CARLOS BORROMEU (SÃO)

CARLOS BORROMEU (SÃO)

CHARLES BORROMEU (Santo).

I. Vida. II. Obras e doutrina.

I. Vida. — Nascido no castelo de Arona (sobre o lago Maggiore), em 2 de outubro de 1538, Charles Borromeu recebeu ainda jovem a tonsura, obteve, aos doze anos, um benefício em Arona, realizou seus estudos em Pavia (1554-1559), onde teve como mestre o célebre canonista François Alciato. Seu tio materno, o cardeal João Ângelo de Médici (de uma família diferente dos Médici de Florença), tornado papa em 26 de dezembro de 1559, sob o nome de Pio IV, mandou-o vir à sua presença e nomeou-o, sucessivamente, protonotário apostólico, referendário da assinatura papal, cardeal, arcebispo de Milão. Este é um dos raros casos em que a Igreja teve de se congratular com o nepotismo de um de seus chefes. Charles desempenhou excelentemente os deveres que lhe impunham essas dignidades e os mais altos cargos da administração que logo vieram a se somar a eles.

Em 1562, seu irmão, o conde Frederico, tendo morrido, os membros de sua família, inclusive Pio IV, pressionaram-no para retornar ao mundo e se casar; Charles cortou curto essas instâncias fazendo-se secretamente ordenar sacerdote. Ele teve um papel considerável no governo da Igreja durante o pontificado de Pio IV. Em particular, a retomada do concílio de Trento, interrompido uma segunda vez, e seu desfecho feliz (1560-1563) foram, em parte importante, obra sua; ele estava em correspondência contínua com os legados da Santa Sé e os guiava, por meio de instruções sábias e precisas, através das dificuldades de todo gênero que se apresentavam a eles. Terminado o concílio, Charles tornou-se membro da comissão instituída para assegurar sua observância e esclarecer as dúvidas que pudessem surgir sobre o sentido de seus decretos; dirigiu os trabalhos da comissão encarregada de redigir o famoso catecismo romano, terminado em 1564 e publicado oficialmente por Pio V em 1566. Ver col. 1917-1918.

O concílio de Trento havia prescrito a residência aos bispos: após longos e inúteis esforços para obter de seu tio a permissão para deixar Roma e instalar-se em Milão, foi autorizado a visitar sua diocese. Entrou em Milão em 23 de setembro de 1565 e, a partir de 15 de outubro seguinte, realizou um primeiro concílio provincial. Chamado a Roma para assistir Pio IV moribundo, teve a maior influência na eleição do sucessor de Pio IV, são Pio V (8 de janeiro de 1566). Cf. L. Ranke, Histoire de la papauté pendant les xvie et XVIIe siècles, trad. J. B. Haiber, Paris, 1838, t. I, p. 149-150. Pio V, não sem alguma resistência, consentiu em deixá-lo retornar a Milão e fixar-se ali (5 de abril de 1566). Disse-se que são Charles foi, «com a diferença dos tempos, o Hildebrando do século XVI.» [Brugère,] Tableau de l’histoire et de la littérature de l’Eglise, p. 803.

Incontestavelmente ele empreendeu e realizou como ninguém a reforma do clero e do povo cristão tal como a havia desejado o concílio de Trento. Seis concílios provinciais (em 1565, 1569, 1573, 1576, 1579, 1582), e onze sínodos diocesanos, reunidos por ele e dos quais foi a alma, dedicaram-se a essa obra. O principal meio empregado para restaurar a disciplina e elevar o sacerdócio, o mais eficaz, foi sem dúvida a instituição dos seminários; estabeleceu três em Milão e três no resto de sua diocese, equivalendo estes aos nossos seminários menores e aqueles, um deles sobretudo, aos grandes seminários de hoje. Além disso, erigiu o colégio helvético de Milão, que deveria fornecer à porção da Suíça católica pertencente à diocese de Milão sacerdotes virtuosos e instruídos, capazes de se opor à propagação do protestantismo. Sobre o papel de são Charles na conservação do catolicismo na Suíça, cf. J.-J. Berthier, Lettres de J.-F. Bonomio, nonce apostolique en Suisse, à Pierre Schnewdby, prévôt de Saint-Nicolas de Fribourg, et à d’autres personnages (1579-1586), Fribourg, 1894; Analecta bollandiana, Bruxelles, 1895, t. XIV, p. 344.

