CAROLÍNGIOS (Livros).
I. História. II. Doutrinas.
I. História. 1° Autenticidade dos livros carolíngios. — Em 1549 surgiu, em Paris, um livro intitulado: Opus illustris-simi Caroli Magni... contra synodum quæ in partibus Græciæ pro adorandis imaginibus stolide sive arrogan-ter gesta est. O editor designava-se misteriosamente por estas palavras: Eli. Philt. ele dizia fazer a sua publicação após um manuscrit vetustum, in templo quodam majore augustissimo ac totius Galliæ antiquissimo repertum, P. L., t. xcviii (salvo aviso em contrário, todas as citações da Patrologia referem-se a este volume), col. 992. Esta obra, que se compõe de quatro livros, recebeu e guardou o título de libri carolini.
Os protestantes, Flacius à frente, receberam com alegria os livros carolíngios; utilizaram-nos nos seus ataques contra a Igreja católica. Totalmente diferente foi o acolhimento dos católicos. Fizeram com que fossem postos no Index dos livros proibidos, de onde Roma os retirou aquando da última revisão do Index (1900). Suspeitou-se que o editor fosse um protestante, e esta opinião foi lenta a desaparecer, uma vez que a encontramos ainda em Petau, Dogm. theol., De incarnat., l. XIII, c. xii, n. 7, édit. Four-nials, Paris, 1867, t. vi, p. 241; na realidade, o editor era Jean du Tillet (Tilius), padre, mais tarde bispo de Saint-Brieuc, e depois de Meaux.
Muitos recusaram admitir que Carlos Magno fosse o autor destes livros: uns atribuíram-nos ao reformador Carlstadt, outros a um ou a vários heréticos do tempo de Carlos Magno, cuja obra Carlos Magno teria enviado ao papa Adriano I, a fim de obter a sua refutação. Cf. Su-rius, P. L., col. 966; Baronius, an. 794, n. 30, édit. Theiner, Bar-le-Duc, 1868, t. xiii, p. 264, e P. L., col. 950-951; Bellarmin, De Ecclesia trium-phante, l. II, c. xv, Controv., Paris, 1620, t. II, col. 796; Suarez, De incarnat., disp. LIV, sect. 11, Lyon, 1614, p. 803 (cf. Mansi, P. L., col. 968); Vasquez, In IIIum Sum. theol., disp. CVI, c. v, Lyon, 1619, p. 696.
Esta opinião não era admissível; desvaneceu-se pouco a pouco. Petau, op. cit., n. 7-8, p. 242, estimou que os livros carolíngios tinham sido escritos em nome de Carlos Magno; Thomassin, Dogm. theol., De Verbi Dei incarnat., l. XII, c. xii, n. 16-17, viu neles o eco das ideias da Igreja franca no tempo de Carlos Magno. Outros não hesitaram em considerar Carlos Magno como seu autor, por exemplo Sirmond, em Mansi, Concilia, Florence, 1767, t. xi, col. 905 (cf. Bossuet, Def. decl. cleri gallicani, part. III, l. VII, c. 11, édit. Lachat, Paris, 1879, t. xx, p. 79-80); Maimbourg, Histoire de l’hérésie des icono-clastes, 2e édit., Paris, 1675, t. II, p. 32; Noël Alexandre, Hist. eccles., Venise, 1778, t. vi, p. 110-141, e P. L., col. 975-979; Witasse, De incarnat., q. XI, a. 5, sect. V, Paris, 1719, t. II, p. 556-558.
A autenticidade dos livros carolíngios impôs-se cada vez mais aos críticos. Houve, contudo, uma última tentativa para a tornar duvidosa. Floss, De suspecta librorum carolinorum a Joanne Tilio editorum fide, Bonn, 1860, tentou demonstrar que J. du Tillet não tinha tido nas mãos um códice antigo, mas apenas um manuscrito do século XVI; concluiu daí, não sem habilidade, que o texto de J. du Tillet era suspeito. Ao que Reifferscheid respondeu, Narratio de Vaticano librorum carolinorum codice, programma, Breslau, 1873; cf. Revue des sciences ecclésiastiques, Amiens, 1876, t. xxxiv, p. 370-371, que a biblioteca Vaticana possui, n. 7202, um manuscrito dos livros carolíngios do início do século IX, idêntico ao manuscrito editado por J. du Tillet.
