AURÉOLE. — I. Nature. II. Espèces. A. Beugnet. III. Rejaillit-elle sur le corps?
— I. Nature. O adjetivo latino *aureus* e o seu diminutivo *aureola*, que, na Vulgata, eram unidos a *corona*, Exod., xxv, 25; Apoc., xiv, 14, foram tomados substantivamente e designaram na terminologia escolástica duas espécies essenciais de recompensas concedidas a todos os eleitos santos: a *aurea*, coroando a beatitude no céu; a *aureola*, uma recompensa acidental, outorgada especialmente a três categorias de bem-aventurados. Esta distinção repousa sobre a menção, contida na Escritura, de pequenas coroas de ouro sobrepostas a uma coroa maior e principal. Encontra-se nomeadamente na descrição dada por Deus a Moisés, da mesa dos pães da proposição: «Tu farás também uma mesa de madeira de setim... cercá-la-ás com uma bordadura de ouro; sobre esta bordadura aplicarás uma coroa esculpida em aberto, alta de quatro dedos, acima da qual colocarás outra pequena coroa de ouro», Exod., xxv, 23-25. O mesmo ocorre para o altar dos perfumes, Exod., xxx, 3; cf. xxxvii, 27: *coronam aureolam per gyrum*.
O Venerável Beda, no século VIII, é um dos primeiros que, ao comentar estas passagens do Êxodo, deu-lhes uma interpretação anagógica e as aplicou aos eleitos no céu. A coroa de ouro vazada indica, segundo ele, a recompensa comum merecida por todos aqueles que observaram os mandamentos de Deus; a pequena coroa de ouro superposta à primeira, nos Evangelhos, «a outra coroa», deve entender-se como a recompensa mais perfeita, devida à escolha das virtudes ordinárias impostas pelo preceito, cf. S. Beda, *In Exod.*, c. xxv, P. L., t. XCI, col. 336. Na esteira de Beda e à medida que a ciência teológica, ao aperfeiçoar-se, se desenvolveu, designou-se pela palavra *aureola*, ou recompensa secundária, aquela que, além da beatitude comum a todos os santos, os habitantes da pátria celeste recebem em retorno de alguma vitória alcançada sobre virtudes particularmente penosas ou que exigem esforços acima da natureza. Cf. Du Cange, *Glossarium latinitatis*, ed. Paris, 1845, t. I, col. 862.
São Tomás de Aquino, que cita o venerável Beda e a Glosa (ela reproduz o texto P. L., t. CXIII, col. 268), deu da auréola esta definição, que se tornou clássica: *Auréola est præmium privilegiatæ victoriæ respondens*. *In IV Sent.*, dist. XLIX, q. v, a. 1. Ele diz, anteriormente: «*Beatitudo est dicitur ejus ratio, metaphorice præmium essentiale;... sed, quod essentiali nihil potest superaddi, quia esset minus, ideo superadditum præmium AUREOLA nominatur.*» *Ibid.*, a. 1.
É difícil determinar em que consiste esta recompensa acessória. Sobre este ponto, os teólogos estão longe de estar de acordo. Segundo um sentimento relatado por São Tomás, a auréola não seria senão a visão beatífica outorgada por tal ou qual motivo: seria chamada auréola dos mártires ou auréola das virgens, porque teria sido merecida pela vitória alcançada sobre os perseguidores ou sobre as paixões da carne. Mas, como observa justamente São Tomás, não haveria então nenhuma razão para distinguir a recompensa em principal e secundária, ou essencial e acidental; «*nec diceretur auréola aurea*». Além disso, o combate dos mártires contra os tiranos é de uma natureza bem diferente daquele das virgens contra a concupiscência: a recompensa, por conseguinte, deve diferir também.
Outros teólogos pensaram que uma sorte de sinal espiritual era impresso na alma, à maneira do caráter indelével produzido pelos sacramentos que não se reiteram, como o batismo, a confirmação e a ordem. Mas não se vê sobre que fundamento se apoiam para estabelecer a sua doutrina. Finalmente, outros pretenderam que a auréola era constituída simplesmente por um brilho extraordinário, ou uma beleza especial dos corpos ressuscitados. Mas isso é contrário aos textos da Escritura que show os santos na posse da sua recompensa antes da ressurreição final. Depois, segundo a generalidade dos teólogos, as maravilhosas prerrogativas dos corpos gloriosos não são senão um rebatimento sobre o corpo da beatitude da alma. Aliás, por que a alma seria excluída de uma recompensa que ela teria merecido pelo menos tanto quanto o corpo?
