BULGÁRIA. — I. Antes dos búlgaros; a questão do Ilírico. II. Invasão dos búlgaros; sua conversão, 865. III. Hesitações entre Roma e Constantinopla, 866-924. IV. Vicissitudes do primeiro patriarcado búlgaro, 924-1019. V. O arcebispado greco-búlgaro de Ocrida, 1020-1393. VI. O patriarcado búlgaro de Tirnovo, 1204-1393. VII. O patriarcado greco-búlgaro de Ocrida, 1393-1767. VIII. Lista dos patriarcas de Ocrida. IX. A Igreja búlgara sob a dominação fanariota, 1767-1860. X. O conflito greco-búlgaro. Criação do exarcado, 1860-1872. XI. O período contemporâneo, 1872-1903. XII. Organização interior do exarcado. XIII. Estatísticas religiosas. XIV. A Igreja búlgara unita, 1860-1903. XV. A Igreja latina na Bulgária.
I. ANTES DOS BÚLGAROS; A QUESTÃO DO ILÍRICO. — A Igreja búlgara ocupa atualmente a parte da península balcânica que outrora se designava sob os nomes de Mésia, Trácia e Macedônia. Dividida em três troncos principais, uma vez que está compreendida ao mesmo tempo no principado da Bulgária, vassalo da Porta, na província autônoma da Rumélia oriental e nas províncias da Turquia europeia, ela acompanhou, desde sempre, as variações políticas do seu povo, ampliou ou restringiu as suas fronteiras conforme a boa ou a má sorte do Estado búlgaro, prosperou ou mesmo deixou de existir, seguindo o desenvolvimento do império búlgaro ou a perda da sua independência.
Sob o nome que lhe damos hoje, a Igreja búlgara nasceu apenas por volta do ano 865, embora remonte pelo menos até ao século V através das populações eslavas que formam a maioria da sua população e que, pelas tribos traco-ilírias, produto autóctone do solo antigo, se liga facilmente às primeiras conquistas do cristianismo. Assim, sem querer narrar as missões de São Paulo e de seus discípulos, nem entrar em considerações etnográficas por demais estranhas ao nosso tema, convém, todavia, expor em duas palavras a situação política e religiosa desta região durante os oito primeiros séculos da nossa era, a fim de bem compreender as rivalidades e as lutas de influência que se estabeleceram entre Roma e Constantinopla, a respeito da jurisdição eclesiástica, desde o berço mesmo da Igreja búlgara.
Os traco-ilírios, os mais antigos habitantes conhecidos de toda esta região, constituíam dois ramos, dos quais um, o oriental, era composto sobretudo por macedônios e trácios, e o outro, o ocidental, compreendia os ilírios e os epirotas. Após terem conquistado uma boa parte da Ásia com Alexandre, o Grande, e disputado com Pirro o império do mundo à república romana, estes povos irmãos foram definitivamente vencidos pelas armas de Roma. Desde o século II antes de J.-C., a Macedônia era uma província romana, a Mésia no ano 6 da nossa era, a Trácia no ano 46, a Dácia no ano 108. Romanizadas precocemente e convertidas quase imediatamente ao cristianismo — a última tribo trácia, os bessos, foi convertida por volta do ano 400 —, estas populações viram-se também cedo forçadas a admitir no seu território um povo que lhes era estranho pela sua língua e pelos seus costumes e que rapidamente haveria de lhes retirar a preponderância.
Desde as conquistas de Trajano na Dácia — a Transilvânia e a Moldo-Valáquia atuais —, os eslavos parecem estabelecidos nesta província. Perto do fim do século II, aproximam-se do Danúbio; mais tarde, na sequência de várias vitórias conquistadas sobre eles pelos imperadores Caro, Diocleciano e Galério, uma das suas tribos, os carpos, que deu o seu nome aos Cárpatos, é transplantada inteiramente para a margem direita do rio, na Mésia e na Trácia. É este o primeiro marco da colonização eslava na península balcânica. No início do século V, encontramos um bom número de eslavos entre os altos dignitários do império grego e, no século VI, dois eslavos de Uskub, Justino I e seu sobrinho Justiniano, sentados no trono de Bizâncio.
Mas a emigração decisiva produziu-se no fim do século V, tendo o seu ponto de partida na Transilvânia. Dois povos eslavos saíram dali: os antas, que desapareceram pouco depois, e os eslovenos, cujo nome se aplicou desde então ao conjunto da raça. No século VII, os eslavos já tinham sitiado Tessalônica quatro vezes, Constantinopla uma vez em 626; formavam quase toda a população das províncias da Cítia, Mésia, Dácia, Dardânia, Macedônia, Epiro e de uma parte da Trácia, regiões que os gregos tomaram o hábito de designar sob o nome genérico de Sclavinia. Em 688, Justiniano II transportava para a Ásia 30 000 eslavos da Macedônia e, quando a peste dizimou em 747 a Grécia e o Peloponeso, eles multiplicaram-se a tal ponto nestas duas províncias que o imperador Constantino Porfirogênito fez esta confissão assustadora para a causa do helenismo: todo o país tornou-se eslavo.
No entanto, apesar destas invasões sucessivas e apesar da sua superioridade numérica sobre os seus vizinhos trácios, gregos e valacos, os eslavos não constituíam ainda uma nação bem determinada. Esfacelados em tribos múltiplas, teriam sido rapidamente dizimados nas guerras civis, se um povo, estranho pela sua raça e pela sua pátria de origem, os búlgaros, não tivesse vindo reunir num só feixe todas estas forças dispersas e formar um só corpo político definitivo. Sobre as invasões e as colônias eslavas, ver A. Rambaud, L’empire grec au Xe siècle, Constantin Porphyrogénète, in-8°, Paris, 1870, p. 209-240; C. Jirecek, Geschichte der Bulgaren, in-8°, Praga, 1876, p. 53-216; H. Gelzer, Die Genesis der byzantinischen Themenverfassung, in-8°, Leipzig, 1899, p. 42-64.
Divididos a respeito das visadas políticas, os traco-ilírios e os eslavos não o eram menos do ponto de vista administrativo e eclesiástico. Aquando da reorganização do império feita por Diocleciano e Constantino, o Grande, encontramos na vasta região que nos ocupa dois grandes centros de governo: a diocese da Trácia, que compreendia as seis províncias da Europa, Ródope, Trácia no sentido estrito, Hemimonto, Cítia e Mésia inferior, e a prefeitura do Ilírico oriental, que compreendia ela mesma as províncias da Acaia, Tessália, Creta, Macedônia, Velha e Nova Epiro, Dácia ripense e Dácia mediterrânea, Dardânia, Prevalitânia, Mésia superior e Panônia. Destes dois grandes centros administrativos, o primeiro, a diocese da Trácia, coube ao império do Oriente, enquanto, do ponto de vista eclesiástico, obedecia ao exarca de Heracleia e, desde o concílio ecumênico de 381, ao bispo de Constantinopla. Não era assim no caso do Ilírico oriental.
Esta vasta prefeitura foi compreendida no lote do império do Ocidente até ao ano 379, quando Graciano a cedeu ao seu colega Teodósio. Esta cessão voluntária do imperador Graciano foi o ponto de partida de um grave conflito religioso que eclodiu entre Roma e Constantinopla. Enquanto a Ilíria oriental dependia do Império do Ocidente, os bizantinos não haviam considerado indevido que seus bispos aceitassem a jurisdição do patriarca ocidental, isto é, do bispo de Roma; mas, a partir do dia em que Bizâncio exerceu sobre ela a supremacia política, reivindicou também a supremacia religiosa. E como, por razões fáceis de conceber, os imperadores gregos apoiavam com toda a sua autoridade as tendências centralizadoras dos bispos de sua capital, estes entraram imediatamente em luta aberta com os papas.
Para salvaguardar os direitos ameaçados da Santa Sé, São Dâmaso ou São Sirício instituiu, por volta do ano 380, o vicariato apostólico de Tessalônica, com poder para esta metrópole de informar sobre os assuntos eclesiásticos do Ilírico e de decidir sobre eles, em lugar e no nome do papa. Este vicariato apostólico funcionou sem muita oposição até 484, quando o metropolita de Tessalônica aquiesceu ao cisma de Acácio, arrastando em sua queda a maioria de seus sufragâneos. Quando a união foi restabelecida em 519, os papas recuperaram de imediato seus antigos privilégios.
Eles ainda existiam sob Justiniano, uma vez que este imperador entrou em acordo com os papas Agapito e Vigílio para desdobrar a jurisdição superior do Ilírico e criar, em proveito de Justiniana prima ou Uskub, sua cidade natal, uma grande diocese que abrangia as províncias da Dácia Ripense e Dácia Mediterrânea, Prevalitana, Mésia Superior, Dardânia, Panônia e Macedônia Segunda, subordinadas até então a Tessalônica. Novelle XI do 14 de abril de 535 e Novelle CXXXI do 18 de março de 545.
São Gregório o Grande, 590-604, escreveu nada menos que 21 cartas relativas ao Ilírico oriental, as quais, todas, demonstram sem dúvida possível que o papa era o verdadeiro patriarca destas províncias. No decorrer do século VII, encontramos frequentemente exemplos de alta jurisdição metropolitana que os bispos de Roma exercem sobre esta região. Somente com a inauguração da querela iconoclasta, na sequência dos desentendimentos políticos e religiosos entre o papa Gregório II e o basileus Leão III, o Isauro, em 731, é que o Ilírico oriental foi anexado oficialmente à Sé de Constantinopla.
Sem dúvida, os papas protestaram com energia, cada vez que a ocasião surgiu, contra esta usurpação, mas o que poderiam fazer em meio às lutas iconoclastas, que ensanguentaram quase todo o século VIII e a primeira metade do IX? Interesses de outra monta exigiam sua intervenção no Oriente e, aliás, a que propósito tentar impô-la, uma vez que os próprios bizantinos haviam se deixado excluir de quase todas essas províncias por bárbaros pagãos, que não toleravam nenhuma imiscuição do estrangeiro? Melhor valia guardar silêncio, aguardando que a hora da providência soasse e que os ferozes descendentes de Asparukh se tornassem os humildes discípulos de Jesus Cristo. Sobre a questão do Ilírico, ver L. Duchesne, L’Illyricum ecclésiastique, na Byzantinische Zeitschrift, t. 1 (1892), p. 531-550; a resposta de Th. Mommssen, no Neues Archiv der Gesellschaft für ältere deutsche Geschichte, t. XIX (1894), p. 483-435, e a réplica de Duchesne em Les Églises séparées, in-12, Paris, 1896, p. 229-279. Ver também C. Jireček, Das christliche Element in der topographischen Nomenclatur der Balkanländer, nos Sitzungsberichte der Kais. Akademie der Wissenschaften in Wien, t. CXXXVI; tiragem à parte, in-8°, Viena, 1897.
II. INVASÃO DOS BÚLGAROS; SUA CONVERSÃO, 865. — Desde o século V e VI de nossa era, e sobretudo na primeira metade do VII, uma poderosa tribo, de origem turca, segundo uns, finlandesa, segundo outros, a tribo dos búlgaros, ocupava o país compreendido entre o Don e o Volga. À morte de seu chefe Koubrat ou Kourt, sob Constantino Pogonato, 668-685, a nação se fracionou em cinco grupos principais, comandados cada um por um dos filhos do falecido.
Duas dessas hordas permaneceram em seu país de origem com os dois mais velhos e fundaram, entre o Volga e o Kama, um vasto reino, conhecido na Idade Média sob o nome de Grande Bulgária ou Bulgária Negra. Estes búlgaros abraçaram o islamismo por volta de 922; seu império foi destruído no século XIII pelos tártaros. Duas outras tribos, comandadas pelos dois mais jovens filhos de Koubrat, estabeleceram-se, uma na Hungria, outra na Itália meridional; a quinta, enfim, sob as ordens de Asparukh, dirigiu-se para as fozes do Danúbio, ocupou a Bessarábia e, de lá, realizou incursões na Mésia e na Trácia, 669.
Por volta do fim do século VII, este último grupo de búlgaros havia arrebatado ao Império Bizantino a Dobruja moderna, na margem direita do Danúbio, e depois invadido toda a região litorânea até os Bálcãs. Para conservar a Trácia e suas possessões na Macedônia, os gregos concluíram um tratado com eles e, mediante um tributo anual bastante elevado, viveram em bons termos com seus vizinhos. Mas, como os recém-chegados eram e ainda são eminentemente práticos, tão logo o reembolso do imposto se fazia demorado, as hostilidades recomeçavam.
É assim que todo o século VIII e os vinte primeiros anos do IX foram preenchidos por lutas sangrentas, ora em proveito dos búlgaros, ora em desfavor deles, mas que terminaram pela derrota e humilhação dos bizantinos. Em 811, o basileus grego Nicéforo foi vencido e morto por Krum e seu crânio esvaziado serviu de taça real nas orgias de seu adversário; em 813, o feroz conquistador avançava até sob as muralhas de Constantinopla e lá, diante da Porta Dourada, para o grande escândalo dos devotos bizantinos, imolava aos seus deuses vítimas humanas.
Pouco a pouco, em consequência de novas vitórias sobre os gregos ou graças ao seu espírito de proselitismo, os búlgaros, cujo número era bastante restrito, atraíram a si e reuniram sob sua dominação todas as tribos eslavas, que fizeram doravante causa comum com eles. Assim, em 811, os grandes da nação eslava bebiam, na sequência de Krum, no crânio do imperador Nicéforo; assim também, desde essa época, o rei búlgaro intitula-se príncipe dos eslavos e dos búlgaros. Produziu-se, portanto, então, na península balcânica, o mesmo fenômeno que havia sido constatado na Gália nos séculos V e VI.
Os búlgaros de Krum e de seus sucessores exerceram ali o mesmo papel que os francos de Clóvis e de seus herdeiros em nosso país. Ao contato com os vencidos, superiores em número e em civilização, os vencedores perderam sua nacionalidade, seu idioma e sua religião, mas, em contrapartida, deram seu nome — e para sempre — ao amálgama etnográfico.
Os sucessores imediatos de Kroum desistiram de sua política agressiva em relação aos gregos e voltaram seus esforços, preferencialmente, para o lado dos francos e dos sérvios. Boris, que subiu ao trono por volta de 852, retomou a luta contra Bizâncio, continuando a guerrear contra os francos, os sérvios e os croatas. Já senhor da Romênia atual e da Transilvânia, pôde ainda apoderar-se, de um lado, do país que se estendia até o Ibar, e do outro, da Macedônia setentrional, incluindo Ochrida, bem como de uma porção do litoral do Mar Negro, ao sul dos Bálcãs. A unidade política da península havia se feito sob a bandeira búlgara; ela seria consagrada pela unidade religiosa.
Antes da conversão e do batismo de Boris, que se pode comparar ao batismo de Clóvis em Reims, temos poucas informações sobre a difusão do cristianismo entre os búlgaros. É provável, todavia, apesar do silêncio da história, que a vizinhança dos gregos, dos francos, dos sérvios e dos eslavos, quase todos cristãos, não tenha deixado de exercer uma influência salutar sobre o espírito grosseiro desses bárbaros. Em 777, um de seus reis, Cérig ou Télérig, fugia para Bizâncio, recebia ali o batismo e o título de patrício. Na Mésia inferior, a Dobruja moderna, primeiro refúgio dos búlgaros na margem direita do Danúbio, estes encontraram igrejas e sacerdotes, gregos ou eslavos.
As campanhas vitoriosas de Kroum foram seguidas, ordinariamente, de transplantamentos de cativos, que trouxeram ao reino uma multidão de prisioneiros cristãos, gregos, eslavos ou valáquios, bispos, sacerdotes ou simples fiéis, mas todos ardentes propagadores do Evangelho. Vainamente o rei Omortag, para conter o perigo que ameaçava o culto nacional, condenou à morte, por volta do ano 818, o bispo de Adrianópolis com três outros prelados e 374 cristãos; a religião de Cristo infiltrava-se insensivelmente, mesmo entre a dinastia de Asparuch, já que, segundo Teofilacto de Ochrida, o rei Malomir, predecessor de Boris, teria abraçado a fé de Jesus Cristo.
Entretanto, por mais gloriosas que fossem essas conquistas, provavelmente não teriam logrado atingir a nação se um príncipe valoroso não tivesse ele mesmo dado o exemplo, arrastando consigo os adoradores dos falsos deuses. Na verdade, ainda estamos pouco esclarecidos sobre as causas que determinaram um passo tão audaz e levaram o rei Boris a receber o batismo. Falou-se de uma irmã do rei búlgaro, prisioneira em Bizâncio, que, de retorno ao seu povo, teria inculcado as primeiras noções do cristianismo, mas o fato parece ter apenas o alcance de uma simples lenda. Citou-se até o nome de um monge, Metódio, pintor habilidoso, cuja pintura do juízo final teria decidido a conversão do príncipe, e viu-se nesta personagem São Metódio, o irmão de São Cirilo; mas, segundo Simeão Metafrasta, que, o primeiro, relata este episódio, isso ocorreu após o batismo de Boris, e o monge Metódio era apenas um pintor vulgar em seu ofício. É, aliás, provado hoje que os dois irmãos Cirilo e Metódio não têm participação na conversão dos búlgaros e que se deve atribuir aos seus primeiros discípulos a justa popularidade de que esses dois apóstolos dos morávios gozam na Bulgária. Goloubinski, Précis d'histoire des Eglises orthodoxes, bulgare, serbe et roumaine (em russo), in-8°, Moscou, 1871, p. 22-27, 225-249; C. Jirecek, op. cit., p. 150-160; L. Léger, Cyrille et Méthode, in-8°, Paris, 1868, p. 87-91; A. Lapôtre, Le pape Jean VIII, in-8°, Paris, 1895, p. 400-406. Ver sobretudo em Geschichte der byzantinischen Litteratur de Krumbacher, 2ª ed., p. 1001, 1002, a bibliografia concernente aos santos Cirilo e Metódio.
A conversão de Boris deve-se, sem dúvida, a motivos quase unicamente políticos: «Os eslavos da Morávia, que tocavam os limites setentrionais das possessões búlgaras, acabavam de abraçar o cristianismo, convertidos por Cirilo e Metódio; Boris, que suas conquistas haviam tornado vizinho dos francos, encontrava-se cercado de Estados cristãos. Acreditou, pois, ser útil aos seus interesses receber também o batismo. Após uma campanha vitoriosa contra o imperador Miguel III, ofereceu-lhe a paz sob condições pouco onerosas e aproveitou esta circunstância para fazer profissão da fé cristã. O imperador serviu-lhe de padrinho e o nome de Miguel foi escolhido por Boris como nome de batismo.» L. Lamouche, La Bulgarie dans le passé et dans le présent, in-12, Paris, 1892, p. 62. Ver também C. Jirecek, op. cit., p. 154, 155; A. Lapôtre, Le pape Jean VIII, p. 49; V. Lah, De Borisio seu Michaele I, em Archiv für Kirchenrecht, t. XI, p. 274-293; t. XII, p. 81-120.
Conforme os usos do tempo, o soberano constrangeu seus súditos a partilhar de suas novas crenças, mas essa brusca mudança não foi aceita por todos, sobretudo pelos boiardos, os chefes da nação. Uma violenta insurreição eclodiu para derrubar Boris do trono e substituir-lhe um pagão; foi sufocada no sangue dos principais líderes. A data deste evento capital para o futuro da península balcânica deve ser situada ao final de 864, ou melhor, nos primeiros meses de 865. Com efeito, em uma carta escrita em 864, o papa São Nicolau fala da conversão de Boris como um simples projeto, P. L., t. CXIX, col. 875; da mesma forma, Hincmar escreve em seus Annales, ed. Pertz, t. I, p. 465, na data de 864, que se espera na Alemanha o próximo batismo do rei búlgaro; finalmente, em sua famosa carta encíclica, P. G., t. CII, col. 724, Fócio declara que não se passaram exatamente dois anos entre a chegada à Bulgária dos missionários latinos, final do ano 866, e a conversão dos búlgaros operada pelos sacerdotes gregos.
III. HESITAÇÕES ENTRE ROMA E CONSTANTINOPLA, 866-924. — Logo após seu batismo, Boris pedia a Fócio, patriarca de Bizâncio, um arcebispo, bispos e o cortejo obrigatório de uma hierarquia regular, mas, fosse por ignorar a realidade da situação, ou por achar os búlgaros demasiadamente desprovidos de cultura cristã, este contentou-se em enviar ao rei missionários com uma carta muito gentil. P. G., t. CII, col. 627-696. Não era isso o que queria Boris.
Por isso, menos de dois anos depois, enviava uma embaixada solene a Roma e outra ao rei da Germânia para obter o que lhe havia recusado Constantinopla. O objetivo interessado do soberano búlgaro transparece manifestamente nesta dupla embaixada. No fundo, importava-se pouco com uma supremacia religiosa universal, de onde quer que viesse, de Constantinopla, de Roma ou da Alemanha, mas via um imperador do Oriente coroado pelo patriarca de Constantinopla, um imperador do Ocidente coroado pelo bispo de Roma, e o seu faro de bárbaro sugeria-lhe que só seria imperador quando tivesse o seu patriarca.
A habilidade com que o Papa São Nicolau soube entrar nas perspectivas de Boris tornou vãos, por aquele momento, todos os seus cálculos políticos. Uma missão partiu de Roma tendo dois bispos à sua frente, Formoso de Porto e Paulo de Populônia; chegou por volta do fim do ano 866. Estes dois bispos deviam governar a Igreja búlgara a título provisório, enquanto aguardavam que lhes dessem sucessores definitivos sob a alta jurisdição de um arcebispo, cuja investidura pelo pallium pertenceria à Santa Sé. São Nicolau resolvia então, nas suas *Responsa ad Bulgarorum consulta*, P. L., t. cxix, col. 978 sq., uma multidão de questões dogmáticas, morais e disciplinares, colocadas pelo rei búlgaro e que, à falta de outro mérito, tinham pelo menos o de serem claras, precisas, práticas; o que não se poderia dizer da metafísica bizantina.
Boris apaixonou-se por uma verdadeira afeição por Formoso, o chefe da missão; deixou-lhe livre curso para organizar a cristandade nascente e reenviar aos seus lares os missionários alemães e bizantinos que lhe desagradassem. Formoso não se fez de rogado para usar a permissão. Por toda parte, o rito latino foi substituído pelo rito grego, as igrejas desafetadas, os cristãos reconfirmados, para grande escândalo de Fócio, que denunciava o fato a toda a cristandade, em 867. Em menos de dois anos, com uma rapidez que o próprio Fócio compara à marcha do raio, Formoso tinha estabelecido a fé cristã sobre as ruínas do paganismo. P. G., t. ci, col. 724-734.
À força de ver Formoso em ação, Boris reclamou-o ao Papa como arcebispo, mas São Nicolau recusou, alegando o cânone eclesiástico que proibia a transferência de um bispo de uma sé para outra e, antes de morrer, em 13 de novembro de 867, pôs fim à missão do legado. *Vita Nicolai*, c. lxxiv, lxxv, no *Liber pontificalis*, édit. Duchesne, t. ii, p. 165; *Sententia in Formosum*, P. L., t. cxxvi, col. 676. Partindo Formoso, Boris reclamou o diácono Marino e, desta vez ainda, chocou-se contra uma recusa.
Cansado finalmente de todas estas tergiversações, enviou uma embaixada solene ao concílio ecumênico de 869, reunido em Constantinopla, a fim de que fosse decidido definitivamente se a Bulgária dependia de Roma ou de Bizâncio. Numa reunião extraconciliar, realizada na presença do imperador Basílio I, dos legados do Papa, do patriarca Inácio, dos representantes dos três patriarcas orientais e dos deputados búlgaros, os gregos decidiram, apesar da oposição dos legados romanos, que a direção eclesiástica da Bulgária seria doravante concedida ao bispo de Constantinopla. Os motivos invocados foram que a Bulgária tinha pertencido outrora ao império bizantino e que, durante a conquista, os búlgaros tinham encontrado lá padres gregos. Como os enviados do Papa objetavam com razão que a administração da Igreja não deve ser subordinada a considerações políticas e que o país dos búlgaros formava uma parte do Ilírico oriental, submetido até Leão, o Isauro, aos bispos de Roma, os três delegados orientais, de acordo com Basílio e o patriarca Inácio, replicaram que não pertencia a desertores do império grego, como o eram os romanos, exercer a menor jurisdição sobre as terras do basileus.
E, com isso, os búlgaros enganados creram que dependiam de Constantinopla; os missionários latinos, expulsos por Boris, retraíram-se para a Itália, enquanto o arcebispo José e uma dezena de bispos gregos tomavam oficialmente, em nome de Inácio, posse da Igreja búlgara, 870. *Mansi, Concil.*, t. xvi, col. 10-18; *Epistola Hadriani II ad Basilium*, P. L., t. cxxii, col. 1310; *Epistola Johannis VIII*, no *Neues Archiv*, t. v, p. 800; *Vita Basilii imperatoris*, P. G., t. cix, col. 357; J. Hergenröther, *Photius, Patriarch von Constantinopel*, Ratisbonne, 1867, t. ii, p. 149-166.
Vainamente, os papas protestaram contra este escamoteamento indigno e endereçaram ameaças a Boris, a Basílio e a Inácio! O rei búlgaro, contente com o seu arcebispo, fez ouvidos de mercador; Basílio respondeu quase com insultos; quanto a Inácio, manifestou a mesma obstinação que outrora tinha mostrado a respeito do usurpador Fócio. Finalmente, o Papa João VIII, 872-882, convocou o patriarca bizantino a vir explicar-se em Roma e, perante a sua recusa, enviou dois legados a Constantinopla com a ordem formal de excomungar e de depor Inácio, se não chamasse de volta da Bulgária o clero grego. Mas, à chegada dos legados romanos, Inácio tinha morrido, 23 de outubro de 877, e Fócio, reconciliado com Basílio, tinha-o substituído.
João VIII reconheceu-o e, no concílio de 878, Fócio prometeu entender-se com o imperador para a regulamentação definitiva da questão búlgara. A promessa foi cumprida, visto que, em 880, o Papa escrevia a Basílio: «Dou-vos numerosas ações de graças por, por amor a nós e como pedia a justiça, nos terdes permitido possuir a diocese dos búlgaros.» *Epist.*, cclxvi, P. L., t. cxxvi, col. 909. De fato, a partir deste momento, a Bulgária cessa de figurar nas listas episcopais do patriarcado bizantino. H. Gelzer, *Georgii Cyprii descriptio orbis romani*, Leipzig, 1890, p. 57 sq.
Contudo, se toda dificuldade era levantada do lado de Constantinopla, não era o mesmo do lado da Bulgária. Boris não compreendeu ou fingiu não compreender o novo acordo ocorrido entre Roma e Constantinopla e manteve o clero grego até mais ampla informação. Pela mesma época, o reino vizinho da Morávia viu terminar uma luta iniciada há cerca de vinte anos entre os alemães e os eslavos, luta que devia exercer uma influência decisiva sobre o futuro religioso da Bulgária. Sabe-se, sem dúvida, que os dois irmãos Cirilo e Metódio tinham introduzido na Morávia, com a fé em Jesus Cristo, o alfabeto eslavo e a liturgia eslavônica.
Aprovadas pelo Papa Adriano II em 867, estas inovações litúrgicas dos dois irmãos recebiam, em 873, da parte de João VIII, uma censura oficial. Metódio era pedido, sob ameaça das penas canônicas, para celebrar a missa apenas em grego ou em latim. P. L., cxxvi, col. 850; Jaffé-Ewald, *Regesta pontificum*, n. 2978.
Como o missionário bizantino não parece ter tido qualquer conta deste aviso, o Papa reiterou a sua defesa em 879, ordenando-lhe, além disso, que se dirigisse a Roma. P. L., t. cxxvi, col. 850. Métódio obedeceu e João VIII ficou tão satisfeito com as explicações dadas de viva voz que autorizou, não apenas «a pregação ou certas orações em língua eslava, mas ainda todos os ofícios, as horas, as lições, a missa, as formas mais íntimas e as mais sagradas da liturgia cristã». P. L., t. cxxvi, col. 906.
Menos de seis anos após esta carta de João VIII a Svatopluk, príncipe da Morávia, o papa Estêvão V tomava decisões diametralmente opostas, proibia a liturgia eslava e conduzia os morávios a um latinismo rigoroso. Wattenbach, *Beiträge zur Geschichte der christlichen Kirche in Mähren und Böhmen*, Viena, 1849, p. 47 sq.; Ginzel, *Geschichte der Slavenapostel Cyrill und Method*, p. 66-67.
Para o fazer, ele apoiava-se na carta de João VIII a Svatopluk, da qual citámos um fragmento e que fixa precisamente o contrário. Como explicar esta anomalia? É que o bispo alemão Wiching, o associado de Métódio, tinha, durante este intervalo, truncado e falsificado a carta de João VIII, enganando assim Estêvão V e servindo os interesses da sua pátria e da sua liturgia latina, sem negligenciar os seus próprios. Ver J. Martinov, *Saint Méthode, apôtre des Slaves*, na *Revue des questions historiques*, t. XXVIII, p. 369-397; A. Lapotre, *Le pape Jean VIII*, p. 91-170.
Svatopluk, iludido, reconheceu em 886 Wiching como o sucessor de são Métódio, morto no ano anterior, enquanto os verdadeiros discípulos do santo, sob a condução de Gorazd, Nahum, Clemente, Sabas e Angelar, deixavam a terra inospitaleira da Morávia para se refugiarem na Bulgária. O rei Boris recebeu-os ali de braços abertos. De 870 a 886, o seu reino tinha sido evangelizado por missionários gregos; o soberano búlgaro aproveitou a ocasião para confiar o seu povo, na maioria eslavo, a um clero eslavo. Ele deu o título de arcebispo da Bulgária a Gorazd, o chefe da missão, Du Cange, *Familiæ byzantine augustæ*, p. 174, e, à morte deste, foi Clemente quem herdou o título. *Vita S. Clementis*, c. xl, P. G., t. cxxvi, col. 1218.
Pouco a pouco, graças à política sábia e prudente de Boris e do seu filho Simeão, graças sobretudo ao seu espírito de proselitismo, os numerosos discípulos dos santos Cirilo e Métódio tinham propagado por toda a Bulgária a obra e as tradições dos seus mestres; tinham sobretudo aclimatado ali a liturgia eslava que, de lá, se espalharia por todos os povos eslavos. Contudo, as hesitações por parte dos búlgaros entre as sedes de Roma e de Constantinopla ainda não tinham terminado. Simeão, 893-927, continuou neste ponto a política indecisa do seu pai Boris, e se, por duas vezes, ele tomou Adrianópolis, se, por cinco vezes, ele devastou a planície da Trácia, sitiou Constantinopla e forçou mesmo o basileus Romano Lecapeno a apresentar-se como suplicante diante dele, 924, foi menos para se dar a vã complacência de humilhar os bizantinos, do que para os forçar a reconhecer-lhe, a ele, o título de tsar ou de imperador, e à sua Igreja búlgara o título de patriarcado independente.
IV. VICISSITUDES DO PRIMEIRO PATRIARCADO BÚLGARO, 924-1019. — Que Simeão tivesse, naquele momento, obtido de Roma o título de imperador para si e o de patriarca para o chefe da sua Igreja, é o que afirma o rei búlgaro Caloian numa carta endereçada ao papa Inocêncio III, em 1202, J. Assémani, *Calendaria Ecclesiæ universæ*, Roma, 1755, t. VI, p. 154-157; t. V, p. 171-174; Theiner, *Monumenta historica Slavorum meridionalium*, t. I, p. 15, 20, e o que confirmam os testemunhos dos cronistas bizantinos, unânimes em dar a Simeão, durante a campanha militar de 924, o título de basileus ou de autocrator.
