II. ÁSIA (Missões católicas da). — I. Missões nestorianas. II. Missões da Idade Média. III. Missões do século XVI ao século XIX. IV. Missões até o século XIX.
Até a invasão muçulmana, a Ásia anterior não era um país de missão, mas uma terra cristã, onde os bispados e os conventos se multiplicavam no meio de uma população cheia de piedade. Sem dúvida, a fé não deixou de sofrer com as discussões teológicas e os ciúmes étnicos: arianos, nestorianos, monofisitas, monotelitas quebraram em numerosas ocasiões o feixe da união, definitivamente em perigo no império de Constantinopla, diante dos turcos, embora este encorajasse, antes de sucumbir, em seu clero um espírito particularista de onde deveria sair o cisma do Oriente; mas não é menos certo que, desde as pregações apostólicas, o cristianismo tinha se implantado vigorosamente desde o mar Negro até às cataratas do Nilo, e a pacificação religiosa, no tempo de Constantino, não fizera mais do que consagrar um estado de coisas que, existindo de fato, não esperava mais do que a sanção das leis.
Houve, todavia, missões durante este período, mas foram obra dos nestorianos da Mesopotâmia, que, separados do império do Oriente pelas lutas políticas dos imperadores de Constantinopla e dos reis da Pérsia, buscavam no leste a expansão de que precisava a sua igreja jovem e empreendedora. No século V, eles tinham fundado bispados nas duas margens do golfo Pérsico; no século VI, a ilha de Socotora, na desembocadura do mar Vermelho, era povoada de cristãos convertidos por padres vindos da Pérsia. Muitos árabes, nesta época, eram nestorianos, e é junto de um monge desta crença que Maomé adquiriu a maior parte dos conhecimentos religiosos que utilizou para constituir o corpo das doutrinas que se tornou o islamismo.
Os viajantes que, na Idade Média, percorreram o Oriente, visitaram ali florescentes cristandades nestorianas em países onde hoje não há mais traço de cristianismo. Marco Polo, no século XIII, Barbaro, no século XIV, encontraram-nas nas costas da Arábia; São Francisco Xavier, quando parou na ilha de Socotora, em 1542, encontrou ali uma população cristã suficientemente importante para que ele pudesse escolher 400 jovens que o seguiram para as Índias. A ruína do império um momento erguido pelos portugueses entregou estas regiões ao fanatismo dos maometanos e, ao fim de um século, o cristianismo tinha desaparecido completamente de Socotora e de todo o litoral do Oceano Índico.
Na China, os jesuítas descobriram, em 1625, em Si-Ngan-Fou, no Chan-Si, uma inscrição relativa à fundação, em 636, de uma igreja cristã; (cf. P. Havret, Mélanges sinologiques, fasc. II, La stèle chrétienne de Si-Ngan-Fou, Shanghaï, 1895); possui-se ainda alguns outros documentos que balizam a história religiosa desses países distantes onde o cristianismo nestoriano foi proscrito da China: 845, edito do imperador Wou-Soung; 885, carta do metropolita ao católico; 987, carta do monge Maris; no século XI, o católico envia missionários à China; 1064, envio de um bispo à China pelo católico Sabarjesus III. Em 1278, Marco Polo, dirigindo-se à China, visitou cristandades nestorianas; João de Montecorvino, em 1294, encontra em Pequim uma igreja cristã, mas a decadência estava já bem avançada e o cristianismo oriental tinha quase perecido quando chegaram os primeiros missionários enviados pelo soberano pontífice.
Existiam traços do cristianismo na Tartária; missionários tinham evangelizado o país que se estende do mar Cáspio e do mar de Aral até à vizinhança dos Pamires; os grandes viajantes da Idade Média assinalavam a presença de padres cristãos nestas regiões.