Este último não foi reencontrado, nem outro manuscrito do qual Augustin Steuchi, prefeito da Vaticana, tinha publicado todo um capítulo (l. I, c. vi), no seu De falsa donatione Constantini, l. II, n. 60, Leipzig, 1545, dizendo que era liber vetustissimus litteris longo-bardicis scriptus, P. L., col. 1000; mas a biblioteca do Arsenal, em Paris, contém, n. 663, um outro manuscrito dos livros carolíngios, que remonta "do século IX ao X". H. Martin, Catalogue des manuscrits de la bibliothèque de l’Arsenal, Paris, 1885, t. I, p. 499-500. "Agora, diz Hefele, Conciliengeschichte, Fribourg-en-Brisgau, 1877, t. III, p. 698, a autenticidade dos livros carolíngios já não dá lugar a hesitação."
De resto, ela não é estabelecida unicamente pelo testemunho dos manuscritos atuais e dos de Steuchi e de J. du Tillet. Hincmar de Reims, Opuscul. LV capitul. adversus Hincmarum Laudun., c. xx, P. L., t. cxxvi, col. 360-361, diz do VII concílio ecuménico, II de Niceia (787), e da sua condenação (destructa) pelo concílio de Frankfurt (794): De cujus destru-ctione non modicum volumen, quod in palatio adoles-centulus legi, ab eodem imperatore (Charlemagne) Ro-mam est per quosdam episcopos missum; e do l. IV do modicum volumen ele cita um capítulo, o vigésimo oitavo, que lemos nos livros carolíngios. P. L., col. 1246-1247.
O sínodo de Paris (824), que condenou, por sua vez, o culto das imagens, diz, na sua carta aos imperadores Luís e Lotário, P. L., col. 1300: Eamdem porro synodum (o II concílio de Niceia) cum sanctæ memoriæ genitor vester (Charlemagne) coram se suis-que perlegi fecisset, et multis in locis, ut dignum erat, reprehendisset et quædam capitula, quæ reprehen-sioni patebant, prenolasset, eaque per Angilbertum abbatem eidem Adriano papæ direxisset, ut illius judicio et auctoritate corrigerentur, ipse (o papa Adriano) rursus per singula capitula... respondere quæ voluit, non tamen quæ decuit, conatus est.
Finalmente, temos a carta de Adriano a Carlos Magno, tão duramente julgada pelo sínodo de Paris, Jaffé-Wattenbach, Reg. pont. rom., Leipzig, 1885, n. 2483, P. L., col. 1247-1292; o papa conta, col. 1249, que recebeu Angilbert, enviado por Carlos Magno, e que Angilbert edidit nobis capitulare adversum synodum que pro sacrarum imaginum erectione in Nicea acta est, e acrescenta: Unde pro vestra melliflua regali dilectione per unumquodque capitulum responsum reddidimus. O papa usa de cautela para com o imperador, parecendo ver no escrito que lhe foi apresentado apenas uma redação devida não se sabe a quais escritores e submetida à sé apostólica; mas não é difícil ler nas entrelinhas, e o que acaba por tornar claro o seu pensamento é a passagem onde, encontrando-se na presença de um capitulum digno de louvor e, por isso, diferente dos que precedem, atribui a honra a Carlos Magno, col.
Hoc sacrum et venerandum capitulum multum distat a totis supra-dictis capitulis, et idcirco eum agnovimus vestre a Deo servate orthodoxeque regalis excellentie esse proprium. Se todos reconhecem hoje que os livros carolíngios são autênticos, ninguém pretende que Carlos Magno os tenha redigido ele mesmo de fio a pavio, e julga-se até impossível que o tenha feito, pois não tinha a ciência que estes livros atestam. Tudo o que se quer dizer é que os livros carolíngeos foram compostos a seu pedido, em seu nome. «Não nos deteremos — diz Hefele, op. cit., p. 697; trad. Delarc, Paris, 1870, t. v, col. 121 — em examinar qual é aquele dos sábios da corte de Carlos Magno que pôde compor estes libri carolini; muitos indícios levariam a crer que foi Alcuíno, sobretudo se refletirmos sobre as relações existentes entre Alcuíno e Carlos Magno. Estamos, além disso, impressionados com a analogia que existe entre uma passagem do comentário de Alcuíno sobre S. João, iv, 5 sq., e um texto dos livros carolíngeos, l. iv, c. vi. Uma tradição muito antiga conservou-se também na Inglaterra, sustentando que Alcuíno escrevera contra o II concílio de Niceia.» Cf. Realencyklopädie, 3e édit., Leipzig, 1901, t. x, p. 90. Contudo, estes indícios são frágeis. Cf. o editor de Alcuíno, Froben, Præfatio gener., c. xii, P. L., t. c, col. 18; Præfatio in opera supposita, t. ci, col. 1170-1172; H. Hurter, Nomenclator, 3e édit., Inspruck, 1903, t. i, col. 708, nota.
