BARDESANES

BARDESANES

BARDESANE (Bar-Daisan), filósofo, poeta e chefe de escola sírio.

I. Vida.

II. Escritos.

III. Doutrina.

I. Vida. — Bardesane nasceu em Edessa no dia 11 de julho de 154. Segundo Miguel, o Sírio, seu pai chamava-se Nuhama’ e sua mãe NahSiram. Eles não eram de raça síria; tinham deixado a Pérsia (ou melhor, a Pártia) no décimo quinto ano de Sahraq, filho de Narsé’, rei da Pérsia, no ano 455 dos Gregos (144 d.C.). Eles eram de Arbela, na Adiabena, segundo Teodoro bar Khouni. Chegaram a Edessa sob o reinado de Manu VIII (139-163, 167-179). Foi nesta cidade, perto do rio Daisan que a atravessa, que NahSiram teve um filho no ano 465 dos Gregos (154 d.C.; Elias de Nisibis escreve 134, o que nos parece menos provável). Ela o nomeou o filho do Daisan ou Bar-Daisan, pelo nome do rio. A origem estrangeira de Bardesane é confirmada por Júlio, o Africano, seu contemporâneo, que o chama de Parta, e por Porfírio, que o chama de Babilônio. Babilônia estava então ocupada pelos Partas, e foram tribos nabateias que, sob a proteção dos Partas, fundaram o pequeno reino de Osroena com Edessa como capital; assim, os pais de Bardesane, Partas ou Persas, foram bem acolhidos em Edessa; seu filho foi criado na corte com Abgar, filho do rei Manu VIII, e recebeu uma brilhante educação.

Encontramos os pais de Bardesane em Hierápolis (Mabig ou Membidj), para onde os tinham conduzido sem dúvida as revoluções ocorridas em Edessa e onde permaneceram na casa do sacerdote Anuduzbar. Esta cidade era dedicada ao culto dos ídolos, Lucien, De Dea syra, e possuía um templo notável. O sacerdote adotou Bardesane, educou-o e ensinou-lhe os cânticos (as ciências) dos pagãos. Seus pais eram eles mesmos sacerdotes pagãos. Podemos acreditar que Bardesane aprendeu então a astrologia, indispensável aos sacerdotes em uma época e em um país onde templos ao sol, à lua ou a alguns planetas se encontravam em cada cidade. O espírito de Bardesane comprazia-se nessas especulações, como ele disse mais tarde aos seus discípulos, e ele pôde ser assim conduzido a um sistema cosmológico ou, se quisermos, de filosofia natural que lembrava o de Valentino ou, melhor dizendo, dos gnósticos astrólogos.

Aos vinte e cinco anos, isto é, em 179, Bardesane ouviu por acaso em Edessa a palavra do bispo Hystaspes, que explicava as Escrituras ao povo. Ele pediu para conhecer os mistérios dos cristãos, e o bispo, sabendo de seu desejo, fez dele seu discípulo, instruiu-o, batizou-o e fê-lo diácono ou sacerdote; isso significa sem dúvida que ele passou a fazer parte do conselho do bispo ou dos presbíteros.

