BACON (ROGER)

BACON (ROGER)

BACON Roger. — I. Vida. II. Escritos. III. Bacon e as ciências. IV. Bacon e a correção da Vulgata. V. Bacon e a escolástica.

I. Vida. — Bacon nasceu perto de Ilchester, no condado de Somerset. Admite-se geralmente que foi por volta de 1210 ou 1215. Cf. Opus majus, part. I, c. x; Opus tertium, c. xx; V. Cousin, Journal des savants, 1848, pp. 130, 226; E. Charles, R. Bacon, sa vie, ses œuvres, sa doctrine, Paris, 1861, p. 4, 5. Oriundo de pais ricos e poderosos, que mais tarde tomaram partido pelo rei da Inglaterra contra seus barões revoltosos, Op. tert., c. 1, ele quis, desde a sua tenra idade, adquirir uma cultura de espírito condizente com a sua posição. Mal teve conhecimento dos primeiros elementos, postquani didici primo alphabetum, ibid., c. xx, entregou-se com zelo ao estudo das línguas e das ciências.

Em Oxford, primeiramente, depois em Paris, ponto de encontro da juventude estudiosa da Inglaterra, seus progressos foram rápidos. Recebido doutor e honrado com uma cátedra na universidade desta última cidade, continuou com a mesma paixão e o mesmo sucesso seus estudos favoritos. Entre outros textos de suas lições, explicou o De vegetabilibus de Aristóteles, recentemente traduzido do árabe. Op. maj., part. III, c. 1; Compendium studii philosophiae, c. VIII, p. 467-468. As línguas e as ciências absorveram todo o seu tempo: «É notório — dirá ele mais tarde, Op. tert., c. xx — que ninguém trabalhou tanto em tantas línguas e ciências; quando eu estava em outra condição, não compreendiam que eu tomasse tanto trabalho; eu era para todos um sujeito de admiração.»

Gastou mais de 2.000 libras parisienses, soma considerável para a época, na compra de obras preciosas, em experimentos, na confecção de instrumentos e de tabelas astronômicas, e na formação de jovens colaboradores. Ibid., c. xvii. As mais altas notabilidades científicas de então, Campano de Novara, mestre Nicolau, preceptor de Amaury de Montfort, João de Londres, Hermann o Alemão, Robert Grosseteste, Adam de Marsh e o grande matemático picardo, Pierre de Méharicourt, foram seus amigos. Ibid., c. xi, XIII, XVII.

Não há consenso sobre o local nem sobre o ano em que Bacon entrou na ordem dos frades menores. É infinitamente provável que ele executou este grande desígnio em uma idade avançada, entre 1251 e 1257. E. Charles, op. cit., p. 21, 22. Certos autores situam esta feliz decisão após contatos que ele teria tido com São Boaventura, à época regens Parisius: é a ele que o doutor seráfico teria endereçado sua carta ad magistrum nominatum. Cf. Prosper de Martigné, La scolastique et les traditions franciscaines, Paris, 1888, p. 92; Hauréau, Journal des savants, dezembro de 1882, p. 730-731. Seja como for, sua entrada em uma ordem que ele via de perto desde longa data, amadurecida aliás sob o sopro da graça, não era um fato novo. Outros doutores ingleses não menos famosos, Aymon de Faversham, Adam de Marsh e Alexandre de Hales, o haviam precedido nesta via e não haviam crido, ao fazê-lo, em uma «irregularidade de vida».

Tornando-se franciscano, Bacon cessou logo de ocupar uma cátedra: jam a decem annis occupationibus exterioribus studii non vacavi, escreve ele em 1267. English historical review, julho de 1897, p. 500. Sua saúde doentia não lhe deixava mais tanta atividade: propter langores multos et infirmitates varias..., langor continuus. Ibid. Ela o constrangeu mesmo durante dois anos a interromper todo trabalho: exceptis duobus annis quibus recreationem et solatium quietis sumpsi ut melius postea laborarem. Ibid., p. 507. Não obstante, seu ardor pelos estudos preferidos não se arrefeceu: tamen postea fui ita studiosus sicut ante. Op. tert., c. xx, p. 65.

Mas, infelizmente! não encontrou o apoio e o encorajamento que poderia esperar dos seus. Longe disso; pois, para melhor o contrariar, seus superiores lhe davam incessantemente outras ocupações: affuit instancia prelatorum meorum quotidiana ut aliis occupationibus obedirem, English hist. rev., p. 500. Além disso, urgindo com a maior severidade a observação de uma lei de sua ordem, proibiam-no rigorosamente de comunicar ao exterior seus escritos: precepto fui obligatus arctissimo ne scriptum in hoc statu a me factum communicarem. Ibid.; Op. tert., c. i, p. 13. Ao que diz Salimbene, Chronica, Parma, 1857, p. 236, esta lei, levada ao capítulo geral de Narbonne em 1260, cf. Constitutiones narbonenses, rubr. vi, S. Bonaventure opera omnia, Quaracchi, 1897, t. viii, p. 456, visava Geraldo de Borgo-San-Donnino, que publicou em Paris, em 1254, o Introductorius in evangelium eternum. Obra de circunstância, ela constituía uma arma perigosa da qual era fácil abusar, e é permitido perguntar se a mão de ferro, que velava pela sua execução no convento mesmo de onde o escândalo partiu, soube sempre fazê-lo com prudência e discrição. Op. tert., c. iii, p. 15.

Assim amordaçados e, por outro lado, cheios de uma justa desconfiança para com copistas cuja indelicadeza era notória, os autores, e Bacon mais do que qualquer outro, tinham tudo a temer. Melhor valia depor a pena e esperar dias melhores: et inciderem in conscientiam de transgressione precepti..., neglexi compositioni insistere scripturarum. Ibid., c. ii, p. 13. Este triste estado de coisas durava há dez anos quando Clemente IV subiu ao trono pontifício. Pôs-lhe fim prontamente. Por cartas apostólicas datadas de 22 de junho de 1266, ele ordenou a Bacon que lhe enviasse no mais breve prazo possível uma cópia muito clara da obra projetada por ele, e isto «não obstante o preceito contrário de qualquer prelado, não obstante toda constituição de sua ordem». Wadding, Annales minorum, a. 1266, n. 14; Martene, Thesaurus novus anecdotorum, t. ii, p. 858; Sbaralea, Bullarium franciscanum, t. iii, p. 89.

Bacon coloca-se à obra e, apesar de dificuldades inauditas, Op. tert., c. iii, p. 15, pode transmitir ao papa seu Opus majus nas primeiras semanas de 1267. De agora em diante livre de qualquer entrave, impedimentorum remediis priorum nactus, ibid., p. 9, faz-lhe chegar o Opus minus no mesmo ano. O Opus tertium segue de perto. Até por volta de 1277, ele continua desta forma a verter os tesouros de ciência acumulados durante toda uma vida de obstinado labor. A proteção da qual o chefe supremo da Igreja o havia honrado, a fé no triunfo final de suas visões científicas, levavam-no a prosseguir sem descanso. Mas não se combate impunemente as ideias correntes de todo o seu século.

Uma poderosa reação se coligou, parece, e não se deu descanso senão depois de ter obtido de Jerônimo d'Ascoli, ministro geral dos frades menores, uma sentença de reprovação e de interdição contra uma doutrina que ela acreditava maculada de novidades suspeitas e perigosas. Este fato, baseado unicamente na autoridade muito contestável da crônica dos XXIV generais, *Analecta franciscana*, Quaracchi, 1897, t. II, p. 460, coincidiria e seria talvez conexo com a proscrição de 219 teses lançada em 7 de março de 1277 por Etienne Tempier, bispo de Paris. Denifle, *Chartularium universitatis parisiensis*, t. I, p. 543-560; d’Argentré, *Collectio judiciorum*, t. I, p. 184-285.

Ora, está comprovado que a censura de várias dessas teses foi obtida pela animosidade de alguns intrigantes, *capitosilate quorundam paucorum*, seguindo a expressão de Gilles de Rome, *In IV Sent.*, l. II, dist. XXXII, q. II, a. 3. Cf. S. Boaventura, *Opera omnia*, Quaracchi, 1885, t. II, p. 30, 778; Denifle, op. cit., p. 556; de Wulf, *Histoire de la philosophie médiévale*, Louvain, 1900, p. 301, 302.

As paixões que se agitaram então em torno do nome e dos escritos de Bacon encontram ainda hoje eco em alguns escritos. Cf. de Wulf, op. cit., p. 330-333; P. Mandonnet, *Siger de Brabant*, Fribourg, 1899, p. CCLX-CCLXIII. No resto, o aprisionamento de catorze anos que alguns lhe atribuem é uma pura fábula, uma vez que não repousa sobre nada. Até o fim de seus dias, Bacon permaneceu fiel a si mesmo, aos seus princípios e às suas promessas. Cf. *English hist. rev.*, loc. cit., p. 509.

Velho octogenário, formulará em 1292, no *Compendium studii theologiae*, a última palavra de seu pensamento sobre o conjunto das questões que o absorveram durante sua longa existência. E. Charles, op. cit., p. 307. Segundo S. Jebb, *Op. maj.*, Veneza, 1750, p. xvi, ele morreu em Oxford, em 11 de junho de 1294.

II. Escritos.

1º Antes de 1267. — Conhece-se pouco dos trabalhos de Bacon anteriores a esta data. Professor, ele havia escrito muito, mas com um objetivo mais pedagógico, *multa in alio statu conscripserant propter juvenum rudimenta*. *English hist. rev.*, loc. cit., p. 500. A este período convém fazer remontar seus comentários sobre diversas obras de Aristóteles, notadamente sobre a física e a metafísica, V. Cousin, op. cit., agosto de 1848, e talvez também o curto tratado *De mirabili potestate artis et naturae*, Paris, 1542; Oxford, 1604; Hamburgo, 1613; Londres, 1859. Desde 1256-1257, época em que cessa de ensinar, não compôs nada, exceto alguns pequenos capítulos escritos aqui e ali para amigos: *a decem annis... nihil composui nisi quod aliqua capitula nunc de una scientia, nunc de alia ad instanciam amicorum aliquando more transitorio compilavi*. *English hist. rev.*, ibid.; *Op. tert.*, c. II, p. 13. E. Charles, op. cit., p. 78, crê poder atribuir ao ano 1263 o opúsculo inédito intitulado *Computus naturalium*; neste livro, Bacon cita um outro opúsculo *De termino paschali* onde buscou anteriormente fixar a celebração da Páscoa. Mas tudo isso é pouco ou nada aos seus olhos. Ele mesmo, em 1267, admite que não publicou ainda obra completa sobre uma ou outra parte da filosofia: *nec in primo statu nec in secundo alicujus partis philosophiae scripturam edidi completam*. *English hist. rev.*, ibid.

2º *Opus majus*. — Bacon levou seis meses para a composição desta obra. Ele a enviou ao papa em 1267, após a festa da Epifania, *English hist. rev.*, ibid., p. 501, por intermédio de seu discípulo de predileção, Jean de Paris. — A obra é dividida em sete partes: a primeira trata das causas de nossos erros e dos obstáculos contrários à descoberta e à propagação da verdade; a segunda estabelece as relações de dependência e de íntima união da filosofia e de toda ciência em geral vis-à-vis da teologia e da verdade revelada; a terceira é consagrada às línguas; a quarta às matemáticas; a quinta à perspectiva; a sexta à ciência experimental, e a sétima à filosofia moral. — O *Opus majus* foi editado em Londres em 1733 sob os cuidados de Samuel Jebb, em Veneza em 1750 pelos franciscanos, em Oxford em 1897-1900 por J. H. Bridges. Todas essas edições são muito defeituosas. As de 1733 e de 1750 têm lacunas consideráveis: assim, a parte relativa à filosofia moral é aí completamente omitida. Cf. *Op. tert.*, c. XXIV, XXVII, XXXI, XXXV, LXXII sq. A de 1897-1900 é mais completa; marcaria um verdadeiro progresso, se não estivesse crivada de erros. — Em julho de 1897, dom Gasquet publicava em *English historical review*, p. 494-517, uma carta de Bacon a Clemente IV, extraída do manuscrito 4086 da Vaticana, e reproduzida pelos *Acta ordinis minorum*, Quaracchi, janeiro-agosto de 1898. Ao julgamento do douto beneditino, esta magnífica carta acompanhava o envio do *Opus majus*, do qual ela é o prefácio natural e real. Cf. J. H. Bridges, *The «Opus majus»*, t. II, p. 4, 4, 10, 12, 25, 26, 39.

