BARNABÉ (EPÍSTOLA DITA DE SÃO)

BARNABÉ (EPÍSTOLA DITA DE SÃO)

BARNABÉ (Epístola dita de São). — I. História do documento. II. Conteúdo. III. Autenticidade. IV. Integridade. V. Ensinamentos.

I. HISTÓRIA DO DOCUMENTO. — A epístola, dita de São Barnabé, endereçada a desconhecidos por um autor anônimo para combater, ao menos indiretamente, certas pretensões judaicas e ensinar a via da salvação, foi conhecida cedo e citada sobretudo no meio alexandrino. Segue-se seu rastro na literatura patrística do Iº século ao IXº. Certas comparações de textos permitem crer que Hermas, Vis., II, 4; Mand., II, 4, e Barn., XIX, 5, 11; São Justino, Dial. cum Tryph., XI, e Barn., VII, 6, 8, Santo Irineu, Cont. her., IV, 17, 6; V, 28, 3, e Barn., I, 10; XV, 4, a tiveram sob os olhos. Tertuliano serve-se dela em duas passagens, sem citar sua fonte, Adv. Marc., II, 7; Adv. Jud., XIV, P. L., t. II, col. 331, 640, e Barn., VII, 4, 6, 8. Clemente de Alexandria, que não aprova nem o que ela encerra de inverossímil sobre a hiena, Ped., I, 10, P. G., t. VIII, col. 500, nem sua interpretação do Ps. I, Strom., II, 15, P. G., t. VIII, col. 1005, cita dela longos extratos. Strom., I, 6, 7, 18, 20, P. G., t. VIII, col. 965, 969, 1021, 1060; Strom., V, 8, 10, P. G., t. IX, col. 81, 96. E Orígenes conjetura com razão que ela forneceu a Celso seu argumento contra os apóstolos. Cont. Cels., I, 63, P. G., t. XI, col. 777. Clemente de Alexandria, segundo Eusébio, H. E., VI, 14, P. G., t. XX, col. 549, e mesmo Orígenes, In Rom., I, 24, P. G., t. XIV, col. 866, mantinham-na em tão alta estima que a citavam como Escritura.

A partir do IXº século, o silêncio se faz sobre esta epístola; não se fala mais dela; ignora-se sua existência. Mas, no XVIIº século, ela é reencontrada em um texto grego muito mutilado, ao qual faltam os cinco primeiros capítulos, e em uma versão latina, muito antiga, à qual faltam os quatro últimos capítulos. Texto e tradução se completavam e permitiram reconhecer a epístola que a antiguidade cristã atribuía a São Barnabé. A primeira edição, preparada pelo inglês Usher, foi destruída em um incêndio, em 1644; a de dom Ménard foi publicada por dom d’Achéry, em 1645. Graças à colação de novos manuscritos, Isaac Voss deu uma nova, menos imperfeita, em 1646. Na sequência, Cotelier em 1672, Lemoyne em 1685, Leclere em 1698, Russel em 1746, Galland em 1765 e Hefele em 1839, entre outros, aplicaram-se a melhorar o texto. Dressel pôde utilizar manuscritos novos e publicou, em 1857, a edição a menos incorreta. Mas, até então, não se tinha podido reencontrar o começo do texto grego, que se era obrigado a substituir provisoriamente pela velha tradução latina.