Nas Índias, Marco Polo encontrou cristandades florescentes; é ao apóstolo São Tomé que se fazia remontar a sua origem; os portugueses, ao chegar no século XVI, ligaram ao catolicismo 200.000 cristãos do Malabar que dependiam até então do patriarca nestoriano; e a descoberta em Méliapour do túmulo do apóstolo das Índias contribuiu para o retorno desses dissidentes, dos quais uma parte apenas perseverou; os outros retornaram aos seus erros e chegaram até a agravá-los, pois, à heresia nestoriana que professavam, adicionaram a dos monofisitas, ensinando ao mesmo tempo, com os nestorianos, que Cristo é composto de duas pessoas, e, com os jacobitas, que essas duas pessoas não possuem senão uma natureza, a natureza divina, com exclusão da natureza humana; tais contradições não se explicariam se não se conhecesse a profunda ignorância dos dogmas fundamentais na qual vivem os orientais das igrejas separadas; que uma doutrina seja condenada pelos católicos, isso lhes basta para fazê-los abraçá-la e defendê-la com uma obstinação da qual nenhum raciocínio pode dar cabo. Sobre os cristãos de São Tomé, ver Oriens christianus, t. II; d’Avril, Chaldée chrétienne, Paris, 1892; Recueil de voyages et mémoires, publicados pela Société de géographie, t. IV; Launay, Histoire du christianisme dans les Indes. O R. P. Girard, S. J., combate as ideias do Sr. Barão d'Avril, na Terre-Sainte, 1º de julho de 1901.
II. Missões na Idade Média.
As missões nestorianas estavam bem perto de desaparecer quando a solicitude dos soberanos pontífices e dos príncipes cristãos começou a voltar-se para os países do Oriente; o período das cruzadas terminava e informações tinham sido colhidas durante os períodos pacíficos que separavam os períodos de luta com os muçulmanos; tinha-se chegado a saber que, além das montanhas de Sule, além do Eufrates, começavam regiões imensas habitadas pelos súditos do grande Khan, e que além se chegava ao misterioso país da seda cujos produtos, trazidos por mar ou por caravanas, vendiam-se nos mercados de Alepo, de Damasco e do Grande Cairo.
Todos esses dados eram bem vagos, mas bastavam para inspirar a almas ardentes o desejo de ir evangelizar povos apenas conhecidos. Os dominicanos e os franciscanos, fundados havia pouco, forneciam em abundância homens decididos, aventureiros e prontos a todos os sacrifícios, mesmo ao de sua vida. Vemos, pois, na segunda metade do século XIII, missões de exploração confiadas por Inocêncio IV, o B. Gregório X, Honório IV e São Luís ao dominicano André de Longjumeau, aos franciscanos Lourenço de Portugal, João de Plano Carpini, Guilherme de Rubruck (de Rubruquis) e João de Cremona. Eles chegaram junto ao grande Khan Kublai, entregaram-lhe suas cartas de credenciamento e trouxeram testemunhos, pouco precisos aliás, da benevolência do príncipe mongol.
No século XIV, João de Montecorvino, franciscano, enviado pelo papa Bento XI, chegou em 1307 a Khan-Balikh, capital da China; ali foi instituído bispo por Clemente V com 7 sufragâneos, e ocupou esta sé até sua morte. Jordão Catalani, dominicano, foi feito arcebispo de Sultanieh, na Tartária, por João XXII, em 1318. em 1921 e 1928, destruído na Índia; no primeiro, teve como companheiros três franciscanos que foram martirizados, perto da ilha de Bombaim, pelos maometanos; no segundo, visitou o Malabar e chegou a Khan-Balikh, na China, pouco depois da morte de João de Montecorvino. Odorico de Pordenone, franciscano, partido em 1323, visitou Ceilão, Java, Bornéu, Khan-Balikh e, em 1331, pelo Tibete e pela Pérsia, tendo batizado 20.000 infiéis.
Apesar das dificuldades das comunicações, grupos numerosos de missionários encaminhavam-se através da Ásia para chegar ao Mar Amarelo; muitos sucumbiam às fadigas, vítimas de sua inexperiência e de seu admirável desprezo pela vida; mas um primeiro núcleo de cristandades havia se formado no fim do século XIV quando as invasões mongóis conduzidas por Timour-Lenk (ou Tamerlão) aniquilaram o fruto de cento e cinquenta anos de trabalhos: o conquistador não avançou para o Ocidente senão depois de ter destruído tudo em sua passagem; quando chegou às portas de Constantinopla, vencedor do sultão Bajazet, não deixava atrás de si um único vestígio das cristandades da Ásia Central.
