2. CAJETAN (Thomas de Vio, dito). — I. Vida. II. Obras. III. Doutrinas.
I. Vida. — 1º Juventude e professorados. — Thomas de Vio nasceu em Gaeta, em 20 de fevereiro de 1468, filho de Francisco de Vio e de Isabel de Sieri, uma nobre família dessa cidade. Recebeu no batismo o nome de Tiago. A seriedade, a piedade e a precocidade do espírito distinguiram a sua infância. Aos dezesseis anos, com grande pesar dos seus pais, tomou o hábito dos irmãos pregadores no convento da sua cidade natal, dependente da congregação da Lombardia. Terminado o noviciado, os seus superiores aplicaram-no aos estudos, sucessivamente em Nápoles, em Bolonha e em Pádua, onde chegou na primavera de 1491. J.-B. Flavius, Oratio de vita R. D. Thome de Vio, em Bzovius, Annales ecclesiastici, t. XIX, col. 900; Quétif-Echard, Scriptores ord. pred., t. I, p. 14; A. Cossio, Il cardinale Gaetano e la riforma, Cividale, 1902, p. 16.
Depois de ter começado como estudante em Pádua, foi encarregado de interpretar o Livro das Sentenças. Exercia este ofício quando foi feito bacharel em 19 de março de 1493, com dispensa de tempo para a sua leitura, e foi assim incorporado à universidade. G. Contarini, Notizie storiche circa li pubblici professori nello studio di Padova scelti dal’ ordine di San Dominico, Veneza, 1769, p. 147. Os comentários de Cajetan sobre o Livro das Sentenças, fruto deste primeiro ensino, permaneceram inéditos. Paris, Bibl. nat., lat. 3076. Durante o ano escolar 1493-1494, desempenhou as funções de mestre dos estudantes em conformidade com as decisões do capítulo geral de 1491. Monumenta ord. predic. historica, t. VI, p. 404.
Foi nesse mesmo ano de 1494 que obteve a cátedra de metafísica na universidade. Contarini, op. cit., p. 139, 142; G. Mazzatinti, L’obituario del convento di S. Agostino di Padova, Veneza, 1894 (extrato de Miscellanea della R. Deputazione veneta di storia patria, 2ª série, t. II), p. 34. A realização do capítulo geral da ordem em Ferrara, durante as festas do Pentecostes de 1494, forneceu ao jovem professor de Pádua a ocasião de um brilhante sucesso. A disputa pública, da qual participou Pico della Mirandola, valeu-lhe um verdadeiro triunfo; e o duque de Ferrara, Hércules, presente nesse torneio, pediu e obteve, ali mesmo, do mestre geral da ordem, Joaquim Torriani, o título de mestre em teologia. Prefatio Ven. Patris Fratris Bartholomæus de Spina, Pisani, no início da edição do comentário de Cajetan sobre a IIa IIae, Veneza, 1518; Flavius, op. cit., p. 901; Quétif-Echard, op. cit., p. 15.
A universidade de Pádua, no tempo em que nela se encontrou Thomas de Vio, tornava-se cada vez mais um centro célebre de humanismo e de filosofismo. J. Paquier, Jéréme Aléandre, Paris, 1900, p. 22; Renan, Averroès et l’averroisme, Paris, 1867, p. 352; L. Mabilleau, Etude historique sur la philosophie de la Renaissance en Italie, Paris, 1881, p. 106. Esta estadia marcou profundamente a sua ação sobre o espírito de Cajetan. As suas polêmicas com Antônio Trombetta, O. M. (Hurter, Nomenclator litterarius, t. IV, col. 925), titular da cátedra de metafísica de Scoto desde 1468 (Quétif-Echard, op. cit., p. 14), e a presença de averroístas célebres, tais como Vernias, Pomponazzi e Niphus, orientaram a sua atenção e os seus esforços para as objeções do escotismo e os problemas filosóficos levantados pelo averroísmo paduano. O tratado De ente et essentia, composto nesse momento, visa simultaneamente o escotismo de Trombetta e algumas teses dos averroístas contemporâneos.
Embora a presença de Cajetan seja assinalada por Bartolomeu Spina nos conventos de Verona, Bérgamo, Bréscia, Mântua e Milão, entre a sua estadia em Pádua e a sua nomeação para Pavia, ele provavelmente não deixou a sua cátedra da universidade de Pádua senão para assumir a de teologia da universidade de Pavia, para onde foi chamado pelo duque de Milão, Ludovico Sforza, no início do ano escolar 1497. Bartolomeu Spina, op. cit.; Cossio, op. cit., p. 51. Segundo o ato de nomeação, Cajetan devia interpretar o texto das obras de São Tomás. Memorie e documenti per la storia dell’ universita di Pavia, Pavia, 1878, parte I, p. 190. Após dois anos escolares de ensino, abandonou a sua cátedra e estabeleceu-se, desde o final de 1499, no convento de Santa Maria delle Grazie, em Milão, chamado, sem dúvida, pelo duque Ludovico Sforza. Passou o ano de 1500 nessa cidade.
2º Cajetan nos altos cargos da ordem: procurador-geral (1500-1508); vigário-geral (1507-1508); mestre-geral (1508-1518). — Tendo morrido o procurador-geral da ordem, Francisco Mei, em 28 de novembro de 1500, o cardeal Olivier Carrafa, protetor da ordem, empenhou-se em fazer dar-lhe o Pe. Thomas de Vio como sucessor. Este ofício obrigando Cajetan a residir em Roma, foi nomeado professor de filosofia e de teologia na universidade romana (la Sapienza), e pronunciou, a esse título, cinco discursos perante Alexandre VI e Júlio II, do Advento de 1501 ao Advento de 1504. Quétif-Echard, op. cit., p. 14; Flavius, op. cit., p. 901; Cossio, op. cit., p. 63.
À morte de Jean Clérée (10 de agosto de 1507), geral da ordem, cujo governo durara apenas dois meses, Júlio II, por suas cartas de 20 de agosto, chamou Thomas de Vio para tomar em mãos a administração dos irmãos pregadores, com o título de vigário-geral, enquanto esperava o próximo capítulo geral. Bullarium ord. pred., t. IV, p. 248. O capítulo da ordem, realizado em Roma no ano seguinte, designou unanimemente Thomas de Vio como mestre-geral, em 10 de junho, véspera do Pentecostes. Quétif-Echard, op. cit., p. 15; Monum. ord. pred. hist., t. IX, p. 86.
Apesar da sua elevação ao cardinalato, em 1º de julho de 1517, Cajetan continuou a administrar a ordem até à eleição do seu sucessor, pelo capítulo de Roma, o qual nomeou, em 22 de maio de 1518, Garcia de Loaysa, anteriormente procurador da ordem. Bull. ord. pred., t. IV, p. 345; Monum. ord. pred. hist., t. IX, p. 157. Eleito geral da sua ordem aos quarenta anos, em um tempo em que a Igreja e as sociedades religiosas com ela atravessavam uma crise histórica das mais graves, Cajetan esteve à altura das circunstâncias e das suas funções. Com um raro coup d’œil e uma igual energia, esforçou-se por promover a disciplina religiosa e o estudo das ciências sagradas, meios indispensáveis para o objetivo atribuído pela Igreja à ordem dos irmãos pregadores.
As cartas encíclicas dirigidas à ordem, por ocasião dos três capítulos gerais que presidiu, e os atos desses capítulos eles mesmos (Roma, 1508; Gênova, 1513; Nápoles, 1515) testemunham suficientemente qual foi o seu programa e com que firmeza procurou aplicá-lo. Monum. ord. pred. hist., t. IX, p. 81-155.
Homem de grande doutrina, recordou à sua ordem a obrigação especial em que estava, mais do que todos os outros, de se dedicar ao estudo das ciências sagradas. Foi assim que escreveu à ordem, do capítulo geral de Gênova, em 1513: Gaudeant alii suis prerogativis, nos nisi sacra doctrina commendet, de ordine nostro actum est. Monum. ord. pred. hist., loc. cit., p. 94.
Possui-se o registro da administração de Tomás de Vio para os anos 1507-1513. Roma, arquivos gerais dos frades pregadores. O segundo volume, que deveria conter os anos 1514-1518, está, infelizmente, perdido.
Um certo número de fatos na administração generalícia de Caetano relaciona-se à história da época e deve-se assinalá-los para memória. É assim que ele teve de intervir nos assuntos da congregação de São Marcos de Florença, na sequência do movimento criado pela ação de Jerônimo Savonarola, A. Gherardi, Nuovi documenti e studi intorno a Girolamo Savonarola, Florença, 1887, p. 336; no assassinato judicial dos dominicanos de Berna, G. Rettig, Die Urkunden des Jetzerprozesses (Archiv des historischen Vereins des Kantons Bern, Berna, 1886, t. XI); N. Paulus, Ein Justizmord an vier Dominikanern begangen. Aktenmässige Revision des Berner Jetzerprozesses vom Jahre 1509, Frankfurt, 1897; R. Steck, Der Berner Jetzerprozess (1507-1509) in neuer Beleuchtung, Berna, 1902; na querela dos humanistas com os teólogos de Colônia, N. Paulus, Die deutschen Dominikaner im Kampfe gegen Luther (1518-1563), Friburgo em Brisgóvia, 1903, p. 89.