Nesse ano de 179 começava precisamente a reinar Abgar IX, o Grande, filho de Manu VIII (179-216), antigo condiscípulo de Bardesane; assim, este retomou seu lugar na corte, onde Júlio, o Africano, o via frequentemente; ele era um dos mais hábeis arqueiros da Osroena e podia, lançando flechas, fazer o retrato de um homem, marcando todo o contorno do corpo e o lugar dos olhos. Sua ciência, sua força, sua destreza e sua situação na corte colocaram-no em evidência em Edessa; logo contou entre seus discípulos todos os grandes da cidade. Deve ter, sem dúvida, em seu fervor de neófito, buscado adaptar ao cristianismo uma parte de seus conhecimentos anteriores e, sobretudo, a mitologia e a astrologia caldeias, «essas fontes de todo gnosticismo»; por isso, Eusébio pôde escrever que ele nunca se libertou completamente de seu antigo erro. Contudo, a sinceridade de seu cristianismo não pode suscitar dúvidas, pois ele mostrou que a maioria dos dogmas de Valentino não passavam de fábulas; ele foi um contraditor resoluto de Marcion e dos outros hereges e escreveu muito em favor dos cristãos perseguidos. Um amigo de Antonino (Caracala) quis persuadir Bardesane a abjurar o cristianismo, mas não obteve sucesso e este foi quase colocado no número dos confessores da fé, diz santo Epifânio, pois ele defendeu a religião, respondeu com sabedoria e disse que não temia a morte, a qual ele deveria sempre sofrer, mesmo que obedecesse ao imperador. Este fato concorda bem com o que Bardesane diz dos cristãos no Diálogo das leis dos países, p. 55.

Segundo o historiador armênio Moisés de Khoren, Bardesane evangelizou a Armênia, sem grande sucesso, aliás; «refugiado no forte de Ani, leu ali a história dos templos, onde se encontravam também relatadas as ações dos reis; acrescentou os acontecimentos contemporâneos, pôs tudo em siríaco, e seu livro foi mais tarde traduzido para o grego.» Hist. arm., t. 1, p. 66. Mas, se lembrarmos que Moisés de Khoren gosta de apoiar sua reconstrução da história antiga da Armênia na autoridade de homens célebres por outros motivos, aos quais ele empresta assim suas ficções, cf. Carriere, La légende d’Abgar dans l’histoire d’Arménie de Moise de Khoren, Paris, 1895, p. 307-414, teremos motivo para temer que ele tenha imaginado essa evangelização da Armênia por Bardesane a fim de poder atribuir-lhe a composição de uma história da Armênia e apoiar-se, em seguida, nesta autoridade. Além disso, uma suposta passagem de Bardesane citada por Moisés deriva, na realidade, da história de Agatângelo. Cf. Carriere, Les huit sanctuaires de l’Arménie païenne, Paris, 1899, p. 28-29. O testemunho de Moisés é, contudo, confirmado: 1° pelos Philosophoumena, que chamam Bardesane (Βαρδησάνης) o Armênio; e 2° por dois outros historiadores armênios de quem falaremos mais abaixo. Podemos ver, ao menos, nos textos de Moisés de Khoren relativos a Bardesane, uma homenagem à ortodoxia, ao zelo e à renome deste último.

Enfim, Bardesane morreu provavelmente em Edessa, com sessenta e oito anos (em 222). Teve um filho chamado Harmonius. Ver BARDESANITAS. Miguel atribui-lhe ainda dois outros filhos, chamados Abgarun e Hasdu, dos quais não se encontra menção nos outros autores. Resta-nos dar conta de uma tradição divergente: segundo santo Epifânio, Bardesane foi primeiramente um homem ortodoxo e compôs muitos escritos enquanto ainda estava são de espírito, mas caiu mais tarde na heresia dos valentinianos. Segundo Miguel, Bardesane, primeiro pagão, converteu-se, tornou-se diácono, escreveu contra as heresias, depois adotou enfim o ensino de Valentino. O bispo de Edessa que sucedeu a Hystaspes repreendeu-o e, como ele não quis obedecer, excomungou-o. Segundo Teodoro Bar Khouni, Bardesane, primeiro pagão, converteu-se, tornou-se sacerdote e quis tornar-se bispo.

Decepcionado em sua ambição, apegou-se à doutrina de Valentino, que modificou ligeiramente a fim de poder dar seu nome a uma nova heresia. Acrescentemos que, segundo Masoudi, Bardesane foi bispo de Edessa. Acreditamos que Bardesane foi primeiro pagão, pois o paganismo era a religião dominante, e o primeiro rei cristão de Edessa, que foi Abgar IX, provavelmente só se converteu depois de 201. Rubens Duval, Hist. d’Edesse, p. 48, 64-65.