Ora, seguindo as ideias políticas e teológicas então em curso em Bizâncio e na Bulgária, não podia haver verdadeiro basileus sem a bênção de um patriarca. E como sabemos pertinentemente que a corte de Constantinopla recusou até 945, A. Rambaud, *L’empire grec au xe siècle*, p. 340-343, aos soberanos búlgaros o título de basileus, Simeão, que o portava em 924, tinha de o ter recebido anteriormente do papa com a bênção patriarcal.
O seu filho, o tsar Pedro, 927-969, herdou esta coroa imperial, que lhe foi trazida em 928 por uma legação romana. Farlati, *Illyricum sacrum*, t. 10, p. 103; *Lettres de Caloian à Innocent III en 1202 et 1204*, em J. Assemani, loc. cit. Apesar do seu casamento com a neta de Romano Lecapeno e das relações cada vez mais estreitas que se estabeleceram entre a família imperial de Pereiaslavets e a de Bizâncio, o tsar Pedro permaneceu ligado à política romana até ao ano 945.
Nessa época, por motivos que permaneceram ainda misteriosos, a corte de Bizâncio reconheceu o soberano búlgaro como basileus e o arcebispo da Igreja búlgara, Damião, como patriarca. Terá este reconhecimento, que tanto significava para o coração dos búlgaros, arrastado a ruptura das relações que tinham estabelecido com Roma e a Igreja do Ocidente? Nós não pensamos assim, sobretudo se se quiser ter em conta este facto de que, desde a queda definitiva de Fócio, em 887, até à revolta de Miguel Cerulário, em 1054, sem serem sempre muito calorosas, as marcas de simpatia e os atestados de perfeita ortodoxia religiosa quase não deixaram de existir entre a Igreja de Roma e a de Constantinopla.
A idade de ouro do reino e da Igreja búlgaras, atingida sob o tsar Simeão, foi seguida de uma pronta decadência sob o seu filho, o tsar Pedro, 927-969, príncipe fraco, enfeudado à política bizantina. Munido de um tratado de paz de longa duração com os gregos, Pedro negligenciou a manutenção do seu exército, esquecendo que uma nação jovem e empreendedora como a sua precisava, para não morrer, de ser mantida sem cessar em vigília. E o que aconteceu? É que os boiardos, incapazes de repouso, fomentaram constantes revoltas e que as forças vivas do império se esgotaram em querelas intestinas.
Mais ainda, o boiardo Chichman de Tirnovo conseguiu, em 963, conquistar a sua independência e destacar, em seu proveito, toda a Bulgária ocidental, compreendida entre o Rhodope e o Adriático, para formar dela um segundo reino búlgaro. Vendo isto, os bizantinos, que até ali pagavam tributo a Pedro, recusaram doravante fazê-lo. A guerra seguiu-se, Pedro foi batido pelo basileus Nicéforo Focas e pelos russos de Sviatoslav que invadiram os seus Estados. G. Schlumberger, Un empereur byzantin au xe siècle, Nicéphore Phocas, in-8°, Paris, 1890, p. 339-343, 548-576, 735-742.
Após a sua morte, 969, os russos apoderaram-se de Pereiaslavets, a sua capital, e fizeram o seu filho, Boris II, prisioneiro, 970. Este chamou em seu auxílio o imperador grego João Tzimisces, que acorreu com efeito, retomou Pereiaslavets, libertou Boris e, traindo a sua palavra, levou-o a Constantinopla, 972, para o fazer renunciar à coroa e tornar-se patrício bizantino. Pelo fato dessas vitórias e dessa traição de Tzimiscés, a descendência de Asparouch estava, de uma vez por todas, excluída do trono e a Bulgária oriental incorporada pura e simplesmente ao império grego. G. Schlumberger, L’épopée byzantine, Paris, 1896, t. 1, p. 585-678, 751-755.
Restava a Bulgária ocidental ou ocridiana, separada da outra desde 963 pela revolta de Chichman e que havia conseguido guardar sua independência. Entre ela e o império bizantino iniciou-se um duelo até a morte, que durou quase cinquenta anos e terminou com a ruína definitiva de um desses Estados. Tornados os únicos mestres do partido nacional, durante a deposição de Boris II por Tzimiscés, os filhos de Chichman, David primeiramente, 968-977, depois Samuel, 977-1014, lutaram sem trégua contra os bizantinos.
Durante cinco campanhas sucessivas, o basileus Basílio II, alcunhado de Bulgaróctone ou matador dos búlgaros, voltou todas as forças de seu império contra os czares da Bulgária. Batido em 986, retomou em 991 as hostilidades que duraram até 995, G. Schlumberger, L’épopée byzantine à la fin du xe siècle, Paris, 1900, t. 1, p. 42-58; durante a segunda campanha, 996-999, ele obteve numerosos sucessos e apoderou-se de Durazzo, G. Schlumberger, op. cit., t. II, p. 131-150; durante a terceira, 1001-1005, ele tomou de assalto as cidades de Verria, Servia, Mogléna, Scopia e outras praças da alta e da baixa Macedônia, bem como da Albânia, G. Schlumberger, op. cit., t. 1, p. 214-232; durante a quarta, 1006-1015, quase toda a Bulgária foi conquistada e o terrível adversário de Basílio II, o czar Samuel, expirou de dor, 24 de outubro de 1014, à vista de 15.000 prisioneiros búlgaros que o basileus vencedor lhe devolvia, após ter-lhes vazado os olhos, G. Schlumberger, op. cit., t. I, p. 333-366; enfim, a quinta campanha terminou com a morte violenta do czar Gabriel Radomir, filho de Samuel, 1015-1016, depois de João Vladislav, seu sobrinho, 1016-1018, e com a anexação de toda a Bulgária ao império bizantino. G. Schlumberger, op. cit., t. I, p. 375-397.
No meio dessas rivalidades e dessas lutas de extermínio, que acontecia com o patriarcado búlgaro? Ele mudava de sede, tão frequentemente quanto os czares mudavam de residência, fixava-se primeiramente em Pereiaslavets, a primeira capital búlgara reencontrada outrora perto de Choumla, Découverte archéologique de M. Ouspenskij, dans les Échos d'Orient, t. II (1900), p. 209-211, depois em Dorostolon ou Dristra, a Silistria moderna, depois em Sraditza ou Sofia, depois em Viddin, depois em Mogléna, depois em Prespa, e enfim em Ocrida.
Detemos essas informações de uma Notitia episcopatuum, publicada por Du Cange, Familiæ augustæ byzantinæ, citada por Le Quien, Oriens christianus, sty II, col. 289-299, e reeditada por H. Gelzer, Der Patriarchat von Achrida. Geschichte und Urkunden, Leipzig, 1902, p. 6, 7, e sobretudo de uma Novela de Basílio II, o Bulgaróctone, aquele mesmo que pôs fim a esse patriarcado. Novela de março de 1020, publicada por H. Gelzer, Ungedruckte und wenig bekannte Bistümerverzeichnisse der orientalischen Kirche, dans Byzantinische Zeitschrift, t. II (1893), p. 44, 45.
Vê-se, portanto, quão errônea é a opinião daqueles que fixam a sede do primeiro patriarcado búlgaro seja em Preslav ou Pereiaslavets, seja em Ocrida. Pereiaslavets e Ocrida não são senão a primeira e a última estadia desse patriarcado nômade, ambulante, que conta até sete sedes diferentes, e ainda esquecendo que São Gorazd dirigiu a Igreja búlgara, sem ter sede fixa, e São Clemente como bispo de Vélitza.
Os nomes dos titulares desse patriarcado não são todos igualmente conhecidos e, sobretudo, igualmente seguros. O primeiro é José, enviado por Santo Inácio em 870, e cujo nome é certificado por um documento búlgaro contemporâneo, Goloubinski, Précis d'histoire des Églises orthodoxes, p. 34, 256; depois dele vêm Jorge, que figura em uma carta do papa João VIII a Boris, datada de 16 de abril de 878, P. L., t. CXXVI, col. 276; Jaffé-Wattenbach, Regesta pontificum, n. 2357, e Agatão, que assiste ao concílio fociano de 878. Goloubinski, op. cit., p. 35 sq. Contudo, Jorge e Agatão não portam senão o título de bispo, e nada nos assegura que José estivesse já morto naquele momento.
Encontramos em seguida Leôncio, Demétrio, Sérgio, Gregório, cujos nomes figuram em um Sinodicon búlgaro e que são colocados nessa época, mas de maneira dubitativa, por Goloubinski, op. cit., p. 86. Não esqueçamos São Gorazd e São Clemente, morto em 914, que, ambos, exerceram o poder de arcebispo da Bulgária, sem portar o título.
Enfim, abordamos um terreno mais sólido com Damião, que foi reconhecido como patriarca por Roma primeiramente, depois por Constantinopla. Expulso de Dorostolon ou Dristra, sede de seu patriarcado, e deposto por João Tzimiscés em 972, por ocasião da tomada dessa cidade e da conquista da Bulgária oriental, Damião refugiou-se junto a David, czar da Bulgária ocridiana, e foi acolhido como o chefe verdadeiro da Igreja búlgara. Seus sucessores foram Germano ou Gabriel, que residiu em Viddin e em Prespa, Filipe, que, o primeiro, fixou-se em Ocrida, David, que teve de assistir à ruína de sua pátria, e João, que, após a supressão do reino búlgaro ocidental, foi confirmado em seu cargo por Basílio II o Bulgaróctone, mas com o título de arcebispo da Bulgária. Du Cange, loc. cit.; G. Schlumberger, L’épopée byzantine, t. II, p.
418-432; Zachariä von Lingenthal, Beiträge zur Geschichte der bulgarischen Kirche, dans les Mémoires de l’Académie impériale des sciences de Saint-Pétersbourg, t. VIII (1864), p. 9-11, 14-16.
Quanto à extensão da jurisdição desses patriarcas e ao número das sedes episcopais que lhes estavam submetidas, nós as conhecemos suficientemente, desde que se encontrou, em um crisobulo de Miguel VIII Paleólogo, datado de 1272, três Novelas outrora enviadas a João de Ocrida por Basílio II, tendo em vista reorganizar a Igreja búlgara e assinar-lhe limites bem precisos. Um fragmento desse crisobulo foi primeiramente editado por Rhallis e Potlis, Σύνταγμα τῶν κανόνων, t. V, p. 266 sq., e reproduzido por Zachariä von Lingenthal em seu Jus græco-romanum, t. III, p. 381-397. Porfírio Ouspenskij reencontrou em um manuscrito do Sinai o texto completo, que foi editado, segundo sua cópia, por E. Goloubinski, Précis d'histoire des Églises orthodoxes, p. 259-263, e reeditado de maneira verdadeiramente crítica por H. Gelzer, Ungedruckte und wenig bekannte Bistümerverzeichnisse..., dans la Byzantinische Zeitschrift, t. II (1893), p. 42-46.
Vê-se ali, desde logo, que, embora mantendo-o em sua sede de Ocrida, Basílio II concedia a João a mesma jurisdição que ele havia possuído, assim como seus predecessores, sob o czar Samuel, 977-1014. Em consequência deste primeiro regulamento, o arcebispado de Ocrida contava dezasseis bispados sufragâneos: Castoria, Glavinitza, Mogléna, Bitolia ou Pelagónia, Stroumnitza, Morozvisd, Vélévouzda ou Kustendil, Triaditza ou Sófia, Nich, Vranitza, Belgrado, Thromos, Escópia ou Uskub, Prizdriana ou Prizrend, Lipainion ou Lipljan, enfim, Servia. H. Gelzer, op. cit., p. 42, 43, 48-55.
O metropolita de Tessalónica, que tinha a Servia na sua província, não deve ter aceitado de bom grado abdicar dos seus direitos, visto que veremos logo mais Basílio II renovar as suas ordens a este respeito na sua terceira Novela. Como João de Ocrida não considerou esta jurisdição suficiente e reclamou para o seu arcebispado os limites que o patriarcado búlgaro tinha tido sob o tsar Pedro, 927-969, Basílio II julgou dever satisfazer as suas exigências e, por uma segunda Novela, de março de 1020, decretou que «o santíssimo arcebispado da Bulgária seria constituído doravante, como nos dias do tsar Pedro, com todos os bispados sufragâneos que contava nessa época». Em consequência, aos dezasseis bispados concedidos, adjungiu doze outros, os de Dristra ou Silistria, Viddin, Rhasos ou Rosa perto de Novi-Bazar, Uraia, Tzernik, La Chimére, Adrianopolis ou Driynopolis, talvez Vella, Bothrotos, Janina, Cozila e Pétra, com a jurisdição sobre os Valaques da Bulgária e os Turcos do Vardar. H. Gelzer, op. cit., p. 44-46, 55-56.
Enfim, a terceira ordenação de Basílio II concedia ao arcebispado de Ocrida o bispado de Servia, já dado, e os de Stagoi e de Verria. H. Gelzer, op. cit., p. 46. Esta série de peças extremamente interessantes oferece-nos, pois, o quadro mais completo que conhecemos do primeiro patriarcado búlgaro. Aquando da sua reconstituição por Basílio II, por volta de 1020, contava trinta bispados submetidos à sé de Ocrida; contava vinte e oito sob o tsar Pedro, 927-969, dezasseis sob o tsar Samuel, 977-1014, e já sabemos pela Vita S. Clementis, n. 23, P. G., t. Cxxvi, col. 1229, que sob o tsar Boris, 864-888, tinha apenas sete. C. Jirecek, Geschichte der Bulgaren, p. 150-200; Th. Ouspenskij, Un discours ecclésiastique inédit sur les rapports bulgaro-byzantins dans la premiere moitié du x siécle, em YrAnnuaire d’Odessa, t. tv b (1894), p. 48-123 (em russo); J. Markovich, Gli Slavi ed i papi, in-8°, Zagreb, 1897, t. 1, p. 502-533; V. Grigorovich, Rapports de VEglise de Constantinople avec les peuples voisins du Nord, surtout avec les Bulgares, au commencement du x° siecle (em russo), nos Zapinski d’Odessa, 1866; D. Cuchlev, La vie religieuse et littéraire du peuple bulgare a Vépoque du tsar Syméon (em búlgaro), no Sbornik bulgarsk, t. xit (4895), p. 561-614; S. Drinoy, Les Slaves du Sud et Byzance au x sitcle (em russo), Moscovo, 1872.
V. O ARCEBISPADO GRECO-BÚLGARO DE OCRIDA, 1020-1393.
Criado por motivos políticos à custa do patriarcado búlgaro e das metrópoles gregas vizinhas, o arcebispado greco-búlgaro de Ocrida não podia conservar por muito tempo o seu antigo pessoal e a sua vasta jurisdição. Antes mesmo da morte de Basílio II, 1025, o arcebispo búlgaro João era substituído por um grego, Leão, cartofilax da Grande Igreja, Mai, Spicilegium romanuni, t. X, p. 28, o próprio que deveria, em 1053, lançar, de conivência com Miguel Cerulário, a famosa carta contra os ázimos e provocar assim o cisma de 1054.
Leão morreu em 1056. Os seus sucessores, Teódulo, 1056-1065, João, por volta de 1068, outro João, por volta de 1075, Teofilato, o célebre comentador da Bíblia, de 1078 após 1092, Leão, Miguel Máximo, Eustácio, por volta de 1134, João Comneno, sobrinho do imperador Aleixo I, Constantino, deposto em 1166, etc., eram todos gregos e partidários da mesma política religiosa. Esta reduzia-se, em suma, a dois pontos principais: eliminação progressiva do elemento búlgaro em proveito do elemento grego, manutenção dos antigos privilégios da metrópole de Ocrida contra as pretensões dos patriarcas de Constantinopla. Sobre estes dois pontos, que pareceriam à primeira vista excluir-se mutuamente, a história não registou senão levíssimas falhas. Para se convencer disso, basta consultar a vasta correspondência de Teofilato e de Demétrio Comateno, os dois eminentes campeões da causa do helenismo na Bulgária.
Todas as cartas de Teofilato estão cheias de injúrias a respeito das suas ovelhas eslavas. «Cheira a mofo, diz ele, como os Búlgaros cheiram a carneiro.» Noutro lugar, exclama: «Cada ocridense é um ser sem cabeça, que não sabe honrar nem Deus, nem homem. É com monstros semelhantes que sou obrigado a estar em relações. Com forças criadoras quaisquer, é preciso renunciar à esperança de aplicar uma cabeça a estes troncos; Júpiter com a sua omnipotência não teria êxito.» Depois, compara-se à águia de Zeus assaltada por rãs coachantes e qualifica a natureza búlgara de «mãe de toda a maldade». P. G., t. cxxvi, col. 304, 308, 309, 444; ver outras citações tão pouco amáveis no artigo de H. Gelzer, Byzantinische Zeitschrift, t. 11 (1893), p. 57, 58.
Pois bem, este arcebispo grego, que maldiz a este ponto os seus fiéis e se considera na cátedra búlgara como exilado e sacrificado à causa superior do helenismo, defende as prerrogativas da sua sé com uma aspereza que não desautorizaria um filho da Bulgária. À menor imiscuição dos patriarcas bizantinos nos assuntos da sua diocese, ele grita a quem quiser ouvir que a sua Igreja não tem nada a ver com eles, porque é autónoma e independente. Não é a ele, certamente, que se poderia censurar por ter aviltado aos pés do patriarca a grandeza e a dignidade da sua Igreja, sob pretexto de que era um antigo clérigo de Santa Sofia.
E Demétrio Comateno não age de outro modo que Teofilato nas circunstâncias particularmente delicadas que atravessou o arcebispado de Ocrida no começo do século XIII. Repreende vivamente Sabas, o Jovem, por ter cometido caça furtiva espiritual, roubando-lhe as sedes episcopais de Rhasos e de Prizrend, que entraram no patriarcado sérvio, Pitra, Analecta sacra et classica, Paris, 1891, t. VII, p. 261, 325, 384, 390, 438, e mostra-se não menos intransigente para com os Búlgaros, que submeteram vários dos seus bispos ao seu patriarca de Tirnovo.
E, no entanto, embora mantenha alta e firme a bandeira do helenismo face aos agires eslavos, Comateno não cede um centímetro da sua jurisdição ao patriarca ecuménico. Pelo contrário, não hesita em aproveitar os embaraços que acabam de ser criados a este último pela tomada de Constantinopla pelos Latinos, 1204, e pela fuga do basileus para Niceia, para exibir a seu respeito uma atitude cada vez mais arrogante.
Quando o patriarca Germano queixa-se a ele por ter coroado imperador de Tessalônica, Teodoro Ducas Ângelo, em 1222, e pensado em desmembrar o patriarcado de Constantinopla, em vez de desmenti-lo, Chomatianos reivindica a responsabilidade de sua conduta, afirmando que, desde a tomada de Constantinopla, o centro histórico do patriarcado bizantino foi deslocado e que Germano, domiciliado em Niceia, poderia contentar-se com as províncias asiáticas, enquanto ele, Demétrio, administraria as províncias europeias. Dito isto, ele passa, por sua vez, às recriminações e pergunta, em tom elevado, por que motivo o patriarca reconheceu a Igreja sérvia de Ipek e a Igreja búlgara de Tirnovo, que se constituíram às custas de Ocrida.
Sem dúvida, ao agir dessa forma, Chomatianos era apenas o porta-voz do imperador grego de Tessalônica, Teodoro Ducas Ângelo, que desejava ver reduzidos o máximo possível os direitos do patriarca grego de Niceia e, por conseguinte, os de seu rival, o imperador grego de Niceia, mas uma segunda razão, de ordem puramente eclesiástica, parece igualmente ter inspirado sua conduta. Os privilégios do arcebispado de Ocrida tinham, então, se tornado tão sagrados quanto os de Bizâncio, por força de uma falsa noção histórica, da qual encontramos o primeiro vestígio no século XII e que prevaleceu até o século XIX. Com efeito, de boa ou má-fé, chegou-se então a imaginar que Ocrida estava construída sobre o local de Justiniana prima e que ela havia, consequentemente, herdado a jurisdição quase patriarcal concedida a esta cidade por Justiniano e o papa Vigílio em 545, enquanto é provado hoje em dia que Ocrida corresponde à antiga Licnide e Escópia a Justiniana prima. Esta falsa identificação, aceita mesmo no entorno dos patriarcas de Constantinopla, é certamente o motivo que contribuiu mais para garantir os direitos perfeitamente discutíveis de Ocrida e para lhe assegurar a existência até o século XVIII. Sobre Demétrio Chomatianos, ver o trabalho de Drinof no Vyzantiskij Vremennik, 1894, t. 1, p. 319-340; 1895, t. 2, p. 1-28.
Os planos grandiosos de Demétrio Chomatianos talvez teriam se realizado se as vitórias do rei búlgaro, João Asen, em 1230, não tivessem aniquilado a potência de seu mestre, Ducas Ângelo, e, ao mesmo tempo, arruinado as esperanças do arcebispado de Ocrida. Goloubinski, Précis d’histoire..., p. 129, assegura que os dois sucessores de Chomatianos, Joannice e Sérgio, foram búlgaros porque Ocrida estava, nesse momento, recaído sob o poder da Bulgária. Se o fato não sofresse discussão, seria o caso de repetir que a rocha tarpeia está bem perto do Capitólio.
De qualquer forma, se a cidade de Ocrida foi um instante ocupada pelos búlgaros, ela foi logo retomada pelos gregos, que restabeleceram um alto clero de sua nacionalidade, como anteriormente. Parece até que os bizantinos se esforçaram para não nomear para este posto senão homens dotados de uma cultura intelectual pouco comum. Foi assim que Adriano, por volta de 1270, Gennadios, antes de 1289, Gregório, por volta de 1316, Anthime, por volta de 1330, e Mathieu, por volta de 1408, fizeram-se notar por sua atividade intelectual e científica, sacrificando, evidentemente, de tempos em tempos, à sua antipatia de raça contra os latinos. Talvez houvesse razão para se perguntar se estes pastores, polidos de retórica e capazes de dar lições aos piores escolásticos por sua sofística, estavam realmente em seu lugar em uma diocese quase bárbara, no meio de selvagens, "que, de acordo com eles, cheiravam a alho e a carneiro;" não se poderia negar, todavia, que eles mesmos pertencessem à elite intelectual de Constantinopla e que o helenismo tivesse adquirido, no século XIV, a preponderância sobre a sé de Ocrida. Enquanto Ipek representava o elemento sérvio, Tirnovo o elemento búlgaro, Ocrida permanecia, do ponto de vista eclesiástico, a melhor fortaleza da Igreja grega na península balcânica. Ver a sucessão cronológica dos arcebispos de Ocrida, desde as origens do arcebispado búlgaro até o século XV em Goloubinski, Précis d’histoire..., p. 40-45, 106-133; Le Quien, Oriens christianus, t. 1, col. 292-298, e sobretudo H. Gelzer, Der Patriarchat von Achrida, p. 8, 9, 14-15.
Foi em maio de 1157, em um concílio de Constantinopla, que o príncipe João Comneno, arcebispo da Bulgária, assina identificando pela primeira vez Ocrida com Justiniana prima. H. Gelzer, op. cit., p. 8, 9. A este testemunho emanado de um concílio pode-se acrescentar o de um historiador contemporâneo, que Gelzer não conheceu. Em 1168, Guilherme de Tiro ia encontrar o imperador grego Manuel, in provincia Pelagonia..., juxta illam antiquam et domini felicissimi et invictissimi et prudentis Augusti patriam, domini Justiniani civitatem, videlicet Justinianam primam, que vulgo hodie dicitur Acreda, XX, 4.
Se o arcebispo grego de Ocrida conservava, em direito, a plenitude da jurisdição que tinha possuído o último patriarca búlgaro, ele perdeu, no entanto, de fato, bom número de sedes episcopais que lhe tinham outorgado Basílio II, e que, à morte desse imperador, 1025, retornaram às suas antigas metrópoles: Tessalônica, Naupacto, Larissa e Dirráquio. Duas listas episcopais, publicadas por H. Gelzer, Byzantinische Zeitschrift, t. 1 (1892), p. 256, 257, e das quais uma remonta ao XI e a outra ao XII século, nos conservaram a situação oficial desse arcebispado na mesma época.
De acordo com esses dois catálogos, quase idênticos de fundo e de forma, Ocrida contava então os vinte e três bispados seguintes: Castoria, Escópia, Velevouzdos, Triaditza ou Sófia, Malesova ou Morovizdion, Edessa ou Moglena, Pelagônia, Prizrend, Stroumnitza ou Tibérioupolis, Nich, Glavinitza ou Cefalônia, Vranitzova ou Moravos, Belgrado, Lipljan, Striamos ou Zemlin, Viddin, Rhasos, Dévol, Sthlanitza transferido em seguida para Vodéna, Grévéna, Kanina, Dibra e o bispado dos Valaques. Desses vinte e três bispados, os quinze primeiros figuravam na primeira Novela de Basílio II, outros dois, Viddin e Rhasos, na segunda; quanto aos seis últimos, eles tinham sido criados pelo desmembramento de antigas sedes episcopais.
Ao comparar essas duas listas episcopais publicadas por H. Gelzer com as três Novelas de Basílio II, constata-se que o arcebispado greco-búlgaro de Ocrida tinha perdido, pouco após sua criação, o bispado de Servia, concedido na primeira Novela de Basílio II, os dez bispados de Dristra, Oraia, Tzernic, La Chimére, Driynopolis, Vélés, Bothrotos, Janina, Cozila e Pétra concedidos na segunda, e os dois bispados de Stagoi e Verria, concedidos na terceira; ou seja, em definitivo, uma perda de treze bispados, que tinham possuído os patriarcas búlgaros, sob os czares Pedro e Simeão, e que tinham retornado ao patriarcado de Constantinopla. H. Gelzer no Byzantinische Zeitschrift, t. II (1893), p. 42-61, e Der Patriarchat von Achrida, p. 9, 11.
A essas usurpações causadas pelos homogêneos sucederam, na primeira metade do século X, as usurpações dos alógenos: sérvios e búlgaros. Desde 1204, Veles, Escópia, Vidin, Prizren e Niš faziam parte do patriarcado búlgaro de Tirnovo e, sob o reinado de João Asen II, 1218-1241, as fronteiras entre Ocrida e Tirnovo eram tão mal definidas que todo o arcebispado grego de Ocrida foi um instante englobado no patriarcado búlgaro nacional. Por sua vez, os sérvios cortavam, o melhor que podiam, o território de Ocrida para ampliar seu patriarcado de Ipek. Em 1220, Rhasos e Prizren foram anexados. Isso não foi, durante uns cinquenta anos, senão um incessante entrecruzamento de bispos gregos, búlgaros e sérvios, que se desalojavam da mesma sede, conforme a cidade estivesse sob o poder dos imperadores de uma ou de outra destas nações.
Vê-se, pois, com que prudência deve-se receber os dados das estatísticas oficiais bizantinas, que, com demasiada frequência, estabelecem o balanço da hora presente com base no passado. Uma nota episcopal, que seu recente editor, I. Gelzer, Der Patriarchat von Achrida, p. 19-21, acredita ser posterior ao ano 1370, fornece sobre isso uma confissão muito significativa, ao nos dar a situação real deste arcebispado após as conquistas espirituais dos sérvios e dos búlgaros. Esta nota atribui a Ocrida dezessete bispados sufragâneos: Castória, Molischos, Moglena, Vodena ou Slanitza, Stroumnitza, Veles, Pelagônia ou Bitolia, Kitzava, Dibra, Ispateia e Mouzaneia, Belgrado, Kanina e Avion, Selasphoros e Corytza, Gkora e Mocra, Prespa, Sisanion, Grevena.
É preciso notar bem que nesta nota episcopal não restou do antigo arcebispado de Ocrida, tal como o conhecemos pelas Novelas de Basílio II em 1020, senão as quatro velhas eparquias de Castória, Moglena, Pelagônia e Stroumnitza. Cinco outros bispados, Devol ou Selasphoros, Slanitza, Grevena, Kanina e Debar, tinham sido criados no curso do século XI pelo desmembramento das antigas eparquias; seis outros, Kitzava, Prespa, Gkora e Mocra, Sisanion, Molischos e Veles, foram obtidos mais tarde pelo mesmo procedimento; finalmente, contavam-se duas novas aquisições, Belgrado ou Berat da Albânia e Ispateia. Em suma, dos trinta bispados que outrora dele dependiam, o arcebispado greco-búlgaro de Ocrida conservara apenas quatro. Para enganar o público, dividiam-se esses quatro dioceses em quantidades infinitesimais, de maneira a apresentar sempre, ao redor do arcebispo, um cortejo respeitável de prelados, como se a Igreja da França, reduzida a dois ou três departamentos, transformasse em sedes episcopais oitenta a oitenta e cinco sedes de cantão.
Ao prestar contas da obra de Gelzer, Der Patriarchat von Achrida, o célebre eslavista C. Jireček, Byzantinische Zeitschrift, t. XI (1904), p. 192-202, traçou, com os documentos eslavos, um quadro das conquistas eclesiásticas sérvias nos séculos XIII e XIV, que completa os dados históricos que possuíamos. Os sérvios arrebataram Uskub dos bizantinos em 1282 e estenderam, em seguida, progressivamente seu domínio para o Sul, e sobretudo para o Sudeste. Os bispos do território anexado foram submetidos à jurisdição do arcebispado autocéfalo sérvio. Quando Estêvão Duchan conquistou quase toda a Macedônia, à exceção de Tessalônica, fez-se coroar em Uskub como "tsar dos sérvios e dos gregos" e, em 1346, nomeou o arcebispo sérvio Joannice "patriarca dos sérvios e dos gregos". Então, a Igreja de Ocrida teve de entender-se com os novos mestres do solo e emprestar seu concurso, se não seu apoio, às numerosas mutações episcopais que se seguiram. Em 1347, o arcebispo de Ocrida, Nicolau, sentava-se em Uskub entre os membros do parlamento sérvio. Desta época data, sobretudo, o enfraquecimento de Ocrida, que não pôde desde então recuperar inteiramente os territórios que havia perdido; suas perdas seriam até mesmo talvez mais sensíveis do que indica o documento analisado acima, que, segundo Jireček, não remontaria ao século XIV, mas seria posterior ao ano 1557.
VI. O PATRIARCADO BÚLGARO DE TIRNOVO, 1204-1393. — Embora búlgaro por suas origens e pela quase unanimidade de seus habitantes, a Igreja de Ocrida, submetida ao império bizantino, não podia satisfazer os patriotas que sonhavam sempre com um Estado independente e uma Igreja nacional.
Após a supressão do primeiro império búlgaro por Basílio II, em 1019, vãs tentativas de libertação ocorreram, em 1040 e 1073 nomeadamente, e durante todo o curso do século XII. Finalmente, dois irmãos de origem romena, João Asen e Pedro, conseguiram sacudir o jugo bizantino por volta de 1185 e reconstituir o antigo reino de Bóris e de Simeão, 1186-1197. Seu irmão mais novo, Joanitsa ou Caloian, continuou sua política de expansão e, como, apesar de traços indiscutíveis de crueldade, possuía um gênio verdadeiro, seu reinado, 1197-1207, foi marcado por uma recrudescência de conquistas e de anexações.
O clero não permanecera estranho a esse levante contra os gregos. Desde 1186, o titular grego de Tirnovo via-se forçado a ceder sua sede arquiepiscopal ao búlgaro Basílio, que se tornava assim o chefe da Igreja nacional; o mesmo ocorria com os outros bispados, que passavam todos aos filhos da terra. De acordo com seu clero, os príncipes que acabavam de libertar o território preocuparam-se, desde o primeiro dia, em assegurar a independência da Igreja, buscando fora aliados contra os bizantinos. Para atingir esse objetivo, precisavam ao mesmo tempo escapar da influência dos patriarcas de Constantinopla e daquela dos arcebispos gregos de Ocrida. Desde então, sua política religiosa estava traçada. Deveriam reatar com Roma as relações de boa amizade que existiam nos tempos de Pedro e de Samuel e, ao preço de uma sujeição bastante platônica, obter um patriarca sediado na capital de seu reino, o qual lhes conferiria, em seguida, a unção imperial.
