CAPISTRANO (São João de), assim chamado pelo nome de sua cidade natal, situada nos Abruzzos, era filho de um fidalgo a serviço de Luís I de Anjou. Numerosos autores dizem-no de origem alemã e os bolandistas adotaram esta opinião, que é confirmada pelas lições do breviário seráfico. Outros, com provas bastante sólidas, querem-no originário de Anjou, e até mesmo de La Ménitré. Não podemos entrar nesta discussão, assim como não podemos entrar no exame da data exata do nascimento do santo; os bolandistas fixam-na em 24 de junho de 1386.
João realizou estudos profundos em Perusa e adquiriu ali a reputação de um jurisconsulto consumado, o que lhe valeu, apesar de sua juventude, ser nomeado governador desta cidade. Seria muito longo narrar as circunstâncias de sua entrada na ordem dos menores em 1416, seus progressos na santidade sob a direção de São Bernardino de Sena, seus trabalhos para o desenvolvimento da Observância, da qual foi várias vezes vigário-geral, as missões de confiança que lhe foram incumbidas por vários papas, seu zelo pela reunião dos Orientais à Igreja romana, pela conversão dos hereges, suas viagens através de toda a Europa, os milagres que semeava em sua passagem. As lições do breviário romano resumem esta vida tão plena, à qual os bolandistas dedicaram quase trezentas páginas.
João de Capistrano pregava a cruzada contra os Turcos, e ele tivera uma grande participação na vitória de Belgrado, alcançada pelos cruzados (21 de julho de 1456), quando o Senhor o chamou ao repouso eterno em Villak, perto de Sirmium, na Eslavônia, em 23 de outubro de 1456. Seu culto foi aprovado por Leão X e Gregório XV; Alexandre VIII canonizou-o em 1690 e dois séculos depois, em 19 de agosto de 1890, Leão XIII estendeu seu ofício à Igreja universal, e fixou sua festa em 28 de março.
Quando se lê a vida de São João de Capistrano, permanece-se surpreendido que, apesar de suas viagens quase contínuas, ele tenha tido tempo de deixar escritos em tão grande número. Wadding fornece uma enumeração incompleta e Sbaralea indica numerosos manuscritos e as bibliotecas onde estes se encontravam em seu tempo. No início do século XVIII, um franciscano, o Pe. Jean Antoine Sessa, de Palermo, havia reunido os escritos de São João de Capistrano em 17 tomos manuscritos e preparava a edição, mas seu projeto não teve continuidade e sua coleção encontrava-se ainda em 1855 no convento de Ara Celi, em Roma. Os bolandistas reproduziram os títulos dos tratados e opúsculos reunidos pelo Pe. Sessa.
Limitar-nos-emos a indicar as obras impressas cuja existência constatamos: Tractatus de cupiditate venerabilis patris fratris Johannis de Capistranis, ordinis minorum et juris utriusque doctoris. In quo de variis criminibus per que aliena usurpantur, s.l. n.d. (Colônia, 1480); De judicio universali futuro, et antichristo ac de bello spirituali, in-16, Veneza, 1578; De pape et concilii, sive de Ecclesie auctoritate... Speculum clericorum... et Defensorium tertii ordinis sancti Francisci, in-4°, Veneza, 1580; Nápoles, 1613. Eis o título mais completo do segundo opúsculo: Speculum clericorum, hoc est sermo ad clerum in Tridentina sinodo anno 1489 die 22 mensis aprilis in cathedrali ecclesia habitus.
Na coleção intitulada: Tractatus universi juris... in unum congesti, 25 in-fol., Veneza, 1584, encontram-se os seguintes tratados de São João de Capistrano: t. I, p. 323-371, Speculum conscientie anno 1441 editum; esta obra, dedicada aos magistrados da república de Gênova, traz um explicit onde é dito: Tractatus de stimulo et speculo conscientie sive de serenanda conscientia; t. IX, p. 77-84, Tractatus de quodam matrimonio per modum consilii ubi queritur an a papa licite et de honestate et conscientia salva, dispensatio peti possit. Et an eam petere intendenti incumbat necessario parti alteri protestari; este tratado foi, diz-se, composto por ocasião do rompimento do noivado entre Branca, filha do duque de Milão, e Francisco Sforza; t. XI a, p. 32-66, Tractatus de pape et concilii...; t. XV, p. 380-398, Tractatus de excommunicationibus; p. 398-400, Tractatus de canone penitentie.