Ele foi mesmo valentiniano, ao menos por certos aspectos de suas teorias filosóficas, depois converteu-se ao cristianismo, cujos adversários combateu, mas nunca conseguiu livrar-se completamente de seus antigos erros. Pois:

1° esta opinião, baseada no testemunho de Eusébio, explica o caráter de obra de transição que apresenta o Diálogo sobre as leis dos países. Esta obra retira dos astros a maior parte das prerrogativas que os pagãos lhes atribuíam e que o próprio Bardesanes, como ele nos ensina, p. 37, lhes havia atribuído, mas ainda lhes concede demasiado, e essas concessões deveriam mais tarde parecer excessivas.

2° Santo Efraim parece ser o primeiro adversário dos bardesanistas, então todo-poderosos em Edessa. Ele não nos ensina em parte alguma que Bardesanes tenha sido anatemizado por um bispo de Edessa ou que tenha querido tornar-se bispo e caído na heresia por ambição frustrada.

3° Santo Efraim não acusa Bardesanes de ter-se tornado valentiniano.

4° Os relatos tardios de Teodoro Bar Khouni, de Miguel e dos árabes não se coadunam de forma alguma com o papel desempenhado por Bardesanes na corte de Edessa, papel que é atestado por Júlio Africano, seu contemporâneo, por Porfírio, que fazia parte da geração seguinte, e mesmo por Santo Epifânio. Parece, pois, que se imaginou e que se procurou explicar um retorno de Bardesanes à heresia de Valentino para encontrar ali a origem da heresia subsequente dos bardesanistas. É de se temer que, uma vez admitida essa assimilação dos bardesanistas aos valentinianos, tenham sido atribuídas aos primeiros algumas ficções dos segundos, por exemplo, sobre o número e a geração dos mundos e sobre a natureza do corpo do Salvador. Teodoro Bar Khouni, Miguel e Teodoreto, Epist., cxlv, P. G., t. LXXXIII, col. 1380.

II. ESCRITOS. — I. EM GERAL. — Bardesanes compôs diálogos e obras em língua e escrita siríaca; os numerosos discípulos que sua eloquência lhe atraía traduziram-nos do siríaco para o grego. Eusébio, H. E., IV, 20, P. G., t. XX, col. 397, 400; S. Jerônimo, De viris ill., 338, P. L., t. XXIII, col. 647. Segundo Santo Epifânio, ele era versado no conhecimento das línguas grega e siríaca, disputou com Avida, o astrônomo, a respeito do destino, e atribuíam-lhe muitos tratados sobre a verdadeira fé. Teodoreto viu seus escritos sobre o destino e contra a heresia de Marcião, bem como muitos outros. Hær. fab., I, 22, P. G., t. LXXXIII, col. 372.