Felizmente, em 1859, Tischendorf descobriu no convento de Santa Catarina, no monte Sinai, um codex do IVº século, onde o texto grego da epístola estava integralmente transcrito após os livros do Novo Testamento. Ele publicou o todo, em 1862, em São Petersburgo, e, em 1863, em Leipzig. Imediatamente apareceram as novas edições críticas de Dressel, em 1863; de Volkmar, em 1864; de Hilgenfeld, em 1866; de Muller, em 1869; de Gebhardt, em 1875. Em 1875, nova descoberta: o arquimandrita Filoteu Bryennios encontrou em Constantinopla um codex do XIº século contendo, em sua integridade, as epístolas de Clemente de Roma e de Barnabé, bem como a Didaché. Contentando-se em publicar primeiro a epístola de São Clemente, ele transmitiu uma cópia fiel da de São Barnabé a Hilgenfeld, que a utilizou em seu Der Brief des Barnabas, 1877, Leipzig; ele a publicou por sua vez com a Didaché, em 1883, em Constantinopla. Entrementes, Gebhardt e Harnack deram a segunda edição de seus Patrum apostolicorum opera, Leipzig, 1878. Finalmente, Funk, levando em conta as recentes descobertas, inseriu a epístola de São Barnabé à frente de seus Patrum apostolicorum opera, Tubinga, 1881, com uma tradução latina e notas críticas. É esta última edição que será citada no decorrer do artigo. Uma terceira edição apareceu em 1901.

II. CONTEÚDO. — A epístola de Barnabé, que se considera como um tratado apologético contra os judeus ou como uma homilia pregada a um auditório cristão, divide-se em duas partes muito distintas e de desigual comprimento: primeira, I-XVII; segunda, XVIII-XXI. — Primeira parte. — Após ter saudado seus destinatários e louvado os dons espirituais que eles receberam de Deus, o autor considera como uma alegria e um dever escrever-lhes para tornar sua fé e sua ciência perfeitas, não a título de doutor, mas como um deles (I). Os dias são maus: trata-se de pesquisar as justificações do Senhor. Ora, Deus preveniu por seus profetas que não precisa nem de sacrifício, nem de holocausto, nem de oblação: tudo isso é abrogado. É agora a lei nova de Nosso Senhor Jesus Cristo. Importa compreendê-la bem, cumprir com cuidado sua salvação e frustrar as seduções do Maligno (II).

Deus não quer o jejum corporal, mas aquele que consiste na abstenção de toda injustiça e na prática da caridade. Ele nos preveniu disso de antemão para que não sejamos afligidos pela lei como simples prosélitos (III). O que salva atualmente é fugir das obras de iniquidade, evitar todo contato com o pecado e os maus; pois a hora soou do escândalo predito pelos profetas: portanto, guardar-se de acumular falta sobre falta, sob pretexto de estar coberto pelo testamento novo. Pois os judeus, ao se voltarem para os ídolos, perderam para sempre o testamento que tinham recebido por Moisés. Atenção, pois, aos últimos dias. Para proibir ao Negro a entrada de nossas almas, é preciso fugir da vaidade, odiar as obras da via de iniquidade, tornar-se o templo espiritual e perfeito de Deus; pois se, apesar dos milagres e dos prodígios, os judeus foram afastados, tomemos cuidado de sermos rejeitados como eles (IV).

O Filho de Deus veio; ele se encarnou; ele derramou seu sangue sobre o madeiro para resgatar nossos pecados (V). Tudo isso, encarnação, paixão, foi prefigurado (VI). O bode expiatório (VII), a vaca ruiva, dupla imagem de Cristo, ininteligível a quem quer que não tenha ouvido a palavra de Deus (VIII). Deus circuncidou nossos ouvidos e nosso coração. Quanto à circuncisão, na qual os judeus punham sua confiança, ela foi abrogada. Deus não prescreveu a circuncisão da carne; ao praticá-la, os judeus, enganados pelo mau anjo, ultrapassaram suas ordens. Sem dúvida, a circuncisão carnal foi dada por Abraão a seus 318 servos; mas isso é um mistério relativo a Jesus; pois 18 se escreve IH, começo do nome de "Iησoυς, e 300 se escreve T, que é o sinal da cruz (IX).

