CÁTAROS. — I. Origens. II. História. III. Doutrinas. IV. Literatura cátara e anticátara.
I. Origens. — 1° Diversas seitas chamadas cátaras. — O nome de cátaros, do grego καθαρός, puro, serviu para designar os membros de várias seitas. Tillemont, Mémoires pour servir à l'histoire ecclésiastique des six premiers siècles, Paris, 1694, t. III, p. 453, diz que alguns encratitas tomavam o nome de apotácticos, «e por vezes, ao que parece, também o de cátaros.» O texto de santo Epifânio que ele indica, Adv. hær., hær. LXI, P. G., t. XLI, col. 1040, não permite tirar essa conclusão; Epifânio entende por cátaros os novacianos. Cf. hær. LIX, col. 1017-1088, e Anacephalæosis, P. G., t. XLI, col. 868.
Uma multidão de autores chamam de cátaros os novacianos. Ver o concílio de Niceia, can. 8, Labbe e Cossart, Sacrosancta concilia, Paris, 1671, t. II, col. 31-34, 42, 47; entre os Gregos, Eusébio, H. E., l. VI, c. XLIII, P. G., t. XX, col. 616; S. Basílio, Epist., classis II, epist. CLXXXVIII, P. G., t. XXXII, col. 664, 668; S. Gregório de Nazianzo, Orat., XXII, n.12; XXV, n.8; XXXII, n. 16; XXXIX, n. 18, P. G., t. XXXV, col. 1145, 1208; t. XXXVI, col. 233, 356 (cf. Nicetas de Heracleia, Comment. in S. Gregorii Naz. orat. XXXIX, S. Gregorii Naz. opera, Paris, 1712, t. II, col. 1036); S. João Crisóstomo, In epist. ad Ephes., homil. XIV, P. G., t. LXII, col. 102; t. LXII, col. 491-494 (cf. A. Puech, S. João Crisóstomo, Paris, 1900, p. 132-133); Teófilo de Alexandria, Narratio de iis qui dicuntur cathari, P. G., t. LXV, col. 44; Teodoreto, Hæretic. fabul. comp., P. G., t. LXXXIII, col. 408; Timóteo de Constantinopla, De receptione hæretic., P. G., t. LXXXVI, col. 37; Eulógio de Alexandria, Contra Novatianos, l. I, em Photius, Bibliot., cod. 280, P. G., t. CIII, col. 325; entre os Latinos, S. Agostinho, De agone christiano, c. XXXI, P. L., t. XL, col. 308; De hæresibus, hær. XXXVIII, P. L., t. XLII, col. 32; S. Jerónimo, De viris illustribus, c. LXX, P. L., t. XXIII, col. 681, 682; S. Próspero da Aquitânia, Chronic., P. L., t. LI, col. 569; o autor do Prædestinatus, l. I, c. XXXVII, P. L., t. LIII, col. 598-599; autor das Consultationum Zacchei christiani et Apollonii philosophi, l. II, c. XVII, P. L., t. XX, col. 11389; entre os Sírios, Teodoro bar Khouni, Livres des scholies, publicados por Pognon, Inscriptions mandaïtes des coupes de Khouabir. Appendice I, Paris, 1898, p. 123, 125, 179, 181; cf. Clermont-Ganneau, Recueil d’archéologie orientale, Paris, 1900, t. IV, p. 46-47. Santo Isidoro de Sevilha, Etymol., l. VIII, c. V, P. L., t. LXXXII, col. 300, 301, fala separadamente dos cátaros e dos novacianos; mas, na realidade, trata-se, em uma e outra passagem, dos mesmos heréticos.
Um ramo de maniqueus tomou o nome de catarisas ou purificadores. Cf. S. Agostinho, De hæresibus, hær. XLVI, P. L., t. XLII, col. 36; o autor do Prædestinatus, l. I, c. XLVII, P. L., t. LIII, col. 603. Finalmente, entre os nomes diversos que pertencem a uma única e mesma seita dualista da Idade Média, figura o de cátaros (ou catarisas, cf. Étienne de Bourbon, Anecdotes historiques, publicados por A. Lecoy de la Marche, Paris, 1877, p. 300, 301). Para os outros nomes, ver t. I, col. 677. Não parece ter estado em uso nos primórdios da seita. No seu tratado Adversus simoniacos, l. I, c. I-II, P. L., t. CXLIII, col. 1012-1014, que escreveu por volta de meados do século XI, o cardeal Humberto entendia por cátaros os novacianos. Há mais, a primeira obra especial escrita na França contra os cátaros da Idade Média, na segunda metade do século XII, por Eberhard de Béthune, Antihæresis, c. XXVI, em M. de la Bigne, Biblioth. Patrum, 4e édit., Paris, 1624, t. XXIV, col. 1175, 1177, não assinala outros cátaros senão os novacianos, embora os desdobre, na sequência de santo Isidoro de Sevilha. Foi na Alemanha que os membros desta seita foram primeiramente chamados cátaros. Ecbert de Schonaugen, que o primeiro se serviu desta apelação, e que escreveu na segunda metade do século XII, diz, Sermones contra catharos, serm. I, c. I, P. L., t. CXCV, col. 13: Hos nostra Germania catharos appellat. Ela tornou-se muito comum na Itália, e foi empregada na França, mas mais raramente. Persistiu até ao fim da seita sob a sua forma primitiva, ou sob as formas cazari, gazari. Na sequência, os historiadores que se ocuparam desta seita adotaram quase exclusivamente o nome de cátaros a fim de designar os seus partidários de todos os países, exceção feita para os cátaros do sul da França comumente denominados albigenses. Não trataremos, neste artigo, senão dos cátaros da Idade Média. Para os outros, ver NOVATIANISMO e MANIQUEÍSMO.
2° Filiação dos cátaros da Idade Média. — Que Manés tenha primeiramente estudado os dogmas dos cátaros novacianos, é o que é afirmado por Teodoro bar Khouni, cf. Clermont-Ganneau, loc. cit., p. 47; mas não é de todo provável. Seja como for desta filiação, há lugar para se perguntar se os cátaros da Idade Média se ligam ao maniqueísmo. Quase todos os autores da Idade Média viram neles os sucessores diretos dos antigos maniqueus, sem se explicarem muito sobre a maneira pela qual derivam deles; esta opinião foi adotada por historiadores modernos, por exemplo Baur, Das manichäische Religionssystem, Tubinga, 1831, p. 402; Hahn, Geschichte der Ketzer im Mittelalter, Estugarda, 1845, t. I, p. 146-147, nota, que pensaram que entre o maniqueísmo e o catarismo há apenas diferenças acidentais. Entre aqueles que quiseram mostrar os laços históricos entre cátaros e maniqueus, uns, por exemplo Gieseler, Lehrbuch der Kirchengeschichte, 4e édit., Bonn, 1844, t. II a, p. 404, admitiram que o catarismo saiu de germes maniqueus conservados na Europa ocidental, principalmente na Itália; outros, tal Bossuet, Histoire des variations des Églises protestantes, l. XI, n. 18-20, 39-44, 56-58, 132-139, Œuvres, édit. Lachat, Paris, 1863, t. xiv, p. 465-468, 479-482, 487-489, 522-533, fazem-nos vir de maniqueus estabelecidos na Bulgária e ligando-se a Manés pelos paulicianos da Armênia, embora se diferenciem em muitas coisas do maniqueísmo primitivo. Outros ainda atribuíram aos cátaros origens ao mesmo tempo maniqueias e gnósticas. Döllinger, Beiträge zur Sektengeschichte des Mittelalters, t. 1, Geschichte der gnostisch-manichäischen Sekten im früheren Mittelalter, Munique, 1890, é desta opinião; ele chega ao catarismo partindo dos gnósticos e passando pelos maniqueus, os paulicianos, os bogomilos, Pedro de Bruys, Henrique, Eon de l’Etoile, Tanchelm. C.