2° Os livros carolíngeos e os capitula enviados a Roma. — Carlos Magno enviou a Roma os livros carolíngeos na forma em que os possuímos atualmente? Em geral, a resposta a esta pergunta tem sido afirmativa. Hefele, op. cit., p. 713-715; trad., p. 138-140, demonstrou que eles foram apresentados ao papa Adriano em uma forma diferente daquela que possuem hoje. Os capitula enviados a Roma não estavam na mesma ordem que os livros carolíngeos atuais; eles indicavam a sessão do concílio de Niceia onde se encontrava a proposição que eles censuravam, o que o texto atual não faz; eles eram em número de oitenta e cinco, enquanto os libri carolini atuais contam cento e vinte (ou cento e vinte e um, se admitirmos a autenticidade de l. iv, c. xxix, a qual é duvidosa), e, entre estes oitenta e cinco capitula, havia dois que não figuram em nossos livros atuais; o texto dos capitula citado pelo papa é quase por toda parte idêntico ao título dos capítulos dos livros carolíngeos atuais, de tal sorte que parece que Adriano não teve sob os olhos um texto não inteiramente semelhante, mas em grande parte semelhante aos títulos atuais dos livros carolíngeos. Ver em Hefele, op. cit., p. 716-717; trad., p. 141-142, a lista das passagens dos livros carolíngeos que correspondem às citações da carta do papa.
Esta primeira questão resolvida, apresenta-se uma segunda, que é a seguinte: a prioridade pertence aos livros carolíngeos atuais ou aos capitula que foram enviados a Adriano? Petau, op. cit., n. 8, p. 242, pensa que os livros carolíngeos teriam sido compostos três anos após o concílio de Niceia (portanto em 790), como é dito no prefácio do l. i, col. 1003; depois, o concílio de Frankfurt (794) teria reunido os títulos dos capítulos, modificando sua ordem e, por vezes, seu enunciado, e este extrato, este capitulare, como o chama Adriano I, col. 1249, teria sido enviado a Roma. Em sua 4ª edição, trad., p. 140, Hefele fora de opinião que os capitula transmitidos ao papa foram anteriores aos nossos livros carolíngeos, e que estes últimos foram elaborados depois, por ordem de Carlos Magno, para reforçar, com provas adequadas, os capitula primitivos; na 2ª edição, p. 718, ele abandonou esta maneira de ver para se alinhar à de Petau.
II. Doutrinas. — 1° Culto das imagens. — O papa Adriano mandou traduzir as atas do II concílio de Niceia e enviou um exemplar desta tradução a Carlos Magno. Carlos Magno tinha então do que se queixar dos gregos; eles apoiavam as resistências dos príncipes lombardos contra o domínio dos francos na Itália, e um projeto de casamento entre Rotrude, filha de Carlos Magno, e o imperador grego, Constantino VI, acabara de fracassar. É permitido crer que Carlos Magno ficou contente por ter uma ocasião de humilhar os bizantinos; por aí se explicam, em particular, passagens muito vivas dos livros carolíngeos contra Constantino VI e sua mãe, a imperatriz Irene. De resto, havia, na Igreja franca, tendências desfavoráveis ao culto das imagens. E, além disso, a tradução do concílio de Niceia era muito defeituosa; resultou daí um equívoco grosseiro sobre o fundo mesmo do debate.
