CAINITAS, hereges do século II, cujo nome é diversamente grafado pelos escritores eclesiásticos. Encontra-se, com efeito, Kaïnitai, em Clemente de Alexandria, Strom., VII, 17, P. G., t. IX, col. 553; Kaïnoi, nos Philosophumena, VIII, 20, édit. Cruice, Paris, 1860, p. 422; Teodoreto, Hæret. fab., I, 15, P. G., t. LXXXIII, col. 368; Kaïanoi, em S. Epifânio, Hær., XXXVIII, 1, P. G., t. XLI, col. 656; Orígenes, Cont. Cels., III, 13, P. G., t. XI, col. 936; Cainiani, no Prædestinatus, 18, P. L., t. LIII, col. 592; Caiani, em Filastrio, Hær., 2, P. L., t. XII, col. 1115; S. Agostinho, Hær., 18, P. L., t. XLII, col. 29.
Tertuliano, De præscriptionibus, 33, P. L., t. II, col. 46, trata uma seita nicolaíta de caiana hæresis, mas sem insistir nela. Em outros lugares, chama Quintila de uma víbora de caiana hæresi, De bapt., 1, P. L., t. I, col. 1192, especificando que ela era uma adversária do batismo, porque a água material, incapaz de lavar o homem de suas impurezas físicas, era com maior razão impotente, mesmo com a ajuda de fórmulas especiais, para purificá-lo de sua mancha espiritual; tanto mais que o batismo não era senão uma instituição de São João, que Jesus não conferiu aos seus apóstolos o batismo de água, que o único apóstolo batizado, São Paulo, não batizava a si mesmo e que o princípio da justificação era a fé e de modo algum o batismo. De bapt., 10-12, ibid., col. 1210-1222.
Não é desta heresia antibatismal que se trata aqui, mas de uma heresia nitidamente antinomista que, entre as numerosas seitas geradas pela gnose de Valentim, de Marcião e sobretudo de Carpócrates, buscou formular em corpo de doutrina e sistematizar sua oposição violenta ao judaísmo, tomando Caim como um ancestral e como um modelo. Vê-se que já, no tempo dos apóstolos, haviam se manifestado certas tendências que, encarando a Lei como uma ocasião de queda e exaltando a fé como única causa de justificação e de salvação, não tendiam a nada menos que a emancipar a carne e a desbridar todos os instintos sexuais. São Judas estigmatizava os homens sensuais de seu tempo que não obedeciam senão aos instintos da besta, manchavam seu corpo, faziam servir a graça à luxúria e caminhavam nas vias de Caim; e São João dizia desses amigos da fornicação que eles conheciam as profundezas de Satanás. Ver ANTINOMISMO, t. I, col. 1391.
Mas mal o período apostólico havia passado quando, graças ao movimento gnóstico, teóricos da imoralidade se encontraram para dar aos seus desregramentos a aparência de um sistema racional e encadeado. Por uma reação violenta contra o Deus da Bíblia, o judaísmo e a lei mosaica, buscaram, em certos meios, justificar todos os excessos como outros tantos atos meritórios e salutares. A seus olhos, Jeová não era senão um ser inferior, de conhecimento e de poder limitados, em revolta contra o Princípio supremo, o Deus bom, exercendo sobre o mundo, do qual era o demiurgo, uma tirania intolerável, o inimigo ao mesmo tempo de Deus e do gênero humano. Em consequência, era preciso reconhecer a autoridade superior do Deus bom, amigo do homem, e retornar a ele condenando a obra do demiurgo.
Ora, o melhor meio não era vingar a memória de todos os malditos do Antigo Testamento, tê-los por heróis, venerá-los como santos, proclamá-los os únicos filhos autênticos do Altíssimo, demasiado tempo desconhecidos e maltratados por Jeová? S. Irineu, Cont. hær., I, 31, n. 1, 2, P. G., t. VII, col. 704, 705; S. Epifânio, Hær., XXXVIII, 1, P. G., t. XLI, col. 653-656. Com efeito, Sophia é o nome do Deus bom; Hystera, o nome do Deus dos Judeus. É de Sophia que Eva concebeu Caim, enquanto ela não obteve Abel senão de Hystera. S. Epifânio, loc. cit., 2, col. 657.