3º *Opus minus*. — Esta obra está perdida em grande parte. Conhecem-se dela apenas fragmentos editados por J. S. Brewer: *R. Bacon opera quaedam hactenus inedita*, Londres, 1859, p. 313-389. No pensamento de seu autor, é o *Opus majus* retomado em segunda mão, abreviado, retocado, desenvolvido. *Op. tert.*, c. I, XXII, XXIII. Ele supre certas lacunas devidas ao esquecimento, à pressa, às dificuldades. A alquimia especulativa e prática forma uma das partes novas, ibid., c. XII; os sete pecados cometidos no estudo da teologia, dos quais Humphred Hody deu a conhecer algumas passagens importantes em seu livro *De Bibliorum textibus originalibus*, Oxford, 1705, p. 419 sq., contêm uma outra. Havia também um tratado *De caelestibus*, que deveria parecer muito, se não é ele, ao trecho *post locorum descriptionem* inserido no *Opus majus* no final das matemáticas. Cf. *Op. tert.*, c. XXVI, p. 5, 6, 25, 41, 48, 52, 67, 68, 93, 94, 100, 101, 185, 199, 265, 304, 309.

4º *Opus tertium*. — Este precioso escrito, cuja publicação em 75 capítulos foi feita do mesmo modo por J. S. Brewer, op. cit., p. 3-310, nos chegou incompleto e rústico como o precedente. É claro que pelo menos uma boa metade da obra falta. Aqui também Bacon volta às questões já estudadas. Quanto mais as aprofunda, mais elas ganham extensão e clareza em seu espírito.

Ele resume umas, alarga outras, dá a todas uma maior precisão. Aborda às vezes os assuntos mais árduos da metafísica, aos quais se esforça por dar o acabamento da redação após tê-los longamente meditado. Para dizer tudo, o Opus tertium é o resumo, o comentário, o complemento do Opus majus e do Opus minus. Nos 21 primeiros capítulos, encontram-se amplas informações sobre a situação e os trabalhos do escritor. Com as indicações múltiplas contidas neste livro e na carta publicada por dom Gasquet, seria relativamente fácil dar uma edição crítica e definitiva do Opus Majus.

Scriptum principale. — Contudo, estas três obras, por mais importantes que sejam, não eram na intenção do infatigável doutor senão o rascunho, o esboço, o programa, a persuasio praeambula de uma outra obra bem mais vasta, onde ele estudaria, em tantos tratados especiais, cada uma das partes da ciência. É bastante difícil saber se ele pôde levar a bom termo esta enciclopédia. De acordo com os fragmentos que foram publicados, eis qual deveria ser a sua fisionomia geral. Bacon dividia a obra em quatro volumes: o primeiro abrangia a gramática, segundo as diversas línguas necessárias aos Latinos, e a lógica; o segundo reunia às communia mathematica tratados sobre a aritmética, a geometria, a astronomia e a música; o terceiro compreendia, com os communia naturalium, outros tratados sobre a perspectiva, a astrologia, a ciência dos corpos graves e leves, a alquimia, a agricultura, a medicina, a ciência experimental; enfim, o quarto era consagrado à metafísica e à filosofia moral. Cf. Opus majus, Veneza, 1750, p. XVI; Brewer, op. cit., p. L-LI, C; E. Charles, op. cit., p. 370-374. Parece que o tratado, aliás bastante mal intitulado De multiplicatione specierum, acrescentado às três edições do Opus majus, fazia primitivamente parte desta obra monumental. Cf. J. H. Bridges, The « Opus majus », t. I, p. 408, 424, 465, 509; t. III, p. 183-185.

6° Compendium studii philosophiae. — Publicado por Brewer, op. cit., p. 393-519, o Compendium foi composto sob o pontificado de Gregório X (1274-1276). Cf. ibid., c. II, p. 414. Novamente, Bacon estuda nele as causas da ignorância humana, os motivos para adquirir o conhecimento das línguas; encontra-se nele igualmente noções de gramática grega. A obra é, como as outras, infelizmente incompleta. Atribui-se, enfim, a Bacon um Speculum alchimiae, frequentemente reimpresso nos repertórios de alquimia de 1541 a 1702, e um opúsculo De retardandis senectutis accidentibus, impresso em Oxford em 1590. A Epistola de laude Scripturae sacrae foi publicada em Usher, Historia dogmatica de Scripturis, edit. Wharton, Londres, 1699. A gramática grega de Bacon foi descoberta em um manuscrito de Cambridge pelo Pe. Nolan, diretor do colégio de Prior Park, e editada por ele em 1902. Um fragmento de sua gramática hebraica foi publicado a seguir pelo rabino Hirsch. As bibliotecas e os arquivos públicos da Itália, da França e, sobretudo, da Inglaterra contêm uma multidão de manuscritos relativos às obras de R. Bacon. Um estudo comparado desses manuscritos, seguido de uma edição feita com cuidado e inteligência, poderá, por si só, dar uma ideia de seus trabalhos e de seu saber.

III. BACON E AS CIÊNCIAS. — 1° Filosofia. — Embora pouco numerosas, as páginas puramente especulativas de Bacon, publicadas até este dia, bastam, contudo, para indicar suas tendências. Elas mostram também que, longe de estar, em filosofia e em teologia, em atraso em relação ao movimento intelectual de seu século, ele não ignorava nenhuma das questões, grandes ou pequenas, agitadas nas escolas, e que ele sabia, na ocasião, dar-lhes o cunho de sua personalidade. Cf. E. Charles, op. cit. Com a grande maioria dos doutores, franciscanos ou não, do século XIII, ele é agostiniano. Eis por que ele adota as célebres teorias das rationes seminales, English hist. rev., loc. cit., p. 513, da materia spiritualis própria à alma humana e aos anjos, Op. tert., c. XXXVIII, p. 122-129; De multipl. spec., part. I, c. 11, e da iluminação especial de Deus, Op. maj., part. II, c. v. Cf. S. Bonaventure, In IV Sent., l. II, dist. III, part. I, a. 1, q. 1; dist. VII, part. II, a. 2, q. 1; dist. XII, a. 1, q. III; dist. XIII, a. 2, q. III; dist. XVIII; Duns Scot, De rerum principio, q. VII, a. 2. Com esses mesmos doutores, ele admite também a pluralidade das formas. Op. min., p. 360-367. Cf. Prosper de Martigné, op. cit., p. 198-287.

Em outros pontos, ele é mais independente. Os escolásticos admitiam, como um princípio incontestado, que a matéria é numericamente uma em todos os seres contingentes, una numero in omnibus. Cf. S. Bonaventure, In IV Sent., l. II, dist. III, part. I, a. 4, q. ut, scholion; dist. XII, a. 2, q. 1. Bacon, desejoso de forçar os mestres a perscrutar o valor e as consequências de seus princípios, toma por alvo essa asserção, que ele qualifica de error pessimus in philosophia; ele a acossa com suas objeções e a persegue passo a passo até os seus últimos redutos. Segundo ele, a matéria e a forma são necessariamente diversas em qualquer ser; cada um tem a sua matéria e a sua forma próprias; não é a forma que diversifica a matéria, nem a matéria que diversifica a forma: uma e outra diferenciam-se por si mesmas. Para reencontrar seu fundo comum respectivo, é preciso remontar ao genus generalissimum que, envolvendo-as na unidade, evolui progressivamente, segundo uma sucessão hierárquica de gêneros e de espécies, até à perfeição terminal no ser concreto e individual. Op. maj., part. IV, dist. IV, c. VIII; Op. tert., c. XXXVIII, p. 120-131. É de se notar quanto o sistema metafísico de Bacon sobre a matéria e a forma se assemelha ao de Scot, De rerum principio, q. VII, a. 1; q. VIII, a. 4, 2, 3, 4, 5. As fórmulas mudam, o fundo permanece idêntico. É um verdadeiro prazer ver essas duas belas inteligências de acordo sobre este ponto. Cf. de Wulf, op. cit., n. 298, p. 313-315.

Numerosos doutores faziam do intelecto agente uma faculdade especial da alma requerida, conjuntamente com o intelecto possível, para o ato da cognição. Cf. S. Bonaventure, In IV Sent., l. II, dist. XXIV, part. I, a. 2, q. 1; S. Thomas, De spiritualibus creaturis, a. 9, 10; De anima, a. 2-5; Compendium theologiae, c. LXXXIV-LXXXVIII; Cont. gent., l. II, c. LXXVI-LXXVIII; Sum. theol., Ia, q. LXXIX, a. 4, 5. Bacon eleva-se audazmente contra este desdobramento.

Sua vontade não é, de modo algum, como alguns afirmaram muito erroneamente, pretender que a inteligência seja puramente passiva; ele lhe reconhece toda a sua atividade inerente; ele aceita, de bom grado — e nisso ele é plenamente seguido por Scot, De rerum principio, q. XIV, a. 2, n. 16, 17; Durand, In IV Sent., l. I, dist. III, part. II, q. V; G. d’Occam, In IV Sent., l. I, q. XXV, e P. Aurioli —, chamá-la de intelecto agente quando ela passa da potência ao ato: licet intellectus possibilis, diz ele, possit dici agens ab actu intelligendi.

Mas não está aí, inteiramente, o exato pensamento dos grandes filósofos, Avicena, Alfarabi, Alexandre, Aristóteles. O intelecto agente, de que eles falavam, longe de ser a alma ou uma parte da alma, é uma substância espiritual distinta, separada de nós e única para todos. É o que reconhece Santo Tomás, In IV Sent., l. I, dist. XVI, q. 11, a.1: « Quase todos os filósofos, diz ele, concordam em ensinar, na sequência de Aristóteles, De anima, III, text. 19, 20, que o intelecto agente e o intelecto possível diferem substancialmente. »

Convencidos com o mesmo doutor angélico, De unitate intellectus, c. VI, de que esta opinião não parece oferecer inconveniente, nihil videtur inconveniens sequi, os antigos escolásticos adotaram-na, e, dando-lhe um sentido cristão, identificaram o intelecto agente com Deus, a verdadeira luz das inteligências, que ilumina todo homem que vem a este mundo. Joa., 1, 9. Fundada em boas razões, satis probabiliter, S. Tomás, In IV Sent., l. II, dist. XVII, q. II, a. 1, conforme à verdade e à fé. S. Boaventura, In IV Sent., l. II, dist. XXIV, part. I, a. 2, q. IV, ensinada por Robert Grosseteste, Adam de Marsh, Guilherme de Auvergne e todos os sábios antigos, omnes sapientes antiqui, pode-se dizer que esta doutrina foi tradicional entre os primeiros doutores da escolástica.

Quando surgiu a opinião contrária, o bispo de Paris, Guilherme de Auvergne, declarou-lhe guerra e por duas vezes julgou-se obrigado a dirigir censuras, reprobare, aos doutores da universidade reunidos em sua presença: de onde se vê que ela não se aclimatou sem dificuldade e que foi considerada desde o início como uma novidade e um desvio. Vãmente ela tentou apropriar-se de Santo Agostinho, deturpando sua teoria sobre o exemplarismo divino e as rationes aeternae. Cf. De humanae cognitionis ratione, Quaracchi, 1883, p. 203-208.