Fundou uma congregação de sacerdotes seculares, os oblatos de Santo Ambrósio, chamados mais tarde oblatos de Santo Ambrósio e de São Carlos, que se comprometiam por voto a oferecer-se ao arcebispo e a dirigir-se a toda parte onde as necessidades da diocese o demandassem. Foi a eles que confiou os seminários e colégios que havia inicialmente colocado sob a direção dos jesuítas. Sobre as acusações contra os jesuítas que se leem em Quesnel, Histoire des religieux de la Compagnie de Jésus, Soleure, 1740, t. III, p. 40 sq., e que ainda são reproduzidas pelo pastor E.-H. Vollet, na Grande encyclopédie, Paris, t. VII, p. 445, cf. J. Crétineau-Joly, Histoire religieuse, politique et littéraire de la Compagnie de Jésus, Bruxelles, 1846, t. I, p. 489-499. Instituiu uma sociedade das escolas da doutrina cristã que contava, à sua morte, cinco mil trezentos e noventa e nove membros e mantinha, na cidade e na diocese de Milão, setecentas e quarenta escolas.

A reforma do clero, tanto regular quanto secular, e os esforços de Charles Borromeu para melhorar os costumes do povo valeram-lhe calúnias e resistências tenazes, notadamente por parte do governador de Milão Requesenz (1571-1589), do capítulo de Santa Maria de la Scala e da ordem dos humilhados. Um religioso dessa ordem, ganho a preço de dinheiro, resolveu assassinar o arcebispo e, com esse objetivo, disparou-lhe um tiro de arcabuz (27 de outubro de 1569); felizmente a bala apenas roçou a pele de Charles. Após esse crime, a ordem dos humilhados foi abolida pelo papa (1570), e a oposição diminuiu e tornou-se circunspecta.

Exigente para com os outros, Charles Borromeu foi severo para consigo mesmo. De uma austeridade de vida assustadora, quase não teve a boa graça e o sorriso de um Francisco de Sales, seja porque seu temperamento pouco se prestava a isso, seja porque os males a curar reclamassem antes de tudo remédios enérgicos; mas de todas as virtudes que pedia ele deu heroicamente o exemplo. A peste que assolou Milão em 1569-1570 e, melhor ainda, aquela que grassou em 1576, mostraram o que pode haver de dedicação no coração de um homem e tornaram imortal sua memória. Charles morreu no sábado, 3 de novembro de 1584, à terceira hora da noite. Foi canonizado, por Paulo V, em 1º de novembro de 1610. Ver a bula de canonização em L. Cherubini, Magnum bullarium romanum a Clemente VIII usque ad Gregorium XV, Lyon, 1673, t. III, p. 253-257.

Sobre a diminuição do culto de santo Ambrósio após a canonização de são Charles, ver a resposta que faz a Marco Antônio de Dominis Bento XIV, De servorum Dei beatificatione et beatorum canonizatione, l. I, c. xi, n. 15, Opera omnia, Bassano, 1767, t. I, p. 451.

OBRAS E DOUTRINA. — Charles Borromeu foi, toda a sua vida, muito estudioso entre as ocupações mais absorventes. Cf. G.-P. Giussano, Vita di san Carlo Borromeo, Brescia, 1612, p. 437-438. Em Roma, ele criou uma academia de sábios, eclesiásticos e leigos, cujos membros se reuniam, à noite, em sua casa, no Vaticano, e apresentavam dissertações que versavam primeiro sobre temas literários, depois sobre matérias teológicas; discutia-se com grande ardor. Destes livres colóquios, Carlos extraiu o conteúdo de uma coletânea intitulada: Noctes vaticanæ seu sermones habiti in academia Rome in palatio Vaticano instituta.

Possuímos de São Carlos homilias e cartas. Mas o que merece principalmente atrair nossa atenção é o conjunto dos atos de sua administração pastoral. Ele havia publicado um volume sob o título de Acta Ecclesiæ Mediolanensis; um segundo volume apareceu após sua morte. Esta coleção compõe-se de seis partes:

1º os concílios provinciais, ed. de Lyon, 1683, t. I, p. 1-264;

2º os sínodos diocesanos, p. 265-342;

3º Edicta varia, ordinationes et decreta, p. 343-389: a notar o edictum de hereticis, p. 343-344; aquele que proíbe o uso de exemplares da Bíblia e de livros de controvérsia em língua vulgar, p. 345; os estatutos para os livreiros e os impressores, p. 346-348; os dois éditos sobre o primeiro domingo da Quaresma e sobre a observância da Quaresma, p. 358-362;