O concílio estabeleceu nitidamente, sess. VII, Labbe et Cossart, Concilia, Paris, 1671, t. vii, col. 556; cf. Denzinger-Stahl, Enchiridion, doc. xxx, 9e édit., Wurzbourg, p. 82, a diferença entre a adoração verdadeira, ἀληθινὴν λατρείαν, que convém apenas a Deus, e a honra, τιμήν, a adoração impropriamente dita, a veneração, τιμητικὴν προσκύνησιν, que se presta às imagens e que não param nelas, mas que vão àqueles que as imagens representam. Ver t. i, col. 437-438. Ora, lá onde o texto grego trazia a palavra προσκύνειν, a tradução latina tinha adoratio. A palavra adoratio, na Escritura, nem sempre designa o culto de latria; o autor dos livros carolíngeos constata-o, l. I, c. ix, col. 1027-1029. No uso dos teólogos, ela pôde entender-se como o culto de dulia quando o contexto não deixava dúvidas sobre o sentido verdadeiro. Ver, por exemplo, Suarez, De incarnat., disp. LIV, De usu et adoratione imaginum, p. 790 sq.
Na tradução latina das atas do concílio de Niceia, esta palavra tinha, no máximo, uma significação equívoca; o autor dos livros carolíngeos, que interpretou, em toda a linha, o texto traduzido do concílio no sentido mais desfavorável, parte desta ideia de que o concílio reclama para as imagens a adoração propriamente dita. Outra passagem da tradução, que não podia senão confirmá-lo em seu erro, é aquela que faz dizer a Constantino, bispo de Constantia, na ilha de Chipre, e isso ceteris (episcopis) consentientibus: Suscipio et amplector honorabiliter sanctas et venerandas imagines secundum servitium adorationis quod consubstantiali et vivificatrici Trinitati emitto, col. 1148. Ora, há no original, Labbe et Cossart, op. cit., col.
188: «Aceito e beijo com honra as santas e veneráveis imagens; quanto à adoração que consiste na latria, isto é, no serviço devido a Deus, reservo-a à única supersubstancial e vivificante Trindade.» O mal-entendido era, portanto, tão grave quanto possível; o concílio de Niceia recusa às imagens a adoração propriamente dita, e os livros carolíngeos indignam-se pelo fato de o concílio de Niceia concedê-la a elas. Mas todo o conflito prendia-se a um mal-entendido? O concílio de Niceia negava às imagens o culto de latria, mas declarava legítimo um culto inferior, de simples veneração. Sobre isso, os livros carolíngeos estão de acordo com ele? Ao fiar-se em certas aparências, poder-se-ia a princípio crer nisso.
No prefácio do l. I, col. 1002-1005, lemos palavras tão duras contra o sínodo iconoclasta de Constantinopla (em 754; os livros carolíngeos, col. 1002, situam-no erroneamente na Bitínia) quanto contra o de Niceia, incriminado falsamente por ter prescrito a adoração das imagens. Aqui e ali, os Livros Carolíngios parecem não censurar senão o culto de latria atribuído às imagens, e admitir que se possa prestar a elas um certo culto. É assim que, à objeção extraída do fato de que o papa Silvestre levou imagens ao imperador Constantino, respondem, l. II, c. xi, col. 1078: 1° O livro dos Atos de São Silvestre, que narra este fato, não tem crédito; 2° se o papa apresentou imagens a Constantino, não foi para que este as "adorasse"; 3° se ele tivesse ordenado a Constantino que as "adorasse", ideo fortassis juberet ut eum qui visibilium cultor erat per visibilia ad invisibilia provocaret; logo, conclui-se, pode haver circunstâncias, pela admissão dos Livros Carolíngios, em que o culto das imagens pode ser útil. Noël Alexandre, P. L., col. 979-988; Witasse, op. cit., p. 531-532, 558-568, tentaram estabelecer que os Livros Carolíngios não são absolutamente hostis a todo culto em relação às imagens. Petau, op. cit., c. xvi, n. 2-4, p. 262-264, prefere (vere arbitror esse similius) a opinião segundo a qual esses livros excluem qualquer sorte de culto. É difícil não ser da sua opinião.
