CANTACUZENE Jean VI, imperador do Oriente, historiador e teólogo grego, nascido por volta de 1292, falecido por volta de 1380. Inicialmente grande camareiro de Andrónico II Paleólogo, foi elevado por seu neto e sucessor Andrónico III (1328-1341) ao cargo de grande doméstico; de fato, foi seu primeiro-ministro e afirma que, se quisesse, teria sido associado por ele ao império. Após a morte de Andrónico III, exerceu a regência com a imperatriz Ana de Saboia, mãe de João, Teodoro e Manuel Paleólogo; mas, acusado pelo grande-almirante Apocauco e pelo patriarca João Calecas (1334-1347), teve de deixar a corte; tendo então se revoltado, fez-se coroar imperador na Trácia, em Dimotice, em 1341, por Lázaro, patriarca de Jerusalém, e durante cinco anos sustentou uma guerra contra a regente e seu filho João.
Finalmente, graças à aliança dos turcos, apoderou-se de Constantinopla, em janeiro de 1347, reconciliou-se com João Paleólogo, deu-lhe em casamento sua filha Helena, foi novamente coroado imperador (maio de 1347) e governou doravante o Oriente em conjunto com seu genro. Pela sabedoria de sua administração e pela elevação de seu caráter, parece ter merecido verdadeiramente ser contado entre os homens de Estado mais capazes deste império bizantino já tão dividido e tão decadente: aumentou o tesouro, realizou conquistas sobre os sérvios, interveio em favor dos cristãos da Síria junto ao sultão do Egito, que lhes permitiu a peregrinação a Jerusalém, negociou com o papa visando a uma cruzada contra os turcos, mas fracassou, sem dúvida devido ao seu zelo pela heresia dos palamitas ou hesicastas.
Além disso, teve de combater novamente contra seu genro e colega João Paleólogo, e chamou em seu auxílio os turcos, cujo chefe Orkhan casara com sua própria filha Teodora. Paleólogo, retirado com sua mãe em Salonica, conseguiu apoderar-se de Constantinopla, no final de dezembro de 1354. Então, cansado destas lutas e destas discórdias, sem esperar os socorros que seu filho Mateus fora buscar na Trácia, Cantacuzeno abdicou.
Fez-se monge no convento de São Jorge de Mangana em Constantinopla, em 1355, sob o nome de José, ou Joasaph Christodule (servo de Cristo), enquanto sua esposa, a imperatriz Irene, entrava sob o nome de Eugénia no convento de Santa Marta. Seu filho Mateus fizera-se coroar imperador em Santa Sofia e continuava a guerra contra Paleólogo, mas, do fundo de seu mosteiro, seu pai persuadiu-o a abdicar por sua vez, o que fez para tornar-se, de então em diante, o melhor amigo do imperador. João Cantacuzeno permaneceu ele mesmo seu conselheiro mais influente; vivia ainda em 1375, como indica uma carta do papa Gregório XI, onde é dito que João reconhece a primazia dos pontífices romanos. Consagrou os lazeres de seu retiro a compor numerosos escritos, dos quais vários foram editados.
1° Historiarum libri quatuor. — É uma história do império bizantino desde 1320 a 1357; plena de eloquentes discursos, é sobretudo uma longa apologia das ações do autor, e pode-se contrapor a ela o testemunho, muitas vezes contrário, de um contemporâneo, seu adversário em matéria religiosa, Nicéforo Gregoras, em sua História bizantina. O ex-imperador narra ali em detalhe a querela teológica dos palamitas que dividia então o clero grego. Ver col. 407-408, e Hesicastas. Um sínodo reunido em Santa Sofia de Constantinopla em 1341 sob Andrónico III aprovou Palamas e condenou seu adversário, Barlaão; um segundo sínodo censurou os novos ataques de Barlaão; mas num terceiro, em 1347, o patriarca João Calecas de Apri condenou os palamitas. O novo imperador Cantacuzeno, que era seu partidário, fez depor o patriarca e nomear em seu lugar Isidoro, amigo de Palamas. Este último foi ele mesmo promovido a arcebispo de Tessalónica. Ambos foram, aliás, depostos no mesmo ano num quarto sínodo realizado em Constantinopla pelos bispos ortodoxos. Contudo, graças ao imperador, Isidoro permaneceu patriarca, e seu sucessor Calisto, favorável aos palamitas, condenou seus adversários num quinto sínodo; na sua qualidade de imperador e teólogo, Cantacuzeno presidiu este concílio da Igreja grega que proclamou como artigo de fé a luz incriada do Tabor, em 1351. O manuscrito das Histórias foi encontrado por Jacques Pontanus na biblioteca da Baviera, traduzido por ele para o latim e anotado; foi editado por Gretser em latim apenas, in-fol., Ingolstadt, 1603. O texto grego com a tradução latina foi publicado depois a partir de um manuscrito do chanceler Séguier, 3 in-fol., Paris, 1645, na Coleção bizantina; depois, em 1729, no Corpus script. byzantinorum, Veneza, t. xi; finalmente P. G., t. CLI, CLIV, col. 9-370; uma tradução francesa foi feita pelo presidente Cousin: Histoire de Constantinople, t. VIII.