Foi Caetano quem forneceu ao rei da Espanha Fernando, por intermédio de Júlio II, os primeiros missionários espanhóis que partiram para a América e iniciaram a sua evangelização. V. M. Fontana, Monumenta dominicana, Roma, 1675, p. 410; A. Touron, Histoire générale de l’Amérique, Paris, 1769, t. I, p. 213; A. Rose, Les dominicains en Amérique, Paris, 1878.
Finalmente, durante o concílio de Latrão (1512-1517), testemunhando os prelados a sua má vontade com relação às ordens mendicantes, estas entregaram ao mestre-geral dos frades pregadores os seus interesses e o cuidado da sua defesa, do que Tomás de Vio se desincumbiu com sucesso, mas não sem dificuldade. Martène, Amplissima collectio, t. I, col. 1264-1267.
O generalato de Caetano foi para a ordem dominicana um dos mais fecundos, e o seu sucessor, Garcia de Loaysa, pôde dizer ao tomar posse do seu cargo: Predecessor quantus extiterit et nostis et novi. Is enim collapsum ordinem sapientia, virtute et prudentia instauravit, ut preclara ejus gesta omittam, quæ commune Ecclesiæ commodum attulerunt, et multo amplius expectantur allatura, cum dignis ejusdem meritis ad senatum illum supremum evectus est. Prefuit is ut diligentissimus pater, totis incumbens viribus subditorum saluti atque utilitati ordinis, ob quod et satis et opus fore mihi non dubito ejus semper inherere vestigiis, et cepta sectari; atque utinam mihi desuper concedatur ut dignus inveniar tanti patris ac ducis operum emulator, ut ordinem ab eo erectum servare, ab eo tutatum manutenere, ac decore ditatum sub ejusdem alis servare valeam. Monum. ord. pred. hist., t. IX, p. 101.
8° O conciliábulo de Pisa-Milão (1511-1512) e o concílio de Latrão (1512-1517). — A política de Júlio II com relação a Veneza tendo-lhe alienado a França e o império, Luís XII e Maximiliano aproveitaram-se do juramento feito por Júlio II, no dia da sua eleição, de convocar um concílio no espaço de dois anos, para o intimar, no fim de 1510, a cumprir a sua palavra. Esta tentativa de intimidação não tendo obtido sucesso, cinco cardeais romperam com o papa e convocaram (16 de maio de 1511), de acordo com o rei da França e o imperador, um concílio que deveria abrir-se em Pisa no dia 1º de setembro. Ali realizaram-se apenas três sessões, de 4 a 12 de novembro. Paquier, Jérôme Aléandre, p. 59.
Na presença deste movimento cismático, Júlio II consultou o mestre-geral dos frades pregadores para saber que medidas deveria tomar. Caetano aconselhou-o a lutar contra o sínodo de Pisa e a convocar ele próprio um concílio. Flavius, op. cit., p. 901.
Nesta empresa, aceita por Júlio II, Tomás de Vio prestou ao papa o mais útil apoio. Desde 6 de setembro de 1511, ele endereçava a toda a ordem uma circular pela qual proibia, sob as penas mais graves, a todos os seus religiosos de prestar o seu concurso às empresas cismáticas de Pisa. Registre de Cajétan, fol. 55. Enviava, aliás, ao convento dominicano de Santa Catarina, o mais influente de Pisa, vários religiosos de valor, que organizaram a resistência contra o conciliábulo. Eles foram suficientemente felizes para atrair os outros regulares e o clero secular em pessoa. O concílio teve de deixar Pisa e transferir-se para Milão. V. Marchese, Scritti vari, Florença, 1860, t. I, p. 356.
Caetano, por seu lado, atacou vigorosamente as pretensões da assembleia de Pisa pelo seu tratado Auctoritas papæ et concilii sive Ecclesiæ comparata, Roma, 19 de novembro de 1511. O golpe atingiu o alvo. No dia 10 de janeiro de 1512, os prelados, reunidos em Milão, remeteram o escrito de Caetano à universidade de Paris para obter a sua condenação; e, no dia 19 de fevereiro, o rei da França apoiava o pedido deles. Designou-se uma comissão para proceder a este exame, mas os delegados não puderam chegar a um acordo. Um jovem doutor, Jacques Almain, empreendeu a refutação de Caetano com o seu Libellus de auctoritate Ecclesiae, Paris, 1512. Caetano respondeu prontamente por sua Apologia tractatus de comparata auctoritate pape et concilii, Roma, 29 de novembro de 1512. Paquier, op. cit., p. 59.
A faculdade de teologia de Paris não procedeu, ao contrário do que se diz habitualmente, à condenação da obra de Caetano. Ela tomou conhecimento, no dia 11 de junho de 1516, das cartas do rei da França, que lhe ordenavam não se ocupar mais da obra de Tomás de Vio. Ela declarou respeitosamente sobrestar o assunto. L. Delisle, Notice sur un registre des procès-verbaux de la faculté de théologie de Paris pendant les années 1505-1533, Paris, 1899 (Notices et extraits des manuscrits de la Bibliothèque nationale, t. XXXVI), p. 39. Júlio II convocou um concílio em Latrão para o dia 19 de abril de 1512.
Tal como indicamos mais acima, o mestre-geral dos frades pregadores teve ali de defender, contra os prelados, os interesses das ordens religiosas que o haviam comissionado para este fim. Na solenidade da segunda sessão, em 16 de maio de 1512, Caetano proferiu um discurso perante o concílio. Após haver repudiado as empresas cismáticas de Pisa, ele fixou o seu olhar no concílio de Latrão e fez ouvir graves verdades aos Padres. Elas testemunham, no orador, um conhecimento claro das necessidades da Igreja do seu tempo, muita independência e um sentimento muito vivo dos perigos que corria então a sociedade eclesiástica.
«E agora, dizia ele, não posso de maneira alguma alinhar-me com aqueles dos Padres que, tendo ouvido apenas o nome de concílio, estimam imediatamente que realizaram uma obra santa e útil... « Estamos em um tempo em que se espera e em que é necessário fazer muito: acima de tudo, reformar a Igreja, restaurar os costumes decadentes, sufocar os inícios de cisma, converter os infiéis, reconduzir os heréticos, fortalecer as boas leis e as sanções que interessam a toda a cristandade... É preciso, meus Padres, prover a estas coisas com aplicação; é preciso estabelecê-las rapidamente e com extremo cuidado: hoje não posso dissimular estas exigências, nem sob qualquer pretexto silenciá-las. » Opuscula, t. III, tr. I, orat. VI.
Caetano ainda interveio nos assuntos do concílio por ocasião do decreto de condenação do averroísmo e da questão da concepção imaculada da B. Virgem Maria. Assinalamos, para memória, a delegação que Tomás de Vio havia recebido do duque Jorge da Saxônia (9 de fevereiro de 1513) para representá-lo no concílio. Brieger’s Zeitschrift für Kirchengeschichte, t. I, p. 603, 606; W. Buddee, Nikolaus von Schönberg, Greisswald, 1884, p. 3.
Caetano cardeal (1517) e legado pontifício na Alemanha (1518-1519). — Caetano não pôde concluir o governo da ordem dos irmãos pregadores até o capítulo de Pentecostes de 1518. O cardeal Alexandre Farnese, enviado em 3 de março como legado à Alemanha, tendo adoecido no caminho, Tomás de Vio, cardeal de São Sisto, teve de substituí-lo. Em 29 de abril de 1518, Leão X autorizou-o a substituir-se por um vigário para administrar a ordem até o capítulo geral. Bull. ord. pred., t. IV, p. 360.
Em 26 de abril, Caetano havia recebido do papa sua nomeação como legado, e deixou Roma, com as cerimônias habituais, em 5 de maio seguinte. A. de Altamura, Bibliotheca dominicana, Roma, 1677, p. 259; A. Pieper, Zur Entstehungsgeschichte der ständigen Nuntiaturen, Friburgo em Brisgóvia, 1894, p. 60; M. Armellini, Il diario di Leone X di Paride de Grassi, Roma, 1884, p. 67.
Caetano tinha por missão fazer com que o imperador Maximiliano e os eleitores do império aceitassem o projeto de cruzada contra os turcos, patrocinado por Leão X. Devia, ao mesmo tempo, levar o chapéu cardinalício a Alberto de Brandemburgo, eleitor e arcebispo de Mogúncia, bem como a espada e o elmo bentos pelo papa, ao imperador. O legado dirigiu-se a Augsburgo, onde estava reunida a dieta do império, e entregou, em 1º de agosto, suas insígnias ao cardeal e ao imperador. Aplicou-se a fazer prevalecer as vistas da santa sé e a defender a Igreja romana contra as violências de Ulrico de Hutten. Mas a agitação religiosa que já trabalhava a Alemanha e a morte do imperador, em 12 de janeiro de 1519, tornariam ineficaz o projeto de cruzada contra Solimão. Raynaldi, Annal. eccles., an. 1518; Bzovius, Annal. eccles., an. 1518; Cossio, op. cit., p. 269.