Foi na conquista desses títulos que se empregou toda a sua diplomacia. Desde sua ascensão ao trono, João Asen e Pedro pensaram em enviar ao papa uma embaixada solene; foram impedidos por suas lutas em favor da independência. Theiner, *Vetera monumenta Slavorum meridionalium*, t. I, p. 15; E. de Hurmuzaki, *Documente privitore la Istoria Românilor*, in-4°, Bucareste, 1887, t. I, p. 2. Em 1204, Basílio, arcebispo de Tirnovo, escrevia a Inocêncio III que suspirava por sua união com a Igreja romana desde dezoito anos, o que nos remete ao ano 1186.
Por três vezes, em 1197, Caloian tentara, mas sem sucesso, negociar com o papa, quando, em dezembro de 1199, Inocêncio III, posto a par de todas essas démarches, enviou Domingos de Brindisi, arquipreste grego-uniato, com a missão de sondar o príncipe e seus súditos sobre seus sentimentos em relação a Roma e elaborar um relatório fundamentado. Theiner, op. cit., t. 1, p. 41; Hurmuzaki, op. cit., t. 1, p. 1.
A permanência do mensageiro pontifício parece ter se prolongado até 1202. Naquele ano, Caloian enviou-o de volta a Roma com um delegado búlgaro, Blaise, arcebispo eleito de Branichevo, que levava ao papa uma carta do príncipe, cheia de deferência pela pessoa do sucessor de Pedro. Em meio a atestados deveras políticos de fidelidade e submissão à Santa Sé, o rei pedia à Igreja Romana, sua mãe, a coroa imperial e o reconhecimento de sua dignidade, como haviam obtido dela os antigos czares búlgaros, Pedro, Samuel e seus predecessores. Theiner, op. cit., t. 1, p. 15, 16; Hurmuzaki, op. cit., t. 1, p. 2, 3.
Uma carta do arcebispo Basílio pedia a Inocêncio III que desse satisfação aos desejos de seu senhor, ao mesmo tempo que enunciava uma profissão de fé muito católica. Theiner, op. cit., t. 1, p. 17; Hurmuzaki, op. cit., t. 1, p. 5; ver também a carta do boiardo búlgaro Bellota e a resposta do papa, Theiner, op. cit., t. I, p. 18; Hurmuzaki, op. cit., t. 1, p. 7, 8.
As respostas do papa, prudentes e avisadas, são datadas de 27 de novembro de 1202 e foram levadas à Bulgária por um segundo delegado pontifício, João de Casemarino. Este último estava encarregado, além disso, de revestir Basílio de Tirnovo com o pálio arquiepiscopal. Theiner, op. cit., t. 1, p. 16, 17, 21; Hurmuzaki, op. cit., t. 1, p. 3, 6, 11-13.
Nesse ínterim, os gregos de Ragusa tiveram notícia das negociações iniciadas entre Roma e a Bulgária e ofereceram a Caloian o título de czar com a coroa imperial para ele, a dignidade de patriarca para o chefe de sua Igreja, com a condição de manter seu reino na ortodoxia. É, pelo menos, o que conta o príncipe em sua carta ao papa, 1203, a menos que se deva ver nisso uma pura tentativa de chantagem exercida sobre a corte pontifícia: «Rejeitei esta oferta — acrescenta Caloian — porque quero ser o servo de São Pedro e de Vossa Santidade. Enviei a Ela meu arcebispo Basílio com presentes..., e vos peço que envieis cardeais que me coroem imperador e estabeleçam um patriarcado em minhas terras.» Theiner, op. cit., t. 1, p. 20; Hurmuzaki, op. cit., t. 1, p. 10-11.
Basílio partiu, com efeito, para Roma, em 4 de julho de 203. Trinta dias depois, ele estava em Durazzo, onde os gregos o retiveram prisioneiro, ameaçando, se necessário, lançá-lo ao mar, caso não renunciasse à sua missão. Essas ameaças e a notícia de que o legado do papa já se encontrava na Bulgária determinaram Basílio a retornar; ele recebeu o pálio de João de Casemarino, em 8 de setembro de 1203, após ter jurado fidelidade e obediência à Sé Apostólica. Theiner, op. cit., t. 1, p. 20, 28; Hurmuzaki, op. cit., t. 1, p. 14, 27, 28.
Constrangido assim a adiar sua viagem, Basílio informou o papa por mensageiros. Por seu lado, na partida do legado para a Itália, Caloian, que esperava ainda o cetro e a unção imperial, fez levar a Inocêncio III uma carta privada, na qual expressava todos os seus desejos e que era acompanhada de uma declaração oficial, escrita de sua mão e selada com a bula de ouro. Theiner, op. cit., t. 1, p. 27, 29; Hurmuzaki, op. cit., t. 1, p. 26, 29.
João de Casemarino havia se encarregado ainda de uma carta de Basílio para o papa e de uma declaração de obediência e submissão à Santa Sé, feita pelos metropolitanos de Preslav e de Velevouzdos, pelos bispos de Uskub, Prizrend, Nich e Viddin. Theiner, op. cit., t. 1, p. 28, 29; Hurmuzaki, op. cit., t. 1, p. 27-29.
Inocêncio III acolheu favoravelmente todos esses pedidos e enviou à Bulgária um terceiro legado, Leão, cardeal-presbítero de Santa Cruz, que levou ao rei, a Basílio e ao episcopado búlgaro a resposta do papa às suas diversas cartas.
Caloian era reconhecido rei da Valáquia e da Bulgária, com a condição de fazer nas mãos do cardeal Leão juramento de obediência e devoção à Igreja Romana; quanto a Basílio de Tirnovo, o papa estabelecia-o primaz de toda a Igreja búlgara, concedia-lhe o privilégio, a ele e a seus sucessores, de ungir e coroar os czares da Bulgária, de consagrar o santo crisma, de usar o pálio em certos dias de festa, de confirmar a eleição dos bispos e dos metropolitanos, etc.; em suma, concedia-lhe, a ele e aos outros patriarcas de Tirnovo, os poderes mais extensos, colocando-os à frente de uma Igreja verdadeiramente autônoma e autocéfala, ainda que submetida à Santa Sé. Theiner, op. cit., t. 1, p. 23, 25, 30; Hurmuzaki, op. cit., t. 1, p. 47-21, 31.
Em uma carta posterior de Basílio a Inocêncio III, somos informados da chegada a Tirnovo do cardeal Leão, em 15 de outubro de 1204, da consagração patriarcal a ele conferida em 7 de novembro seguinte, do sacro imperial de Caloian, em 8 de novembro, e do feliz desfecho de toda a negociação. Theiner, op. cit., t. 1, p. 39; Hurmuzaki, op. cit., t. 1, p. 48-49.
Apesar das dificuldades que surgiram no ano seguinte entre o czar búlgaro, os húngaros e o Império Latino de Constantinopla, não vemos que as relações de Caloian e do papa tenham perdido seu caráter afetuoso. Mesmo após a derrota dos latinos e o degolamento de seu imperador, Balduíno I, ordenado pelo czar, em 1205, Inocêncio III continuou a corresponder-se com Caloian, e é como filho devoto a São Pedro que perece assassinado diante de Tessalônica o feroz soberano, no outono de 1207. Theiner, op. cit., t. 1, p. 39, 42, 44; Hurmuzaki, op. cit., t. 1, p. 48, 51-53, 54, 56.
Dos sentimentos religiosos de Boril, sobrinho de Caloian e usurpador do trono, 1207-1218, não conhecemos quase nada. Sabemos apenas que ele realizou em Tirnovo, em 11 de fevereiro de 1211, um grande concílio que condenou as seitas paulicianas e bogomilas. A crônica de Alberico de Trois-Fontaines assegura também que Inocêncio III enviou-lhe um cardeal e é certo, por outro lado, que Boril reclamou o socorro do papa, à morte de seu parente, Henrique, imperador latino de Constantinopla. É sobre esses dois fatos certos que se apoiam historiadores modernos para afirmar que o concílio de Tirnovo de 1211 foi realizado a pedido do papa e que Boril estava, como seu tio, em comunhão com a Santa Sé. G. Markovich, Gli Slavi ed i papi, t. I, p. 561.
A união parece ainda ter se mantido nos primeiros anos de reinado do czar João Assen II, filho de João Assen I, que reinou de 1218 a 1241 e levou a glória e a prosperidade da Bulgária ao seu apogeu. Enquanto este príncipe evoluiu na política franca e húngara, as suas boas relações com a corte romana não se desmentiram um instante; não foi mais assim a partir do dia em que se pôs a buscar a aliança bizantina. Com a morte do imperador latino Roberto de Courtenay, em 1228, a nobreza franca reclamou Assen II como tutor do jovem imperador Balduíno II e administrador do império. A proposta foi descartada, graças sobretudo ao clero latino, cuja influência levou à eleição do velho rei de Jerusalém, João de Brienne. Assen II jamais perdoaria este insulto.
Assim, quando ele derrotou o imperador grego do Epiro, Teodoro Comneno, em Klokotnitsa, em 1230, e quando anexou os seus Estados, ele colocou o bispo grego de Filipos, Gregório, no assento patriarcal de Tarnovo e relaxou os laços que o uniam à Igreja católica. Dois anos mais tarde, a ruptura entre latinos e búlgaros era completa. Em 21 de março de 1232, Gregório IX queixava-se nas suas cartas, Farlati-Coleti, Illyricum sacrum, t. viii, p. 247; Theiner, Monumenta histor. Hungarorum, t. 1, p. 103; Hurmuzaki, op. cit., t. 1, p. 103, de que os bispos búlgaros de Branichevo e de Belgrado tivessem abandonado o partido da união.
Em 1234, Balduíno II casava-se com Maria, filha de João de Brienne, enquanto Assen II noivava a sua filha Helena, prometida outrora a Balduíno, com Teodoro Lascaris, filho do imperador grego de Niceia, e concluía com este último uma aliança ofensiva e defensiva para o extermínio dos francos. As hostilidades abriram-se no ano seguinte com a tomada de Galípoli sobre os latinos. Em 1235, em Lâmpsaco, na costa asiática de Mármara, o patriarca grego de Niceia, Germano II, assistido por Joaquim, arcebispo de Tarnovo, celebrava o matrimônio de Teodoro Lascaris e de Helena, depois, na presença de um grande número de bispos gregos e búlgaros, ele proclamava a independência da Igreja de Tarnovo e reconhecia Joaquim como patriarca da Bulgária.
Diante desta deserção e diante dos preparativos enormes que faziam Assen II e Vatatzés para retomar Constantinopla aos cruzados, Gregório IX convocou o rei da Hungria, Béla IV, a tomar as armas contra os dois príncipes heréticos e cismáticos e a salvar, por uma feliz diversão, o império latino ameaçado, 16 de dezembro de 1235. Theiner, Monumenta historia Hungarorum, t. 1, p. 144; Hurmuzaki, op. cit., t. 1, p. 139.
Em 24 de maio de 1236, após duas tentativas inúteis dos gregos e dos búlgaros sobre Constantinopla, o papa pedia a dois bispos húngaros que excomungassem solenemente Assen II, se ele não abandonasse a sua aliança com Vatatzés. Theiner, op. cit., t. 1, p. 144; Hurmuzaki, op. cit., t. 1, p. 142.
Será por temor a Béla IV e à excomunhão papal, ou medo de fazer o jogo de Vatatzés ao ampliar sem medida os seus Estados? Seja como for, a partir deste momento, o tsar búlgaro desentende-se com o basileus e, sob um vão pretexto, retoma hipocritamente a sua filha; após o que ele reclama ao papa um legado para entender-se com ele e reconciliar-se com os latinos. Demasiado crédulo, o papa envia o bispo de Perúgia, Salvo de Salvis, portador de duas cartas para o rei, datadas de 21 de maio e 1º de junho de 1237, Theiner, op. cit., t. 1, p. 155, 156; Potthast, Regesta pontificum, t. 1, p. 880, 882, n. 10868, 10888, e de uma terceira destinada aos bispos e ao clero da Bulgária. Theiner, op. cit., t. 1, p. 155; Potthast, op. cit., t. 1, n. 10889; Hurmuzaki, op. cit., t. 1, p. 157.
O desfecho desta missão permanece ignorado; é certo, porém, que Assen II mudou novamente de opinião e que, em 27 de janeiro de 1238, Gregório IX fazia pregar na Hungria a cruzada contra «o pérfido, que não tinha querido fazer parte das ovelhas de Pedro e tinha recebido os heréticos no seu reino». Theiner, op. cit., t. 1, p. 161.
E quando Béla IV estava a ponto de marchar contra a Bulgária, com a intenção evidente de conquistá-la e guardá-la, o papa ordenou orações públicas pelo sucesso das suas armas e prometeu tomar, durante a sua ausência, o seu reino sob a proteção da santa sé. Theiner, op. cit., t. 1, p. 159-161, 165-167, 170, 174; Hurmuzaki, op. cit., t. 1, p. 166-169, 174-178.
Assen II, vendo a má direção que tomavam para ele os eventos, jogou novamente de astúcia e entendeu-se com os francos contra Vatatzés. Foi o bastante para que Gregório IX, o inimigo irreconciliável dos gregos, passasse a esponja sobre todos os delitos do tsar búlgaro e desse contraordem à cruzada húngara.
De resto, esta aliança dos cruzados e dos búlgaros teve apenas uma duração efêmera. No cerco de Çorlu, 1239, Assen II soube de repente que a sua esposa, o seu filho e o patriarca Joaquim tinham morrido da peste em Tarnovo; acreditando numa vingança do céu, que o punia assim por ter violado a sua palavra e roubado a sua filha Helena ao seu marido, ele abandonou os latinos, reconciliou-se com Vatatzés, devolveu Helena a Teodoro Lascaris e casou-se ele mesmo com uma princesa grega. Morreu em junho de 1241, deixando a lembrança de um príncipe glorioso, valoroso nos campos de batalha, amigo das letras e das artes, e também — convém acrescentar — de um homem infiel a quase todos os seus compromissos. C. Jirecek, Geschichte der Bulgaren, p. 260-262.
Quatro anos mais tarde, em 21 de março de 1245, Inocêncio IV fazia levar a Caloman I, o seu filho, uma carta muito afetuosa, na qual ele lhe expunha a primazia dos sucessores de Pedro e o convidava a retornar ao seio da Igreja, comprometendo-se a convocar para este fim um concílio geral e a receber os seus delegados com honra e com uma alegria cordial. Theiner, op. cit., t. 1, p. 196-197; Hurmuzaki, op. cit., t. 1, p. 225-227.
Não se conhece a natureza das relações que existiram entre Roma e os tsares Miguel Assen, 1246-1257, Caloman II, 1257, e Constantino Assen, 1258-1277. Como este último tinha tomado partido com os sérvios e os búlgaros a favor de Carlos de Anjou, rei da Sicília, contra Miguel VIII Paleólogo, o imperador grego publicou em 1272 um crisobulo que restituía à arquidiocese greco-búlgara de Ocrida toda a extensão que ela tinha tido sob o tsar Pedro, nos termos mesmos dos crisobulos de Basile II. Era, consequentemente, negar a existência do patriarcado sérvio de Ipek e do patriarcado búlgaro de Tarnovo, que se tinham constituído às custas da arquidiocese de Ocrida.
Miguel VIII não se contentou com esta regulamentação interna e, em suma, bastante inofensiva: esforçou-se por obter do papa, em 1274, no concílio de Lyon, o reconhecimento oficial dos antigos direitos de Justiniana Prima ou Ocrida, tais como os concebiam os bizantinos da época, reconhecimento que teria levado à anulação imediata dos privilégios de Ipek e de Tarnovo. A sua diligência não parece ter tido êxito.
Aliás, Miguel VIII não tardou a unir-se em amizade com os búlgaros e, em 1277, no concílio das Blaquernas realizado por João Veccos, o patriarca de Tirnovo, Joaquim, aceitou a união que acabava de ser concluída entre a Igreja latina e a Igreja grega. Este fato, aliás, permaneceu sem resultado, devido à oposição irredutível da czarina Maria, uma cismática obstinada.
Em 28 de março de 1291, a pedido da rainha católica da Sérvia, Helena, o papa Nicolau IV escrevia ao czar Jorge Terter e ao patriarca de Tirnovo, Joaquim. Ele recordava a este último sua presença no concílio de 1277 e sua assinatura, aposta ao pé das atas do concílio de Lyon, comprometendo-o a difundir suas antigas ideias em todo o reino búlgaro. Theiner, Monumenta histor. Hungarorum, t. 1, p. 375-377; Hurmuzaki, op. cit., t. 1, p. 512-519.
Todos estes apelos à antiga fé permaneceram vãos, porque as preocupações políticas estavam alhures e — consequência muito natural no Oriente — alhures também as preocupações religiosas. A história assinala ainda uma tentativa, inútil aliás, em favor da união, tentada em 1337 pelo papa Bento XII junto ao czar João Alexandre. Theiner, op. cit., t. 1, p. 617; Hurmuzaki, op. cit., t. 1, p. 647.
A Igreja de Tirnovo permaneceu quase sempre limitada ao principado atual da Bulgária, menos a Rumélia oriental, mas com algumas cidades situadas ao pé dos Bálcãs. Sob a última dinastia, a dos Chichmanidas de Viddin, 1323-1393, a hegemonia política, que tinha sido, até então, disputada entre gregos e búlgaros, passou definitivamente na península à nação sérvia.
Perto do fim do século XIV, o antigo reino búlgaro estava fragmentado em três partes; Chichman III reinava em Tirnovo, Sofia e Filipópolis; seu irmão, João Srazimir em Viddin; o príncipe Dobrotisch finalmente em Varna e na Dobruja, que lhe emprestou seu nome. A Igreja de Tirnovo não ultrapassava então os limites bem estreitos do reino de Chichman; quanto a Dobrotisch e a Srazimir, eles se tinham aliado, eles e seus Estados, ao patriarcado grego de Constantinopla.
Em 17 de julho de 1393, Tirnovo caía nas mãos dos turcos, após um cerco memorável, e o último patriarca, Euthyme, tomava o caminho do exílio. No ano seguinte, o patriarca bizantino confiava ao metropolita da Moldávia a administração da Igreja búlgara. Em 1398, Viddin abria suas portas aos invasores turcos; estava feito, da independência nacional e da autonomia eclesiástica. C. Jirecek, Geschichte der Bulgaren, p. 223-356; A. Xénopol, L’empire valacho-bulgare, na Revue historique, t. XLVII (1891), p. 277-308; Id., L’empire valacho-bulgare, na Histoire des Roumains de la Dacie trajane, in-8°, Paris, 1896, t. I, p. 172-186; Histoire générale du IVe siècle à nos jours, de Rambaud e Lavisse, t. II, p. 829-861; L. Lamouche, Le second empire bulgare, na La Bulgarie dans le passé et dans le présent, in-12, Paris, 1892, p. 68-79; J. Markovich, Gli Slavi ed i papi, in-8°, Zagreb, 1897, t. III, p. 536-589; Th. Ouspenskij, La formation du second empire bulgare (em russo), Odessa, 1879; C. von Hifler, Die Valachen als Begründer des zweiten bulgarischen Reiches, der Assaniden, 1186-1257, na Sitzungsberichte Wien. Akad., t. XCV (1879), p. 229 sq.; E. Goloubinski, Précis d’histoire des Églises bulgare, serbe et roumaine (em russo), Moscou, 1871, p. 78-81, 264-282; V. Lah, De unione Bulgarorum cum Ecclesia romana ab anno 1204-1234, no Archiv für katholisches Kirchenrecht, t. XCIV (1880), p. 193-256; V.
Vasilievskij, Le rétablissement du patriarcat bulgare sous le prince Jean Assen II, en l’année 1235, no Journal du ministère de l’Instruction publique (em russo), Saint-Pétersbourg, t. CCXXXVIII (1885), p. 1-56, 206-238; Rattinger, Die Patriarchat- und Metropolitansprengel von Constantin und die bulgarische Kirche zur Zeit der Lateinerherschaft in Byzanz, no Historisches Jahrbuch, t. I, fasc. 1; t. III, fasc. 4, da Görres-Gesellschaft, Munster, 1880; A. Meliarakis, Ἱστορία τοῦ βασιλείου τῆς Νικαίας, in-8°, Athénes, 1878, passim.
Um historiador russo, E. Goloubinski, op. cit., p. 82-89, 89-106, deu a lista dos patriarcas búlgaros de Tirnovo e a das metrópoles e das dioceses que dependiam deste patriarcado. O último dos patriarcas búlgaros de Tirnovo, Euthyme, tornou-se célebre na ciência eclesiástica por suas numerosas obras, que constituíram de certa forma uma escola literária. Ver sobre Euthyme, C. Jirecek, op. cit., p. 444-447. BE, Kaluzniacki publicou, em 1901, a edição crítica das obras deste patriarca: Werke des Patriarchen von Bulgarien, Euthymius (1375-1393), nach den besten Handschriften herausgegeben, in-8°, Viena, e o panegírico deste prelado por seu discípulo, Grégoire Camblak, Aus der panegyrischen Litteratur der Südslaven, in-8°, Viena, 1901. Sobre estas duas obras, ver a Revue d’histoire et de littérature religieuses, t. VII (1902), p. 534 sq.
VI. O PATRIARCADO GRECO-BÚLGARO DE OCHRIDA, 1393-1767. — A queda da Bulgária independente iria modificar completamente a situação política e religiosa deste infeliz país. Todos os territórios búlgaros foram englobados pelos vencedores no governo geral do Beilerbei de Rum-ili, que residia em Sofia e estendia sua autoridade sobre quase toda a península balcânica. Esta organização, mais militar que administrativa, subsistiu, salvo alguns remanejamentos parciais, até os primeiros anos do século XIX. Ela encerrou tão bem os indígenas em suas múltiplas redes que, apesar da pesadez dos impostos e da falta de modos habitual de os cobrar, conta-se apenas uma ligeira tentativa de revolta em 1595, no momento em que Sigismundo Bathory, príncipe da Transilvânia, estava em guerra com os otomanos.
Os búlgaros, privados de todos os direitos e considerados como um vil rebanho — donde o nome de raia — foram submetidos a imposições enormes, tanto em benefício da Porta quanto dos senhores locais. Algumas cidades apenas obtiveram a autorização de se administrar livremente sob a autoridade de seus chefes ou voivodas, mas pagaram este privilégio de isenção com o recrutamento e a manutenção, às suas expensas, de um certo contingente de tropas a ser posto à disposição dos sultões.
A história da Igreja ocrida durante os séculos XV e XVI está longe de ter dissipado toda a obscuridade. No início do século XV, esta Igreja estendeu novamente sua jurisdição até o Danúbio. Um codex grego, descrito no Sbornik bulgare, 1901, t. XVII a, p. 132-170, contém numerosas informações sobre este ponto, com três cartas do patriarca de Constantinopla, do arcebispo de Ochrida e do basileus Manuel Paleólogo. Aprendemos que o velho arcebispo de Ochrida, Mateus, conhecido já por uma inscrição de 1408, op. cit., p. 155, havia vindo a Bizâncio em junho de 1410 e obtivera do imperador a confirmação dos direitos que estavam mencionados nas crisóbulas de Justiniano. Mateus consagrou, em seguida, os metropolitanos de Sófia e de Viddin e, apesar dos protestos do patriarca bizantino, o sucessor anônimo de Mateus manteve os privilégios de sua Igreja. C. Jirecek na Byzant. Zeitschrift, t. XIII (1904), p. 198.
Sabemos que, em 1456, seu arcebispo Doroteu foi rogado pelo príncipe da Moldávia para prover a vacância da sé metropolitana de sua principado. Glasnik, t. VI, p. 177. Este pedido e a resposta favorável de Doroteu são provas irrecusáveis de que a jurisdição de Ocrida estendia-se, então, sobre essa região, assim como, aliás, sobre a província da Hungro-Valáquia. É difícil precisar em que consistia essa supremacia religiosa, que parece ter-se mantido sobre o futuro reino da Romênia, pelo menos até os primeiros anos do século XVI, fora da nomeação do metropolitano, cuja história nos apresenta vários outros casos, e da influência litúrgica que se fez sentir quase até os nossos dias.
Sob o patriarcado de Procópio, 1523-1549, passa-se um fato estranho, que nos foi revelado por uma peça recentemente publicada e uma outra ainda inédita, e que projeta uma luz nova sobre a história agitada desta Igreja. Fora da Moldo-Valáquia, o titular de Ocrida estendia outrora sua jurisdição sobre as dioceses de língua e de nacionalidade sérvias. Ora, esses eslavos, irmãos mais velhos dos búlgaros, lograram no século XII, com a ajuda interessada dos bizantinos, destacar várias eparquias de Ocrida para constituir o patriarcado nacional de Ipek. Esta Igreja sérvia sobreviveu à dinastia que a criara, mas, quando, em 1459, Sémendria, o último baluarte da independência nacional, caiu sob o poder dos turcos, Maomé II resolveu retirar dos vencidos a última parcela de autonomia, incorporando sua Igreja ao arcebispado greco-búlgaro de Ocrida.
Durante este período de 98 anos, 1459-1557, os titulares de Ocrida intitulavam-se: «arcebispos de Justiniana prima, de todos os búlgaros, dos sérvios e dos outros.» Foi assim até 1557, onde Macário Sokolovich, irmão do grão-vizir renegado Mehmed, obteve que se reerguesse em seu favor o patriarcado sérvio de Ipek, que subsistiu até 1766. Este restabelecimento de Ipek restringiu consideravelmente o território de Ocrida; por ele, perdeu não somente todos os antigos bispados que haviam dependido de Ipek, mas ainda Viddin, Sófia, Samokof, Kustendil, Schtip, Kratovo e Uskub. Ver Archiv für slavische Philologie, t. IX, X, XXV (1903), p. 468-478.
Tudo isso era conhecido há muito tempo, mas o que o é muito menos é que, mesmo antes do feliz empreendimento de Macário Sokolovich, os sérvios haviam tentado reconstituir o patriarcado nacional e que tinham, por um momento, logrado êxito. Eis o fato. O arcebispo Procópio de Ocrida, eleito em 1523, dirigiu-se à Palestina para cumprir a peregrinação dos Lugares santos, deixando a guarda de sua eparquia ao diácono Paulo. Esta viagem cumpriu-se entre os anos 1523 e 1530. O diácono Paulo parece ter tido dificuldades com o governo turco no que tange à percepção dos impostos; ele dirigiu-se, portanto, a Constantinopla para entender-se com o grão-vizir Ibrahim paxá, renegado grego, que era seu parente próximo.
Não se sabe exatamente o que se passou nesta entrevista, contudo, o fato é que Paulo voltou de Istambul com a autorização do grão-vizir para restaurar o patriarcado de Ipek e ser o seu primeiro titular. Esta nova criação da Igreja sérvia tinha-se feito, é claro, às custas da Igreja búlgara de Ocrida. O arcebispo Procópio foi informado disso na Palestina; apressou-se, como bem se pensa, a terminar suas devoções e a correr à capital para reclamar seu bem. A seu aviso, o patriarca ecumênico, Jeremias I, reuniu seu sínodo, que depôs Paulo, excomungou-o a ele e a todos os seus sucessores, e recolocou o arcebispado de Ipek sob a jurisdição de Ocrida, setembro de 1530. Papadopoulos Kerameus publicou o ato de Jeremias I nos Vyzantiskij Vremennik, 1896, t. III, p. 119 sq.
O intruso submeteu-se a esta decisão? É pouco provável. Ele deve ter permanecido na posse da sé de Ipek até a morte violenta de seu parente, o grão-vizir Ibrahim paxá, 1534, e então Ipek terá sido suprimido para ser novamente restabelecido em 1557. Extraí estas informações da peça publicada por M. Papadopoulos Kerameus e já editada em 1876 por Pavlov no Te vo imperators Rom, etc., Moscou, 1876, fasc. 4, e sobretudo de uma carta ainda inédita, que Dionísio, metropolitano de Castoria na Macedônia, dirigia sobre este assunto, em 12 de novembro de 1716, ao patriarca de Jerusalém, carta que me foi obrigatoriamente comunicada pelo R. P. Petit. O metropolitano Dionísio havia percorrido todo o dossiê deste assunto, que infelizmente não nos chegou senão em parte.
Esses bons arcebispos de Ocrida eram torturados sem cessar entre os turcos, que oneravam suas finanças com impostos pesados e incômodos, e seus fiéis, que recusavam deixar-se tosquiar sem morder a mão de seus pastores. Ao apresentar alto ou forte demais suas recriminações contra abusos tão monstruosos, arriscavam muito perder seu lugar ou sua cabeça, como Doroteu em 1466, Balamos, decapitado por volta de 1600, e Melécio em 1644, por ordem do grão-vizir.
A situação, contudo, era ainda tolerável nos séculos XV e XVI e durante a primeira metade do século XVII. Escolhidos quase sempre dentre os membros das famílias indígenas, os pastores de Ocrida não se chocavam com uma oposição irredutível por parte de seus subordinados. Quando o mal-estar se fazia sentir por demais em suas finanças, tomavam o caminho da Rússia, como Gabriel em 1586, Nectário em 1604, Dionísio por volta de 1660, etc., e essas boas almas eslavas, tocadas pelos sofrimentos de seus irmãos na ortodoxia, apressavam-se a esvaziar suas economias na algibeira dos augustos viajantes. Por vezes, mesmo estes, para não tirar continuamente de suas próprias tropas, tomavam o caminho do Ocidente. Diziam-se então católicos, como Porfírio por volta de 1600, Atanásio em 1606, Abraão em 1629, Melécio por volta de 1640, L. Allatius, De consensu utriusque Ecclesiæ, p. 1092, embora seu catolicismo de encomenda se limitasse, ordinariamente, a mendigar esmolas junto à corte romana e a dirigir-lhe calorosos agradecimentos, após tê-las recebido.
Do dia em que o elemento eslavo e indígena viu-se oprimido pelo elemento grego e fanariota, começou para esta Igreja a mais sombria existência. Uma leitura mesmo rápida dos atos sinodais que acaba de publicar M. Gelzer basta para nos dar uma ideia adequada, e bem triste, infelizmente, dos embaraços múltiplos que encontravam os patriarcas de Ocrida. A partir da segunda metade do século XVII, a mudança contínua dos titulares aparece como a consequência natural de intrigas pouco edificantes, que se desenrolavam entre os diversos pretendentes. De 1650 a 1700, contam-se não menos que 19 demissões forçadas ou deposições de patriarcas — número relativamente pouco elevado em comparação com a Igreja do Fanar, que viu, na mesma época, até 34.
Lancemos um olhar sobre as peças oficiais recentemente editadas; elas nos dirão, com sua seca eloquência, de quantas tristezas e ignomínias foram tecidos os últimos dias deste malogrado patriarcado. Germano sobe à sede de Ocrida em 8 de maio de 1688 e, já em 8 de agosto de 1691, o sínodo reconhece, ao depô-lo, que ele foi negligente no pagamento do tributo ao governo imperial, que realizou despesas inúteis e colocou a Igreja na situação mais delicada frente ao poder civil.
Gregório, metropolita de Neai Patrai, sucede-lhe e, no mês de agosto de 1693, confessa sua indignidade, oferece sua demissão e «délivre ainsi le trône patriarcal de ses brigandages et de ses forfaitures». O metropolita de Belgrado, Inácio, é eleito em seguida «como o melhor e o mais digno» e, menos de dois anos depois, em 9 de julho de 1695, nove bispos declaram-no deposto «como indigno, incapaz, ignorante dos regulamentos canônicos...», etc.
