salvo insistir mais e com muito mais cuidado. Naturalmente, a síntese dá lugar à análise, precisões são trazidas e o ensino torna-se mais explícito, em razão mesmo da iminência da iniciação batismal.

A Bíblia e a sua história, as principais verdades da fé e as prescrições da moral continuam a ser ensinadas. Mas importa notar que a regra de fé ou o símbolo ocupa aí um lugar à parte. O símbolo, com efeito, é então notificado pela primeira vez como a regra imprescritível e a fórmula sagrada do que se deve crer; seu texto é revelado; seus artigos são sucessivamente detalhados e explicados brevemente, um a um, de maneira a serem facilmente compreendidos e retidos sem sobrecarregar a memória; pois o símbolo não se escrevia; era forçoso aprendê-lo e recitá-lo solenemente, no momento oportuno, antes do batismo, e repeti-lo, por todo o resto da vida, como a fórmula por excelência da oração.

Ora, durante o último estágio do catecumenato, essa dupla tradição do símbolo e do Pater era objeto de um cuidado particular e de certa solenidade. Por outro lado, o decálogo e o seu resumo, o duplo mandamento do amor, cujo conjunto forneceu até então matéria tanto para a instrução homilética quanto para o ensino catequético, são detalhados e dados em sua fórmula escriturística como a expressão determinada da vontade de Deus e como a regra imutável da conduta dos fiéis.

Finalmente, os sacramentos, que fazem parte da iniciação cristã, são, por sua vez, objeto de uma explicação apropriada; pois importa conhecer bem a sua natureza, o seu papel, os seus efeitos, e compreender o simbolismo das diversas cerimônias que os precedem, os acompanham e os seguem. Assim, dada a importância desse ensino catequético reservado aos competentes, não é desta vez um simples didascala ou um membro do clero inferior que está encarregado, mas o bispo em pessoa, ou, na sua ausência, um sacerdote de escolha. Com efeito, todas as catequeses in traditione symboli que nos chegaram foram pronunciadas por bispos ou por sacerdotes especialmente delegados. Foi assim, por exemplo, que São Cirilo em Jerusalém, São Crisóstomo em Antioquia e Santo Agostinho em Hipona foram encarregados, antes do seu episcopado, da instrução dos competentes.

Ora, nada poderia dar uma ideia mais precisa e mais detalhada deste gênero de instruções, de seu método, de sua natureza, de seu objeto e de sua importância que a coletânea das catequeses proferidas em Jerusalém em 348 por São Cirilo e endereçadas aos φωτιζόμενοι, em nome do bispo Máximo. Esta coletânea compõe-se de uma procatequese ou prefácio, de 18 catequeses, endereçadas aos competentes durante a Quaresma, e de outras cinco ditas mistagógicas, endereçadas aos recém-batizados, φωτιζόμενοι, na semana após a Páscoa. O método seguido por São Cirilo é o de uma exposição popular, simples e clara, viva e premente, tão apropriada quanto possível às necessidades intelectuais e morais de seus ouvintes, por conseguinte muito prática e muito objetiva. Ela visa, com efeito, desapegar primeiramente os competentes do pecado pelo arrependimento e pela penitência, prepará-los bem pela ascese para essa purificação ou iluminação por excelência que é o batismo, adverti-los e armá-los contra os erros ambientes dos pagãos, judeus ou heréticos, formular-lhes com precisão as verdades dogmáticas apoiando-as em provas emprestadas da razão ou tiradas da Sagrada Escritura, explicar-lhes finalmente o surpreendente simbolismo das diversas práticas preparatórias à iniciação.

A protocatequese serve de introdução. Cirilo requer de seus ouvintes a assiduidade, a atenção, o bom comportamento durante as reuniões, o zelo e a discrição perante os não iniciados, pagãos, judeus ou simples catecúmenos. O ensinamento que ele lhes distribuirá não ressoará apenas em seus ouvidos, ele iluminará seu espírito pela revelação das verdades que ignoram e pela explicação dos mistérios que ainda não compreenderam bem. Ao mesmo tempo regular e progressivo, ele se assemelha a um edifício onde cada pedra tem seu lugar marcado e deve ser selada para formar um corpo com o que a circunda, sob pena de comprometer a solidez do conjunto. Procat., P.G., t. XXXII, col. 332 sq.

Na primeira catequese, Cirilo retorna ao mesmo assunto; convida os competentes a se prepararem bem para o batismo, do qual assinala as grandes vantagens, a confessar seus pecados e a se entregarem à leitura e à meditação dos Livros santos. Cat., I, col. 369 sq.

Na segunda, trata da enormidade do pecado, de suas graves consequências, mostrando que não tem sua fonte senão na vontade. Mas Deus tem piedade dele e o perdoa pelo batismo. Cat., II, col. 381 sq.