Os tumultos religiosos provocados na Saxônia por Lutero, desde o fim de 1517, haviam tomado um desenvolvimento rápido; e Caetano iria encontrar-se, pela primeira vez, face a face com o inovador, em nome da Igreja romana. O arcebispo de Mogúncia, inculpado pelos ataques de Lutero contra as instruções oficiais que havia publicado para a pregação das indulgências, havia levado o caso a Roma. A santa sé havia constituído, para o exame das doutrinas do monge agostiniano, uma comissão que lhe foi desfavorável. O bispo de Ascoli, Jerônimo Ghinuci, auditor geral da câmara apostólica, havia lançado, em 7 de agosto de 1518, um monitum citando Lutero a comparecer à corte de Roma, no prazo de 60 dias, sob a acusação de heresia.
O eleitor da Saxônia, Frederico, fautor secreto das empresas de Lutero, havia se empenhado para que o caso seguisse seu curso na Alemanha. Por suas cartas de 23 de agosto, endereçadas ao eleitor, Leão X declarava que as doutrinas de Lutero eram heréticas, e ordenava a Frederico que entregasse Lutero ao legado. O papa escrevia, no mesmo dia, a Caetano, incumbindo-o de tratar desse caso, de assegurar-se da pessoa do acusado para que pudesse comparecer diante da santa sé, usando, se fosse necessário, das censuras eclesiásticas contra o clero e do interdito contra a autoridade civil.
Caetano, que parece ter se dado conta, de forma muito exata, da situação religiosa na Alemanha, renunciou a fazer uso do rigor e de seus poderes judiciários. Consentiu que se entregasse um salvo-conduto a Lutero e tomou o partido de tratar o inovador por via paternal. Lutero havia chegado a Augsburgo em 7 de outubro, onde a dieta do império acabava de ser encerrada. Desde o dia 10 do mês, comparecia diante do legado. Contrariamente às pretensões de Lutero, Caetano declarou-lhe que não tinha a missão de disputar, mas de receber sua retratação e de reconciliá-lo com a Igreja.
Lutero, apesar de suas declarações públicas contrárias, estava resolvido a não se submeter à autoridade eclesiástica, e não buscava senão subterfúgios para ganhar tempo. O cardeal, por condescendência, deixou-se levar a discutir alguns pontos com ele, mas mantendo que esperava sua submissão. Nada pôde obter de Lutero. Os amigos deste último empenharam-se junto ao legado para que lhe permitisse entregar um memorial justificativo. O cardeal consentiu ainda, e o memorial foi-lhe apresentado em 14 de outubro.
Caetano, que não se iludia quanto ao estado de espírito de Lutero, mostrou-lhe a inanidade de sua pretensa justificação. Lutero não quis ouvir nada. Escrevia, aliás, no mesmo dia a um de seus amigos que não revogaria uma sílaba e que preparava seu recurso. Na noite do mesmo dia, o legado mandou chamar João Staupitz, superior de Lutero, para pedir-lhe que interviesse junto ao seu subordinado.
O resultado dessa intervenção foi uma carta escrita, em 17 de outubro, por Lutero ao legado, na qual testemunha todo o seu respeito pelo cardeal, reconhece que superou a medida em suas críticas contra o papa, mas declara que não pode retirar nada; pede, além disso, ao legado que leve essa causa a Leão X, para que a Igreja, que ele deseja ouvir e seguir, determine as dúvidas doutrinais. Mas, desde a véspera, ele havia feito redigir um recurso notariado de tudo o que havia sido feito contra ele.
Em 18 de outubro, Lutero escrevia, mais uma vez, ao legado para anunciar-lhe que deixava Augsburgo e que recorria do papa mal informado ao papa melhor informado. Em 25 de outubro, vendo que toda esperança de sucesso havia desaparecido, o legado escreveu ao eleitor da Saxônia para fazer-lhe um breve relato do que havia se passado, e declarar-lhe que desobrigava sua responsabilidade. Alguns autores, mal informados ou imbuídos de preconceitos, acreditaram poder acusar Caetano de ter carecido de flexibilidade nesse caso. Se uma queixa pudesse ser articulada contra o legado, seria a de ter tido, em relação a Lutero, uma condescendência extrema, pois ficou bem aquém das instruções pontifícias. Mas a verdade é que Caetano se dava perfeitamente conta de que a única chance de sucesso ao tratar com Lutero era a indulgência e a bondade. Infelizmente, o plano de Lutero estava desde então definido em seu espírito, e sua obstinação e seus subterfugios deveriam manter em xeque a boa vontade do legado. N. Paulus, Johann Tetzel der Ablassprediger, Mayence, 1899, p. 80 sq.; W. de Wette, Dr. Martin Luthers Briefe, Berlin, 1825, t. 1, p. 142 sq.; C. Burkhardt, Dr. Martin Luther Briefwechsel, Leipzig, 1866, p. 11; Lutheri opera latina, Iéna, 1556, t. 1, fol. 187 sq.; Bzovius et Raynaldi, Ann. eccl., an. 1518; G. G. Evers, Martin Luther, Mayence, 1883, t. 1, p. 365 sq.; t. II, p. 3 sq.; Hergenroether, Hist. de l’Eglise, Paris, 1880, t. IV, p. 202; Cossio, op. cit., p. 291 sq.
Um assunto de primeira importância solicitou ainda a atenção e os cuidados de Caetano durante sua legação: a eleição do imperador. Em meio às competições apaixonadas que a sucessão de Maximiliano suscitava, Caetano teve de fazer prevalecer junto aos eleitores as visões de Leão X. A indecisão do papa primeiramente, depois sua firme adesão à candidatura do jovem Carlos V encontraram um fiel intérprete em seu legado junto à dieta de Frankfurt, e talvez os conselhos de Caetano, face aos assuntos internos da Alemanha, foram preponderantes nas resoluções finais do papa. O legado teve de suportar o mau humor e as cóleras dos partidos que o estimavam contrário às suas ambições. Em 28 de junho de 1519, Carlos foi eleito imperador por unanimidade. O novo soberano, consciente dos serviços que Caetano havia prestado à sua causa, endereçou-lhe de Barcelona, em 29 de julho, uma carta de agradecimentos muito vivos. [Ruscelli,] Lettere di principi, Venise, 1581, t. 1, p. 60 sq; Flavius, op. cit., p. 905; Bzovius et Raynaldi, Ann. eccles., an. 1519; Bull. ord. pred., t. IV, p. 881; G. de Leva, Storia documentata di Carlo V, Venise, 1864, t. 1, p. 391-425; t. II, c. I, passim; Cossio, op. cit., p. 373 sq.
Caetano, bispo de Gaeta (13 de abril de 1519). Retorno à Alemanha e estadia em Roma. — Caetano retornou da Alemanha no fim do verão de 1519 e foi recebido solenemente em Roma por Leão X no consistório de 5 de setembro. O papa o acolheu com extrema bondade e deu-lhe para sua residência o palácio de Santa Maria in Via Lata. Caetano havia aceitado em comenda o arcebispado de Palermo, em 8 de fevereiro de 1518, e resignou-o nas mãos de Leão X, em 19 de dezembro de 1519. Enquanto estava ainda na Alemanha, o papa o havia nomeado, em 13 de abril de 1519, para o pequeno bispado de Gaeta, sua cidade natal.
Caetano, descontente com o espírito que reinava na cúria, onde havia inutilmente, desde há bastante tempo, buscado persuadir da necessidade de reformas eclesiásticas importantes, pediu, sem obtê-lo, ao que parece, poder ser exonerado de assistir aos consistórios, salvo para os casos de assuntos importantes. Sua atitude severa e um tanto protestatária alienou-lhe o espírito do mundo de humanistas que gravitava em torno de Leão X. O papa tinha, todavia, uma confiança ilimitada em seus conselhos. É assim que o cardeal tomou parte muito ativa no exame dos assuntos luteranos e teve de se dirigir ao consistório de 23 de maio de 1520, por mais doente que estivesse, porque se deviam tratar ali essas matérias e, em particular, a condenação solene do heresiarca. É desse consistório que saiu a célebre bula Exurge Domine de 15 de junho seguinte. A. de Altamura, Bibliotheca dominicana, p. 259; Pallavicini, Hist. du concile de Trente, l. I, ch. xx; Gams, Series episcoporum, Ratisbonne, 1878, p. 881, 952; Pieper, Zur Entstehungsgesch., p. 61; Flavius, op. cit., p. 905; Quétif-Echard, op. cit., p. 173; Cossio, op. cit., p. 391; P. Kalkoff, Zu Luthers römischen Prozess (Brieger’s Zeitschrift für Kirchengeschichte, t. xxv [1904], p. 90-147).
O Caetano eleitor de Adriano VI (9 de janeiro de 1522) e legado na Hungria (1523-1524). — A morte de Leão X, 4 de dezembro de 1521, abriu uma sucessão das mais difíceis. Os cardeais divididos pareciam não conseguir entender-se durante o conclave. O cardeal Caetano, perseguindo suas visões de reformas eclesiásticas, fez prevalecer a candidatura do cardeal Adriano de Utrecht, que ele havia conhecido durante sua legação na Alemanha. Serviu também de apoio ao novo papa em suas tentativas de reforma e suportou com ele as críticas que as pessoas da cúria fizeram cair sobre esses propagadores do espírito cristão.
