BOUVIER (JOÃO BATISTA)

BOUVIER (JOÃO BATISTA)

BOUVIER Jean-Baptiste (Monsenhor), bispo de Le Mans (1834-1854), teólogo, nascido em 16 de janeiro de 1783 em Saint-Charles-la-Forêt (Mayenne), professor de filosofia no colégio de Chateau-Gontier (1808), chamado ao grande seminário de Le Mans (1811), onde foi inicialmente professor de filosofia e, pouco depois, de teologia moral, depois superior (1819) e, finalmente, vigário-geral (1820) até o momento de sua elevação à sé de Le Mans (1834); faleceu em Roma em 28 de dezembro de 1854.

Pela influência intelectual considerável que exerceu sobre o clero de seu tempo, graças à difusão, em quase todos os seminários da França, das quinze edições de suas Institutiones theologicae, Monsenhor Bouvier merece um lugar à parte, e um lugar de honra, na história da teologia no século XIX. Sua teologia teve a rara fortuna de ser o primeiro e, por muito tempo, o único manual que conviesse ao período de transição (1830-1870), caracterizado pela agonia dos dois erros, galicano e jansenista, e pela aurora das justas restaurações em todas as ordens da vida eclesiástica: filosofia, teologia, direito, história, liturgia, etc.

Publicada primeiramente em tratados separados, 13 volumes, 1818-1833, a teologia de Monsenhor Bouvier só surgiu em 1834 em primeira edição completa, com a distribuição em 6 volumes que sempre conservou desde então. No decorrer das reedições que ele mesmo havia preparado até 1852, o autor aplicou-se constantemente em melhorar seu trabalho, sem, contudo, expurgá-lo suficientemente dos traços de galicanismo que lhe valeram, na opinião pública, por volta de 1850, críticas suscitadas pelo desenvolvimento progressivo das ideias ultramontanas. Mais galicano de espírito que de coração, e mais por velocidade adquirida de educação primária do que por convicção pessoal, Monsenhor Bouvier aceitou muito voluntariamente fazer revisar sua teologia em Roma, sob os olhos de Pio IX.

Uma nova edição, a oitava, surgiu em 1853, modificada segundo as indicações dos corretores romanos. Mais tarde, enfim, após a morte do sábio e santo bispo, os professores do seminário de Le Mans fizeram uma nova revisão de sua obra, que eliminou ainda um bom número de imperfeições que escaparam à correção demasiado apressada de 1853. As variações sucessivas e profundas que sofreram as Institutiones theologicae obrigam o crítico de história a mostrar-se reservado na apreciação de conjunto que merece esta obra célebre, difundida, desde 1853, em mais de sessenta seminários franceses.

Para emitir um julgamento equitativo, convém considerar nela, à parte, o dogma, a moral e as qualidades práticas do manual.

Para a parte dogmática, ao menos no que concerne às primeiras edições, há motivo para não admirar, sem sérias reservas, a ortodoxia geral do autor. Tão pouco galicano quanto possível, muito próximo mesmo de não o ser mais de todo, Monsenhor Bouvier foi-o, contudo, como o era comumente a elite intelectual eclesiástica de sua época. Deve-se atribuir também à moda do tempo as inspirações cartesianas das quais seu espírito estava preocupado, assim como testemunham expressamente, aliás, suas publicações filosóficas. Esses erros ou defeitos de redação desapareceram quase por completo a partir de 1853.

Do ponto de vista da moral, a obra do bispo de Le Mans era, ao contrário, e permaneceu, totalmente notável. Ela toma posição nitidamente contra o jansenismo; ela introduz as doutrinas de Santo Afonso de Ligório no ensino, e se esta reação, tão meritória quanto corajosa, contra as severidades de Collet e de outros inumeráveis manuais de casuística mais ou menos oriundos da mesma fonte, não atinge de primeira, e sobre todos os detalhes, a perfeição de nossas teologias morais atuais, deve-se dizer, contudo, que Monsenhor Bouvier foi, com o Cardeal Gousset, entre os teólogos franceses, o iniciador mais potente.