Os Livros Carolíngios protestam que as imagens não são ídolos e não querem que as destruam, mas, ao afirmarem que sua utilidade se reduz a adornar as igrejas, a rememorar as lembranças do passado, l. I, pref., col. 1006: imagines in ornamentis ecclesiarum et memoria rerum gestarum habentes, et solum Deum adorantes et ejus sanctis opportunam venerationem exhibentes, nec cum illis frangimus nec cum istis adoramus. A Deus a adoração, aos santos a veneração, mas nullum penitus locum imaginum cultus et adoratio tenent, l. II, c. xxi, col. 1085, e ainda, col. 1085-1086: Sanctis... veneratio exhibenda est, imagines vero, omni sui cultura et adoratione seclusa, utrum in basilicis propter memoria rerum gestarum et ornamentum sint an etiam non sint, nullum fidei catholicae afferre poterunt prejudicium. Importa pouco tê-las ou não tê-las; elas não são necessárias a nenhum título. Não se deve, de maneira alguma, compará-las à cruz de Cristo ou à Escritura sagrada, aos vasos sagrados, às relíquias dos corpos e das vestes dos santos; todos esses objetos são venerados, conforme uma tradição antiga, enquanto as imagens não o são. L. II, c. xxvii-xxx, col. 1096-1109; l. III, c. xxiv, col. 1165-1166. Não se pode dizer que a honra prestada às imagens passe aos santos que as imagens representam. L. II, c. xvi, col. 1146-1148; cf. J. Turmel, Histoire de la théologie positive, Paris, 1904, p. 480, 481. É insensato acender círios e queimar incenso diante das imagens. L. IV, c. iii, col. 1187-1188. Se elas são santas, como se pretende, por que colocá-las nas estradas ou nas praças públicas, que não são lugares santos? L. IV, c. xxvi, col. 1243-1244. Além disso, l. IV, c. xxvii, col. 1244-1246, todas as imagens não são belas; se a medida de sua beleza é a de sua santidade e de sua eficácia, aquelas que são desprovidas de beleza não são santas e eficazes, e assim sua santidade não vem de um motivo de religião, mas da habilidade do artista. Dir-se-á que a honra devida às imagens é independente de seu valor artístico? Nesse caso, só resta suprimir a justiça, que quer que se conceda a cada coisa o que lhe pertence. Há aí um sofisma, ou melhor, uma completa ininteligência da doutrina combatida. Mas o pensamento do autor dos Livros Carolíngios aparece franco e brutal; ele condena todo culto das imagens.
2° Pontos diversos. — 1, Os Livros Carolíngios tomam igualmente partido contra os gregos na questão da PROCESSÃO do Espírito Santo. Não somente dizem que o Espírito Santo PROCEDE ex Patre et Filio, na bela profissão de fé do l. II, c. 1, col. 1113; mas ainda insistem na necessidade de crer que o Espírito Santo PROCEDE ex Patre et Filio, l. II, c. VII, col. 1129, e afirmam que tal é a fé da Igreja universal, col. 1448. Em seu ardor de polêmica contra os gregos, censuram Tarásio, arcebispo de Constantinopla, por ter ensinado que o Espírito Santo PROCEDE ex Patre per Filium, l. II, c. III, col. 1117-1121, Teodoro de Jerusalém por ter dito que o Pai não tem princípio e que o Filho tem o Pai por princípio, l. II, c. IV, col. 1121-1123, e novamente Tarásio por ter confessado que o Espírito Santo é Patri et Filio contribulum. L. II, c. V, col. 1123-1124. O papa Adriano não teve dificuldade em mostrar a ortodoxia da fórmula que faz o Espírito Santo PROCEDER ex Patre per Filium, e a de Teodoro de Jerusalém sobre o Pai princípio do Filho e ele mesmo sem princípio; quanto à expressão de Patri et Filio contribulus, aplicada ao Espírito Santo, sem contar — o que o papa não nota — que ela tinha sido empregada por Teodoro de Jerusalém, não por Tarásio, ela podia se justificar, col. 1249-1254, 1275.
2. O que os Livros Carolíngios dizem da eucaristia, l. II, c. XXVII, col. 1093-1096, merece ser relevado. Acusam o concílio de Niceia de ter colocado no mesmo plano as imagens e a eucaristia, enquanto este concílio tinha feito exatamente o contrário. Labbe e Cossart, op. cit., col. 448-449; cf. Hefele, op. cit., p. 703; trad., p. 126-127. Em compensação falam, em bons termos, da eucaristia instituída por Nosso Senhor ad commemorationem suæ passionis et nostræ salutis, col. 1093. Per illud peccata remittuntur, dizem eles ainda, col. 1095; illud ducit per esum ad celestis regni introitum..., et cum sine illius perceptione nemo salvetur.