— III. Missões do século XVI ao século XIX. A rota do Extremo Oriente, fechada pela invasão mongol, não deveria se reabrir; os otomanos, um momento esmagados por Timour-lenk, não tardaram a se reerguer e, multiplicando seus assaltos contra os destroços do império grego, acabaram por triunfar. Desde então, não se pôde mais pensar em chegar ao Catai, na Índia ou na Tartária pela Ásia Menor ou pela Síria. A própria Constantinopla que se torna dificilmente acessível, fora algumas cidades do litoral do Mar Negro ou do arquipélago, todo o império turco torna-se um país inacessível ao europeu.
A Igreja de Jerusalém subsiste como uma ilhota batida pelas ondas ou, melhor, como um bloco de gelo que os ventos do norte empurram para regiões temperadas e que, a cada dia, vai diminuindo de volume. Os franciscanos encarregados pelos papas da guarda dos Lugares Santos, defendem-se como podem, sofrem prisões e vexames, até mesmo a morte; mas sem desanimar, os religiosos, não obstante todas as sortes, os santuários venerados da comunidade católica de Jerusalém tornam-se pouco a pouco a presa dos cismáticos e a evangelização dos indígenas não faz progressos.
Quase ao mesmo tempo, os portugueses descobrem a rota marítima das Índias pelo Cabo da Boa Esperança e os missionários, marchando em seu seguimento, espalham-se novamente pelos países do Extremo Oriente; o frade Henrique de Coimbra, franciscano, acompanhou, em 1501, Álvares Cabral; Calecute, Cochim, Goa, Cranganor tornaram-se o centro de cristandades importantes; em 1521, as Filipinas receberam seus primeiros missionários e a propagação da fé parece dever se desenvolver por toda parte sem obstáculos.
Estes obstáculos vieram, contudo, do lado dos portugueses que, esquecidos do papel civilizador que a providência lhes havia confiado, deixaram-se arrastar para as armadilhas de sua cupidez, sua crueldade, suas devassidões tornaram-nos odiosos aos hindus e fizeram recair sobre o cristianismo uma parte de seu descrédito; suas ambições, seus ciúmes, seus ódios enfraqueceram seu poder e detiveram a conversão dos infiéis que eles escandalizavam por uma conduta indigna de verdadeiros cristãos. Não faltavam missionários que, relaxando de sua antiga atividade, deixavam perecer pouco a pouco a obra tão bem começada; era preciso infundir novo sangue neste corpo languido e é por isso que o rei de Portugal apelou ao zelo de novos operários.
A Companhia de Jesus acabava de ser fundada por Santo Inácio, que pôs à disposição do príncipe um de seus primeiros discípulos: Francisco Xavier embarcou, em 1541, para as Índias. É difícil compreender como em menos de dez anos um homem pode dar uma soma de trabalho comparável àquela que forneceu o santo jesuíta. Estabeleceu em Goa o colégio de São Paulo, onde os alunos não tardaram a chegar em multidão; além disso, percorrendo o litoral, estabeleceu solidamente a fé na costa do Malabar, na costa de Travancore, na costa da Pescaria e nos reinos cingaleses de Jafnapatam e de Kandy; em 1545, visita Malaca; em 1546, as Molucas; de 1549 a 1551, anuncia a boa-nova no Japão e vem finalmente a morrer na ilha de Sancian, no momento de penetrar na China; ele havia sido alcançado por um certo número de companheiros, dos quais um, o Pe. Antônio Criminal, foi o primeiro mártir da Companhia, em 1549.
A influência do santo fez-se sentir por toda parte onde passou e até inumeráveis infiéis pediram o batismo; um grande número de europeus, tocados por suas exortações, conformaram sua conduta aos deveres que lhes impunha seu caráter de cristãos e viveram, não como conquistadores, mas como civilizadores. Os progressos alcançados nessa época pelos missionários dominicanos e franciscanos mostram que o tempo de interrupção que se havia produzido antes da chegada de São Francisco Xavier não havia sido de longa duração.
A Santa Sé julgou, portanto, que chegara o momento de instituir uma jurisdição regular nos países da Índia que dependiam, até então, do bispo do Funchal. Em 1534, havia sido criado o bispado de Goa, cujo primeiro titular foi um franciscano, João de Albuquerque. Em 1557, duas novas dioceses foram estabelecidas em Cochim e em Malaca. Goa, com o título de igreja metropolitana e primacial, estendia sua autoridade sobre o litoral do mar das Índias até Sofala e Moçambique; de Cochim dependiam o Malabar, Ceilão, Bengala e o reino de Pegou (isto é, a Birmânia); Malaca estendia sua jurisdição por todo o extremo oriente (China, Coreia, Japão) até o dia em que um bispo foi nomeado para Macau.