Dignidade, grandeza, figuras, necessidade, efeitos maravilhosos deste sacramento, este é o objeto da terceira catequese. Cat., III, col. 425 sq.

A quarta trata de uma maneira geral do conjunto da doutrina cristã. São Cirilo introduz nela algumas considerações sobre o composto humano, sobre a alma, imagem de Deus, racional, livre, imortal; sobre o corpo, vestimenta e instrumento da alma; sobre a continência e a ascese; sobre os livros que compõem o Antigo e o Novo Testamento; sobre os deveres particulares dos competentes, o jejum, a oração, as leituras. Cat., IV, col. 453 sq.

Na quinta, a propósito da primeira palavra do símbolo, trata-se da fé, base das outras virtudes, característica dos fiéis, princípio da justificação; segue a recomendação de aprender de cor o símbolo, cujo texto é dado, de repeti-lo frequentemente, de meditá-lo e de mantê-lo secreto. Cat., V, col. 505 sq.

Enfim, a partir da sexta, começa a explicação detalhada do símbolo. Deus: sua existência, sua natureza, sua unidade, contra os pagãos e os maniqueus, Cat., VI, col. 537 sq.; identificado com o Deus que adoram os judeus, mas pai por natureza e de toda a eternidade de um filho único, Jesus Cristo, Cat., VII, col. 605 sq.; todo-poderoso, mas suportando com paciência os pecados dos idólatras, dos heréticos e dos maus cristãos, Cat., VIII, col. 625 sq.; criador do céu e da terra, manifestando-se pela ordem luminosa que reina em toda parte. Cat., IX, col. 637 sq.

— Jesus Cristo: necessidade de reconhecê-lo e de adorá-lo como filho de Deus e Deus ele mesmo. Ele é nosso Senhor desde antes de sua encarnação. Seu nome de Jesus significa Salvador e médico; o de Cristo, unção. Cat., X, col. 660. Sua geração eterna, enquanto Deus; seu nascimento temporal, enquanto homem; igual e semelhante ao Pai; por ele, tudo foi feito. Cat., XI, col. 692 sq.

— Encarnação: seus motivos, sua possibilidade, sua realidade; concepção miraculosa, vida realizando todas as profecias relativas ao Messias. É tão essencial à salvação confessar sua humanidade quanto sua divindade. Cat., XII, col. 725 sq.

— Redenção: morte real de Jesus Cristo, contra os docetas; recordação das circunstâncias preditas desta morte, contra os judeus; virtude miraculosa do sinal da cruz. Cat., XIII, col. 772 sq.

— Ressurreição, igualmente predita e realizada; ascensão e estadia no céu à direita do Pai: estes dois últimos pontos apenas mencionados, tendo Cirilo falado deles na véspera em uma homilia. Cat., XIV, col. 825 sq.

— Segundo advento de Jesus Cristo; juízo final; reino eterno do Salvador. Cat., XV, col. 869.

— Espírito Santo: Deus como o Pai e o Filho, inspirador dos antigos profetas, autor de todos os bens da alma, santificador, consolador, animando todos os santos do Novo Testamento, apóstolos, mártires e virgens, e marcando todos os fiéis com o selo batismal. Cat., XVI-XVII, col. 917 sq., 968 sq.

— O restante do símbolo, ressurreição da carne, da qual se mostra a possibilidade e a conveniência, remissão dos pecados, Igreja católica, imagem da Jerusalém celeste, e enfim vida eterna que é o fruto da fé em Jesus Cristo, da prática das boas obras e da fidelidade ao decálogo, faz objeto da décima oitava catequese, ao fim da qual São Cirilo promete explicar após a Páscoa as cerimônias do batismo, da crisma e da eucaristia. Cat., XVIII, col. 1017 sq.

A catequese dos neófitos. — Uma vez iniciados na vida cristã pela recepção do batismo, da confirmação e da eucaristia, os neófitos permaneciam ainda durante oito dias sob a direção de seus mestres antes de serem definitivamente associados à vida ordinária dos cristãos. Eles continuavam a receber algumas instruções particulares. Em Jerusalém, as cinco catequeses mistagógicas representam este gênero de instrução. São Cirilo trata nelas das cerimônias do batismo, Cat., XIX, col. 1065 sq.; da unção feita com o óleo exorcizado e do batismo, Cat., XX, col. 1077 sq.; da unção feita com o santo crisma, Cat., XXI, col. 1088; da eucaristia, Cat., XXII, col. 1097; da liturgia eucarística e da participação no corpo e no sangue de Jesus Cristo, Cat., XXIII, col. 1109 sq.