O projeto de cruzada contra os turcos tendo fracassado em consequência da agitação luterana, Solimão havia continuado sua marcha de conquista e as fronteiras orientais da cristandade encontravam-se em extremo perigo. Para fazer frente a essa situação, Adriano VI enviou, em 1º de junho de 1523, o cardeal de São Sisto como legado na Hungria, Boêmia, Polônia, Alemanha e outros lugares fronteiriços. Ele era portador de uma primeira soma importante, destinada a ser empregada contra os turcos. Infelizmente, o estado interno da Hungria e, sobretudo, a pouca confiança que seu jovem rei Luís inspirava ao legado, assim como a seus súditos, não permitiram obviar aos perigos que ameaçavam o reino de Santo Estêvão. O legado fez distribuir o dinheiro de que dispunha para ajudar as cidades da Dalmácia e da Croácia próximas ao inimigo.
Tomou parte ativa nas negociações de Wiener-Neustadt, no mês de outubro de 1523, onde a Polônia, a Hungria e a Áustria projetaram uma expedição para a primavera do ano seguinte. A morte de Adriano VI, 14 de setembro de 1523, surpreendeu Caetano em plena legação. Clemente VII chamou-o de volta a Roma. Flavius, op. cit., p. 906; Bull. ord. pred., t. IV, p. 413; H. von Hofler, Papst Adrian VI, Vienne, 1880, p. 90, 237, 417; Cossio, op. cit., p. 404, 409.
7º Últimos anos de Caetano (1524-1534). — Regressado a Roma, Tomás de Vio entregou-se mais do que nunca a uma vida de estudo, que ele, aliás, jamais havia abandonado. Não podendo servir à Igreja fazendo prevalecer seus conselhos, forneceu-lhe o concurso de uma atividade literária intensa. A política infeliz de Clemente VII veio lembrar-lhe, uma vez mais, que ele parecia fadado a ser a testemunha próxima dos desastres da Igreja e, apesar de seus avisos, a não poder impedi-los. No mês de maio de 1527, Roma foi saqueada pelas tropas do condestável de Bourbon. O cardeal de São Sisto foi feito prisioneiro, coberto, como vários de seus colegas, pelas mais baixas humilhações por uma soldadesca enfurecida, e condenado a pagar por seu resgate 5000 peças de ouro. Caetano, que era pobre, teve de recorrer ao empréstimo para satisfazer as exigências dos vencedores e receber até mesmo vestimentas como esmola. Para quitar suas dívidas, tanto quanto para desviar seus olhares dos acontecimentos públicos, retirou-se para seu bispado de Gaeta. Permaneceu ali até o outono de 1529 e voltou então a Roma, onde os infortúnios da Igreja começavam a voltar os espíritos para projetos mais sérios de reforma. No grave assunto do divórcio do rei da Inglaterra, Clemente VII cometeu ao cardeal de São Sisto o exame dos memoriais escritos sobre essa questão. Caetano, em sua consulta datada de Roma, 13 de março de 1530, concluiu contra as pretensões de Henrique VIII. Endereçou, alguns anos mais tarde, em 27 de fevereiro de 1534, uma memória ao rei da Inglaterra, por ocasião de seu casamento com a viúva de seu irmão. Os projetos de um futuro concílio voltaram os olhares de muitos para Caetano. O cardeal Sadolet informava-se junto a ele sobre o que se devia pensar a respeito desse assunto. Quando em 1534 Clemente VII adoeceu, o nome do cardeal Caetano foi apresentado como podendo ser o do papa das reformas. Mas o cardeal de São Sisto sentia-se gravemente acometido e preparava-se, com uma admirável resignação, para a morte. Ela ocorreu em 10 de outubro de 1534. Foi sepultado, em hábito religioso simples e sem qualquer pompa, segundo seus desejos, sob o pórtico da igreja da Minerva. Prosseguindo até a morte com suas ideias reformadoras, não quisera contribuir para um abuso que sobrecarregava, dizia ele, com despojos mortais templos que se deveriam reservar à única santidade de Deus. Flavius, op. cit., p. 906; J. Sadoleti Epistolæ proprio nomine scriptæ, Roma, 1760, part. I, p. 304, 319; C. Milanesi, Il sacco di Roma del MDXXVII, Florença, 1867, passim; C. Ravioli, Le guerre dei sette anni sotto Clemente VII, Roma, 1883, p. 79; A. Ciaconius, Vitæ et res gestæ pontif. roman. et S. R. E. cardinalium, t. I, p. 392; Bullar. ord. pred., t. IV, p. 466; Quétif-Echard, Script. ord. pred., t. II, p. 15; Cossio, op. cit., p. 425-472.
II. Obras. — A atividade literária de Caetano foi muito considerável, e ter-se-ia dificuldade em compreender que um homem, que ocupou por tanto tempo altos cargos administrativos e teve de tomar parte nos assuntos mais graves de seu tempo, pudesse tê-la proporcionado, se não se soubesse que Caetano não cessava de estudar e de escrever, mesmo em meio às ocupações mais absorventes. Como quase todos os seus escritos trazem a data em que foram concluídos, é fácil ver como a composição deles coincide, por vezes, com os momentos em que ele deveria estar mais absorvido pelas tarefas exteriores ou menos livre de espírito. É assim que dez de seus opúsculos trazem as datas de diversos dias do mês de outubro de 1518, isto é, do tempo em que teve de tratar com Lutero em Augsburgo; que a Summula peccatorum e os Jentacula foram escritos durante sua legação na Hungria; que continuava seus comentários sobre a Escritura em meio aos horrores do saque de Roma, em 1527.
Os escritos de Caetano podem ser divididos em obras filosóficas, teológicas e exegéticas. Em seu conjunto, foram compostas nesta ordem, e nós a adotaremos no catálogo que se seguirá. Como quase todas as composições de Caetano são datadas, daremos entre parênteses, após o título, esta informação fornecida pelo próprio autor. Quétif-Echard elaboraram o catálogo de 82 opúsculos teológicos segundo sua ordem cronológica, p. 19-26; e Cossio, p. 497-501, reuniu, em uma sequência semelhante, 114 títulos de obras. Aproximaremos de preferência, aqui, os escritos de Caetano segundo sua afinidade natural. Infelizmente, não existe uma edição completa das obras de Caetano. Contudo, certas partes foram reunidas, tais como as obras exegéticas publicadas em Lyon, 1639, em 5 in-fol. Procurou-se também reunir seus diversos tratados, grandes ou pequenos, em diversas coleções às quais se deu o nome de opúsculos; mas nenhuma edição é completa, e o agrupamento do conteúdo não é operado nem segundo a ordem cronológica nem segundo a natureza dos assuntos. Na enumeração que faremos mais adiante, aproximá-los-emos segundo a ordem das matérias, e remeteremos, na sequência de Quétif-Echard, às duas edições de Antuérpia, 1612, e de Lyon, 1544, porque se completam. A primeira, que indicaremos por A, é dividida em três livros; e a segunda, que designaremos por L, é dividida em quatro livros. Para maior comodidade, daremos aqui, primeiramente, as principais edições de opúsculos.
I. OPÚSCULOS. — Opuscula aurea de diversis ac curiosissimis materiis tam practicis quam speculativis, in-4°, Paris, 1511. Esta coleção contém cerca de trinta opúsculos.
— Questiones quodlibetales cum aliquot assertionibus contra lutheranos, et aliis difficultatum theologarum enodationibus in communem studiosorum usum non mediocri labore nusquam antea in talem ordinem digestis, in-8°, Paris, 1530. Contém vários opúsculos que não estão nas duas grandes coleções.
— De communione, confessione, satisfactione, invocatione sanctorum adversus lutheranos tractatus, Roma, 1531.
— Opuscula adversus lutheranos, videlicet, de fide et operibus, de communione, de confessione, de satisfactione, de invocatione sanctorum, responsiones ad septendecim quesita, in-8°, Lyon, 1536.
— Opuscula, questiones et quodlibeta, in-fol., Lyon, 1541. — Opuscula omnia tribus tomis distincta, in-fol., Lyon, 1558, 1567, 1581, 1588; Veneza, 1588, 1612; Antuérpia, 1612. Coleção de 59 opúsculos.
II. OBRAS FILOSÓFICAS. — 1° Commentaria super tractatum de ente et essentia Thome de Aquino; super libros posteriorum Aristotelis et predicamenta; tractatus de analogia nominum; questio de subjecto philosophie; tractatus de cambiis, in-fol., Veneza, 1506. — 2° In predicabilia Porphyrii, predicamenta et libros posteriorum analyticorum Aristotelis castigatissima commentaria, in-8°, Veneza, 1587, 1599. — 3° Super libros Aristotelis de anima (Roma, 1512), questiones de sensu agente et de sensibilibus; de substantia orbis Jo. de Gandavo cum questionibus ejusdem, in-fol., Veneza, 1514 (duas edições diferentes, Panzer, t. vii, p. 448, 422), in-fol., Paris, 1539. — 4° Metaphysica contracta a Thoma Maria Giovio, in-4°, Bolonha, 1688. — 5° De nominum analogia (Pavia, 1° de setembro de 1498), A, II, 5. — 6° De subjecto naturali philosophiae, an sit ens mobile (s. d.), A, II, 4. — 7° Super duo de conceptu entis quesita (Roma, 27 de fevereiro de 1519), L, II, 16; A, III, 6. — 8° De Dei infinitate (Pavia, 10 de setembro de 1499), A, III, 2. — Quétif-Echard assinalam, p. 17, como manuscritos existentes em seu tempo na Biblioteca real em Paris: 9° Commentarium octo libros physicorum (cod. 4824); 10° Commentarii in libros Aristotelis quatuor de cælo et mundo (cod. 5122). — Léandre Alberti conhecia: 11° os Commentarii super metaphysicam (Quétif-Echard, op. cit.), provavelmente a obra abreviada por T. M. Giovio, indicada acima.