Uma tentativa semelhante ocorreu para Aristóteles. Textos obscuros e mal traduzidos não a favoreciam senão demais. Bacon dedicou-se a refutá-la em dois capítulos, que são do mais alto interesse para a história da filosofia e de suas variações. Op. maj., part. II, c. v; Op. tert., c. XXII, p. 74-79. Roger Marston, João Peckham, Alexandre de Alexandria, e até mesmo Scot, De anima, q. XIII, não pensaram comprometer a ideologia escolástica ao aderir às suas conclusões. É verdade, ainda não se falava de uma « influência do averroísmo ». Cf. Renan, Averroes et l'averroisme, Paris, 1852, p. 208-210; De human. cognit. ratione, p. 10, 179-182, 197-220; de Wulf, op. cit., p. 332-336; Mandonnet, Siger de Brabant et l'averroisme latin au XIIIe siècle, Friburgo, 1899, p. LXI, CCLV-CCLXII. Ver t. 1, col. 2336.

Quando estuda as questões difíceis relativas ao vazio, ao pleno, ao movimento, à unidade do tempo, Bacon submete a uma rude prova outras teorias não menos caras aos filósofos de então. Por outro lado, a discussão cerrada que ele consagra ao lugar, à mudança e à duração das substâncias espirituais é notável sob todos os aspectos. Cf. S. Boaventura, In IV Sent., l. I, dist. XXXVII, part. II, a. 4-5; l. II, dist. II, part. II, a. 2, q. 1, III, 1.

Àqueles que receariam que « a escolasticidade de suas ideias não saia sã e salva do crivo de um exame lógico », aconselharíamos a leitura atenta dos capítulos XXXVIII-LII do Opus tertium, p. 120-199. Nada pode melhor desiludi-los do que estas páginas vivas, cheias de vigor e de nitidez. Contudo, Bacon, cujo espírito positivo e clarividente penetra por toda parte, não via sem dor os estudos, por falta de bases sólidas, acumularem-se a cada dia com questões supérfluas, abstratas, frequentemente arriscadas; negligenciar, por outro lado, o que é belo, útil, necessário e fecundo em resultados práticos. Op. maj., part. I, c. XI; Op. min., p. 324; Op. tert., p. 31, 55 e passim: « O mundo, exclama ele, está cheio de livros onde abundam as futilidades, puerilia et plebeia. » English hist. rev., loc. cit., p. 501. « A filosofia está morrendo, perit philosophia. » Op. tert., p. 55, 34, 17.

Ele compreendeu que havia algo de grande a empreender e que, para deter o mal, não era necessário nada menos que uma regeneração total. Expor o mal, indicar suas causas e remédios ao chefe da Igreja, tal é o objetivo desta consulta dirigida a Clemente IV e contida no Opus majus, Opus minus e Opus tertium.

Linguística. — É primeiramente o conhecimento das línguas que se impõe. « É preciso, observa Bacon, Op. tert., c. XXVIII, que os Latinos passem por esta porta do saber, a primeira de todas, eles sobretudo, cuja língua deriva quase inteiramente de idiomas estrangeiros, e que, em teologia como em filosofia, não têm outros textos para seus cursos senão livros redigidos primitivamente em hebraico, em grego e em árabe. » Nestas palavras entreveem-se já as duas razões fundamentais e peremptórias de sua vibrante defesa.

Desde a juventude, ele havia se dedicado às pesquisas filológicas. Por isso, afirmava com direito que a linguística lhe era coisa fácil, quase brincadeira de criança, facilis et puerilis. Ele fala, com efeito, do caldeu e do árabe como um homem instruído; além do inglês, do francês e do latim, Comp. studii phil., c. VI, p. 483, possui o hebraico, mas sobretudo o grego. A mesma feliz ideia que o fez intercalar no Opus majus, part. III, c. III, o alfabeto hebraico com sua pronúncia e o emprego dos pontos-vogais, fê-lo também adicionar a pronúncia do grego. Cf. Comp. studii phil., c. IX-XI, p. 495-518.

Ele redigiu uma gramática grega, publicada pelo P. Nolau. Do estudo particular das gramáticas, árabe, caldeia, hebraica, grega e latina, eleva-se à teoria geral da linguagem. Ele havia aberto para si as duas fontes de onde ela deriva: a comparação positiva de vários idiomas e a análise filosófica do entendimento humano, a história de suas faculdades e de suas concepções.

Ele compara, portanto, os vocabulários, aproxima as sintaxes, pesquisa as relações da linguagem e do pensamento, mede a influência que o caráter, os movimentos, as formas tão variadas do discurso exercem sobre os hábitos e as opiniões dos povos. Ele aprofunda questões como estas: Qual foi a primeira língua falada? Como Adão deu aos seres seu nome? Como crianças criadas no deserto comunicariam suas impressões e que forma de linguagem empregariam? Op. tert., c. XXVII.

Bacon não teve dificuldade em convencer seus contemporâneos dos serviços que o estudo das línguas pode prestar à ciência. Indiquemos brevemente seus principais chefes de prova:

1. O gênio de uma língua não passa para a outra; é manifesto que não se encontra nas traduções o charme, a força, o estilo, o preciso do original. Op. maj., part. III, c. I.

2. As traduções em uso são muito falhas; além disso, conservaram muitos termos primitivos que não tinham seu equivalente em latim, e cada tradutor frequentemente põe algo de si mesmo. Ibid.

3. Os Padres e os comentadores empregam em seus trabalhos uma multidão de palavras estrangeiras: quem poderá lê-las? e, contudo, não somos nós os filhos dos santos? não sucedemos aos sábios antigos? Ibid., c. III.

4. Um número considerável de obras de teologia e de filosofia ainda não está traduzido; será preciso deixá-las no esquecimento e não tirar proveito delas? Ibid., c. ii.

5. Uma correção da Bíblia e das outras traduções em curso é urgente, tanto que os erros e as falhas nelas abundam; como empreendê-la? Ibid., c. iv, v.

6. A interpretação dos textos requer, de toda a necessidade, que se recorra ao original para remover as ambiguidades e dissipar as dúvidas. Ibid., c. vi.

7. É impossível ter a ciência do latim sem o conhecimento das línguas das quais ele deriva. Ibid., c. vi-x. Cf. Comp. studii phil., c. vi-viii, p. 435-495.

A Idade Média, o século XIII principalmente, foi a era das traduções, dos corretórios, dos comentários, e o método empregado no ensino das escolas era a interpretação de um texto latino traduzido do hebraico, do grego ou do árabe. De Wulf, op. cit., n. 179, 180, 249, 252.

O estudo das línguas, nesta época em que eram quase completamente negligenciadas, devia servir ao interesse geral da Igreja e da sociedade, do ponto de vista da celebração dos ofícios, da administração dos sacramentos, do governo das cristandades orientais, do apostolado dos infiéis e dos cismáticos, enfim, das relações comerciais, judiciárias e diplomáticas de povo a povo. Ibid., c. xi-xiv. Nada é tão sugestivo como o fato de São Luís não encontrar na Universidade de Paris e em todo o seu reino um sábio capaz de decifrar as cartas do sultão de Babilônia e de servir de intérprete aos seus enviados. Ibid., c. xiv.

Todavia, Bacon não exigia de todos os cristãos, nem no mesmo grau, o conhecimento das línguas. Cf. Z. Gonzales, Hist. de la philosophie, t. II, p. 259. Ele desenvolve somente as grandes linhas de um programa de estudos. Longe de conter qualquer coisa exagerada ou quimérica, as suas visões são plenas de comedimento e de bom senso. Ele pede aos tradutores, aos corretores, aos comentadores, aos lexicógrafos, uma ciência mais aprofundada do grego, do hebraico, do árabe e do caldeu; quanto aos estudantes de teologia e de filosofia, bastaria que soubessem ler e escrever essas mesmas línguas e compreendê-las o suficiente para poderem servir-se delas. Cf. Op. maj., part. III, c. vi; Op. tert., c. xx-xxv, p. 65, 66, 89; Comp. studii, c. vi, p. 433, 434; English hist. rev., loc. cit., p. 507.

Estes votos foram plenamente justificados. Em 1311, o concílio geral de Vienne, tit. De magistris, apoiando-se em considerandos que parecem, diz E. Charles, op. cit., p. 47, emprestados a Bacon, prescreveu às universidades de Paris, de Oxford, de Bolonha, de Salamanca, o ensino das línguas orientais.

3º Ciências naturais. — Aos olhos de Bacon, o segundo meio de regenerar os estudos é dar-lhes bases sólidas e mais objetivas. Assim, ele se empenha em reagir contra os preconceitos do seu tempo ao demonstrar a facilidade, a utilidade e a importância das ciências positivas. Cf. Op. tert., c. v, vi, ix; Op. min., p. 324.

O seu grande mérito é o de ter-lhes encontrado um método. Com a sua perspicácia habitual, ele distingue quatro modos de proceder no conhecimento da natureza: a autoridade, o raciocínio, a observação e a experiência. Nem todos têm direito à mesma confiança. Inferior à razão, auctoritas debilior est ratione, a autoridade não responde às exigências do espírito e serve muito frequentemente de veículo ao erro; o raciocínio, por mais fortes que sejam os seus argumentos, não conduz, por si mesmo, à certeza perfeita, non certificat, na posse tranquila da verdade, cf. Op. maj., part. I, c. vi; do mesmo modo, a simples observação ou constatação dos fatos externos, essa experiência grosseira e superficial, é incapaz de satisfazer a inteligência, non sufficit homini, quia non plene certificat.

Para que a inteligência dê a sua adesão plena e inteira, é necessário que ela, estudando as matemáticas e a geometria, se entregue a observações pacientes e reiteradas, para então formular princípios e leis dos quais jorra a explicação racional dos fatos. Por esta experiência, dita interna e a única verdadeiramente científica, ela submete a um controle rigoroso as afirmações das diversas ciências, é para cada uma delas uma pedra de toque admirável, e consegue assim discernir, com toda a segurança, o verdadeiro do falso. Tal é o método experimental que Bacon teve a glória de criar e de dar ao mundo. Op. maj., part. I, c. x; part. VI; Op. tert., c. xii.

Ela tira o seu valor do emprego constante das matemáticas e da geometria, dos quais ninguém antes dele compreendeu tanto a necessidade e as vantagens: «Não se deve, diz ele, recorrer no estudo das ciências aos argumentos dialéticos nem aos sofismas, como se faz geralmente; é preciso servir-se de demonstrações matemáticas, sem as quais não há ciência que se possa compreender, explicar, ensinar ou aprender.» Op. maj., part. IV, dist. I, c. i; dist. II-IV; Op. tert., c. xxix-xxxvii, etc. Por se ter confinado à autoridade dos antigos, de Aristóteles sobretudo, e aos raciocínios a priori, a ciência tinha permanecido estacionária, impotente, extraviada em um labirinto de teorias utópicas.

Libertada desta dupla servidão, non est confidendum argumento aut auctoritati, e munida do método que o gênio de Bacon lhe traçou, ela atingirá pouco a pouco o prodigioso desenvolvimento que admiramos hoje. O ilustre doutor parece ter pressentido, com seis séculos de antecedência, esse espantoso florescimento. O seu opúsculo De secretis operibus artis et naturae é pleno destas visões de futuro: os barcos a vapor, as estradas de ferro, os balões, as alavancas de roda, os escafandros, o telescópio, o microscópio, os terríveis efeitos da pólvora ali estão indicados quase ao pé da letra.

Ele mesmo se coloca em ação com ardor e não sem sucesso. Ele primeiramente compôs a perspectiva; depois, abordou uma tarefa mais difícil, impossível por assim dizer na sua época: tentou constituir uma ciência geral com o objetivo de reduzir a princípios matemáticos todas as ações recíprocas dos corpos e dos agentes naturais. Essa ciência totalmente nova, que lhe custou dez anos de esforços, Op. tert., c. xi, p. 38, está exposta no De multiplicatione specierum. Cf. Op. maj., part. IV, dist. I-IV.

