CANO (MELCHIOR)

CANO (MELCHIOR)

CANO, Melchior. — I. Biografia. II. Escritos. III. Doutrinas.

I. Biografia. — Cano nasceu em 1509, em Tarançon, na província de Cuenca, na Espanha. Recebeu no batismo o nome de Francisco. Seu pai, Fernand Cano, jurista distinto, estabeleceu-se, no ano seguinte, em Pastrana, onde o jovem Francisco recebeu sua primeira educação. Foi enviado cedo para seus estudos à Universidade de Salamanca; lá tomou o hábito dos irmãos pregadores, no mês de agosto de 1523, no convento de Santo Estêvão, e fez profissão em 12 de agosto do ano seguinte. Continuou seus estudos até 1527, tendo como professor de teologia, no convento de Salamanca, Diégo de Astudillo. Durante os anos escolares de 1527-1531, foi discípulo, na universidade, de Francisco de Victoria, que ocuparia a primeira cátedra de teologia durante vinte anos (1526-1546).

Em 3 de outubro de 1531, foi admitido no colégio de São Gregório, em Valladolid, uma escola superior onde os dominicanos de Castela completavam a formação científica de seus melhores alunos. Lá encontrou Luís de Granada como condiscípulo e Bartolomeu de Carranza entre os professores. Ele próprio foi sucessivamente promovido às funções de professor de filosofia, de mestre dos estudantes (setembro de 1534), de segundo professor de teologia (1536), e nomeado, nesse mesmo ano, bacharel pelo capítulo geral realizado em Roma. É dessa estada em São Gregório de Valladolid que data, entre Carranza e Cano, o espírito de contenda, mais ainda do que de rivalidade, que deveria perturbar suas vidas e arrastar atrás de si um grande número de seus discípulos e confrades. Tornaram-se ambos, pela dessemelhança de seus caracteres e de suas aspirações, como dois chefes de escola, embora as doutrinas teológicas propriamente ditas tivessem pouca influência em seus dissensos.

Em 1542, Cano dirigiu-se ao capítulo geral de Roma como eleitor de sua província, e lá recebeu o título de mestre em teologia. Obteve, nesse mesmo ano, a primeira cátedra de teologia na Universidade de Alcalá, da qual tomou posse no mês de março do ano seguinte. Tendo falecido Francisco de Victoria em 17 de agosto de 1546, Cano concorreu à obtenção de sua cátedra na Universidade de Salamanca e permaneceu como titular até 1552. No início de 1551, foi enviado pelo imperador ao Concílio de Trento e deixou Salamanca em 11 de fevereiro na companhia de Domingo Soto. No ano seguinte, Carlos V apresentou-o para o bispado das Canárias. Cano foi preconizado em 25 de agosto. Parece ter sido passivo nessa nomeação; por isso, renunciou ao seu bispado em 24 de setembro.

Encontramo-lo de volta à Espanha em 1553, prestando numerosas consultas nos mais graves assuntos da Igreja e do Estado. Retorna, nesse mesmo ano, a São Gregório de Valladolid como reitor do colégio, sem estar encarregado de cursos. A parte principal tomada por Cano nas desavenças entre a corte da Espanha e Paulo IV valeu-lhe a inimizade do papa. Nomeado prior de Santo Estêvão de Salamanca no início de 1557, o capítulo provincial de Placencia colocou-o à frente da província. Seus adversários fizeram oposição à sua eleição. Ela foi renovada em 29 de maio de 1559 no capítulo de Segóvia, apesar da oposição de Carranza, tornado arcebispo de Toledo e primaz da Espanha. Paulo IV cassou a eleição. Nesse mesmo ano, Cano recusou o posto de confessor de Filipe II, de quem possuía toda a confiança. Morto Paulo IV em 18 de agosto, Cano dirigiu-se a Roma e obteve do novo papa, Pio IV, a confirmação de sua eleição. De retorno à Espanha, na primavera de 1560, dirigiu-se a Toledo, onde se encontrava a corte, e lá morreu em 30 de setembro do mesmo ano, com menos de 52 anos.

II. Escritos. — 1° Relectio de sacramentis in genere habita in Academia Salmanticensi anno 1547; 2° Relectio de penitentia habita in Academia Salmanticensi anno 1548, editado com o escrito anterior, in-4°, Salamanca, 1550; o segundo isolado, in-4°, Salamanca, 1555; ambos, in-8°, Alcalá, 1558; in-fol., 1563; in-8° Milão, 1580. Essas duas reeleições foram frequentemente reeditadas com a obra seguinte: 3° De locis theologicis libri duodecim, in-fol., Salamanca, 1563; in-8°, Lovaina, 1564; Veneza, 1567; Lovaina, 1569; Colônia, 1574, 1585. Desde a edição de Colônia, 1605, as três obras precedentes foram publicadas sob o título de Opera, in-8°, Paris, 1662; Colônia, 1678; Lyon, 1704. Em 1714, Hyacinthe Serry, O. P., deu uma edição em Pádua, in-4°, precedida por um Prologus galeatus, onde defende Cano contra seus críticos. É com essa introdução que foram dadas as numerosas edições surgidas durante o século XVIII, em número de aproximadamente vinte, cuja lista, aliás incompleta, encontrar-se-á em F. Caballero, Madri, 1871, p. 375; 4° Tratado de la victoria de si mismo, traducido del toscano, in-16, Valladolid, 1550; in-8°, Toledo, 1553; Madri, 1767, 1780, etc. É uma refação da obra de Batista de Crema, O. P.: Opera utilissima della cognitione et vittoria di se stesso, Veneza, 1545.

