BOVERIUS

BOVERIUS

BOVERIUS, capuchinho, na religião Zacarias de Saluzzo, do nome de sua cidade natal, era filho de Mathieu Bovier, do Delfinado, vice-senescal do marquesado de Saluzzo, pela França. Nascido em 1568, recebeu no batismo o nome de João Batista; sua educação foi muito esmerada; possuía muito bem as letras latinas e gregas, e acabava de ser nomeado doutor em direito quando morreu seu pai (1585). Resolveu pouco depois tornar-se capuchinho e, recebido no noviciado de Alexandria, ali fez profissão no dia 9 de junho de 1591.

A ciência e as outras qualidades do Pe. Zacarias designavam-no para tomar parte nas missões que a província do Piemonte mantinha então nas regiões invadidas pelo protestantismo; em 1601 vimo-lo em Thonon, no momento do grande jubileu, e no vale de Susa em 1602, 1603 e 1612. Em Thonon, na Santa Casa, concebeu o projeto da grande obra que terminava dez anos mais tarde e publicava sob o título: Demonstrationes symbolorum vere et falsae religionis, adversus praecipuos ac vigentes catholicae religionis hostes, atheistas, judaeos, haereticos, praesertim lutheranos et calvinistas, 2 in-fol., Lyon, 1617. Rocaberti, Bibl. pontif. maxima, t. xx, p. 478-597, reproduz a parte do IIº livro do tomo 1 relativo ao soberano pontífice. Hurter faz notar que esta obra foi censurada in nonnullis pela Inquisição, o que não impediu o autor de ser, posteriormente, consultor desse supremo tribunal.

Boverius tinha vindo a Lyon para supervisionar a impressão de sua obra; os religiosos desta província quiseram tirar partido de sua presença e ofereceram-lhe uma cátedra de leitor em teologia; encontramo-lo em Dijon com este título em 1618. Nesta mesma época, Marco Antônio de Dominis, arcebispo apóstata de Spalato, acabava de publicar os quatro primeiros livros de seu tratado De republica ecclesiastica, in-fol., Londres, 1617. Sem tardar, o Pe. Zacarias empreendeu refutá-lo e mandou imprimir a Paraenesis catholica ad M. A. de Dominis..., in-12, Lyon, 1618. Neste volume, contudo, ele dava apenas o começo de sua refutação que publicou três anos depois: Censura paraenetica in quatuor libros de republica ecclesiastica M. A. de Dominis..., in-fol., Milão, 1621. Ao fim desta obra encontra-se a Censura in tractatum de legitima cardinalium creatione, da qual alguns bibliógrafos fazem erroneamente um volume publicado em 1622.

Entrementes, Boverius tinha retornado à sua província do Piemonte, que lhe havia conferido o cargo de definidor e de guardião do convento de Mondovì, mas ali permaneceu pouco tempo, pois o geral da ordem chamava-o para perto de si na qualidade de consultor, e, a este título, seguiu-o para a Espanha. Na mesma época encontrava-se na corte de Madri o futuro rei da Inglaterra Carlos I, então príncipe de Gales. O rei da Espanha, cuja irmã ele queria desposar, desejava a conversão do príncipe; para este fim, arranjaram-lhe um encontro com Boverius, mas Buckingham, seu governador, cortou curto essas entrevistas; então o Pe. Zacarias, para completar o que esperava ter começado, escreveu sua Orthodoxa consultatio de ratione verae fidei et religionis amplectendae ad Ser. Carolum Wallis principem..., in-4º, Madri, 1623; in-8º, Colônia, 1626. Foi reeditada em Roma, 1635, por ordem do cardeal Antônio Barberini, in communem omnium verae religionis studiosorum gratiam et utilitatem.

Apesar de suas frequentes viagens e para responder a um desejo de seu superior, Boverius compôs um Directorium fori judicialis pro regularibus, in-4º, Turim, 1624, assim como um ritual para sua ordem: De sacris ritibus juxta Romanam regulam usui Fr. Min. S. Franc. qui vulgo capuccini nuncupantur accommodatis, in-4º, Nápoles, 1626. Durante a impressão desta obra, Boverius acompanhava na qualidade de teólogo o cardeal Francisco Barberini, sobrinho de Urbano VIII, em sua legação na França e na Espanha (1625-1626). Pouco após seu retorno, recebia o cargo de compor as crônicas de sua ordem. O Pe. Zacarias pôs-se ao trabalho e o primeiro volume estava terminado em 1629; apareceu sob o título: Annalium seu sacrarum historiarum ordinis minorum S. Francisci qui capuccini nuncupantur tomus primus, in-fol., Lyon, 1632.

Teria querido deixar ali este trabalho para tomar parte na missão que a província de Paris mantinha junto à rainha da Inglaterra, esposa de Carlos I; já a Propaganda tinha dado seu consentimento (31 de maio de 1632), mas os superiores obtiveram conservá-lo para terminar os Annales. Boverius escreveu, pois, o segundo volume, impresso em Lyon em 1639, mas não viu o seu aparecimento: tinha morrido em Gênova, no dia 31 de março de 1638; era pela segunda vez definidor geral da ordem. Uma dissertação De vera habitus forma a Seraphico B. P. Francisco instituta, extraída do primeiro volume dos Annales, foi reeditada em Colônia, 1640, in-12. Encontram-se exemplares com a data de 1643, 1656.

Francesco da Sestri, Vita del P. Zaccaria Boverio, Gênova, 1664; Mathias Ferrerius a Caballario Majori, Rationarium chronographicum missionis evangelicae... in Gallia Cisalpina, Turim, 1669; Bernard de Bologne, Bibliotheca scriptorum O. M. capuccinorum, Veneza, 1747; Hurter, Nomenclator, Innsbruck, 1892, t. 1, p. 284.

Autor original: P. Édouard d'Alençon

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