Parecem colocar a consagração nas palavras da epiclese: Ad horum consecrationem sacerdos infulatus, circumstantis populi deprecationes suis precibus miscens, cum interno rugitu memoriam faciat dominicæ passionis, et ab inferis resurrectionis, necnon et in celos gloriosissime ascensionis, et hæc perferri per manus angeli in sublime altare Dei et in conspectum majestatis deposcat, col. 1093-1094, e col. 1095: cum... illud consecretur a sacerdote divini nominis invocatione.
3. A. Hauck, Kirchengeschichte Deutschlands, Leipzig, 1897, t. III, p. 238 sq., atribui os Livros Carolíngios e a hostilidade de Carlos Magno ao II concílio de Niceia a uma viva irritação resultante de o papa ter reunido o concílio de Niceia sem avisar Carlos e sem concertar-se com ele. Isso é possível, mas muito hipotético. "Na suposição do Sr. Hauck de que Carlos Magno se teria sentido não somente ferido em seu amor-próprio pela iniciativa do papa, mas lesado em seus direitos de chefe da Igreja franca, é bem extraordinário que a polêmica dos libri carolini não tenha insistido sobre os direitos eclesiásticos do rei." H.-M. Hemmer, Revue d’histoire et de littérature religieuses, Paris, 1898, t. III, p. 366. Sem dúvida trata-se disso de passagem, sobretudo nesses membros de frases sonoros do prefácio do l. I, col. 1001-1002: cujus (Ecclesiæ), quoniam in sinu regni gubernacula, Domino tribuente, suscepimus...; nobis, quibus... ad regendum commissa est. Mas, a rigor, estas palavras podem ser entendidas como a expressão da ideia que tinha de sua missão o «bispo de fora», que, na verdade, Carlos Magno ambicionava ser mesmo antes de ser coroado imperador. Contudo, o que é estranho é que o autor dos Livros Carolíngios finge ignorar que o papa ocupou-se do concílio de Niceia, que para lá enviou seus legados, que o aprovou. Fala dele como de um sínodo que, longe de merecer o título de ecumênico, não passa da obra miserável dos bispos de duas ou três províncias em desacordo com a Igreja universal.
Há mais: entre as passagens do II concílio de Niceia que os Livros Carolíngios criticam, um certo número é tomado emprestado da carta do papa Adriano à imperatriz Irene, cf. o quadro das citações dos atos do concílio em Hefele, p. 709-712; trad., p. 133-136; nem uma única vez o autor parece perceber que ataca a palavra do papa. Notemos ainda uma expressão bastante viva a respeito do costume de recordar «a divina memória» dos mortos, l. I, c. II, col. 1015: Sed hæc et his similia Romana potius ambitio quam apostolica admisit traditio. Tudo isso revela um sentimento de independência vis-à-vis da Santa Sé; é já um pouco de galicanismo. Cf. A. Harnack, Lehrbuch der Dogmengeschichte, 3ª ed., Friburgo em Brisgóvia, 1897, t. II, p. 282-283. De resto, Carlos Magno exprime-se em termos magníficos sobre a primazia da Igreja de Roma em matéria de fé, l. I, c. VI, col. 1019-1022; recorda que seu pai, Pepino, o Breve, quis ter a mesma liturgia que Roma, ut non esset dispar ordo psallendi quibus erat compar ardor credendi, col. 1021, e que ele mesmo, por sua vez, introduziu a unidade litúrgica nos países que foram, por seus cuidados, convertidos ao cristianismo. Cf. L. Duchesne, Origines du culte chrétien, 2ª ed., Paris, 1898, p. 96-99.