Estas catequeses, muito mais curtas por causa das festas pascais, passam em silêncio muitos pontos que sabemos existirem por outro lado. A primeira nada diz sobre o exorcismo, a imposição das mãos, as preces de antes e de depois da renúncia; a segunda, nada sobre a bênção das fontes, sobre o uso das vestes brancas e do círio dos novos batizados; a terceira, nada sobre a imposição das mãos e a fórmula da crismação; a quinta, nada sobre toda a liturgia que precedia o beijo da paz e a consagração. Elas não têm, por isso, menos uma importância de primeira ordem do ponto de vista litúrgico e dogmático; e, do ponto de vista da instrução especial dada aos que acabam de entrar na vida cristã, representam, como dissemos, a catequese endereçada aos neófitos logo após seu batismo, até a véspera do domingo de Quasimodogeniti, in albis depositis, quando eles se confundiam doravante com o restante dos fiéis. A Peregrinatio Silviæ nota, ao falar dessas instruções, que o bispo nela expunha tudo o que se faz no batismo. Peregrin., édit. Geyer, Vienne, 1898, p. 99; Duchesne, Origines du culte, 2e édit., Paris, 1898, p. 500.

No Ocidente, praticava-se do mesmo modo esse uso de dirigir algumas instruções complementares aos neófitos, logo após seu batismo. Em Milão, por exemplo, Santo Ambrósio adiava para depois da Páscoa a explicação dos mistérios, porque a impressão direta produzida pela visão mesma desses mistérios parecia uma lição preferível à de uma explicação preparatória, inopinantibus melius se ipsa lux mysteriorum infuderit quam si eam sermo aliquis præcucurrisset, De myst., 1, 2, P. L., t. XVI, col. 889; isso não impedia que se desse, depois, uma explicação detalhada dos diversos ritos. O De mysteriis é, com efeito, composto em parte de instruções dirigidas, como em Jerusalém, a novos batizados e relativas ao batismo, à confirmação e à eucaristia.

Na África, pelo contrário, e particularmente em Hipona, a maior parte dessas explicações precedia a colação do batismo, em vez de segui-la; mas a semana após a Páscoa não deixava de ser reservada a instruções ad infantes, ad neophytos, seja para suprir a insuficiência dos ensinamentos dados sobre a missa e a comunhão, seja, sobretudo, para incitar à perseverança os novos cristãos. Ver S. Agostinho, Serm., CCLX, P. L., t. XXXVIII, col. 1202; Serm., CCCII, P. L., t. XXXIX, col. 1560 sq.; ver também o fim do artigo CATECHUMENAT.

III. DO FIM DO SÉCULO IV AO IX. — Após a queda do império romano do Ocidente, a Igreja grega, marchando cada vez mais a reboque do poder civil, exauriu suas forças em intermináveis querelas até o cisma final, enquanto a Igreja latina permanecia às voltas com as invasões. Mas já muito poderosa na Itália, no Norte da África, na Espanha, na Gália, em uma parte da Germânia e nas ilhas britânicas, a Igreja de Roma assegura sua preponderância e recebe em seu seio esses bárbaros, de quem faz povos cristãos.

Ora, nesse meio onde as famílias que abraçaram a fé formam a maioria da população, a antiga organização do catecumenato perde em parte sua razão de ser. Pois o batismo das crianças tende cada vez mais a ser a regra ordinária, ao passo que o batismo dos adultos torna-se cada vez mais uma exceção. Sem dúvida, mesmo para o batismo das crianças, pratica-se ainda, durante a quaresma e até a véspera da Páscoa, as cerimônias especiais da tradição do símbolo e da oração dominical, à qual se acrescenta a dos santos Evangelhos e da lei; a tríplice renúncia ao demônio, às suas pompas e às suas obras, a tríplice afirmação da fé ocorrem sempre. Mas são os padrinhos e as madrinhas que se substituem aos seus afilhados e desempenham o papel ativo em todas essas cerimônias.

A catequese antiga, preparatória ao batismo, deve ser forçosamente substituída por um ensino posterior ao batismo. Logo que chegam à idade da razão, as crianças batizadas devem receber uma instrução cristã, de modo a conhecer as verdades a crer e os deveres a cumprir para levar uma vida conforme ao batismo que receberam. Essa instrução incumbe antes de tudo aos pais e aos padrinhos como uma obrigação estrita de seu parentesco natural ou espiritual; mas, por diversos motivos, ela não podia deixar de deixar muito a desejar e deveria ser, em todo caso, muito rudimentar. Foi igualmente confiada aos sacerdotes encarregados do cuidado das paróquias. Mas, quer fosse dado pelos pais e padrinhos ou pelos membros do clero, esse ensino elementar era destinado a substituir a catequese do catecumenato. Devendo particularmente dirigir-se a crianças, teve de ser colocado ao alcance delas, ser reduzido à sua mais simples expressão, de maneira a ser apreendido e retido. Com o tempo, após muitas tentativas e ensaios, resultou naquilo que chamamos hoje de catecismo. Ver CATECHISME.