4º diversas instruções, p. 390-708, notadamente sobre a pregação, p. 390-407; o sacramental (ritual) ambrosiano, p. 407-466; os dois livros do Instructionum fabricæ et supellectilis ecclesiasticæ, p. 466-535; instruções sobre a confirmação, p. 599-600; sobre a comunhão, p. 600-612, e a celebração da missa, p. 612-644; para os confessores, p. 644-668;

5º Institutiones et regulæ diversi generis, t. II, p. 711-878: são as regras para o governo espiritual e temporal da casa arquiepiscopal, p. 711-724; as regras dos oblatos de Santo Ambrósio, p. 724-740; as da sociedade das escolas da doutrina cristã, p. 741-809; as que foram estabelecidas para as religiosas, p. 843-858; as que concernem ao seminário, p. 859-878;

6º quadros diversos, p. 879-905, entre outros, p. 892-898, o das censuras e dos casos reservados, que termina a lista dos casos reservados por São Carlos;

7º cartas pastorais, p. 906-1249: a notar as cartas sobre o primeiro domingo da Quaresma, p. 928-930; sobre o jubileu (duas cartas seguidas de instruções), p. 930-951; sobre as indulgências da visita às sete igrejas obtidas a exemplo das de Roma, p. 951-965; sobre a peste, seguidas de um longo e importante Memoriale que tinha por objetivo destacar e recordar as lições que dava a cessação do flagelo, p. 966-1220; quatro discursos pronunciados no XI sínodo diocesano, p. 1229-1249;

8º diversas fórmulas, p. 1250-1340, sobre todas as matérias que podem se apresentar na administração eclesiástica, tais como a das cartas pelas quais se envia ao Papa o concílio provincial, p. 1284-1285.

Poder-se-ia extrair das obras de São Carlos um curso quase completo de teologia pastoral. Limitemo-nos a relevar algumas passagens que entram no quadro da correção do breviário romano decretada pelo Concílio de Trento. Cf. S. Bäumer, Histoire du bréviaire, trad. R. Biron, Paris, 1905, t. II, p. 145, 160-163, 168. Ele o fez adotar no II concílio provincial de Milão para a porção de sua diocese que não seguia o rito ambrosiano; mas, em conformidade com a constituição de São Pio V sobre o breviário, proibiu o breviário de Quignonez e ordenou a conservação do rito ambrosiano por toda parte onde ele havia sido de uso. Como todos os seus contemporâneos, São Carlos acreditava que este rito tinha Santo Ambrósio como autor (ver Cabrol, Dictionnaire d’archéologie chrétienne et de liturgie, t. I, col. 1373-1374). Os Acta Ecclesiæ Mediolanensis informam-nos sobre as medidas adotadas por São Carlos para fixar e coordenar este rito e sobre as mudanças que foram introduzidas. Cf. P. Le Brun, Explication de la messe, Paris, 1726, t. I, p. 190-194; S. Bäumer, op. cit., t. II, p. 220, 228-230.

— 2º Havia-se adotado em Milão o costume, desaparecido alhures há muito tempo, de começar a Quaresma na primeira segunda-feira da Quaresma; São Carlos trouxe o caput jejunii, não para a quarta-feira de cinzas, mas para o primeiro domingo da Quaresma, apoiando-se no antigo uso de sua Igreja, que ele fazia remontar a Santo Ambrósio. Cf. Acta Ecclesiæ Mediolanensis, t. I, p. 928-930; t. II, p. 806, 358-362; Bento XIV, De synodo diocesana, l. XI, c. 1, n. 3-6, Opera omnia, Bassano, 1767, t. XII, p. 20-22. Esta medida visava apenas a parte da diocese que seguia o rito ambrosiano; o restante da diocese inaugurava a Quaresma na quarta-feira de cinzas. Acta, t. I, p. 12.

— 3º Os padres que seguem o rito ambrosiano não devem celebrar a missa nas sextas-feiras da Quaresma, t. I, p. 280.