Zósimo, metropolita de Sisanion, vem após ele e inspira tanta simpatia que o ex-patriarca Germano mesmo, que nunca quis consentir com sua deposição de 1691, renuncia em favor deste a todos os seus direitos; e, contudo, em 8 de junho de 1699, o sínodo depõe Zósimo «como violador do 10º cânone de Calcedônia, insolente para com seus irmãos, orgulhoso, déspota...», etc.
Rafael de Creta substitui-o e, apesar da lacuna considerável que existe neste lugar na série dos documentos, sabemos que a calma esteve longe de florescer nesta Igreja. De fato, de 1703 a 1708, encontramos Inácio de Belgrado e Dionísio de Quio, que disputam o título patriarcal. Método consegue eliminá-los a ambos, mas apenas por alguns dias, 28 de maio a 11 de junho de 1708, e o velho Zósimo retorna à sede, 1708-1709.
É novamente expulso por Dionísio de Quio, que se apodera do poder ilegalmente, distribuindo muitos subornos às autoridades turcas e a seus confrades, e comete tantos delitos que o sínodo «corou de enumerá-los» e expulsa-o em 1711 para substituir-lhe por Filoteu de Naoussa, «digno, piedoso, capaz...», etc. Tantas qualidades e tantas virtudes não impedem que este último seja deposto em 6 de julho de 1718 pelos bispos, que admitem ingenuamente ter-se enganado a seu respeito. E, à parte o longo pontificado de Joasaf, 1719-1745, a série de nomeações e deposições prossegue com uma monotonia pouco edificante, produzindo, ao longo do tempo, mesmo nos espíritos menos prevenidos, uma péssima impressão.
A quais causas atribuir essas mudanças súbitas de opinião por parte dos sinodais e essas revoluções perpétuas? A duas principais. Primeiramente, é a má situação financeira do patriarcado que é responsável por este estado de coisas.
Não se deve esquecer, de fato, a maneira como os turcos se conduziram após sua vitória, convertendo as principais igrejas em mesquitas, confiscando os bens eclesiásticos ou constituindo-os como terreno waqf. Ora, apesar dessas espoliações repetidas que reduziam os chefes da Igreja de Ocrida à penúria mais extrema, os otomanos não diminuíram um centavo das cargas fiscais que faziam pesar sobre eles.
Estes deviam quitar a cada ano o kharadj ou taxa real, que se confundia com os outros impostos: fundiário, mobiliário e pessoal, e passava à frente de todas as dívidas. Este imposto, que era preciso verter não apenas para a sede patriarcal, mas também para cada diocese, era tanto mais oneroso quanto não tinha nada de fixo. Cada candidato a uma sede vacante fazia-o subir a seu bel-prazer para ser aceito pelos turcos, e a tarifa permanecia doravante aquela, até que aprouvesse a um competidor afastar seu feliz rival elevando os lances. Como a deposição seguia sempre o não pagamento integral da dívida, os patriarcas dedicavam todos os recursos de seu espírito a procurar esse fabuloso capital. Com este objetivo, taxavam, por sua vez, cada bispo, que era obrigado a fornecer sua quota. Daí, os direitos de ordenação que todo novo bispo devia verter ao entrar no cargo. Para aumentar suas rendas, os patriarcas entregavam as eparquias eclesiásticas aos que oferecessem mais e esforçavam-se até em multiplicar as vacâncias de sedes. Por seu lado, os bispos só conseguiam recuperar seus dispêndios vendendo os cargos, alienando os bens eclesiásticos que ainda restavam, concedendo a taxas elevadas todo tipo de dispensas contrárias às prescrições canônicas. Não era senão simonia e concussão em todos os graus da escala social.
Apesar dessas dificuldades sempre crescentes, à força de pressionar seus fiéis e de solicitar os dos países russos, os pastores de Ocrida teriam chegado, sem dúvida, a equilibrar seu orçamento e a manter-se no cargo, se não tivessem de pagar um segundo imposto, o miri, do qual todo chefe de Igreja era devedor à Sublime Porta para obter o firman de investidura. Este segundo imposto não tinha, ele tampouco, nada de fixo, a não ser que podia aumentar indefinidamente. E adivinha-se imediatamente o maravilhoso partido que os sultões souberam tirar de uma arma tão bem afiada. Assim que um patriarca deixava de agradar, opunham-lhe um competidor, que se comprometia a fornecer o dobro do miri e que, por esse simples fato, tinha o direito de ocupar sua sede. Mal se via instalado, outro intrigante de baixo escalão, um cavaleiro de indústria qualquer, como diz tão bem o Sr. Gelzer, esforçava-se para derrubá-lo. Como os gregos, sobretudo os fanariotas, tinham se tornado mestres na arte de manejar o dinheiro e as intrigas, conseguiram, lá como alhures, desalojar os indígenas.
E aqui tocamos com o dedo a segunda causa da decadência desta Igreja. Sabe-se, de fato, ou deve-se saber que, no século XVI e sobretudo nos séculos XVII e XVIII, os gregos do Fanar expulsaram os candidatos indígenas de quase todas as sedes patriarcais ou episcopais que compreendiam as diversas Igrejas ortodoxas do império turco. Alexandria, Antioquia e Jerusalém perderam nesse momento seus titulares locais para verem substituí-los por moreotas, cretenses, ilhéus quaisquer, gregos vendos buscar fortuna de Constantinopla ou de Esmirna. A Igreja de Ocrida não podia, ela só, escapar à invasão, embora esta não tivesse absolutamente nenhum motivo para ocorrer, já que a situação do patriarcado greco-búlgaro diferia totalmente da das outras Igrejas. Com efeito, se essa imiscuição dos fanariotas pode ser compreendida, a rigor, nos países de língua árabe, de onde a influência da raça e da língua gregas estava banida há muito tempo e que esses aventureiros conseguiram fazer reviver, ela é inconcebível no patriarcado de Ocrida, que estava nas mãos dos gregos desde a supressão do de Tirnovo, 1393, e cujo alto clero era grego e falava grego no decorrer do século XVI.
Sem dúvida, esses patriarcas e esses bispos da Igreja de Ocrida eram menos helenos que helenizados, visto que pertenciam, em maioria, a famílias albanesas, romenas ou búlgaras do país, e encarnavam, de certa forma, o sentimento nacional, mas nunca foi definido, creio eu, que a ortodoxia seja a propriedade exclusiva da raça grega e que, apenas os rebentos autênticos dessa nação são chamados, pelo sangue e pelo mérito, a obter todas as altas dignidades. Sobre este ponto, os indígenas de Ocrida não pensavam diferentemente de nós e achavam estranho que criaturas do Fanar, carregadas de dívidas e por vezes de crimes, viessem lhes subtrair a maior parte de suas rendas. Mas tiveram a infelicidade de prestar-se eles mesmos a essa imiscuição, recorrendo, por ocasião da deposição de Teófanes, em setembro de 1676, à arbitragem do patriarca ecumênico. Este não declinou, como bem se pensa, desse convite e, desde então, foi uma luta sem trégua e sem misericórdia entre os candidatos do partido nacional e os do partido fanariota.
O duelo prosseguiu por quase cem anos e terminou apenas com a derrota dos búlgaros e a supressão do patriarcado de Ocrida, em janeiro de 1767. Em vão, homens como Gregório, Germano de Vodena, Inácio de Belgrado, Zósimo de Sisanion sustentaram com entusiasmo a honra da bandeira e conduziram uma campanha enérgica contra os candidatos fanariotas; estes, com o apoio dos turcos e do patriarcado ecumênico, ganhavam cada vez mais terreno entre eles; mestres de uma parte dos sinodais, eram-no da maioria, quando queriam pagar o preço para isso. Ganhando sem cessar terreno, sabiam opor aos campeões do partido búlgaro os heróis do seu próprio partido. Gregório de Tirnovo, Rafael o Cretense, Dionísio de Quio, Filoteu de Naousa não cediam em nada, como inteligência e como vigor, aos candidatos de Ocrida que acabamos de citar, e tinham sobre eles, em termos de recursos pecuniários e de maquiavelismo, uma superioridade incontestada.
Certamente! não era, como se afirma frequentemente, a fim de pagar as suas dívidas que o Fanar perseguia com tanto espírito de continuidade o açambarcamento do patriarcado de Ocrida. Os partidários dos búlgaros, Jirecek, Geschichte der Bulgaren, p. 470, sustentam-no ainda sem provas de apoio, enquanto está demonstrado pelas numerosas quitações e folhas de conta que publicou o Sr. Gelzer, que a metrópole de Ocrida e seus bispados sufragâneos rendiam, nessa época, mais dívidas que receitas.
Mas a existência dos patriarcados nacionais e indígenas era para o Fanar "um espinho no olho" e era para arrancá-lo que empregava todas as suas energias. A sujeição dos ortodoxos do Império Otomano na Europa não lhe parecia completa enquanto restasse, em qualquer outro lugar que não Constantinopla, a menor parcela de autonomia eclesiástica. Desde a destruição do Império Bizantino, 1453, toda a sua política religiosa consistia em fazer a Igreja Oriental retornar aos quadros que havia estabelecido o concílio de Calcedônia, 451. Quatro patriarcados à disposição dos gregos: Constantinopla, Alexandria, Antioquia e Jerusalém, e uma Igreja autocéfala, Chipre. Fora isso, nada mais.
A destruição das Igrejas nacionais, sérvia ou búlgara, como Ipek e Ocrida, impunha-se, consequentemente, e o contentamento dos gregos, pode-se bem dizer, não foi inteiro senão quando essas duas Igrejas foram incorporadas ao patriarcado ecumênico. Daí essas demissões e essas deposições contínuas que balizam a história do patriarcado de Ocrida nos séculos XVII e XVIII e nas quais se encontra sempre a mão dos gregos; daí esses julgamentos contraditórios e que nos espantam tão fortemente, proferidos a poucos anos de intervalo sobre o mesmo patriarca. Conforme triunfe o partido búlgaro ou o partido fanariota, a mesma pessoa é elevada às nuvens ou votada às gemonias.
Os turcos tiveram culpa de se tornarem cúmplices das empresas criminosas dos gregos. Sob o pretexto de aniquilar o que pudesse sobreviver ainda de desejo de vingança no coração dos patriotas búlgaros, entregaram-nos, pés e mãos atados, aos bizantinos, seus mais mortais inimigos. Em sua política de curta visão, imaginavam assim extirpar de entre os vencidos toda veleidade de independência, enquanto não fizeram senão ativar sobre as suas próprias cabeças o ódio secular que os búlgaros nutriam contra os gregos, e encurralar os oprimidos ao desespero, recusando-lhes todo motivo de esperança.
O partido nacional acabava de triunfar ao depor o fanariota Filoteu de Naousa, 6 de julho de 1718, que foi até mesmo privado da dignidade sacerdotal. Essa vingança brilhante tomada sobre o Fanar, que se permitira o mesmo procedimento em relação ao indígena Teófanes, em 1676, foi logo seguida de uma outra vitória com a eleição do autóctone Joasaf de Corytza, em 6 de fevereiro de 1719. Seguro da confiança dos seus fiéis, este pôde, durante o seu longo pontificado, 6 de fevereiro de 1719 - 22 de outubro de 1745, colocar ordem nas finanças, tanto quanto o permitiu o pagamento das somas enormes que era preciso muito pontualmente pagar aos turcos. Encontrou até recursos suficientes para reconstruir ou restaurar seja a residência dos patriarcas, seja a igreja catedral. Esse pontificado de 27 anos foi a última claridade no céu extraordinariamente negro da Igreja de Ocrida.
José, metropolita de Pelagônia, que sucedeu a Joasaf em 13 de janeiro de 1746, parece ter-se mantido no posto até 1752. Pelo menos, possuímos dele duas peças datadas de 1750 e 1751, e é em 1752 que um dos seus contemporâneos, Joasaf, ex-metropolita de Berat da Albânia, faz começar o patriarcado de Dionísio, seu sucessor. H. Gelzer, Der wiederaufgefundene Kodex des hl. Klemens und andere auf den Patriarchat Achrida beziigliche Urkundensammlungen, nas Berichte der philol.-histor. Klasse der Kénigl. sdchs. Gesellschaft der Wissenschaften zu Leipzig, 1903, p. 46, e codex 91 dos arquivos patriarcais de Constantinopla, p. 181.
Esse mesmo Joasaf nos informa que Dionísio foi patriarca de 1752 a 1757, e, com efeito, temos dele peças que se situam entre 1752 e 1756. H. Gelzer, op. cit., p. 40, 47. A Denys, segundo o mesmo Joasaph, sucedeu Metódio, 1757-1759, e a Metódio, Cirilo, 1759-1762. Um documento ainda inédito, códice 61 dos mesmos arquivos, p. 43, que menciona o patriarca Cirilo, é datado de dezembro de 1762, e é bem possível que o seu pontificado tenha se prolongado até o início de 1763. Cirilo, diz o processo-verbal oficial da nomeação de Ananias, maio de 1763, códice 6, p. 45, «incorreu na cólera imperial e foi exilado». Jeremias, que lhe sucedeu segundo o mesmo processo-verbal, não fez mais que passar pelo trono; «morreu de morte natural», o que habitualmente deixa supor um envenenamento. De qualquer modo, ele já não estava neste mundo em maio de 1763, quando foi eleito o protossincelo de Constantinopla, Ananias.
Eu tinha pensado inicialmente que este Ananias, originário de Constantinopla, não diferia de Arsênio, o último titular do patriarcado de Ochrida, porque Joasaph, ex-metropolita de Bérat da Albânia e seu contemporâneo, faz durar o pontificado de Arsênio de 1762 a 1767, H. Gelzer, Der wiederaufgefundene Kodec des hl. Klemens, p. 46, porque temos deste último documentos datados de 1764, 1765, 1766, 1767, H. Gelzer, op. cit., p. 47, porque, enfim, não encontramos em lugar nenhum vestígio da sua eleição, fora do ato oficial que diz respeito a Ananias. Mas creio que esta identificação é difícil de sustentar e que estamos realmente na presença de duas personagens distintas. Com efeito, Ananias era monge e diácono no momento da sua promoção ao arcebispado de Ochrida. Por que teria ele mudado de nome e se chamado Arsênio, quando se tem o hábito de fazê-lo na Igreja ortodoxa apenas no momento da profissão monástica ou da elevação ao diaconato? Além disso, o códice 50, conservado na biblioteca do metochion do Santo Sepulcro em Constantinopla, traz no fólio 20 que ele pertenceu outrora ao arcebispo de Ochrida, Ananias, κτῆμα σὺν θεῷ ἀναγνωστικὸν Ἀνανίου ἀρχιεπισκόπου τῆς α΄ Ἰουστινιανῆς Ἀχρίδος τοῦ Βυζαντίου. Papadopoulos Kerameus, Ἱεροσολυμιτικὴ Βιβλιοθήκη, t. IV, p. 74. Ora, este manuscrito foi copiado em 1691; ele tornou-se propriedade de Ananias certamente após esta data, e não encontramos de 1691 a 1763 nenhum outro Ananias na sé de Ocrida, fora daquele de quem nos ocupamos.
É, portanto, que este Ananias é perfeitamente distinto de Arsênio e que ele não fez mais que passar pelo trono greco-búlgaro, como seu predecessor Jeremias. Se esta distinção entre Ananias e Arsênio é admitida, não sabemos de onde vinha este último nem a que data remonta a sua eleição. O que podemos afirmar é que ele já era patriarca em 1764 e que o permaneceu até 16 de janeiro de 1767, dia em que a sé de Ocrida desapareceu definitivamente para ser incorporada ao patriarcado ecumênico.
Uns atribuem a Arsênio uma origem búlgara, outros, com mais razão, uma origem grega, já que ele agiu de concerto com os gregos da capital para levar à supressão da sua Igreja. Quanto aos bastidores deste assunto, eles são ainda bastante mal conhecidos, e ignoramos sempre os seus verdadeiros motivos, fora das causas gerais que já lhe reconhecemos.
Um partido poderoso, composto de fanariotas e de pessoas devotadas aos seus interesses, considerou verossimilvelmente a causa das Igrejas autocéfalas como irremediavelmente perdida, e desde então interveio para apressar o desenlace. O patriarcado sérvio de Ipek tinha sido suprimido em 11 de setembro de 1766; ao patriarcado greco-búlgaro de Ochrida não podia caber um destino melhor. À frente deste partido, encontravam-se o prototrono de Castoria, Eutímio, e os principais metropolitas desta Igreja. De acordo com o seu patriarca, que desempenhou o papel de cúmplice ou de ingênuo, estes prelados dirigiram-se a Constantinopla e estabeleceram relações com o patriarca ecumênico Samuel para operar a fusão da sua Igreja com a cátedra fanariota. Ver o documento em H. Gelzer, Der Patriarchat von Achrida, p. 125.
Apresentaram então ao santo sínodo um requerimento, que lhe pedia: «em nome de Cristo nascido em Belém, que se digne recebê-los no redil da santa Igreja de Cristo e de ter por eles a mesma solicitude que pelos outros». As razões dadas não testemunham uma grande precisão. Este grave passo é por eles atribuído «às mutações frequentes dos arcebispos, que lhes fizeram sofrer prejuízos intoleráveis, desordens numerosas, ultrajes de toda sorte, ao ponto de a própria vida lhes tornar-se um fardo se continuassem a estar expostos a perseguições e perigos incessantes». A abdicação, escrita e assinada pela mão de Arsênio, acompanhava este requerimento; ela era, segundo a confissão explícita do autor, «voluntária, consentida livremente e sem violência».
Enfim, um terceiro e último documento, proveniente, este, do santo sínodo de Constantinopla, declara: «reunida e anexada à santíssima sé apostólica e ecumênica a santíssima sé episcopal de Ochrida, bem como as metrópoles e os bispados que dela dependiam, a saber: Castoria, Pelagônia, Vodena, Corytza, Belgrado, Stroumnitza, Grevena, Sisanion, Moglena, Prespa, Dibra, Gkora e Veles». Os considerandos, embora mais desenvolvidos, não diferem daqueles que são enumerados no requerimento dos bispos. Em virtude desta decisão, «aprovada por Sua Alteza, nosso poderosíssimo imperador..., o nome do ex-arcebispado de Ochrida encontra-se apagado das tabelas reais e considerado como não ocorrido; a ex-circunscrição de Ochrida permanecendo doravante sem proteção, as regiões e os burgos que dela dependiam outrora, aqueles de Dyrrachium, Cavaia, Demir-hissar, Elbassan, Ochrida propriamente dita, foram reunidos para o efeito de formar uma só eparquia e metrópole, a de Dyrrachium».
Que ironia do destino! Não somente o patriarcado de Ochrida é suprimido, mas a própria circunscrição eclesiástica deste nome deixa de existir; ela é incorporada à diocese de Dyrrachium, a fim de que os ouvidos dos bizantinos não ouçam mais este nome para sempre execrado. Quanto ao patriarca Arsênio, após a sua demissão, ele teria sido, segundo tradições que recolheu C. Jirecek, Geschichte der Bulgaren, p. 470, internado no monte Athos, numa dependência do convento búlgaro de Zograph, onde os seus compatriotas o teriam cercado de uma alta veneração. O códice 91, p. 181, dos arquivos do patriarcado ecumênico, que contém os dados biográficos de Antimo de Bérat, um contemporâneo, fá-lo morrer, pelo contrário, em Constantinopla, sob o patriarcado de Samuel, em 1767, ano mesmo da supressão de Ochrida.
Os documentos relativos à supressão do patriarcado de Ocrida foram publicados a partir dos originais por Grégoire, Moayyaceta megr Tig xavorrntis Stxarodoctas tod olxevmevtxod ratormoytxod Nodvov ext tidy ty Bovayapia deloSdbwy "Exxdnordv, in-8°, Constantinopla, 1860, p. 116-124, e em tradução francesa por Fr. Lenormant, Turcs et Monténégrins, in-12, Paris, 1866, p. 346-350. Ver também fragmentos de tradução em La Bulgarie chrétienne [A. d’Avril], in-12, Paris, 1861, p. 60-64.
De acordo com as peças reunidas por Gelzer, Der Patriarchat von Achrida, p. 28-34, a jurisdição que possuíram os titulares de Ocrida sob o domínio turco não diferia quase nada daquela que lhes havia pertencido anteriormente. Nos primeiros anos do século XVII, o patriarca Nectário fazia esta confissão significativa a Aubert le Mire na cidade de Antuérpia: Hunc sese titulum more majorum usurpare solitum : Nectarius, archiepiscopus prime Justiniane, Achride et totius Bulgariz, Servie, Albanie et aliorum locorum. Addebat sex esse metro- politas et decem episcopos nulli nisi achridano archi- episcopo seu primati subjectos. Le Quien, Oriens christianus, t. II, col. 299.
As seis metrópoles eram: Castoria, Pelagônia-Bitolia, Stroumnitza, Belgrado, Corytza-Sélasphoros, Vodéna; os dez bispados: Grévéna, Sisanion, Mogléna, Molischos, Dibra, Kitzava, Véles, Prespa, Avlon e Kanina, Gkora e Mocra. Em suma, esta lista dos sufragâneos de Ocrida no início do século XVII é idêntica àquela do XIV, que demos mais acima, exceto que nela falta a diocese de Ispateia-Mouzaneia.
Por volta de meados do século XVII, Dionísio de Ocrida ia a Moscou recolher esmolas e queixava-se vivamente, no retorno, da modicidade das gratificações que havia recebido, ele que tinha dezessete bispos sob sua dependência. Com efeito, desde Nectário, Ocrida havia se enriquecido com uma sétima metrópole, Dirráquio, cujo titular assina regularmente nos sínodos, embora os bizantinos continuem a classificá-lo sob o patriarcado ecumênico. Um pouco mais tarde, na segunda metade do século XVII, Ocrida não contava mais que quatorze dioceses sufragâneas, das quais nove metrópoles e cinco bispados. Às sete metrópoles já mencionadas, convém juntar as de Grévéna e de Sisanion, que eram até então simples bispados; quanto aos cinco bispados, eram Mogléna-Molischos, Dibra-Kitzava, Véles, Prespa, Gkora-Mocra.
Finalmente, por volta do ano 1715, quando o patriarca de Jerusalém, Dositeu, elaborava o schematismus das Igrejas ortodoxas, a situação do patriarcado ocrideno ainda havia sofrido modificações. Havia sete metrópoles: Castoria, Pelagônia ou Bitolia, Vodéna, Corytza, Belgrado, Stroumnitza e Grévéna; dois bispados submetidos a Castoria e três bispados que dependiam diretamente do arcebispado.
E esta situação parece ter se mantido até a supressão mesma desta Igreja, 16 de janeiro de 1767.
VIII. LISTA DOS PATRIARCAS DE OCRIDA. — Como o patriarcado greco-búlgaro de Ocrida desempenhou um grande papel político e religioso na península balcânica, do século X ao XVIII, e que ele está chamado um dia ou outro a se reconstituir; como, por outro lado, ele quase não é bem conhecido senão desde a publicação de seus atos oficiais, feita recentemente pelo Sr. Gelzer e muito pouco difundida, mesmo no mundo sábio, vou elaborar a lista dos titulares desta sé, que não se encontrará em nenhum outro lugar tão completa e tão precisa.
Para isso, auxiliei-me de Le Quien, Oriens christianus, t. II, p. 287-300; de Goloubinski, Précis d’histoire des églises orthodoxes, p. 34-45, 106-140; de Mouravief, Rapports de la Russie avec l’Occident, São Petersburgo, 1858, e outras obras russas, búlgaras e gregas já utilizadas pelo Sr. Gelzer, e sobretudo das duas obras fundamentais deste sábio, Der Patriarchat von Achrida. Geschichte und Urkunden, in-8, Leipzig, 1902, passim; Der wiederaufgefundene Kodex des hl. Klemens und andere auf den Patriarchat Achrida bezügliche Urkundensammlungen, extraído dos Berichten der philol.-histor. Klasse der königl. sächs. Gesellschaft der Wissenschaften zu Leipzig, 1903, p. 41-110. Tirei ainda proveito, além dos relatórios feitos por diversos sábios destas duas obras, das correções e adições trazidas à obra do Sr. Gelzer pelo R. P. Louis Petit nos Echos d’Orient, 1902, t. V, p. 409-412, e as notas manuscritas que ele teve ultimamente a ocasião de recolher, copiando, para o mesmo sábio, nos arquivos do patriarcado ecumênico, toda uma série de atos sinodais, que eles devem em breve editar de concerto no Codex diplomaticus achridenus definitivo.
Os patriarcas cujo nome está sublinhado ocuparam duas vezes a sé de Ocrida: 1. Damião, 945-972. 2. Germano. 3. Filipe. 4. Davi, 1016. 5. João, 1019-1025. 6. Leão, 1025-1056. 7. Teódulo, 1056-1065. 8. João Lambénos, 1065-1068. 9. João, 1075. 10. Teofilato, 1078-1092. 11. Leão. 12. Miguel Máximo. 13. Eustácio, 1134. 14. João Comneno, 1143-1157. 15. Constantino, -1166. 16. X., entre 1180 e 1183. 17. João Camateros, 1213. 18. Demétrio Chomatenos, 1220, 1234. 19. Joanício. 20. Sérgio, entre 1218 e 1241. 21. Constantino Cabasilas, 1250-1261. 22. Hefesto, séculos XII-XIII. 23. Tiago. 24. Adriano. 25. Genádio, antes de 1289. 26. Macário, 1294-1299. 27. Gregório, 1316. 28. Ântimo Metoquita, entre 1328 e 1355. 29. Nicolau, 1347. 30. Gregório, 1348-1378. 31. Mateus, 1408, 1410. 32. Nicodemos, 1452. 33. Doroteu, 1456-1466. 34. Marcos Xylocaravis, 1466. 35. Nicolau. 36. Zacarias. 37. Procópio, 1523-1549. 38. Simeão, 1549. 39. Nicanor, ~1557. 40. Paio, 1565-1566. 41. Sofrônio, 1567-1572. 42. X., eleito em setembro de 1574. 43. Gabriel, 1586. 44. Teódulo, 1588. 45. Joaquim, antes de 1593. 46. Gabriel, por volta de 1593. 47. Barlaão, + 28 de maio de 1598. 48. Nectário, 1604. 49. Porfírio. 50. Atanásio, 1606. 51. Nectário, 1616-1622. 52. Metrófanes, 1623. 53. Davi, 1624. 54. Joasaf, 1628. 55. Abraão, 1629-1634. 56. Melécio, 1637-1644. 57. Caritão, 1644-1646. 58. Daniel, 1650. 59. Atanásio, fevereiro-dezembro de 1653. 60. Gabriel. 61. Dionísio, antes de 1665. 62. Arsênio, antes de 1668. 63. Inácio, março de 1660. 64. Zósimo, 1663-1670. 65. Panaretos, 1671. 66. Nectário, 1678. 67. Gregório. 68. Teófanes, -setembro de 1676. 69. Melécio, 1676-1679. 70. Partênio, 1679-1683. 71. Gregório, 1683-8 de maio de 1688. 72. Germano, 8 de maio de 1688-8 de agosto de 1691. 73. Gregório, agosto de 1691-agosto de 1693. 74. Inácio, agosto de 1693-julho de 1695. 75. Zósimo, julho de 1695-junho de 1699. 76. Rafael, junho de 1699-1703. 77. Inácio, agosto de 1703. 78. Dionísio, 1706-1707. 79. Metódio, 28 de maio-11 de junho de 1708. 80. Zósimo, 1708-1709. 81. Dionísio, 1709-1714. 82. Filoteu, 1714-julho de 1718. 83. Joasaf, fevereiro de 1718-outubro de 1745. 84. José, janeiro de 1746-1752. 85. Dionísio, 1752-1757. 86. Metódio, 1757-1759. 87. Cirilo, 1759-1762. 88. Jeremias, 1763. 89. Ananias, maio de 1763. 90. Arsênio, 1764-16 de janeiro de 1767.
Os titulares de Ochrida portavam ora o título de arcebispo, ora o de patriarca; ao menos, encontram-se ambos indistintamente nas assinaturas, embora o segundo seja de uso mais frequente que o primeiro. H. Gelzer, op. cit., p. 176, 183.
O título completo parece ser este: «X., patriarca ou arcebispo pela misericórdia de Deus de Justiniana prima de Ochrida e de toda a Bulgária, da Dácia mediterrânea e ribeirinha, da Prevalitânia, da Dardânia, da Mísia superior.» Ou bem: «X., patriarca ou arcebispo de Justiniana prima de Ochrida e de toda a Bulgária, da Sérvia, da Albânia, da segunda Macedônia, do Ponto ocidental, etc.»
Esses titulares de Ochrida atribuíam falsamente a ereção de sua pretensa cátedra apostólica a São Clemente, que jamais foi apóstolo, da mesma forma que não fundou essa sé, a fim de se igualarem aos quatro patriarcas do Oriente e de marcharem em par com eles. É verdade que outrora Bizâncio havia agido da mesma forma, quando reconhecera por seu primeiro pastor Stachys, discípulo de Santo André, o Protocleto ou o primeiro apóstolo chamado por Nosso Senhor, prerrogativa que lhe dava evidentemente o direito de passar antes da sé da Velha Roma, fundada somente por São Pedro.
A eleição do patriarca era feita pelo santo sínodo, que se compunha dos metropolitas e dos bispos, enquanto o elemento laico participava apenas das aclamações. Três candidatos eram sempre propostos, assim como parece comportar o costume da Igreja ortodoxa, mas compromissos eram tomados de antemão e era, ordinariamente, o primeiro da lista que se via eleito. Salvo uma ou duas exceções, a eleição sempre ocorreu na igreja patriarcal de Ochrida, da mesma forma que a dos metropolitas e dos bispos, o que deixaria supor que era ali o lugar de reunião ordinário para o santo sínodo. O patriarca exercia habitualmente a presidência do santo sínodo, a menos que se tratasse de prover a sua substituição; neste caso, era algum antigo patriarca ou o prototrono que tinha direito à precedência.
Além das fontes já citadas para estabelecer a lista dos titulares de Ochrida, convém acrescentar, para Hefesto, séc. XI-XII, o Philologus, Zeitschrift für das klassiche Alterthum, 5º vol. do suplemento, Goettingue, 1885, p. 209, 221-224; para dois ou três outros patriarcas, H. Gelzer, Byzantinische Inschriften aus Westmakedonien, em Mitteilungen des kais.
deutschen archäologischen Instituts in Athen, 1902, t. XXVIII, p. 431-444; para João Camatero, uma peça publicada por Pavlov nos Vyzantiskij Vremennik de São Petersburgo, 1897, t. IV, p. 160-166; para Doroteu, 1455-1466, e Marcos Xylocaravis, 1466, o Starine de Agram, 1880, t. XII, p. 253 sq., a Byzantinische Zeitschrift, 1904, p. 199 sq., e a Revue de l’Orient chrétien, 1908, t. XIII, p. 144-149; para Procoro, † 1549, Simeão 1549, e Baarlamos, 1598, o Bulletin de l’Institut archéologique russe à Constantinople, 1899, t. IV, fasc. 3, p. 139-140; para outros prelados da Idade Média, o precioso trabalho de P. Milioukof, Antiquités chrétiennes de la Macédoine occidentale (em russo), na mesma revista, 1899, t. IV, fasc. 1, p. 24-149; para Procoro, Drinof, na Périoditchesko Spisanié (búlgaro), Sofia, 1882, fasc. 3. Poder-se-á consultar também Palmof, Novas datas para a história do arcebispado de Ochrida nos séculos XVI, XVII e XVIII (em russo), nos Slauvjanskoije Obozrénije, 1894, e o estudo búlgaro de Balaschef, As edições, as transcrições e a importância do codex do arcebispado de Ochrida para a sua história, na Périoditchesko Spisanié, Sofia, 1898, t. XI, fasc. 55, 56, p. 183-222.