Em suma, encontram-se mencionados: 1° Diálogos contra Marcião e sobre diversos assuntos. 2° Um celebérrimo diálogo Sobre o destino, endereçado a Antonino. Esta obra é distinta do Diálogo sobre as leis dos países de que falaremos mais adiante; é endereçada ao imperador Caracala (211-217) ou, melhor, a Heliogábalo (218-222), pois esses dois imperadores são designados em Eusébio pelo único nome de Antonino. H. E., VI, 21, P. G., t. XX, col. 573. Além disso, o primeiro veio à Mesopotâmia e foi morto entre Carras e Edessa; o segundo havia sido criado em Emesa, no templo do Sol, e deveria interessar-se por uma obra síria sobre o destino, isto é, sobre a influência do sol e dos planetas. O nome comum Antonino, posto à frente do diálogo, prestou-se a ambiguidade e pareceu designar Antonino, o Pio, ou Antonino Vero, enquanto não se conheceram as datas exatas do nascimento e da morte de Bardesanes. 3° Cento e cinquenta salmos ou, melhor, hinos, à imitação do rei Davi. S. Efraim, Opera syriaca, t. III, p. 553. Todos os habitantes de Edessa cantavam-nos. Bardesanes criou assim a poesia siríaca; ele utilizou sobretudo o metro pentassilábico. Hahn, Bardesanes gnosticus, p. 32-37. As obras mencionadas até aqui estão completamente perdidas, exceto alguns versos citados por Santo Efraim. Adv. hær., serm. LVI, Opera, t. III, p. 557, 558. 4° Uma obra sobre a Índia, a partir de informações que lhe forneceram embaixadores hindus enviados a Heliogábalo, cujos fragmentos, citados por Porfírio nos tratados Περὶ Στυγός (conservado por Estobeu) e Περὶ ἀποχῆς ἐμψύχων, IV, 17, 18, foram reproduzidos por Langlois, Fragmenta historicorum græcorum, Paris, 1870, t. V b, p. 68-72. 5° Uma história da Armênia, à qual Moisés de Khoren, como já dissemos, fez empréstimos. Hist. Arm., t. II, c. LIX, LXVI. Langlois traduziu esses capítulos, loc. cit., p. 63-67, bem como duas passagens de Zenóbio de Glag e de Ouktanés de Edessa, historiadores armênios, que atribuem a Bardesanes uma história da Armênia e a redação de um colóquio entre Tiridates e Hratché. 6° Obras de astrologia às quais Santo Efraim faz alusão e das quais Jorge, bispo dos árabes, reproduziu um fragmento. Cf. Ryssel, Georgs des Araberbischofs Gedichte und Briefe, Leipzig, 1891, p. 48. 7° o Diálogo sobre as leis dos países que vamos estudar.

II. O DIÁLOGO SOBRE AS LEIS DOS PAÍSES. — 1° Citações deste diálogo. — Este pequeno trabalho redigido, sem dúvida em siríaco, por Filipe, discípulo de Bardesanes, é o mais antigo monumento da literatura siríaca, fora as traduções da Bíblia. Eusébio, Præp. ev., VI, 10, P. G., t. XXI, col. 464-476, cita longos extratos da tradução grega deste "diálogo de Bardesanes com seus discípulos". Ele o distingue, portanto, do diálogo sobre o destino endereçado a Antonino, de que falou em sua História Eclesiástica. Diodoro, bispo de Tarso, refutou-o, pois censura com razão Bardesanes por ter parado a meio caminho em sua argumentação contra o destino dos planetas. Santo Epifânio leu-o, pois menciona um dos principais interlocutores, o astrônomo Avida (Ἀβειδᾶ) ; ele observou sobretudo, como Eusébio e Diodoro, a argumentação contra o destino; finalmente, o último compilador das Recognitions, Cesário, irmão de Gregório de Nazianzo, e Jorge Hamartolos fazem-lhe empréstimos, sem dúvida por intermédio de Eusébio.

2° Edições. — O texto siríaco do Diálogo sobre as leis dos países, do qual se conheciam apenas extratos de uma tradução grega, foi descoberto por Cureton em 1845, no ms. do British Museum, add. 14658, do século VI-VII.

O mesmo sábio deu dele uma edição, hoje esgotada, com uma tradução inglesa. Spicilegium syriacum, Londres, 1855. Nós o reeditamos, Bardesane l'astrologue, le livre des lois des pays, Paris, 1899, e fizemos uma tiragem à parte da introdução com a tradução francesa. Adicionamos as traduções do fragmento astrológico e escatológico citado por Jorge, bispo dos árabes, e de um texto inédito de Moisés Bar Cefa que reflete bastante exatamente, cremos, as ideias cosmogônicas de Bardesanes. Existe ainda uma tradução francesa deste diálogo publicada por Langlois, op. cit., p. 74-95, e uma excelente tradução alemã devida a Merx, Bardesanes von Edessa, Halle, 1863.

