BACHKINE, Mathieu Séménov, célebre herege russo do século XVI. A data do seu nascimento é desconhecida. Kostomarov suspeita de uma origem tártara. A sua juventude está envolta em mistério. Sabe-se apenas que enriqueceu no comércio e que se apaixonou pelo estudo das questões religiosas.
Sob a influência dos seus mestres, o boticário Mathieu da Lituânia e André Khotiéev, ambos imbuídos dos ensinamentos heréticos dos judaizantes (érés jidovstvouiouchtchikh), começou a formular teorias novas sobre os dogmas e a disciplina da Igreja Ortodoxa Russa. Estas teorias eram uma mistura de racionalismo luterano e de judaísmo reavivado. As influências luteranas, com efeito, já se faziam sentir em Moscou, onde Ivan, o Terrível (1533-1584), havia permitido aos discípulos de Lutero levantar dois templos. Dobroklonski, Manuel d’histoire de l’Eglise russe, 2ª ed., Riazan, 1889, t. 1, p. 285.
Mathieu Bachkine fez exibição das suas novidades doutrinárias a um padre da igreja da Anunciação em Moscou (1553). Este padre, chamado Simeão, recebeu o herege em confissão e, para seu grande espanto, ouviu-o pedir a explicação de muitos textos da Escritura Sagrada. Simeão encontrou-se muito embaraçado nas suas respostas. O próprio Bachkine colocou-o no bom caminho e enunciou-lhe teorias que, em muitos pontos, eram contrárias ao catecismo ortodoxo. Simeão ficou surpreendido. Contudo, deixou-o explicar-se à vontade e teve com ele várias conversas.
Acabou por se persuadir de que as opiniões emitidas pelo seu penitente eram estranhas e, muito pouco zeloso do segredo da confissão, prestou contas ao protopresbítero Silvestre, que gozava do favor do tsar. Silvestre não tardou a saber que a ortodoxia de Bachkine despertava suspeitas justificadas pelos fatos. Julgou-se, desde então, no dever de referir o caso a Ivan IV. Bachkine foi preso e submetido a um interrogatório. Expos por escrito o seu ensinamento e revelou os nomes dos seus discípulos e admiradores.
O tsar reuniu um sínodo no seu palácio (1553-1554) e nele convocou Bachkine e os seus aderentes, que eram acusados: 1° de não reconhecer a divindade de Jesus Cristo e a sua perfeita semelhança com o Pai; 2° de não admitir a presença real de Jesus sob as espécies eucarísticas; 3° de rejeitar a confissão, partindo deste princípio de que o penitente não é responsável pelas suas faltas, uma vez que continua a macular a sua alma pelo pecado, mesmo após a absolvição; 4° de renunciar às tradições dos Padres, ao culto dos santos e às decisões dos concílios; 5° de interpretar a seu bel-prazer, e sem levar em conta a tradição, os livros do Novo Testamento; 6° de qualificar as santas imagens com o epíteto deselegante de ídolos; 7° de negar a utilidade das igrejas de pedra e de madeira, sob o pretexto de que a verdadeira Igreja não é senão a assembleia espiritual dos fiéis; 8° de insurgir-se contra a legitimidade dos bens adquiridos pelos mosteiros; 9° de estigmatizar a ignorância e a avareza do clero do seu tempo, e de o desacreditar na presença dos fiéis; 10° de considerar a liturgia da Igreja Ortodoxa como um corpo sem alma, como um receituário de fórmulas puramente exteriores e, portanto, destituídas de qualquer influência sobre a vida sobrenatural.
Tomaram parte neste concílio: Macário, metropolita de Moscou, Nicanor, arcebispo de Rostov, e os bispos Atanásio de Suzdal, Cassiano de Riazan, Acácio de Tver, Teodoro de Colomna, Sabas de Sarski. O tsar, um grande número de boiardos e uma multidão de sacerdotes intervieram nos debates. Os aderentes de Bachkine, que tinham tudo a temer da crueldade de Ivan IV, tentaram negar tudo o que lhes era reprovado. Uns sustentaram que nunca tinham renunciado ao culto das santas imagens. Estes foram colocados em liberdade, após terem prestado juramento de não renovar a heresia dos iconoclastas. Outros afirmaram audazmente que os pontos de acusação contra eles eram absolutamente falsos. O bispo de Riazan tomou a defesa dos acusados, mas chocou-se com a má vontade dos membros do sínodo, que não souberam perdoar a Bachkine as suas justas críticas sobre o estado deplorável do clero russo.
Bachkine e alguns dos seus aderentes foram enviados ao exílio. Enclausurado num mosteiro (Volokolamsky), Bachkine morreu em 22 de dezembro de 1554. Dele data a infiltração do protestantismo na teologia russa. Marca, portanto, uma etapa importante no desenvolvimento do pensamento teológico russo, e surpreende-nos que a recente Encyclopédie orthodoxe de M. Lopoukhine não tenha consagrado ao famoso herege uma curta nota.
Dobroklonski, op. cit., t. I, p. 270-274; Znamenski, Manuel d’histoire de l’Eglise russe, São Petersburgo, 1896, p. 183-184; Macário, Histoire de l’Eglise russe (période de la division des deux métropoles), São Petersburgo, 1870, t. VI, p. 248-253; Philareto, Geschichte der Kirche Russlands, trad. Blumenthal, Frankfurt, 1872, p. 296-298; Soloviev, Histoire de la Russie, t. VII, col. 124-131; Les conciles tenus a Moscou contre les hérétiques du XVIe siécle, Moscou, 1847, publicado primeiro nas Lectures (Tehténia) da sociedade de história de Moscou, 1847, t. II; Emélianov, Sur l’origine de l’enseignement de Bachkine et de Kosoi en Russie, Travaux (Troudy) da Academia eclesiástica de Kiev, 1862, n. 5, p. 31-78; Notices sur les conciles tenus dans l’Eglise russe depuis le Xe jusqu’au XVIe siécle, Lecture chrétienne (Khristianskoe Tchténie), 1852, t. I, p. 301-353; t. I, p. 529-570; Golokhwastov et Léonidas, Sylvestre, prétre de l’église de l’Annonciation a Moscou, et sur l’hérésie de Bachkine, Lectures de la Société d’histoire et d’antiquité russe, 1874, n. 1; Kostomarov, Histoire de la Russie, ou biographies de ses principaux auteurs, São Petersburgo, 1874, t. II; Id., Rapport sur les esprits forts (volnodoumtzy) de la Grande Russie au XVIe siécle, Recueil de monographies historiques, São Petersburgo, 1863, t. I; Andréiev, Le raskol et son importance dans l’histoire du peuple russe, São Petersburgo, 1870, p. 21-22; A. Palmieri, L’ancienne et la nouvelle théologie russe, Paris, 1901, p. 15-16.
Autor original: A. Palmieri
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