Douais, Les albigeois, Paris, 1879, t. 1, acrescenta à série dos antepassados dos cátaros os priscilianistas. Segundo P. Alphandéry, Les idées morales chez les hétérodoxes latins au début du xie siècle, Paris, 1903, p. 36, nota, « todas as probabilidades parecem ser a favor de uma origem mais marcionita do que propriamente maniqueísta. »
Para Ch. Schmidt, Histoire et doctrine de la secte des cathares ou albigeois, Paris, 1849, t. 1, p. iv-vv, 1-2, 7-8; t. ii, p. 252-270, o catarismo é independente das seitas dualistas anteriores, em particular do maniqueísmo; foi nos países eslavos que ele teve origem, talvez desde o início do século X; de lá, seguindo a rota do oeste, passou pela Dalmácia, pela Itália e pela França, ao mesmo tempo que se expandia na direção setentrional e penetrava, pela Hungria e pela Boêmia, até a Alemanha do norte; o bogomilismo não foi, como se disse, o catarismo primitivo, mas um de seus ramos.
Ch. Pfister, Études sur le règne de Robert le Pieux, Paris, 1885, p. 326, rejeita, com Schmidt, a procedência maniqueísta dos cátaros, mas não está de acordo com ele sobre o seu itinerário. « É no norte da França, diz ele, que a heresia se propaga primeiro; é lá que documentos certos no-la fazem descobrir em primeiro lugar; do norte ela ganhou o sul de nosso país, depois a Itália; enfim, somente em uma época posterior, encontramo-la na Dalmácia. » Cf. sobre estas diversas opiniões, G. Steude, Ueber den Ursprung der Katharer, na Zeitschrift für Kirchengeschichte, Gotha, 1882, t. v, p. 1-12.
Como se vê, as origens dos cátaros são obscuras. O que se pode dizer com certeza é que, entre o maniqueísmo e o catarismo, há semelhanças e diferenças tais que é impossível afirmar ou negar sem hesitação que um deriva necessariamente do outro. O catarismo não tem do maniqueísmo nem sua metafísica complexa, nem sua mitologia astronômica, nem seu vasto simbolismo pagão, nem seu culto de Manes. Em contrapartida, a exemplo do maniqueísmo, possui os dogmas fundamentais do dualismo e da malícia da matéria, e, como corolários teológicos, a doutrina de um Cristo fictício e a rejeição do Antigo Testamento, como consequências morais, a proibição do casamento e a abstinência da carne animal. A organização das duas seitas possui traços importantes em comum, sobretudo a distinção dos eleitos e dos simples fiéis. Os pontos de contato em matéria de culto são numerosos.
Em um estudo sobre o consolamentum cátaro, J. Guiraud, Revue des questions historiques, Paris, 1904, t. lxxv, p. 112, acreditou poder concluir que há, no catarismo, « não apenas uma ressurreição, mas a continuação ininterrupta através dos séculos, com seus ritos, sua moral, sua teologia e sua filosofia, do próprio maniqueísmo. » No estado atual da ciência, « pode-se, portanto, considerar que a questão das origens do catarismo não está resolvida. » A. Rébelliau, Bossuet historien du protestantisme, Paris, 1891, p. 484, nota; cf. p. 475-483. Todavia, parece que a hipótese que faz do catarismo um maniqueísmo modificado em várias de suas partes, após ter parecido desacreditada na sequência dos trabalhos de Schmidt; cf. P. Meyer, Revue critique, Paris, 1879, 2e série, t. vii, p. 81; C. Molinier, Revue historique, Paris, 1894, t. liv, p. 157, tende a retomar crédito. Cf. Rébelliau, op. cit., p. 488, nota.
Se os vínculos do catarismo com o maniqueísmo permanecem incertos, é, ao contrário, agora estabelecido que os cátaros não se identificam de modo algum com os valdenses. Por muito tempo acreditou-se que eles se confundiam. Desde antes do protestantismo, esta opinião foi aceita. Os protestantes a sustentaram em massa; viram nos valdenses e nos cátaros os precursores da Reforma, puros desse maniqueísmo que lhes foi imputado apenas por calúnia, formando um só e mesmo corpo de Igreja, e remontando até a era de Constantino, onde um suposto Leão de Constantinopla, indignado pela pretendida doação de Constantino ao papa, teria protestado contra o enriquecimento da Igreja de Roma, infiel à sua missão e para sempre desviada. Por seu lado, os católicos admitiram que os valdenses não eram distintos dos cátaros, ainda que atribuindo a estes o diteísmo maniqueísta e suas consequências morais que os cronistas da Idade Média imputavam àqueles.
Bossuet, que havia primeiramente adotado a maneira de ver de seus contemporâneos, sentiu a necessidade de examinar a questão de perto quando compôs a Histoire des variations. O estudo das fontes conduziu-o a estas conclusões de que a antiguidade dos valdenses é uma fábula e que os valdenses foram muito diferentes dos cátaros, pois os autores católicos da Idade Média não acusam os valdenses, mas apenas os cátaros, de dualismo. Esta tese foi mal acolhida pelos católicos e pelos protestantes, sobretudo pelos protestantes; ela obteve apenas um pequeno número de adesões completas ou parciais, durante todo o século XVII e a primeira metade do XIX.