A catequese não deixou de ser praticada, excepcionalmente em países cristãos junto aos adultos ainda estranhos à fé, e regularmente em países pagãos, isto é, no centro, no leste e no norte da Europa, por toda parte onde a Igreja levou sua atividade apostólica. Constata-se, com efeito, que, na África, na Espanha e na Gália, continua-se ainda a tratar os catecúmenos e os competentes como no passado.

Na província da África, São Fulgêncio de Ruspe (+ 538) diz aos competentes que o demônio foi atingido por eles por dez pragas. Ora, essas dez pragas recordam dez práticas já conhecidas do catecumenato, entre outras a traditio symboli. Serm., xxviii, P. L., t. xxxviii, col. 950.

Seu correspondente Ferrando, diácono de Cartago, escreve-lhe para saber o que se deve pensar da sorte reservada a um dos competentes que ele preparava para o batismo e que acabara de morrer subitamente; ele tem o cuidado de constatar que esse catecúmeno tinha sido admitido ao número dos competentes, às aproximações da Páscoa, que, após a inscrição de seu nome, ele recebera a instrução própria ao seu nível e a notificação dos mistérios da vida cristã; que ele passara pelos exorcismos e submetera-se ao escrutínio solene; que ele tomara o compromisso de renunciar ao demônio; que ele assistira à tradição do símbolo e da oração dominical e que recitara a fórmula de fé. Epist., 1, cujo texto é reproduzido na resposta de São Fulgêncio. Epist., xvii, 1, 2, P. L., t. lxv, col. 380.

Na Espanha, onde os arianos são numerosos, os bispos decidem, no concílio de Agde de 506, que se deve ensinar o símbolo aos competentes em toda parte no mesmo dia, isto é, no oitavo dia antes da Páscoa, can. 13, e que se deve obrigar os judeus, que querem se converter, a passar oito meses no nível dos catecúmenos. Can. 34, Hardouin, t. ii, col. 999, 1002.

Mais tarde, três anos após a conversão do rei dos suevos, Ariamir, em 563, no I Concílio de Braga, redigem uma fórmula de símbolo para opô-la ao priscilianismo e querem que se continue a administrar o batismo em conformidade com as indicações enviadas pelo papa Vigílio a Profuturus. Capit. 5, Hardouin, t. iii, col. 351.

Em 572, o Concílio de Braga: nele traça-se a conduta a seguir durante a quaresma com relação aos competentes, no que toca aos exorcismos e ao ensino do símbolo; os bispos são convidados a incentivar os seus diocesanos, durante a visita pastoral, a abandonar os erros pagãos e a evitar as faltas graves. Can. 1, ibid., col. 386.

Após a conversão de Recaredo, o Concílio de Toledo de 589 ordena aos fiéis que cantem na missa o símbolo de Constantinopla. Capit. 2, ibid., col. 479.

No século seguinte, o catecúmeno, segundo santo Isidoro, De offic., ii, xxi, P. L., t. lxxxiii, col. 814, é aquele que rejeita o culto aos ídolos e aprende a conhecer que não há senão um único Senhor; quanto ao competente, ele é instruído sobre o que diz respeito aos sacramentos, sobre o símbolo e a regra de fé e sobre o que toca ao batismo, à crisma e à imposição das mãos. De offic., ii, xxii-xxviii, ibid., col. 812-824.

Santo Ildefonso, em seu De cognitione baptismi, segue primeiro a narratio de santo Agostinho; distingue em seguida o competente do catecúmeno, De cognit. bapt., xxx, P. L., t. xcvi, col. 124, e cita como fazendo parte de sua instrução especial o símbolo, a oração dominical, os sacramentos do batismo, da confirmação e da eucaristia. De cognit. bapt., cxxxii-cxlil, ibid., col. 166-171.

Na Gália, sabemos por Genádio, De eccles. dog., lxxiv, P. L., t. lviii, col. 997, o que se ensinava aos futuros batizados, no fim do século V. Para o século VI, santo Ávito (+526) deixou-nos um pequeno poema em cinco cantos, que recorda uma parte da narratio agostiniana e que trata da criação, do pecado original, do julgamento de Deus expulsando Adão do paraíso, do dilúvio e da passagem do mar Vermelho, dois tipos do batismo. De mosaice historie gestis libri quinque, P. L., t. lix, col. 323-368.