Os titulares dos novos bispados foram dois dominicanos: em Malaca, Jorge de Santa Luzia; em Cochim, Jorge Themudo, que se tornou, em 1568, arcebispo de Goa e cujo sucessor em Cochim, Henrique de Távora, passou por sua vez, em 1578, para a mesma sé arquiepiscopal. Os dominicanos encarregados de Malaca e do arquipélago das Molucas instituíram, em 1545, um ramo especial de sua ordem, a congregação oriental das Índias que, já em 1548, enviou numerosos missionários, dos quais o mais conhecido é o Pe. Bermudez.
O franciscano Bonfer penetrou no Pegou, sobre o qual deixou numerosas informações. Por fim, os jesuítas, continuando a obra de São Francisco Xavier no Japão, obtiveram ali sucessos extraordinários; uma embaixada japonesa apresentou-se em 1585 aos pés de Gregório XIII, que a recebeu poucos dias antes de sua morte, e de Sisto V, em cuja coroação eles assistiram.
Mas, durante esse tempo, graves eventos haviam ocorrido no Japão e uma revolução política trouxe uma mudança completa na atitude que os governantes tinham tido até então com relação ao cristianismo. É preciso acrescentar também que, em 1580, tendo se extinguido a dinastia reinante em Portugal, o rei da Espanha Filipe II fizera-se reconhecer rei e que, por sessenta anos, a coroa de Portugal encontrou-se reunida à da Espanha; essa mudança não ocorrera sem lesar grandes interesses e trouxera, no Extremo Oriente, ciúmes entre os portugueses e os espanhóis, e todo tipo de acusações, entre as quais o eco dos japoneses viera diminuir o sentimento de respeito que lhes haviam inspirado até então os estrangeiros; por fim, os espanhóis, recém-chegados ao país, pouco afeitos aos costumes e às ilhas, haviam cometido certas indelicadezas e ferido susceptibilidades, por vezes muito legítimas.
Dessas divisões e dessas imprudências surgiu uma perseguição que deveria fazer correr rios de sangue e causar, por dois séculos, o desaparecimento completo, ao menos foi o que se acreditou, do cristianismo japonês. Em 15 de fevereiro de 1597, vinte e seis cruzes foram erguidas em uma colina vizinha a Nagasaki e nelas foram atados vinte e seis confessores da fé, dos quais três jesuítas, seis franciscanos; os outros, entre os quais estavam mulheres e crianças, pertenciam à terceira ordem de São Francisco; esses mártires foram beatificados por Urbano VIII, em 1627, e canonizados por Pio IX, em 1862.
Pio IX canonizou, em 1867, outros mártires executados de 1617 a 1632; milhares de outros, sobre os quais não foi possível recolher informações jurídicas precisas, pereceram no mesmo período pelo ferro, pelo fogo, pela cruz e por outros tormentos que a imaginação dos carrascos havia levado a refinamentos científicos. O que mais contristou os mártires, após numerosas apostasias de seus neófitos, foi ver, do lado de seus perseguidores, cristãos da Europa, ingleses e holandeses protestantes.
A guerra estava desencadeada na Europa, a Guerra dos Trinta Anos, que as paixões religiosas tornavam mais impiedosa que todas as que haviam precedido. A Inglaterra e os Países Baixos haviam atacado pelo mar as frotas espanholas, e com tal sucesso que uma grande parte das possessões da Espanha na África e na Ásia mudaram de mestres: novas potências coloniais apareciam no Extremo Oriente e, para se tornarem bem-vindas aos infiéis, apresentavam-se como inimigas dos espanhóis católicos; os portugueses e os espanhóis haviam sustentado os missionários e haviam buscado lucrar política e comercialmente com seus sucessos; os ingleses e os holandeses vão explorar essa associação e arruinar, ao mesmo tempo, tanto a influência católica quanto a dos espanhóis. Pouco importa a esses mercadores ávidos renegar sua fé, se é que possuem alguma, se sua apostasia lhes abre o acesso ao mercado de onde estão banidos os católicos. É daí que data, no Japão, o uso odioso que se perpetuou durante dois séculos, de colocar em terra, nos portos de desembarque, uma cruz que os que chegavam deviam pisotear; haviam encontrado o meio mais seguro de impedir os católicos de se introduzirem no país.