Perto de meados do século XIX, a questão foi retomada quase simultaneamente na França, na Alemanha, na Inglaterra. Os trabalhos que lhe foram então consagrados e aqueles que os seguiram confirmaram as conclusões de Bossuet. Isso não quer dizer que a antiga opinião tenha desaparecido — os erros históricos têm vida longa — mas tornou-se impossível levá-la a sério. Tudo o que se deve admitir é que valdenses e cátaros, como observa F. Tocco, L’eresia nel medio evo, Florença, 1884, p. 143, exerceram uma ação eficaz uns sobre os outros e tiveram juntos muitas analogias. Sobre o fundo mesmo de seu sistema, estiveram em desacordo, professando os cátaros um dualismo que os valdenses rejeitaram. Nem eles formaram uma seita única, nem constituíram duas seitas diversas de uma mesma família; entre eles não existe uma filiação propriamente dita. É erroneamente, em particular, que se fez dos valdenses os pais dos cátaros ou albigenses; os valdenses datam apenas do fim do século XII, e não restam mais do que obras sem valor, tais como Les vaudois, por Al. Bérard, Paris, 1902, para admitir ainda suas remotas origens. Ver um bom resumo do que foi escrito sobre esta questão em Rébelliau, op. cit., p. 238-252, 345-353, 380-419, 475-484, 530-533.
II. História. — 1° França e Espanha.
— Seja o que for que se deva pensar dos textos que afirmam que os cátaros da França receberam suas doutrinas da Itália, é incontestável que os documentos, que não se contentam em afirmar sua existência, mas que nos mostram sua atuação, permitem descobri-los e assistir à sua propaganda primeiramente na França central. Um concílio foi realizado em Orléans, em 1022, o qual julgou, na presença do rei Roberto, o Piedoso, treze hereges desta seita, todos clérigos, dos quais dez eram cônegos da colegiada de Sainte-Croix e dos quais outro havia sido o confessor da rainha Constança.
Dos três principais centros de propaganda que o catarismo parece ter tido, do início do século XI até meados do século XIII, no Ocidente, a saber, o Milanesado, o sul da França e a Champanha, este último não foi o mais importante; foi, contudo, muito ativo. Uma lenda, recolhida por Alberico de Trois-Fontaines, contava que o maniqueu Fortunato, após ter sido forçado por Santo Agostinho a deixar Hipona, havia convertido às suas crenças o fabuloso príncipe Widomar na Champanha. O castelo de Montwimer, mais tarde chamado Montaimé, na diocese de Châlons-sur-Marne (e não Montélimar no Delfinado, como acreditaram Martène e Durand, Veterum scriptorum amplissima collectio, Paris, 1724, t. I, col. 777), teria tirado seu nome deste Widomar. Cf. Alberico, Chronic., édit. Leibnitz, em Accessiones historicae, Leipzig, 1698, t. I, p. 569.
Uma carta da Igreja de Liège ao papa Lúcio II (1144) testemunha que se acreditava, no século XII, que dali o catarismo havia se espalhado per diversas terrarum partes. P. L., t. CLXXIX, col. 988. O castelo de Montwimer foi talvez o mais antigo foco do catarismo na França, e certamente o principal do centro e do norte da França. De Montwimer a heresia irradiou-se um pouco por toda parte, especialmente na Flandres, na Picardia, na Borgonha, no Nivernais. Por vezes, a seita voltava para o mistério; é assim que, durante a segunda metade do século XII, a França setentrional não deixa perceber nenhum vestígio dos cátaros. Mas subitamente ela reaparecia à luz do dia. Na segunda metade do século XII, seus progressos foram consideráveis. No século XIII, ela foi destruída; o suplício de cento e oitenta e três cátaros da comunidade de Montwimer (13 de maio de 1239) marcou o fim do catarismo nessas regiões.
Mais ainda, e de muito, do que o centro e o norte da França, o sul ofereceu um terreno propício ao catarismo. Ele se propagou primeiramente na Aquitânia; embora o nome de albigenses tenha prevalecido para designar seus adeptos, seu principal foco não foi Albi, mas Toulouse. O catarismo se espalhou bastante rápido por todos os países ao sul do Loire. Ele se beneficiou, sem se confundir com ele, do movimento petrobrusiano e henriciano, e sobreviveu-lhe. A segunda metade do século XII viu-o atingir seu apogeu. A Igreja o reprimiu pelas armas e por condenações doutrinárias. Ver t. I, col. 680-686.
Por volta de meados da primeira metade do século XIV, a história cessa de nos mostrar albigenses. É erroneamente, parece, que se quis ligar a eles os cagots. Ver col. 1802. Há motivo para acreditar que as populações anteriormente ligadas ao catarismo se voltaram para a feitiçaria. Cf. G. Molinier, Revue historique, Paris, 1904, t. LXXXV, p. 143. O espírito de revolta que havia animado os albigenses não se extinguiu com eles. «Essa é a razão dos rápidos progressos que fizeram desde então os valdenses no sul da França; é também a razão do ardor com o qual, no século XVI, essas populações abraçaram a Reforma; comunidades protestantes se estabeleceram em quase todas as localidades onde haviam existido comunidades cátaras.» Schmidt, op. cit., t. I, p. 364. Sobre todos esses fatos, cf. Schmidt, op. cit., t. I, p. 24-50, 66-94, 488-367; Pfister, op. cit., p. 325-337; E. Vacandard, Les origines de l’hérésie albigeoise, na Revue des questions historiques, Paris, 1894, t. LV, p. 50-53, 65-88; Vie de saint Bernard, Paris, 1895, t. II, p. 202-204, 217-234.
Do sul da França, o catarismo ganhou a Espanha; ele só penetrou nas regiões do norte, Aragão, Catalunha, Leão, Navarra. Já por volta de 1159 havia partidários. Eles foram os mais numerosos e mantiveram-se por mais tempo no Aragão e na Catalunha. Ouviu-se falar deles pela última vez em 1292. Cf. Schmidt, op. cit., t. I, p. 368-375.
2° Itália. — Vimos que, se fosse para acreditar em certos documentos, o catarismo teria enviado missionários da Itália para a França, antes de 1022. A primeira aparição pública da seita na própria Itália remonta aos anos 1030 a 1040. O arcebispo de Milão, Héribert, agiu severamente contra cátaros descobertos no castelo de Monteforte, perto de Turim. Durante todo o restante do século XII, o catarismo não deu sinal de vida; o mesmo ocorreu durante a primeira metade do século XII. Mas a heresia cátara se propagou nas sombras. Por volta de 1150, ela reapareceu à luz do dia com uma organização e um desenvolvimento que supõem uma difusão secreta ao mesmo tempo ativa e hábil; ela contava com numerosos partidários na Itália setentrional, na Marca de Ancona, na Toscana, na Lombardia, nos vales dos Alpes.
O povo os chamava patarinos, o que se explica por sua condenação do matrimônio. Um século antes, os membros da Pataria de Milão ou patarinos haviam, sob o impulso de Arialdo, combatido vivamente o matrimônio dos padres. Resultou disso uma espécie de confusão entre os arialdistas ortodoxos e os cátaros, a qual pôde ser facilitada pela corrupção da palavra cathari em catharini, de onde patharini. Milão foi, desde cedo, como a sede da seita; com Montwimer e Toulouse, esta cidade permaneceu um dos principais centros do catarismo ocidental. De resto, muitas outras cidades italianas se abriram ao catarismo. Um pouco mais de vinte anos antes do nascimento de Dante (1265), um terço das famílias ilustres de Florença dava garantias à heresia. Cf. F. Tocco, Quel che non c’é nella Divina Commedia, Bolonha, 1899, p. 2.