São Cesário (+ 542), fiel eco do bispo de Hipona, faz-nos conhecer os deveres dos pais para com os filhos, Serm., vi, 6, P. L., t. xxxix, col. 1751, dos padrinhos para com os seus afilhados, Serm., clxviii, 3, ibid., col. 2071; ele enumera os vícios e as superstições de seu tempo que é preciso abandonar para se tornar cristão, Serm., cclxv, 5, ibid., col. 2239, trata da obrigação que incumbe ao competente, Serm., cclxvi, ibid., col. 2242, dos diversos artigos do símbolo que faziam objeto da catequese preparatória ao batismo, Serm., ccxxxvii-ccxlii, ibid., col. 2183-2194; cf. Serm., ccxliv-ccli, sobre a fé devida ao símbolo, a trindade, a encarnação, a redenção e o Juízo final. Depois dele, são Gregório de Tours (+ 593 ou 594) cita por vezes algum traço relativo à administração do batismo durante o século VI em sua Historia Francorum, ut sq., P. L., t. lxxi, col. 241 sq.

Examinemos agora o que se passou em terras de missão. As missões, iniciadas desde o século V, levam sucessivamente à conversão da Irlanda, da Escócia e da Grã-Bretanha durante o século VI. Depois, sob os merovíngios primeiro, sob os carolíngios em seguida, irlandeses vêm misturar-se aos francos para evangelizar os Países Baixos, das margens do Escalda às do Mosa, toda a antiga Germânia romana, a Austrásia, a Alemanha, a Turíngia e a Baviera. Finalmente, missionários anglo-saxões empreendem a conversão da Saxônia e da Germânia, que não tinham conhecido o jugo de Roma, e que são reduzidas por Carlos Magno. No século IX, o cristianismo penetra na Morávia e na Boêmia, graças aos santos Cirilo e Metódio, na Dinamarca com santo Ansgário, e, a partir do fim do século X, na Suécia e na Noruega, na Polônia, na Hungria e na Rússia.

Sem ultrapassar aqui inutilmente o reinado de Carlos Magno, é preciso pesquisar o método seguido por são Patrício (+460) entre os irlandeses, por são Columbano (+ 573) entre os pictos e os escotos, por santo Agostinho de Cantuária (+ 608) entre os anglo-saxões, por santo Amando e santo Elígio (+ 658) entre os francos austrasianos, por são Galo (+ cerca de 627) entre os alemães da Suíça, por são Kilian (cerca de 689) na Turíngia, por são Ruperto na Baviera, por são Vilfrido (+ 700) e são Vilibrordo (+ cerca de 739) na Frísia, e por são Bonifácio (+755) na Saxônia e nos países vizinhos.

Infelizmente, não nos restou nenhuma catequese desta época, sem dúvida porque, pregando em língua vulgar, os missionários de então não cuidaram de redigir em latim os discursos que dirigiam aos pagãos e aos catecúmenos, como fizeram para algumas homilias, endereçadas a cristãos, com o objetivo de colocá-las nas mãos do clero, a título de modelo ou de manual de pregação. Estamos, portanto, reduzidos a conjecturas. Contudo, o que torna estas conjecturas muito verossímeis é que estes missionários tiveram naturalmente de inspirar-se na experiência já adquirida alhures, bem como nas tradições introduzidas na Igreja pelo catecumenato.

O meio, é verdade, diferia, mas o obstáculo a vencer era sempre o paganismo e as suas superstições. Nesse aspecto, a catequese não podia proceder, de início, senão pela demonstração do erro pagão, sob pena de não chocar demasiado frontalmente essas naturezas selvagens e suscetíveis. Prudências impunham-se. E se, demasiadas vezes, contrariamente às sábias prescrições da Igreja, a força bruta interveio para obrigar os povos vencidos a aceitar o jugo da fé, era fácil prever quão efêmeras deveriam ser tais conversões.

Valia, incontestavelmente, mais usar de uma sábia moderação e não recorrer senão aos processos ordinários da persuasão evangélica, apoiando o ensino ministrado na autoridade do exemplo, na santidade da vida e na eficácia da dedicação; e foi nisso que não faltaram, em geral, a maioria dos missionários. Mas, tendo de lidar com caracteres retos, com naturezas generosas e entusiastas, apressaram-se por vezes em admitir os catecúmenos ao batismo sem uma preparação intelectual suficiente para espíritos tão pouco cultivados.

A catequese preparatória deveria conter, todavia, o estritamente necessário das verdades a crer e dos deveres a praticar para se tornar cristão; mas era tão prontamente esquecida que alguns de seus elementos essenciais já não eram conhecidos após o batismo e que ordens foram dadas em consequência, por várias vezes, para ensinar, por exemplo, aos recém-batizados, o objeto da tríplice renúncia ao demônio, às suas pompas e às suas obras, e para fazê-los aprender de cor a fórmula do símbolo dos apóstolos e da oração dominical.