Resta falar das qualidades práticas do manual famoso. Criticou-se, como obra de confusão indigesta, o amontoamento, em 6 volumes, de uma multidão de conhecimentos (história, liturgia, direito canônico, direito civil, etc.) que têm apenas uma relação indireta com a teologia propriamente dita. Para o momento presente, em que se pode dividir e especificar utilmente as diversas partes da ciência eclesiástica, a crítica seria fundada. Ela o é muito menos se retrocedermos oitenta anos, ao tempo em que era necessário, sem grandes recursos práticos de trabalho, na penúria de homens, de ideias e de coisas, em presença de necessidades sociais urgentes e de ordem menos especulativa que prática, infundir em três anos aos jovens clérigos a soma estritamente indispensável de noções que reclamava, então, o caráter mais exclusivamente pastoral do santo ministério nas paróquias.

Em suma, apesar de defeitos que o recuo da história e a evolução das ideias nos mostram hoje sob cores demasiado acentuadas pelo ambiente intelectual em que vivemos, as Institutiones theologicae permanecerão uma grande obra na história contemporânea da teologia, onde marcam uma etapa característica do movimento de progresso contínuo que fez sair a educação clerical, na França, dos erros e inércias do pós-Revolução, para levá-la às resplandecentes restaurações do fim do século XIX.

Eis a lista das obras de Monsenhor Bouvier:

1° Institutiones theologicae ad usum seminariorum, 6 in-12, 15 edições: 1831, 1836, 1839, 1841, 1844, 1846, 1850, 1853 (82), 1856, 1859, 1861, 1865, 1868, 1873, 1880;

2° Institutiones philosophicae ad usum seminariorum et collegiorum, primeiramente em 3, depois em 1 in-12, 12 edições (1824-1858); gênero da antiga Philosophia lugdunensis, emendado; metade por insuficiência de educação filosófica primária, metade por reação contra as ideias da escola mennaisiana, Monsenhor Bouvier, aliás pouco filósofo por temperamento, mostra-se aí cartesiano como o eram geralmente então os pequenos manuais de filosofia para uso dos seminários;

3° Histoire abrégée de la philosophie, 2 in-8°, 1841, edição única;

4° Traité dogmatique et pratique des indulgences, des confréries et du jubilé, à l’usage des ecclésiastiques, in-12, 10 edições (1826-1855); um resumo desta obra, sob o mesmo título, à l’usage des fidèles, in-18, 1826;

5° Dissertatio in sextum Decalogi praeceptum, in-12, 17 edições (1827-1864);

6° Précis historique et canonique sur les Jugements ecclésiastiques, opúsculo in-8°, 1852;

7° vários opúsculos polêmicos a respeito da Petite Église;

8° Catéchisme à l’usage du diocèse du Mans, in-12, 1838;

9° Statuta dioecesis Cenomanensis, in-8°, 1852;

10° enfim, uma coleção considerável de Lettres pastorales, das quais várias são verdadeiros tratados de teologia, como, por exemplo, a Instruction touchant les reliques de la vraie croix et des saints (2 de agosto de 1845) e a Lettre circulaire sur les tables tournantes et parlantes (14 de fevereiro de 1854).

Todas as obras de Monsenhor Bouvier foram publicadas em Le Mans, exceto as últimas tiragens da Théologie, da Philosophie e da Dissertatio, que foram editadas em Paris.

Monsenhor Sébaux, Vie de Mgr Jean-Baptiste Bouvier, Paris, 1889; F. Pichon, Essai historique sur les séminaires du Mans, Le Mans, 1879; Chevereau, Les derniers instants de Mgr J.-B. Bouvier, Le Mans, 1855; Desportes, Bibliographie du Maine, Le Mans, 1844; L’ami des lois, n. de 16 de julho de 1832; Annales de la philosophie chrétienne, t. IV, p. 71, 231; la Province du Maine, n. de fevereiro de 1904 e seg. P. DESHAYES.

Autor original: F. Deshayes

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