III. OBRAS TEOLÓGICAS. — 1° Commentarii in Iam partem Summe theologice S. Thome de Aquino (Roma, 2 de maio de 1507), in-fol., Veneza, 1508; Paris, 1514. — 2° In Iam IIæ (Roma, 29 de dezembro de 1511), in-fol., Veneza, 1514. — 3° In IIam IIæ (Roma, 26 de fevereiro de 1517), in-fol., Veneza, 1518; in-4°, Paris, 1519; Veneza, 1522, 1537, etc. — In IIIam partem (Roma, 19 de dezembro de 1520)..., 1523; in-fol., Bolonha, 1528; Veneza, 1533; Lyon, 1558. Para suprir a parte que falta na Suma de São Tomás, Caetano acrescentou as seguintes questões que não se encontram em todas as edições citadas: 1. De attritione et contritione; 2. De confessione; 3. De satisfactione; 4. De ministro sacramenti penitentie; 5. De indulgentiarum thesauro; 6. De causa indulgentiarum; 7. De suscipientibus indulgentias; 8. De modo tradendi seu recipiendi sacros ordines; 9. De contractu matrimonii; 10. De usu matrimonii; 11. De delectatione morosa.
5° Commentaria in Summam theologie S. Thome. As edições integrais do comentário apareceram ora sozinhas, ora com o texto da Suma de São Tomás: 4 in-fol., Lyon, 1540, 1541, 1552; Roma, 1570, na edição completa das obras de São Tomás, dita edição de São Pio V; 4 in-fol., Lyon, 1575; Stelsii, 1577; Lyon, 1581; Roma, 1588; 5 in-4°, Veneza, 1588; 7 in-8°, Bérgamo, 1590; Veneza, 1596, com os comentários de Javelli e de Capponi; Antuérpia, 1612; Pádua, 1698; 10 in-fol., Roma, 1773; Lyre (1892), sobre a Iª parte da Suma, edit. de H. Prosper; Roma, 1888, na edição leonina das obras de São Tomás, t. IV sq.
6° Summula de peccatis (na Panônia, 15 de junho de 1524), in-8°, Roma, 1525; Veneza, 1525; Paris, 1526, 1530; Lyon, 1529, 1539, 1550, 1565, 1581; Veneza, 1584; Douai, 1613, studio Gaugerici Hispani, 1627.
7° An in rebus naturalibus detur potentia neutra, et an potentia receptiva actuum supernaturalium sit naturalis, A, II, 3.
8° De fide et operibus adversus lutheranos, in-4°, Roma, 1532, A, III, 40.
9° Utrum homo homini superiori teneatur obedire in his in quibus oportet se exponere periculo mortis (Roma, 27 de novembro de 1522), A, III, 8.
10° De præcepto eleemosynæ: mentem S. Thomæ quam quidam in sua Summa sequius interpretabantur, declarans (1496), A, I, 5; L, III, 4.
11° Utrum liceat maleficium solvere opera malefici ad hoc parati utendo (Milão, 26 de março de 1500), L, III, 10, q. IV; A, I, 12.
12° Utrum votum non nubendi æquivaleat voto castitatis (Milão, 18 de dezembro de 1500), A, III, 11.
13° Utrum per votum quo quis promittit offerre aliquid cuidam imagini B. V. sit acquisitum jus illi Ecclesiæ (Mântua, 13 de março de 1500), L, II, 10, q. III.
14° Utrum emissurum professionis votum possit absolute renunciare propinqui hereditatem quam probabiliter dubitat male adepto ære infectam (Milão, 29 de setembro de 1500), L, III, 10, q. I.
15° An ingressus religionem cum proposito deliberato perseverandi, ad religionem teneatur (Roma, 11 de novembro de 1512), L, I, 4, R. 3.
16° An Judæis in nullo culpabilibus possit negari ingressus religionis (Siena, 21 de setembro de 1514), L, III, 4, R. 6.
17° An religiosus factus episcopus teneatur debito legali ad observantias regulares (Roma, 13 de fevereiro de 1518), L, I, 3, q. XX.
18° Utrum Petrus consignans centum florenos apud Paulum mercatorem ut et pro parte lucri, capitali salvo, assignet per annum quinque florenos residuo lucri Paulo mercatori servato, licite contrahat (Roma, 1º de abril de 1515), L, III, 4, R. 11.
19° De usura, questiones sex (Milão, 2-24 de abril de 1500), A, III, 8; L, III, 7.
20° De cambiis (Milão, 9 de dezembro de 1499), A, III, 7; L, II, 6.
21° De monte pietatis (Pavia, 13 de julho de 1498), in-4°, Roma, 1515 (existe uma edição anterior de uma dezena de anos), A, II, 6; L, II, 5.
22° Circa eruptionem rerum raptarum in bello injusto (Roma, 27 de novembro de 1519), L, II, 4, R. 17.
23° Questiones de sacramentis (são as indicadas acima que formam o complemento dos comentários à IIIª da Suma teológica), A, I, 4; L, II, 1.
24° De obligatione precepti (Roma, 14 de fevereiro de 1518), A, I, 25; L, I, 3, q. XXI.
25° De voto et unitate vel plurificatione numerali peccati actus exterioris propter discontinuationem actus interioris voluntatis (Florença, 27 de agosto de 1508), L, II, 35.
26° An justus timendo penam peccet (Augsburgo, 24 de outubro de 1518), A, I, 24.
27° Utrum quilibet utens spirituali, seu actus spirituales exercens in peccato mortali, peccet mortaliter (Roma, 24 de agosto de 1506), A, III, 10; L, III, 9.
28° Circa dispositionem ad confessionem (Augsburgo, 8 de outubro de 1518), L, II, 3, q. VII.
29° De confessione venialium et omnium mortalium (Augsburgo, 29 de setembro de 1518), L, I, 3, q. IX.
30° Utrum in confessione circumstantia diei festi sit necessario confitenda (Milão, 24 de abril de 1500), L, II, 3, q.
31° Quando quis obligatur ad contritionem peccatorum mortalium (Roma, 4 de março de 1518), A, I, 17; L, III, 3, q. VII.
32° De fide ad fructuosam absolutionem sacramentalem necessaria (Augsburgo, 26 de setembro de 1518), L, II, 3, q. III.
33° De impletione injuncte penitentiæ, si non impleatur in hac vita, num exsolvenda sit in alia (Augsburgo, 30 de setembro de 1518), A, I, 20; L, I, 3, q. XII.
34° De effectu absolutionis sacramentalis seu de confessione questiones quinque (Augsburgo, 1º de outubro de 1518), A, I, 18; L, I, 3, q. XI.
35° Utrum confessor teneatur occultam servare deliberationem confitentis se omnino occisurum regem aut pontificem summum (Roma, 13 de setembro de 1514), A, I, 21; L, III, 3, q. XV.
36° De pollutione ex auditione confessionis proveniente (Florença, 10 de outubro de 1509), A, I, 22; L, III, 3, q. XV.
37° De indulgentiis (Roma, 8 de dezembro de 1517), A, I, 15; L, II, 2.
38° De thesauro indulgentiarum (Augsburgo, 7 de outubro de 1518), L, III, 3, q. I.
39° De acquisitione indulgentiarum (Augsburgo, 14 de outubro de 1518), L, II, 3, q. II.
40° De acquirendis rursum indulgentiis (Augsburgo, 7 de outubro de 1518), L, I, 3, q. III.
41° De effectu indulgentie (Augsburgo, 29 de setembro de 1518), L, II, 3, q. IV.
42° An papa auctoritate clavium det indulgentiam animabus in purgatorio (Augsburgo, 15 de outubro de 1518), A, I, 16; L, II, 3, q. VI.
43° De indulgentia plenaria concessa defunctis (Roma, 20 de novembro de 1519), L, I, 3, q. V.
44° De erroribus contingentibus in sacramento eucharistie (Roma, 1515), A, I, 6.
45° De celebratione misse. Utrum sacerdos sumpta ablutione licite possit sumere reliquias eucharistie in calice, vel extra remanentes (Pisa, 26 de novembro de 1519), A, II, 3; L, III, 3, q. VII.
46° Utrum sacerdos celebrans pro pluribus satisfaciat pro singulis (Roma, 1º de dezembro de 1510), A, II, 3; L, III, 3, q. II.
47° De valore orationum dictarum ab audientibus missam in festo (s. d.), A, II, 4; L, III, 3, q. III.
48° De missæ sacrificio et ritu adversus lutheranos (Roma, 3 de maio de 1521), in-4°, Roma, 1531; A, III, 9.