— 4º Santo Afonso de Ligório, l. VI, tr. III, De eucharistia, n. 300-301, cita São Carlos em apoio à sua tese: communiter dicunt doctores, regulariter loquendo, pueros non obligari ad communionem ante nonum vel decimum annum. Disse-se que a passagem citada por Santo Afonso concerne às crianças atrasadas para a primeira comunhão, e sustentou-se que São Carlos não admite que a criança seja privada da Eucaristia por falta de idade desde que sua preparação seja suficiente. F. Sibeud, La loi d’âge divine et canonique pour la première communion, Romans, 1893, p. 65-71; cf. p. 72-73. Em realidade, o texto alegado por Sibeud sobre as crianças atrasadas, e que se lê nas instruções para a administração da Eucaristia, t. I, p. 601, n. não é o que cita Santo Afonso; este último encontra-se nos atos do IX sínodo diocesano, t. I, p. 326, e dispõe que os párocos devem convocar, todos os meses, as crianças que atingiram nove anos e que são iniciadas, na escola, à doutrina cristã, e ensinar-lhes, na igreja, a confessar-se bem: quanto àqueles que tiverem atingido dez anos, o pároco os fará vir ao começo da semana da septuagésima, formá-los-á para o conhecimento e o culto da Eucaristia.

São Carlos acrescenta, após ter pedido que se ensine, na escola, a necessidade de se preparar para a comunhão: quando se informa sobre a comunhão das crianças, o pároco deve inquirir, e isso também junto aos pais, sobre sua piedade, suas boas disposições e seu uso da razão. No sacramental (ou ritual) ambrosiano, t. I, p. 424, ele diz que se recusará a comunhão às crianças que, propter ætatis imbecillitatem, nondum hujus sacramenti cognitionem et gustum habent, e que àqueles que são maiores, grandiusculis, não se a concederá senão após tê-los examinado e instruído de vi et ratione hujus tanti sacramenti; um pouco mais adiante, t. I, p. 428, a respeito da comunhão pascal, ordena aos párocos que recordem frequentemente e expliquem, durante a quaresma, a célebre constituição Omnis utriusque sexus do IV concílio de Latrão, e que vão, às famílias, inscrever os nomes daqueles que, tendo adquirido pela idade o uso da razão, têm o dever de comungar na Páscoa. No sacramental ainda, t. I, p. 420, ele regula que se chamará à confirmação as crianças que atingiram oito anos e mesmo aquelas que, mais jovens, tiverem o uso da razão e o gosto pela piedade; cf. o concílio provincial de 1565, t. I, p. 8, e o de 1579, t. I, p. 479, bem como Bento XIV, De synodo dioecesana, l. VII, c. x, n. 3, 7, Opera omnia, Bassano, 1767, t. XI, p. 185; após a confirmação, estas crianças receberão a eucaristia.

5° Segundo a observação de Bento XIV, De synodo dioecesana, l. XI, c. xiii, n. 4, Opera omnia, t. XII, p. 55, ninguém acusará São Carlos de ter sido demasiado indulgente. Os teólogos rigoristas em matéria de absolvição reclamam voluntariamente a sua autoridade. Ver, por exemplo, Concina, Traité du délai de l’absolution, trad. francesa, Roma, 1756, p. 64-68, e as Instructions sur les fonctions du ministère pastoral, por Monsenhor o bispo de Toul, 1772, reimpressas, após terem sido retocadas, sob o título seguinte: Méthode pour la direction des âmes dans le tribunal de la pénitence, por um padre da diocese de Besançon [Pochard], 2ª ed., Besançon, 1811, t. I, p. 14-15, e passim, sobretudo p. 220 seg. Nesta última obra, o pensamento de São Carlos foi desnaturado, em parte porque o autor, ao invés de seguir o texto original, que é italiano, confiou na tradução latina, que nem sempre é fiel. Cf. T. Gousset, Justification de la théologie morale du B. Alphonse-Marie de Ligorio, Besançon, 1882, p. 284-303, e em Gaume, Manuel des confesseurs, 11ª ed., Paris, 1881, p. XXXIV-XLVI; Théologie morale, 4ª ed., Paris, 1846, t. I, p. 373-377. Sobre o uso que Santo Afonso de Ligório faz da autoridade de São Carlos na questão da absolvição dos reincidentes, cf. Vindicice Alphonsianæ, Roma, 1873, p. 697-701; A. Ballerini, Opus theologicum morale, 2ª ed., Prato, 1893, t. IV, p. 432, 449-451.

6° Em suas Maximes et réflexions sur la comédie, c. XXXV, Œuvres, ed. Lachat, Paris, 1879, t. XXVII, p. 77-78, Bossuet não tem dificuldade em demonstrar que «São Carlos, que é alegado como um daqueles cuja caridosa condescendência entrou por um pouco de tempo no desígnio de corrigir a comédia, perdeu logo a esperança disso» e condenou «esses infelizes divertimentos». Cf. Bento XIV, De synodo dioecesana, l. XI, c. I, n. 3, 7, 9, Opera omnia, t. XIII, p. 20, 22-23.

