1. BONAGRATIA DE BERGAME, de sobrenome Boncortese, era doutor *in utroque jure* quando recebeu o hábito dos frades menores; contudo, nunca foi promovido às ordens sacras. Tendo ingressado na Ordem em uma época conturbada pelas questões da pobreza religiosa, assumiu inicialmente a posição entre os defensores da comunidade que aceitava viver sob o regime estabelecido pelos soberanos pontífices, contra os espirituais que protestavam contra os abusos e negavam ao papa o poder de explicar a regra de São Francisco e de permitir a alienação ou a troca dos bens doados aos frades menores. Ver ESPIRITUAIS.
Os *Articuli probationum contra fr. Ubertinum de Casali a Bonagratia inductarum* comprovam a posição adotada por Bonagratia. Baluze, *Miscellanea*, t. II, p. 276. Nestes artigos, ele estabelece que Ubertino de Casale compartilha dos erros já condenados de Pedro João Olivi e é rebelde à autoridade do papa. Ele escreveu também um ato de acusação da comunidade contra os espirituais e Ubertino de Casale em particular. *Archiv*, t. II, p. 365. Todavia, uma mudança inesperada ocorreu então em sua conduta, motivada talvez pelo mau acolhimento feito por Clemente V a um pedido que ele lhe havia endereçado em favor dos partidários de Olivi. *Archiv*, t. I, p. 36.
Ele havia partido para Bérgamo a fim de restabelecer a paz e havia sido nomeado guardião de Milão, quando cartas pontificais ordenaram que se dirigisse ao convento de Valcabrère, na província monástica da Aquitânia (31 de julho de 1312). Embora a contragosto, Bonagratia obedeceu; os espirituais o consideraram uma vítima condenada à prisão. Com a morte de Clemente V, ele deixou seu confinamento e dirigiu-se a Toulouse.
Bonagratia foi envolvido em outra questão relativa à pobreza de Cristo. Discutia-se asperamente na ordem dos frades menores para saber se, sim ou não, Cristo e os apóstolos possuíram alguma coisa, em particular ou em comum; de parte a parte, tratavam-se de hereges. Os primeiros anos do pontificado de João XXII haviam sido preenchidos por essas controvérsias. Tornaram-se mais vivas após a bula *Quia nonnunquam*, de 26 de março de 1322, pela qual o papa levantava a proibição imposta por Nicolau III (constituição *Exiit*) de comentar a regra dos menores.
Ele também havia posto a exame a questão da pobreza de Cristo, que o capítulo geral dos menores, reunido em Perúgia por ocasião do Pentecostes em 1322, quis decidir sem esperar a decisão pontifical. Por meio de escritos destinados à mais ampla publicidade, o geral da ordem, Miguel de Cesena, e outros doutores afirmavam a todos os fiéis que era perfeitamente ortodoxo sustentar que Cristo e os apóstolos nada possuíram. João XXII, que tendia para a opinião oposta, sentiu-se ferido por esse procedimento. Por isso, antes de decidir a questão e para preparar o terreno, escreve Wadding, ele publicou em 8 de dezembro de 1322 a decretal *Ad conditorem canonum*, pela qual renunciava ao domínio que a Santa Sé havia reservado sobre os bens móveis e imóveis dos menores, colocando-os, pelo fato, na mesma condição que os outros mendicantes.
A emoção que este ato pontifical produziu na ordem franciscana foi viva. Os superiores encarregaram Bonagratia de fazer ouvir em consistório seu protesto e seu apelo. Em 14 de janeiro de 1323, ele cumpria essa missão e apresentava um longo memorial no qual se esforçava por estabelecer que esta constituição, sendo contrária a tantas outras precedentes, era nula e injusta, *Vestre significat Sanctitati*... Baluze, *Miscellanea*, t. II, p. 213. O efeito deste apelo foi bem diferente daquele que seu autor esperava: ganhou por sua conta um ano de prisão e João XXII, longe de retirar sua decretal, a reviu, agravou-a ainda mais em sua forma e a promulgou de novo, deixando-lhe a mesma data.
