BARLAÃO

BARLAÃO

4. BARLAAM, de Seminara (Calábria), monge basiliano na diocese de Mileto, abade de São Salvador (ou do Espírito Santo) de Constantinopla, bispo de Gerace, na Calábria (1342), morto por volta de 1348.

I. Vida.

II. Obras.

I. Vida. — É um personagem muito curioso, insuficientemente estudado até aqui. Matemático, filósofo, orador, versado nas duas línguas, grega e latina, foi um dos primeiros a difundir o conhecimento do grego na Itália: ensinou-o, notadamente, a Petrarca. Seus contemporâneos, italianos e gregos, falam de seu saber com entusiasmo: é preciso excetuar Nicéforo Gregoras, que o julga de forma severa. P. G., t. CXLVIII, col. 764.

Mas não é do precursor do humanismo que temos de nos ocupar, é do teólogo. Seu nome permanece ligado a duas questões: a dos hesicastas ou palamitas e a do cisma grego. Como escreveu tanto para os gregos contra os latinos quanto para os latinos contra os gregos, alguns autores pensaram que houve dois escritores com o nome de Barlaam; em realidade, estamos diante de uma personalidade única, porém mutável. Seja por ambição, como se disse, ou simplesmente por amor ao estudo, o monge calabrez passou para a Grécia. Sua cultura atraiu-lhe a fama, e seus escritos valeram-lhe as boas graças do imperador Andrônico, o Jovem.

Barlaam adotou, com efeito, as doutrinas cismáticas e as defendeu em uma série de obras. A mais importante, e a única que foi impressa, é um tratado contra a primazia do papa; nele expõe claramente os argumentos clássicos do cisma grego. No caminho, apoia-se na fábula da papisa Joana, a qual, aliás, naquela data, era aceita pelos católicos tanto quanto pelos heterodoxos. P. G., t. CLI, col. 1274.

Em 1339, Barlaam foi enviado pelo imperador Andrônico ao papa Bento XII. O objetivo de sua mensagem era obter auxílios contra os turcos; para decidir o papa, Barlaam prometia que, terminada a guerra, retomar-se-ia a questão da união das duas Igrejas. Ele propunha, para chegar a resultados definitivos, a realização de um concílio ecumênico, dizendo que, se o II concílio de Lyon não havia tido sucesso e não era tido por ecumênico pelos gregos, a causa disso era que os gregos que ali assistiram não haviam sido designados pelos patriarcas e pelo povo, mas pelo imperador sozinho, que quis impor a união à força, não fazê-la aceitar. O papa percebeu a tática imperial. A experiência havia ensinado que, apesar de suas promessas, os gregos, uma vez socorridos, não pensavam mais na união e «não mostravam mais o rosto, mas as costas à Igreja romana». É o que recordou Bento XII. Quanto a rediscutir os pontos definidos pelo concílio de Lyon, o papa declarou que era impossível, embora Barlaam objetasse que era vantajoso, a verdade aparecendo tanto mais clara e pura quanto mais discutida, a exemplo dos aromáticos que não se pode agitar sem que se tornem mais odoríferos. P. G., t. CLI, col. 1338, 1340.

Lutas e decepções esperavam Barlaam em Constantinopla. Era o tempo em que os monges do monte Athos — «que se poderia chamar a cidade celeste», diz um de seus partidários, o historiador-imperador João Cantacuzeno, P. G., t. cit., col. 666 — entregavam-se a um estranho método de oração: consistia em uma espécie de contemplação feita de repouso, de imobilidade prolongada, na solidão da cela. Além disso, parece que alguns, ao menos dos monges, com o queixo colado ao peito, fixavam obstinadamente o meio de seu ventre. Ao persistir nesse gênero de contemplação, diziam os monges, acontecia de se avistar uma grande luz, que enchia de uma alegria inexprimível. Ora, acrescentava-se, esta luz não era outra senão a glória e a luz incriada de Deus, distinta de sua essência, da mesma natureza que aquela que ofusca no Tabor os olhos dos apóstolos, e cuja visão constitui a beatitude dos eleitos. Ver os verbetes HESICASTAS e PALAMAS, e, para a discussão teológica dessas teorias, Petau, Dogmata theolog., De Deo, l. I, c. xi, xii.