49° Instructio nuntii circa errores libelli de cena Domini per capita juxta ordinem libelli (Roma, 1525), L, III, 2.
50° De communione sub utraque specie. De integritate confessionis. De invocatione sanctorum adversus lutheranos (Roma, 25 de agosto de 1531), in-4°, Roma, 1531 (com os n. 50 e 8); in-8°, Lyon, 1536; A, IV, 2.
51° De validitate matrimonii a juvene post religionis ingressum et egressum contracti (Gaeta, 22 de outubro de 1505), L, III, 4, R. 3.
52° De redditione debiti uxoris ad virum adulterum (Roma, 14 de março de 1518), L, I, 3, q. xxvi.
53° An adulter ipso facto sit privatus jure exigendi debitum a conjuge innocente (Roma, 20 de dezembro de 1513), A, I, 29; L, III, 4, R. 4.
54° Utrum matrimonium legitime contractum inter christianos per verba de presenti, possit ante carnalem copulam dirimi auctoritate pape absque religionis ingressu (Roma, 24 de janeiro de 1507), A, I, 98; L, III, 3, q. xxv.
55° Ad Henricum VIII Angliae regem de conjugio cum relicta fratris sententia (Roma, 27 de janeiro de 1534), A, III, 12.
56° De conjugio regis Angliae cum relicta fratris sui ad Clementem VII (Roma, 13 de março de 1534), A, III, 13.
57° De collatione ordinis presertim presbyteratus ab episcopo (Pisa, 20 de novembro de 1509), A, I, 26; L, III, 3, q. xxIII.
58° Utrum pontifex summus possit dispensare cum sacerdote occidentalis Ecclesie ut accipiat uxorem (Roma, 12 de abril de 1505), A, I, 35; L, II, 8, q. xxiv.
59° De venditione annue pensionis ex beneficio ecclesiastico debite (Roma, 16 de fevereiro de 1518), L, II, 4, R. 10.
60° Utrum emptio beneficiorum ecclesiasticorum sit simoniaca quia prohibita, vel prohibita quia simoniaca (Roma, 28 de dezembro de 1514), A, I, 9; L, I, 8, q. 1.
61° Utrum emens et acquirens episcopatum non intendendo solvere promissam pecuniam sit simoniacus (Roma, 4 de janeiro de 1504), A, II, 9; L, III, 8, q. 11.
62° An is qui in choro sic divinum officium persolvit, quod sui chori versus submisse sibi ipsi soli dicit, alterius vero chori versus audit tantummodo, satisfaciat precepto de persolvendis horis canonicis (Roma, 3 de novembro de 1514), L, II, 4, R. 8.
63° De auctoritate pape et concilii utraque invicem comparata (Roma, 12 de outubro de 1511), in-4°, Roma, 1511; in-4°, Colônia, 1512; A, I, 4; L, 3, 4.
64° Apologia tractatus de comparata auctoritate pape et concilii (Roma, 29 de novembro de 1512), A, I, 2; L, I, 2.
65° De Ecclesia et synodorum differentia coram Julio II in secunda sessione concilii Lateranensis oratio dicta XVI maii 1512, in-4°, Roma, 1512; A, III, 14.
66° De primatu romane Ecclesie ad Leonem X (17 de fevereiro de 1521), in-4°, Roma, 1521; A, I, 3; L, I, 3.
67° Utrum vacante sede et querentibus omnibus pontificatum per fas et nefas, propter ambitionem et avaritiam ac Ecclesie ruinam, liceat viro probo et digno querere pontificatum, adhibendo promissiones et exhibendo temporalia et beneficia, etc., pro suffragiis propter hunc finem, ut in sede positus Ecclesie prosit et illam reformet (Roma, 26 de dezembro de 1512), A, II, 9; L, III, 8, q. III.
68° An apostolica sedes in sacris canonibus abutatur verbis sacre Scripture (Mogúncia, 22 de março de 1519), A, I, 30; L, I, 3, q. xxv.
69° De criminum occultorum inquisitione (Roma, 5 de novembro de 1519), L, II, 4, R. 5.
70° De effectu excommunicationis (Augsburgo, 29 de outubro de 1518), A, I, 19; L, II, 3, q. XIII.
71° An imperfecta caritas necessario deferat secum post mortem timorem penalem. (Augsburgo, 14 de outubro de 1518), L, III, 3, q. XIX.
72° An omnes anime in purgatorio sint certe de sua salute (Augsburgo, 25 de setembro de 1518), A, I, 23; L, I, 3, q. XVII.
73° An in purgatorio possit esse meritum (Augsburgo, 27 de outubro de 1518), L, II, 3, q. XVII.
74° De festo quod dicitur Spasmus B. V. matris Dei (Roma, 17 de julho de 1506), A, II, 23.
75° De conceptione B. Virginis ad Leonem X, Roma, 1503; A, II, 1; L, III, 1.
76° Ad tres questiunculas scilicet de usura, de pertinacia in veniali et de publico delicto (Florença, 13 de outubro de 1509), L, III, 4, R. 9.
77° De quinque dubiis seu casibus conscientie, quorum primum est, an sit simpliciter de necessitate salutis penitente confiteri de singulis peccatis in eadem specie, etc. (Roma, 2 de maio de 1504), L, I, 4, R. 12.
— 78° Damnati sensus articulorum quinque expositio ad Leonem X (Roma, 6 de junho de 1521), L, II, 4, R. 1.
— 79° Super sex propositionibus in commendationem B. Joseph a quodam theologo assertis (s. d.), L, III, 4
— 80° Explicatio quorumdam que visa fuerant in commentariis Cajetani in Summam S. Thome vel contradictoria vel minus exposita (Roma, 9 de fevereiro de 1521), L, II, 4, R. 13.
— 81° Rursus de similibus contradictoriis apparentibus (Roma, 11 de junho de 1522), L, II, 4, R. 14.
— 82° Questio una de quibusdam obscuris (Roma, 23 de novembro de 1522), A, III, 7.
— 82° Responsiones ad quosdam articulos nomine theologorum Parisiensium editos (Roma, 30 de dezembro de 1533), A, III, 14.
IV. OBRAS EXEGÉTICAS.
— 1° Jentacula Novi Testamenti: expositio literalis sexaginta quatuor notabilium sententiarum Novi Testamenti in XII capita distincta (durante a legação da Hungria, concluído em 15 de junho de 1524), Roma, 1525; Paris, 1526; Lyon, 1529, 1539 (com a Summula), 1544, 1565, 1584; Douai, 1613.
— 2° In quinque libros Mosis juxta sensum literalem commentarii, Roma, 1531; in-fol., Paris, 1539.
— 3° In libros Jehosuae, Judicum, Ruth, Regum, Paralipomenon, Esdrae, Nechemiae et Esther (Roma, 26 de junho de 1531 29 de julho de 1532), Roma, 1533; Paris, 1546.
— 4° In librum Job (Roma, 21 de março de 1533), Roma, 1535.
— 5° In psalmos (Roma, Páscoa de 1527), Veneza, 1530; Paris, 1532.
— 6° In parabolas Salomonis, in Ecclesiasten, in Esaie tria priora capita, Roma, 1542; Lyon, 1545; Paris, 1587.
— 7° In Evangelia Matthei (Gaeta, 13 de novembro de 1527), Marci (Gaeta, 2 de dezembro de 1527), Luce (Gaeta, 25 de janeiro de 1528), Joannis (Gaeta, 16 de maio de 1528), Veneza, 1530; Paris, 1536, 1542; Lyon, 1574.
— 8° In Acta apostolorum (Gaeta, 29 de junho de 1529), Veneza, 1530; Paris (com os Evangelhos), 1536.
— 9° In Epistolas Pauli (Gaeta, 16 de agosto de 1519), Paris, 1532, 1537, 1540, 1542.
— 10° Opera omnia quotquot in sacre Scripture expositionem reperiuntur, cura atque industria insignis collegii S.Thomæ Complutensis ord. pred., 5 in-fol., 1639.
V. DISCURSOS E CARTAS.
— 1° Sex orationes Romæ habitæ (1501-1512), A, 11, 1. O sexto discurso foi editado em Roma, 1512.
— 2° Carta ao eleitor Frederico da Saxônia, Augsburgo, 25 de outubro de 1518. Lutheri opera latina, Iena, 1556, t. 1, fol. 205; Archivio storico Italiano, 3ª série, t. XXVI, p. 192.
— 3 Cartas a Leão X sobre a eleição de Carlos V, Frankfurt, 29 de junho e 7 de julho de 1519, [Ruscelli,] Lettere di principi, t. 1, Veneza, 1581, p. 60, etc.
— 4° Cartas encíclicas à ordem dos irmãos pregadores. Monumenta ord. pred. historica, Roma, t. IX (1901), p. 88, 93, 124.
III. DOUTRINAS.
Caetano foi o maior teólogo de seu tempo, e um dos primeiros entre aqueles que honraram a Igreja. Foi o conselheiro intelectual de quatro pontificados, desde Júlio II até Clemente VII, em circunstâncias excepcionalmente graves e difíceis. Deixou uma obra das mais extensas, destinada, em seu pensamento, a suprir as necessidades intelectuais da Igreja, as mais urgentes em sua época.