Por volta de 1190, um bispo cátaro convertido ao catolicismo, Bonacurse, dizia, Manifestatio heresis catharorum, P. L., t. CCII, col. 778: «Não vemos as cidades, os burgos, os castelos, cheios destes falsos profetas?» Orvieto, Viterbo, Verona, Ferrara, Módena, Prato, Rimini, Parma, Cremona, Placência tiveram comunidades cátaras; eles se instalaram até Roma; penetraram na Calábria, na Apúlia, no reino de Nápoles, na Sicília, na Sardenha. Inocêncio III trabalhou para fazê-los desaparecer da Itália. Sobre os cátaros de Viterbo e Orvieto, cf. A.
Luchaire, Innocent III, Rome et l’Italie, Paris, 1904, p. 84-101. Seus sucessores, em particular Honório III, Gregório IX, Inocêncio IV, continuaram a repressão. A Igreja de Roma encontrou um aliado, muito violento se não convicto, em Frederico II. São Francisco de Assis converteu um cátaro de Assis; Santo Antônio de Pádua pregou contra os erros dos cátaros na França e na Itália, nomeadamente em Rimini, sem ter, ao que parece, provocado sua repressão pelas armas e pelo fogo. Cf. A. Lepitre, Saint Antoine de Padoue, Paris, 1901, p. 62-63, 79-80. Um de seus mais temíveis adversários foi o inquisidor dominicano São Pedro de Verona, nascido de pais cátaros, que foi assassinado por eles. Ainda encontramos cátaros no início do século XIV, e até mesmo São Vicente Ferrer encontrou alguns, em 1403, na Lombardia e nos vales do Piemonte. Cf. Schmidt, op. cit., t. 1, p. 16-23, 59-66, 142-188. Em 3 de agosto de 1412, foram executados em efígie os cátaros mortos no Piemonte, os últimos de que se tem notícia. Cf. G. Boffito, Eretici in Piemonte al tempo del gran scisma, Roma, 1897, p. 41-53.
3° Alemanha, Inglaterra. — Os primeiros cátaros alemães cuja existência é atestada pela história foram presos e enforcados em Goslar (Baixa Saxônia), em 1052. Segue-se um longo período durante o qual não se fala mais dos cátaros. No século XII, uma comunidade importante desses heréticos existia em Colônia; o bispo cátaro e muitos irmãos foram presos, em 1143. Por ocasião do processo que se iniciou contra eles, Evervin, preboste de Steinfeld, pediu a São Bernardo que refutasse os cátaros, o que este empreendeu em seus sermões LXV e LXVI sobre o Cântico dos Cânticos. P. L., t. clxxxiii, col. 1088-1102. A carta de Evervin encontra-se em P. L., t. clxxxii, col. 676-680. Cf. Vacandard, Revue des questions historiques, t. lv, p. 52-66; Vie de saint Bernard, t. ii, p. 204-217. O catarismo teve menos sucesso na Alemanha do que na Itália e na França; implantou-se solidamente apenas às margens do Reno, «esta terra clássica das heresias da Alemanha da Idade Média». Schmidt, op. cit., t. 1, p. 94. Apareceu, aliás, um pouco por toda parte, particularmente na Baviera. A repressão foi dirigida pelo terrível Conrado de Marburgo. Cf. B. Kaltner, Konrad von Marburg und die Inquisition in Deutschland, Praga, 1882. Cerca de trinta cátaros partiram, por volta de 1159, de um lugar desconhecido, mas de nação e língua alemãs, rumo à Inglaterra. O catarismo não fez, nesta região, senão poucos prosélitos. Cf. Schmidt, t. 1, p. 52-54, 94-99, 375-379.
4° Países orientais e eslavos. — A opinião de Schmidt segundo a qual o catarismo teria nascido entre os eslavos, talvez no início do século X, talvez em um convento greco-eslavo da Bulgária, está, como dissemos, longe de ser incontestável. Parece, todavia, que as origens do catarismo estão na Bulgária, e é certo que os bogomilos foram cátaros. A história do catarismo oriental confunde-se quase com a do bogomilismo. Ver col. 927-928. Se não está absolutamente estabelecido que o catarismo começou na Europa oriental, está, por outro lado, provado que os cátaros eram numerosos nos países orientais quando, há muito tempo, já haviam desaparecido do resto da Europa; foi apenas na segunda metade do século XV que a seita cessou de existir ali, após ter-se em parte perdido no maometismo. Cf. Schmidt, t. 1, p. 7, 10-16, 56-59, 104-188; Döllinger, op. cit., t. 1, p. 242-252.
III. Doutrinas. — A característica essencial do catarismo é o dualismo. À diferença das seitas que se limitam a reclamar a reforma da Igreja, «o catarismo é a negação absoluta do catolicismo; é um sistema ou, antes, uma fé filosófica», diz Alphandéry, op. cit., p. 34-35. «Longe de ser uma filosofia cristã, o sistema cátaro vincula-se às especulações metafísicas e religiosas do paganismo... Embora pagão em sua essência, o catarismo quis adaptar-se ao cristianismo», mas isso não ocorreu senão ao preço de mil contradições; dele conservou «apenas uma forma ilusória» e, apesar de suas visões cristãs, destruía o cristianismo «em suas doutrinas essenciais e em sua realidade histórica». Schmidt, op. cit., t. 1, p. 169, 170. Cf. C. Molinier, Revue historique, t. liv, p. 159. Sobre as doutrinas do catarismo oriental, ver BOGOMILES, col. 928-930; sobre as do catarismo ocidental, ver ALBIGEOIS, t. 1, col. 678-680. Não temos de voltar a estes pontos. Dois restam a explicar:
1° Divisões entre os cátaros. — Uma cisão eclodiu entre os cátaros das Igrejas eslavas, por volta da metade do século X. Até então, professavam o dualismo absoluto, acarretando a igualdade perfeita dos dois princípios. O dualismo mitigado gozou, por sua vez, de certo favor, e contaram-se três sistemas, ou, como se exprimem os documentos ocidentais, três ordens cátaras: a de Draguvitia (provavelmente do nome dos dragovicianos, na Trácia, cf. L. Leger, na Revue des questions historiques, Paris, 1870, t. vii, p. 493), fiel ao dualismo rigoroso; a da Bulgária, que optou pelo dualismo mitigado, admitindo que apenas o princípio bom foi eterno e Deus supremo, e que o princípio mau foi um espírito criado bom, mas que se tornou mau por um ato de seu livre-arbítrio; a da Eslavônia, menos importante, que ensinou, com o dualismo mitigado, algumas opiniões especiais sobre a natureza das almas e sobre a de Jesus Cristo e da Virgem. Uma divisão análoga produziu-se no Ocidente. Certamente, houve uma unidade cátara. O dominicano Rainier Sacconi, antigo ministro da seita, que melhor nos dá a conhecer as diferenças entre os cátaros, começa por dizer que todos têm opiniões comuns e reduz a nove essas opiniões: afirmação de que este mundo e o que ele encerra procedem do demônio, rejeição dos sacramentos tais como existem na Igreja católica, condenação do matrimônio, negação da ressurreição da carne, proibição de consumir carne, ovos, laticínios, interdição do juramento, negação do direito que reivindicam os poderes temporais de punir os malfeitores ou os heréticos, impossibilidade da salvação fora de sua Igreja, negação da existência do purgatório. Cf. Rainier Sacconi, Summa de catharis et leonistis, em Martene e Durand, Thesaurus novus anecdotorum, Paris, 1717, t. v, col. 1761-1762. Mas, sobre outras opiniões, estavam em desacordo. O dissentimento recaiu sobretudo sobre a ideia que faziam do dualismo. Como no Oriente, uns professaram o dualismo absoluto; foram os albaneses, ver t. 1, col.