Ademais, eis, segundo os documentos contemporâneos, as poucas indicações sumárias que permitem reconstituir, com pouca margem de erro, a catequese de então, e constatar que a maior parte dos elementos da catequese apostólica e patrística ali se reencontra. Trata-se, com efeito, em primeiro lugar, da condenação da idolatria sob todas as suas formas, e sabe-se quão profundamente ela estava enraizada nestas raças pictas, saxônicas, germânicas. Santo Elígio enumera um grande número de superstições, Vita S. Eligii, II, xv, P. L., t. LXXXVII, col. 524-550; e o concílio de Leptines, 743, conta cerca de trinta no seu Indiculus superstitionum et paganiarum, P. L., t. LXXXIX, col. 810 sq.; Hardouin, Act. concil., t. I, col. 922; Hefele, Histoire des conciles, t. IV, p. 407. Cf. Ratramne, P. L., t. CXXI, col. 1153.

Trata-se, em seguida, da proclamação da existência de um Deus único, criador do céu e da terra, enviando seu filho para salvar os homens, com um sumário da história religiosa do mundo e da economia da redenção. Trata-se também do papel do batismo, as renúncias e os compromissos que precedem sua administração, a lista mais ou menos detalhada das faltas a evitar e dos deveres a cumprir. E trata-se, finalmente, da questão dos fins últimos, do juízo geral e da sanção das recompensas ou das penas eternas.

Santo Agostinho, enviado por São Gregório Magno, prega o Evangelho ao rei anglo-saxão, Etelberto, converte-o e batiza-o com uma multidão dos seus em Cantuária, no dia de Natal de 597, como São Remígio havia batizado Clóvis e seus Francos, em festividade semelhante, um século antes. Beda, Hist. eccles., I, xxv, P. L., t. XCV, col. 55. O papa, felicitando seu missionário por ter a nação dos Anglos, liberta das trevas do erro e iluminada pelas luzes da fé, abraçado o cristianismo, deixa transparecer qual foi o método catequético de Santo Agostinho. Epist., 1. XI, epist. xxvii, P. L., t. LXXVII, col. 1439.

Alguns anos mais tarde, em 624, Bonifácio V escreve a Edwin, rei saxão da Nortúmbria ainda pagão, para instá-lo a abraçar a fé de sua esposa Edilburga e a tornar-se cristão. Sua carta é um programa de catequese. Inanição dos ídolos, importância de crer em um Deus criador, que enviou seu filho único para salvar o gênero humano, necessidade de abraçar o Evangelho e de renascer pelo batismo, tais são os principais pontos que ela trata. Epist., 11, P. L., t. LXXX, col. 438. O rei reúne seus chefes e seus sacerdotes; e o pontífice dos ídolos, Coifi, constata francamente a inutilidade do culto pagão e afirma que seria sábio aceitar uma religião que ensina de onde viemos e para onde vamos. Beda, Hist. eccles., II, xiii, P. L., t. XCV, col. 104. A questão da origem e do destino humano devia, portanto, fazer parte da catequese dirigida aos anglo-saxões.

Em 634, o rei Oswald, querendo converter as províncias de seu reino que permaneciam idólatras, dirige-se a religiosos escoceses. Um deles, Corman, havia repelido os Anglos por suas austeridades. "Vós fostes severo demais com estes ignorantes", observa-lhe um ancião, Aidan; "deveríeis ter, segundo a disciplina apostólica, começado por oferecer-lhes o leite de uma doutrina mais doce até que, nutridos pouco a pouco do Verbo divino, estivessem aptos a compreender um ensino mais perfeito e a elevar-se à prática dos mandamentos do Senhor." Beda, Hist. eccles., III, v, P. L., t. XCV, col. 124. Aqui, é a catequese apostólica que se invoca e cujo uso ordinário se supõe.

Santo Elígio, segundo o relato de Santo Ouen, tocava tão bem o coração dos bárbaros que, a cada ano, na Páscoa, conferia o batismo a multidões de catecúmenos. Vita Eligii, II, vii, P. L., t. LXXXVII, col. 513. Ora, ao que parece, ele desprendia pouco a pouco o povo embalado por fábulas de suas crenças pagãs e de suas práticas supersticiosas, falava-lhe do único Deus verdadeiro, criador, inspirava-lhe o temor dos castigos futuros e mostrava-lhe as recompensas eternas, das quais não tinha até então a menor suspeita. Vita, II, xv, ibid., col. 524-550. Ele utilizava bem demais as obras de São Cesário para ter ignorado as de Santo Agostinho; seu discurso recorda ao mesmo tempo as Duas Vias da Didaquê e a catequese do De catechizandis rudibus.