Ao proibir certos alimentos, Moisés não teve em vista senão um sentido espiritual (X). — Deus anunciou-nos também de antemão o mistério da água e da cruz: a água é o batismo que apaga os pecados (xi); Moisés, orando, com os braços estendidos, e a serpente de bronze representam Nosso Senhor na cruz (xi). Resta saber qual é o povo herdeiro, aquele ao qual pertence o testamento. Jacó, caçula de Esaú, e Efraim, caçula de Manassés, são os preferidos de Deus e pressagiam assim a nossa eleição (xiii). Deus deu um testamento aos judeus, mas os judeus, pelos seus pecados, tornaram-se indignos dele, e somos nós que, por Jesus, fomos escolhidos em seu lugar (xiv). O sábado do decálogo figura o dia do descanso eterno (xv). O templo não é o de pedra, orgulho dos judeus e já destruído; é o nosso coração tornado, pela remissão dos pecados, a esperança e a fé, o tabernáculo de Deus (xvi).

Segunda parte. — Passemos a um outro ensinamento: há duas vias, a da luz e a das trevas, bem diferentes uma da outra. À primeira presidem os anjos de Deus; à segunda, os anjos de Satanás. É preciso seguir a uma e evitar a outra para chegar felizmente à ressurreição e à recompensa futura (xvii-xx). O dia do Senhor está próximo: eu vos conjuro, sede para vós mesmos bons legisladores, bons conselheiros; afastai toda hipocrisia; e que Deus, o mestre do mundo, vos dê a sabedoria, a inteligência, a ciência, o conhecimento do mandamento, a perseverança (xxi).

O autor não fala da parusia como a Didaqué, mas parece acreditar na iminência do fim do mundo. Consequentemente, ele deseja que "seus filhos" estejam prontos e não imitem a falsa segurança dos judeus. Não se diz que estes judeus, a exemplo dos judaizantes, tenham tentado impor o jugo da Lei como condição necessária antes de se tornar cristão; mas, sem dúvida, eles se iludem sobre o valor de sua aliança e desconhecem o papel do testamento novo. É por isso que o autor da epístola, ultrapassando aqui o pensamento de São Paulo, não se limita a provar que a Lei perdeu seu valor e que o ritual mosaico está abrogado; ele vai até pretender que a antiga aliança foi quebrada no mesmo dia em que foram quebradas por Moisés as tábuas da lei, que as diversas práticas judaicas não tiveram Deus por autor, que os judeus se enganaram ao tomar as prescrições ao pé da letra.

Pois o que Deus pedia não eram os sacrifícios sangrentos, mas um coração contrito, não um jejum corporal, mas a prática das boas obras, não a circuncisão da carne, mas a da orelha e do coração, não a abstinência de certas carnes, mas a fuga dos vícios designados pelos animais proibidos. De tal sorte que, contrariamente à doutrina de São Paulo, ele desconhece completamente o lado histórico do Antigo Testamento para nele ver apenas uma significação exclusivamente espiritual. Sem dúvida, ele estima que o Antigo Testamento anuncia o Novo; ele sinaliza mesmo algumas figuras anunciando, por exemplo, o mistério da cruz ou o chamado dos gentios no lugar dos judeus; mas sua interpretação numérica dos 318 servos de Abraão é mais digna da exegese fantasista da Cabala; e, a propósito da salvação, ele passa em silêncio o grande pensamento de São Paulo sobre a justificação gratuita e o papel da graça, ainda que ele não ignore a importância capital e a absoluta necessidade da salvação, já que ele indica o meio mais seguro para se salvar. Quanto às suas explicações científicas sobre a lebre, a doninha e a hiena, elas são mais que rudimentares e levam a sorrir, mas não se poderia dele fazer uma censura.

III. AUTENTICIDADE. — Autor, lugar e data. — A epístola que possuímos é bem certamente aquela que a antiguidade cristã atribuía a Barnabé. Mas este Barnabé é realmente o apóstolo, o companheiro e o colaborador de São Paulo em sua primeira missão? É uma questão que sequer se colocava; Clemente de Alexandria, Strom., ii, 6, 7, 15, P. G., t. viii, col. 965, 969, 1005, e Orígenes designam o Barnabé dos Atos como o autor da epístola.

