III. ATO PURO. Em sua acepção mais geral, a palavra puro significa o estado de uma coisa que não está misturada. O ato e a potência dividindo o ser adequadamente, Comment. S. Thom. in Metaph., l. V, lect. IX, 3° édit. Parme, t. XX, p. 400, entender-se-á, em geral, por ato puro o ser que não está misturado de potência. Sob este aspecto, o ser pode encontrar-se em três estados: o primeiro exclui essencialmente toda potencialidade; os outros dois admitem a mistura de potencialidade e de ato, mas de duas maneiras: 1. a potencialidade não limita a perfeição da atualidade, mas apenas as condições e as propriedades consequentes à essência (este é o segundo estado); 2. a potencialidade entra a título de parte essencial (este é o terceiro estado). Estas três suposições são as únicas possíveis, não podendo a mistura de potência e de ato afetar diretamente senão o modo essencial ou os acidentes, que constituem a divisão do ser anterior à de potência e de ato. Se adicionarmos a concepção de um ser que seria potência, como o ato puro é puro ato (matéria-prima), teremos esgotado todas as combinações possíveis. S. Thomas, IV Sent., l. I, dist. XIX, q. II, a. 1 ; Resp. ad Joan. Vercell. de 108 art., q. XLVIII, Parme, 1864, t. VIII, p. 157.
Concretizando, encontramos o primeiro destes estados representado por Deus, ato puro, cuja natureza exclui toda mistura de potencialidade (ver I ATO E POTÊNCIA, col. 335): potência de existir, potência ao ser específico e até mesmo de operar, pois a onipotência divina é todo ato. Contra gent., l. II, c. VII. — O segundo estado é representado entre os filósofos antigos (Platão, Aristóteles, Avicena) pelas substâncias separadas, as puras inteligências, as almas dos céus, as separadas; na teologia católica, pelos anjos. A estes seres convém a denominação de puros espíritos, mas não a de ato puro. a) Eles são puros espíritos na medida em que sua essência, sendo intelectual, não admite composição de forma ou de matéria, de alma e de corpo, como a alma humana. Não têm, portanto, intrinsecamente, nenhuma tendência à corrupção, nem consequentemente à perda de outros seres pela decomposição de seus princípios essenciais. Avicebron sustentou o contrário: Ibn Gebirol, Fons vitae, édit. Baeumker, 1895, p. 212, 220, 265, 268, 279, 288. Ele foi refutado ex professo por São Tomás, De subst. separ., c. VI, VII, VIII, Parme, 1864, opusc. 14, p. 187. b) Eles não são atos puros por um duplo título: 1. Sua essência difere de sua existência: eles não são dados por si mesmos, embora sejam aptos a conservá-la indefinidamente após tê-la recebido, sendo incorruptíveis e puras formas. S. Thomas, De subst. sep., c. IX, XVII. 2. Eles são compostos de potência operativa e de operação. Sua intelecção não é sua substância, como em Deus. E, embora de fato eles tenham sempre a intelecção de sua substância, permanecem em potência vis-à-vis das outras realidades inteligíveis. S. Thomas, Sum. theol., Iª, q. L, a. 2, 5, in corp. et ad 3um ; q. LIV, a. 4 ; Contra gent., l. II, c. XCI, XCII, etc. ; opusc. De subst. separ. en entier. — O terceiro estado, o dos seres essencialmente compostos de matéria e de forma, não poderia ser o de puro espírito, e muito menos o de ato puro. Existe, contudo, duas espécies de atos bem diferentes quanto à relação da pureza. O primeiro, a alma do homem, embora seja essencialmente ordenada a uma matéria, não tem, nessa matéria, sua condição indispensável de existência e de operação. Ver Alma. É uma forma em si transcendente (χωρίστον) vis-à-vis da potência. Sua independência com relação à matéria forma, assim, o paralelo exato da dupla dependência do anjo (existência e operação) vis-à-vis do ato puro. A segunda sorte de atos, ao contrário, não apenas está unida essencialmente a uma matéria, mas encontra nessa matéria, à qual é imanente, a condição de sua existência: assim se comporta a alma dos animais em sua matéria viva.
Os três estados de pureza relativamente ao ato são requeridos no universo. São Tomás o prova: a) para Deus, ato puro, pelas provas que relatamos. Ver I ATO E POTÊNCIA, col. 335, 336. Cf. Sum. theol., Iª, q. II, a. 2 ; q. IX, a. 1 ; Contra gent., l. I, c. XIII, § Adhuc quamvis ; § Item unumquodque agit ; c. XLII, § In rebus ; § Item tanto actus ; l. II, c. VI, § Adhuc ; b) para os anjos, consistindo em que, retornando os seres gradualmente ao seu primeiro princípio, um elo faltaria se as puras inteligências não existissem. Sum. theol., Iª, q. L, a. 1, in corp. et ad 1um ; Contra gent., l. II, c. XLVI ; opusc, De subst. sep., c. I, II, III, IV, XIX ; c) para a alma do homem, espírito transcendente e imortal, por um argumento geral extraído da imaterialidade do objeto de sua operação intelectual, o ser universal, Contra gent., l. II, c. XLV, e por um argumento especial extraído de que, sendo apta a conhecer as naturezas de todos os corpos, ela deve estar despojada de toda matéria, Sum. theol., Iª, q. LXXV, a. 2 ; De anima, l. III, lect. VIII ; a pureza de um ato é, com efeito, na razão direta do seu grau de conhecimento, e este, na razão inversa da sua materialidade, Sum. theol., Iª, q. XIV, a.
1; d) quanto aos graus das formas materiais, pela observação da maneira como, na natureza, as menos materiais dentre elas utilizam as mais materiais e as fazem servir aos seus fins, transpondo assim para a sua ordem o princípio de Anaxágoras: ἀμιγῆ ἵνα κρατῇ. Contra gent., l. II, c. LXII, § In actibus autem.
Autor original: A. Gardeil
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