A entrada da China não era menos bem guardada que a do Japão. Os portugueses haviam conseguido do imperador Kouang-hi um pequeno território, a ilha de Macau, onde os mercadores estavam como que confinados sob a vigilância dos oficiais do vice-rei de Cantão. Em 1557, foi estabelecido um bispado cuja circunscrição compreendia todo o país situado além do estreito de Malaca. As primeiras tentativas feitas para penetrar no império chinês remontam a essa época: os franciscanos e os jesuítas de Macau instruíam-se na língua e nos costumes a fim de se lançarem em busca das almas. Foi, contudo, um agostiniano das Filipinas, Martin de Herrera, quem fez as primeiras tentativas, com a ajuda de alguns chineses convertidos em Manila; os dominicanos puseram-se também à busca do meio de forçar a linha proibida, mas foram os jesuítas que nela tiveram sucesso primeiro.
Em 1579, o padre Ruggieri estabeleceu-se em Cantão e pouco depois em Tchaoking, cidade situada um pouco a oeste sobre o Si-Kiang. Graças à benevolência dos mandarins, que admiravam a pureza de sua doutrina, ele obteve a permissão de fazer vir alguns confrades e de abrir uma capela. Entre os novos missionários encontrava-se o Pe. Mathieu Ricci que, tornado muito versado na língua e nas leis da China, pôde estabelecer residências em Nan-tchang-fou, no Kouang-Si, em 1588, em Nanquim, em 1595 e, por fim, após várias viagens a Pequim, em 1601, 1598 e 1601, terminou por ser recebido em audiência pelo imperador Ching-Tsing; ele levava consigo presentes, entre os quais estavam peças de mecânica e engenhosidade que encantaram os chineses; Ricci era muito avançado no conhecimento das ciências naturais, das quais os mandarins eram muito curiosos; ele pôde, portanto, instalar-se em Pequim em 1605 e, após sua morte, em 1610, seu sucessor, o Pe. Longobardi, herdou seu crédito entre os letrados.
O favor de que gozavam os jesuítas não impediu que governadores de províncias perseguissem seus confrades, dos quais vários foram mortos em 1616 e 1620, juntamente com um certo número de chineses batizados; a porta não estava menos aberta e os religiosos das outras ordens poderiam entrar por sua vez.
Na Índia, os dominicanos, os franciscanos, os carmelitas e os jesuítas continuavam com perseverança a obra de evangelização, que se estendia a Bengala, ao reino de Arrakan (Birmânia), ao Sião e ao Camboja. O sucesso dos missionários era geral e, contudo, o resultado final era medíocre; uma curta perseguição vinha arruinar, em poucas semanas, a obra de vários anos; a inconstância dos orientais fazia-os abandonar a fé que haviam abraçado com entusiasmo e os preconceitos, que não se teve tempo de desenraizar, conservavam no fundo dessas almas regeneradas pelo batismo um fermento de infidelidade que não tardava a fermentar e a destruir o fruto das mais belas pregações.
Para impedir esses retornos ofensivos do erro, os missionários, e em particular os jesuítas, pensaram que, para manter na perseverança esses povos submetidos ao regime do poder absoluto, bastaria talvez converter os príncipes, para que o cristianismo, tornado religião de Estado, pudesse se consolidar com o apoio do poder secular; é uma concepção da qual é permitido pensar o que se queira: estava-se então na Europa sob o princípio cujus regio ejus religio e as populações da Alemanha eram vistas como católicas ou como protestantes segundo o culto que o soberano era suposto professar. Foram, portanto, feitos grandes esforços para converter os potentados da Índia; supunha-se que o povo seguiria o exemplo, de bom grado ou não. Tal método, que contribuiu poderosamente para o desenvolvimento tão rápido do islamismo, não parece conforme à lei evangélica, e o que o provaria é o pouco resultado que deu.