É sobretudo em ótica que ele sobressai. Não somente ele descreve exatamente as leis da visão e a anatomia do olho, Op. maj., part. I a VI, dist. II-IX; mas ele aprofunda os efeitos da reflexão e da refração, ele desenvolve a natureza e as propriedades dos vidros convexos e côncavos, a aplicação que se pode fazer deles na confecção dos óculos e dos espelhos ardentes. Ele explica quase bem as fases da lua, Op. maj., part. I a VI, dist. III, c. iv; as estrelas cadentes e a via láctea, ibid., dist. III, c. i, os halos, ibid., part. VI, c. ; o alvorecer e diversos outros fenômenos atmosféricos, tais como a cintilação das estrelas, ibid., part. IIa Ve, dist. III, c. vii, o arco-íris, ibid., part. VI, c. 11-xii.

Além de demonstrar a decomposição da luz, ibid., part. VI, c. 1, sustenta contra os doutores de seu tempo que a sua propagação não é instantânea. Ibid., part. IVe, dist. IX, c. iii, Op. tert., c. xxxv; De multipl. specierum, part. IV, c. ii. Alhures, emite princípios que parecem formar corpo com a teoria das ondulações, Op. maj., part. IVe, dist. VIII, c. ii; De multipl. spec., part. III, c. 1; part. VI, c. ii, ou mesmo preparar o caminho para as misteriosas descobertas das radiações invisíveis: «Não existe meio tão denso», diz ele, «que os raios não possam penetrar; se muitos corpos densos detêm a visão e os outros sentidos do homem, é porque as espécies sensíveis são fracas demais para abalar sua faculdade; não obstante, em toda a verdade, essas espécies ou raios penetram, ainda que insensivelmente para nós.» Op. maj., part. IV, dist. I, c. 1; De multipl. spec., part. II, c. v.

Não se quer dizer com isso que ele nunca se engane. Suas ideias, viciadas pelas teorias defeituosas de seu século — e quem conseguiu libertar-se delas por completo? —, nomeadamente pelas influências aristotélicas, possuem por vezes pontos fracos. Assim ocorre com sua explicação da luz lunar. Op. maj., part. IV, dist. IV, c. 1. Da mesma forma, a das marés, ibid., c. vi, emprestada de R. Grosseteste, De refractionibus radiorum, c. ii, está fora de moda desde que as leis da atração são conhecidas. Cf. Op. min., p. 359; S. Bonaventure, In IV Sent., l. II, dist. XIV, part. II, a. 2, q. 1; Scot, ibid., q. iii, n. 2, 3; II meteororum, q. 1, a. 2.

Com todos os seus contemporâneos e o Estagirita, fala da ingenerabilidade e da incorruptibilidade dos astros, Op. tert., c. xxxviii, p. 123; Op. min., p. 370; mas não leva o exagero a ponto de fazer de cada corpo celeste um tipo único em sua espécie; ademais, a explicação que dá desse axioma escolástico reduz a nada muitas das aplicações que se estava tentado a fazer dele. Cf. De multipl. spec., part. I, c. v.

Menos que qualquer outro, Bacon não ignorava a imperfeição de sua obra; persuadido de sua própria fraqueza, observa judiciosamente que seria um erro exigir dele uma precisão absoluta e soluções sempre adequadas. Quantas vezes se queixa de não ter os instrumentos desejados! Assim, sua ambição limita-se a ensaios que permitem entrever o que é possível obter. Op. maj., part. VI, c. xii. Cf. Op. min., p. 317. Não é sem motivo que ele não atribui aos seus trabalhos outro mérito senão o de ser uma persuasio praeambula.

Além disso, traz um cuidado escrupuloso em evitar que «sua física se confunda com a adivinhação, sua química com a alquimia, sua astronomia com a astrologia». Basta lê-lo lealmente para se convencer de que é pleno de prudência e de reserva cada vez que toca nesses pontos delicados. Op. maj., part. III, c. xiv; part. IV, dist. III, c. viii; Op. tert., c. xxv, xxx, lxv. O que diz a respeito da transmutação dos metais, tão em voga na Idade Média, é marcante: «Querer fazer prata com chumbo ou ouro com cobre é tão absurdo quanto querer criar alguma coisa do nada.» Cf. Léon de Kerval, Revue franciscaine, Bordeaux, 1885, p. 310.

Por toda parte, estabelece com nitidez e precisão as distinções necessárias, seguro de que a melhor maneira de servir à ciência consiste em libertá-la plenamente dos vínculos duvidosos e comprometedores. É com esse objetivo que endereça a Clemente IV duas longas memórias, das quais uma está anexa ao tratado das matemáticas no Opus majus, e a outra foi levada conjuntamente com Opus tertium por Jean de Paris. Op. tert., c. lxv, p. 270; Comp. studii, c. iv, p. 432; De secret. op. artis, c. 1, 3, 7. Cf. S. Thomas, Sum. theol., I, q. cxv, a. 3, 4, 6; IIa IIae, q. xcv, a. 1, 5; S. Bonaventure, In IV Sent., l. II, dist. II, part. II, a. 1, q. 1; Scot, ibid., dist. XLV, q. iii, n. 6; II meteororum, q. iii, a. 3; De anima, q. xi. Cf. Apologia in H. Tartarottum, Veneza, 1750; Londres, 1859.

Em geografia, Bacon não se contenta em buscar a causa das diferenças de climas, Op. maj., part. IV, dist. IV, c. ii-v, nem em provar rapidamente a esfericidade da terra. Ibid., c. x. Mais vasto é o seu desejo. Ele teria querido que se medisse o globo, que se determinassem exatamente as longitudes e as latitudes, que se fixasse com mais precisão a posição das cidades e das regiões e, para isso, que se entrasse em acordo sobre um ponto como origem comum das longitudes. «É uma obra imensa», escreve ele; «mas ela lograr-se-ia se a autoridade apostólica, ou um imperador, ou um grande rei consentisse em prestar assistência aos sábios.» Para dar ao papa uma ideia do que se poderia realizar, ele mesmo traçou um mapa.

De um lado, in albiori parte pellis, indicava por meio de círculos vermelhos as principais cidades do universo com seus graus de longitude e de latitude; do outro, in alia parte pellis, onde a descrição era mais detalhada, fazia sem dúvida o traçado dos rios, dos mares, das montanhas e dos limites políticos das nações. Cf. J. H. Bridges, The «Opus majus», p. 296, 300.

Por infelicidade, este mapa está perdido; apenas as páginas explicativas do Opus majus nos restam. Elas são curiosas e interessantes. Bacon não se contenta em copiar os escritores antigos; ele os retifica conforme a necessidade e os completa. Notemos que ele dá o maior valor aos relatos de Guilherme de Rubruck e de João de Plano Carpini. Demonstra que há regiões habitadas abaixo do equador. Apoiando-se no exame atento de certos textos de Aristóteles, de Sêneca, de Plínio e do IV livro de Esdras, vi, 42, estabelece dados que não contribuíram pouco para a descoberta da América. Sua conclusão é que a massa de água que se estende de um polo ao outro entre a África e a Índia não é muito larga, non magnae latitudinis, e que a Índia ocidental aproxima-se de muito perto, accedens valde, da extremidade oeste da África. É fora de dúvida que Cristóvão Colombo teve conhecimento das assertivas de Bacon. Em uma carta datada do Haiti e endereçada ao rei da Espanha, ele afirma, de fato, que tinha lido e meditado o Imago mundi de Pierre d’Ailly, onde elas estão literalmente transcritas. Cf. Humboldt, Examen critique, t. 1, p. 61-70, 96-108; R. de Lorgues, Chr. Colomb; J. H. Bridges, The «Opus majus», t. 1, p. 290.

O capítulo onde Bacon tenta determinar o diâmetro e a distância dos corpos celestes, J. H. Bridges, op. cit., t. 1, p. 224-236, prova à evidência que ele possuía não menos a astronomia do que a geografia. Longas observações tinham-lhe ensinado a necessidade de se colocar em guarda contra as ilusões de ótica relativas ao volume, à posição e ao afastamento dos astros. Op. Op. maj., part. I+ V, dist. II, c. 1; part. IIa Ve, dist. II, c. 1v; Op. tert., c. Liii; De multipl. spec., part. II, c. 1v. Ele sabe perfeitamente que certos astrônomos da antiguidade vislumbraram a possibilidade e mesmo a eventualidade de uma hipótese científica mais perfeita para explicar seu movimento. De multipl. spec., part. II, c. 1v; J. H. Bridges, op. cit., t. 1, p. 191-193. Assim, ele se faz historiador dos sistemas antes de se decidir. Depois, sem hesitar, ele se pronuncia contra Ptolomeu, que foi enganado ao confiar nos sentidos, sensum iuvando decipiebatur. Não é sem escrúpulo que ele se detém nesta solução; mas, enfim, mais vale salvar a ordem da natureza e contradizer os sentidos tão frequentemente enganadores. Cf. E. Charles, op. cit., p. 178.

Bacon buscava nos movimentos periódicos do céu as mais exatas medidas do tempo. As incertezas da cronologia bíblica não lhe eram desconhecidas. Ele estimava que é preciso recorrer à astronomia se se quer tentar dissipá-las com chance de sucesso. Nem mais que os monumentos da antiguidade profana, o texto sagrado pode bastar para este trabalho: ele tem soluções de continuidade e os números que ele fornece são muito frequentemente contraditórios. Somente a astronomia exclui todo erro. Os eclipses, as conjunções planetárias, como aliás todas as revoluções dos corpos celestes, não ocorrem em épocas precisas e certas? Sua periodicidade invariável é, portanto, um guia seguro para classificar os eventos do passado. Op. maj., part. IV, p. 188, 189; Op. tert., c. Liv, p. 204-208.

É ainda à astronomia que cabe dissipar as dúvidas sobre o dia da Paixão e aquele da celebração da Páscoa. Com os gregos e Santo Agostinho, Bacon fixa a morte do Salvador no dia 14 de nisã, véspera da festa dos ázimos; ele conclui daí que Jesus Cristo antecipou a manducação do cordeiro pascal. O Opus majus contém a tabela de computo por meio da qual ele tentou controlar cientificamente sua interpretação dos sinópticos e de São João. Todavia, ele se defende de toda conclusão firme, esta tabela, embora elaborada com o maior cuidado, não estando ainda plenamente verificada. Op. maj., part. IV, p. 202-210; Op. tert., c. Lv, p. 221-226. Uma outra tabela em caracteres hebraicos, hoje extraviada, continha a exposição do ciclo lunar judaico. Op. tert., p. 215, 220, 221. Tudo o que diz respeito à supputatio do tempo entre os judeus como entre os árabes, entre os gregos como entre os cristãos, era familiar a Bacon, Op. maj., part. IV, p. 194-201; Op. tert., c. Liv, p. 212-221.

Compreende-se desde então que ele esteja à vontade para mostrar os defeitos do calendário eclesiástico e levar Clemente IV à sua reforma. "Após a corrupção do texto sagrado, diz ele, não há nada tão intolerável." Op. tert., p. 212, 221. Em 1267 já, o ano trópico não correspondia mais ao ano civil, do qual ele se afastava oito dias inteiros. De fato, toda a ordem das festas da Igreja estava perturbada, este desacordo acarretando, com o deslocamento da festa da Páscoa, aquele das outras festas do ano. É com a maior precisão que o sábio autor faz tocar com o dedo cada um dos erros do calendário Juliano e manifesta a possibilidade de remediar isso. Ele termina dirigindo-se ao papa: "Vossa Reverência pode dar suas ordens; vós encontrareis homens capazes de operar todas as correções desejadas. Há no calendário treze erros principais, que se ramificam por sua vez de mil maneiras. Se, portanto, esta obra grandiosa se realizasse durante o vosso pontificado, seria uma das mais gloriosas, das mais úteis e das mais magníficas que tenham jamais sido empreendidas na Igreja de Deus." Esta linguagem é a de um vidente.

Não é a reforma do calendário, tão insistentemente pedida e tão minuciosamente preparada por Bacon, Op. maj., part. IV, p. 269-285; Op. tert., c. LXVII-LXIX, p. 272-295, que ilustrará o nome de Gregório XIII três séculos mais tarde? Pierre d’Ailly e Nicolau de Cusa no século XV, Paulo de Middelburg em 1513 não disseram nada que Bacon não tivesse expresso antes deles. Cf. J. H. Bridges, op. cit., t. 1, p. 285.