7° Pallavicini, Histoire du concile de Trente, l. XIX, c. xv, n. 3, trad. francesa, ed. Migne, Paris, 1845, t. II, col. 128-129, dá o resumo de várias cartas escritas, em 1563, por São Carlos, em nome de Pio IV, aos legados do papa no concílio de Trento. Bossuet, Gallia orthodoxa, XIV, e Defensio decl. cleri gallicani, appendix, l. I, c. I, Œuvres, ed. Lachat, Paris, 1879, t. XXI, p. 23-24; t. XX, p. 466-470, viu nisso uma prova da superioridade do concílio sobre o papa. A verdade é que, na presença das dificuldades sempre renascentes a respeito da instituição dos bispos e da autoridade do soberano pontífice, Pio IV, ao mesmo tempo que declarava que nenhum fiel poderia contestar ao papa a autoridade suprema, dizia que, se fossem encontradas dificuldades insuperáveis na própria definição do seu direito, consentiria, em vez de expor a Igreja às funestas consequências de uma ruptura, que não se falasse nem da sua autoridade nem da dos bispos, e que então não se definiria senão o que fosse admitido pelo consentimento unânime dos Padres do concílio. Cf. [J.-M. Prat], Histoire du concile de Trente, Paris, 1851, t. I, p. 1-75; Baguenault de Puchesse, Histoire du concile de Trente, Paris, 1870, p. 156-159. Em sua segunda carta pastoral sobre o jubileu, t. I, p. 937, São Carlos exalta os favores concedidos por Deus a Roma, dove ha collocata inmobilmente la cattedra di san Pietro, l’infallibilita della fede catolica. Cf. t. I, p. 49, 64, 88, 163, 239, 260; t. II, p. 1284-1285; Bento XIV, De synodo dioecesana, l. IX, c. vi, n. 931. XI, c. VII, n. 10-12, Opera omnia, t. XI, p. 197; t. XIII, p. 77.

8° São Carlos ocupou-se muito ativamente da defesa da fé católica. Sob este ponto de vista, importa assinalar, nos Acta, t. I, p. 2-3, os decretos sobre a defesa da fé; p. 169-170, sobre a inquisição; p. 343-345, sobre os heréticos; p. 47-48, 168, sobre os judeus; p. 35, 168-169, 320, sobre os boêmios (cingari); p. 345, 346, sobre o uso da Bíblia e dos livros de controvérsia em língua vulgar; p. 346-347, cf. a tabela das matérias no vocábulo Index, sobre o Index dos livros proibidos: à lista dos livros catalogados no Index do concílio de Trento, São Carlos acrescentou alguns livros que, mais tarde, figuraram em parte no apêndice ao Index do concílio de Trento dado por Clemente VIII.

9° Entre outras defesas endereçadas aos pregadores por São Carlos encontra-se, t. I, p. 4, 399, a de anunciar o tempo da vinda do Anticristo.

I. Obras. — Os Acta Ecclesiæ Mediolanensis foram publicados em Milão, 2 in-fol., 1599. Entre as diversas reimpressões, citemos a de Lyon, 2 in-fol., 1683, que dá a tradução latina das partes escritas em italiano; a de Paris, in-fol., 1643, não completa, onde se agrupou todos os textos referentes aos mesmos assuntos. Nas Obras completas de São Carlos publicadas por J.-A. Sassi (Saxius), 5 in-fol., Milão, 1747; 2ª ed., 2 in-fol., Augsburgo, 1758, encontram-se as Noctes vaticanæ, homilias, cartas.

Houve edições múltiplas de vários escritos de São Carlos; os Avvertimenti per li confessori, em particular, foram frequentemente impressos seja no texto italiano, por exemplo em Roma, em 1700, por ordem do papa Inocêncio XII, seja na tradução francesa, por exemplo em Paris, 1657, às custas da assembleia geral do clero da França; em Aix, em 1659, etc. Sobre uma tradução francesa das homilias, cf. L’ami du clergé, Langres, 1896, t. XVIII, p. 956. Cartas foram traduzidas por Pineault, Paris, 1762. Em sua Histoire du concile de Trente, a partir do l. XV, Pallavicini cita frequentemente cartas de São Carlos. Um número muito grande de cartas inéditas é conservado na Ambrosiana de Milão.