Mas Caim, ao matar Abel, provou a superioridade do princípio do qual descendia e abriu a marcha a seguir contra Hystera e os de sua raça. Sem dúvida o demiurgo tentou vingar-se em Cam, Datã, Coré, Abirão e os sodomitas; mas essas pretensas vítimas eram na realidade subtraídas aos seus golpes pela proteção do Deus bom, que os chamava a si e que enviou o Salvador do mundo. É verdade que o demiurgo empenhou-se em fazer fracassar a obra redentora, mas não pôde lograr êxito; pois Judas, mais hábil e mais forte porque era da raça de Sophia, soube frustrar suas manobras. Ao entregar Jesus, ao assegurar sua condenação e seu suplício, ele proporcionou ao mesmo tempo o triunfo do Deus bom e a salvação do gênero humano. Sua intervenção, coroada de sucesso, era o ato mais meritório que existia e lhe valeu honras excepcionais por parte dos Cainitas. Judas, com efeito, estava na tradição verdadeira; ele possuía o segredo da gnose libertadora; ele era o herdeiro fiel do ensinamento secreto confiado, desde a origem, a Caim. Pseudo-Tertuliano, Prescript., 47, P. L., t. II, col. 65; Filastrio, Hær., 34, P. L., t. XII, col. 1150.
Quanto ao Salvador, uma vez que expirou na cruz, ele visitou os infernos, libertou deles as almas dos justos, isto é, a alma de todos os condenados do Antigo Testamento, deixou lá Abel, Abraão e os patriarcas, Moisés e os profetas, isto é, todos aqueles que compunham a raça do demiurgo. Foi assim que terminaram por tomar corpo certas ideias emitidas por Cerinto, Cerdão e Marcião, de um lado, por Carpócrates, Epifânio, Valentim, Basilides e Isidoro, de outro. Esse desconhecimento do ensinamento bíblico, esse ódio feroz do judaísmo, essa audaciosa deformação do cristianismo, eram o fruto de uma espécie de competição entre gnósticos depravados, que tinham chegado, alguns pelo menos, a invocar um anjo especial no cumprimento de cada um de seus atos imorais. S. Irineu, Cont. hær., I, 31, 2, P. G., t. VII, col. 705.
Como se prevê, a teoria não era senão um pretexto, o objetivo era sobretudo de ordem prática; tratava-se essencialmente de libertar os instintos depravados, de legitimar a corrupção ou, melhor ainda, de consagrá-la como um dever religioso, dando-lhe o rigor lógico de um sistema cientificamente organizado. Em consequência, os cainitas não deixaram de apelar à autoridade da tradição e do testemunho escrito. Naturalmente, fizeram de Caim o primeiro e autêntico depositário da verdade revelada, o único a quem o Deus supremo confiara, desde a origem, o conhecimento perfeito, a verdadeira gnose, isto é, o segredo da salvação. E esse depósito precioso, transmitido durante o curso dos séculos, tinha chegado a Judas.
Eles tinham atacado a Bíblia, repudiaram o Evangelho; mas, em seu lugar, serviram-se de apócrifos, tais como o Evangelho de Judas, a Ascensão de Paulo, ἀναβατικὸν, e um outro, cujo título não é assinalado, onde se lia a mais abominável e a mais revoltante das doutrinas. S. Irineu, Cont. hær., I, 31, 1, P. G., t. VII, col. 704, 705; S. Epiphane, Hær., xxxviii, 2, P. G., t. XLII, col. 656; Théodoret, Hæret. fab., I, 15, P. G., t. LXXXIII, col. 368; Fabricius, Codex apocryphus N. T., t. I, p. 943-955.
Tal doutrina reuniu inteligências desequilibradas, corações pervertidos; contudo, não parece ter ultrapassado um círculo estreito. Já desde o início do século III, o autor dos Philosophumena trata os cainitas como uma quantidade negligenciável, contentando-se em citá-los ao lado dos ofitas e dos noaquitas, sem dedicar-lhes uma única linha de refutação, VIII, VII, 20, p. 422.
O autor anônimo do Prædestinatus, cujo testemunho é sujeito a reservas, é o único a pretender que, no século II, trinta e dois bispos da Síria, reunidos em sínodo em Antioquia sob a presidência de Teodoro, bispo desta cidade, condenaram a seita dos cainitas. É inútil notar que a história do direito canônico ignora a existência de tal sínodo.
Além dos autores citados no corpo do artigo, ver Massuet, Dissertationes, dis. I, a. 3, n. 15, P. G., t. VII, col. 471-472; Tillemont, Mémoires, Paris, 1701-1709, t. I, p. 47; Smith et Wace, Dictionary of christian biography, Londres, 1877-1887; Kirchenlexikon, 2ª ed., Fribourg-en-Brisgau, 1880, t. II, col. 1672-1673; U. Chevalier, Répertoire des sources historiques. Topo-bibliographie, p. 545.
Autor original: G. Bareille
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