IX. A IGREJA BÚLGARA SOB A DOMINAÇÃO FANARIOTA, 1767-1860. — Assim que obtiveram a vitória definitiva, os bispos fanariotas apressaram-se em substituir na liturgia e no ensino a língua grega pela língua eslava. Nas escolas eclesiásticas, onde se impunha o estudo do grego antigo, nas escolas laicas dos grandes centros, onde se explicava Homero e Platão, no séquito dos metropolitas como no dos hegúmenos e dos padres instruídos, todos os búlgaros da classe comerciante e burguesa helenizavam-se a porfia. Havia passado de moda redigir a correspondência em grego ou, ao menos, servir-se do alfabeto grego para transcrever o búlgaro.
Os primeiros mestres da filologia eslava, como Dobrowsky, 1814, e Kopitar, 1815, confessavam não ter qualquer ideia da língua búlgara e não a ter ouvido senão vagamente falar. Quando Schafarik publicava em Buda, em 1826, sua História das literaturas eslavas, não tinha podido procurar um só livro búlgaro e, em 1845, o viajante russo Grigorovitch não encontrava ainda na cidade de Ochrida nenhum habitante que soubesse ler o alfabeto eslavo. Parecia que a nacionalidade búlgara já não existia; os sábios europeus não viam nos países situados entre o Danúbio e o mar Egeu senão helenos ou otomanos.
Sozinho, o clero búlgaro propriamente dito, embora estivesse mergulhado na mais grosseira ignorância e embora soubesse por vezes mal ler e escrever, permanecia fiel ao alfabeto eslavônio. Os bispos podiam bem colocar uma espécie de raiva piedosa em destruir os monumentos antigos da literatura búlgara antiga, podiam bem queimar os manuscritos ou jogá-los ao mar, conservava-se sempre, aqui ou ali, algum velho codex eslavônio, algum velho livro litúrgico impresso em Veneza, na Sérvia ou na Valáquia.
Pouco a pouco, a História eslavo-búlgara do povo, dos tsares e dos santos búlgaros, recolhida e posta em ordem por Paisii, hieromonge do Monte Atos, circulava entre os religiosos e as pessoas instruídas, e, a despeito, talvez até mesmo em razão das infantilidades e do chauvinismo ingênuo que a animam, ela contribuía poderosamente para a regeneração intelectual e moral dos búlgaros. Um mesmo ardente patriotismo, um mesmo ódio profundo pelos gregos fanariotas circulavam através das páginas de seus continuadores; depois, o bispo Sophroni, o primeiro que, no fim do século XVIII, ousara pregar em búlgaro, escrevia suas Memórias, 1806, e completava assim a obra de Paisii. Um havia tentado fazer reviver as glórias do passado, o outro havia descrito as sangrentas misérias do presente; ambos, em definitiva, haviam ajudado por meios diferentes a despertar a consciência nacional. Ver em L. Leger, La Bulgarie, in-12, Paris, 1885, p. 81-114, a tradução francesa das Memórias de Sophroni.
Essa consciência nacional foi, finalmente, tirada de seu torpor nos primeiros cinquenta anos do século XIX, graças aos esforços generosos e incessantes de impetuosos patriotas como Berovitch, que inventou o alfabeto búlgaro, como Veneline, Aprilof, Palauzof e tantos outros, que «lembraram ao mundo, seguindo o tocante epitáfio de um deles, uma nação esquecida, outrora gloriosa e poderosa, e cuja ressurreição haviam ardentemente desejado». A renascença literária germinou de seus numerosos trabalhos, não tardando a produzir a renascença religiosa e política.
Em janeiro de 1835, a cidade de Gabrovo via fundar-se, apesar da oposição do metropolita Hilarion, a primeira escola búlgara de ensino secundário, e um de seus primeiros mestres, o monge Néophyte, escrevia no prefácio de sua gramática o que repetem nos nossos dias os instrutores búlgaros: que era necessário abrir escolas antes de construir conventos, e compor manuais de literatura antes de ensinar o catecismo. No espaço de seis anos, viram-se abrir treze colégios ou liceus. Dez anos após a abertura da escola de Gabrovo, não se contavam menos de cinquenta e três. Ao mesmo tempo, tipografias búlgaras eram estabelecidas em Tessalônica, 1839, em Esmirna, 1840, em Constantinopla, 1843, enquanto continuavam a funcionar todas as que se encontravam no estrangeiro. O número de leitores crescia na razão mesma da abundância dos institutos pedagógicos; certas publicações, por volta de 1840, não contavam menos de dois mil subscritores.
«Assim, diz Jirecek, Geschichte der Bulgaren, p. 543, a regeneração do povo búlgaro tinha se cumprido no espaço de uma vida humana. A rapidez dessa metamorfose é verdadeiramente admirável. Ao começo do século XIX, podia-se ainda perguntar se os búlgaros se reergueriam; quarenta anos depois, havia por toda parte patriotas: negociantes, instrutores, eclesiásticos. Escolas nacionais fundavam-se em todas as cidades, os livros búlgaros se espalhavam aos milhares de exemplares, mesmo entre a população rural. Não era pela força das armas, nem pela efusão de sangue, mas pela ação pacífica do livro e do instrutor que se tinha cumprido essa revolução capital.»
O movimento nacional já tinha tomado tal força que não se podia mais detê-lo. É o que se pode constatar desde essa época, é sobretudo o que se verá no parágrafo seguinte na luta suprema que os búlgaros engajaram, a partir de 1860, contra os fanariotas. A supressão do patriarcado greco-búlgaro de Ocrida em 1767 não acarretou a das dioceses que lhe eram subordinadas.
No bérat de investidura que recebe da Sublime Porta o patriarca de Constantinopla, essas eparquias eram sempre assinaladas à parte como dependentes de Ocrida e ainda o são nos nossos dias. Uma única diferença tinha se introduzido: o patriarca ecumênico tinha substituído sua jurisdição pela do patriarca de Ocrida e era reconhecido, em seu lugar, como o verdadeiro metropolita. No schematismus que publicou em 1855 a Grande Igreja, contam-se ainda dez metrópoles que dependiam do antigo patriarcado de Ocrida, a saber: Castoria, Stroumnitza, Belgrado ou Bérat, Grévéna, Mogléna, Dibra, Vélés, Vodéna, Corytza e Phanariopharsale. Ver Rhallis e Potlis, Σύνταγμα τῶν θείων καὶ ἱερῶν κανόνων, t. V, p. 520. A atribuição de Farsala é surpreendente, pois essa diocese nunca tinha pertencido a Ocrida; quanto às outras sedes sufragâneas de Ocrida que faltam nesta lista, como: Pélagonia, Prespa, Sisanion, Gkora e Dyrrachium, tinham-lhe sido arrancadas para obter um grau mais elevado.
X. O CONFLITO GRECO-BÚLGARO. CRIAÇÃO DO EXARCADO, 1860-1872. — A luta, empreendida pelos búlgaros no terreno do ensino, devia se continuar no terreno religioso para redundar, enfim, na emancipação política. Sob este ponto de vista, o conflito que se convencionou chamar greco-búlgaro apresenta-se como um dos maiores eventos históricos do século XIX, visto que, com a ressurreição de um povo, levou ao desmoronamento de uma velha sociedade como o patriarcado ecumênico. Certamente! Como muito bem disse um fino conhecedor: «os documentos não faltarão ao historiador futuro desta emancipação religiosa: documentos em turco e em francês, peças em grego e em búlgaro, papéis oficiais e folhas privadas, impressos e manuscritos, firmans, iradés, bouyouroullis, takrirs, masbatas, notas, memórias, protestos, intimações, manifestos, encíclicas, sentenças patriarcais e sinodais, atos conciliares, panfletos», etc., Echos d’Orient, 1899, t. II, p. 276, mas, graças a Deus, o conhecimento de todos esses documentos não é indispensável para se fazer uma ideia bastante justa desse conflito, que durou doze anos em estado agudo e ainda não terminou.
O pretexto invocado pelos búlgaros para começar esse conflito foi a aplicação do famoso hatti-humayoum, 18 de fevereiro de 1856, que, ao mesmo tempo que concedia a liberdade religiosa aos raias, suprimia em princípio as rendas eclesiásticas. Imediatamente, as queixas das comunidades búlgaras afluíram à Sublime Porta contra seus chefes religiosos. Foram tão vivas e tão numerosas que o governo turco reclamou a reunião de uma assembleia nacional, composta de gregos e búlgaros, 1858, de modo a compreender entre seus membros o patriarca, 7 bispos e 38 delegados, dos quais 28 das províncias. Os gregos manobraram tão bem nas eleições preparatórias que obtiveram todos os mandatos, à exceção de quatro que couberam aos búlgaros, e desses quatro delegados um só pôde assistir à reunião e apresentar diante de todos as queixas muito legítimas de sua nação.
O golpe de mestre que os fanariotas imaginavam ter desferido na sessão de encerramento, 16 de fevereiro de 1860, ao repelir, sem sequer discuti-las, as reivindicações dos búlgaros, iria recair sobre sua nuca e atingi-los tanto mais forte quanto mais inveterados eram os rancores de seus adversários. Imediatamente gritos de maldição se elevaram de todo o território búlgaro, enquanto os protestos e as queixas contra a cupidez e a imoralidade do clero grego se faziam luz nos jornais e nas brochuras distribuídos gratuitamente. Em vários pontos do império turco, os bispos gregos foram expulsos e substituídos por administradores provisórios, enquanto os búlgaros da capital obtinham, no bairro de Gálata, a igreja de Santo Estêvão para realizar as cerimônias sagradas em língua eslavônica.
Não era suficiente. Em 3 de abril de 1860, dia de Páscoa, Hilarion, bispo titular de Macariopolis, celebrava a missa pontificalmente nessa mesma igreja e cessava, sob os aplausos da multidão, a comemoração canônica do patriarca. Este exemplo, caído de tão alto, encontrou numerosos imitadores; substituía-se por vezes o nome do Patriarca grego pelo do sultão, enquanto alhures se mencionava Hilarião, o verdadeiro chefe do movimento nacional. Quando Joaquim II foi elevado ao trono ecumênico, em 4 de outubro de 1860, em substituição a Cirilo VII, que renunciara, os revoltosos recusaram-se a reconhecê-lo.
O Fanar começou a inquietar-se com um conflito que tomava proporções alarmantes. Publicou, perto do fim de 1860, uma espécie de encíclica que, por seu tom violento e pela recusa em aceitar o menor compromisso, deveria ferir para sempre as consciências búlgaras. Em termos dos mais severos e injustos, Joaquim II censurava aos búlgaros: «a dissolução do vínculo que os unia aos outros povos ortodoxos, a sua separação dos seus irmãos espirituais, as igrejas usurpadas, o ódio contra a língua grega, ódio levado até à destruição dos Livros santos, excessos cometidos pelo espírito de partido e de fratricídio, violências inauditas, a proclamação de uma autoridade espiritual autocéfala e independente, que eles queriam inaugurar por sua própria vontade, ilegitimamente e contrariamente ao espírito dos cânones.» Hilarião, bispo titular de Macariópolis, e Auxêncio, bispo de Durazzo, foram considerados responsáveis e vistos como os fautores de todas essas desordens.
A esta diatribe, provocada pelo movimento de união que impelia então os búlgaros para a Igreja católica, os búlgaros responderam com um manifesto bastante detalhado. Após terem censurado o patriarca por haver reunido na sua carta «tudo o que a Idade Média pudera produzir de mais insensato, de mais injurioso e de mais indecente», vangloriavam-se de ter sacudido o jugo dos prelados gregos, rompido toda comunhão com eles e eleito para chefe espiritual o santíssimo bispo Hilarião, a quem haviam instalado na sua igreja nacional de Constantinopla. Desde nove meses, tinham-se separado do trono ecumênico, pelo próprio desígnio de Deus; não retomariam esse jugo senão quando satisfação completa houvesse sido concedida às suas demandas pela constituição de uma hierarquia nacional, ao mesmo tempo independente do patriarca grego e do papa. A excomunhão e a degradação pronunciadas contra Hilarião e Auxêncio, contra todos aqueles que eles haviam ordenado sem a permissão canônica, foi a única resposta do Fanar a este manifesto.
Esta grave decisão, tomada num sínodo ao qual assistiam, além de Joaquim II, quatro antigos patriarcas de Constantinopla, os titulares de Alexandria, de Antioquia e de Jerusalém, e vinte e um metropolitanos ou bispos gregos, 4 de fevereiro de 1861, longe de exercer uma influência salutar sobre as disposições dos descontentes, não fez, pelo contrário, senão exacerbá-los mais e empurrá-los a não ceder em nada das suas pretensões. Pareceu que o compreenderam no Fanar e notou-se que se tinha ido um pouco longe demais e, sobretudo, um pouco rápido demais. Já a nação se abalava em direção a Roma; a Rússia, inquieta ao ver constituir-se uma nação eslava católica, que cedo ou tarde lhe barraria a rota de Constantinopla, pressionava os gregos a recorrer a algumas concessões; a Porta ela mesma não via com bons olhos continuar uma agitação religiosa que podia um dia degenerar em revolução. Todas essas influências reunidas decidiram Joaquim II a abrandar um pouco a sua rigidez habitual, para oferecer aos revoltosos um arranjo em 15 artigos, 9 de março de 1861.
Propunha-lhes regular amigavelmente as relações da sua nação com o patriarcado. Membros do clero búlgaro seriam eleitos e ordenados metropolitanos e bispos nas metrópoles e bispados puramente búlgaros; uma escola de teologia seria estabelecida para a sua nação; em todas as escolas da Bulgária, o ensino da língua búlgara precederia todos os outros estudos; dois metropolitanos búlgaros seriam membros do santo-sínodo; todos os ofícios seriam celebrados em eslavônico nas metrópoles e nos bispados puramente búlgaros, etc.
A este regulamento em 15 artigos, que não os satisfazia em quase ponto nenhum, os búlgaros opuseram outro em 8 artigos, que vinte e oito dos seus delegados, março de 1861, foram encarregados de entregar ao ministro turco competente. Propunham que, nas circunscrições exclusivamente búlgaras, não se nomeassem senão bispos búlgaros; que, nas circunscrições mistas, os prelados fossem eleitos pelos fiéis por maioria de votos; que as relações com o patriarca não tivessem trato senão com os assuntos puramente religiosos; que o sínodo fosse composto em número igual de gregos e búlgaros; que um arcebispo búlgaro residente em Constantinopla servisse de intermediário permanente entre o clero búlgaro e o patriarcado; que fosse criado na capital um conselho búlgaro, formado por metade de padres e leigos e ao qual seria confiada a gestão dos interesses búlgaros, sob a presidência de um funcionário otomano; enfim, que um membro leigo deste conselho fosse reconhecido como chefe civil da nação nas suas relações com o governo.
Por toda resposta, o Fanar, que conservava ainda a jurisdição civil sobre todos os ortodoxos, fez internar em diferentes cidades da Ásia Menor os três principais mentores, a saber: Hilarião, Auxêncio e Paisios de Filipópolis, 11 de maio de 1861. A Porta, que se tinha mostrado severa em relação a essas reclamações, acabou ela mesma por pedir um entendimento: uma comissão de seis gregos e de seis búlgaros foi nomeada a 30 de julho de 1862 para examinar os oito artigos. Não obteve qualquer resultado. Este fracasso foi em grande parte atribuído à obstinação de Joaquim II, que tinha, desde o início, levado as coisas ao extremo; foi deposto em 21 de julho de 1863 e substituído, em 2 de outubro seguinte, por Sofrônio III.
Com este novo patriarca, as negociações recomeçaram. Um congresso, composto de gregos e de bispos búlgaros, reuniu-se a 5 de março de 1864 para examinar a carta apresentada pelos dissidentes; após quatro meses de deliberações, o acordo não pôde ainda estabelecer-se. Diante da má vontade dos fanariotas, os búlgaros resolveram recorrer a todos os meios. Não contentes em não reconhecer os bispos e os padres escolhidos pelo patriarcado grego, e em não mais pagar as taxas eclesiásticas, puseram-se a expulsar os prelados fanariotas, como em Vidin em 1864, em Roustchouk em 1865, em Tirnovo em 1867, em Monastir em 1868; daí, os conflitos incessantes quer com as autoridades religiosas, quer com as autoridades civis, que tomavam por vezes partido excessivo pelos gregos.
A instalação de vários milhares de circassianos muçulmanos, transplantados pelos turcos do Cáucaso para as regiões balcânicas, e as mil depredações que se seguiram, juntadas a rearranjos administrativos e territoriais, agravaram ainda esta situação, que pareceu de então em diante insustentável. O movimento separatista acentuava-se dia após dia e estendia-se a quase todas as aldeias; os eclesiásticos de ambos os partidos chegavam às vias de fato para disputar o serviço das paróquias, e os turcos, assustados com a atitude provocadora que a Rússia adotava em favor de seus irmãos eslavos, recusavam aos bispos gregos o concurso da força armada para recolocá-los na posse das igrejas e das casas paroquiais tomadas.
Para remediar todos esses distúrbios, os gregos depuseram o patriarca Sofrônio III, em 16 de dezembro de 1866, e substituíram-no, em 22 de fevereiro de 1867, por Gregório VI, que subia pela segunda vez ao trono ecumênico. Este patriarca submeteu, no mês de agosto de 1867, um novo projeto ao grão-vizir. Consentia em instituir um metropolita ostentando o título de exarca de toda a Bulgária. Mas, como a autoridade desse dignitário devia ser restrita ao vilaiete do Danúbio, isto é, ao território compreendido entre o Danúbio e os Bálcãs, de um lado, o mar Negro e a Sérvia, do outro lado, os búlgaros recusaram, por sua vez, subscrever este arranjo no qual viam uma armadilha, armada com o objetivo de fazê-los reconhecer publicamente que não existia Bulgária fora dos limites pretensos. Ademais, os turcos jamais teriam consentido na criação de um exarcado exclusivamente situado na Bulgária, que teria tido, segundo toda a probabilidade, sua sede em Tirnovo e teria lembrado excessivamente aos búlgaros que existira na Idade Média um império com esse nome.
Em outubro de 1868, a Sublime Porta submeteu ao patriarcado ecumênico dois novos projetos, desejando que se adotasse um ou outro, a menos de encontrar uma terceira combinação que pudesse reunir o assentimento das duas partes. Segundo esses projetos, os búlgaros teriam tido o direito de estabelecer um metropolita em cada vilaiete e um bispo em cada sanjaco, mas sob a condição de que esses bispos não residissem nas cidades onde já se encontravam prelados gregos e que portassem o título de sua residência efetiva.
Os gregos permaneceriam submetidos aos chefes espirituais de sua nacionalidade e os búlgaros aos da sua, a menos de pedido em contrário. Estes últimos teriam, ainda, em Constantinopla um chefe eclesiástico e um sínodo; sua igreja formaria um corpo à parte para tudo o que concerne à escolha dos chefes e à administração espiritual, etc.
No fundo, os dois projetos da Porta assemelhavam-se, a ponto de confundir, ao que fora apresentado por Gregório VI, à exceção, contudo, de uma cláusula, que suscitou por parte do Fanar uma resistência invencível: a residência em Constantinopla do chefe da igreja búlgara, isto é, na própria cidade do patriarca. Não eram, todavia, os búlgaros que a tinham reclamado; eles faziam muita questão de que seu chefe residisse em uma de suas antigas capitais, seja Ocrida, seja Tirnovo, mas os turcos, que, sob o pretexto de conceder a autonomia de uma Igreja, temiam sempre favorecer a constituição de uma Bulgária independente, não queriam a nenhum preço um exarca no coração mesmo da Bulgária.
Em consequência, em 28 de novembro de 1868, o patriarca e seu sínodo responderam que rejeitavam as duas alternativas postas, como contrárias ao dogma, ao Evangelho e ao direito canônico, que um concílio geral era o único apto a resolver a questão búlgara e a decidir a criação de uma Igreja local e que, quanto a eles, tinham ido até o limite de seus direitos. Ao mesmo tempo em que informava a Porta desta decisão, Gregório VI endereçava uma carta encíclica a todos os chefes das Igrejas ortodoxas para consultá-los sobre a oportunidade de um sínodo ecumênico.
A ideia desta reunião foi aceita pelas Igrejas de Jerusalém, de Antioquia, de Chipre, da Grécia e da Romênia; o metropolita de Belgrado pronunciou-se em favor dos búlgaros; quanto à Igreja russa, menos independente do poder civil, ela rejeitou a proposta de um concílio, sem dúvida para escapar à alternativa ou de condenar a atitude de seu governo ou de permanecer isolada na assembleia ecumênica. A oferta de Gregório VI tornava-se, portanto, irrealizável, embora os búlgaros a tivessem aceitado com alegria e consentido em que seus sete bispos se reunissem em Constantinopla com notáveis para discutir as propostas do Fanar.
Então, a Porta tentou um arranjo direto entre as duas partes, formando uma comissão de três gregos e três búlgaros, em 1869; três projetos sucessivos do grão-vizir, Ali Paxá, fracassaram contra a oposição de um ou de outro campo. O acordo não pôde, em particular, estabelecer-se a respeito de quatro pontos, que Gregório VI exigia e que os búlgaros repeliam absolutamente: representação de sua nação junto à Porta pelo patriarca grego, nomeação pelo referido patriarca dos metropolitas e dos bispos búlgaros, menção do nome do patriarca nas orações de todas as igrejas, enfim, cessão aos gregos de várias eparquias contestadas, nomeadamente Filipópolis.
Ademais, Gregório VI tinha-se comprometido por si mesmo sem o consentimento explícito de sua nação e, quando, em 30 de junho de 1869, anunciou ao sínodo e ao conselho reunidos as concessões por ele consentidas, seguiu-se tal tempestade que vários membros apresentaram sua demissão. Enquanto isso, o conflito continuava e a exaltação dos espíritos na Bulgária estava no ponto mais alto. Para pôr fim a uma agitação inquieta por si mesma e que, a seus olhos, fazia o jogo da diplomacia russa, o governo turco decidiu liquidar o debate.
Em 28 de fevereiro/12 de março de 1870, um sábado à noite, Ali Paxá convocava a sua casa os representantes gregos e búlgaros e entregava-lhes um firman imperial expedido na véspera, 11 de março. Por este firman, a Porta instituía um exarcado búlgaro, fora do patriarcado ecumênico, fazendo assim reviver as tradições antigas e sempre tão caras ao coração das Igrejas orientais. Ela pensava assim favorecer antes o eslavismo otomano do que o pan-eslavismo russo, a autonomia religiosa concedida aos búlgaros devendo, a seu aviso, frustrar as especulações pan-eslavistas de São Petersburgo. Os acontecimentos ocorridos desde então deram-lhe, de certa forma, razão.
Eis as principais cláusulas do firman de 11 de março: «Uma jurisdição especial formada sob o título de exarcado e compreendendo as dioceses metropolitanas e os bispados, cuja lista segue, será encarregada da administração de todos os assuntos espirituais da comunidade búlgara. O exarca terá a presidência canônica do sínodo búlgaro, reunido a título permanente junto a ele. O exarcado será gerido segundo um regulamento conforme aos cânones fundamentais da Igreja ortodoxa e que será concebido de forma a impedir a intervenção do patriarcado ecumênico nos assuntos dos monges, nas eleições dos bispos e do exarca. O patriarca de Constantinopla entregará ao exarca búlgaro as cartas de confirmação exigidas pelo rito ortodoxo.» A liturgia búlgara respeitará os cânones e mencionará o nome do patriarca.»
Oficialmente notificado do ato soberano que lhe retirava três ou quatro milhões de fiéis, Gregório VI declarou-o anticanônico e atentatório aos privilégios e às imunidades da sede ecumênica. Ele insistiu novamente na necessidade de reunir um «concílio ecumênico, única autoridade competente para emitir uma decisão válida e obrigatória para ambas as partes». Ali Pasha replicou por uma carta de 28 de março, na qual, embora justificasse a conduta de seu governo, julgava inútil submeter o caso a novas deliberações. Já a autoridade turca via-se obrigada a recorrer à força para fazer com que os búlgaros aceitassem os metropolitas e os padres gregos, que eles não queriam a nenhum preço; este estado de coisas durava tempo demais, a Porta não podia colocar-se por mais tempo em oposição aos princípios de alta proteção que concedia a todos os seus súditos.
A esta carta, Gregório VI respondeu por um novo protesto contra as palavras de Igreja búlgara, não tendo a Igreja jamais reconhecido nacionalidades em seu seio; contra a intervenção do poder civil, incompetente em matéria religiosa; contra o reconhecimento de uma segunda Igreja ortodoxa na Turquia da Europa, devendo todos os ortodoxos, sem distinção de raça, depender do patriarcado ecumênico; então, após ter recusado aceitar uma solução contrária aos direitos e aos privilégios da Igreja, ele insistiu «na convocação de um concílio ecumênico, rogando ao governo imperial que tivesse a bondade de revestir este pedido de sua sanção soberana».
Não tendo a Porta levado em conta esta reclamação, o patriarca, por uma resolução enérgica que o honra, apresentou dignamente sua demissão, em 22 de junho de 1870. Sob Anthime VI, sucessor de Gregório VI, em 17 de setembro de 1870, tentativas para uma aproximação direta foram retomadas, mas sempre sem sucesso. O statu quo poderia ter-se prolongado por longos anos sem um incidente que ateasse fogo ao paiol.
No dia da Epifania, 6/18 de janeiro de 1872, três bispos búlgaros, instigados pelos seus nacionais, decidiram celebrar pontificalmente em sua igreja de Gálata, apesar da proibição do patriarca grego; poucos dias depois, a pedido do Phanar, eles foram exilados para Ismidt e a Porta proibia a celebração dos ofícios na igreja búlgara de Constantinopla, enquanto o patriarca excomungava nominalmente os culpados. O triunfo dos gregos durou pouco mais de uma semana. Os tumultos levantados pelos búlgaros forçaram os turcos a trazer de volta os exilados a Constantinopla em um navio de guerra, quase em triunfo, e a Porta intimava em seguida o patriarcado a executar o firman imperial de 11 de março de 1870 dentro de vinte e quatro horas. Tendo a assembleia grega respondido com propostas inaceitáveis, o grão-vizir retrucou: «Atendido que o patriarcado faz tudo o que pode para provocar uma separação entre o povo grego e o povo búlgaro, o firman imperial é posto em execução e o exarcado búlgaro é estabelecido. Toda a responsabilidade recai sobre o patriarcado, que levou as coisas a este ponto.»
Munida da autorização requerida para eleger o exarca, a Assembleia nacional búlgara votou, desde o primeiro turno de escrutínio, em Hilarion, o primeiro campeão da independência religiosa, em 23 de fevereiro de 1872; mas, como este era pessoalmente excomungado, para não levar as coisas ao extremo, ele apresentou sua demissão em 28 de fevereiro e elegeu-se em seu lugar Anthime, bispo de Viddin. Na sequência desta escolha, o patriarca Anthime VI informava o grão-vizir que não podia reconhecer a eleição do exarca, que todo ato de sua parte seria considerado por ele como anticanônico e ilegal, e que ele se reservava o uso das medidas eclesiásticas empregadas em semelhante ocorrência. A Porta contentou-se em promulgar um iradé que sancionava a eleição do exarca Anthime. Este não tardou, aliás, a dirigir-se a Constantinopla, onde foi recebido como um triunfador. Admitido em audiência pelo sultão, ele tentou por três vezes ter uma entrevista com Anthime VI, mas em vão; pediu-lhe então a autorização para celebrar o dia de Páscoa e não obteve qualquer resposta, em 16 de abril de 1872. Absteve-se, contudo, de qualquer cerimônia eclesiástica até 23 de maio de 1872, festa dos santos Cirilo e Metódio, os apóstolos dos eslavos, quando oficiou pontificalmente e deu, ao fim da cerimônia, leitura de um ato que proclamava a autonomia religiosa dos búlgaros. Desta vez, a separação hierárquica estava plenamente consumada.
A este desafio, o Phanar respondeu com a injunção de ter de se submeter no prazo de trinta dias e a convocação de um concílio. Este foi realizado em Constantinopla, «na igreja patriarcal do glorioso mártir são Jorge o Vitorioso... durante os meses de agosto e setembro (v. s.) do ano da graça 1872.» Em suma, este pretendido concílio das Igrejas ortodoxas não pode, a nenhum título, gozar de ecumenicidade. Com efeito, contava apenas com o patriarca de Constantinopla, Anthime VI, três de seus predecessores, Sofrônio, patriarca de Alexandria, Hieroteu, patriarca de Antioquia, Sofrônio, arcebispo de Chipre, enfim 25 metropolitas ou bispos do patriarcado ecumênico. O patriarca de Jerusalém, Cirilo, que se encontrava em Constantinopla, recusou-se a comparecer e embarcou precipitadamente para a Palestina, a fim de não se imiscuir neste forfait. Além disso, não se endereçara qualquer convite regular às Igrejas sérvia, romena e montenegrina, que faziam ainda parte do império otomano, nem tampouco às Igrejas autocéfalas de São Petersburgo, de Atenas, de Carlovitz, de Sibiu e de Tchernovitz.
O concílio teve em vão, durante as três sessões plenárias oficiais dos dias 10, 24 e 28 de setembro de 1872, pronunciar a excomunhão contra os búlgaros e declarar fundamentalmente cismáticos os adeptos do filetismo, isto é, do nacionalismo, pois suas decisões não foram de modo algum reconhecidas e aprovadas pelas outras Igrejas autocéfalas. À parte a Igreja do reino helênico, demasiado interessada em seguir seus compatriotas, as outras se retrincheiraram atrás do silêncio ou opuseram uma recusa formal. Os bispos e os metropolitas do patriarcado de Antioquia, reunidos em Beirute, desautorizaram publicamente seu patriarca e manifestaram que sua Igreja se separava, neste ponto, de seu pastor. O patriarca de Jerusalém fez ouvidos moucos a todas as aberturas do Phanar, a Igreja romena não aderiu à sentença, a Igreja russa expressou uma censura pública ao concílio, e o metropolita sérvio, Miguel, declarou que não podia romper os laços comuns da fé, da raça e da língua, que uniam sua nação à dos búlgaros.
O patriarcado ecumênico, uma vez mais, encontrava-se, portanto, isolado; sua precipitação causara sua perda, seu obstinação causará sua ruína. Há mais de trinta anos os búlgaros foram declarados cismáticos, sem que essa condenação lhes tenha causado o menor prejuízo. Pelo contrário, esse fosso aberto entre eles e os gregos permitiu-lhes reconhecer mais facilmente os seus compatriotas e dedicar-se a essa propaganda ativa que, em trinta anos, decuplicou as suas forças. Ademais, a razão alegada para essa condenação, sob o nome especioso de filetismo, não oculta senão um motivo de interesse nacional. Sobre quais provas teológicas podem os gregos basear a sua sentença de excomunhão contra os búlgaros? Sobre nenhuma. O patriarcado búlgaro de Ocrida, o de Tarnovo, tinham-se constituído de maneira canônica pela aprovação do papa e do patriarca grego de Constantinopla; a sua supressão devia-se apenas à intriga e à rapacidade dos gregos, sempre inclinados a confundir a ortodoxia com o helenismo. O que os gregos tinham destruído em 1393 e em 1767, em Tarnovo e em Ocrida, com o apoio comprovado dos turcos, os búlgaros, em 1870, com a ajuda desses mesmos turcos, estavam perfeitamente no direito de reconstruir.
XI. O PERÍODO CONTEMPORÂNEO, 1872-1903.
O 10.º artigo do firmã de 11 de março de 1870 submetia ao exarcado búlgaro as catorze metrópoles seguintes: Rustchuk, Silistra, Choumla, Tarnovo, Sófia, Vratsa, Lovech, Vidin, Nisch, Nyssava ou Pirot, Kustendil, Samokov, Veles e Varna, salvo as localidades cuja população não era de fato búlgara. Para os detalhes, ver os Echos d’Orient, 1899, t. 1, p. 278.