3° Análise. — O Diálogo das leis dos países não é retalhado em frases curtas como certos diálogos de Sócrates; aqui o mestre não tem por método arrancar a verdade retalho por retalho ao espírito de seus ouvintes, ele provoca as questões e responde a elas: « Se, pois, meu filho, tu tens ideias sobre a questão que tu propões, desenvolve-as para nós; se elas nos agradarem, nós estaremos de acordo contigo, se elas não nos agradarem, necessidade nos será de te mostrar a causa... » P. 28. As interrupções não são, por assim dizer, senão transições que servem para passar de um assunto ao seguinte ou de um assunto principal às suas subdivisões e às objeções. Trata-se de determinar a causa do mal e de mostrar que « é com justiça que o homem será julgado no último dia », p. 43, sobre o bem e o mal que ele terá feito neste mundo.

O mal físico depende dos astros. « Em todos os países há ricos e pobres, chefes e súditos, homens sãos e doentes, pois isso acontece a cada um deles, segundo o destino e o horóscopo que lhe coube. » P. 53.

Mas: a) Deus não pode ser responsável pelo mal, pois se Ele tivesse criado os homens de maneira a que eles não pudessem pecar, Ele teria feito deles puros instrumentos que não teriam também nenhum mérito em bem fazer, enquanto « pela liberdade Ele os elevou acima de muitos seres e os igualou aos anjos », p. 30, Ele lhes deu, aliás, o poder de evitar o mal e de fazer o bem.

— b) O mal moral não provém da nossa natureza. Bardesanes determina aqui o papel da natureza e o da liberdade: « Os homens seguem a natureza, como os animais, no que toca ao seu corpo, mas nas coisas do espírito eles fazem o que querem, pois eles são seres livres, mestres de si mesmos e imagens de Deus... Nós não nos tornamos culpados nem nos justificamos pelo que não depende de nós e nos acontece naturalmente. Mas quando fazemos algo com livre-arbítrio, se é bem, nós nos inocentamos e nos glorificamos disso, se é mal, nós nos condenamos e suportamos a pena disso. » P. 36-37.

— c) O mal moral não provém do destino, isto é, da ação dos planetas, pois o horóscopo ou o destino e o planeta que é suposto reger um clima não têm nenhuma influência sobre a liberdade humana, já que homens nascidos sob o mesmo horóscopo em diferentes regiões ou nascidos no mesmo clima, e que deveriam, portanto, agir da mesma maneira, não têm menos costumes absolutamente diferentes segundo as leis de seu país. Esta última parte, a mais longa e a mais ilustrada, deu seu nome a todo o diálogo.

III. Doutrina. — 1º Segundo o diálogo das leis dos países completado pelo texto de Moisés Bar Cefa. — Bardesanes é cristão; ele professa um só Deus todo-poderoso, pois tudo o que existe precisa dele; Ele criou os mundos, coordenou e subordinou os seres; Ele criou primeiro os elementos primitivos: o fogo, o vento, a água, a luz e a escuridão, cada um deles tinha uma certa liberdade (afinidades?), pois nenhum ser é completamente desprovido dela, ocupava um lugar determinado e tinha uma certa natureza. A escuridão era nociva e tendia a subir de baixo onde ela estava, para se misturar aos elementos puros que chamaram Deus em seu socorro. Este socorreu-os por seu Verbo e constituiu o mundo atual que é uma mistura de bem e de mal, pois as naturezas ou os elementos primitivos já tinham começado a se misturar; cada uma delas guarda as suas propriedades, mas, pela sua mistura com outras, ela perde a sua força. Deus deixa o mal operar, porque Ele é paciente; mais tarde, Ele constituirá um novo mundo do qual todo mal será banido. Assim, o mundo atual terá um fim ao cabo de seis mil anos. Enquanto isso, o mal moral subsiste, mas ele não é obra de uma potência efetiva, ele é produzido pela maldade e o erro. É obra do demônio e de uma natureza que não é sã. Deus criou também os anjos, dotados do livre-arbítrio, dos quais uma parte pecou com as filhas dos homens. Ele criou o homem, a quem igualou aos anjos pela liberdade, formou-o de uma inteligência, de uma alma e de um corpo. O corpo depende dos planetas para a vida e a morte, a fortuna e a infortuna, a saúde e as doenças. O homem é livre, ele pode fazer o bem e evitar o mal, ele é imortal e será recompensado ou punido, segundo as suas obras. Haverá um julgamento no último dia para todos os seres.