II. Vida. — 1° Fontes. — Três contemporâneos de São Carlos relataram a sua vida: Agostinho Valerio (Valerius), bispo de Verona, seu amigo, Vita Caroli Borromæi, Roma, 1586; Carlos Bascapé (a basilica Petri), superior dos barnabitas de Milão, mais tarde bispo de Novara, De vita et rebus gestis Caroli cardinalis S. Praxedis archiepiscopi Mediolani, Ingolstadt, 1592; Bréscia, 1602, e, sem nome de autor, ao fim dos Acta Ecclesiæ Mediolanensis, Paris, 1643; trad. franc. por Antoine Caillot, Paris, 1825; G.-P. Giussano, oblat de Saint-Ambroise, secrétaire et commensal du saint, Vita di san Carlo Borromeo, Rome, 1610; Brescia, 1612; trad. latine par B. Rossi (Rubeus) avec des notes précieuses par Oltrocchi, oblat de Saint-Ambroise, Milan, 1750; trad. franc. par l’oratorien Nic. de Soulfour, Paris, 1615; par l’oratorien E. Cloysaut, Lyon, 1685; nouv. édit., 2 vol., Avignon, 1824; trad. allemande par Klitsche, Augsbourg, 1886. Ver ainda os textos publicados por Rinaldi (Raynaldus), Annales eccles., an. 1560, n. 92, 94, 95; an. 1565, n. 21, 22, 24, 26, 28; Lettres, anecdotes et mémoires historiques du nonce Visconti, ministre secret de Pie IV, publicados em italiano e em francês por Aymon, 2 vol., Amsterdam, 1719; S. Steinherz, Nuntiaturberichte aus Deutschland nebst ergänzenden Actenstücken. Zweite Abtheilung, 1560-1572, t. I, Die Nuntien Hosius und Delfino, 1560-1561, Vienne, 1897 (correspondência de Carlos Borromeu e dos núncios); Arist. Sala, Documenti circa la vita e le opere di san Carlo Borromeo, 3 vol., Milan, 1857-1861.

2º Trabalhos. — Citamos, dentre as Vidas de São Carlos, as de Ant. Godeau, Paris, 1663 (cf. do mesmo, Eloges des evesques, Paris, 1665, p. 627-646); nova ed. por Sépher, 2 vol., Paris, 1748; de Touron, 3 vol., Paris, 1761; de Sailer (em alemão), Augsbourg, 1823; de J.-J. de Chennevières, Paris, 1840; de P. R. Dieringer, Der heil. Borromäus und die Kirchenverbesserung seiner Zeit, Cologne, 1846; de Ant. Sala, Biografia di san Carlo Borromeo, Milan, 1858; de Ch. Sylvain, Histoire de saint Charles Borromée, cardinal-archevêque de Milan, d’après sa correspondance et des documents inédits, 3 vol., Lille, 1885, (superficial).

Além dos trabalhos citados no decorrer deste artigo, ver ainda Alp. Chacon (Ciaconius), Vitæ et res gestæ pontificum romanorum et S. R. E. cardinalium, Rome, 1667, t. III, col. 891-904; B. Rossi (Rubeus), De origine et progressu congregationis oblatorum SS. Ambrosii et Caroli, Milan, 1739; G. Cappelletti, Le Chiese d’Italia, Venise, 1851, t. XI, p. 273-279; Scharff, em Kirchenlexikon, 1ª ed., trad. I. Goschler, Paris, 1864, t. I, p. 232-243; 2ª ed., Fribourg-en-Brisgau, 1891, t. VII, col. 146-160; Benrath, em Realencyklopädie, 3ª ed., Leipzig, 1897, t. III, p. 333-336; C. Camenisch, Carlo Borromeo und die Gegenreformation im Veltlin, Coire, 1901; e os trabalhos recentes assinalados e apreciados nos Analecta bollandiana, Bruxelles, 1891, t. X, p. 66; 1894, t. XII, p. 75, 414; 1895, t. XIV, p. 344-346; 1897, t. XVI, p. 112, 208; 1898, t. XVII, p. 262; 1900, t. XIX, p. 76-78, 469; 1901, t. XX, p. 119, 356; 1902, t. XXI, p. 281; 1903, t. XXII, p. 120-121; 1904, t. XXIII, p. 516-517; 1905, t. XXIV, p. 161-163.

Autor original: F. Vernet

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