Essas bizarras afirmações tinham excitado de imediato a verve de Barlaam. Não contente em ridicularizar a grosseria e a ignorância dos monges, taxou-os de heresia. Os ânimos exaltaram-se. Os monges confiaram ao mais ilustre dentre eles, Gregório Palamas, o cuidado de defendê-los. Um sínodo realizou-se em Santa Sofia de Constantinopla, em presença do imperador e de uma multidão considerável (1341). Barlaam foi condenado. Teria feito emenda honrosa e reconhecido que Palamas tinha razão, segundo João Cantacuzeno, testemunha suspeita. P. G., t. CLI, col. 676. Seja como for, Barlaam retomou seus ataques contra os palamitas e, como o imperador Andrônico morreu nesse ínterim, julgou prudente retornar à Itália. Lá recebeu boa acolhida, visto que, já no ano seguinte (1342), era nomeado bispo de Gerace. Isso quer dizer que a mudança de frente foi completa e que serviu de novo a causa da Igreja romana. Como havia escrito para os gregos, escreveu contra suas doutrinas.

II. Obras. — Temos dele, na ordem em que as reproduz a Patrologia grega, t. CLI: 1° Uma carta aos seus amigos da Grécia, col. 1255-1271. A Igreja de Roma, diz ele, tem quatro caracteres que devem levar a ela: a perfeição da disciplina, o zelo pela instrução, a veneração pelo papa, representante de Cristo (Barlaam opõe habilmente a unidade do governo na Igreja romana à multiplicidade dos patriarcas na Igreja grega e à tomada de posse pelos príncipes temporais, quaisquer que sejam, sobre a autoridade suprema), a propagação da fé. Este opúsculo é nítido, incisivo, verdadeiramente notável.

Uma passagem digna de ser notada é aquela em que Barlaam explica as mudanças que se introduziram, no curso dos séculos, na Igreja latina, em confronto com os cânones apostólicos e os sete concílios ecumênicos admitidos pelos gregos. Ele observa que, nesses cânones e nesses concílios, há lugar para distinguir o que é de fé ou de preceito divino e o que não o é. Ao que é de fé ou comandado por Nosso Senhor, a Igreja romana nunca tocou, e não é permitido fazê-lo. Ocorre de outra maneira com o resto; com o tempo, o que era bom torna-se menos bom e pode ser modificado com proveito. Ora, não é necessário, para que essas reformas se cumpram, recorrer ao concílio ecumênico, non enim eo quod sit majoris auctoritatis, et magis possit generale concilium quam apostolica sedes, generalia aggregantur concilia, sed quia incidentes questiones difficiliores sint et majore indigeant discussione, col. 1270-1271. A primazia do papa e o papel do concílio ecumênico são aqui precisados maravilhosamente.

— 2° Uma segunda carta aos mesmos sobre a primazia da Igreja romana e a PROCESSÃO do Espírito Santo, col. 1271-1280. Barlaam faz uso da carta, posteriormente reconhecida como apócrifa, do papa São Clemente ao apóstolo São Tiago, o Menor.

— 3° Um breve tratado sobre a PROCESSÃO do Espírito Santo, col. 1281-1282.

— 4° Uma resposta, col. 1301-1309, a Demétrio Cidônio, que lhe havia pedido os motivos da sua adesão ao Filioque.

— 5° Uma resposta, col. 1309-1314, a Aleixo Calocetes que, de comum acordo com outros amigos gregos de Barlaam, lhe havia pedido que lhe transmitisse, traduzindo-os, alguns dos textos sobre os quais se apoiavam as suas afirmações relativas aos quatro caracteres da Igreja Romana. Estes textos eram os seguintes: cartas dos papas, a partir de São Clemente, atestando que eles haviam provido, pelo seu ofício, ao governo da Igreja universal; passagens de Santo Ambrósio, de São Gregório Magno e de São Jerônimo sobre a PROCESSÃO do Espírito Santo ex Filio; os decretos de um concílio ecumênico onde teriam sido definidas as questões pendentes entre as duas Igrejas e das quais os gregos não tinham qualquer conhecimento. Nós não sabemos se Barlaam enviou estes textos; na resposta que possuímos, ele se dedica a provar que os gregos, ao desobedecerem à Igreja Romana, não são apenas cismáticos, mas também heréticos. A sua definição de heresia é interessante, sobretudo com as explicações que a acompanham: Quid ergo hereticus est et paradogmatista? Quem post binam admonitionem fugiemus? An certe ille qui sapit et dicit aliquid in dogmatibus ita oppositum alicui eorum que vel in sacra Scriptura aperte dicuntur, vel in generalibus conciliis expresse determinata sunt, ut cum hoc sit tollatur illud, et cum illud non sit non possit hoc esse: atque talis ad illa repugnantia est ec ea que vituperatur heresis, col. 1311. O concílio geral que os gregos ignoravam, e do qual Barlaam se reclama sem o designar de outra forma senão citando a sua definição sobre a PROCESSÃO do Espírito Santo ex Patre Filioque tanquam ex uno principio, é o II concílio ecumênico de Lyon (1274). Nesta carta, Barlaam fala também da questão do pão ázimo.

— 6° Um tratado ainda sobre a PROCESSÃO do Espírito Santo ex Filio, provada pela Sagrada Escritura, col. 1314-1330.