São Galo, em um discurso pronunciado às margens do lago de Constança, parece igualmente fazer eco à narratio de Santo Agostinho: é um resumo da história religiosa do mundo desde a queda até à redenção pela cruz de Jesus Cristo, tratando da missão dos apóstolos, da vocação dos gentios e da constituição divina da Igreja, arca da salvação. Serm., P. L., t. LXXXVII, col. 13-26. Embora dirigido a ouvintes que, em sua maioria, haviam recebido o batismo, este discurso recorda a catequese de introdução ao catecumenato. A julgar pelas quinze homilias que nos restam e que são um manual de instrução religiosa para uso dos iniciantes, ver col.

São Bonifácio devia insistir nas obrigações da vida cristã, faltas a evitar e deveres a cumprir, sobre o objeto da tríplice renúncia e das promessas batismais. Homil., I, xv, P. L., t. LXXXIX, col. 847, 870. Entre os cânones que lhe são atribuídos, o 27º especifica que o sacerdote que batiza deve fazer com que o catecúmeno professe as renúncias e a profissão de fé em língua vulgar, a fim de que saiba ao que se compromete. Ibid., col. 822.

Em uma carta a seu antigo bispo de Winchester, ele pede conselhos para levar a bom termo a conversão dos Saxões e dos Turíngios. Daniel responde e, dentre os conselhos que sua longa experiência lhe dita, indica o de afastar primeiramente as superstições de seus ouvintes. Epist., xiii, P. L., t. LXXXIX, col. 708.

A Didaquê não era desconhecida de São Bonifácio, pois ele a utilizou não apenas para recordar aos fiéis os compromissos assumidos no batismo, como testemunha sua homilia xv, De abrenuntiatione in baptismate, ibid., col. 870, mas também para instruir os catecúmenos antes de admiti-los ao batismo. E o mesmo se pode dizer de São Pirminio de Reichenau, seu contemporâneo, do qual possuímos um tratado sob a forma de discurso, espécie de compêndio catequético compreendendo um resumo da história sagrada, considerações relativas ao batismo, à abrenuntiatio, à redditio symboli, alguns pontos de moral e a lista das faltas a evitar. Scarapsus, P. L., t. LXXXIX, col. 1029-1050; cf. Schlecht, Doctrina xii apostolorum, Fribourg-en-Brisgau, 1901, p. 83.

Ademais, a doutrina moral das Duas Vias da Didaquê tinha seu lugar marcado na catequese dos catecúmenos; seu texto servia na realidade para este ensino. A prova disso encontra-se, nota o Sr. Ladeuze na Revue d’histoire ecclésiastique, Lovaina, abril de 1903, p. 263-264, nos dois homiliários de Melk e de Freising, que nos restituíram a versão latina das Duas Vias. A Didaquê é aí conservada entre as homilias sobre a fé, o símbolo, etc., e, nos dois manuscritos, ela sucede a homilia XV, já citada, de São Bonifácio.

Quando foi sagrado bispo em Roma por Gregório II, em 723, o apóstolo da Germânia já conhecia, por tê-la praticado, a marcha a ser seguida na evangelização dos pagãos. Se necessário, a carta do Papa que ele levava e que era dirigida aos saxões de linhagem antiga ainda pagãos a teria recordado. «O reino de Deus está próximo», escrevia Gregório II, Epist., vi, P. L., t. LXXXIX, col. 504-505; «não busqueis a vossa salvação nos vãos ídolos fabricados por mãos de homem, de ouro, de prata, de pedra ou de madeira, e decorados pelos pagãos com o nome de divindades. Elevai vossos olhares e vossos corações para o Senhor Deus, criador do céu e da terra. Não adoreis senão a ele e vossas testas não corarão mais. Despi o velho homem para revestir o Cristo novo. Deponde toda malícia, cólera, furor e todo blasfêmia... O bispo que vos envio vos livrará da escravidão e das fraudes do demônio. Ele vos arrancará do perigo da condenação eterna para vos introduzir nas alegrias do reino do céu.»

Na assembleia geral desses temíveis saxões, em Merklo sobre o Weser, onde teve a coragem de se apresentar, São Lebwin, discípulo de São Bonifácio, condensa assim em poucas palavras a sua catequese: «Escutai-me, escutai sobretudo aquele que fala pela minha boca. Eu vos trago as ordens daquele ao império e ao julgamento de quem tudo está submetido. Escutai e sabei que o Senhor, criador do céu, da terra e do mar e de tudo o que eles contêm, é o único Deus verdadeiro. Vossos ídolos nem vivem, nem se movem, nem sentem, pois são obra dos homens; impotentes para se defenderem a si mesmos, não poderiam ser-vos de nenhum auxílio; é em vão que lhes imolais vítimas. O Deus só bom, só justo, tomou-vos em piedade. Ele enviou-me a vós para que abandoneis vossos erros e vos volteis para ele. É ele quem vos criou e é nele que vivemos, que nos movemos e que somos. Se, portanto, o reconheceis fielmente, se fazeis penitência e recebeis o batismo, se observais seus mandamentos, ele vos conservará sobre a terra e vos recompensará no céu. Senão, as penas futuras vos esperam.» Vita S. Lebwini, xi, P. L., t. CXXXII, col. 890. Lembrando e ultrapassando o discurso de São Paulo ao areópago, São Lebwin acrescenta à ameaça dos castigos da vida futura aqueles da vida presente, pois ele faz alusão, ao fim de seu pequeno discurso, à intervenção possível e terrível do rei dos francos.