Após ter refutado estas opiniões, o doutor angélico expõe a sua. Sendo a beatitude essencial causada pela visão intuitiva de Deus, *aurea in gaudio quod habetur de Deo ut viso*; a auréola seria, segundo ele, a alegria resultante de uma vitória alcançada em circunstâncias memoráveis, *aureola in gaudio quod habetur de operata victoria, rationem victoriae nlis*. *Ibid.*, q. v, a. 2. Gonet, *Clypeus theologiae thomisticae, ejus impugnatores*, part. II, disp. V, a. 3, Paris, 1876, t. III, p. 510, reconhece a impossibilidade em que se encontra a inteligência humana de fixar em que consiste precisamente a auréola. Não é nem um brilho particular do corpo, nem um sinal espiritual impresso na alma e assemelhando-se ao caráter sacramental; não é tampouco a visão beatífica, nem a deleitação que ela produz. Não lhe resta, pois, senão uma suposição a emitir: a auréola é a alegria resultante de uma insigne vitória alcançada.
II. Espèces. — 1° Comumente, admitem-se três sortes de auréolas somente: a primeira para as virgens, a segunda para os mártires, e a terceira para os doutores. Se uma coroa especial é devida aos santos que alcançaram uma vitória excepcional, a auréola será concedida às virgens que venceram a sua carne num combate contínuo e que guardaram uma virgindade perpétua, sem que seja necessário que tenham feito o voto de nela perseverar. S. Tomás, *Sum. theol. suppl.*, q. XCVI, a. 5.
Relata-se geralmente à recompensa especial da sua vitória sobre a carne o que é dito delas no Apocalipse, xiv, 1-5. S. Jerônimo, *Epist.*, xxii, P. L., t. XXII, col. 424, 425; S. Agostinho, *De sancta virginit.*, xxvii, xxviii, xxix, P. L., t. XL, col. 410-412. A estas almas privilegiadas pertence cantar um cântico novo, que elas apenas podem cantar. Além disso, elas seguem o Cordeiro por onde quer que ele vá, e elas trazem, escrito sobre si mesmas, como um sinal de glória, o nome do Cordeiro e o de seu Pai. O bispo de Hipona reconhece aí nitidamente uma glória especial: *Nam sunt aliis alia, sed nullis talia*. *Ibid.*, col. 411. Os mártires, que também alcançaram uma vitória muito perfeita sobre os inimigos exteriores da sua salvação, têm direito a uma coroa especial.
A perfeição da sua vitória resulta da violência dos seus tormentos e da nobreza da causa pela qual sofreram e morreram. S. Tomás, *Sum. theol., suppl.*, q. XCVI, a. 6. A Escritura representa-os, segundo uma interpretação, segurando palmas na mão e revestidos de túnicas de uma brancura imaculada. Apoc., vii, 9, 13, 14. Mas este texto pode aplicar-se também a todos os eleitos, que chegaram ao céu passando através da tribulação e lavaram as suas vestes no sangue do Cordeiro. Cf. Suarez, Tract. de ultimo fine hominis, disp. XI, sect. iii, n. 2. Paris, 1856, t. IV, p. 132. São Cipriano ensinava já que os mártires recebiam uma recompensa proporcionada à grandeza e à duração dos seus sofrimentos e uma coroa de púrpura. De opere et eleemosynis, 26, P. L., t. IV, col. 622. Cf. Atzberger, Geschichte der christlichen Eschatologie innerhalb der vornicänischen Zeit, Fribourg-en-Brisgau, 1896, p. 528-529.