2º Segundo os autores antigos. — É certo que as teorias filosóficas de Bardesanes eram baseadas na astrologia. Nós já o vimos segundo o Livro das leis dos países e Moisés Bar Cefa. Santo Efrém escrevia também: « Bardesanes não lia os profetas, fonte de verdade, mas folheava constantemente os livros (tratando) dos signos do zodíaco. » Opera, t. II, p. 439. « A maldição de N.-S. atingiu Bardesanes; o que o ferro da verdade lhe tinha destinado, N.-S. deu-o a ele que colocou sete planetas, proclamou os signos do zodíaco, observou os horóscopos, ensinou os sete (planetas), pesquisou os tempos; ele recebeu sete maldições e transmitiu-as aos seus discípulos. » Opera, t. II, p. 550. « Quando tu ouvires as encantações, os signos do zodíaco, o blasfemo e a funesta astrologia, é o caminho do erro e dos ladrões..., parte e foge longe disso. » Opera, t. I, p. 498. A biografia de Efrém relata também que este santo combateu sobretudo a astrologia de Bardesanes. « Quando Mar Efrém chegou a Edessa, encontrou ali heresias de todo gênero e sobretudo a do ímpio Bardesanes...; ele notou que todos os homens amam o canto, e este bem-aventurado estabeleceu e constituiu religiosas contra os horóscopos e os movimentos dos planetas: ele ensinou-lhes hinos, cantos e responsórios; ele pôs nesses hinos palavras inteligentes e sábias sobre a natividade, o batismo, o jejum, a vida do Messias, a ressurreição, a ascensão.

Um dia ele virou-se para o povo e disse: Não coloquemos a nossa esperança nos sete (planetas) que proclamou Bardesanes; maldito aquele que disser como ele o disse que a chuva e o orvalho vêm deles, etc. » Opera, t. III, p. XXIII-LXXII.

Mais tarde Diodoro, bispo de Tarso, reprova a Bardesanes submeter os corpos à ação dos planetas. Cf. Photius, Biblioth., cod. 223, P. G., t. CIII, col. 829, 876. Eusébio chama-o equivalentemente « o príncipe dos astrólogos »: ἐπ’ ἄκρον τῆς χαλδαϊκῆς ἐπιστήμης ἐληλακώς. Prep. evang., VI, 9, P. G., t. XX, col. 467. Michel, o Sírio, vai até ao ponto de acusá-lo de ter tirado o horóscopo de Nosso Senhor: « Ele diz que o Messias, filho de Deus, nasceu sob (o planeta) Júpiter e que ele foi crucificado à hora de Marte.

Sendo assim bem estabelecido o caráter astrológico da filosofia de Bardesane, podemos partir daí para explicar alusões menos transparentes. Santo Efrém escreve: «Ele olhou para o sol e a lua, comparou o sol ao pai, comparou a lua à mãe, imaginou com a boca cheia machos e fêmeas, deuses e sua progênie, e dirigiu a muitos (a fórmula): Glória a vós, mestre (mora?) dos deuses.» Opera, t. II, p. 558. O pai e a mãe são o sol e a lua, como Bar Hebreus, ele próprio afeito à astrologia, expôs muito claramente. Chron. eccles., edit. Abbeloos et Lamy, t. I, col. 48; Histoire des dynasties, edit. Pococke, Oxford, 1672, p. 125. «Ele chama o sol de pai, e a lua de mãe da vida;» os deuses e deusas são os signos do zodíaco chamados deuses pelos astrólogos, cf. Firmicus Maternus, Matheseos libri VIII, Leipzig, 1894, l. II, c. xxi, xxv, 3; l. IV, c. xxi, 2, e divididos em signos machos e fêmeas. Ibid., l. II, c. i, 3; c. III, 3-9. Enfim, os mestres (morai) dos deuses são o sol e a lua, eles receberam esse nome «porque sob sua ação, todas as naturezas da criação crescem, subsistem e são conservadas». Die Kenntniss der Wahrheit, edit. Kayser, Leipzig, 1889, p. 208. Firmicus escreve: Masculini quidem signi dominus sol est, feminine vero luna. Ibid., l. II, c. ii, 3.