Além dessas regiões dadas em bloco e sem demora, o ato do sultão Abd-ul-Aziz prometia ao exarcado todos os distritos e todas as localidades cujos dois terços pelo menos da população ortodoxa pedissem para se destacar do patriarcado. Havia aí, para o futuro, uma soberba oportunidade de expansão. Fecundada pelo trabalho da propaganda, a promessa de Abd-ul-Aziz deveria permitir um dia pôr a mão sobre a maior parte da Rumélia turca.
Foi verdadeiramente a partir de 23 de maio de 1872 que Anthime de Vidin inaugurou as suas funções de exarca. Pouco depois, sagrava Dosithée metropolita de Samokov, nomeava Hilarion de Macariopolis metropolita de Tarnovo; foi então a vez de Victor para Nyssava, Syméon para Preslav, Grégoire para Silistra. Os berats foram concedidos pela Porta a esses prelados, embora ainda houvesse bispos gregos nas suas dioceses.
A proclamação solene do cisma pronunciada pelo Fanar obrigava então Anthime a endereçar uma encíclica a todos os fiéis búlgaros, para os incitar a não se assustarem com essa pena canônica, absolutamente sem alcance sobre eles, desde que permanecessem na Igreja ortodoxa. Na mesma ocasião, o exarca endereçava uma nota concebida no mesmo sentido a todas as Igrejas autocéfalas, para lhes dar a conhecer a decisão do povo búlgaro de permanecer ortodoxo, contra tudo e contra todos.
Contudo, o patriarcado ecumênico teria desejado que o sultão introduzisse a palavra cismático no firmã de investidura concedido ao exarca e nos berats concedidos aos metropolitas búlgaros; do mesmo modo, envidou todos os esforços para que se obrigasse os padres búlgaros a modificar o seu traje, de forma que se pudesse facilmente distingui-los dos padres gregos e deter assim a sua propaganda. Talvez a Porta tivesse cedido não fossem as resistências invencíveis do exarca, da imprensa e do povo búlgaros; pelo menos, ela não deu os berats senão com dificuldade e apenas para um pequeno número de dioceses.
A luta travou-se sobretudo nas eparquias que possuíam ainda bispos gregos e cuja maioria da população era, contudo, búlgara. Como o Fanar e a Porta se recusavam a retirar os déspotas gregos, o exarca passou por cima dessa oposição e, em novembro de 1873, por sua própria iniciativa, enviava bispos búlgaros para essas dioceses, entre outras para Adrianópolis e para Salônica. O patriarcado ecumênico endereçou um protesto enérgico à Porta, que exigiu o repatriamento imediato desses prelados. O bispo de Adrianópolis submeteu-se e voltou para se fixar em Orta-Keui; o de Salônica, que tinha estabelecido a sua residência em Koukouch, resistiu e tornou-se católico com uma boa parte dos seus diocesanos.
As numerosas mudanças de ministério que caracterizam esse período da história turca traziam viravoltas súbitas da opinião, quer a favor dos gregos, quer a favor dos búlgaros. Sob o governo de Réchid Paxá, estes últimos obtiveram um sínodo e um conselho misto para regular os assuntos eclesiásticos, com residência em Orta-Keui; pouco depois, recebiam berats para as dioceses de Uskub e de Ocrida na Macedônia, 1872. É verdade que, durante os distúrbios de 1876 e 1877, os bispos dessas duas dioceses, assim como o de Veles, tiveram de se refugiar na Bulgária e foram em seguida substituídos por gregos; mas o direito dos búlgaros não tinha sido por isso menos formalmente reconhecido, e é esse direito que a Porta muito justamente repôs em vigor no mês de agosto de 1890.
O novo patriarca grego, Joaquim II, 1873-1878, desejava um entendimento, mas um entendimento que não ferisse em nada as decisões do grande concílio de 1872; por seu lado, o exarca Anthime procurava um terreno de conciliação, mas de maneira a não lesar os interesses dos seus fiéis. Houve assim tratativas e negociações até 1876, onde os eventos políticos levaram a atenção para outro lado.
De todos os Estados subjugados na Europa pelos muçulmanos, a Bulgária tinha sido a mais completamente escravizada. Mais próxima da sede do governo, ela teve de se curvar ao mesmo tempo sob o jugo feudal, político e religioso, dos spahis, dos paxás e do clero fanariota. Certamente! Em 1876, o búlgaro professava mais abertamente o seu culto, não era mais despojado dos seus bens e privado da sua liberdade tão arbitrariamente como outrora, mas a sua segurança, assim como a sua fortuna, dependiam sempre da honestidade pessoal dos paxás; é dizer que uma e outra estavam muito comprometidas.
No mês de maio de 1876, um movimento insurrecional produziu-se nos arredores de Philippopoli; imediatamente o governo turco organizou uma repressão sangrenta. Aldeias inteiras foram destruídas com a sua população, sem distinção de idade nem de sexo, pelos circassianos e pelos bachibouzouks. Entregues à ferocidade desses bandidos, quinze a vinte mil cristãos pelo menos pereceram nesse terrível drama. Seguiu-se tal comoção nas províncias balcânicas, que eram todas trabalhadas por uma febre de independência, que a guerra eclodiu entre a Rússia, a sua protetora natural, e a Turquia, 1877.
A Turquia foi vencida e constrangida a aceitar, em 3 de março de 1878, em San Stefano, a 15 quilômetros de Constantinopla, um tratado oneroso, que constituía a suas expensas a Grande Bulgária. Essa principado búlgaro, submetido ainda à suserania do sultão, estendia-se do mar Negro às montanhas da Albânia, e do Danúbio ao mar Egeu, englobando quase toda a Macedônia.
Não passou de um sonho. A conferência de Berlim, reunida alguns meses depois, 13 de junho-13 de julho de 1878, revisava e destruía em parte as decisões de San Stefano. Em vez de uma Grande Bulgária, que compreendia 163.965 quilômetros quadrados, teve-se: um principado búlgaro, que não tinha mais que 64.390 quilômetros quadrados; uma província autônoma, a Rumélia Oriental, compreendida entre os Bálcãs, o Rhodope e o mar Negro, e colocada sob a autoridade de um governador-geral cristão, nomeado por cinco anos pela Sublime Porta com o assentimento das potências; enfim, duas províncias, a Macedônia e uma parte da Trácia, que retornaram à Turquia e não obtiveram outros benefícios senão a estipulação de reformas administrativas.
O exarcado búlgaro saiu um pouco diminuído do tratado de Berlim. Com efeito, por conta do concurso dado aos exércitos russos, a Sérvia estendia sua jurisdição sobre a quase totalidade das velhas eparquias fanariotas, das quais Nisch e Pirot formavam anteriormente o centro sob os nomes grecizados de Nyssa e de Nyssava, enquanto a Romênia, ao receber a Dobruja, incorporava cantões que pertenciam em 1870 às metrópoles gregas de Silistria e de Varna.
Durante a guerra russo-turca e as «atrocidades búlgaras» que a precederam, a posição do exarca Anthime tornou-se das mais difíceis. Apesar da animosidade e da hostilidade mais ou menos aberta que lhe testemunhava o governo turco, ele não cessou um instante de interceder pelas vítimas. Ele comprometeu-se mesmo a tal ponto que o patriarca armênio-católico, Mgr Hassoun, recomendou-lhe mais prudência, a fim de não incorrer no mesmo destino que o patriarca grego, Gregório V. «Que seja antes assim! replicou Mgr Anthime. É o martírio de Gregório V que fundou a independência da Grécia. Possa o meu sangue obter a libertação da minha pátria!» Seu desejo estava em parte por se realizar. À força de excitar a Sublime Porta contra o exarca, de colocar sob seus olhos e de recordar-lhe a conduta ambígua deste último, os gregos e mesmo alguns búlgaros vendidos ao patriarcado ecumênico acabaram por obter a deposição e o exílio de Mgr Anthime em um canto da Ásia Menor.
Esse exílio prolongou-se até depois da guerra russo-turca, quando o príncipe russo Nicolau obteve-lhe a faculdade de retornar à sua eparquia de Viddin. Ele lá permaneceu até a sua morte, 1888, após ter tomado grande parte na administração dos negócios eclesiásticos de seu país.
O primeiro exarca uma vez deposto, deram-lhe como sucessor, em 4 de maio de 1877, Mgr Joseph, bispo de Loftcha, que se encontra ainda hoje à frente da Igreja búlgara. Nascido em 1840 e aluno dos lazaristas no colégio de Bébek, perto de Constantinopla, o futuro exarca foi estudar direito em Paris. Tornou-se em seguida funcionário turco, primeiro secretário do sínodo e do conselho misto exarcal, monge em 1872, protosincelo do exarcado e administrador do bispado de Viddin. No mês de fevereiro de 1876, ele era sagrado metropolita de Loftcha, depois designado como sucessor de Mgr Anthime, mantendo ao mesmo tempo seu primeiro título episcopal.
A suspeita que nutria a Sublime Porta por tudo o que era búlgaro não permitiu ao novo exarca ocupar seu posto em Orta-Keui. Fixado em Filipópolis, a capital da Rumélia Oriental, ele teve de esperar que aprouvesse a Abd-ul-Hamid II chamá-lo a Constantinopla e aproveitou esse repouso forçado para estabelecer sua jurisdição sobre a Bulgária e sobre a Rumélia autônoma.
A situação da Igreja búlgara nas províncias que relevavam ainda da Sublime Porta foi das mais críticas durante esse período. Nem um bispo podia habitar a Trácia e a Macedônia, tendo os metropolitas de Uskub, de Vélés e de Ochrida se refugiado na Bulgária desde o início dos distúrbios e não se preocupando muito em retornar às suas dioceses. Seu poder passou naturalmente aos bispos gregos do local, enquanto sua ausência facilitava a propaganda dos uniatas e dos missionários protestantes. A esses motivos de ordem religiosa juntava-se outro de ordem política. Os muçulmanos que habitavam o principado independente deixavam em massa essa terra caída entre as mãos dos cristãos para se refugiar no território do padixá, e lá, eles devolviam ao centuplo aos infelizes búlgaros as aviltamentos e as espoliações que acreditavam ter sofrido da parte de seus compatriotas.
Vendo sua atividade quase limitada na Turquia, não podendo fazer nada por seus padres e impotente para adoçar a infortúnio de seu povo, o exarca Joseph ocupou-se em reparar na Rumélia Oriental as ruínas que a guerra havia acumulado e em atender a todas as necessidades que uma situação nova havia criado. Ele organizou a Igreja nessa província sobre as bases de um regulamento orgânico, melhorou a posição do clero e esforçou-se por torná-la compatível com as condições políticas dessa região, que queria a todo custo operar sua união com a Bulgária.
Em 10/22 de fevereiro de 1879 reuniu-se em Tirnovo a primeira assembleia dos notáveis búlgaros. Foi Mgr Anthime, o primeiro exarca, que presidiu a comissão encarregada de elaborar a constituição, da mesma forma que foi ele quem presidiu a sessão na qual Alexandre de Battenberg foi eleito príncipe da Bulgária sob o nome de Alexandre Iº, 29 de abril de 1879.
O clero búlgaro, cujos altos representantes sentavam-se por direito na Câmara, podia esperar que seus patrióticos serviços lhe merecessem algum favor assinalado; não foi nada disso. Longe de encontrar junto à autoridade civil o apoio que esperava, chocou-se com todo tipo de dificuldades da parte do governo. Este não perdia uma ocasião de se imiscuir nos negócios da Igreja, esforçava-se por lhe dar uma direção contrária às suas leis, não queria inserir na constituição nenhuma cláusula de favor para a religião ortodoxa, e sobretudo zelava para que o exarca não se estabelecesse nem em Sófia, nem em Filipópolis, por medo de que a liberdade dos ministros fosse tolhida por sua presença.
Um primeiro conflito eclodiu desde 1879. O governo teria desejado que o exarca se entendesse com a Sublime Porta a respeito dos direitos que possuíam os metropolitas de Samokof e de Kustendil sobre as porções de suas dioceses devolvidas à Turquia pelo tratado de Berlim. Mgr Joseph, achando a questão inoportuna, recusou-se a tratar dela. Daí, uma inimizade cada dia crescente e que terminou por se traduzir, da parte do governo, por toda uma série de medidas contra o alto clero. O tratamento dos bispos foi reduzido pela Câmara dos deputados; em vez de 200.000 francos, o exarca não recebeu mais que 50.000, que, de fato, limitaram-se a 30.000. Ao mesmo tempo, eram introduzidas no regulamento orgânico tais modificações que o alto clero protestou. Então, o ministro Zankof, sem pedir a menor aprovação a ninguém, elaborou regras provisórias e rogou a todos os bispos que as colocassem em execução, até que um acordo fosse estabelecido entre eles e o governo. Esta pretensão ridícula chocou-se contra uma recusa enérgica e a crise religiosa, aberta por este abuso de poder, só se encerrou em 1883, quando Stoilof, sob o ministério conservador Sobolet, permitiu promulgar um novo regulamento orgânico.
Em 18 de setembro de 1885, a Rumélia Oriental anunciou sua união com o principado da Bulgária e, no dia 20, em uma proclamação datada de Tirnovo, Alexandre I assumiu o título de príncipe da Bulgária do Norte e do Sul. Esta revolução, prevista há muito tempo e realizada de uma maneira totalmente pacífica, parecia, ao trazer 35.000 quilômetros quadrados a mais para a Bulgária, romper a seu favor o equilíbrio dos principados balcânicos. A Sérvia declarou guerra à Bulgária em 14 de novembro de 1885; foi derrotada e o tratado de paz, assinado em Bucareste, a 3 de março de 1886, deixou a Rumélia Oriental aos búlgaros, mas sem conceder-lhes qualquer indenização de guerra.
Este ato de emancipação dos búlgaros valeu-lhes a hostilidade do tsar Alexandre III. A Rússia, que teria querido manter sob tutela sua jovem irmã eslava o mais tempo possível, havia convocado imediatamente seus oficiais e foi com sua cumplicidade tácita, se não declarada, que, na noite de 20 para 21 de agosto de 1886, uma conspiração militar eclodiu em Sofia e forçou o príncipe Alexandre I a abdicar. Convocado alguns dias depois pelos votos unânimes da nação, Alexandre I teve que renunciar definitivamente ao trono em 7 de setembro do mesmo ano, para não envenenar inutilmente as relações já muito tensas entre a Bulgária e a Rússia.
Uma regência, composta por seus amigos e na qual o rude Stamboulof desempenhava o primeiro papel, assumiu os negócios do Estado; conseguiu reprimir o movimento russófilo, suscitado pelo clero e que levava a Bulgária longe de seus destinos, e, após peripécias inauditas, fez eleger pelo Sobranié, em 7 de julho de 1887, Fernando de Saxe-Coburgo como príncipe da Bulgária. Este teve a coragem, apesar das dificuldades da situação interna e da oposição da Europa, de aceitar o título que lhe era oferecido e tomou posse do trono principesco em 14 de agosto de 1887.
Stamboulof assumiu a presidência do ministério e a manteve até o mês de maio de 1894. Foi uma terrível ditadura, dirigida sobretudo contra o alto clero que, por intermédio de Monsenhor Clément, metropolita de Tirnovo, havia trabalhado pela queda de Alexandre I e que, hoje, pregava a insubordinação contra o novo príncipe e seus ministros. Vários bispos, Clément à frente, recusavam-se a nomear Fernando I nas orações públicas, sob pretexto de que era católico; foram alvo de medidas de rigor e o chefe dos rebeldes, Monsenhor Clément, foi destituído, em 1887, e internado em um convento.
Em janeiro de 1889, os metropolitas de Vratsa, Tirnovo e Varna reuniram o sínodo em Sofia, após terem se abstido, à sua chegada, de saudar o príncipe e seus ministros; foram expulsos à força durante a noite e o santo sínodo permaneceu suprimido até 1894. Tendo o exarca encorajado, sob mão, esta resistência do clero, Stamboulof pensou um momento em destituir todos os prelados recalcitrantes e em separar os bispos que permaneceram fiéis ao príncipe do exarcado de Constantinopla.
Mas onde esta oposição surgiu foi, sobretudo, por ocasião do casamento do príncipe. Embora, de acordo com o artigo 38 da constituição, o príncipe devesse pertencer à religião ortodoxa, Fernando permaneceu católico. Noivo de Maria Luísa de Bourbon, duquesa de Parma, desejava que seus filhos fossem criados na religião católica. Stamboulof encarregou-se, apesar das intrigas da Rússia, de obter dos búlgaros este sacrifício, que lhes parecia impossível; a revisão da constituição foi votada pela quase unanimidade pelo Sobranié, em dezembro de 1892, e depois pela grande Assembleia Nacional, a 27 de maio de 1893.
Em 20 de abril de 1893, o casamento do príncipe foi abençoado em Villa Pianore, na Itália, pelo arcebispo de Lucca, e Fernando I expressou, em um telegrama ao papa Leão XIII, toda a sua alegria de fundar na Bulgária uma dinastia católica. Em 30 de janeiro de 1894, nasceu o príncipe Boris, que recebeu o batismo, em 4 de fevereiro seguinte, das mãos de Monsenhor Menini, arcebispo católico de Filipópolis.
Protestos elevaram-se contra a conduta do príncipe e dos ministros, seja da parte do exarca, seja da parte dos metropolitas. Stamboulof não se importou; fez mesmo, em fevereiro e março de 1894, levar ao tribunal e condenar a três anos de prisão Monsenhor Clément por suas intemperanças de linguagem contra o príncipe. A demissão do terrível ministro, em 30 de maio de 1894, permitiu à Igreja búlgara ortodoxa respirar mais livremente.
Nos primeiros dias de julho de 1895, encontramos Monsenhor Clément na Rússia, à frente de uma deputação búlgara, a conjurar o tsar Nicolau II a «perdoar ao principado a ingrata conduta que tinha tido vis-à-vis dos seus libertadores». Este perdão foi concedido benevolamente, ao preço de uma apostasia. Em 2/14 de fevereiro de 1896, Fernando, para dar satisfação aos ortodoxos, consentiu que seu filho, o príncipe herdeiro Boris, recebesse solenemente a confirmação das mãos do exarca José, na presença de todos os metropolitas búlgaros e de um enviado especial da Rússia.
Em 14 de março seguinte, um firman de Abd-ul-Hamid II confirmou o príncipe Fernando e nomeou-o governador-geral da Rumélia Oriental. As potências europeias reconheceram-no imediatamente. Tudo foi, desde então, no mundo oficial, voltado à russificação da Igreja búlgara. Para comprazer a Rússia, o príncipe tinha mesmo aceitado, em 1896, um arranjo, conforme talvez aos seus interesses dinásticos, mas contrário a todo custo aos interesses da nação.
O cisma búlgaro desaparecia e os búlgaros, com seu exarca, retornavam sob a obediência do patriarcado ecumênico. Para este fim, o exarca deixava Constantinopla e vinha instalar-se em Sofia, onde era reconhecido pelo Fanar como chefe da Igreja ortodoxa búlgara nos limites do principado e da Rumélia Oriental, sob o mesmo título que são reconhecidos os outros chefes das Igrejas ortodoxas. Esqueceu-se apenas um ponto: as dioceses eslavas tão penosamente arrancadas ao helenismo na Macedônia.
O exarca recusou este arranjo e, como o príncipe se permitiu insistir mais do que o razoável, Monsenhor José respondeu-lhe: «Vossa Alteza parece ignorar que nós conhecemos o caminho de Roma». O compromisso proposto pela Rússia foi retomado recentemente sobre outras bases com cláusulas especiais para as dioceses búlgaras da Macedônia, mas este projeto, que irrita tanto os gregos quanto os búlgaros, não tem chance de prosperar nem no Fanar nem em Orta-Keui.
Aliás, os estambulistas, que acabam de retornar ao poder, nutrem um ódio demasiado vivo contra os russos para favorecer a menor de suas pretensões. A política de Stamboulof, tão dura para a Igreja Ortodoxa no principado búlgaro, permitiu-lhe desenvolver-se livremente na Macedônia e na Trácia. Após a guerra russo-turca, o sultão não havia escondido suas más disposições com relação aos búlgaros, os quais abandonava aos rancores de seus rivais, gregos, sérvios e valáquios; depois, graças à diplomacia do exarca, as relações afetuosas haviam sido reatadas.
Em 1880, dois bispos dirigiam-se à Macedônia e os berats estavam prestes a ser entregues para as dioceses de Uskub e de Ochrida, quando a revolução ruméliota, 1885, veio colocar os assuntos em suspenso. Os dois metropolitas retornaram a Constantinopla, de onde governavam suas dioceses por meio de administradores. No mês de agosto de 1890, a Sublime Porta cedia às demandas de Stamboulof, partidário de um entendimento cordial com a Turquia, e entregava ao exarca os berats de Ochrida e de Uskub. Ver o texto do berat de Ochrida em V. Bérard, La Turquie et l’hellénisme contemporain, 3ª ed., Paris, 1897, p. 296-300.
Em 1894, pouco após a queda de Stamboulof, os metropolitas de Véles e de Névrocop obtinham o mesmo favor. Após a guerra greco-turca, fim de 1897, três novos berats foram concedidos aos metropolitas de Bitolia ou Monastir, de Stroumnitza e de Dibra. Este aumento das sedes episcopais coincidia com um crescimento notável das escolas. Desde então, a agitação macedônia, os massacres, a ocupação militar pelos turcos de quase todas as aldeias da Trácia e da Macedônia, ao deter a propaganda búlgara, favoreceram o desenvolvimento dos gregos, dos sérvios, dos albaneses e dos romenos.
Qualquer que seja o desfecho desta funesta agitação, a causa búlgara não está completamente comprometida e o exarcado reinará sem dúvida um dia como senhor sobre quase toda esta região. A história política do jovem principado da Bulgária está tão mesclada à sua história religiosa que é útil conhecer as principais obras publicadas sobre a questão.
Pode-se consultar A. Dumont, Le Balkan et l’Adriatique, 2ª ed., in-4°, Paris, 1874, p. 61-189; Cyrille (A. d’Avril), Voyage sentimental dans les pays slaves, in-12, Paris, 1876, p. 63-200; Ed. Engelhardt, La Turquie et le Tanzimat, ou histoire des réformes de l’empire ottoman depuis 1826 jusqu’à nos jours, 2 in-8°, Paris, 1884, passim; Pypine, Histoire des littératures slaves, trad. por Denis, in-8°, Paris, 1881; A. Drandar, Le prince Alexandre de Battemberg en Bulgarie, in-8°, Paris, 1884; Id., Les événements politiques en Bulgarie depuis 1876 jusqu’à nos jours, in-8°, Paris, 1896; Anonyme, Les causes occultes de la question bulgare, in-8°, Paris, 1887; G. Fillion, Entre Slaves (trata sobretudo da união da Rumélia com a Bulgária e da guerra serbo-búlgara), in-12, Paris, 1894; H. Beaman, Stambuloff, in-8°, Londres, 1895; De Pimodan, De Goritz a Sofia, in-8°, Paris, 1893; A. d’Avril, Négociations relatives au traité de Berlin, in-8°, Paris, 1886; Un diplomate (A. d’Avril), Les Bulgares, Paris, 1894; J. Erdic, En Bulgarie et en Roumélie en 1884, in-12, Paris, 1885; L. Léger, La Bulgarie, in-12, Paris, 1885; Lamouche, La Bulgarie dans le passé et dans le présent, in-12, Paris, 1892; La péninsule balkanique, Paris, 1899; Kanitz, Donau-Bulgarien und der Balkan, 3 vol., Leipzig, 1876; C. Jirecek, Das Fürstenthum Bulgarien, in-8°, Praga, 1891, p. 301-856; B. von Sydacoff, Bulgarien und der bulgarische Fürstenhof, 2ª ed., in-8°, Berlim e Leipzig, 1896; A. Durastel, Annuaire international de la Bulgarie (francês-búlgaro), in-8°, Sofia, 1898; encontrar-se-á nesta obra o texto do tratado preliminar de San Stefano, do tratado de Berlim, e da constituição que rege atualmente o principado, p. 9-68, com o firman de 11 de março de 1870 relativo à criação do exarcado, p. 714-717; L. Dupuy-Péyou, La Bulgarie aux Bulgares, in-8°, Paris, 1895; A. Rambaud, Histoire de la Russie depuis les origines jusqu’à nos jours, 4ª ed., in-12, Paris, 1893, p. 712-739, 782-802; Lavisse et Rambaud, Histoire générale du IVe siècle à nos jours, Paris, 1901, t. XII, p. 426-439, 459-478.
Pode-se ver uma bibliografia política e etnográfica mais completa em Lamouche, La Bulgarie, 1892, p. XVII-XIX, e sobretudo em A. Durastel, op. cit., p. 755-759.
Sobre o conflito greco-búlgaro que precedeu e seguiu a criação do exarcado, existe uma infinidade de brochuras, publicadas em grego, em búlgaro e em francês. Citá-las todas seria renovar inutilmente os trabalhos de Hércules; importa contudo constituir um dossiê, a fim de facilitar as pesquisas àquele que tentasse algum dia a história deste diferendo que permanece sempre a escrever em nossa língua: « Ἡ Βουλγαροβλαχικὴ ἐν Μακεδονίᾳ συμφορά, ἥ τε ἀλήθεια περὶ αὐτῆς », πραγματεία συνταχθεῖσα πρὸς τοῖς ἐκκλησιαστικοῖς ὑπὸ Γεωργίου Τουκάλα καὶ Ἰωάννου, in-8°, Constantinopla, 1859; Μετάφρασις ἐκ τοῦ Βουλγαρικοῦ, Ἀπάντησις εἰς τὸν λόγον τοῦ κ. Σ. Καραθεοδωρῆ, in-4°, 1860; Les Bulgares et le haut clergé grec, trad. do búlgaro (manifesto dos búlgaros de Constantinopla contra o patriarca ecumênico e o clero fanariota) em data de 15/27 abril 1860; Les Bulgares et le patriarche oecuménique, in-8°, Constantinopla, 1864, manifesto dirigido contra o Fanar, a Rússia e sobretudo os lazaristas; Circulaire patriarcale de Joachim II, em grego e em búlgaro, datada de 25 de fevereiro, 9 de março 1861, in-8°, 15-16 páginas; « Ἡ φωνὴ τῆς ἀληθείας », por um cristão ortodoxo (em grego e em búlgaro), Constantinopla, 1861; La question bulgare et la propagande romaine, une voix de l’Orient, por P. S. (em grego e em francês), in-8°, Atenas, 1861; Soubiranne, Les Bulgares, les Grecs, les Arméniens, Paris, 1862; Actes relatifs à l’Église bulgare, extraído da Revue de l’Orient, de l’Algérie et des colonies, in-8°, Paris, 1863; G. Lazopoulos, « Ὁ χριστιανισμὸς τῶν Βουλγάρων κατὰ τὸν θ' αἰῶνα, ἕνωσις αὐτῶν μετὰ τῆς δύσεως καὶ ἡ ἐπιστροφὴ αὐτῶν εἰς τὴν ἀνατολικὴν ὀρθόδοξον Ἐκκλησίαν, καὶ τῆς σχισματικῆς Ἐκκλησία », Constantinopla, 1863; « Ὁ Βουλγαρισμὸς πρὸ τοῦ ἱστορικοῦ, τοῦ ἐθνολογικοῦ καὶ ».
iuzhyotaotixod Byuavos, ie) por E., in-8°, Constantinopla, 1864; Grégoire, Heaypateia mgt tis xavovixts Stxatodociag tod om xovpevixod matoraoyrxod odvou ext tay dy Bovhyaota doboddzwy "Exxryator, in-8°, Constantinopla, 1860; Ta % ~% depovia megt to Bovdyaerxov Catipatos, in-8°, Constantinopla, 1866; ’Anéyrnots tig to3 Xerorod peyadyg "Exxdnotas meds ta mage tig ‘Yoadrs Using koriws droo- wahivta ®yyoacn mept tod Bovayaorxod Cyrjporos, in-4°, Constantinopla, novembro de 1868 (resposta de Gregório VI e de seu sínodo, 15/27 de novembro de 1868, à Porta a respeito de dois projetos de exarcado búlgaro apresentados pelo primeiro-ministro); "Extotokipatoy bné-= pyqa tig tod Netotod peycrng "Exxanotas meos tag Aowning SeoddEous aitoxeodhous aytag "Exxhyoiac wept ti5 xara t% 24, 1868-1870, copeiag sod xat& Bovhydegoug exxdnoracrxod Cytyiuaros, in-8°, Constantinopla, 1870 (coletânea de documentos oficiais gregos e turcos referentes a este litígio); uma outra edição deste folheto apareceu em Constantinopla em 4894, no Fanar, in-8°: Kavovopds megt zo Storxnsews tig pBovhyagrnric euoyias, in-4°, Constantinopla, 4870 (regulamento orgânico da Igreja búlgara, outubro de 1870); ’Avzie~ enats ets to emtotohtuatoy Undpynpa to narerueystou 4 Umohoyia tay deloddzwy Bovdycowy meds tods Swoddtous adzav yotorravods, In-8°, Constantinopla, 1871; "Eyxixdios extoto.n ts tepas Bovhyagtxiig Luvodov Rees tag aitoxecddous "Exxkyolas, Constantinopla, 1871; Atevxotvnors toB Bovryastxod Cntinatos (por Gregório, metropolita de Quio), Constantinopla, 1874; "Eyxdxitos tod oixovpevixod mareragyetou xar ris teg&g Huvodov nods dv dpbdSotov Bovdyagexdy xA%ipov te xat Aadv, Constantinopla, 1872 (encíclica do patriarca Ântimo VI, em data de 18 de janeiro de 1872); ’ExtotoAy Nex Meyahobirs Booxpecevoxt meds tods zupuvoproavras Bovrydoous &eytegetc, Constantinopla, 1872; "Avotuog 4 oz” xat rd Bovayaptxdy Cytyum ror QVTKAVOVERY ROL TAVTAULOTIXy Avots t%g aitot Mavaytorntos, in-8°, Odessa, 1872; Actes du saint et grand synode tenu a Constantinople dans l’Eglise patriarcale du glorieux martyr saint Georges le Victorieux au sujet de la question religieuse bulgare pendant les mois d’août et de septembre de l’an de grace 1872, trad. littérale, in-8°, Constantinopla, 1873; o original grego apareceu em Constantinopla, sem data, in-4°; Bovdyagtxdy Carnue (discurso de Aristarchi bey proferido em 15/27 de fevereiro de 1872), Constantinopla, 1872; X. Samarsilos, ‘H Bov?- yaorxh tEaoyta xat 6 Dagos tod Boordgov, in-8°, Constantinopla, 1873; °O beboSotog "Exxkyota, 22 ayfona xat Yh Tarerdezns tov ‘TegocoAvnwy Ku- ethos @ B’, in-8°, Constantinopla, 1873; Te cyicpa tod otxoupevtaod rarerdpyov "Avbinov tod ot” xat % Bovayagrxy tEapyta, in-4°, Constantinopla, 1873; Jean-Kassianos, ‘H "Exxinota xai ot Bovkyagot, in-8°, pp. 37-84; Mia oehis tx tig totogiag tis cvyzedvou “Exxdyotas, por um ortodoxo, in-8°, Atenas, 1874; "Axdyvtnots els td. Kugthdos 6 B’ marerdeyns tay ‘Tepotohipwy aytopatixds Eotty, A 0%, in-8°, Constantinopla, 1876; Aristarchi bey, Td Bovdyartxdy Gita xat at viat hex That ToD mavohaviowod ey Avatohij, 5 volumes de peças, Atenas, 1875, 1876; Ta xacr tay pytponoditny "Adpravounddsws Aroviatoy, in-8°, Constantinopla, 1880; pis tag dytwrdtas altoxeskhoug "Exxy- aias zig “Avarod%s, 1888; A. Chopof (búlgaro), La Bulgarie sous le rapport religieux, in-8°, Philippopoli, 1889; Id., La question du soulevement du schisme (bulgare), in-8°, Sófia, 1896; Teplof, La question gréco-bulgare, d’aprés des documents inédits (em russo), in-8°, São Petersburgo, 1889, um dos melhores trabalhos publicados sobre a questão; T. Bourmof, Le conflit ecclésiastique gréco-bulgare (em búlgaro), in-8°, impresso em Sófia, em 1902, às custas do santo sínodo; é de longe o trabalho mais completo que apareceu sobre este litígio, apreciado, bem entendido, do ponto de vista búlgaro.