Lancemos, ao fim desta exposição, uma vista de olhos rápida sobre a personalidade de Bacon como sábio. Seu estilo, seu método, seu caráter dizem o bastante de sua têmpera de espírito própria. Seu estilo é claro, conciso, enérgico. Lúcido e preciso até nas questões mais difíceis, ele expõe com ordem e nitidez. Ele não procede, à maneira dos escolásticos, por silogismos a favor e contra.

Seu pensamento se desenvolve constantemente seguido e uniforme, como entre os antigos e os modernos. Ao considerá-lo apenas sob este aspecto, não se o colocaria no século XIII. Por outro lado, quer escreva ou fale, ele coloca seu ensino ao alcance da inteligência menos aberta. Cf. Op. tert., c. V-XII, XVI, XVIII. Os estudantes não experimentariam tantas dificuldades, assegura ele, se os mestres tivessem mais método. Para demonstrar isso, ele aposta ensinar em seis meses tudo o que aprendeu em quarenta anos. Seu discípulo preferido, Jean de Paris, é a prova convincente de que não se trata de pura bravata: em poucos meses, este jovem de vinte anos tornou-se objeto da admiração geral. English hist. rev., loc. cit., p. 505-507; Op. maj., part. I, p. 30; part. II, p. 66; part. III, p. 89, 111, 135, 139, 225, 230, 270, 316.

A esta perfeição de método é preciso juntar uma sagacidade surpreendente. Sabe-se a arte com a qual ele manejava a indução e a dedução no estudo experimental da natureza. É esta potência de concepção que lhe permitiu "abordar e resolver tantos problemas que a posteridade só decidiu mais tarde ou que ela nem sequer examinou de todo". P. Martin, La Vulgate latine au XIIIe siècle, Paris, 1888, p. 73. É ela também que, juntada a uma coragem indomável, fê-lo atacar de frente os preconceitos de seus contemporâneos, estimular seu ardor, traçar-lhes um programa, alargar-lhes o vasto campo da ciência, sinalizar-lhes, de uma só vez, os escolhos a evitar.

Síntese doutrinal. — Em que espírito é preciso se entregar ao estudo? Quais são as relações das ciências entre elas e com as verdades reveladas? Não há uma obra de Bacon que não debute por uma crítica das causas da ignorância humana. Cf. Comp. studii phil., c. 1, p. 444; E. Charles, op. cit., p. 278. A primeira parte do Opus majus, uma das mais bem trabalhadas, é em sua inteireza consagrada a este importante exame. Plenamente instruído sobre o que se passava ao seu redor, o douto e judicioso escritor debruçou-se deliberadamente sobre esta questão capital.

Segundo ele, quatro obstáculos principais opõem-se à aquisição da verdade: 1º o crédito injustificado ou exagerado concedido, como a um cego, a certas doutrinas, a certos homens; 2º a mania de querer modelar os seus julgamentos sobre os de um público ignorante e incompetente; 3º o erro de se prender, por assim dizer, a uma opinião pelo fato de ser comumente adotada; 4º sobretudo, enfim, a presunção ou o amor desmedido pelo próprio sentimento, e o desejo imoderado de o fazer prevalecer. «Por toda a parte», diz ele, «onde reinam tais abusos, os melhores argumentos são inúteis, o bom senso padece, a razão se desvia, o erro prevalece, a verdade se desvanece, o progresso é impossível. Tenhamos, pois, a coragem de nos apoiar em autoridades verdadeiras, de preferir a sólida razão ao costume e de não levar em conta os julgamentos da multidão. Além disso, tratemos apenas com respeito os antigos; sejamos-lhes gratos por nos terem aberto o caminho; mas não esqueçamos que se enganaram mais de uma vez; por conseguinte, não hesitemos em contradizê-los quando for necessário. Evitemos este miserável argumento: os antigos disseram-no; é o costume; é a opinião comum; logo, é a verdade. Saibamos também admitir que a nossa ciência é limitada.»

Tais são os preceitos de sábia independência que Bacon endereçava aos filósofos e aos teólogos do seu tempo, preceitos que foram, durante toda a sua vida, a regra da sua conduta. A primeira parte do Opus majus, cf. Op. tert., c. XI; Comp. studii phil., c. I-V, p. 393-492, poderia, nos nossos dias ainda, dissipar muitos preconceitos e pôr fim a muitos entusiasmos. Eliminadas definitivamente estas quatro fontes de erros filosóficos e teológicos, o sábio autor mostra as vantagens das ciências sem as quais é impossível ter o conhecimento perfeito da filosofia e, consequentemente, da teologia. Antes de tudo, nós o vimos, é preciso saber as línguas, em particular o grego, o hebraico, o árabe; é preciso saber, em seguida, as matemáticas e as ciências físicas; a metafísica e a filosofia moral formarão a coroação e o termo de todo este edifício laboriosamente construído.

Manifestamente este programa alargava os quadros do trivium e do quadrivium: ele marca uma etapa no desenvolvimento dos conhecimentos humanos. Ao assinalar a moral como o fim e o único resultado proveitoso de toda especulação e de toda pesquisa, Bacon ocupa por aí também um lugar à parte no século XIII. Esta direção que ele imprime aos estudos para um ideal de vida religiosa, social e privada, não se encerra na ordem puramente natural: a reta razão conduz inelutavelmente ao conhecimento da verdade revelada. Eis como, após ter condensado os mais belos textos da antiguidade pagã, de Sêneca em particular, sobre Deus, a sociedade e o indivíduo, Bacon faz servir esta mesma filosofia moral para lançar as bases de uma demonstração evangélica. Assim ele põe em prática os seus princípios sobre as relações da razão e da fé; assim ele acaba por arruinar a asserção dos escritores que falam da sua tendência a diminuir a razão, a autoridade e a teologia, que o acusam de ter imprimido uma direção naturalista à escolástica. De Wulf, op. cit., p. 247.

As leis que regulam as relações da filosofia e da teologia são comentadas na segunda parte do Opus majus. É a ela que se deve recorrer para apreciar sensatamente o modo de as conceber de Bacon. Da mesma forma que as ciências naturais, embora distintas e subordinadas umas às outras, têm pontos comuns de onde nascem entre elas relações de mútua dependência; do mesmo modo, colocadas face à verdade revelada, elas conservam a seu respeito uma dupla relação de unidade e de dependência recíproca. «Todas as ciências», escreve ele, «são como um raio da sabedoria eterna; um reflexo da divina claridade, que ilumina as inteligências.» Op. maj., part. II, c. V.

Os filósofos pagãos nunca teriam adquirido tantos conhecimentos sem a revelação de Deus, que se estende até às verdades de ordem natural. Ibid., c. VI. Aliás, a história da filosofia profana mostra que os sábios da antiguidade são todos posteriores aos patriarcas e aos profetas do Antigo Testamento, aos quais são muito devedores. Ibid., c. X-XIV. Os cristãos devem fazer uso da filosofia em teologia e da teologia em filosofia: as duas ciências devem compenetrar-se intimamente, permanecendo ao mesmo tempo na sua esfera respectiva.

Entre eles, a filosofia deve abraçar mais verdades transcendentes do que entre os pagãos. «Assim pois, considerando a filosofia como novamente descoberta, acrescentemos-lhe muitas verdades que o paganismo não suspeitou e que, contudo, entram no domínio da filosofia.» Ibid., c. XV-XIX; cf. J. H. Bridges, op. cit., t. I, p. 224, 226, 228, 229, 231, 232, 366, 373, 383.

Que escolástico alargou mais a influência da razão? Se a teologia cristã acrescenta aos ensinamentos da filosofia, esta por sua vez deve empregar-se ao serviço da primeira, da qual ela é a serva, ancilla. Cabe-lhe ajudar a compreendê-la, a divulgá-la, a demonstrá-la e a defendê-la. Ibid., c. I, II, IV, VII, VIII, XIV; Op. tert., c. X, p. 32. Só então atingirá o seu fim. É na arte oratória, na apologia, na teologia e na exegese que Bacon coloca os recursos da ciência e da razão mais diretamente ao serviço da fé.

1. Ele emprega esta bela comparação, Op. tert., c. I, p. 4, para glorificar a eloquência: «A ciência sem eloquência é como uma espada nas mãos de um paralítico; do mesmo modo, a eloquência sem ciência é como uma espada nas mãos de um louco furioso.» Sendo a arte oratória muito negligenciada no século XIII, Bacon atrai a atenção do Papa sobre este ponto. Além disso, ele expõe regras de eloquência que nos é impossível julgar, não tendo chegado até nós a quinta parte da filosofia moral que as continha.

2. A quarta parte, onde são desenvolvidas as grandes linhas de uma apologia da religião cristã, manifesta mais o papel da razão ao serviço da fé. Não se reconhece à razão o direito de compreender o objeto revelado, mas o de fornecer à fraqueza humana os motivos de credibilidade por meio dos quais ela justificará a sua crença. A argumentação de Bacon repousa sobre estes argumentos: a superioridade da religião cristã sobre todas as outras, a divindade do seu autor, a santidade da sua moral, o testemunho que lhe prestaram os profetas e os séculos posteriores. Os livros de apologética não fizeram mais do que retomar estes chefes de prova. Em Bacon, eles constituem já os elementos de uma verdadeira ciência. — Na "Verdade da religião cristã comprovada", nosso doutor dedica-se particularmente a defender o sacramento da Eucaristia, que "alguns negam, diz ele, que parece duvidoso a outros, que estes admitem com dificuldade, que aqueles sentem imperfeitamente, que poucos, enfim, recebem com facilidade e guardam na plena paz e suavidade do coração". Ele estuda esse mistério de amor com todo o seu coração, e constata-se o quanto ele sabe aliar a ciência a uma piedade terna e sólida. Cf. Op. tert., c. XLI, L, p. 145-148, 188; Comp. studii phil., c. 1, p. 400.

3. A teologia e a Bíblia foram o objetivo de todos os seus esforços. É para dar-lhes um novo brilho que ele impulsiona ao estudo das línguas, à cultura das ciências. A ideia-mãe de todos os seus livros é que esses conhecimentos, negligenciados ou desprezados pelos teólogos de seu tempo, são da mais evidente utilidade. Os exemplos que ele traz, Op. maj., part. IV, p. 181, 182, 223, mostram que ele tinha razão. É sobretudo no estudo da Bíblia, a teologia por excelência, que ele é preciso. Ao reunir os dados esparsos nas três opera, ter-se-ia sem dificuldade todos os elementos de uma excelente introdução à Escritura santa. O exegeta deve voltar, acima de tudo, a sua atenção para o sentido literal com a ajuda das línguas e das ciências. "É impossível", escreve Bacon, "interpretar a Bíblia enquanto não se sabe lê-la e compreendê-la no texto hebraico ou grego." Op. tert., p. 265. Este princípio, admitido sem contestação hoje em dia, não o era no século XIII. Cf. Op. maj., part. III, c. VI-XI. Os contemporâneos de frei Roger não parecem ter tido tampouco a ideia bem clara das vantagens que o exegeta retira do conhecimento da astronomia, da cronologia, do cômputo, da geografia, da geometria, da aritmética, da história natural, da música e da poesia hebraicas. Eles não suspeitavam do número de erros que essas ciências permitem evitar. É a glória de Bacon tê-las demonstrado. Cf. Op. maj., part. II, c. III; part. IV, p. 180-223, 236, 237; Op. tert., c. LI, LVI, LVIII, LX, LXIV; Comp. studii phil., c. V, VII; Op. min., p. 349-359.

IV. BACON E A CORREÇÃO DA VULGATA. — De todos os assuntos que mais o preocupam, o da correção da Bíblia é um dos primeiros. Ele dedica-lhe longas e doutas páginas no Opus majus e no Opus minus. Ele volta a esse tema ainda no Opus tertium. A bem dizer, desde São Jerônimo, ninguém tratou com tanta erudição e competência essa grave questão.