Tratava-se, aliás, de uma antiga teoria egípcia: Mivúɛa tǹv ʊlɩkǹv toũ kóσμoʊ πλάνην... παροδευομένη ὑπὸ ‘Ηλίου καὶ κινουμένη. Plutarco, De Osiride et Osiride, c. xxxvi, edit. Didot, t. III, p. 450. Sabemos, além disso, que Bardesane conhecia «os livros dos egípcios». Lois des pays, p. 44. É injustamente que se aproximou mais tarde essa teoria astrológica de Bardesane de uma teoria filosófica de Valentin, Philosophoumena, VI, 50, P. G., t. XVI, col. 3278-3279, e que se lhe atribuiu a concepção de um pai e de uma mãe da vida distintos do sol e da lua (Miguel, o Sírio). Segue-se daí que Santo Efrém censurou apenas Bardesane por ter feito depender o ornamento do paraíso terrestre do sol e da lua (do pai e da mãe) e não de Deus imediatamente. Opera, t. I, p. 598.

Não sabemos de maneira clara, segundo Santo Efrém, t. I, p. 551, 553, e Miguel, como Bardesane prestava contas dos detalhes da criação do homem. Para ele, o homem era criado à imagem de Deus, Lois des pays, p. 31, e compunha-se de uma inteligência, de uma alma e de um corpo, ibid., p. 40; o corpo era formado da mistura dos elementos: fogo, vento, água, luz e escuridão, ibid., p. 59-60; mas fez ele intervir os planetas na formação desse corpo que eles deviam reger, imaginou ele uma primeira criação de quatro substâncias: o intelecto, a força, a luz e a ciência, das quais deviam proceder as almas dos homens? Estamos reduzidos a conjecturas.

Não conhecemos tampouco a concepção que Bardesane tinha do Espírito Santo. S. Ephrem, Serm., LV, t. I, p. 527. Parece ter-lhe atribuído um papel na separação da terra e das águas durante a criação, Gen., I, 2, e tê-lo assimilado a uma jovem, o que é muito natural da parte de um sírio para quem a palavra espírito, ruha, é feminino.

Parece-nos certo, pelo menos, que Bardesane não admitiu ao benefício da ressurreição o corpo humano formado dos elementos e submetido aos planetas, e que teve por conseguinte de dotar o Salvador de um corpo diferente do nosso que pudesse gozar da imortalidade. Segundo os Philosophoumena, VI, 35, P. G., t. XVI, col. 3250, «Bardesane diz que o corpo do Salvador era espiritual, pois o Espírito Santo veio sobre Maria: a sabedoria, a potência do Todo-Poderoso e arte criadora (vieram) para conformar o que o Espírito Santo tinha dado a Maria.» Este texto parece, pois, indicar simplesmente que o corpo do Salvador foi formado em Maria de maneira toda especial, para que não fosse corruptível como o nosso, mas não se tardou em emprestar a Bardesane a opinião e a fórmula mesma de Valentin, segundo o qual o corpo do Salvador desceu do céu e passou por Maria «como a água passa através de um tubo».