ou cátaros de Desenzano, chamados albaneses talvez do nome da cidade de Alba (Piemonte), ou de uma das localidades chamadas Albano, talvez do da província da Albânia, que ainda ocupavam no século XIV, cátaros de Desenzano pelo nome da pequena cidade de Desenzano, ao sudoeste do lago de Garda, onde estavam em grande número.
Outros admitiram o dualismo mitigado: foram os concorézios (ver este verbete), CÁTAROS assim chamados do nome da cidade de Corise (hoje Geertz), na Dalmácia, cf. Schmidt, op. cit., t. II, p. 285, ou do nome de Coreggio, ou, mais provavelmente, do de Concorezzo, na Lombardia, e foram ainda os bagnolais, ver col. 33-34, assim chamados de uma das cidades de Bagnolo, na Itália. Os bagnolenses diferenciavam-se dos concorézios principalmente por afirmarem que as almas foram criadas por Deus antes do mundo e que pecaram antes que o mundo existisse, enquanto os concorézios sustentavam que as almas provêm, por via de traducianismo, de um anjo que havia pecado e que o demônio colocou no corpo do primeiro homem, sua obra. Cf. Rainier Sacconi, col. 1773-1774.
Os partidários do dualismo absoluto dividiram-se também em dois grupos distintos. O primeiro foi o do bispo cátaro de Verona, Balasinansa ou Belesmagra (cf. C. Molinier, em Annales de la faculté des lettres de Bordeaux, Bordéus, 1883, t. V, p. 228, nota), que representava o espírito tradicionalista. O segundo teve por chefe João de Lugio (ou de Bérgamo, ou mesmo chamado, erroneamente, João de Lyon), filho (talvez apenas espiritual) de Belesmagra; ele fez cisma por volta de 1230 e arrastou consigo quase todo o elemento jovem da seita. João de Lugio tentou resolver algumas das dificuldades que o dualismo apresenta. Sua ideia nova é que, sendo os dois princípios eternos, há oposição eterna e essencial entre eles, um limita o outro, o Deus mau depositou em cada uma das criaturas do Deus bom o gênio do mal, restringindo assim a liberdade do Deus bom, que não é mais a perfeição infinita e não pode mais dar a vida senão a criaturas imperfeitas. Sobre as outras opiniões de João de Lugio, cf. Rainier Sacconi, col. 1769-1773; Schmidt, op. cit., t. 1, p. 52-56; Alphandéry, op. cit., p. 94-96.
Entre essas diversas seitas cátaras, ao menos entre albaneses e concorézios, a desunião ia até ao ponto de condenarem-se mutuamente, segundo o relato de Rainier Sacconi, col. 1773, 1774. O autor do tratado Supra stella, em Döllinger, op. cit., t. II, p. 53-54, diz que inter se valde discrepant quia unus alterum ad mortem condemnat, e que fizeram longas, mas infrutíferas tentativas de união. A importância numérica pertenceu aos albaneses; eles foram menos numerosos que os outros na Itália; mas, fora da Itália, quase todos os cátaros ligaram-se ao partido albanês.
2° Valor das doutrinas cátaras. — Sem falar do ponto de vista teológico, o catarismo conduzia às piores consequências morais e sociais, em particular por sua condenação do casamento e por suas ideias sobre a matéria. «Qualquer horror que nos possam inspirar os meios empregados para combatê-lo», diz H. C. Lea, Histoire de l’Inquisition au moyen âge, trad. S. Reinach, Paris, 1903, t. I, p. 120, «qualquer piedade que devamos sentir por aqueles que morreram vítimas de suas convicções, reconhecemos sem hesitar que, nessas circunstâncias, a causa da ortodoxia não era outra senão a da civilização e do progresso... Se essa crença tivesse recrutado uma maioria de fiéis, ela teria tido por efeito levar a Europa de volta à selvageria dos tempos primitivos.» Cf. E. Dulaurier, em Cabinet historique, Paris, 1880, t. IV, p. 158; J. Guiraud, Saint Dominique, Paris, 1899, p. 44-48; La répression de l’hérésie au moyen âge, em La Quinzaine, Paris, 1899, t. XXX, p. 9-16; e, entre os historiadores mais hostis à Igreja de Roma, Michelet, Histoire de France, nouv. édit., Paris, 1879, t. II, p. 16; Schmidt, op. cit., t. II, p. 170; Tocco, L’eresia nel medio evo, p. 126, 558; L. Tanon, Histoire des tribunaux de l’Inquisition en France, Paris, 1893, p. 10; P. Sabatier, Vie de saint François d’Assise, Paris, 1894, p. 40; I. Comba, I nostri protestanti, t. I, Avanti la Riforma, Florença, 1895, p. 297.
Quis-se justificar os cátaros estabelecendo que a acusação contra eles feita, de arruinar o casamento e a família, não era fundamentada: «Lembraremos», diz C. Molinier, Revue historique, Paris, 1887, t. XXV, p. 412, «a palavra significativa de Estêvão de Bourbon: Uxores electis eorum prohibentur, auditoribus conceduntur, palavra que nos mostra o casamento entendido na Igreja cátara, em despeito da teoria, da mesma forma que na Igreja católica, permitido aos fiéis e proibido aos sacerdotes.» Cf. Alphandéry, op. cit., p. 81. Essa aproximação não é válida. A Igreja católica admite que o fiel que vive no estado de matrimônio pode salvar-se como o sacerdote que vive no celibato. Para os cátaros, os crentes (e os ouvintes, cf. Schmidt, t. II, p. 98; Alphandéry, op. cit., p. 37), fossem quais fossem as suas virtudes, não podiam salvar-se enquanto fossem apenas crentes; as obrigações impostas pelo catarismo e a salvação que delas resultava pertenciam propriamente aos perfeitos.