2° Pro christiana religione contra sectam mahometicam apologiae quatuor. — Esta obra foi composta para Aquemênide, homem nobre e rico, um de seus amigos, que, outrora maometano, depois convertido ao cristianismo, tornara-se, como o imperador, monge, sob o nome de Meletius. Um persa muçulmano de Ispaão, Sampsates, tinha solicitado retornar à sua religião primitiva. Para fortalecer Aquemênide contra essas solicitações e para instruí-lo em sua nova religião, o ex-imperador compôs estas quatro apologias. Quer ali provar que a heresia dos sarracenos não está de acordo nem com a verdade, nem consigo mesma. Se demonstra a divindade do cristianismo pelo testemunho de Moisés, dos profetas e do Evangelho, é porque esses testemunhos são recebidos como sagrados pelos próprios sarracenos. Ora, podem ser dirigidos igualmente contra os judeus, que têm muitos pontos em comum com os maometanos: governo, poligamia, circuncisão, divórcio, etc. Cantacuzeno vê até, na lei de Maomé, uma corrupção do judaísmo. A primeira apologia mostra que Cristo é Filho de Deus, Deus verdadeiro e perfeito, e que, sendo Deus, fez-se homem. A segunda expõe como o Filho, Verbo de Deus, Deus ele mesmo tornado homem para a salvação dos homens, submeteu-se à morte da cruz, ressuscitou e subiu ao céu. Não foi como Deus, mas como homem que sofreu; ele julgará o mundo inteiro. A terceira conta que, após a ascensão do Senhor, os apóstolos evangelizaram toda a terra e provaram sua fé por milagres. Trata-se ali também da Virgem Mãe de Deus, do julgamento de Cristo, da cruz, das imagens. A quarta desvenda o pérfido ensinamento de Maomé, prova que a Lei e o Antigo Testamento não foram suprimidos por Cristo, e que o Evangelho completou a Lei.
3° Contra Mahometen orationes quatuor.
— O primeiro discurso explica como Maomé, em seus acessos de epilepsia, pretendeu ter sido visitado pelo arcanjo Gabriel e escreveu o Alcorão; ali reconheceu a santidade dos livros de Moisés, dos Salmos, dos Profetas e sobretudo do Evangelho, e adotou a heresia dos nestorianos. Ele promulgou a sua lei não por milagres, mas pela espada; proíbe toda discussão com os cristãos.
De acordo com o segundo discurso, Maomé não reconhece como seus discípulos os homens que não cumprem as prescrições dos livros sagrados. Ele divide os seus sectários em 73 categorias, das quais apenas uma será salva; Cantacuzeno expõe algumas das doutrinas de Maomé.
O terceiro discurso refuta Maomé, que negava a possibilidade da encarnação do Filho de Deus. Segundo ele, Cristo é o Verbo, a alma, o espírito de Deus, mas não o seu Filho encarnado; é, como pretendeu Nestório, um puro homem, melhor apenas do que os outros; não foi ele, mas um Cristo suposto, que foi crucificado; ele subiu ao céu e, no fim do mundo, matará o Anticristo, para depois morrer por sua vez.
O quarto discurso expõe outras doutrinas de Maomé. Do fato de ele ter confessado que só Deus pode interpretar o Alcorão, Cantacuzeno conclui que este livro não tem qualquer utilidade. Estas Apologiae e estas Orationes foram publicadas em latim por Rodolphe Gaultier, sob este título: Assertio contra fidem mohammeticam, in-fol., Basileia, 1548. O texto grego está na P. G., t. CLIV, col. 371-692.
4º Tomus contra Barlaam et Acyndinum, auctore Christodulo monacho. — Esta obra de Cantacuzeno em favor dos palamitas foi desconhecida por Fabricius e publicada em Migne, P. G., t. CIV, col. 693-710. O autor defende nela a luz incriada do Tabor, cuja visão constitui a bem-aventurança dos eleitos.
Uma Paraphrasis ethicorum Aristotelis, inédita, é citada por Simler e Labbe. Outras obras teológicas que permaneceram manuscritas tratam sobretudo da luz do Tabor, da essência e da operação divina. Os seus títulos são indicados por Fabricius na sua Bibliotheca græca; em particular, nove discursos contra os judeus, que Fabricius confundia com os tratados contra os maometanos, porque eles refutam erros comuns a uns e a outros; Labbe distingue-os com cuidado na sua Bibliotheca manuscripta nova, p. 1354.
Du Cange, Familiæ byzantinæ, p. 258-264; Fabricius, Bibliotheca græca, 1714, t. VI, p. 469-474; 2ª ed., t. VI, p. 787-793; P. G., t. CI, col. 9-16; Vossius, De histor. græco., l. II, t. XXVIII, p. 254; Hankius, Byzant. scr. græc., 1677, p. 602-666; P. G., t. CII, col. 769; t. CLXI, col. 4446 sq.; Montfaucon, Bibl., t. VI, p. 258-254; Gibbon, Décadence et chute de l’Empire romain, t. II; Lebeau, Hist. du Bas-Empire, ed. Saint-Martin, t. XIX, XX; Valentin Parisot, Cantacuzène, homme d’Etat et historien, ou examen critique comparatif des Mémoires de l’empereur J. Cantacuzène et des sources contemporaines, et notamment des trente livres, dont quatorze inédits, de l’Histoire byzantine de Nicéphore Grégoras qui contrôlent les Mémoires de J. Cantacuzène, tese de doutoramento, in-8º, Paris, 1845; Krumbacher, Geschichte der byzantinische Litteratur, 2ª ed., Munique, 1897, p. 105-106, 298-300; Lebedev, Essai d’histoire sur l’Eglise byzantine orientale depuis la fin du XIe siècle jusqu’au milieu du XVe (em russo), Moscovo, 1892, p. 71-77; Ouspensky, Essai sur l’histoire de la culture byzantine (em russo), São Petersburgo, 1894, p. 246-282.
Autor original: L. Lœvenbruck
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