1º O texto parisiense. — Bacon é o único que nos fornece informações sobre essa edição da Bíblia que ele chama de "texto parisiense". O que ele nos ensina sobre sua data, sua origem, seu valor, seu sucesso, seus resultados, não tem nada que o recomende à nossa estima. "Há cerca de quarenta anos", diz ele, "teólogos numerosos, quase ao infinito, e mercadores, todos gente pouco avisada, puseram em circulação esse texto em Paris. Como eram homens iletrados, tendo mulher, não se preocuparam com sua exatidão, a qual eram, aliás, incapazes de verificar, e entregaram exemplares repletos de falhas. Depois deles, copistas sem número não fizeram senão aumentar a corrupção ao se permitirem uma multidão de mudanças." Op. min., p. 333. Assim, pois: 1. É no primeiro quarto do século XIII, na própria Paris, sob os olhos da universidade nascente, que ocorre a posta em circulação desse texto: os estudantes afluem de todos os pontos do universo cristão; é-lhes necessária sem demora uma Bíblia para seguir as lições dos mestres. — 2. São livreiros ou estacionários, e gente casada, que se encarregam do trabalho: apressados, fazem rapidamente; sem ciência, copiam o primeiro texto que lhes aparece e, preocupados acima de tudo em ganhar, vendem numerosos exemplares. — 3. Redigida dessa sorte e nas mãos de todos, essa recensão torna-se o texto que se explica nos cursos de Paris, Revue thomiste, maio de 1894, p. 149-161; ela se espalha rapidamente na cristandade; ela penetra até nos livros de ofício.

2º Sua corrupção. — Infelizmente, esse texto era um texto sem valor. Constatou-se nos nossos dias que o manuscrito escolhido como tipo dessa edição representava a recensão de Alcuíno, ver t. I, col. 639, mas mesclada e alterada pelos escribas posteriores; ela continha um grande número de más lições e de alterações.

As mais importantes destas, tendo ao menos a extensão de um versículo, provinham das antigas versões latinas, nomeadamente dos textos ditos "europeus", e elas tinham passado pouco a pouco das bíblias de Teodulfo para os manuscritos da recensão de Alcuíno. Bacon deu-se conta do mau estado da bíblia parisiense. Ele viu nessa depravação do texto bíblico um dos maiores males da teologia: "O quinto pecado dos estudos", escreve ele, "supera todos os precedentes; pois o texto sagrado é em sua maior parte horrivelmente corrompido na edição recebida, quero dizer a de Paris; e lá onde ele não está corrompido, é tão suspeito que a dúvida pode razoavelmente invadir o homem sensato." Op. min., p. 380.

Ele retoma o mesmo pensamento no Opus tertium, c. XXV, p. 92, e acrescenta: "Nenhum homem, sabendo das falsidades e das incertezas do texto parisiense, pode servir-se dele em consciência seja na pregação, seja no ensino..., tão grandes são o prejuízo e a desonra que disso resultam para a santa palavra de Deus." E no Opus majus, part. II, c. IV: "Deus sabe que não se pode apresentar nada à santa Sé que tenha tanta necessidade de correção como esse texto infinitamente corrompido. Por toda parte no exemplar recebido o texto é falso ou duvidoso para quem quer que bem o examine."

Ele não se contenta com essas simples afirmações; ele demonstra longamente o que avança por razões concludentes. "Vou comprová-lo", escreve ele, "sem contestação possível." Op. maj., loc. cit. A razão fundamental que ele invoca constantemente é a contradição do texto parisiense com as antigas bíblias e os antigos textos. "Segundo o dizer de Santo Agostinho em seus livros contra Fausto, quando os manuscritos latinos são discordantes, deve-se recorrer aos mais antigos e ao maior número: os antigos devem ser preferidos aos novos, o grande número ao pequeno número. Ora, todas as bíblias antigas existentes nos mosteiros e não ainda glosadas ou retocadas encerram a verdadeira versão recebida desde o princípio pela santa Igreja romana que a fez adotar por todas as outras Igrejas; e essas bíblias antigas diferem ao infinito do exemplar parisiense. Há, portanto, grande necessidade de que seja corrigido com a ajuda dessas mesmas bíblias. Além disso, Santo Agostinho escreve que se deve recorrer ao hebraico e ao grego, se as antigas bíblias ainda deixam alguma dúvida; São Jerônimo, todos os Padres repetem o mesmo parecer." Ora, o grego e o hebraico concordam com as bíblias antigas contra o texto parisiense. É preciso, portanto, corrigi-lo. Ibid.

«É preciso que o texto parisiense ceda lugar aos antigos, primeiramente em razão de sua novidade, e em seguida por causa de sua singularidade; pois ele é, em verdade, o único quase que altera assim toda a Escritura.» Op. min., p. 331. E os exemplos abundam sob sua pena, «a fim de mostrar como se corrompe o texto por adição, por omissão, por substituição, por confusão ou separação das frases, das palavras, das sílabas, dos ditongos, dos acentos.» Op. tert., c. xxv, p. 93; cf. Op. maj., part. III, c. v. Ele faz observar que «quase todos os números da Bíblia estão alterados», e cita toda uma longa página deles. Cf. J. H. Bridges, op. cit., t. 1, p. 221, 222.

No Opus minus, p. 331, 332, ele traz um luxo de provas para demonstrar a falsidade de Marc, viii, 38, onde se lia em seu tempo: Qui me confessus fuerit... confitebitur, em vez de: Qui me confusus fuerit... confundetur. Após ter estabelecido gramaticalmente que os termos confusus, confundetur não são erros de latim, como se via erroneamente, ele confirma sua exatidão: a) pelos antigos manuscritos não glosados espalhados pelos diversos países da cristandade; b) pelo texto grego original; c) por Santo Agostinho e Beda; d) e pelos cânones de Eusébio, nos quais os três sinóticos comparados oferecem um sentido idêntico. Alhures, Op. maj., part. III, c. v, ele cita Sl. xlii, 3, onde se lia então: Sitivit anima mea ad Deum fontem vivum, e ele demonstra que é preciso ler fortem: a) pelo hebraico e o grego; b) pela versão hieronimiana feita sobre o hebraico; c) pela dupla correção dos Setenta, obra de São Jerônimo; d) por todos os antigos saltérios dos mosteiros que ele afirma ter examinado atentamente. Como se vê, sua argumentação cerrada não admite réplica.

3º Suas primeiras correções. — O mal era, portanto, gritante. Constatou-se logo. «No princípio, acrescenta Bacon, Op. min., p. 333, os novos teólogos não tiveram a possibilidade de examinar os exemplares; confiaram nos livreiros. Mais tarde, todavia, perceberam que o texto estava cheio de erros, de faltas e de interpolações. Assim, propôs-se corrigi-lo, sobretudo em duas ordens religiosas. Chegou-se a começar. Mas, por falta de chefe, cada um trabalhou à sua guisa até este dia. Devido à diversidade dos sentimentos, encontram-se nos textos corrigidos variedades ao infinito.»

Ele é mais explícito ainda no Opus majus, part. III, c. iv, e no Opus tertium, c. xxv, ele diz: «Na ordem dos menores, cada leitor corrige como entende; o mesmo ocorre entre os pregadores e os seculares. Todos mudam o que não compreendem... Os pregadores sobretudo se meteram nesta correção. Já há mais de vinte anos que tentaram uma e a puseram por escrito. Na sequência, fizeram outra e reprovaram a primeira. A esta hora, eles vacilam mais do que ninguém, não sabem onde estão. Do que parece que sua correção não é senão uma abominável corrupção; é a destruição do texto de Deus.» Ele prossegue: «É sem comparação um mal menor seguir o texto parisiense não corrigido, do que seguir uma ou outra dessas correções.»

Este julgamento, cuja expressão é forte demais, é todavia confirmado no conjunto pelo exame dos primeiros corretórios. O segundo corretório contido no manuscrito, latin 15554, fol. 147-253, e que é conhecido sob o nome de Correctorium Sorbonicum, é obra dos franciscanos. Não é senão um leve retoque do texto parisiense. S. Berger atribuiu-o a Guilherme, o Bretão, personagem em voga então, mas instruído demais para levar a bom termo a correção do texto bíblico. Os dominicanos, mais eruditos, não lograram muito mais êxito. Em 1256, eles condenaram eles mesmos sua correção de 1236. Denifle, op. cit., t. 1, p. 316, 317. Aquela que seguiu era mais grossa que a metade da Bíblia; mas precisamente «por causa de seu volume ela tinha, ao lado de muitas verdades, falsidades bem mais numerosas que a primeira». Finalmente, eles perderam a confiança: modo vacillant plus quam alii, nescientes ubi sint. Op. tert., c. xxv.

4º Defeitos dessas correções. — Bacon explica o insucesso desses primeiros esforços pelas seguintes razões:

1. Os corretores não têm chefe. Op. min., p. 333. Uma empresa qualquer, se é importante sobretudo, requer uma direção que coordene e unifique. Na circunstância, cada um corrigia à sua guisa. Pode-se desde então imaginar a multidão das variantes e, consequentemente, a incerteza que resultava para a verdade do texto. Por falta de organização, o trabalho era assim viciado radicalmente.

2. Eles não seguem as antigas bíblias. Ibid. Por «antigas bíblias» Bacon entende aquelas que remontam a Carlos Magno, a Santo Isidoro, a São Gregório. «Elas são, diz ele, isentas de alterações; elas concordam em tudo, salvo onde há erro de copista, coisa inevitável em qualquer obra literária, e elas são em número incalculável nos diversos países.» Não se pode raciocinar melhor. Se as bíblias mais antigas e mais numerosas estão de acordo em todo ponto, elas contêm, portanto, a verdadeira versão dada por São Jerônimo e a única recebida pela Igreja inteira: é, pois, aí que se deve buscá-la.

3. Eles ignoram o grego e o hebraico, aos quais se deve necessariamente recorrer. Ibid. Muitas vezes Bacon formula esta reprovação. Como a Vulgata não é senão uma tradução e empresta das línguas originais uma multidão de palavras, é impossível corrigir essas mesmas palavras, se são duvidosas, sem compará-las com o texto original, ut videatur veritas in radice. Sem o hebraico, sem o grego, muitas vezes não se pode senão equivocar.

4. Eles ignoram a gramática latina, aquela em particular de Donato e de Prisciano, os mestres de São Jerônimo. Ibid., p. 331, 333, 334. Na Idade Média o latim estava, de fato, em plena decadência. Os melhores autores clássicos eram abandonados; em contrapartida, tinha-se em grande estima lexicógrafos sem valor, Papias, Hugutio, G. le Breton. Assim, as faltas gramaticais iam se multiplicando sem cessar. Não se sabia mais as regras da escrita nem da pronunciação; aquelas da acentuação, da aspiração, da pontuação, da derivação e da quantidade não eram menos imperfeitamente conhecidas. Que erros resultavam dessa decadência do latim! Assim, Bacon demora-se a estudar, os clássicos em mão, essas questões de filologia e a demonstrar como sua ignorância era a fonte de muitas corrupções da Bíblia. Cf. Op. maj., part. III, c. v-x; Op. tert., c. lx-lxiii, p. 234-264.

5. Eles ignoram qual é a versão da Bíblia em uso na Igreja. Ibid., p. 334. Não somente o vulgus theologorum, mas ainda certos mestres eminentes, Hugues de Saint-Victor, Pierre Comestor, ou até mesmo Hugues de Saint-Cher seguindo H. Hody, op. cit., p. 430, estavam nesse ponto. Alguns pensavam que a Vulgata era uma versão recentemente feita em Jericó, Op. min., p. 336, por homens desconhecidos e sem autoridade. Os corretores eram mais livres para suprimir, modificar e acrescentar em uma versão recente. Para refutá-los, Bacon retoma toda a história das versões gregas e latinas, e demonstra magistralmente que a única versão acreditada na Église e a única contida nas bíblias é a de saint Jérôme. Op. min., p. 334-347.