Aos homens do mundo, admitidos entre os crentes, era permitido «viver a seu bel-prazer, com a única condição de se fazerem impor as mãos à hora da morte». Schmidt, op. cit., t. I, p. 68. Se uma morte súbita ou a ausência de um perfeito tornasse impossível a recepção do consolamentum, a salvação era impossível imediatamente, segundo os dualistas rigorosos, e a alma não tinha senão que emigrar para outro corpo para recomeçar sua expiação, ou então, segundo os dualistas mitigados, ela era deixada sem retorno nas mãos do princípio mau, e assim a salvação era absolutamente impossível. Cf. Schmidt, t. I, p. 99. Em uma e em outra explicação, o consolamentum era requerido para ser salvo, e receber o consolamentum era comprometer-se a seguir as obrigações da moral cátara, era renunciar ao casamento.
Ainda que o catarismo não tivesse chegado logicamente a consequências antissociais, seria ainda justo observar que ele perseguiu «uma perfeição ideal impossível», Schmidt, op. cit., t. II, p. 170, e, por isso mesmo, deprimente e contra a natureza. O número dos perfeitos, isto é, daqueles que estavam nas condições normais de salvação, não podia ser e não foi senão insignificante comparativamente aos outros.
Rainier Sacconi diz, col. 1767: *In toto mundo non sunt cathari utriusque sexus numero quatuor millia, et dicta computatio pluries olim facta est inter eos*. Assim, uma elite, uma casta, cerca de 4000 pessoas, tinham apenas livrado sua alma, ao receberem o *consolamentum*, da influência do princípio mau e preparavam-se para retornar para o Deus bom.
Os crentes, isto é, a imensa multidão, «sentiam-se sob a perpétua ameaça da danação, em um estado de pecado mortal que durava toda a sua vida. Era o bastante para obscurecer todas as suas alegrias; um nascimento, um casamento não eram para eles senão épocas desse pecado único.» Alphandéry, p. 40.
Eles tinham o recurso de ser «consolados» na hora da morte; mas, além de as circunstâncias nas quais morriam poder privá-los do consolamentum, estavam reduzidos, se, tendo recebido o consolamentum, continuassem a viver, a guardar mandamentos terríveis ou a submeter-se à endura, suicídio mais ou menos lento pela privação de toda alimentação, uma das mais selvagens práticas que já existiram, «e que não era, todavia, senão a consequência lógica do sistema». Alphandéry, op. cit., p. 51.
Quanto aos perfeitos propriamente ditos, toda inquietação relativa à salvação não era banida pelo fato de terem recebido o consolamentum. Se o perfeito que o havia conferido estivesse em estado de pecado mortal, tendo faltado a uma de suas obrigações, tão numerosas e ao mesmo tempo tão rigorosas, o consolamentum era sem efeito. Como não se podia ter certeza das disposições interiores do ministro, não se podia ter certeza de ter sido consolado de maneira eficaz. Uma vez consolado, perdia-se o benefício do consolamentum por uma falta grave às obrigações da seita, por exemplo, comendo carne, matando uma mosca, comunicando-se com um homem do mundo sem se esforçar para convertê-lo; podia-se ser consolado novamente. Mas não era somente do consolado que dependia a persistência dos efeitos do consolamentum, era também do ministro; se este cometesse um pecado mortal, a eficácia do consolamentum que ele havia conferido era destruída, ao ponto de que etiam salvati pro peccato consolatoris cadebant de cœlo, assim como faz dizer Pierre de Vaux-Cernay, Historia albigensium, c. 11, em Recueil des historiens des Gaules et de la France, Paris, 1833, t. XIX, p. 6.
Muito mais, segundo um autor cujo testemunho é suspeito, eles teriam admitido que, nesse caso, a alma do consolado estava condenada à danação. Cf. Le débat d’Izarn et de Sicart de Figueiras, publicado por P. Meyer, Nogent-le-Rotrou, 1880, v. 545-551, p. 29; ver a nota do editor, p. 48, nota 2.
IV. LITERATURA CÁTARA E ANTICÁTARA.
1° Literatura cátara. — Houve, na Idade Média, um grande número de livros devidos a heréticos. Cf. um curioso relato de Etienne de Bourbon, Anecdotes historiques, p. 275-277, sobre o príncipe Roberto de Auvergne, que havia, durante quarenta anos, reunido os livros de todas as seitas a fim de, explicou ele, poder utilizá-los em suas discussões com os albigenses vizinhos de suas terras. O dominicano Moneta de Cremona, Adversus catharos et valdenses, edit. Ricchini, Roma, 1743, expõe as doutrinas dos cátaros segundo seus escritos, fala, em particular, p. 248, 347, 357, de um Didier que teria composto alguma obra, e toma emprestada de um Tétricus a lista dos argumentos de que se serviam os cátaros para provar que as almas são coeternas a Deus, p. 71.
Rainier Sacconi tinha em sua posse um grosso tratado de Jean de Lugio, segundo o qual, conforme relata, col. 1773, deu o sumário das teorias particulares desse personagem. Lucas de Tuy, De altera vita fideique controversiis adversus albigensium errores, em M. de la Bigne, Biblioth. Pat., Paris, 1624, t. IV b, col. 692, menciona um tratado de filosofia cátara, entremeado de passagens da Escritura sagrada, intitulado Perpendiculum scientiarum; atribui aos cátaros diversas fraudes, notadamente as de um certo Arnaud, que corrompia as obras dos santos Agostinho, Jerônimo, Isidoro e Bernardo, e as vendia então ou as dava aos católicos, col. 706.
Depois, eram escritos de propaganda popular, schedulæ, que os cátaros semeavam ao longo dos caminhos, e que deviam compor-se de zombarias dirigidas ao catolicismo e da exposição de alguns dos ensinamentos da seita. Cf. C. Molinier, Annales de la faculté des lettres de Bordeaux, t. V, p. 230-232. Todos esses escritos foram perdidos. Resta-nos, dos cátaros, um ritual e a tradução do Novo Testamento em língua vulgar. L. Clédat os publicou sob este título: Le Nouveau Testament traduit au XIIIe siècle en langue provençale, suivi d’un rituel cathare, Paris, 1888. Sobre as versões da Bíblia e sobre os livros apócrifos recebidos na seita, cf. Schmidt, op. cit., t. I, p. 274-275; sobre os escritos cátaros, cf. Schmidt, op. cit., t. I, p. 1-2; C. Molinier, loc. cit., p. 226-234; C. Douais, Documents pour servir à l’histoire de l’Inquisition dans le Languedoc, Paris, 1900, t. II, p. 97-99, nota.