Sabe-se que em 811 Carlos Magno enviou uma carta circular a todos os bispos de seu vasto império para pedir-lhes informações precisas sobre o batismo, tal como era praticado em suas dioceses, sobre seus ritos e suas cerimônias. P. L., t. xcvii, col. 933; cf. Capitulaire de 811, u, 9, P. L., t. xcvii, col. 331-332; édit. Boretius, Hanovre, 1883, t. 1, p. 163. Ora, de todas as respostas que devem ter-lhe sido endereçadas, poucas apenas chegaram até nós; ver em particular a epístola anônima De ritibus baptismi, P. L., t. xcviii, col. 938-939, e a Responsio ad capitula archiepiscopis regni Francorum missa a Carolo magno, ibid., col. 939-940; a Epistola de cæremoniis baptismi de Amalar, arcebispo de Tréveris, P. L., t. xcix, col. 892 sq.; a Epistola de baptismo, de Jessé de Amiens, P. L., t. cv, col. 781; o Liber de sacramento baptism de Leidrado, arcebispo de Lyon, P. L., t. xcix, col. 853 sq. Infelizmente, nenhuma dessas respostas provém de bispos missionários ou instalados em terras de missão, o que teria sido uma fonte preciosa de informações para o assunto que nos ocupa.

Magno, bispo de Sens, na definição que dá do catecúmeno, nos ensina que se chama audiens ou instructus aquele que recebe um ensino apropriado, scilicet ut verum agnoscens Dominum relinquat errores varios idolorum et audiat ac discat, antequam ad sacrum accedat fontem, mystica sacramenta christiane religionis et tunc discat fidem sancte Trinitatis et symbolum et cetera que christiana lex docet, o que não é outra coisa senão o tema geral sobre o qual girava a catequese. Libellus de mysterio baptismatis, P. L., t. cl, col. 981; Martène, De antiquis Ecclesiæ ritibus, Rouen, 1700, t. 1, p. 458.

Jessé de Amiens define o competente: Qui diligenter instructus de fide et attente de credulitate imbutus, post traditam sibi doctrinam christianitatis et mysterium symboli et traditionem orationis dominice, petit et rogat, etc. De bapt., P. L., t. cv, col. 784.

Já no século precedente, o concílio de Cloveshow, em 747, havia indicado o objeto próprio da catequese, e era ensinar o símbolo aos catecúmenos ut intelligant quid credere, quid sperare debeant. Can. 11, Hardouin, Act. concil., t. iii, col. 1955.

E, posteriormente à consulta de Carlos Magno, um discípulo de Alcuíno, Rabano Mauro, compôs um De disciplina ecclesiastica em três livros, dos quais o primeiro trata das ordens sagradas, o segundo dos divinos sacramentos e o terceiro do combate cristão, com o objetivo muito preciso de indicar a marcha a seguir para a instrução dos pagãos que pediam para receber o batismo. Ora, o 1.º livro, P. L., t. cxi, col. 1193 sq., não é outra coisa senão a reprodução quase integral do De catechizandis rudibus de Santo Agostinho; nova prova da influência do bispo de Hipona sobre este ponto particular.

O II trata dos rudimentos da fé, col. 1218; da oração dominical, col. 1222-1224, e do símbolo, col. 1224-1228; tantos elementos que encontramos alhures e que entravam, eles também, na trama da catequese.

Finalmente, o III trata das virtudes a praticar e dos vícios a evitar, o que nos conduz mais uma vez, por uma amplificação muito detalhada, às Duas vias da Didaquê.

Assim, pois, do século V ao século X, a catequese preparatória ao batismo, fiel à tradição dos primeiros séculos, não faz senão continuar e reproduzir o que constatamos, seja nas origens apostólicas, seja na época da organização sistemática do catecumenato. Este inquérito poderia prosseguir para a época ulterior; mas parece inútil, pois levaria a uma constatação nova do que acabamos de relevar para o período que vai do século V ao século IX. Não resta mais, nestas condições, senão dar-se conta do estado, da forma, do objeto da instrução religiosa dada aos novos batizados, em particular às crianças, seguindo-a em sua marcha progressiva até seu desfecho final naquilo que chamamos de catecismo. Ver CATECISMO.

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Autor original: G. Bareille

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