Caetano é um homem de transição. Educado na cultura da filosofia e da teologia da Idade Média, encontrou-se em plena revolução intelectual e religiosa, envolvido muito de perto nos acontecimentos. Compreendeu que, para fazer frente a uma situação nova, era preciso adaptar-se às exigências de seu tempo. É assim que sua carreira científica é sucessivamente dominada pelas preocupações filosóficas, teológicas e exegéticas; e que, nestes diferentes domínios, ele traz à luz tendências e opiniões que surpreenderam muitos de seus contemporâneos, menos livres de espírito ou menos a par das necessidades novas. Ele, consequentemente, encontrou, até mesmo em sua ordem, adversários decididos e algumas vezes injustos. Um estudo imparcial nos mostra que Tomás de Vio teve uma rara perspicácia ao colocar o dedo em um grande número de problemas abertos ainda hoje, e dos quais ele havia abordado a solução com uma franqueza que pode ainda algumas vezes parecer audaciosa.
Caetano é um espírito penetrante e sutil. A frequência a Scoto e sua escola, contra os quais ele lutou especialmente em filosofia e em teologia, parece ter algumas vezes influído sobre ele, na necessidade em que estava de seguir seus adversários em seu próprio terreno. Ordinariamente, ele é claro e profundo, e abarca a totalidade de um problema com um notável domínio. Em seus numerosos escritos polêmicos, onde agita as questões mais irritantes de seu tempo, ele procede com uma perfeita serenidade, tratando das coisas e das doutrinas, sem ferir as pessoas.
Embora vivendo em pleno humanismo, seu estilo não tem nada de literário e é puramente científico. Melchior Cano o depreciou um pouco ao falar da *styli quasi ingenitam obscuritatem* de Caetano. De locis theologicis, l. VI, c. IV. Mas Cano é um escritor de uma elegância extrema, pouco benevolente para com a língua da escola. Podemos, aliás, transcrever aqui o elogio temperado de críticas que este teólogo fez de Caetano: *Ego virum hunc, ut sepe alias testatus sum, semper feci maximi. Plurimum enim Ecclesiam Christi suis literis juvit. Longum est autem hominis commendare sive eruditionem sive ingenium. Illud breviter dici potest : Cajetanum summis ædificatoribus Ecclesiæ parem esse potuisse, nisi quibusdam erroribus doctrinam suam quasi cujusdam lepræ admixtione foedasset, vel et curiositatis libidine affectus, vel certe ingenii dexteritate confisus, literas demum sacras suo arbitratu exposuisset, felicissime quidem fere, sed in paucis quibusdam locis, acutius sane multo quam felicius.* Op. cit., IV, quæstio 1°.
1° Filosofia. — Em filosofia como em teologia, Caetano apega-se fielmente ao sistema de São Tomás de Aquino. Sua estada em Pádua colocou-o simultaneamente em presença de escotistas e averroístas de marca, e é contra eles, em geral, que se dirige a parte polêmica de seus escritos filosóficos. Sendo os problemas escotistas e averroístas sobretudo de ordem metafísica, Caetano sobressai nestas matérias. Seu comentário do De ente et essentia de São Tomás, uma obra de primeira juventude, é de todos os seus escritos o mais sutil e o mais abstruso. As ideias, ou melhor, a atitude pessoal de Caetano, em certos problemas filosóficos, visam sobretudo o racionalismo averroísta de seu tempo.
A universidade de Pádua, centro principal destas doutrinas, e a celebridade crescente de Pietro Pomponazzi, o principal fautor destas ideias, levaram o concílio de Latrão a tomar posição sobre estas matérias. Caetano, sempre alerta, tinha tomado a dianteira e composto, em 1512, seu comentário sobre o De anima de Aristóteles. Ao mesmo tempo em que mantém em si as ideias psicológicas de São Tomás, o comentarista é de opinião que Aristóteles professou efetivamente a doutrina que Averroes lhe atribuiu: a unidade de uma alma intelectual única para a humanidade e a mortalidade da alma individual. L. III, c. 11.
O concílio de Latrão, tendo acreditado ser necessário reagir energicamente contra os progressos do averroísmo, promulgou seu célebre decreto de 19 de dezembro de 1513 contra esta doutrina. Para melhor atingir seus fins, o decreto exigia que todos os professores públicos de filosofia justificassem em suas lições as conclusões da fé cristã. Caetano opôs seu non placet a esta parte do decreto, objetando que este ofício era o dos teólogos e não dos filósofos. Bzovius, Ann. eccles., t. IX, p. 199.
Com os anos, o pensamento pessoal de Caetano parece ter dado um passo a mais. Sem que nos tenha exposto longamente sua opinião, parece bem que o filósofo, nele, tenha concebido dúvidas verdadeiras sobre o alcance da razão humana para provar por ela só a imortalidade da alma, e talvez até mesmo a existência da providência. Estas verdades, em seu pensamento, parecem ter entrado no domínio da fé cristã. Ele escreve, com efeito, em seu comentário da Epístola aos Romanos, c. ix: Sicut nescio mysterium Trinitatis, SICUT NESCIO ANIMAM IMMORTALEM, sicut nescio Verbum caro factum est, et similia, quæ tamen omnia credo. Opera omnia in S. Scripturam, t. v, p. 58. E em seus comentários sobre São Lucas, c. XII: Spectat ad immensitatem providentiæ ejus (Dei) et videre singula quæque individua et curam illorum habere... Nec hoc est vertendum in dubium apud christianos, quamvis philosophi hoc non credant, METIENTES DEI PROVIDENTIAM EX IIS QUÆ APUD NOS COGNOSCIMUS. Op. cit., t. IV, p. 228.
Caetano encontrou um adversário decidido e até mesmo violento na pessoa de um de seus confrades, Bartolomeu Spina, de Pisa. A agressão explica-se tanto menos, à primeira vista, quanto Spina tinha sido incumbido por Caetano de supervisionar a edição de seu comentário sobre a II IIæ, impresso em Veneza, em 1517, e que ele tinha feito preceder de um elogio do cardeal dos mais lisonjeiros. Spina, na sequência da publicação do De immortalitate animæ de Pomponazzi, Bolonha, 1516, e de sua Apologia, ibid., 1517, acreditou ser necessário empreender uma refutação do célebre averroísta. Temendo sem dúvida que a posição tomada por Caetano em seu comentário do De anima não fosse considerada como uma concessão às tendências averroístas do tempo, ele empreendeu a refutação de Caetano e de Pomponazzi em três tratados publicados simultaneamente: Propugnaculum Aristotelis de immortalitate animæ contra Thomam Cajetanum; Tutela veritatis de immortalitate animæ contra Petrum Pomponatium Mantuanum, cognominatum Perrettum; Flagellum in tres libros apologiæ ejusdem Perretti de eadem materia immortalitatis animæ, in-fol., s. l., 1518. Quétif-Echard, t. II, p. 126; F. Fiorentino, Pietro Pomponazzi, Florença, 1868.
São estes os fatos que induziram ao erro Gui Patin. Renan, que o seguiu, escreve por sua vez esta enormidade: «O célebre Tomás de Vio Caetano ele mesmo ensinava segundo Averroes, e se é preciso acreditar em Gui Patin, tão a par dos boatos que corriam em Pádua, foi deste ensino que Pomponazzi tirou seu veneno.» Renan, Averroès et l'averroïsme, 3ª ed., Paris, 1867, p. 301.
2° Teologia. — Caetano é considerado com justiça como um dos primeiros teólogos da escola tomista. Leão XIII traduziu ele mesmo esse sentimento ao ordenar, por suas cartas de 15 de outubro de 1879, que se juntassem os comentários de Caetano à Suma Teológica, na edição oficial das obras de Santo Tomás publicada por suas ordens: Conjunctim vero edendas curabimus clarissimorum ejus interpretum, ut Thomæ de Vio cardinalis Cajetani et Ferrariensis, lucubrationes, per quas, tanquam per uberes rivulos, tanti viri doctrina decurrit. S. Thomæ Aquinatis opera omnia, Roma, 1882, t. I, p. xxi. Os comentários de Caetano são, portanto, considerados uma obra clássica. Os tratados de Caetano sobre o Papa e as indulgências representam igualmente uma doutrina clássica na teologia católica.
Os comentários sobre a Suma de Santo Tomás são a obra capital de Caetano em teologia. Tendo a primeira parte sido concluída em 11 de maio de 1507, e a última em 10 de março de 1522, pode-se considerá-los como tendo sido escritos em cerca de vinte anos, isto é, durante o tempo em que Caetano ocupou altos cargos administrativos em sua ordem e na Igreja. Ele parece ter sido conduzido a essa empresa pelo fato de que o texto da Suma Teológica tendia a se tornar, desde o fim do século XV, um texto escolar. Seus comentários são os primeiros que foram escritos sobre a Suma de Santo Tomás. Eles são contemporâneos dos comentários do dominicano alemão Conrado Kollin, cuja obra apenas parte foi publicada, Iª IIæ, in-fol., Colônia, 1512, prevenido sem dúvida pelo aparecimento dos comentários de Caetano. Quétif-Echard, op. cit., t. I, p. 100; N. Paulus, Die deutschen Dominikaner im Kampfe gegen Luther, p. 115.