Discutiu-se apenas um ponto, o de saber se a epístola fazia parte ou não da Escritura. Contrariamente à opinião de Clemente de Alexandria, Eusébio, H. E., vi, 13, P. G., t. xx, col. 548, teve-a por não canônica, e é unicamente neste sentido que se deve entender Eusébio e São Jerônimo, quando eles a classificam, a uma ἐν τοῖς νόθοις, H. E., iii, 25, P. G., t. xx, col. 269, a outra entre os apócrifos, De vir. ill., vi, P. L., t. xxiii, col. 619. Mas nem Eusébio, loc. cit., nem São Jerônimo, In Ezech., xii, 19, P. L., t. xxv, col. 425, nem, na sua sequência, Anastácio Sinaíta e o autor da Esticometria duvidaram da sua autenticidade.

Desde o século xvi até nós, esta era igualmente a opinião de Voss, Dupin, Cave, Le Nourry, Galland, Rosenmuller, Schmidt, Gieseler, Henke, Rordam, Franke, Alzog, Mohler, Treppel, Fessler, Nirschl, etc.; já não é a da crítica contemporânea. Já Ménard havia emitido algumas dúvidas; Cotelier havia se pronunciado contra a autenticidade. E desde então, Noel Alexandre, Ceillier, mais recentemente Hefele, Funk, Bardenhewer, entre outros, fizeram o mesmo.

Todas as razões de ordem intrínseca que se dão estão longe de ter o mesmo valor, mas algumas parecem decisivas. Um alegorismo exagerado; opiniões pouco em harmonia com o ensinamento dos apóstolos, em particular com o de São Paulo; a antiga aliança declarada rompida no mesmo dia em que Moisés quebrou as tábuas da lei, Barn., iv, 8, Funk, t. i, p. 10; apreciações errôneas sobre os ritos judaicos, Barn., vii, viii, Funk, t. i, p. 20-26, por exemplo, a circuncisão atribuída à inspiração do diabo, Barn., ix, 4, Funk, t. i, p. 28, os preceitos positivos tocando os sacrifícios e as observâncias legais tomados exclusivamente no sentido espiritual; os apóstolos, enfim, tratados como os maiores pecadores: tantos traços que não poderiam convir ao Barnabé do livro dos Atos.

Qual é, então, o autor da epístola? Chamava-se como o apóstolo e a identidade do nome fez concluir pela identidade do personagem? Não se sabe nada. O que se pode afirmar é que o autor é um judeu-cristão ortodoxo, e um alexandrino, como prova o emprego da alegoria, tão cara à escola de Alexandria, depois de Fílon. Ele se dirige a outros judeu-cristãos de Alexandria ou do Egito, a um grupo de fiéis que ele conhece, que ele ama e que quer colocar em guarda contra o erro de certos judeus. Pois é sobretudo em Alexandria que esta epístola é conhecida e apreciada. Ele escreve depois de 70, já que fala da queda de Jerusalém e da ruína do Templo como fatos consumados.

Barn., xvi, 4, Funk, t. i, p. 48. Sua alusão à reconstrução do Templo resolveria a questão da data, se se tratasse do templo material que o imperador Adriano permitiu reerguer em 130-131; críticos, apoiando-se no contexto, pensam que se trata apenas do templo espiritual que é o cristão.

A profecia, tomada de Daniel e que ele diz realizada, Barn., IV, 4, 5, Funk, t. 1, p. 10, é mais precisa. Após dez reis, elevar-se-á um pequeno rei que humilhará três em um; após dez chifres se erguerá um pequeno chifre que humilhará três em um. A expressão tpeic et to!a U9” ev, estranha ao texto profético e duas vezes repetida, é significativa. Sua realização histórica não pode aplicar-se senão a Domiciano, não apenas porque ele é o décimo primeiro da série dos imperadores, mas ainda porque, com ele, terceiro e último imperador flaviano, desaparece a dinastia flaviana, ou melhor, porque, pelo mesmo golpe, os dois filhos de seu primo, o cônsul Flavius Clemens, dos quais ele fizera dois césares, perdem toda esperança de reinar. Seria, portanto, sob Nerva, 96-98, ou pouco depois, que teria sido escrita a epístola, no limite extremo do I século. Esta interpretação não é admitida por todos os críticos, e há quem explique esta passagem, como a profecia de Daniel, não de reis, mas de reinos.