O Grão-Mogol Akbar, de quem dependia toda a Índia central, recebeu com alguma benevolência o Pe. Rodolfo Aquaviva, sobrinho do geral dos jesuítas; ele gostava de conversar com os confrades e interrogava-os com curiosidade sobre os dogmas cristãos, assim como aos seus discípulos; acreditaram que ele estava prestes a se batizar e tiveram a decepção de constatar que ele buscava dar ao seu império uma religião uniforme onde o islamismo e o bramanismo se fundiriam com alguns fragmentos de cristianismo. Ao cabo de vários anos, os jesuítas, reconhecendo que estavam sendo ludibriados, tiveram de se retirar, e Akbar morreu, em 1605, sem ter justificado as esperanças que se tinham fundado um pouco apressadamente nele.
Outra causa que contribuiu em larga medida para esterilizar os trabalhos de muitos missionários foi a rivalidade entre as diferentes ordens religiosas. Desde a origem, esse grave perigo tinha sido previsto e regulamentos muito sábios tinham sido redigidos, mas tinham sido raramente aplicados. O que faltava em quase toda parte era a autoridade episcopal, que teria mantido o equilíbrio entre as diferentes sociedades e as teria, se necessário, chamado à ordem; mas, como vimos, havia apenas três bispados na Índia, um em Malaca e um em Macau; esses bispados dependiam da coroa de Portugal e a influência portuguesa, já enfraquecida no momento da reunião de Portugal à Espanha, tinha diminuído durante os sessenta anos que durou essa união e tinha diminuído ainda mais quando Portugal tornara-se novamente autônomo, em 1640. Os holandeses tinham se apoderado de Cochim, de Negapatam, de Granganor, de Calicute. profissão de Ceilão do catolicismo; elas proscritam, Portugal sob pena de morte, não podia, para defender os seus súditos cristãos, em inumeráveis questões de vaidade e de interesse, opunha-se à criação de bispados novos que tivessem diminuído a importância daqueles que tinha sob o seu patrocínio.
Homens como os padres jesuítas tinham sentido toda a gravidade da situação; a Congregação da Propaganda, fundada em 1622 por Gregório XV, tinha proposto a instituição de vicariatos para a Índia, a Birmânia, o Sião, a China e o Japão, e a obstinação da Espanha, depois de Portugal, tinha impedido essas entidades independentes, o projeto de lograr êxito. Compostas, portanto, por homens ardentes que não distinguiam suficientemente entre o bem da Igreja e o da sua ordem, entre os interesses da fé e o sucesso das suas opiniões particulares. É isso que desencadeou sobre a Índia a grande discussão dita dos ritos malabares. Ver Ad. Launay, *Histoire des missions de l'Inde*, Paris, 1898, t. I; Mgr Laouenan, *Du brahmanisme dans ses rapports avec le judaïsme et le christianisme*, Pondichéry, 1881, t. I, p. 362-389.
Desde o início do século XVII, os jesuítas tinham notado que o que afastava deles os indígenas era a inobservância das regras que impunha a divisão em castas. O missionário que convivia com os párias e tomava um alimento reputado impuro era um objeto de horror para as classes superiores e não tinha nenhum crédito sobre elas. Tratava-se de ganhar as castas que formavam a opinião; os párias não tinham opinião, imitavam em tudo os brâmanes e compartilhavam o seu desprezo pelos estrangeiros ignorantes das regras da vida social. O Pe. Nobili começou então vestido com uma túnica de pano amarelo, coberto por uma espécie de turbante, alimentava-se de leite, arroz e ervas e portava ao pescoço o *punul* ou cordão distintivo dos brâmanes, composto de três fios de ouro e de dois fios de prata. Durante esse tempo, outros jesuítas adotavam o traje e o gênero de vida das classes elevadas. Omnibus omnia factus sum. I Cor., ix. 22.
Tratava-se não precisamente de aplainar aos indianos a via da salvação, de fazer desaparecer certos obstáculos julgados insuperáveis. Mas, uma vez na via das acomodações, onde era preciso parar? Havia nas práticas e emblemas que tinham uma significação obscena ou supersticiosa; bastava dirigir a sua intenção para evitar a falta? Os indianos repugnavam certos ritos dos nossos sacramentos e chegou-se a abandonar para o batismo o uso do sal, da saliva e da insuflação. Foram os missionários franciscanos que denunciaram a prática dos jesuítas e as discussões começaram: os sínodos locais adotaram uma ou outra opinião; os teólogos não se entenderam tampouco, e em 31 de janeiro de 1623, o papa Gregório, pela constituição *Romanæ sedis antistes*, em *Juris pontificii de Propaganda fide*, part. I, Roma, 1888, t. I, p. 1-VII, permitiu ao Pe. de Nobili manter um certo número dos usos que tinha adotado.