6. Eles agem com muito pouca crítica. Ibid., p. 347, 348. Os corretores do XIIIe siècle acreditavam fazer bem ao pilhar os antigos Pères, saint Jérôme em particular, o historiador Josèphe e a liturgia. Um espírito avisado teria previamente submetido a um controle rigoroso esses elementos variados. Ele teria visto que os Pères citam a Bíblia seguindo os Septante e não seguindo a Vulgata de saint Jérôme; que Josèphe parafraseia para melhor dizer, o texto sagrado; que l'Eglise, na liturgia, o modifica mais ou menos em vista da piedade ou da clareza; e que, por conseguinte, não se devia fiar nesses critériums. Ele teria também distinguido com cuidado a version de saint Jérôme, tal como ela está nas bíblias, das citações scripturárias que se encontram em seus commentaires. Que caos resultante desse amontoado de textos tirados de diversos côtés! Bacon podia exclamar: Tot sunt correclores seu magis corruptores / ou bem ainda: Eorum correctio est pessima corruptio et destructio textus Dei! Op. tert., c. XXV. Pierre d’Ailly, que em sua juventude havia refutado algumas ideias de um discípulo de Bacon sobre a Vulgata, Epistola ad novos Hebrexos, adotou as visões do doutor admirável quando conheceu seu Opus minus, em seu Apologeticus hierononymiane versionis. Ver L. Salembier, Une page inédite de l'histoire de la Vulgate, Amiens, 1890. Cf. t.1, col. 642.

5° Projeto de uma nova correção. — É assim que, falta de ciência, de método e de crítica, os teólogos do XIIIe siècle, viri estimati valde magni et maximi, aumentaram inconscientemente as alterações e arrogaram-se frente à Bíblia uma liberdade que nunca se permitiu para nenhum livro humano e da qual a saint-siège só pode assumir a responsabilidade. J. H. Bridges, op. cit., t. 1, p. 221; Op. min., p. 342, 348. Para remediar o mal, Bacon, sob o impulso de seu gênio prático e de seu senso católico, dirige-se ao guardião infalível do dépôt das saintes Ecritures; ele suplica ao papa que use de sua soberana autoridade: « Eu clamo para Deus e para vós contra essa depravação do texto sagrado, pois vós só podeis remediar isso com a ajuda de Deus. » Op. tert., c. xxv.

Ele não lhe dissimula as imensas dificuldades do projeto, Op. min., p. 333; ele não lhe esconde tampouco que se pode vencê-las: o chefe de l'Eglise faltaria encontrar homens capazes? ele se oferece para indicá-los, se ele o desejar. Entre outros sábios dignos de colaborar nessa correção nova, Bacon assinala muitas vezes, sem nomeá-lo, um velho muito versado no estudo da Bíblia e que desde o tempo dos santos não tinha tido seu igual. « Há trinta anos, logo quarenta anos, diz ele, que ele trabalha essa parte; ele sabe a fundo os meios e o método para dar com toda certeza uma verdadeira correção; todos são ignorantes ao lado dele nessa matéria. » Op. tert., loc. cit.; English hist. rev., loc. cit., p. 516. Ele mesmo, embora esteja cheio de seu assunto, julga-se inferior a esse personagem famoso. Contudo, quando aprouver ao papa ordená-lo, ele está pronto a ajudá-lo a fazer o levantamento detalhado de todas as passagens alteradas da Bíblia e a provar qual deve ser a exata leçon. Op. maj., part. III, c. v; Op. min., p. 333. É lamentável que a ordem não tenha vindo. Em seus três opera, onde ele examina quantidade de textos, Bacon justifica amplamente cada uma de suas críticas.

Ele não corrige nenhuma passagem sem fazer apelo à gramática, aos antigos manuscritos latinos, ao texto original grego ou hebraico, e a todo outro elemento que lhe permita um julgamento seguro. Cf. Op. maj., part. II, c. v-x; part. IV, p. 221, 222; Op. min., p. 331, 332, 351, 352; Op. tert., p. 285, 244, 245, 250, 251-254; Comp. studii, p. 440, 477-482, 518.

Sua ciência é vasta, seu método rigoroso, sua crítica irrefutável. Ele era o homem todo designado. Pode-se presumir que, se ele tivesse executado a obra proposta, ele teria reconstituído a Vulgata em um melhor estado. Infelizmente Clément IV não tardou a morrer, e o projeto foi abandonado por longos séculos.

Seja como for, Bacon permanece incontestavelmente um dos maiores mestres da crítica bíblica, tanto para a interpretação do texto quanto para sua fixação. E se um dia l'Eglise acreditar que o momento chegou de terminar a obra de correção começada por Sixte V e Clément VIII, os princípios, as observações e as visões do ilustre doutor serão guias assegurados e auxiliares preciosos para os obreiros dessa grande empresa.

Ademais, esses mesmos obreiros terão seu trabalho preparado admiravelmente por dois franciscanos do XIIIe e do XIVe siècle, Guillaume de Mara e Gérard de Huy. Ambos, rompendo com os métodos de seus predecessores, fizeram a aplicação rigorosa das regras traçadas por Bacon. Com uma inteligência rara, uma erudição incrível e um grande julgamento, eles compuseram correctoria que os eruditos concordam em olhar como os melhores. Cf. Denifle, Archiv f. Litteratur u. Kirchengesch., t. IV, p. 277 sq.; S. Berger, Quam notitiam linguae hebraice habuerunt christiani medii aevi, Paris, 1893, p. 26.

V. BACON E A ESCOLÁSTICA. — Tal como foi enviado a Clément IV, l'Opus majus se termina por um epílogo no qual, pondo a nu as defeituosidades do ensino teológico em 1267, Bacon assinalava ao santo e douto pontífice bem graves abusos relativos aos programas de estudo e aos métodos, tam in substantia studii quam in modo studendi. English hist. rev., loc. cit., p. 509.

Falta de edição completa da obra, esse epílogo, que seria muito útil para a história da escolástica, permaneceu inédito. As páginas correspondentes, talvez ainda mais fortes, do Opus tertium, tiveram um destino idêntico. Cf. Op. tert., p. 87, 88, 265, 304, 309. Embora não sejam que um simples resumo do Opus majus, os fragmentos publicados do Opus minus permitem felizmente suprir um pouco essas lacunas lamentáveis. Nós faremos a análise sucinta, mas fiel. Ver-se-á dessa sorte se os escritos de Bacon são uma mina rica para quem quer julgar sadiamente o XIIIe siècle.

1° Os pecados da teologia no XIIIe siècle. — « Sete pecados capitais, diz Bacon, viciam os estudos de teologia. O primeiro consiste na predominância da filosofia sobre a teologia, de tal modo que a maior parte, major pars, das questões que os teólogos tratam, incluindo os argumentos e as soluções, não passam de questões puramente filosóficas. Em qualquer curso sobre as Sentenças, há uma multidão de discussões sobre os astros, a matéria, o ser, as espécies e as semelhanças das coisas, a gênese dos nossos conhecimentos, o aevum, o tempo, o lugar e o movimento dos espíritos, discussões que têm seu lugar plenamente definido na filosofia. Além disso, as questões essencialmente teológicas, tais como as questões sobre a Trindade, a encarnação, os sacramentos, não são tratadas de outra forma que as questões de pura filosofia: autoridades, argumentos, terminologia, tudo ou quase tudo é filosofia. Não cabe ao teólogo entregar-se assim ex professo a dissertações filosóficas; seu dever é resumi-las brevemente, breviter recitare, e servir-se delas como ponto de partida. É um contrassenso e uma desordem dar o papel principal, ex principali intentione, principali inquisitione, principaliter, à filosofia. Bacon não contradiz, como vemos, as suas ideias sobre a aliança da filosofia e da teologia; ele quer apenas que em teologia se fale teologia e não filosofia. Em verdade, ele atinge o coração do método escolástico.

«O segundo pecado consiste na ignorância das ciências mais nobres e mais úteis ao teólogo. Em vez da linguística, das matemáticas, da química, da física, da experimentação e da moral, das quais decorrem todos os bens do corpo, da alma e da fortuna, os teólogos cultivam quatro ciências de mínima importância, scientiae viles: a gramática latina, a lógica, um pouco de filosofia natural, e uma parte da metafísica. Que loucura perder o seu tempo em matérias tão pouco úteis, inumeris scientiis vanissimis, e negligenciar aquelas que oferecem tantas vantagens!» Este pecado explica o precedente. A teologia bem compreendida exige o concurso de uma multidão de outros conhecimentos científicos. Os doutores do século XIII, não os possuindo, não suspeitando da sua utilidade, tratando-os mesmo com desprezo, tinham toda a latitude para dar livre curso aos exercícios do espírito, que nunca está em falta para raciocinar. É assim que eles são, em geral, mais filósofos que teólogos. Se dizemos que desprezavam as ciências, não fazemos senão reproduzir o pensamento de Bacon. «Todos os modernos, escreve ele, salvo um pequeno número, não têm senão desdém pelas ciências em questão; voluntariamente dizem mal delas; os teólogos da nova escola, sobretudo, não cessam de falar contra.» Comp. stud. phil., c. VI, p. 433. Vê-se se a desconsideração da escolástica perante a ciência vem de longe.

«O terceiro pecado consiste na impossibilidade em que estão os teólogos de bem saber as quatro ciências em honra entre eles. Não compreendendo em seu texto original o livro que estudam ou comentam, aceitam forçosamente uma quantidade de coisas falsas ou fúteis, tomam o duvidoso pelo certo, o obscuro pelo claro, o supérfluo pelo necessário. Assim, acabam por sobrecarregar a teologia de ideias filosóficas errôneas ou defeituosas.» E para acrescentar ao picante desta argumentação, Bacon entra em detalhes interessantes que nos fazem captar ao vivo o que era o século XIII. Ele se apodera de dois personagens célebres entre todos, faz a história do seu passado, pesa os seus méritos ao peso de uma crítica impiedosa e não detém a sua pena senão após ter bem indicado a medida de ciência que se deve reconhecer neles. Raramente se viram retratos tão vigorosamente burilados. Voltaremos a isso daqui a pouco.

«O quarto pecado consiste na preferência concedida ao livro das Sentenças sobre o texto da Bíblia. Os teólogos colocam nele toda a sua glória.

Mal o leram, já se julgam mestres em teologia, embora ainda não compreendam a trigésima parte do texto sagrado. Em Paris, o bacharel que lê a Bíblia deve ceder o passo ao leitor das Sentenças. Por toda a parte e em tudo este tem as honras e os favores. Ele escolhe o seu horário de lições, tem o seu socius, o seu quarto. Quanto ao leitor da Bíblia, não goza de nenhum privilégio; à mercê do leitor das Sentenças, mendiga o seu horário de classe. É, pois, evidente que a Bíblia, texto da faculdade de teologia, cedeu ao livro das Sentenças o lugar que lhe concediam os estatutos, a simples razão e os antigos usos. Se se quer a todo o custo o tratado de um mestre para texto, por que não se tomaria o livro das histórias já feito ou a refazer, factus vel de novo fiendus, o qual se adapta bem melhor ao texto sagrado?»

Ainda pouco lidas sob Alexandre de Hales, as Sentenças de Pedro Lombardo tomaram de tal modo o primeiro lugar que centralizaram rapidamente o ensino teológico. Este infortúnio «trouxe fatalmente, continua Bacon, o abandono dos estudos bíblicos. Pois as questões que surgem da Bíblia são rejeitadas agora no livro das Sentenças, de onde ninguém ousa mais, a menos que seja um grande clérigo, separá-las». Assim, pouco a pouco, a ciência da Bíblia baixava à medida que o prestígio das Sentenças aumentava. No século XV, Gerson, na sua carta sobre a reforma da teologia, deplorará que a Bíblia seja completamente ignorada. Bacon protestava com alguma razão contra a situação feita ao texto sagrado e contra a autoridade concedida por outro lado a um livro humano. Havia lugar para pedir ao Papa que pusesse um termo a esta anomalia.