Em seus comentários, Caetano tem particularmente em vista a defesa das doutrinas de Santo Tomás contra os ataques de Escoto. Na terceira parte, a essa preocupação vem se somar a de defender a doutrina católica contra o luteranismo. Embora Caetano seja um fiel intérprete da doutrina de Santo Tomás, ele emitiu, no entanto, um certo número de opiniões particulares que lhe são pessoais, mas que não tocam as ideias sistemáticas de sua escola. São Pio V, em uma época em que os progressos da heresia tinham tornado a autoridade eclesiástica severa, fez suprimir diversos trechos dos comentários da terceira parte na edição das obras de Santo Tomás, dada em Roma por suas ordens, em 1570. Encontra-se a indicação dos trechos outrora suprimidos na edição integral dos comentários de Caetano que acompanham a Suma Teológica da edição leonina das obras de Santo Tomás. A maior parte dos trechos suprimidos nos parecem hoje bem inofensivos. O mais conhecido é aquele (q.
lxviii) onde Caetano trata em dois artigos das crianças que morrem sem batismo. Elas podem, segundo ele, ser salvas pela fé dos pais que dão uma protestação exterior de sua fé, por exemplo, se fazem o sinal da cruz sobre a criança invocando a Santíssima Trindade. Encontrar-se-á um certo número de opiniões particulares de Caetano em seu opúsculo onde responde à crítica feita em Paris de dezesseis de suas proposições, e na obra de Ambrósio Catarino, escrita contra ele, e da qual falaremos mais adiante.
3° Exegese, — Tendo terminado seus comentários sobre a Suma, Caetano entregou-se com ardor aos trabalhos exegéticos. Desde o fim de 1528, durante sua legação na Hungria, começou a composição de seus Jentacula, ou exposição de um certo número de passagens do Novo Testamento. De retorno a Roma, trabalhou, até o fim de sua vida, na tradução e nos comentários da Sagrada Escritura. A morte o surpreendeu tendo terminado todo o Antigo Testamento até as profecias de Isaías, das quais interpretou apenas os três primeiros capítulos, e o Novo Testamento, menos o Apocalipse, ao qual renunciou, declarando-se incapaz de entender o seu sentido literal.
Tomás de Vio foi conduzido a essa empresa, para a qual parecia pouco preparado, à vista dos trabalhos dos humanistas sobre o texto das Escrituras, mas ainda mais em presença do movimento luterano, que, tendo rompido com a autoridade da Igreja e a tradição, pretendia colocar-se sobre o único terreno das Escrituras para a determinação da fé. Caetano compreendeu que os teólogos deveriam munir-se de armas adaptadas a uma necessidade nova. Para dar uma base estável à sua empresa, trabalhou com o concurso de especialistas, não podendo fazê-lo por si só, em uma tradução literal da Bíblia, a partir do hebraico e do grego. Ver o prefácio aos Salmos, e os inícios do comentário de São Mateus. Quétif-Echard, op. cit., p. 48.
O resultado dessa tradução foi melhor do que alguns quiseram dizer, pois Richard Simon, pouco suspeito de benevolência, escreve sobre Caetano: «Embora não tivesse nenhum conhecimento da língua hebraica, ele não deixa de falar dela muito melhor que vários tradutores da Bíblia, que a conheceram apenas mediocramente.» Histoire critique du Vieux Testament, l. II, c. xx, Roterdã, 1685, p. 316.
Quanto aos comentários, Caetano faz ao mesmo tempo obra de crítico e de teólogo. Como crítico, atém-se ao sentido literal, assim como declara em sua dedicatória a Clemente VII, à frente de sua edição dos Evangelhos, dedicatória suprimida na edição completa das obras exegéticas. Sob essa preocupação, não teme adotar um sentido novo a torrente doctorum sacrorum alienus, desde que seja conforme ao texto e não em oposição à Escritura e à doutrina da Igreja. Prefácio ao Pentateuco.
Melchior Cano combateu vivamente esse ponto de vista. De locis theologicis, l. VII, c. I. Pallavicini observa, com razão, que essa doutrina não é contrária aos decretos de Trento. Hist. du concile de Trente, l. VI, c. xvi. Cf. Richard Simon, Histoire critique du Vieux Testament, l. III, c. xii, p. 419-421. Mais ainda, pode-se dizer que ela é hoje o método comum entre os exegetas católicos.
Pode-se dizer ainda que São Jerônimo foi o conselheiro científico de Caetano, sobretudo para julgar a autenticidade dos livros ou de suas partes. Responsiones ad quosdam articulos nomine theologorum Parisiensium editos, n. 4, Caetano também utilizou os escólios de Erasmo sobre o Novo Testamento. Uma troca de cartas entre esses dois homens, tão diferentes de caráter, testemunha que o teólogo tinha mostrado muita benevolência ao melindroso humanista, e que este tinha sido tocado por isso. Cossio, op. cit., p. 247.
Trazendo para a interpretação crítica da Bíblia uma grande liberdade de espírito e se restringindo muito pouco às interpretações escriturísticas tornadas clássicas entre os Padres da Igreja e os teólogos medievais, Caetano deveria trazer à luz um grande número de julgamentos que pareceram ousados e até temerários a vários de seus contemporâneos. Sua crítica vai alcançar, passando por cima de três séculos e meio, a crítica atual. Não é este o lugar para enumerar um grande número de seus juízos. Recordarei, contudo, por ser mais conhecida, sua interpretação alegórica dos primeiros capítulos do Gênesis; e, a título de amostra, suas dúvidas sobre a autenticidade do último capítulo de São Marcos, sobre o valor da designação dos autores de várias Epístolas, Heb., Jac., II Pet., II e III Joa., Jud., sobre a autenticidade da passagem das três testemunhas, I Joa., v, 7, etc.
Caetano encontrou um adversário violento e injusto na pessoa de Ambrósio Catarino, um jurista que se tornou dominicano, polemista hábil e acerbo, grande propagador de novidades teológicas, mas intolerante para com as inovações dos outros. Talvez não seja ele estranho à censura dos teólogos de Paris, em 1533, à qual Caetano respondeu em 30 de dezembro de 1533. Catarino veio a Paris em 1534, se não antes, e ali publicou, no ano seguinte, suas Annotationes in excerpta quaedam de commentariis Reverendissimi cardinalis Cajetani S. Xisti dogmata. Ele reeditou, aumentando-a, esta obra em Lyon, em 1542. A faculdade de teologia de Paris censurou, em 9 de agosto de 1544, os comentários de Caetano e sua resposta aos dezesseis artigos. Quétif-Echard, t. I, p. 145.
As críticas de Catarino são uma obra de paixão que ultrapassa toda medida. Cano, que combate vivamente algumas das ideias fundamentais de Caetano, não hesitou em escrever: Catharinus eum, ut sepe alias, sine causa reprehendit. De locis theologicis, l. XII, c. xiv. Sisto de Siena declara em sua Bibliotheca sancta que Catarino busca querela com Caetano e engana-se frequentemente a si mesmo. Quétif-Echard, op. cit., p. 17. Richard Simon também tomou a defesa de Caetano contra seu crítico. Histoire critique du Vieux Testament, l. III, c. xii; Histoire critique des principaux commentateurs du Nouveau Testament, c. xxxvii. Pode-se servir com proveito da Bibliotheca sancta de Sisto de Siena para comparar as opiniões pessoais de Caetano com as dos Padres da Igreja.
Caetano também acrescentou aos seus comentários escriturísticos observações teológicas importantes. Elas são, por vezes, de uma síntese notável e podem ser lidas utilmente, mesmo após os comentários sobre a Suma. J.-B. Flavius, Oratio et carmen de vita viri maximeque Reverendi domini Thome de Vio Cajetani, cardinalis Sancti Sixti, in-fol., Roma, 1535; reedição em A. Bzovius, Annales ecclesiastici, t. IX, p.
900-909, e na cabeça das obras exegéticas de Caetano, Lyon, 1639; Eloge de Cajétan par Barthélemy Spina, na cabeça do comentário da IIa IIae, Veneza, 1518; biografia por Antoine Fonseca, no início dos comentários de Caetano sobre o Pentateuco, Paris, 1539; L. Alberti, De viris illustribus ord. pred., Bolonha, 1517; A. Ciacconius, Vitae et res gestae pontificum romanorum et cardinalium, Roma, 1675, t. III, p. 392; Ughelli, Italia sacra, Veneza, 1717, t. I, p. 543; V. M. Fontana, Monumenta dominicana, Roma, 1675; A. de Altamura, Bibliotheca dominicana, Roma, 1677; Quétif-Echard, Scriptores ord. pred., Paris, 1719, t. II, p. 44; A. Touron, Histoire des hommes illustres de l'ordre de Saint-Dominique, Paris, 1743, t. IV, p. 4-76; G. Contarini, Notizie storiche circa li pubblici professori nello studio di Padova scelti dall’ordine di San Domenico, Veneza, 1769; M. Limbourg, Kardinal Cajetan, em Zeitschrift für katholische Theologie, Innsbruck, t. IV (1880), p. 139-179; A. Cossio, Il cardinale Gaetano e la riforma, Cividale, 1902.
Autor original: P. Mandonnet
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