Os doutores, enfim, obtiveram uma vitória perfeita sobre o demônio quando, não contentes com resistir pessoalmente aos seus ataques, expulsaram-no pela pregação e pelo conselho da alma dos seus irmãos. Recebem, portanto, uma recompensa especial, uma auréola particular, S. Thomas, Sum. theol., suppl., q. xcvi, a. 7. Aplica-se-lhes a palavra do profeta Daniel: Qui ad justitiam erudiunt multos, quasi stellœ fulgebunt in perpétuas asternitates. Dan., xii, 3. Contudo, o Salvador disse de todos os justos que brilharão como o sol: Justi fulgebunt sicut sol in regno Patris eorum. Matth., xiii, 43. São Tomás ensina, além disso, que cada auréola, sendo a recompensa da prática heroica de virtudes especificamente distintas, deve distinguir-se especificamente seja da beatitude essencial, seja de qualquer outra auréola. Reconhece também a preeminência da auréola dos mártires sobre as das virgens e dos doutores, pois admite que, em cada espécie de auréola, a recompensa é proporcionada ao mérito. Sum. theol., suppl., q. xcvi, a. 12, 13.
2° Os teólogos perguntaram-se ainda se não existiam outras auréolas além das três anteriormente citadas. A auréola das virgens é a recompensa da virtude da temperança; a auréola dos mártires, a da virtude da fortaleza; e a auréola dos doutores parece o prêmio da virtude da prudência, que devem ter em um grau supremo para refutar os sofismas e os erros insidiosos do pai da mentira. Por que, então, não haveria uma quarta auréola para a outra virtude cardinal, a justiça? E por que não, desde logo, uma quinta auréola para a virtude da pobreza? Isso parece ser o pensamento do venerável Beda, De tabernaculo et vasis ejus, c. VI, P. L., t. xci, col. 409-410. A coroa de ouro, diz ele, ou beatitude essencial, sendo significada por estas palavras do Evangelho: Si vis ad vitam ingredi, serva mandata, Matth., xix, 17, a pequena coroa de ouro, ou auréola, é acrescentada pelas palavras seguintes do texto: Si vis perfectus esse, vade et vende omnia quœ habès et da pauperibus, et veni, sequere me. Matth., xix, 21. Suarez inclina-se ele também para este sentimento. Op. et loc. cit., n. 4.
Não sobressai isso, aliás, das promessas que o Salvador acrescenta a estes conselhos: «Em verdade, eu vos digo, no dia da ressurreição, quando o Filho do homem estiver sentado no trono da sua majestade, vós que deixastes tudo para me seguir, estareis sentados também sobre doze tronos para julgar as doze tribos de Israel!» Matth., xix, 28. O ensino da maioria dos Padres e dos teólogos é que estas promessas, feitas aos apóstolos, se dirigem a todos aqueles que, pelo voto de pobreza, renunciaram aos bens da terra para se prenderem aos passos de Jesus. Eles não serão julgados, mas julgarão os outros. Não é aí uma prerrogativa preciosa, um privilegiatum præmium? Mas, se existe uma quinta auréola para a pobreza, por que não uma multidão de outras para todas as sortes de virtudes que se podem ter de praticar em circunstâncias que lhes aumentam a dificuldade e, por conseguinte, também o mérito?
A estas objeções São Tomás responde que todas as vitórias insignes se reduzem a três espécies diferentes, como todos os combates que o homem deve travar no curso da sua peregrinação. Ele tem de lutar contra si mesmo, isto é, contra a carne, contra o mundo e contra o demônio. Ele é completamente vencedor das suas paixões e da carne pela perpétua virgindade; ele frustra totalmente as astúcias do inimigo de todo o bem, que, segundo uma palavra de São Bernardo, se serve da nossa carne para nos bater com as nossas próprias armas. O homem é completamente vencedor do mundo quando, como os mártires, sustenta o combate até à efusão do sangue e até à morte, pois a morte é o maior mal que o mundo pode infligir. Enfim, ele triunfa completamente do demônio, expulsando-o não apenas do seu coração, mas das almas dos seus irmãos, nas quais Satanás reina pelo pecado. Estas almas tinham-se tornado como que o covil das legiões infernais e o ninho do demônio, segundo uma enérgica expressão de São Bernardo. Pelas suas pregações ou pelos seus escritos, o doutor persegue o príncipe das trevas nos seus últimos redutos e força-o a fugir perante a resplandecente luz da verdade. Por todos estes motivos, não há senão três auréolas; ou, pelo menos, a estes três principais privilégios reduzem-se todas as outras recompensas merecidas pela prática das diversas virtudes.