Em suma, evitamos aplicar a Bardesane o epíteto de gnóstico, porque ela parece encerrar as teorias do dualismo e da emanação que ele jamais professou. Se se quer, contudo, continuar a dar o nome geral de gnósticos a todos os sábios filósofos neo-cristãos dos primeiros séculos que buscaram introduzir no dogma cristão todas as filosofias e todos os conhecimentos profanos, seria de desejar que se particularizasse esse epíteto, como já o fez o autor dos Philosophoumena. Este último, com efeito, começa por expor as teorias dos filósofos pagãos (l. I) e dos astrólogos (l. IV), depois ele relaciona cada gnóstico à fonte de onde decorrem seus erros; é assim que ele relaciona Basílides a Aristóteles, VII, 14-22, P. G., t. XVI, col. 3295-3322, Marcião a Empédocles, VII, 31, col. 3334, Noeto a Heráclito, IX, 7, col. 3370, etc. Nesse caso, sem hesitação alguma, já que as teorias conhecidas e características de Bardesane derivam da astrologia, faríamos dele um gnóstico (filósofo) astrólogo.

FONTES PARA A HISTÓRIA DE BARDESANE: Júlio Africano, Kestoi, em Veterum mathem. opera, Paris, 1693, p. 275; Porfírio, De abstinentia, IV, 17, e De styge (citado por Stobeu, Ecloge phys. et eth.); Eusébio, H. E., IV, 30, P. G., t. XX, col. 401-404; Prep. ev., VI, 9-10, P. G., t. XXI, col. 464-476; Diodoro de Tarso, citado por Fócio, Bibliotheca, cod. 228, P. G., t. CIII, col. 829, 876; S. Epifânio, Haer., P. G., t. XLI, col. 989-993; S. Efrém, Adversus haereses sermones, em Opera syro-latina, Roma, 1740, t. I; Carmina nisibena, edit. Bickell, Leipzig, 1866, p. 173, 175-178, 186-188, 200; S. Efrém... opera selecta, edit. Overbeck, Oxford, 1865; S. Jerônimo, De viris illust., 33; Adv. Iov., II, 14, P. L., t. XXIII, col. 647-649, 304; Sozomeno, H. E., I, 16, P. G., t. LXVII, col. 1089; Teodoreto, Haer. fab., l. I, P. G., t.

LXXXIII, col. 372; A crônica de Edessa, edit. Hallier, em Texte und Untersuchungen, Leipzig, 1892, t. IX, fasc. 1°; Jorge, bispo dos árabes, e Moisés Bar Cepha, em Nau, Lois des pays, p. 58-62; Teodoro Bar Khouni, nas Inscriptions mandaites des coupes de Khouabir, por Pognon, Paris, 1899, p. 169, 177-179; Miguel, o Sírio, Chronique, edit. Chabot, Paris, 1900, t. I, fasc. 2, p. 1440.

A maior parte das fontes antigas são citadas em Hilgenfeld, Bardesanes der letzte Gnostiker, Leipzig, 1864, e em Harnack, Geschichte der altchristlichen Litteratur bis Eusebius, Leipzig, 1893, t. I, p. 184-191.

Os textos de Santo Efrém e as fontes descobertas recentemente serão publicadas e traduzidas na Patrologia syriaque de Mgr Graffin, t. II.

Aos autores já citados adicionemos A. Hahn, Bardesanes gnosticus, syrorum primus hymnologus, Leipzig, 1819; Kuhbner, Bardesanis gnostici numina astralia, Heidelberg, 1833; Lipsius, Die apocryphen Apostelgeschichten und Apostellegenden, Brunsvique, 1883-1890, t. I, p. 297-308, 349-345, 527; t. II, p. 425; Rubens Duval, Anciennes littératures chrétiennes. La littérature syriaque, Paris, 1899, p. 241-248.

Pode-se ler sobre a astrologia o livro IV dos Philosophoumena, P. G., t. XVI, ou melhor, Julii Firmici Materni matheseos libri VIII, Leipzig, 1894. F. Nav.

Autor original: F. Nau

A extração e a tradução foram feitas por IA e em caso de algum erro podem entrar em contato com o editor