Ver também C. Jirecek, Geschichte der Bulgaren, 1876, p. 544-561; L. Dupuy-Péyou, La Bulgarie aux Bulgares, in-8°, Paris, 1896, p. 48-120, 228-245; A. d’Avril, Bulgarie chrétienne, na Revue de l’Orient chrétien, 1897, t. 11, p. 271-301, 406-438; E. Goloubinski, Précis d'histoire des Eglises bulgare, serbe et roumaine, Moscou, 1871, p. 176-193; G. Markovich, Gli Slavi edi papi, Zagreb, 1897, t. 11, p. 595-608; A. Lopoukhine, Histoire de l’Eglise chrétienne au xixe siècle (em russo), São Petersburgo, 1901, t. 1, p. 339-388.
Para a Macedônia, além dos livros já citados e daqueles que mencionaremos mais abaixo ao fornecer a estatística desta província, ver principalmente: "Eyyeaca Stapercbévrn peragd tis Y. Tsing xat ro3 olxovmercxod nacptapyetou ext to¥ Cytyparos tay Exxdy- Cast KeY TeovoULay xa TOY Bepatioy thy cytomatixay doztepéwy, In-8, Trieste, 1890; “Eyyeaca perakd t%5 Y. Moins xat tod ofxovpentxod ra- TOLAey elov deopuivta eig thy Adoty tov knd Exxhnotaotixiy Cntipatoy tod =e Teovouraxod xa tod Bovdyagrxod, in-8°, Trieste, 1894; estes dois folhetos contêm as peças oficiais trocadas entre a Porta e o Fanar a respeito dos primeiros berats, concedidos a dois bispos búlgaros da Macedônia em 1890; S. Simitch, Les écoles serbes dans le vilayet de Kossovo, in-8°, Belgrado, 1897; Goptchevitch, Macedonien und Alt Serbien, Viena, 1889; V. Bérard, La Turquie et l’hellénisme contemporain, 3ª ed., in-12, Paris, 1897, p. 148-335; Id., La Macédoine, in-12, Paris, 1897; Id., Pro Macedonia, in-12, Paris, 1904; Ofeikov, La Macédoine au point de vue ethnographique, historique et philologique, in-12, Philippopoli, 1887; H. Gelzer, Vom heiligen Berge und aus Makedonien, in-8°, Leipzig, 1904, p. 137-252. Ver também O memorando do patriarca grego ortodoxo de Constantinopla ao sultão sobre os assuntos da Macedônia, na Revue de l’Orient chrétien, 1903, p. 485-502.
XII. ORGANIZAÇÃO INTERIOR DO EXARCADO. — Desde os primeiros dias de novembro de 1870, os bispos e os principais aderentes do movimento búlgaro publicavam o regulamento orgânico previsto pelo firman do mês de março. Este regulamento, elaborado nas reuniões de Orta-Keui, encontrava-se em todo ponto conforme ao firman supracitado. Exceto algumas mudanças de importância medíocre, o regulamento orgânico de 1870 ainda está em vigor na parte otomana do exarcado.
Na Bulgária, ao contrário, ele sofreu retoques desde que o principado se constituiu: retoque completo em 16 de fevereiro de 1883, retoques parciais em 1890 e 1891, segundo retoque completo em 25 de janeiro de 1895.
São os 184 artigos publicados nesta última data que regem atualmente o funcionamento da Igreja búlgara no principado, assim como os 134 artigos do Regulamento orgânico regem o exarcado no império otomano. Kavoviopoc mel tho Stovmnoews tho Boudyaprans tapylac, in-8°, Constantinopla, 1870; Regulamento do exarcado especial ao principado (em búlgaro), in-8°, Sófia.
O exarcado compõe-se presentemente das eparquias búlgaras, situadas no Império Otomano e determinadas por um firman especial, e das eparquias do principado búlgaro. As eparquias do principado são em número de 11, das quais 2, Samokov e Lovetch, estão destinadas a desaparecer à morte de seus titulares, de acordo com o art. 6 do Regulamento do Exarcado especial ao principado. Estas 11 eparquias compreendiam, em 1897, subdioceses ou arquiprestados, em número de 42, e paróquias, em número de 2123. Cada paróquia rural tem de 150 a 250 famílias, cada paróquia urbana de 200 a 300.
Os mosteiros não podem se fundar senão com o consentimento e a bênção do bispo da diocese; todos eles dependem do metropolita sobre cuja eparquia estão situados, à exceção de dois: São João de Rila e a Santíssima Trindade de Troyan, que são estauropégicos, isto é, submetidos à jurisdição imediata do Santo Sínodo. Em 1897, não havia em todo o principado da Bulgária senão 78 mosteiros de homens e 15 de mulheres; os primeiros contavam 185 súditos e os segundos 312.
À frente do exarcado assenta o exarca, que reside em Orta-Keui, sobre o Bósforo. Ele não pode ser escolhido senão entre os metropolitas de raça e de religião búlgaras, com idade de pelo menos quarenta anos e dirigindo sua eparquia há cinco anos. O exarca é nomeado vitaliciamente; sua eleição se faz em dois graus. À morte do chefe da Igreja búlgara, no prazo de vinte e um dias que segue o envio de uma circular especial do Santo Sínodo, cada metropolita endereça a este último uma lista de 3 a 5 candidatos, tomados entre os mais meritórios de seus colegas. Além disso, sobre o envio de uma outra circular, os fiéis de cada diocese e a comunidade búlgara de Constantinopla designam dois representantes para cada eparquia, os quais deverão se dirigir, nos sessenta e um dias após a circular, à sede do exarcado para concorrer à eleição.
Lá, em presença do Santo Sínodo, do conselho do exarcado e dos mandatários das paróquias, procede-se à apuração das listas recebidas pelo conselho do exarcado, e uma segunda lista é lavrada, portando os nomes dos três candidatos que obtiveram a maioria dos sufrágios; esta lista é apresentada à aprovação do governo turco e do governo búlgaro. Um simples veto vindo de Istambul ou de Sófia basta para afastar os candidatos que seriam desagradáveis seja a um, seja a outro governo. A resposta favorável uma vez obtida, o Santo Sínodo, o conselho do exarcado e os delegados civis reúnem-se de novo para eleger, em escrutínio secreto e por maioria dos sufrágios, um dos três candidatos como exarca, e este é definitivamente proclamado e reconhecido chefe da Igreja búlgara.
O exarca atual, desde 4 de maio de 1877, é Monsenhor José, metropolita de Lovetch. Espírito superior, ele goza de uma influência considerável e merece ser olhado como o primeiro homem da Bulgária moderna. As festas reais que foram dadas em 1902, tanto no Império Otomano quanto no principado búlgaro, por ocasião de suas bodas de prata por sua promoção ao exarcado, mostraram-lhe que estima e que devoção todos os búlgaros professam por ele.
A eleição dos metropolitas e dos bispos faz-se de uma maneira análoga àquela do exarca. O clero local e o povo apresentam dois candidatos aos membros do Santo Sínodo, que elegem um deles definitivamente. Se é na Bulgária, o eleito recebe a aprovação do príncipe; se é na Turquia, um berat do sultão, com uma carta do Santo Sínodo que o recomenda a seus diocesanos. Os outros agentes do exarcado: arquiprestes, curas, membros das comissões e das fábricas, são eleitos de acordo com certas regras muito detalhadas; do mesmo modo são indicados com uma minúcia extrema pelo regulamento do exarcado os deveres e as atribuições, com os vencimentos e o casual, de todos os ministros do culto, de todos os empregados, grandes e pequenos, da administração eclesiástica.
O exarcado é governado pelo Santo Sínodo, a suprema autoridade espiritual da Igreja búlgara. O Santo Sínodo compõe-se do exarca, seu presidente, de quatro metropolitas eleitos por seus pares para quatro anos, que constituem o conselho e são os assessores do exarca. O Santo Sínodo mantém suas reuniões habituais, não em Orta-Keui, mas em Sófia. Esta circunstância se opõe a que o exarca, seu presidente perpétuo, o presida efetivamente. Não podendo, em razão da política desconfiada do sultão, se deslocar de Constantinopla, ele delega esta presidência a um dos prelados eclesiásticos, à sua escolha.
Todavia, o afastamento que lhe impõem as circunstâncias não o impede de exercer uma influência direta e preponderante sobre a vida religiosa e a ação administrativa da Igreja da qual ele é o chefe oficial. As decisões tomadas pelo Santo Sínodo permanecem subordinadas à sua ratificação, e os outros assuntos eclesiásticos, aqueles que concernem o principado como aqueles que interessam a Trácia e a Macedônia, lhe são submetidos em última instância. Monsenhor Simeão, metropolita de Varna e Preslav, é atualmente o presidente efetivo do Santo Sínodo. Sobre os trabalhos ordinários do Santo Sínodo búlgaro, ver os Echos d'Orient, 1903, t. VI, p. 328-332.
Nem o exarca, nem os sinodais deixam de ser os pastores das dioceses onde a eleição veio buscá-los. Obrigados por suas funções novas a permanecer fora de sua cidade episcopal, fazem-se representar nela por um vigário geral, que governa em seu nome. Um conselho diocesano eclesiástico é instituído na sede de cada eparquia, sob a presidência do metropolita ou, antes, do protossincelo, seu vigário geral. Ele se compõe do presidente e de quatro padres com cura de almas e eleitos pelo clero para quatro anos. A renovação dos membros deste conselho faz-se pela metade a cada dois anos. A autoridade eclesiástica, tanto administrativa quanto judicial, pertence ao metropolita e ela é exercida com a cooperação do conselho diocesano. Os recursos em apelação contra as sentenças pronunciadas por este conselho ocorrem perante o Santo Sínodo, em dois meses, o mais tardar, a contar do dia da notificação às partes interessadas da sentença que o conselho eclesiástico diocesano proferiu.
Na Turquia, os búlgaros são submetidos diretamente à jurisdição do exarca e àquela do Santo Sínodo, para o que concerne os assuntos eclesiásticos. Um conselho, presidido pelo exarca, ocupa-se das escolas; ele se compõe do presidente, do protossincelo e de quatro membros leigos.
Perto de cada metropolita encontra-se um conselho misto, composto de três membros do clero e de cinco a sete membros leigos delegados. Compete a este conselho proferir julgamentos e regular os assuntos eclesiásticos e civis da diocese, ocupar-se das escolas, de seus professores, etc.; se houver apenas assuntos eclesiásticos a decidir, os membros leigos não tomam parte alguma. Nas dioceses búlgaras da Turquia que ainda não possuem bispos, os assuntos são regulados por um conselho misto, presidido por um representante eclesiástico; este é escolhido no local e confirmado pelo exarcado, ou nomeado diretamente pelo exarca.
Para a manutenção do exarcado e do santo sínodo, o governo principesco verte todos os anos à caixa do exarcado uma soma proporcional ao número de famílias do principado. Arrecada-se 0,40 francos por cada família. De acordo com o orçamento de 1900, a soma ter-se-ia elevado naquele ano a 245.964 levs ou francos. Sobre esta soma, os bispos situados na Turquia recebem cada um 10.000 francos e o exarca 20.000; o restante é vertido na caixa geral para as necessidades do exarcado.
Na Bulgária, os metropolitas recebem do governo uma soma anual de 7.476 a 9.300 francos; o baixo clero, por sua vez, deve prover ao seu sustento por meio de remunerações eventuais, que lhe são dadas por diversas cerimônias, de acordo com uma tabela determinada: 1 franco pelo batismo, 12 pela bênção nupcial, 6 pelos funerais de uma pessoa adulta, 3 pelos funerais de uma pessoa de 15 anos e abaixo, etc.
Além disso, desde o ano de 1891, o Estado concede, para a manutenção dos presbíteros, uma remuneração suplementar, que o regulamento de 1895 fixou nas proporções seguintes: 480 francos por ano aos presbíteros das aldeias, 600 aos das cidades e das sedes de subprefeituras, 720 aos das sedes de departamentos. Este baixo vencimento só é dado àqueles que não terminaram seus estudos eclesiásticos em seminários; para os outros, a dotação é mais alta: 720 francos por ano aos presbíteros de aldeias, 960 aos das cidades e das sedes de subprefeituras, 1080 aos das cidades diocesanas. Sobre este vencimento, uma certa soma é retida para as pensões eclesiásticas, as caixas sacerdotais, etc., e, desde 1899, a fim de obviar a crise econômica que o país atravessa, uma retenção de 4 por 100 é feita a todos os membros do clero, assim como aos outros funcionários.
Na Turquia, o baixo clero recebe seu vencimento da população, que deve, além disso, manter as escolas e alimentar as caixas dos conselhos diocesanos; apenas as comunidades muito pobres são sustentadas pelo exarcado. As paróquias do principado não se ocupam das escolas, deixadas aos cuidados do governo, mas estão obrigadas igualmente a fornecer as receitas necessárias aos conselhos diocesanos. Isso se faz por meio de uma tabela determinada, que é cobrada sobre as licenças de casamento, os certificados de batismo, etc., e sobre as outras cópias, impressas ou manuscritas, das diversas peças eclesiásticas.
O exarcado búlgaro possui hoje dois seminários: o de Samokov-Sofia para o principado da Bulgária, e o de Chichli, bairro de Constantinopla, para a Macedônia e a Trácia. Desde 1867, os chefes do movimento nacional reclamavam aos brados, para as dioceses de sua raça, a constituição de uma grande escola teológica e de seminários. Sua campanha resultou no projeto que o patriarca ecumênico, Gregório VI, apresentou ao sultão Abd-ul-Aziz com vistas a terminar o conflito religioso. Ao mesmo tempo que concedia a algumas dioceses búlgaras uma certa autonomia, que devia em seu pensamento permitir-lhe recusar-lhes a independência, o patriarca pedia a fundação de escolas clericais para a educação do baixo clero e uma alta escola teológica. Este projeto, que não foi considerado suficientemente liberal em certos pontos, foi descartado.
Em 1870, o exarcado búlgaro era reconhecido pela Sublime Porta e seu regulamento constitutivo, elaborado naquele mesmo ano, decretava a abertura de uma escola teológica superior. Esta não foi fundada na verdade senão em 1874, perto de Tirnovo, sob o patrocínio dos santos Pedro e Paulo, e não valia sequer um pequeno seminário da França. Fechado durante os distúrbios que precederam a guerra russo-turca e reaberto em 1878, este seminário existiu até 1886, quando o governo búlgaro o suprimiu por razões de ordem econômica. Seus cursos duravam cinco anos.
Ao mesmo tempo em que se abria em 1874 o seminário de Tirnovo, era fundada no convento de São João de Rila uma escola eclesiástica comportando o programa de um seminário. Ela também foi suprimida durante a guerra russo-turca, para reabrir em 1881 e desaparecer definitivamente algum tempo depois. Em 1876, estabelecia-se em Samokov um terceiro seminário, que foi igualmente fechado durante a guerra. Reaberto em 1878 e fechado novamente de 1880 a 1883, ele viu logo o ciclo de estudos subir de três a quatro e a cinco anos para descer depois a quatro.
Desde 1894, o seminário de Samokov, que é o único estabelecimento de instrução clerical na Bulgária, passou sob a autoridade do santo sínodo, enquanto dependia até então do governo. Ele recebe alunos pagantes e bolsistas; todos vivem em regime de internato e usam uniforme. O ciclo de estudos compreende quatro classes e dura normalmente quatro anos; não se é admitido após a idade de 18 anos. No início do ano letivo de setembro de 1901, o seminário contava 188 seminaristas, dos quais 113 bolsistas contra 75 pagantes; os primeiros apenas são obrigados a abraçar o estado eclesiástico, mas, como as ordens são conferidas no mais cedo aos 27 anos, todos estão longe de guardar fielmente suas promessas.
De resto, o seminário de Samokov está chamado a desaparecer em pouco tempo. Em 13 de abril de 1902, na presença de S. A. o príncipe Fernando I e dos principais dignitários da Igreja búlgara, foi lançada em Sofia a primeira pedra do futuro seminário búlgaro, que deve substituir proximamente o de Samokov. Ver o artigo muito documentado L’école théologique de Bulgarie, nos Échos d’Orient, 1903, t. VI, p. 74-82, que fornece o histórico deste seminário com o programa detalhado de seu ensino.
O seminário de Chichli, em Constantinopla, que é destinado a favorecer o recrutamento do clero búlgaro para as igrejas compreendidas na Turquia europeia, data de 1884. Ele encontrava-se então em Prilep, na Macedônia; de lá, emigrou em 1889 para Adrianópolis e no ano seguinte para Constantinopla, no bairro do Fanar, onde se encontra a catedral do exarca. Em 1892, os estudos foram aperfeiçoados e os cursos distribuídos em seis anos. Por volta de 1894, o seminário deixava as margens do Corno de Ouro para instalar-se nas colinas de Chichli, em uma residência verdadeiramente principesca. É lá que ele se encontra ainda hoje, compreendendo cerca de uma centena de seminaristas, submetidos à autoridade direta do exarca e seguindo os programas de teologia em uso nos seminários russos.
Com dois seminários que não contam sequer com 280 estudantes, dos quais metade mal abraça o estado eclesiástico, sem dúvida considerar-se-á que isso mal é suficiente para uma Igreja que compreende mais de quatro milhões de fiéis. Ainda que os estudos fossem proporcionais às necessidades da época! Mas o que se pode aprender em três ou quatro anos de seminário, sem ter recebido uma formação prévia? Assim, não é de se estranhar que o clero búlgaro tenha ficado aquém de sua missão e que perca a cada dia um pouco da consideração que o povo tinha por ele. Os ofícios religiosos já não são frequentados, os jejuns eclesiásticos não são observados, o mundo oficial exibe perante a religião uma indiferença desprezível, quando não uma hostilidade declarada. Graças aos inumeráveis ginásios do Estado, ímpios e revolucionários, o ateísmo penetra as massas e viu-se os professores de todo um departamento reunirem-se em congresso, em 1902, e votarem pela destruição de toda religião. L’athéisme des instituteurs bulgares, em *Echos d’Orient*, 1903, t. VI, p. 332-335.
Fora os livros litúrgicos e algumas obras de apologética, o clero nada produziu e mantém-se à margem do movimento intelectual que revoluciona as massas. Existem, contudo, algumas boas revistas, cuja existência é tão efêmera quanto a dos folhetos, e alguns bons jornais. Mencione-se, entre as revistas, a *Vesti* (Notícias), órgão do exarcado, desde 1890; o *Tcerkoven Vestnik*, órgão do santo sínodo, desde 1900; o *Svetnik*, desde 1888; o *Pravoslaven Propovednik*, desde 1893; o *Zadroujen Troud*, desde 1902. Enfim, não esqueçamos um empreendimento de longo fôlego, devido aos cuidados do santo sínodo: a tradução de toda a Bíblia, feita sobre a versão russa das Escrituras de 1876, e destinada a substituir a versão búlgara, feita sobre a Bíblia protestante que remonta a cerca de vinte anos. Ver *Traduction bulgare de l’Ecriture sainte*, em *Echos d’Orient*, 1901, t. IV, p. 245-247.
XIII. ESTATÍSTICAS RELIGIOSAS. — O exarcado búlgaro, encontrando-se compreendido ao mesmo tempo no principado da Bulgária e no império otomano, vamos indicar sucessivamente a situação que ocupa presentemente nesses dois Estados, segundo as estatísticas mais recentes que nos foi possível reunir. Ao fazê-lo, daremos, na mesma ocasião, os números da população que correspondem aos diversos cultos praticados hoje na Bulgária.
1º A superfície total do principado da Bulgária eleva-se a 95 707 quilômetros quadrados, dos quais 62 789 para a Bulgária do Norte e 32 915 para a Rumélia oriental. Segundo o último censo, publicado no *Officiel* de 10 de maio de 1903, a Bulgária contaria 3 744 283 habitantes, o que representa uma média de 38 habitantes por quilômetro quadrado. Esta população subdividir-se-ia assim segundo a nacionalidade: Búlgaros: 2 887 860; Turcos: 539 656; Ciganos: 89 549; Romenos: 75 285; Gregos: 70 887; Judeus: 32 573; Tártaros: 18 856; Armênios: 13 926; diversos: 15 744.
Segundo a religião, a população búlgara compreenderia: 3 019 296 ortodoxos, que se subdividem em vários grupos; 48 024 cristãos, distintos dos ortodoxos, como católicos, armênios, protestantes, etc.; 643 300 muçulmanos e 33 663 israelitas. O quadro que segue dará uma ideia de conjunto: Búlgaros ortodoxos: 2 842 650 Romenos ortodoxos: 75 155 Gregos ortodoxos: 70 759 Ortodoxos de diversas nacionalidades: 30 732 Católicos latinos e uniatas: 28 569 Protestantes: 4 524 Armênios gregorianos: 13 809 Muçulmanos turcos, tártaros, etc.: 643 300 Israelitas: 33 663 Diversos: 4 122
Segundo uma estatística de 1897, eis qual seria o estado respectivo desses diferentes cultos, com relação ao número de igrejas, de capelas, de padres, etc.; adiciono o número da população, para que o leitor tenha uma visão de conjunto: FIÉIS | IGREJAS | CAPELAS | PADRES | MOINOS | MONASTEIROS | RELIGIOSAS Búlgaros | 2 842 650 | - | - | - | - | - | - Gregos | 70 759 | - | - | - | - | - | - Romenos | 69 959 | - | - | - | - | - | - Católicos | 28 569 | - | - | - | - | - | - Armênios | 43 809 | - | - | - | - | - | - Protestantes | 4 524 | - | - | - | - | - | - Muçulmanos | 643 300 | - | - | - | - | - | - Israelitas | 33 663 | - | - | - | - | - | -
Tomei a estatística do governo, embora os termos de igrejas, de padres e de monastérios sejam absolutamente impróprios para certos cultos, nomeadamente para os cultos protestante, muçulmano e israelita. Notar-se-á, sem dúvida, também, que a Igreja católica não figura neste quadro sob as rubricas monastérios, monges e religiosas, embora possua na Bulgária número de casas monásticas, assim como se poderá convencer ao ler o parágrafo que lhe é consagrado.
A Igreja búlgara compreende 11 dioceses metropolitanas no principado da Bulgária: Lovetch, Philippopoli, Dorostol-Tcherven ou Roustchouk, Samokof, Sliven, Sofia, Stara-zagora, Tirnovo, Varna-Preslav, Viddin e Vratza. Duas dessas metrópoles estão destinadas a desaparecer com a morte de seus titulares, a saber: Lovetch e Samokof. Três dessas dioceses, Philippopoli, Sliven e Stara-zagora, estão situadas na Rumélia oriental; as outras oito encontram-se na Bulgária propriamente dita. O metropolita de Roustchouk porta os títulos de Tcherven, nome búlgaro de sua cidade episcopal, e de Dorostol, antigo nome de Silistria, cidade outrora muito florescente sobre o Danúbio; o metropolita de Varna junta ao seu título o de Preslav, a primeira capital dos búlgaros no século IX e a primeira sé de sua Igreja nacional na mesma época.
Eis, segundo uma estatística oficial de 1897, qual seria o estado respectivo do culto ortodoxo nessas 11 dioceses: DIOCESES | IGREJAS | CAPELAS | MONASTEIROS DE HOMENS | MONASTEIROS DE MULHERES | PADRES | MONGES Lovetch | - | - | - | - | - | - Philippopoli | - | - | - | - | - | - Roustchouk | - | - | - | - | - | - Samokof | - | - | - | - | - | - Sliven | - | - | - | - | - | - Sofia | - | - | - | - | - | - Stara-zagora | - | - | - | - | - | - Tirnovo | - | - | - | - | - | - Varna | - | - | - | - | - | - Viddin | - | - | - | - | - | - Vratza | - | - | - | - | - | - TOTAL | - | - | - | - | - | -
A instrução é bastante difundida na Bulgária. Em 1896, existia uma universidade em Sofia, contando três faculdades: histórico-filológica, físico-matemática e a de direito. Esta universidade, cuja fundação remonta a 1888, compreendia então 312 estudantes. Em todo o principado havia 9 ginásios ou liceus para os rapazes com 6 911 alunos, e 76 ginásios incompletos ou pro-ginásios, nos quais o ensino é ministrado segundo o mesmo programa. Essas 76 escolas tinham 15 117 alunos, ou seja, um total de 22 028 alunos para o ensino secundário. As escolas secundárias de meninas repartiam-se assim: 7 ginásios de primeira classe com 1 596 alunas e 37 liceus de segunda classe com 3 359 alunas, ou seja, um total de 44 estabelecimentos com 5 155 alunas. Juntemos a isso 14 escolas secundárias mistas com 1041 alunos, dos quais 938 rapazes e 103 moças.
O governo búlgaro mantém em Kustendil, Lom, Kazanlik e Silistrie quatro escolas normais destinadas a fornecer professores primários. Além disso, o conselho departamental de Tirnovo fundou uma para a cidade de Tirnovo, e a comuna de Choumla outra para esta cidade. A duração dos estudos é de quatro anos; à exceção de Tirnovo, as escolas normais são acompanhadas de um curso de três anos e de uma escola anexa, onde os futuros professores realizam um estágio. As professoras são formadas pelos ginásios ordinários de jovens moças, que desempenham, ao mesmo tempo, a função de escolas normais.
Infelizmente, todas essas escolas são focos declarados de racionalismo e ateísmo, e os jovens mestres e mestras que delas saem não têm senão um desejo: inculcar suas ideias a seus alunos para desencadear, assim, as piores paixões antirreligiosas e revolucionárias. A Igreja grega, que conta 70759 fiéis na Bulgária, possui ainda cinco dioceses no principado: Philippopoli, Sozopolis, Anchialo, Mésembria e Varna. Não há dúvida de que, no dia em que a Bulgária proclamar sua independência absoluta face à Porta, esses bispados gregos estarão fadados a desaparecer.
2° Nas terras do império otomano, o exarcado teve apenas duas preocupações: descobrir os ortodoxos de raça ou de língua búlgara e lembrar-lhes sua verdadeira origem, isto é, arrancá-los da sujeição espiritual do Fanar. Para obter resultados rápidos e combinar todos os esforços perdendo o menos de tempo possível, dividiu a Macedônia e a Trácia em 21 eparquias, destinadas a receber cada uma um metropolita búlgaro em um futuro mais ou menos próximo. Dessas 21 dioceses, apenas 7, e todas situadas na Macedônia, a saber: Uskub, Ochrida, Véles, Névrokop, Monastir, Stroumitza, Dibra, obtiveram até aqui seu pastor definitivo; mas as outras eparquias não funcionam menos com uma regularidade notável, desfrutando de limites bem traçados e não invadindo jamais umas o terreno das outras. No momento atual, a Macedônia conta 15 eparquias, a Trácia, 6 apenas, fora a diocese formada em torno do exarca em Constantinopla e na qual se encontram compreendidos cerca de 14000 búlgaros. Encontrá-los-emos mais abaixo, segundo um relatório oficial manuscrito, comunicado por uma alta personalidade eclesiástica búlgara à redação dos Echos d’Orient, 1899, t. 11, p. 282-286, e que se destinava a estabelecer a situação verdadeira dos exarquistas no fim do ano 1896.
À frente, figuram as sete eparquias da Macedônia, que já estão providas de seu metropolita, seguidas das oito outras eparquias macedônias e das seis da Trácia. Inscreveram-se os números, tais como se encontravam consignados neste relatório oficial búlgaro, distinguindo com cuidado a religião da nacionalidade, pois é bem certo que numerosos búlgaros de raça e de língua ainda estão submetidos à jurisdição do Fanar. É uma distinção que se impõe, embora os estatísticos gregos nunca tenham querido admiti-la. Não se quer dizer, todavia, que este relatório oficial forneça resultados absolutamente incontestáveis; bastará reproduzir, a esse respeito, a observação muito justa que fazia a revista dos Echos d’Orient, ao publicá-lo: «Tem por autores búlgaros; se fosse de origem grega, talvez não fornecesse sempre os mesmos números, mas não ouso afirmar que fosse de maior exatidão.»
Para obter uma estatística de conjunto de todas as eparquias compreendidas na Turquia europeia, reportemo-nos a um documento búlgaro fornecido pelo exarcado em 1902. A Bulgária teria tido então 1348573 súditos, assim repartidos: 484303 para o vilaiete de Salonica; 346348 para o vilaiete de Monastir; 205422 para o vilaiete de Uskub; 298500 para o vilaiete de Adrianópolis e 14000 para Constantinopla e seus arrabaldes. Essa população de quase 1350000 almas não obedecia inteiramente à sua Igreja nacional; os três quartos, aproximadamente, estão colocados sob a jurisdição do exarca, enquanto o último quarto sofre ainda o jugo do patriarca grego.
Segundo o mesmo documento, a população exarquista disporia de 938 escolas, distribuídas pelo território otomano como segue: 346 para o vilaiete de Salonica; 281 para o de Monastir; 165 para o de Uskub; 171 para o de Adrianópolis e 5 para Constantinopla e os arrabaldes. Essas escolas contariam 4134 mestres e 257 mestras, com 48399 alunos. É possível que todos esses números tenham sido majorados por patriotismo, embora não estejam inflados acima da medida. Assim, para citar apenas um exemplo a respeito das escolas, segundo o ministro romeno da instrução pública, a situação das escolas ortodoxas do vilaiete de Monastir seria a seguinte: 366 escolas gregas com 491 mestres e 18100 alunos; 240 escolas búlgaras com 370 mestres e 412500 alunos; 40 escolas sérvias com 70 mestres e 1637 alunos; 23 escolas romenas com 69 mestres e 1177 alunos. Como se vê, a estatística romena não atribui senão 240 escolas aos búlgaros nesse vilaiete, enquanto eles próprios se atribuem 281. Se passarmos aos números da população, devemos igualmente fazer reservas.
No mesmo vilaiete de Monastir, segundo o documento do exarcado, os búlgaros seriam em número de 346348. Ora, o cônsul russo de Monastir, mais desinteressado na questão, não conta nesse vilaiete, Lamansky Jivaya Starine, 1899, fascículo 4°, p. 111, senão 280350 eslavos, dos quais 186656 exarquistas e 93694 patriarquistas. E ter-se-á, sem dúvida, notado que nunca há questão, no primeiro documento búlgaro, de sérvios, que não são precisamente uma quantidade desprezível.
Segundo documentos oficiais sérvios que temos motivo para crer tão exatos quanto os comunicados oficiais búlgaros, os sérvios tinham em 1900 cerca de 19681 famílias na diocese de Prizrend e 8197 na de Uskub. Ver M. Théarvic, L’Eglise serbe en Turquie, em Echos d’Orient, 1900, t. 11, p. 343-351.