— 7° Por fim, Barlaam compôs uma Ethica secundum stoicos, col. 1341-1364. Como o título indica, a obra não tem nada de episcopal, nem mesmo de cristão; ela é da alçada dos historiadores do humanismo.

I. Obras. — Logistice sive arithmetice subtilius demonstrate libri VI (grego e latim), Estrasburgo, 1572. Das obras escritas contra os latinos, apenas uma foi publicada, o Περὶ τῶν τοῦ Πάπα πρωτείων, Oxford, 1592; reeditada várias vezes, nomeadamente por Saumaise, em apêndice ao seu De primatu pape, Leiden, 1645, ela foi inserida na P. G., t. CLI, col. 1255-1280 (na base das páginas, texto grego apenas). Sobre os outros escritos contra os latinos cf. Fabricius, Biblioth. greca, Hamburgo, 1808, t. XI, p. 464-468, ou P. G., t. CLI, col. 1249-1253, e Demetracopoulo, Grecia orthodoxa sive de Grecis qui contra Latinos scripserunt, Leipzig, 1872, p. 73-75. O discurso sobre a união pronunciado perante Bento XII e a bula de Bento XII que o contém encontram-se na P. G., t. CLI, col. 1331-1342; cf. Raynaldi, Annales eccles., ad an. 1339, n. 19-42. Os escritos pelos latinos e a Ethica secundum stoicos encontram-se (texto latino), P. G., t. CLI, col. 1255-1282, 1301-1330, 1341-1364. A primeira carta de Barlaam aos seus amigos da Grécia foi reproduzida, em grande parte, em Raynaldi, Annales eccles., ad an. 1341, n. 71-81.

II. Vida. — 1° Fontes antigas: Nicéforo Gregoras, Byzantine historie, l. XI, c. x; XVII, VII, VIII; XIX, 1; XX, IV; XXV, VII; XXVIII, VII; XXIX, V; XXX, III, IV, P. G., t. CXLVIII, col. 759-766, 1161-1162, 1467-1470, 1479-1200, 1245-1248; t. CXLIX, col. 21-22, 119-120, 203-206, 235-236, 239-240; do mesmo, fragmentos de um diálogo intitulado Florentius, P. G., t. CXLIX, col. 643-648, cf. P. G., t. CXLVIII, col. 761; Gregório Palamas, Hagioriticus tomus de quietistis, P. G., t. CL, col. 1225-1236 (Barlaam aí é combatido sem ser nomeado); Filoteu, patriarca de Constantinopla, Gregorii Palame encomium, P. G., t. CLI, col. 584-612; Nilo, patriarca de Constantinopla, Gregorii Palame encomium, P. G., t. CLI, col. 665; Tomi synodici tres in causa palamitarum, P. G., t. CLI, col. 679-774, cf. P. G., t. CLI, col. 1241-1253, 1269-1273, 1273-1284, e Coleti, Sacrosancta concilia, Veneza, 1731, t. XV, col. 559-562, 613-614; duas cartas a Barlaam, uma de Aleixo Calocetes, P. G., t. CLI, col. 1282, a outra de Demétrio Cidônio, P. G., t. CLI, col. 1283-1301; João de Ciparisse, Palamiticarum transgressionum, serm. I, c. I, P. G., t. CLII, col. 680-681; João Cantacuzeno, Histor., l. II, c. XXXIX-XL; III, XCVIII; IV, XXIV, P. G., t. CLIII, col. 661-682, 1287-1288; t. CLIV, col. 493-498; do mesmo (sob o pseudônimo do monge Christodule), fragmentos do Contra Barlaam et Acyndinum, P. G., t. CLIV, col. 693-710; Jorge Phranzes, Chronicon maius, l. I, c. XXXIX; IV, XXI, P. G., t. CLVI, col. 667-668, 1017-1018.

2° Trabalhos modernos: L. Allatius, De Ecclesie orientalis et occidentalis perpetua consensione, Colônia, 1648, l. II, c. XVI, XVII; Fabricius, Bibliotheca greca, Hamburgo, 1808, t. XI, p. 462-470, ou P. G., t. CLI, col. 1247-1256; And. Demetracopoulo, Grecia orthodoxa sive de Grecis qui contra Latinos scripserunt et de eorum scriptis, Leipzig, 1872, p. 71-75; G.-A. Mandalari, Fra Barlaamo calabrese, maestro del Petrarca, Roma, 1888. Ver, para a indicação das outras obras, U. Chevalier, Répertoire des sources historiques du moyen age. Bio-bibliographie, col. 222, 2422.

Autor original: F. Vernet

A extração e a tradução foram feitas por IA e em caso de algum erro podem entrar em contato com o editor