2° Literatura anticátara. — Para conhecer as doutrinas dos cátaros, estamos reduzidos aos testemunhos de seus adversários. Mas a esses testemunhos podemos acrescentar fé, salvo submetê-los às regras da crítica. Cf. Schmidt, op. cit., t. I, p. IV; t. II, p. 2-4; Rébelliau, op. cit., p. 390-392. O acordo que reina sobre os pontos essenciais entre escritores dos diversos países, que se escalonam do século XII findante até o XV, não seria explicável se eles não estivessem com a verdade.
Os tratados contra o catarismo que nos chegaram são bastante numerosos; os mais importantes parecem ser os de Rainier Sacconi, de Moneta e de Alain. Exceção feita para um tratado perdido do trovador Pierre Raimond de Toulouse e para Le débat d’Izarn et de Sicart de Figueiras, ambos em língua provençal, todos esses escritos estão em latim. Poderiam ser classificados em duas categorias. Uns dirigem-se manifestamente aos clérigos e têm por objetivo dar-lhes o conhecimento da doutrina da seita e ajudá-los a combatê-la; são o tratado de Sacconi e, sobretudo, o de Moneta. Outros, segundo toda a aparência, foram compostos principalmente para o uso dos leigos instruídos, que, em algumas páginas, tinham o essencial das afirmações cátaras e das respostas a lhes fazer. Cf. Hahn, op. cit., t. I, p. 411-447; Schmidt, op. cit., t. I, p. 242-251; C. Molinier, loc. cit., p. 204.
I. Fontes. — 1° Tratados contra os cátaros. — Na França e na Espanha: Raul Ardent, Sermo in dominic. VIII post Trinitatem (contra cátaros descobertos no Agenais, por volta de 1104), P.
L., t. CLV, col. 2010-2013; o tratado de Hugo de Amiens, arcebispo de Ruão, Contra hereticos sui temporis, P. L., t. CXCI, col. 1255-1298, frequentemente citado como dirigido contra os cátaros, é antes contra heréticos que se aproximam dos petrobrusianos e dos henricianos, talvez contra os partidários de Eon de l’Etoile; S. Bernardo, In Cant., serm. LXV, LXVI, P. L., t. CLXXXII, col. 1088-1102, pronunciados em 1143; Eberhard ou Evrard de Béthune, segunda metade do século XII, Liber antiheresis, publicado primeiramente por Gretser sob o título falso Contra waldenses, em Trias scriptorum adversus waldenses (com Bernardo de Fontcaude e Ermengaude), Ingolstadt, 1614, depois, entre outros, por M. de la Bigne, Biblioth. Patrum, 3ª ed., Paris, 1624, t. IV a, col. 1073-1192; Bernardo, abade de Fontcaude (Languedoc), por volta de 1189-1191, Liber adversus waldensium sectam (título falso), em M. de la Bigne, loc. cit., col. 1195-1232, e P. L., t. CCIV, col. 793-840; Ermengaude, talvez o abade de Saint-Gilles com este nome (1179-1195), Opusculum contra hereticos qui dicunt et credunt mundum istum et omnia visibilia non esse a Deo facta sed a diabolo, em M. de la Bigne, loc. cit., col. 1233-1262, e P. L., t. CCIV, col. 1235-1272; este tratado é publicado uma outra vez, exceto o final, em P. L., t. CLXXVIII, col. 1823-1846, em apêndice às obras de Abelardo; Alain, não Alain de Lille, como se diz comumente, cf. Schmidt, op. cit., t. I, p. 233-235, mas talvez antes Alain du Puy, fim do século XII ou começo do XIII, De fide catholica contra hereticos sui temporis, P. L., t. CCX, col. 305-430; O debate de Izarn e de Sicart de Figueiras, poema provençal publicado, traduzido e anotado por P. Meyer, Nogent-le-Rotrou, 1880, escrito um pouco depois de 1242; C. Molinier publicou, Annales de la faculté des lettres de Bordeaux, t. IV, p. 237-239, os títulos dos capítulos de um tratado inédito contra os cátaros, que ele situa na primeira metade do século XIII e atribui a um autor do Languedoc ou do norte da Espanha, ibid., p. 244-253; Etienne de Bourbon, dominicano e inquisidor, expôs os erros dos cátaros e narrou diversos fatos a eles referentes, em seu Tractatus de diversis materiis predicabilibus escrito antes de 1261; cf. as Anecdotes historiques extraídas por A. Lecoy de la Marche, Paris, 1877, p. 23-24, 36-37, 79, 97, 140-141, 148-150, 213-215, 241, 275-281, 286-290, 296, 299-314.
Além disso, sem falar de algumas peças pouco importantes, cf. Schmidt, op. cit., t. II, p. 238, assinalemos Bernard Gui, Practica inquisitionis heretice pravitatis, part. V, c. 1, ed. C. Douais, Paris, 1886, p. 237-244, e Gui Terrena, inquisidor, bispo de Elne de 1332 a 1342, Summa de heresibus et earum confutationibus, Paris, 1528; Luc, bispo de Tuy na Galiza (1239-1249), De altera vita fideique controversiis adversus albigensium errores, publicado primeiramente por Mariana, Ingolstadt, 1613, depois, entre outros, por M. de la Bigne, Biblioth. Patrum, 4ª ed., t. IV b, col. 575-714; Nicolau Eymerich, Directorium inquisitorum, part. II, q. xli, Roma, 1578, p. 203-205 (empréstimos de Bernard Gui).
— Na Itália: Bonacurse ver acima, col. 953-954; Salve Burce, de Placência, por volta de 1235, Supra stella, em I. von Döllinger, Beiträge zur Sektengeschichte des Mittelalters, Munique, 1890, t. II, p. 52-84; Gregório, provavelmente Gregório de Florença, bispo de Fano, por volta de 1240, Disputatio inter catholicum et paterinum hereticum, em Martène e Durand, Thesaurus novus anecdotorum, Paris, 1717, t. V, col. 1715-1758; Jean de Capellis, franciscano, em Milão, por volta de 1240, Summa contra hereticos; C. Molinier, Rapport sobre une mission exécutée en Italie, Paris, 1888, p. 280-282, 289-290, publicou a tabela e extratos; Rainier Sacconi, antigo cátaro, inquisidor dominicano, por volta de 1250, Summa de catharis et leonistis seu pauperibus de Lugduno, em Martène e Durand, loc. cit., col. 1761-1776; Monéta de Cremona, igualmente inquisidor dominicano, por volta de 1250, Adversus catharos et valdenses, ed. Ricchini, Roma, 1743; G. de Bérgamo, século XIII, Contra catharos et passagios; fragmentos em Muratori, Antiquitates italice medii evi, Milão, 1744, t. V, col. 1450-152, e em C. Molinier, Rapport citado, p. 143-149; Peregrinus Priscianus, que viveu no século XV, inseriu, em uma crônica de Ferrara, uma tabela de concordância das opiniões particulares aos cátaros albaneses, bagnolenses, concorrezianos, a qual deve ser de aproximadamente a mesma data da obra de Rainier Sacconi, segundo C. Molinier, Annales de la faculté des lettres de Bordeaux, t. V, p. 243; ela foi publicada por Muratori, Antiquitates italice medii evi, t. V, col. 93-96, e por Hahn, op. cit., t. I, p. 528-532.