Possuem-se diferentes consultas teológicas de Cano, das quais seis foram editadas por seu historiador Caballero. A mais importante é a sobre o catecismo de Bartolomeu de Carranza. O mesmo historiador publicou uma curiosa memória de Cano sobre si mesmo, endereçada a Filipe II, para que renunciasse a tomá-lo como confessor. Encontram-se vinte e duas cartas de Cano na mesma obra. A célebre censura de Cano sobre a Companhia de Jesus, da qual tantos autores falaram, e que quase ninguém viu, foi publicada na Espanha sem local nem data, no tempo da supressão da Companhia, mas foi confiscada em 1777, após seu aparecimento. Foi reeditada, a partir de dois manuscritos, em Crisis de la Compania de Jesus, Barcelona, 1900, p. 152-159. Possuem-se anotações manuscritas de Cano sobre a IIa IIae de santo Tomás. Elas se encontram nos manuscritos vaticanos 4647 e 4648; o manuscrito original está conservado hoje na biblioteca da universidade de Salamanca.

III. Doutrinas. — É o De locis theologicis que conferiu a reputação teológica a Melchior Cano e o colocou no primeiro plano dos teólogos clássicos. Esta obra, com efeito, não é apenas notável pela forma literária que a iguala às mais belas produções do Renascimento, nem pela liberdade de espírito, a finura de juízo, o senso crítico e a erudição de seu autor; ela é, sobretudo, uma criação e marca, a este título, uma etapa na história da teologia. Cano quis estabelecer cientificamente as bases da ciência teológica. Sua obra é um tratado do método em teologia.

Basta indicar seu plano geral para revelar sua economia e importância. Após um breve prefácio no qual indica seu desígnio, ele emprega o 1º livro, que possui apenas algumas páginas e pode ser considerado como uma introdução, para distinguir entre o argumento de autoridade e o argumento de razão e para enumerar as partes da obra.

Ele enumera dez lugares ou fontes teológicas. Cada um deles é objeto de um livro especial. É assim que ele trata sucessivamente: 1º da autoridade da Escritura Sagrada; 2º da autoridade da tradição oral; 3º da autoridade da Igreja Católica; 4º da autoridade dos concílios; 5º da autoridade da Igreja Romana; 6º da autoridade dos santos Padres; 7º da autoridade dos teólogos escolásticos; 8º do valor da razão natural tal como a manifestam as ciências humanas; 9º da autoridade dos filósofos; 10º da autoridade da história.

Estas matérias são tratadas nos l. II-XI. O l. XII é consagrado ao uso que se deve fazer dos lugares teológicos na disputa escolástica, isto é, na teologia polêmica. É a seção mais extensa da obra. Cano deveria tratar, no l. XIII, do emprego dos lugares teológicos na exposição da Escritura Sagrada; e, no último livro, do uso dos lugares teológicos contra as diferentes categorias de adversários da fé católica. Sua morte prematura não lhe permitiu concluir uma obra na qual havia trabalhado durante longos anos.

O De locis theologicis é um verdadeiro manifesto teológico. É o resultado da ação renovadora exercida sobre a teologia na Espanha por Francisco de Vitória, de quem Cano foi o mais brilhante e o mais fiel discípulo. Retorno à erudição patrística e emprego de uma língua literária nas ciências teológicas, tais foram os pontos de vista predominantes na direção criada por Vitória, e que Cano realizou com uma maestria notável na obra que ilustrou seu nome.

Pode-se perguntar se a forma literária preconizada por Cano se presta facilmente à exposição e à discussão das matérias teológicas, e se a erudição eclesiástica não expõe a colocar em segundo plano a parte sistemática da teologia. De qualquer modo, a direção dada por Vitória e Cano aos estudos teológicos respondia ao desejo de muitos espíritos de seu tempo, e ela rompia, nas mãos dos humanistas mal-intencionados em relação à escola, um argumento do qual não cessavam há muito tempo de abusar.

Algumas ideias ou julgamentos emitidos por Cano suscitaram críticas. Encontrar-se-ão indicados e debatidos no aparato literário que Serry colocou à frente de sua edição dos Lugares Teológicos. Devemos, todavia, assinalar para memória a opinião sustentada por Cano sobre o ministro do sacramento do matrimônio. Em presença da incerteza dos teólogos anteriores sobre esta questão, Cano buscou estabelecer que os contraentes no matrimônio podem formar por si mesmos o contrato, mas o contrato só é sacramento pela intervenção do sacerdote. Esta doutrina, exposta no c. V do l. VIII, teve autoridade suficiente para atrair um grande número de teólogos, e fazer dela, por um instante, a opinião comum.

Quétif-Echard, Scriptores ordinis praedicatorum, t. I, p. 176; F. Caballero, Vida del Ill. Melchior Cano, in-8°, Madrid, 1871; M. Menendez Pelayo, Historia de los heterodoxos españoles, Madrid, s. d., t. I, p. 859 sq.; Crisis de la Compania de Jesus, Barcelone, 1900, p. 126-168; E. Schäfer, Beiträge zur Geschichte des spanischen Protestantismus und der Inquisition im sechzehnten Jahrhundert, Gütersloh, 1902; ver o índice do t. I.

Autor original: P. Mandonnet

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