4. Os Livros Carolíngios contêm mais de uma coisa justa sobre o emprego da Escritura e dos Padres. Não admitem que as Escrituras pro suo cuique arbitrio proprio sensui accommodandæ sint. L. I, c. V, col. 1019. Apenas possuem autoridade as Escrituras que a Igreja de Roma recebe como canônicas. L. I, c. VI, col. 1020. Elas não devem ser desviadas de seu sentido verdadeiro, e é erroneamente que se alega, em favor do culto das imagens, textos que não têm relação com esse assunto. Cf. Turmel, Histoire de la théologie positive, p. 302. Não se deve receber os dogmas senão dos doutores que foram recebidos pela Santa Sé. L. I, c. VI, col. 1020. Seu texto deve ser lido cuidadosamente, e deve-se velar para não lhes atribuir o que não dizem. L. II, c. XIV-XX, col. 1078-1085. Não se pode confiar nos escritos cujos autores são desconhecidos, l. IV, c. XI, col. 1203, nem nas tolices dos livros apócrifos. L. II, c. XXX, col. 1179-1180. Ver ainda as passagens indicadas por H. Reuter, Geschichte der religiösen Aufklärung im Mittelalter, Berlim, 1875, t. I, p. 266.
Nem tudo é, contudo, irrepreensível nos Livros Carolíngios em matéria de crítica. Tivemos a oportunidade de assinalar erros que cometeram, e poder-se-ia alongar a lista. Cf. Hefele, op. cit., sobretudo p. 708-709; trad., p. 133. Resta saber, aliás, dentro de quais limites o autor dos Livros Carolíngios é pessoalmente responsável por esses erros ou digno de elogio pelo que tem de bom. É o que ensinará o estudo das fontes que utilizou. Em 17 de junho de 1904, em uma comunicação à Academia das Inscrições e Belas-Letras, D. Serruys assinalou uma fonte desconhecida até o presente, uma obra inédita de Nicéforo, patriarca de Constantinopla, que será proximamente publicada. Nela reencontrou o texto original grego de certos testemunhos invocados pelos Livros Carolíngios; esses testemunhos seriam tomados emprestados de escritos de propaganda iconoclasta que foram compostos em Constantinopla, no século VIII, e que, sem dúvida, foram enviados ao Ocidente pelos gregos, desejosos de criar um dissentimento entre Roma e os francos sobre a questão das imagens, assim como tentaram ainda sob Luís, o Piedoso. Cf. Comptes rendus des séances de l’Académie des inscriptions et belles-lettres, Paris, maio-junho de 1904, p. 360-363.
I. EDIÇÕES. — A primeira edição dos Livros Carolíngios surgiu em Paris, pelos cuidados de J. du Tillet, em 1549. Foi reimpressa por M. Goldast, em Imperialia decreta de cultu imaginum in utroque imperio tam Orientis quam Occidentis promulgata, Frankfurt, 1608; é esta edição que passou, com suas notas, para a P. L., t. XCVIII, col. 999-1248. Uma edição melhor foi publicada por G. H. Heumann, Auguste concilii Niceni II censura hoc est Caroli Magni de impio imaginum cultu lib. IV, Hanôver, 1781. Fragmentos encontram-se em P. Jaffé, Bibliotheca rerum germanicarum, Berlim, 1878, t. VI, p. 220-242.
II. TRABALHOS. — Noël Alexandre, Hist. eccles., Veneza, 1778, t. VI, p. 408-448, e P. L., t. XCVI, col. 971-988; J. von Hefele, Conciliengeschichte, 2ª ed., Friburgo em Brisgóvia, 1877, t. III, p. 694-717; trad. Delarc (2ª ed.), Paris, 1870, t. V, p. 418-442; H. Reuter, Geschichte der religiösen Aufklärung im Mittelalter, Berlim, 1875, t. I, p.
40-48, 265-266; Hermes, em Kirchenlexicon, 2ª ed., Friburgo em Brisgóvia, 1890, t. VII, p. 189-196; A. Hauck, Kirchengeschichte Deutschlands, Leipzig, 1897, t. II, p. 238-299, e em Realencyklopädie, 3ª ed., Leipzig, 1901, t. X, p. 88-97; J. Turmel, Histoire de la théologie positive, Paris, 1904, p. 350-353, 479-484.
Ver, além disso, os trabalhos indicados no curso deste artigo, e aqueles que são indicados por A. Potthast, Bibliotheca historica medii aevi, 2ª ed., Berlim, 1896, t. II, p. 740, e por U. Chevalier, Répertoire des sources historiques du moyen âge. Topo-bibliographie, col. 590, 1489-1490.
Autor original: F. Vernet
A extração e a tradução foram feitas por IA e em caso de algum erro podem entrar em contato com o editor