Assim fala Suarez: Si objicias esse plures auréolas, respondetur, in uno sensu esse verum, scilicet, quatenus auréola significare potest quamcumque accidentalem perfectionem additam coronœ aureœ..., quia etiam apostolis et pauperibus voluntariis videtur promissus alius honor; habent ergo etiam aureolam... sunt ergo plures, et forte idem est de aliis sanctis habentibus speciales dignitates, ad quœ dicendum, ex S. Thoma, loc. cit., plures esse præmia tamen ad tria illa, ut ad sua capita, reduci. Et ideo singuli illi, sicut sancti Thomas, loc. cit., iii, 4, ait, sunt multae, sed redegit eas in tres partes, sicut in tres species. Mais numerosas, São Tomás [reconhece] as recompensas respondendo além disso aos três grupos dos atos da alma, supondo que se aplique o tudo às três potências que tendem para o bem: o apetite concupiscível, que tende para o bem desejável, e o apetite irascível, que tende para o bem difícil de alcançar.
Ora, o ato mais perfeito da razão é revelar a verdade às almas; o ato mais perfeito da potência irascível é suportar a morte por Cristo; o ato mais perfeito da potência concupiscível é abster-se absolutamente das volúpias mais veementes da carne: donde a tríplice auréola dos doutores, dos mártires e das virgens. São Tomás relata enfim como outros teólogos justificam esta classificação das auréolas ao assemelhar as três espécies às três maneiras pelas quais o divino Salvador, de quem é dado como mediador entre Deus e o mundo, foi homem. Nosso Senhor foi doutor, revelando a todos os povos do universo a verdade recebida de seu Pai; foi mártir, ao sofrer até a morte de cruz as perseguições às quais esteve exposto por parte dos ímpios; enfim, foi virgem, por sua pureza infinita. Assim, os doutores, os mártires e as virgens têm, cada um, o divino Salvador como modelo, com uma semelhança que os distingue especialmente nas moradas eternas. Sum. theol., suppl., q. xcvi, a. 11.
III. Ela resplandece também sobre o corpo? — Isso não parece duvidoso, embora a auréola, que é a alegria resultante de certas obras realizadas, esteja propriamente falando na alma. A bem-aventurança essencial proporcionada à alma pela visão intuitiva tem seu resplendor sobre o corpo glorioso que ela transfigura. Ela o dota assim das qualidades mais maravilhosas, tais como a impassibilidade, a clareza, a agilidade e a sutileza. 1 Cor., xv, 40-45. Da mesma forma, a felicidade de que desfruta a alma pela posse da auréola espalha-se no corpo ressuscitado e comunica-lhe um aumento de brilho e de beleza celestiais. Não poderia ser de outra forma, dada a união íntima da alma e do corpo, vista, sobretudo, a sujeição completa do corpo à alma beatificada. S. Thomas, Sum. theol., suppl., q. xcvi, a. 10; Bède, op. cit., P. L., t. xci, col. 410.
IV. Seguindo S. Tomás, o doutor angélico, em seu tratado sobre o céu, forneceu a nitidez das divisões. Ver este suplemento a S. Boaventura, In IV Sent., 1. IV, dist. XLIX, a. 2, q. 1, p. 926-928, 931, 933; dist. XXXIII, a. 2, q. 1, p. 290; Breviloquium, part. VII, c. vn, 1899, t. v, p. 755-758; Suarez, Tractatus de ultimo fine hominis, disp. XI, sect. iii. Paris, 1856, t. iv, p. 132 sq.; Gonet, Clypeus theologiœ thomistœ, part. II, disp. V, a. 3, Paris, 1876, t. iii, p. 510 sq.; Al. Bulano, Institutiones theologise specialis, 1856, t. ii, p. 559-562; Œuvres dogmatiques complètes de Mgr Barbier de Montault, 6 v. in-8. Paris, uma ligação e a diocese de Poitiers, considerações de detalhes 1890-1901, repertórios teológicos, junhos. Num tão pouco vasto repertório, lugar nem repertório: sobre, mas do ponto de vista da arte e do simbolismo.
Autor original: Th. Ortolan
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