IV. INTEGRIDADE. — Apesar da desigualdade de tamanho e da diferença de assunto de suas duas partes, esta epístola não deixa de formar um todo, saído da mesma pena, a exemplo das epístolas de São Paulo, onde os ensinamentos dogmáticos são seguidos de conselhos práticos. A segunda parte falta, é verdade, na tradução latina, mas encontra-se nos manuscritos gregos; além disso, ela é anunciada de certa forma por duas passagens, Barn., IV, 10; V, 4, Funk, t. 1, p. 12, 14; enfim, ela é conhecida de Clemente e de Orígenes: ela não poderia, portanto, ser uma adição devida a uma mão estrangeira. Quanto à primeira parte, ela não encerra as interpolações que tentaram mostrar nela; os argumentos apresentados por Schenkel, Studien und Kritiken, 1837, p. 652-686, foram solidamente refutados por Hefele em Tub. theologische Quartalschrift, 1839, p. 60 sq.; Sendschreiben des Barnabas, p. 196 sq.; os de Heydecke, Dissertatio..., 1874, foram-no por Funk em seus Prolegomena, Patr. apost. opera, t. 1, p. X-XI. Atualmente, entre os críticos, a questão da integridade da epístola de Barnabé não levanta mais quase dificuldades. As visões de Volter, Der Barnabasbrief neu untersucht, em Jahrbucher für protest. Theologie, 1888, t. XIV, p. 106-144, e as de J. Weiss, Der Barnabasbrief kritisch untersucht, Berlim, 1888, foram rejeitadas.

V. ENSINAMENTOS. — 1º A epístola de Barnabé e a Escritura sagrada. — O que há de notável nesta epístola, que conta apenas um pouco menos de seiscentas linhas, é o número considerável de aproximações que ela oferece com a Escritura sagrada. Funk, que as relevou cuidadosamente, Patr. apost., t. 1, p. 564-566, conta noventa e nove para o Antigo Testamento e sessenta e oito para o Novo. Ora, para o Antigo Testamento, são menos simples alusões do que citações textuais, onde a versão dos Setenta se encontra controlada e por vezes corrigida pelo texto hebraico. O autor tem o cuidado de advertir que cita, ora seguindo esta fórmula geral: γέγραπται, ou γέγραπται; ora seguindo esta outra: λέγει ὁ Κύριος, ὁ θεός, ἡ γραφή, ὁ προφήτης. Às vezes, ele nomeia o profeta cujo testemunho transcreve: Daniel, Moisés, Davi, Isaías. Mas ele não age da mesma forma com o Novo Testamento. De três textos, ele só assinala um como Escritura, este: «Muitos chamados, poucos escolhidos», Matth., XX, 16; Barn., IV, 14, Funk, t. 1, p. 12. Os dois outros: «Jesus veio chamar, não os justos, mas os pecadores», Matth., IX, 13; Barn., V, 9, p. 14; «Deus julgará sem fazer acepção de pessoas», I Pet., I, 17; Barn., IV, 12, p. 12, são inseridos sem observação especial. Fora esses três empréstimos textuais, mais de sessenta passagens acusam uma relação estreita com os diversos livros do Novo Testamento. Apenas as Epístolas de São Paulo aos Colossenses e a Filêmon, a de São Judas, a segunda e a terceira de São João não dão lugar a nenhuma aproximação de pensamentos ou de expressões.