Sabe-se, aliás, que, à força de diplomacia e de paciência, a nação sérvia conseguiu fazer reconhecer pelo sultão e pelo Fanar dois bispos sérvios, súditos otomanos, é verdade, em lugar dos dois metropolitas gregos que governavam até então as dioceses de Prizrend e de Uskub. Essas duas vitórias, das quais uma remonta a 1895 e a outra a 1902, não foram obtidas sem dificuldade, e os búlgaros ainda não se decidiram a reconhecer o fait accompli, pelo menos para a diocese de Uskub, mas os seus protestos não mudarão nada na ordem das coisas. A sua situação poderia até sofrer algum dano do movimento revolucionário que suscitaram na Macedónia.
Com efeito, para se pouparem aos bons ofícios da Sérvia, que talvez fosse tentada a procurar numa guerra contra a Turquia uma diversão para os seus problemas internos, o sultão acaba de decidir em princípio, embora a lei ainda não tenha aparecido no Officiel, o reconhecimento da nacionalidade sérvia na Turquia. Ver os Echos d’Orient, 1904, t. VII, p. 46 sq. Este fato, cheio de consequências, trará muito provavelmente a fundação de uma Église sérvia na Turquia, independente do patriarcado ecumênico, enquanto os dois metropolitas sérvios — de Prizrend e de Uskub — estão sempre submetidos à jurisdição deste último.
Por conseguinte, muitos eslavos, que reconheciam o exarca búlgaro para escapar à autoridade horrorizada dos gregos, reencontrar-se-ão como eram na realidade, isto é, sérvios. Além disso, a menos que haja mudança política na sorte das províncias da Macedónia e da Trácia, os revolucionários búlgaros terão contribuído para destacar do exarca um grande número dos seus compatriotas. Estes, com efeito, para desviar as suspeitas dos turcos, apressam-se a enviar em massa a sua submissão aos bispos gregos da Macedónia, a fim de que, reconhecidos como gregos e não tendo nada em comum com os búlgaros, escapem à confiscação e à morte que os espreitam a todo instante. É verdade que o que o medo causou não será uma obra de longa duração. Desde que a tranquilidade seja minimamente restabelecida nestas contradas, os búlgaros patriarcistas desviar-se-ão com horror dos gregos, e dedicar-lhes-ão um ódio tanto mais violento quanto o medo das suas denúncias os terá constrangido a humilharem-se mais diante deles. Cf. Nicolaidés, La Macédoine (au point de vue grec), obra publicada em Berlim em 1899 em várias línguas, entre as quais o grego, o francês e o alemão; La Macédoine et les Grecs (au point de vue serbe), nos Echos d’Orient, 1900, t. I, p. 148-151; P. Balkanski (sérvio), Le peuple serbe dans l'éparchie d’Uskub et ses écoles, no Délo, revista mensal de Belgrado; L’Église serbe en Turquie, nos Echos d’Orient, 1900, t. III, p. 343-351: sobre Uskub, ver a mesma revista, t. I, p. 67 sq.; 1902, t. V, p. 310-342, 390-392.
XIV. A IGREJA BÚLGARA UNIATA, 1860-1903. — Já disse que, por volta de meados do século XIX, os búlgaros, oprimidos pelos gregos, queriam subtrair-se à jurisdição do patriarca ecumênico; mas uns pretendiam servir-se da sua independência para restabelecer o antigo patriarcado de Tirnovo ou de Ochrida, outros para operar a sua união com a Igreja romana. Os esforços dos primeiros redundaram, após vários anos de lutas, na criação do exarcado e na reconstituição da nacionalidade búlgara; as tentativas dos outros só foram coroadas por um medíocre sucesso.
Foram primeiramente os partidários do entendimento com o Ocidente que obtiveram os melhores resultados. No dia 12/24 de dezembro de 1860, um grupo de búlgaros de Constantinopla dirigia-se a Mgr Hassoun, então primaz dos armênios católicos da arquidiocese de Constantinopla e desde então patriarca de todos os armênios unidos do império otomano. Pediam para se unir com a Igreja romana, em conformidade com as decisões do concílio de Florença, guardando a sua liturgia, os seus ritos, as suas cerimônias e costumes religiosos, e obtendo uma hierarquia nacional e um clero nacional que os administrariam, mas após terem reconhecido a supremacia do papa. Na sequência desta démarche pública e da resposta favorável de Mgr Hassoun, 120 deputados búlgaros, dois arquimandritas, um padre e um diácono, agindo em nome de 2000 dos seus compatriotas, depositaram entre as mãos de Mgr Brunoni, delegado apostólico, o seu ato de união sob as condições enumeradas acima.
A Porte acolheu com benevolência o processo-verbal desta reunião, presidiu mesmo à instalação do chefe da nova comunidade búlgara, reconhecendo-lhe o uso dos direitos civis e religiosos que tinham sido exercidos até então pelo patriarca ecumênico. Um breve de Pio IX, datado de 21 de janeiro de 1861, seguiu-se, que confirmou o ato aprovado pela Porte e, pouco depois, Sokolski, velho arquimandrita ignorante, que fora designado para tornar-se arcebispo-uniato da Bulgária, dirigiu-se a Roma, acompanhado do M. Boré, superior dos lazaristas, de um diácono búlgaro e de dois deputados leigos da nação. O papa Pio IX consagrou-o ele mesmo, no dia 8 de abril de 1861, e cumulou-o de presentes.
No seu regresso a Constantinopla, Joseph Sokolski obteve da Porte o bérat de investidura, em 1º de junho de 1861, e recebeu um acolhimento favorável, que determinou entre os seus compatriotas um movimento sensível rumo à união. Cento e quarenta e oito famílias búlgaras de Andrinople passavam ao catolicismo; toda a diocese de Salonique ameaçava imitá-las, enquanto distritos inteiros e muito populosos de Monastir e de Kazanleuk declaravam-se a favor de Mgr Sokolski. Em poucos dias, contaram-se mais de 60.000 abjurações; Zankof, um dos peregrinos de Roma, colocou ao serviço desta causa a sua pena de jornalista fundando o Boulgaria; o abalo tendia a tornar-se cada vez mais geral. Foi então que a Rússia interveio.
Até lá, tinha-se oposto às manifestações dos búlgaros contra o Phanar para não contribuir para criar nos Bálcãs um Estado eslavo independente; mas compreendendo que a sua abstenção favorecia a propaganda católica, empreendeu empurrar a Porte a pronunciar a separação da Igreja búlgara da Igreja grega e suscitou numerosas petições nesse sentido.
Quanto ao movimento rumo a Roma, decidiu travá-lo, graças a um daqueles meios de que a sua política abunda e que são tão contrários à moral pública como ao direito das gentes. Menos de dois meses após o seu regresso a Constantinopla, no dia 18 de junho de 1861, Sokolski desapareceu subitamente num barco russo com destino a Odessa, após ter levado consigo o seu bérat e os presentes que tinha recebido de Roma. Teria sido ele vítima ou cúmplice desse rapto? Sua idade avançada e sua inteligência razoavelmente limitada autorizam as mais desagradáveis suposições.
Seja como for, o golpe tão inopinadamente desferido contra a nova comunidade retardou seu desenvolvimento; os chefes laicos não favoreceram mais a tendência ao catolicismo, temendo que ela não fosse forte o suficiente para arrastar toda a nação e que tivesse como resultado direto dividi-la em dois campos e, por conseguinte, enfraquecê-la para o êxito das reivindicações políticas. No mês de fevereiro de 1862, o padre búlgaro latino Arabajeski foi designado para substituir Sokolski e reconhecido pela Porta na qualidade de administrador civil dos uniatas. Mas, tendo esse eclesiástico recusado deixar o rito latino, teve-se que prover sua substituição e, algum tempo depois, o padre Rafael Popof foi colocado à frente dos búlgaros pela S. C. de Propaganda com o título de bispo dos Búlgaros Unidos e reconhecido pela Porta em 10 de fevereiro de 1865.
Ele o permaneceu até 1883, ocupando-se, com a ajuda dos lazaristas na Macedônia, dos assuncionistas e dos ressurreicionistas na Trácia, em reerguer as ruínas acumuladas pelas primeiras apostasias. O golpe mortal tinha sido desferido contra a obra, o dia seguinte levava embora os frutos dos trabalhos da véspera, sem que nada ainda permitisse prever como se poderia assegurar a esse apostolado uma solidez durável. Durante vários anos, houve entre os novos convertidos um vaivém contínuo do catolicismo à ortodoxia e reciprocamente.
Em 1888, uma nova organização para os Búlgaros Unidos foi criada pela Propaganda. Houve em Constantinopla um administrador apostólico com o título de arcebispo, Monsenhor Nil Isvorof, e dois vicariatos apostólicos, o da Macedônia e o da Trácia. Exceto o cargo de administrador apostólico, suprimido em razão da queda de seu titular, essa ordem das coisas não variou desde então.
O vicariato apostólico búlgaro da Macedônia foi erigido em 12 de junho de 1883 e confiado aos lazaristas, cujo um dos membros, Monsenhor Lazare Mladenof, recebia nesse mesmo dia a consagração episcopal. Em 1885, fundava-se em Zeitenlik um seminário, cujo objetivo era formar padres indígenas do rito oriental e professores para as aldeias da Macedônia. Em 1889, os padres da Missão lançavam as primeiras bases de uma congregação de religiosas búlgaras, com o apoio das irmãs de caridade; em 1892, vários missionários deixavam o rito latino para abraçar o rito greco-eslavo e tentar a ressurreição dessa nova missão oriental. De 1884 a 1894, as conversões se multiplicaram; perto de sessenta aldeias reconheceram a autoridade de Roma.
Infelizmente! Tão belos inícios terminaram em um fim lamentável. Desde 1894, os partidários do exarca, o chefe oficial da Igreja búlgara ortodoxa, puseram-se em campanha para alistar essas populações ignorantes sob sua bandeira política e religiosa. Graças ao seu dinheiro, às suas ameaças, ao apoio não disfarçado dos búlgaros do principado, provocaram entre os católicos um êxodo dos mais dolorosos. De 30.000, o número de fiéis desceu a 8.000 e talvez abaixo; padres e professores voltaram em massa à ortodoxia, o próprio vigário apostólico foi arrastado no movimento geral e teve uma queda escandalosa, que ele não tardou, aliás, a reparar. Em poucos meses, os esforços de vários anos estavam aniquilados.
Desde seu retorno, Monsenhor Mladenof foi enviado a Roma, onde ainda está com o título de bispo titular de Satala; deram-lhe por sucessor, em 23 de julho de 1895, um secular, Monsenhor Epifânio Scianof, que porta o título de Livias e reside habitualmente em Salonica.
Hoje as ruínas estão semirreparadas e a missão parece retomar um novo impulso. O vicariato apostólico da Macedônia conta presentemente 10.000 católicos repartidos em 20 aldeias, 16 igrejas, 30 padres de rito eslavo, 13 escolas de meninos e 9 de meninas e 4 casas de religiosas búlgaras, as irmãs eucaristinas. O seminário búlgaro de Zeitenlik, reconstituído, deu 5 padres; compreendia, em 1902, 49 alunos, sendo 1 estudante em teologia, 39 alunos no pequeno seminário e 9 aprendizes para diversos ofícios. Os professores são escolhidos entre os seminaristas, que demonstram pouco gosto pela carreira eclesiástica; as professoras são formadas em uma escola normal elementar, mantida pelas irmãs de caridade em Koukouch. A missão possui, além disso, dois orfanatos de meninas, com 25 órfãs em cada casa.
O vicariato apostólico búlgaro da Trácia foi erigido em 7 de abril de 1883 e teve por primeiro pastor Monsenhor Michel Petkof, antigo aluno da Propaganda, que o administra ainda com o título de bispo de Hebron. Ele viu se produzir menos retornos ao catolicismo do que no da Macedônia, mas também não teve a tristeza de assistir a tantas deserções. Desde as apostasias do primeiro momento, que seguiram o desaparecimento de Sokolski em 1861 e que foram sobretudo ocasionadas pela falta de padres indígenas, a diocese conta sensivelmente o mesmo número de fiéis.
Hoje, de acordo com um relatório oficial, o vicariato possui 4.600 católicos, 42 igrejas e 8 capelas. Há 19 padres indígenas seculares, 6 padres assuncionistas de rito eslavo e 5 padres ressurreicionistas do mesmo rito. Além disso, 5 ressurreicionistas e uma dezena de assuncionistas do rito latino trabalham diretamente nas obras desse vicariato. As irmãs oblatas da Assunção são em número de 49, sendo várias búlgaras; mantêm um externato com 80 alunas, e um postulado, que conta cerca de trinta alunas. As irmãs ressurreicionistas, em número de 5, têm uma escola em Malko-Tirnovo com 86 alunas.
Há ainda 11 escolas, para os meninos ou para as meninas, que dependem diretamente do vicariato e compreendem 670 alunos; dois colégios mantidos, um pelos assuncionistas em Philippopoli com 120 alunos, outro pelos ressurreicionistas em Adrianópolis com 98 alunos, embora esses dois estabelecimentos admitam crianças de todas as nacionalidades e mesmo de todas as religiões. No entanto, o colégio Santo Agostinho dos assuncionistas contém número de búlgaros ortodoxos, que acompanham os ofícios religiosos na capela eslava católica, e o dos ressurreicionistas deu algumas vocações eclesiásticas.
Não existe senão um seminário búlgaro propriamente dito, o de Kara-Agatch perto de Adrianópolis, que fundaram e que dirigem ainda os Padres assuncionistas. Aberto em 1874 em Adrianópolis sob forma de pequeno orfanato para crianças de oito a dez anos, foi pouco a pouco transformado em pequeno seminário, para todos os ritos primeiramente, depois para o rito búlgaro exclusivamente, e, após múltiplas peregrinações que seria demasiado longo narrar aqui, foi definitivamente fixado em Kara-Agatch. Desde 1896, este seminário menor goza da isenção do ordinário e responde diretamente à Santa Sé.
Os seminaristas, uma vez terminados seus estudos clássicos, dirigem-se ao grande seminário greco-eslavo São Leão, que os assuncionistas estabeleceram em Kadi-Keui, Calcedônia, in 1895, e que goza igualmente da isenção do ordinário. Contavam-se, em julho de 1903, 25 alunos saídos de Adrianópolis ou de Kara-Agatch e que haviam perseverado. Desse número, 10 eram padres e 2 diáconos; os outros terminavam ou começavam seus estudos de grande seminário. Cerca de dois terços pertencem à nacionalidade búlgara.
As paróquias ou estações para os Búlgaros-Unidos, no vicariato apostólico da Trácia, são: 1° na Turquia: Adrianópolis, duas ou três residências, Kara-Agatch, Ak-Bounar, Malko-Tirnovo, Elagune, Lisgar, Dougandji, Kaiadjik, Pokrovan e Mostratli; 2° na Bulgária: Soudjak, Gadjilovo, Topouzlar, Philippopoli, Yamboli, Sliven. Sobre o vicariato apostólico da Macedônia, ver os Echos d’Orient, 1902, t. V, p. 397 sq.; o Bessarione, 2ª série, 1902, t. III, p. 341-345; 1903, t. V, p. 38-40: sobre o vicariato da Trácia, ver o artigo dos Echos d’Orient, 1904, t. VII, p. 35-40. As principais peças relativas à união dos Búlgaros com Roma encontram-se traduzidas na Revue de l’Orient chrétien, 1897, t. II, p. 166-172.
XV. A IGREJA LATINA NA BULGÁRIA. — 1° A Igreja latina é constituída hoje pelo bispado de Nicópolis, que responde diretamente à Santa Sé, e o vicariato apostólico de Sófia e Philippopoli. Quase todos os católicos são antigos convertidos da heresia pauliciana ou bogomila, que assolou essas regiões na Idade Média e, de lá, infiltrou-se na Europa ocidental para dar nascimento às seitas dos cátaros, dos patarinos, dos albigenses, etc.
É admitido hoje que a heresia pauliciana se constituiu com os destroços de diversas seitas gnósticas sob o reinado de Constantino Pogonato, 668-685, e que teve por fundador um certo Constantino, originário da região de Samosata, e cujo dualismo maniqueísta representava quase toda a doutrina. Seus discípulos, sob nomes diversos, espalharam por toda parte seus ensinamentos e os imperadores bizantinos, ao deportarem para todas as fronteiras de seu Estado esses turbulentos heréticos, não contribuíram pouco para a difusão de suas ideias. No século X, João Tzimiscés, 969-976, transplantou um grande número do fundo da Armênia para os arredores de Philippopoli na Trácia. É a essa deportação em massa que se deve atribuir a recrudescência do maniqueísmo na Bulgária naquela época?
O fato é que as tradições conservadas pelos Gregos, pelos Latinos e pelos Eslavos são unânimes em fazer viver sob o tsar búlgaro Pedro I, 927-968, o padre Jeremias dito Bogomila, isto é, Teófilo, que deu um nome novo a uma heresia já antiga e, ao despertar o ardor religioso de seus partidários, assegurou-lhes um triunfo momentâneo. Com efeito, é a partir desse momento que as diversas seitas maniqueístas se apoderam da Europa central, para descer ao norte da Itália e, pelo vale do Ródano, invadir toda a Gália meridional, e é sempre na Bulgária que os chefes da seita vão buscar as instruções necessárias. Duas comunidades sobretudo se distinguem entre todas por seu zelo e sua importância, a de Philippopoli na Trácia e a de Dragovitza na Macedônia.
Não entra em meu propósito detalhar nem seguir a história dessa seita na Bulgária, como ela foi condenada oficialmente no concílio de Tirnovo em 1210, em outros concílios, em 1316, 1325 e 1366, como ela pareceu desaparecer quando a Bulgária caiu nas mãos dos Turcos no final do século XIV, seja pronunciando-se pelo islamismo, seja apagando-se e propagando-se na obscuridade; basta lembrar que os Búlgaros latinos de nossos dias, os pavlicanos, como se continua a chamá-los no país, são os descendentes búlgaros dos paulicianos e dos bogomilos da Idade Média. Ver col. 926-930.
A missão latina da Bulgária, unida àquela da Valáquia, foi submetida durante o século XVI à visita do arcebispo de Antivari; recebeu no século XVIII missionários franciscanos da Bósnia e, em 1624, formou uma província independente sob o nome de custodia Bulgariæ. Confiada, em 1763, à congregação dos batistinos de Gênova, viu, em 1781, toda uma parte de seu território destacada, sob o nome de missão búlgara, pelo Papa Pio VI em favor da congregação de São Paulo da Cruz.
Os passionistas tornavam-se, ao mesmo tempo, na pessoa de um de seus religiosos, bispos de Nicópolis ou Roustchouk e administradores apostólicos da Valáquia deixada aos franciscanos; mas, à diferença destes, não tiveram e não têm ainda casas canônicas na Bulgária, tendo tomado apenas sobre si o encargo das paróquias. Os primeiros bispos franciscanos de Nicópolis residiam habitualmente em Tchiprovetz, que os Turcos destruíram em 1688.
Por consequência da guerra ocorrida naquele ano entre os Austríacos e a Porta, a maioria dos católicos emigrou para a Transilvânia, onde o imperador Leopoldo I lhes permitiu estabelecer-se. Em 1724, nova emigração para a Valáquia e no Banato de vários milhares de famílias, que receberam diversos privilégios dos Imperiais. Fundaram quinze aldeias, cuja mais importante tornou-se a cidade florescente de Binga. Quanto aos que haviam permanecido no norte da Bulgária, em cinco ou seis aldeias nos arredores de Nicópolis, ficaram por muito tempo sem padre e sem igreja.
Por duas vezes diferentes, Roma tentou socorrer esses pobres cristãos abandonados, enviando-lhes bispos e padres, por volta do final do século XVIII. É na sequência da guerra russo-turca e da terrível peste de 1812 que, com a autorização do exército russo ocupando o território, um certo número de famílias búlgaras atravessou o Danúbio e fundou a aldeia de Cioplea, perto de Bucareste, onde seu bispo passionista os seguiu e sucumbiu ao flagelo. Seus sucessores permaneceram ali até 1847.
Nesse momento, o bispo latino conseguiu obter em Bucareste, cuja entrada lhe fora formalmente proibida pelo metropolita ortodoxo, uma moradia espaçosa, que lhe serviu de residência assim como a seus sucessores. O novo estado da missão não foi modificado até 1864, onde um decreto da Propaganda encarregava os passionistas de tomar na Valáquia o lugar dos missionários franciscanos, que se retiraram progressivamente.
Em 1873, Mons. Paoli erigia em sua moradia episcopal de Bucareste um pequeno seminário diocesano e, dois anos depois, estabelecia um grande seminário em Cioplea. Infelizmente, os passionistas, aos quais incumbia a direção, fizeram dele menos um grande seminário do que um noviciado de passionistas, destinado a fornecer religiosos às suas casas da Valáquia e da Bulgária.
A situação permaneceu mais ou menos tensa até 1888, quando Mons. Palma, ele mesmo um antigo passionista, liberou todos os padres formados em Cioplea de suas obrigações para com os passionistas e criou um seminário exclusivamente diocesano. A consequência totalmente natural desta grave resolução foi retirar em princípio a missão dos passionistas para confiá-la ao clero secular; mas isto já não interessa à diocese de Nicópolis.
Em 1883, com efeito, a Valáquia havia sido separada da Bulgária pela Santa Sé e submetida ao arcebispado de Bucareste, criado pela mesma ocasião. Desde então, o bispo de Nicópolis, deixando de ser administrador apostólico da Valáquia, escolheu Roustchouk para sua residência, onde permanece ainda.
2º A diocese de Nicópolis depende diretamente da Santa Sé; tem por bispo Mons. Henri Doulcet, passionista francês, nomeado em 7 de fevereiro de 1895 e que agregou como auxiliar Mons. Jacques Roissant, secular francês, nomeado em 15 de setembro de 1901 com o título de Usala. Os católicos são perto de 12 000 em 1 500 000 habitantes. Há quinze estações residenciais, que serão indicadas logo mais, e uma não residencial em Brégare perto de Plevna.
A diocese possui dois padres seculares e vinte e três regulares, dos quais vinte passionistas e três assuncionistas. Os passionistas, que têm vinte padres e nove irmãos conversos, dirigem todas as paróquias, à exceção de duas. Os assuncionistas, estabelecidos em Varna desde 1897, são em número de sete, dos quais três padres e quatro irmãos de coro; eles têm uma escola que conta setenta alunos, e se transformará em breve em estabelecimento de ensino secundário, com autorização para conferir graus para a Bulgária.
Os irmãos das escolas cristãs, de origem alemã, mantinham até aqui a escola primária de Roustchouk, que tinha oitenta alunos; eles acabam de cedê-la a professores laicos e de deixar a diocese, setembro de 1903. As irmãs de Sion, quinze religiosas, ocupam-se do pensionato e do externato de Roustchouk, que têm juntos cento e sessenta alunas; elas sucederam nesta tarefa às oblatas da Assunção. Estas, estabelecidas em Varna desde 1897, são em número de quinze e acabam de abrir um grande pensionato, que conta já cento e quarenta internas ou externas.
Quatro irmãs dominicanas de Cette estabeleceram-se, em agosto de 1903, em Sistof e têm a intenção de se consagrar ao alívio dos enfermos nos arredores. Além das escolas de Roustchouk e de Varna, os outros centros católicos têm a escola oficial do governo, onde o pároco se dirige para dar o catecismo; os professores são habitualmente católicos. Esta diocese não possui ainda um seminário, mas Mons. Doulcet conta abrir um grande seminário no decorrer do ano 1904.
3º O vicariato apostólico de Sofia e Philippopoli compreende a antiga província conhecida sob o nome de Mésia superior, assim como uma parte da Trácia, que se estende até o território de Adrianópolis exclusivamente. Como a diocese de Nicópolis, este vicariato foi primeiramente confiado aos franciscanos da província bósnia, que haviam convertido as aldeias paulicianas dos arredores de Philippopoli no século XVIII.
Em 1610, a Santa Sé restabeleceu a hierarquia católica, interrompida desde séculos, ao erigir o bispado de Sofia. Foi assim até 1643, quando esta sé foi transformada em arcebispado. No século XVIII, a sé tornou-se novamente vacante devido às perseguições dos Turcos; os católicos sobreviventes foram constrangidos com seu clero a tomar em grande número o caminho do exílio.
Em 1835, recobrou-se uma paz relativa e Roma aproveitou para confiar a direção regular destes paulicianos convertidos aos redentoristas, que tinham à sua frente um prefeito ou vigário apostólico, mas sem a consagração episcopal. Os redentoristas foram substituídos em 1841 pelos irmãos menores capuchinhos. O primeiro vigário apostólico foi o P. André Canova, que se tornou em 1848 bispo titular de Ruspe; ele morreu em 1866. Seu sucessor, Mons. Reynaudi, sagrado em 1868, com o título de Egées, tornou-se vigário apostólico de Sofia e Philippopoli e obteve, em 1880, um coadjutor com futura sucessão na pessoa de Mons. Menini, religioso da mesma ordem. Este sucedia, em 1885, a Mons. Reynaudi com o título de arcebispo de Gangres; ele dirige sempre este vicariato.
Desde 1890, uma mudança ocorreu na organização do seminário deste vicariato, que retirará, a curto prazo, esta missão aos Padres capuchinhos italianos e austríacos. Na sequência dos distúrbios políticos da Itália, resolveu-se criar um instituto oriental para o recrutamento dos missionários capuchinhos no Oriente. Com este objetivo, Mons. Menini abria em 1882 uma pequena escola seráfica em Philippopoli, enquanto uma outra era criada em San-Stéfano perto de Constantinopla. O noviciado se fazia em Boudja perto de Esmirna; após o que, os jovens religiosos iam estudar durante dois anos a filosofia em San-Stéfano e retornavam a Philippopoli, depois a Sofia, para se dedicar durante quatro anos aos estudos teológicos. Como a Bulgária parecia por demais favorecida nesta partilha dos cursos, resolveu-se, em 1890, transferir o noviciado a San-Stéfano, e de centralizar em Boudja os estudos de filosofia e de teologia.
A Bulgária não guardava mais que a escola seráfica preparatória. Mons. Menini não pôde se resolver a esta combinação; ele se separou do instituto, guardou seus búlgaros e, sob os conselhos de Leão XIII, sua escola tornou-se um seminário para a formação de um clero indígena búlgaro, que tomará pouco a pouco o lugar dos Padres capuchinhos, à medida que as paróquias se tornarem vacantes. Ver o P. Hilaire de Barenton, La France catholique en Orient, in-8°, Paris, 1902, p. 260-263.
O pequeno seminário de Philippopoli conta hoje vinte alunos, o grande seminário de Sofia para os estudos filosóficos e teológicos seis somente. O vicariato apostólico de Sofia-Philippopoli conta treze padres seculares, quatorze capuchinhos, vinte e seis assuncionistas, padres ou irmãos de coro, um ressurrecionista e onze irmãos das escolas cristãs. Os capuchinhos estão quase todos empregados no ministério paroquial, o ressurrecionista dirige a paróquia de Stara-Zagora e os irmãos das escolas cristãs, o pensionato e o externato de Sofia que têm duzentos e seis alunos.
Quanto aos Padres assuncionistas, eles têm quatro residências, das quais duas em Philippopoli, uma em Yamboli e uma outra em Sliven. Em Philippopoli, dezessete padres e irmãos de coro dirigem desde 1884 o colégio Saint-Augustin, o único colégio católico de toda a Bulgária, o qual conta de noventa e cinco a cem alunos; quatro outros estão na escola paroquial de Saint-André, que tem duzentos e cinco alunos. Em Yamboli, há três religiosos da mesma congregação, que se ocupam dos católicos latinos e eslavos; enfim, uma nova missão acaba de ser estabelecida em Sliven, no final de 1903, com dois padres para os búlgaros uniatas, que contam já setenta famílias.
As irmãs francesas de Saint-Joseph de l'Apparition são em número de cinquenta e duas e possuem seis casas, das quais três em Sofia, duas em Philippopoli e uma em Bourgas. Em Sofia, quinze irmãs ocupam-se de um vasto pensionato, fundado em 1880, e que compreende ao mesmo tempo internas, externas e órfãs, ao todo trezentas e vinte crianças; duas outras têm uma escola de trinta alunas e cuidam da igreja paroquial; dez outras mantêm o hospital Clémentine, que compreende cinquenta leitos, e vão além disso visitar os enfermos a domicílio. Em Philippopoli, o pensionato, desde 1899, ocupa onze irmãs e conta cem alunas; a escola Saint-Joseph, que remonta a 1866, tem cinco irmãs e duzentos e vinte alunos. Em Bourgas, pensionato e externato desde 1891 com nove irmãs e uma centena de alunos.
Sete irmãs austríacas de Saint-Vincent-de-Paul (de Agram) dirigem o hospital de Philippopoli e vinte e cinco irmãs búlgaras, terciárias de Saint-François, ocupam-se de um orfanato e de trabalhos dos campos. As oblatas da Assunção, em número de sete, têm uma escola primária de cinquenta alunos e um dispensário em Yamboli. Há igualmente, fora desses estabelecimentos, escolas primárias para os meninos e para as meninas nas diversas paróquias do vicariato.
POPULAÇÃO CATÓLICA LATINA DA BULGÁRIA DIOCESE DE NICOPOLIS. VICARIATO APOSTÓLICO DE SOFIA-PHILIPPOPOLI.
Paróquias e residências. | Católicos. | Paróquias e residências. | Católicos. Roustchouk ... | ... | Philippopoli. | ... Assenovo | ... | Ahlanovo..... | ... Bardarski-Ghéran | ... | Baltadji. | ... Bellini. | ... | Bourgas | ... Dragomirovo. | ... | Daoudjova | ... Hambarlié | ... | Kalachié | ... Komatiévo | ... | Tirnovo | ... Trangevitz | ... | Stara-Zagora... | ... Dobritch. | ... | Yamboli | ... Total : 45 | ... | Total : 15 | ...
Sobre os bogomilos, ver Raczki, Starine (Mémoires de l’académie slave d’Agram), t. VI, VII, IX; L. Leger, L’hérésie des bogomiles en Bosnie et en Bulgarie au moyen age, dans la Revue des questions historiques, 1870, t. VIII, p. 479-517; C. Jirecek, Geschichte der Bulgaren, Prague, 1876, p. 155, 174, 208, 212, 241, 464 sq., 578; Karapet Ter-Mkrttschian, Die Paulikianer im byzantinischen Kaiserreiche und verwandte ketzerische Erscheinungen in Armenien, Leipzig, 1893, passim; Eus. Fermendzin, Acta Bulgariae ecclesiastica ab anno 1565 usque ad annum 1799, Zagreb, 1887; E. Tachella, Les anciens pauliciens et les modernes bulgares catholiques de la Philippopolitaine (en bulgare), dans le Sbornik ou Recueil du ministère bulgare de l’instruction publique, Sofia, 1894, t. XI, p. 103-134, et, en traduction française, dans Le Muséon, 1897, t. XVI, p. 68-90; Mgr Mennini, Relazione... sullo stato del suo apostolico vicariato nel 1890-91, in-8°, Milan, 1891, extrait des Annali francescani; ce rapport, qui nous renseigne fort bien sur le vicariat apostolique de Sofia-Philippopoli, a été traduit en français par L. Dupuy-Péyou dans La Bulgarie aux Bulgares, in-8°, 1895, p. 278-324; De l’ancienne liturgie dans la Bulgarie du Nord, dans les Etudes préparatoires au pélerinage eucharistique... en avril et mai 1893, in-12, Paris, 1893, p. 180-184. Voir aussi Missiones catholicae, Rome, 1898, p. 117-119, 134-136, et pour le clergé du diocèse de Nicopolis, Kirchlicher Anzeiger für die römisch-katholische Pfarrei in Rustschuk, in-8°, Bucarest, 1899, sorte de semaine religieuse qui n’a paru qu'une fois. Les dernières statistiques m’ont été fournies obligeamment par les autorités diocésaines.
Autor original: S. Vailhé
A extração e a tradução foram feitas por IA e em caso de algum erro podem entrar em contato com o editor