2. BEATITUDES EVANGELIQUES. As quatro beatitudes evangélicas relatadas por São Lucas, vi, 20-22, e as oito beatitudes relatadas por São Mateus, v, 1-8, sugeriram a Santo Ambrósio e a Santo Agostinho a ideia de as relacionarem, respectivamente, às quatro virtudes morais e aos sete dons do Espírito Santo (a oitava beatitude sendo apenas um resumo das primeiras). Os doutores, portanto, consideraram as obras evangélicas que nelas são glorificadas como atos especiais, seja de virtudes, seja de dons, e as recompensas como apropriadas aos méritos das virtudes e dos dons. São Tomás sintetizou esses dados e fê-los entrar no organismo de sua psicologia sobrenatural.
1° Santo Ambrósio, Exposit. Evang. sec. Luc., 1. V, n. 62-63, P. L., t. xv, col. 1653, considerando, diz São Tomás, que as beatitudes, Luc., vi, 19, foram endereçadas às multidões, relaciona-as às virtudes morais que são o apanágio de todos, enquanto Santo Agostinho, sempre segundo São Tomás, Sum. theol., Ia IIae, q. Lxix, a. 1, ad 1um, expondo as beatitudes que N. S. endereça aos seus discípulos (tanquam perfectioribus), tê-las-ia relacionado aos dons do Espírito Santo. As obras de virtude assinaladas na primeira parte das beatitudes de São Lucas são, portanto, de fato, as obras das virtudes morais. A pobreza relaciona-se à temperança, que se abstém dos prazeres; a fome à justiça, pois aquele que tem fome compadece-se, e compadecendo-se dá generosamente, e assim torna-se justo; o choro à prudência, que chora a instabilidade das coisas terrestres; o suporte do ódio dos homens à fortaleza. Ambrósio, loc. cit., n. 64-67. Segundo Santo Ambrósio, enfim, as recompensas das beatitudes relacionam-se à vida futura. Ambrósio, loc. cit., n. 61. Cf. Sum. theol., Ia IIae, q. Lxix, a. 2, 3, ad 4um.
2° Santo Agostinho, De serm. Dom. in monte, l. I, c. IV, P. L., t. XXXIV, col. 1234, para justificar a aproximação que se propõe fazer, começa por estabelecer que a enumeração dos dons em Isaías, xi, 2, 3 (tradução da Vulgata) começa pelos dons mais elevados e desce gradualmente até o menos digno, o temor (é bem a ordem que convém à plenitude de dons do Messias, observa São Tomás): as beatitudes, ao contrário (encerrando os atos propostos a homens que sobem em direção à perfeição), seguiriam a ordem inversa e corresponderiam aos dons de tal sorte que a primeira respondesse ao último dom enumerado em Isaías, a segunda ao sexto, ..., a sétima ao primeiro. — Quanto às recompensas, elas não são senão aspectos diversos da primeira: o reino dos céus. Esses aspectos são eles também apropriados aos dons. Designam, aliás, recompensas que são concedidas desde esta vida aos santos, e que o foram de fato, estima ele, aos apóstolos.
3° São Tomás alinha-se à exposição de Santo Agostinho e menciona apenas de passagem a de Santo Ambrósio. Pode-se resumir a sua doutrina nestes quatro pontos: 1. O Espírito Santo, cabeça de toda a organização sobrenatural do justo no qual Ele reside pela graça e pela caridade, pode intervir nos atos humanos de duas maneiras: passando pelo intermediário da razão (derivação da lei eterna) ou, diretamente, por inspirações que não relevam senão de sua pessoa. Os costumes humanos sobrenaturalizados são, portanto, dependentes de duas regras subalternadas. Para que essa dependência seja connatural e se exerça com facilidade, hábitos morais são indispensáveis: são as virtudes morais infusas que tornam o homem disposto a agir segundo a razão, sua regra interior, ela mesma influenciada pela graça e pela caridade; são também os dons que tornam o homem disposto a receber as inspirações do Espírito Santo. Ver Dons. Quando o justo, cedendo a uma graça atual, resolve-se a exercer os atos que correspondem aos dons, ele se coloca diretamente sob o influxo do Espírito Santo, e desse influxo ou inspiração resultam os atos denominados por São Tomás, beatitudes. Sum. theol., Ia IIae, q. LXVIII, LXIX, a. 1, 2a obj. Esses atos não diferem, portanto, especificamente dos atos das virtudes, mas apenas quanto à maneira pela qual eles são produzidos e, secundariamente, por um grau de perfeição objetiva mais elevado devido ao fato de que eles procedem diretamente de uma regulação divina.
2. As recompensas que são notadas na segunda parte das beatitudes evangélicas podem concernir à vida futura, mas elas podem também entender-se da vida presente, pois os santos as realizam já de tal sorte que se pode ter uma esperança fundada de sua beatitude final. É a interpretação de São Crisóstomo, In Matth., homil. xv, n. 8, P. G., t. LVII, col. 226, que adota assim São Tomás. Ibid., a. 2.
3. As beatitudes podem ser coordenadas não somente em relação aos dons, mas também em relação aos diferentes bens nos quais os homens colocam a beatitude. Essa segunda coordenação operar-se-á ora tendo em vista os méritos, ora tendo em vista as recompensas.
4. Obtém-se assim o quadro seguinte. Ibid., a. 3. VIDA DAS BEATITUDES HUMANAS Consistindo na renúncia às riquezas e às honras. Don de temor. Consistindo na prática da mansidão contra as paixões do irascível. Don de piedade. Consistindo na moderação das paixões do concupiscível. Don de ciência. VIDA ATIVA (pode dispor à vida contemplativa) Consistindo em dar a cada um o que lhe é devido. Don de fortaleza. Consistindo na beneficência espontânea. Don de conselho. VIDA CONTEMPLATIVA (ela não é outra, se ela é perfeita, senão a visão de Deus) Consistindo na purificação que dispõe o interior do homem à contemplação. Don de inteligência. Beati mundo corde. Consistindo na paz que coloca o homem ao abrigo das perturbações vindas do próximo. Don de sabedoria. Beati pacifici. A coordenação das duas últimas beatitudes com a vida contemplativa efetua-se tendo em vista a recompensa; as outras coordenações tendo em vista o mérito. Ibid., a. 3, ad 1um. São Tomás nota uma correspondência análoga entre as recompensas das beatitudes e as três vidas voluptuosa, ativa, contemplativa (a. 4).
5. As acomodações das beatitudes aos dons feitas por São Tomás podem sofrer críticas de detalhe. Não é menos certo que o seu conjunto se recomenda: a) do ponto de vista da penetração do sentido profundo do Evangelho; b) do ponto de vista do complemento que ele traz à psicologia sistematizada do sobrenatural; c) do ponto de vista dos recursos que oferece essa doutrina para o ensino e a prática dos mais altos cumes da vida espiritual. Gardeil, De l’ordre surnaturel et divin, Nancy, 1847, p. 184-187; B.
Froget, De l’habitation du Saint-Esprit dans les âmes justes, Paris, 1900;
Gardeil, Les dons du Saint-Esprit dans les saints dominicains, Paris, 1903.
Autor original: A. Gardeil
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