2º Batismo, vida cristã, escatologia. — O autor, familiarizado com os escritos de São Paulo, dirige-se a «filhos de deleição e de paz», Barn., XXI, 9, p. 58, diz-se πεπλάσθαι. Barn., IV, 5, p. 10, 18. Ele conhece a maravilhosa eficácia do batismo, que é a de remir os pecados, γεγονὸς ἄφεσιν ἁμαρτιῶν. Barn., XI, 4, p. 34. Fazendo alusão ao batismo por imersão, ele escreve: «Nós entramos na água, cheios de pecados e de sujidades, e saímos dela cheios de frutos.» Barn., XI, 11, p. 36. «Antes de crer, nosso coração é uma cloaca de corrupção, cheio do culto aos ídolos e a morada dos demônios; mas, ao receber a remissão dos pecados, tornamo-nos criaturas novas, completamente transformadas, e o verdadeiro templo espiritual de Deus.» Barn., XVI, 7-10, p. 50. Para alcançar o reino de Deus e desfrutar da glória, o fiel deve passar pelas aflições e pelos tormentos, Barn., VII, 11, p. 24; deve seguir a via da luz e da justiça, confessar seus pecados e aplicar-se à oração com uma consciência pura, Barn., XIX, 12, p. 56; pois o caminho das trevas conduz à morte eterna e ao suplício. Barn., XX, 1, p. 56. O dia do Senhor está próximo. Barn., XXI, 3, p. 56. Deus criou o mundo em seis dias. Ele descansou no sétimo: o que quer dizer que Deus consumará tudo em seis mil anos; o sétimo dia, dia de repouso, é aquele em que o Filho de Deus porá um termo à iniquidade e julgará os ímpios e mudará o sol, a lua e as estrelas; é o dia que celebraremos em um magnífico repouso, quando tivermos sido justificados, que a iniquidade será destruída e que tudo será renovado. Este sábado, que porá fim a tudo, será o começo do oitavo dia, isto é, do mundo futuro. Barn., XV, 4-8, p. 46-48. É este o quiliasmo. É por isso, acrescenta o autor, que celebramos na alegria o oitavo dia (aquele que a Didaché chama de domingo), pois é o dia em que Nosso Senhor ressuscitou. Barn., XV, 9, p. 48.

3º Anjos. — Há anjos: uns, portadores de luz, são bons e presidem à via da salvação, que conduz o homem a Deus e à recompensa; os outros são os demônios, Barn., XVI, 7, p. 50, ministros do Mau, πονηρὸς Ἄρχων, Barn., IV, 13, p. 12; do Negro, ὁ μέλας, Barn., IV, 10, p. 12; de Satanás, Barn., XVI, 4, p. 52; eles presidem à via das trevas, inspiram o mal e enganaram os judeus, fazendo-os transgredir as ordens de Deus. Barn., IX, 4, p.

28. 4º Cristologia. — A cristologia da epístola de Barnabé é bastante desenvolvida. A encarnação e a redenção são claramente ensinadas. Jesus Cristo, verdadeiro Filho de Deus, Barn., v, 9, p. 14, veio na carne, Barn., v, 41, p. 16, para destruir a morte e provar a ressurreição, Barn., v, 6, p. 14, para salvar os homens, v, 40, p. 14, e apagar o pecado, v, 11, p. 14. Ele sofreu no madeiro, v, 13, p. 16, foi crucificado, vii, 3, p. 22. Foi em seu sangue que ele lavou o pecado, v, 1, p. 12; e foi por sua paixão que ele resgatou o homem, vii, 2, p. 22.

Mas ele ressuscitou, no oitavo dia, e subiu aos céus, xv, 9, p. 48; ele virá julgar os vivos e os mortos, vii, 2, p. 22, os ímpios, xv, 5, p. 46; ele colocará um termo à iniquidade, renovará tudo e descansará magnificamente no sétimo dia, isto é, no fim do mundo e antes do começo do mundo futuro, xv, 5, p. 46. Enquanto isso, ele nos deu uma lei nova, a verdadeira lei da liberdade, que possui uma oblação que de modo algum é feita pelos homens, Barn., ii, 6, p. 6; o sacrifício de um coração contrito, de um coração que glorifica a Deus em odor de suavidade, ii, 10, p. 6.