Em outra coleção impressa também em Veneza em 1587, Repetitiones in jure canonico, 6 in-fol., encontram-se de nosso santo: t. IV, p. 392-402, Repetitio in rubricam de penitentiis et remissionibus : in can. Manifesta, et in can. Qui presbyterum; t. VI a, p. 56-63, Explicatio extravagantis Joannis XXII prime, de verborum significatione adversus Berbegallum; Philippe Berbegallo era um menor da província de Aragão que rejeitava as declarações pontificais sobre a regra franciscana; o tratado é datado de Roma, 1431.
Finalmente, em outra coleção: Perillustrium doctorum... in libr. Decretalium aurei commentarii, Veneza, 1588, t. I, p. 320-382, encontra-se dele: In aliquot tertii et quinti Decretalium titulos dilucidi commentarii. Estes comentários são sobre os títulos: De vita et honestate clericorum,; De cohabitatione cler. et mulierum,; De cler. conjugatis ; De cler. non residentibus, do l. III; e De penitentiis et remissionibus, do l. V. Além destes tratados, encontram-se ainda em diversos recueil franciscanos as Ordinationes seu constitutiones beati patris fratris Joannis de Capistrano super regulam fratrum minorum (Speculum minorum seu firmamentum trium ordinum, Veneza, 1513).
Quanto às cartas do santo, cuja maior parte ainda é inédita, encontra-se um bom número delas nos Anais de Wadding, no Capistranus triumphans do Pe. Herman, nas Acta sanctorum; citaremos em particular a carta De publicis et promiscuis balneis religiosorum ad Thomam de Paden, priorem Mellicensem, na Bibliotheca ascetica antiquo-nova P. Bernardini Pezii, Ratisbona, 1725, t. VII; o santo estuda ali esta questão: um religioso que deixa seu hábito para tomar um banho incorre em censuras? João de Capistrano escreveu também uma vida de seu mestre São Bernardino de Sena, S. Bernardini Senensis vita, inserida no início das obras deste santo, S. Bernardini Senensis opera omnia, Lyon, 1650, t. 1, p. 25-36, e cuja autenticidade, por longo tempo duvidosa, está hoje estabelecida. Analecta bollandiana, t. XXI, p. 53 sq.
Poder-se-iam fazer interessantes observações sobre a doutrina de São João de Capistrano. No Speculum conscientiæ, verdadeiro tratado de moral, ele ensina que se pode seguir uma opinião provável. Seu tratado mais interessante é, sem dúvida, aquele Du pape, onde ele estuda as diferentes prerrogativas do pontífice romano. Cf. Léon de Kerval, S. Jean de Capistran, c. v, Le théologien.
Wadding, Annales minorum, ed. de 1648, t. IV-VI; ed. de 1734, t. IX-XIII; Amand Herman, Capistranus triumphans, Colônia, 1700; Sbaralea, Supplementum et castigatio ad scriptores ord. minorum, Roma, 1805, que completa e corrige Wadding; Acta sanctorum, octobris t. X, p. 269-552: além da longa e erudita dissertação do Pe. Van Hecke, aí se encontram as vidas do santo por seus companheiros (cf. Analecta bollandiana, t. XXIII, p. 321 sq.); Léon de Kerval, S. Jean de Capistran, son siècle et son influence, Paris, 1887; aí se encontra uma boa indicação das fontes; Hurter, Nomenclator, t. IV, col. 802 sq.; Chronica fr. Nicolai Glassberger, em Analecta franciscana, Quaracchi, 1887, t. 1; L. Lemmens, B. Bernardini Aquilani chronica fr. min. observantiæ, Roma, 1902; Eugène Jacob, Johannes von Capistrano, Breslau, 1903 (Analecta bollandiana t. XXIII, p. 406), etc.
P. Edouard d’Alençon.
Autor original: P. Édouard d'Alençon
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