— Na Alemanha: Eckbert de Schönau, segunda metade do século XII, Sermones adversus catharos, P. L., t. CXCV, col. 11-98, seguidos, col. 97-102, por extratos de Santo Agostinho sobre os maniqueus. Um autor, cujo escrito foi publicado como sendo de Rainier Sacconi por Gretser, Ingolstadt, 1613, e, em sua sequência, por M. de la Bigne, Biblioth. Patrum, 4ª ed., t. IV b, col. 745-770, sob o falso título Liber contra waldenses hereticos, é agora designado sob o nome de pseudo-Rainier, ou anônimo de Passau; é o tratado de Rainier Sacconi interpolado e aumentado com partes referentes à Alemanha; seria de cerca de 1250. Cf. K. Müller, Die Waldenser, Gotha, 1887, p. 121-131.
2º Outras fontes. — Sobre a guerra dos albigenses e a repressão inquisitorial, ver t. I, col. 686; sobre as principais indicações relativas às doutrinas e às práticas da heresia albigense, cf. C. de Smedt, Revue des questions historiques, Paris, 1874, t. XVI, p. 476-480. Citemos, entre as obras que contêm documentos sobre os cátaros: J. Benoist, Histoire des albigeois et des vaudois, Paris, 1691; J.-J. Percin, Monumenta conventus tolosani ordinis fratrum predicatorum primi, Toulouse, 1693; C. Duplessis d'Argentré, Collectio judiciorum de novis erroribus, Paris, 1728, t. I; Vaissete, Histoire générale du Languedoc, 3ª ed., Toulouse, 1879, t. VII; G. Lami, Lezioni di antichita toscane e specialmente della citta di Firenze, Florença, 1766, t. II; C. U. Hahn, Geschichte der Ketzer im Mittelalter, t. I, Geschichte der neu-manichäischen Ketzer, Stuttgart, 1845, p. 489-562, 578-582; Belhomme, Documents inédits sur l’histoire des albigeois, em Mémoires de la Société archéologique du midi de la France, Toulouse, 1852, t. VI, p. 101-146; B.
Hauréau, Bernard Délicieux et l’Inquisition albigeoise, Paris, 1877; C. Molinier, L’Inquisition dans le midi de la France au XIIIe et au XIVe siècle, étude sur les sources de son histoire, Paris, 1880; Rapport sur une mission exécutée en Italie, em Archives des missions scientifiques et littéraires, Paris, 1888, 3ª série, t. XIV; H. C. Lea, A history of the Inquisition of the middle ages, 1888, Nova York, t. I, p. 563-583; t. II, p. 569-575 (não reproduzidos na tradução francesa); P. Frédéricq, Corpus documentorum inquisitionis hæræticæ pravitatis, 1889, 1896, Gand, t. I, II; C. Douais, Les sources de l'histoire de l'Inquisition dans le midi de la France aux XIIIe et XIVe siècles, memória seguida do texto autêntico e completo da Chronique de Guillem Pelhisso e de um fragmento de um registro da Inquisição publicado pela primeira vez, Paris, 1881; Les manuscrits du château de Merville, em Annales du midi, Toulouse, 1890, t. II, p. 36-64, 170-193; Les hérétiques du midi au XIIe siècle, ibid., 1891, t. III, p. 367-380; L’Inquisition en Roussillon, ibid., 1892, t. IV, p. 533-540; L’albigéisme et les frères prêcheurs à Narbonne au XIIIe siècle, Paris, 1894; Guillaume Garric de Carcassonne, professeur de droit, et le tribunal de l'Inquisition (1285-1329), em Annales du midi, 1898, t. X, p. 5-45; A fórmula « Communicato bonorum virorum consilio » das sentenças inquisitoriais, no Compte rendu du 4e congrès scientifique international des catholiques, Friburgo (Suíça), 1898, t. IV, p. 316-367; O processo inquisitorial no Languedoc no século XIV de acordo com um processo inédito do ano 1287, Paris, 1900; Documentos para servir à história da Inquisição no Languedoc, 2 vol., Paris, 1900; I. von Döllinger, op. cit., t. III (documentos importantes, mas mal publicados; cf. C. Molinier, Revue historique, Paris, 1894, t. LIV, p. 161-164); F. Tocco, Quel che non c’è nella Divina Commedia o Dante e l'eresia, Bolonha, 1899, p. 33-78 (sobre os cátaros de Florença); J.-M. Vidal, Um inquisidor julgado pelas suas vítimas, Jean Galand e os Carcassonnais, Paris, 1903; O tribunal da Inquisição de Pamiers. Notícia sobre o registo do bispo Jacques Fournier, nos Annales de Saint-Louis des Français, Roma, 1904, t. VIII, p. 377-435.
II. TRABALHOS. — A obra capital é a de Ch. Schmidt, História e doutrina da seita dos cátaros ou albigenses, 2 vol., Paris, 1849, embora certas partes se tenham tornado insuficientes devido à publicação de novos documentos, e que seja necessário levar em conta esta observação do Pe. C. de Smedt, na Revue des questions historiques, Paris, 1874, t. XVI, p. 484: «Os seus preconceitos de seita mostram-se demasiadas vezes, não apenas na apreciação dos factos, mas também na facilidade em os admitir quando são apropriados para desculpar os hereges, negligenciá-los ou apresentá-los sob uma falsa luz no caso contrário; » C. U. Hahn, op. cit., t. I; I. von Döllinger, op. cit., t. I (fraco; cf. C. Molinier, Revue historique, Paris, 1894, t. LIV, p. 155-161); H. C. Lea, op. cit., t. I, p. 89-208; t. II, p. 1-442, 290-315, e passim, trad. franç. Reinach, Paris, 1900, t. I, p. 100-234; 1904, t. II, p. 4-184, 348-378 (a questão do albigensismo é tratada de forma superficial); V. Pareto, Os sistemas socialistas, Paris, 1902, t. I; P. Alphandéry, As ideias morais entre os heterodoxos latinos no início do século XIII, Paris, 1903, p. 34-99 (importante); Zickler, na Realencyklopädie, art. Neumanichäer, 3ª ed., Leipzig, 1903, t. XIII, p. 762-770; J. Guiraud, O consolamentum cátaro, na Revue des questions historiques, Paris, 1904, t. LXXV, p. 74-112.
Ver além disso os outros trabalhos citados ao longo deste artigo, em particular os de C. Douais. Cf. t. I, col. 686-687; Schmidt, op. cit., t. II, p. 380-391; A. Molinier, As fontes da história da França, 1ª parte: Das origens às guerras da Itália, Paris, 1908, t. III, p. 54-77.
Autor original: F. Vernet
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