Contudo, ele havia trazido uma importante modificação, na medida em que conservava para a Santa Sé o domínio sobre as igrejas, os conventos e sobre os vasos, livros e ornamentos sagrados. Em 12 de novembro seguinte, ele publicava a bula *Cum inter nonnullos*, pela qual declarava herética a proposição que afirmava que Cristo e os apóstolos não haviam possuído nada, nem em particular, nem em comum. Ver Denzinger, *Enchiridion*, n. 419.
Um protesto surgiu; vinha da Baviera e era assinado pelo duque Luís, cuja eleição como imperador romano o pontífice havia anulado. Os menores rebeldes haviam encontrado apoio junto a ele e ele não tardaria a tomar um deles para fazer dele um antipapa, pois declarava João XXII herege e decaído do soberano pontificado. Não se encontra o nome de Bonagratia durante os anos seguintes antes de 1328.
O papa havia chamado à corte Miguel de Cesena, que permanecia sempre suspeito, e lhe havia endereçado graves admoestações; tinha acabado por proibi-lo de afastar-se sob pena de excomunhão. O capítulo geral devia realizar-se em Bolonha naquele ano e o cardeal de Óstia havia sido designado para presidi-lo. No mesmo dia em que o capítulo se reunia (26 de maio) e o confirmava em seu cargo, Miguel de Cesena, acompanhado de Bonagratia e de Guilherme de Ockham, fugia secretamente de Avinhão e encontrava em Aigues-Mortes uma barca, enviada por Luís da Baviera, para conduzi-lo a Pisa.
No ano seguinte, o capítulo geral reunia-se de novo em Paris e, nesta ocasião, como Miguel de Cesena protestava sempre contra sua deposição, seus partidários, entre os quais encontramos Bonagratia, publicaram *Allegationes* nas quais "João de Cahors, que se diz João XXII", é muito maltratado. Baluze, *Miscellanea*, t. II, p. 315. Eles haviam, de fato, tomado posição entre os fiéis do antipapa Nicolau V. A partir desta época, o nome de Bonagratia desaparece; só o reencontramos nas sentenças de excomunhão ou nos mandados de captura que o soberano pontífice lançava inutilmente. Ver col. 654. Com Miguel de Cesena e Ockham, ele havia fugido para a Baviera. Morreu no convento dos menores de Munique no mês de fevereiro de 1347, sem que se tenha provas de seu arrependimento nem de sua absolvição.
Além dos *Articuli* contra Ubertino de Casale, o ato de acusação contra os espirituais, seu apelo contra a bula *Ad conditorem canonum* e as *Allegationes* de 1329, atribuem-se-lhe: *Tractatus seu libellus de paupertate Christi*; *Casus papales et episcopales... de quibus absolvere non possunt fratres minores et predicatores*; *Opus de ætatibus Ecclesiæ contra primatum et superioritatem papæ*.
Baluze, Miscellanea, edit. Mansi, Lucca, 1761, t. II; Wadding, Annales minorum, nos anos indicados; Sbaralea, Supplementum ad scriptores ord. minorum, Roma, 1807; Panfilo da Magliano, Storia compendiosa di S. Francesco e de’ francescani, Roma, 1876, t. I, p. 216 sq.; Analecta franciscana, Quaracchi, 1885-1897, t. I-II, passim; Ehrle, S. J., Archiv für Litteratur und Kirchengeschichte, t. 11, p. 36-44, onde há remissões aos t. I, II, a respeito de Bonagratia; Denifle, Chartularium universitatis Parisiensis, t. II, p. 486, nota; Eubel, Bullarium franciscanum, Roma, 1898, 1902, t. V, VI: ali encontram-se reproduzidos, além dos documentos pontifícios, vários dos documentos citados.
Autor original: F. VERNET
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