Mas é preciso cuidar-se de pecar, sob o pretexto de que estamos protegidos por este testamento de Nosso Senhor, iv, 6, p. 10. A paixão de Jesus é um modelo da nossa; pois não é senão pelas aflições e pelos tormentos que poderemos alcançar o reino, ver Deus e possuí-lo, vii, 14, p. 24. Daí a necessidade para o batizado de ser o verdadeiro templo de Deus, de praticar boas obras, de seguir a via da justiça e de evitar a da iniquidade, único meio de assegurar a sua salvação e de encontrar graça no dia do juízo. O autor pede que se lembrem de seus conselhos e que assim o seu amor e a sua vigilância produzam um bom efeito, xxi, 7, p. 98.

Edições. — Já assinalamos no cabeçalho do artigo as melhores edições, publicadas posteriormente à descoberta recente dos manuscritos gregos. A de Hilgenfeld, Der Brief der Barnabas, Leipzig, 2ª ed., e a de Ph. Bryennios, em sua Didaché, Constantinopla, 1883, segue de preferência o codex constantinopolitanus ou hierosolymitanus. A de Gebhardt e Harnack, Patrum apostolicorum opera, 2ª ed., Leipzig, 1878, apoia-se de preferência sobre o codex sinaiticus. A edição de Funk, Patrum apostolicorum opera, Tubinga, 1881, leva em conta os dois manuscritos e assinala as variantes.

Trabalhos. — Assinalaremos apenas alguns dos mais recentes: Hefele, Das Sendschreiben des Apostels Barnabas..., Tubinga, 1840; Franke, Zeitschrift für luther. Theologie, 1840; Hilgenfeld, Die apostolischen Väter, Halle, 1853; Freppel, Les Pères apostoliques, Paris, 1860; Kayser, Ueber den sog. Barnabasbrief, Paderborn, 1866; Müller, Erklärung der Barnabasbriefes, Leipzig, 1869; Wieseler, Der Brief des Barnabas, em Jahrb. f. deutsche Theologie, 1870, t. xv; Riggenbach, Der sog. Brief des Barnabas, Basileia, 1873; Heydecke, Dissert. qua Barnabe epistula interpolata demonstratur, Brunswick, 1874; Donaldson, The apostolical Fathers, 1874; Braunsberger, Der Apostel Barnabas, Mogúncia, 1876; Güdemann, Religionsgeschichtliche Studien, Leipzig, 1876; Cunningham, The Epistle of Barnabas, Londres, 1877; Funk, Der Barnabasbrief, em Theolog. Quartalschrift, 1884, t. LXVI; 1897, t. LXXIX; estes dois estudos reformulados foram publicados pelo autor em Kirchengeschichtl. Abhandlungen und Untersuchungen, Paderborn, 1899, t. II, p. 77-108; Arnold, Quaestionum de compositione et fontibus Barnabae epistulae..., Königsberg, 1886; Völter, Der Barnabasbrief, em Jahrb. f. protest. Theologie, 1888, t. XIV; Weiss, Der Barnabasbrief, Berlim, 1888; Mgr Duchesne, Saint Barnabé, nos Mélanges de J.-B. de Rossi, Paris, 1892; P. Batiffol, La littérature grecque, Paris, 1897, p. 140-141; P. Ladeuze, L’épître de Barnabé, Lovaina, 1900, extraído da Revue d’histoire ecclésiastique, de Lovaina, 1900, t. I; A. Ehrhard, Die altchristliche Litteratur und ihre Erforschung von 1884-1900, Friburgo em Brisgóvia, 1900, p. 84-86; O. Bardenhewer, Geschichte der altkirchlichen Litteratur, Friburgo em Brisgóvia, 1902, t. I, p. 86-97.

Literatura mais completa na 3ª edição dos Patr. apostol. opera de Harnack; no Répertoire des sources historiques, de Chevalier, col. 223, 2442; na Bibliog. Synopsis, de Richardson, p. 16-19. Ver Bardenhewer, Patrologie, Friburgo em Brisgóvia, 1894, p. 38-39; trad. franç., t. I, p. 63-65; Smith, Dictionary of christian biography, 2ª ed., Londres, 1900; Kirchenlexikon, Friburgo em Brisgóvia, 1883.

Autor original: G. Bareille

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