O quinto pecado concerne à corrupção do texto bíblico. Não se trata mais do ensino do texto sagrado ou do maior ou menor favor com que o cercam; trata-se do texto em si mesmo e do estado em que se encontra. É este o pecado grave que examinamos mais acima. Acrescentemos apenas que esta corrupção da Vulgata e as tentativas de correção criticadas por Bacon colocam em plena evidência algumas lacunas e alguns defeitos da escolástica.

O sexto pecado, que é muito mais grave, concerne à exegese sagrada. «Na pesquisa do sentido literal, diz Bacon, cometem-se erros incalculáveis, que provêm não somente da corrupção do texto, mas ainda da ignorância do grego e do hebraico. Dez grandes cadernos não seriam suficientes para relatar as faltas que são o seu resultado, decem terni magni non continerent exempla errorum in sensu litterali.» Nós já o dissemos, ele fazia servir todas as ciências à descoberta do sentido literal. Não é senão após tê-lo encontrado que ele permite pesquisar o sentido espiritual. Encontrar-se-ão exemplos de sentido espiritual espalhados aqui e ali em Opus majus, part. IV, p. 214, 219; part. IIa VIe, dist. III, c. 11. Cf. Op. min., p. 389.

O sétimo pecado diz respeito à pregação da palavra divina. Bacon diz dos oradores de seu tempo: « Le commun des théologiens, ignorant les régles de l’élo- quence, recourt aux divisions de Porphyre, emploie des consonances de termes ineptes; ainsi leurs discours, dénués de toute fleur de rhétorique et de toute force de persuasion, ne sont qu’un pur yerbiage, sola vanitas verbosa. » Op. tert., c. LXXV, p. 304. « Comme les prélats sont trop souvent peu instruits en théologie et mal pré- parés a prendre la parole, ils empruntent aux jeunes cleres leurs manuscrits pleins de divisions et de subdi- visions; de la sorte Ja parole de Dieu tombe dans un souverain mépris, est vilificatio sermonum Dei. » Ibid., p. 309; Op. min., p. 328. Pode-se concluir daí que a eloquência era negligenciada na Idade Média.

As personalidades da escolástica. — Se o ensino eclesiástico merecia tantas reprovações, que se deve pensar dos mestres, dos manuais e dos alunos? Bacon não os poupa na ocasião, embora saiba também elogiar o mérito onde ele existe. Como regra geral, ele trata rudemente o vulgus philosophorum et theologorum, que nos apresenta sob cores desfavoráveis. Hugution, Papias, Guilherme o Bretão, os três lexicógrafos em voga, não fazem figura melhor tampouco: seria difícil queixar-se deles e acusar Bacon, após ter lido os numerosos exemplos de erros nos quais caíram. Cf. S. Berger, La Bible au xvie siécle, Paris, 1879, p. 10-22.

O mestre das histórias, Pedro Comestor, cf. C. Trochon, Essai sur Vhistoire de la Bible dans la France chrétienne au nioyen age, Paris, 1878, p. 54-65, e os tradutores de Aristóteles são frequentemente maltratados, mas sempre com provas em apoio. Cf. Renan, Averrocs et Vaverroisme, Paris, 1852, p. 166-170.

Há dois doutores contra os quais Bacon se levanta mais particularmente, Alexandre de Hales e Alberto Magno; Alexandre estava morto há vinte e dois anos; Alberto ainda estava vivo, Bacon escreve contra eles um libelo violento, que não cessam de lhe reprovar. Op. min., p. 325-328; Op. tert., c. Ix, p. 30, 31, 33, 37, 38, 42. Cf. V. Cousin, op. cit., p. 186; P. Mandonnet, Siger de Brabant, p. LVII-Lx.

Bacon, aliás, explica-se com franqueza e sem rodeios: « Dieu m’est témoin que j’ai tant insisté sur Vignorance de ces deux hommes uniquement pour éclairer les esprits. Le public croit qu’ils ont tout connu. Il les suit comme des oracles. Quand je dis qu‘ls n’ont pas connu les sciences, je ne Jeur fais aucun tort, puisque je ne dis que la vérité. Ils ont du mérite, mais pas autant qu’on le croit. Le dernier principalement, malgré les erreurs dont ses ¢crits sont pleins, ejus scripta plena sunt falsitatibus, a une autorité dont jamais homme sur terre n’a joui. C’est bien a contre- cceur que j’en parle; mais ce n’est pas sans motif grave: nul parmi les latins n’a eu une influence aussi néfaste, studium philosophiex per ipsum est corruptum plus quam per onines qui fuerunt unquam inter latinos; c’est une raison de l’attaquer plus fortement. Si j’excéde parfois dans la louange ou dans le blame, si j’emploie des termes étonnants, si verba excessive laudis vel vituperii..., verba aliquando grandia inserani, c’est que la vérité le demande. Ce n’est point par présomption ou irrévérence que je parle ainsi, non ex presumplione nec insolentia sic loguor, mais uniquement pour acquit de conscience. Désireux de plaire a Dieu et a son vicaire j’y apporte un soin scrupuleux, ex certa conscientia et scienter hic invigilo. Et puisque Votre Sainteté m’a commandé de lui envoyer des écrits doctrinaux, je n'ai pas voulu lui taire le véritable état des choses.

« Je serais un sot et le pire des sots, stultus quidem essenr ininio stultissimus, si je lui proposais l’erreur en quoi que ce soit. Dieu et ma conscience sont témoins que je n’écris que ce que je crois étre l’absolue vérité. » English hist. rev., loc. cit.,p. 503,504; Op. min. ; Op. tert., loc ett.

Esse julgamento severo encontra confirmação sobre um ponto particular. Falando da Suma teológica do doutor irrefragável, Bacon escreve, Op. min., p. 326, que ela não é somente dele, mas bem de uma coletividade: ascrip- serunt ei magnam Sumnam illanr... quan ipse non fecit, sed alii; et tamen propter reverentian ad- scripta fuit; et vocatur Summa fratris Alexandri; et si ipse festisset vel magnam partem, etc. Essa informação é falha? Cf. Prosper de Martigné, op. cit., p. 48. Ver t. 1, col. 778.

As pesquisas da crítica são cada vez mais favoráveis a Bacon. Se se hesita em afirmar que a questão XC da II parte da Suma é tomada de São Boaventura, In IV Sent., 1. II, disp. XXIII, a. 2, q. t-111, está provado que as questões XXX, XXXI, da IV parte são emprestadas palavra por palavra ao doutor seráfico. Quest. disput. de per- fectione evangelica, q. Ul, a. 1, 2. O P. Ehrle encontrou manuscritos do século XII que permitem atribuir a João da Rochelle, a Guilherme de Meliton e a Eudes Rigaut certas outras questões. Cf. Opera omnia S. Bonaventure, prolegomena, c. I, § 3, t. I, p. LVI-LXII; t. MW, p. 864; prolegomena, § 3, t. Ill, p. Iv-v; prolegonrena, c. i, § 4, t. V, Pp. XII-XIV.

Em resumo, as ciências glorificadas por Bacon triunfaram. Várias reformas propostas por ele foram realizadas. A escolástica morreu dos próprios abusos que a viciavam já no seu apogeu. O tempo justificou o conjunto da obra daquele que Humboldt chamou de o maior gênio da Idade Média. As monografias ou estudos concernentes a Bacon são numerosos, talvez numerosos demais. Em muitos, o « doutor admirável » é, com efeito, mal conhecido, frequentemente desconhecido. Por esse motivo, sua leitura exige as maiores precauções.

Pode-se consultar especialmente: 1° sobre sua vida e suas obras: Wadding, Annales minorum, a. 1266, n. 14; 1278, n. 26; 1284, n. 12; Seriptores ord. min., Rome, 1650, p. 309; Oudin, De script. eccles., Leipzig, 1722, t. m1, p. 190-493; S. Jebb, préface de Opus majus, Londres, 1733, Venise, 1750; Sbaralea, Swp- phique, art. R. Bacon; Daunou et V. Leclerc, Hist. litt. de la France, Paris, 1842, t. Xx, p. 227-252; V. Cousin, dans Journal des savants, mars-juin, aovt1848, et décembre 1859 ; J. S. Brewer, R. Bacon opera quedam, etc., Londres, 1859, p. IX-LXXXIV; Wood, Antiquitates univ. oxon., dans J. S. Brewer, op. cit., p. Lxxxy-c; E. Charles, R. Bacon, sa vie, ses owvrages, ses doctrines, Paris, 1861; H. Siebert, Roger Bacon (thése de doctorat),*Marbourg, 1861; L. Schneider, R. Bacon O. M., eine Monographie als Beitrag zur Geschichte der Philosophie des 13 Jahrh. aus den Quellen, Augsbourg, 1873; Kirchenlexikon, art. R. Bacon; Ch. Jourdain, Discussion de quelques points de la bibliographie de R. Bacon, Paris, 1874; A. Sturkahn, Das Opus majus des Franziskanerménchs R. Bacons, dans Kirchl. Monatschrift, 1883, p. 267-287; Realencylopddie fir protest. Theologie und Kirche, 3° édit., Leipzig, 1896, art. Bacon; J. H. Bridges, The « Opus majus », Londres, 1897-1900, t. 1, p. XXI-XXXVI;

2° SOBRE SUA AÇÃO CIENTÍFICA: V. Cousin, Cours d'histoire de la philosophie, 2ª série, 1ª lição; E. Charles, op. cit.; E. Saisset, Précurseurs et disciples de Descartes, Paris, 1862; Schneider, op. cit.; Werner, Die Psychologie, Erkenntnislehre und Wissenchaftslehre des R. Bacon; Die Kosmologie und allgemeine Naturlehre des R. Bacon, em Abhandlungen der Wiener Akademie, 1879; C. Narbey, em Revue des questions historiques, t. XXXV, p. 115-166; Léon de Kerval, em Revue franciscaine, junho-novembro 1885; C. Pohl, Das Verhältniss der Philosophie zur Theologie bei R. Bacon, Neustrelitz, 1893; A. Parrot, R. Bacon, sa personne, son génie, ses œuvres, etc., Paris, 1894; P. Féret, La faculté de théologie de Paris et ses docteurs les plus célèbres, Paris, 1895, t. II, p. 329-369; S. A. Hirsch, Early english hebraists : R. Bacon and his predecessors, na Jewish quarterly review, outubro 1899; J. H. Bridges, op. cit., p. XXXVI-XCII; De Wulf, Histoire de la philosophie médiévale, Louvain, 1900, p. 330-336, que estuda sua vida e suas doutrinas filosóficas, mas com pouca exatidão; J. I. Valenti, na Science catholique, fevereiro 1902;

3° SOBRE SEUS TRABALHOS BÍBLICOS: Humphred Hody, De Bibliorum textibus originalibus, Oxford, 1705; Vercellone, Etude sur la Vulgate, em Analecta juris pontificii, maio e junho 1858; H. de Valroger, Introduction aux livres du N. T., Paris, 1861, t. I, p. 501 sq.; C. Trochon, Essai sur l'histoire de la Bible dans la France chrétienne au moyen âge, Paris, 1878, p. 66-76; P. Martin, La Vulgate latine au XIIIe siècle d'après R. Bacon, Paris, 1888; Le texte parisien et la Vulgate latine, em le Muséon, 1889, t. VIII, p. 444-466; 1898, t. IX, p. 304-316; S. Berger, Des essais qui ont été faits à Paris au XIIIe siècle pour corriger la Vulgate latine, em la Revue de théologie et de philosophie, Lausanne, 1883, e tiragem à parte; De l'histoire de la Vulgate en France, Paris, 1887; Quam notitiam lingue hebraice habuerunt christiani medii ævi, Paris, 1898; J. Soury, em Bibliothèque de l'école des chartes, 1893, p. 733; H. Denifle, em Archiv für Litteratur, etc., t. IV, p. 263 sq.; Cf. U. Chevalier, Répertoire des sources hist. du moyen âge, Bio-bibliographie, col. 208, 2437-2438,

Autor original: G. Delorme

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