Contudo, o acordo não tinha sido feito e, em 1702, o patriarca de Antioquia, Mgr Maillard de Tournon, enviado por Clemente XI, desembarcou em Pondichéry para fazer um inquérito, depois, ao cabo de alguns meses, em 23 de junho de 1704, publicou um mandamento que condenava um certo número desses usos. Esse mandamento foi aprovado por Clemente XI em 1706, sobre o parecer bom do Santo Ofício em 7 de janeiro de 1706, mas com certas restrições que deixavam o debate aberto. Os bispos de Meliapor e de Cochim aproveitaram para pedir o retorno às práticas condenadas e o conselho superior de Pondichéry recorreu como de abuso perante o Parlamento. *Juris pontificii de Propaganda fide*, part. I, 1889, t. II, p. 243-246, 316-318.
Clemente XI e Inocêncio XIII morreram antes de terem se pronunciado; foi Bento XIII que, em 12 de dezembro de 1727, confirmou as condenações; contudo, o caso voltou ainda perante o Santo Ofício, sob Clemente XII, que adotou as decisões dos seus predecessores, em 24 de agosto de 1734. *Ibid.*, t. II, p. 448-453.
Como, embora submetendo-se e prestando o juramento imposto por uma constituição publicada em 13 de maio de 1739, *ibid.*, t. II, p. 501-504, vários missionários renovavam as suas instâncias, Bento XIV decidiu uma última vez a questão pela bula *Omnium sollicitudinum*, de 12 de setembro de 1744. *Ibid.*, 1890, t. III, p. 166-182.
O efeito dessas lamentáveis discussões foi, certamente, desencorajar certos convertidos que, na sequência de concessões que a Igreja julgou imprudentes, haviam compreendido mal o alcance dos compromissos que lhes eram exigidos antes de os admitir ao batismo e que, escravos de um apego culposo a usos supersticiosos, preferiram retornar à infidelidade; houve, portanto, deserções, menos, porém, do que certos autores disseram com a intenção mais ou menos consciente de desacreditar as bulas pontifícias. O que foi ainda mais grave foi revelar aos indígenas as fraquezas daqueles que deveriam ensinar-lhes a perfeição; nessas intermináveis discussões, foram ditas palavras acrimoniosas, apresentadas, de modo demasiado leviano, acusações passionais que desacreditaram as duas partes e influíram desastrosamente no desenvolvimento das missões. Finalmente, nesse amontoado de maledicências, os inimigos da Companhia de Jesus encontraram argumentos que explorariam juntamente com aqueles que extrairiam da querela dos ritos chineses.
As missões da China passaram, de fato, por uma crise idêntica em seu princípio, ainda que diferente em seu desenvolvimento. Nunca se prestará homenagem suficiente ao zelo apostólico dos missionários jesuítas; eles desafiaram a morte, caminharam para o martírio com uma constância admirável; sua formação religiosa e científica fazia deles operários incomparáveis, e a obediência colocava todos esses homens de virtude e talento na mão de superiores experientes que sabiam utilizá-los, cada um segundo suas aptidões, e encorajar, quando necessário, o espírito de iniciativa nos limites de uma ação comum. Os jesuítas, apóstolos acima de tudo, queriam a conversão dos infiéis; esses infiéis, eles os encontravam em um estado de civilização totalmente diferente do dos povos do Ocidente. Eram as mesmas almas, mas parecia que os cérebros estivessem organizados de outra forma e era preciso, para atingir suas inteligências, que as ideias europeias estivessem vestidas à moda chinesa: era a esse preço que se alcançava o sucesso de seu apostolado.
Foram, portanto, levados a adotar esta regra: que, para fazer aceitar os princípios fundamentais e essenciais do cristianismo, é preciso fazer o sacrifício das formas acessórias e tolerar, quando não eram diretamente opostos ao cristianismo, os usos imemoriais do país; foram mais longe e acreditaram poder conservar certos usos supersticiosos, tendo o cuidado de despindo-os daquilo que era contrário à fé; é assim que o culto aos ancestrais podia transformar-se em orações pelos mortos. Mas onde estava o limite entre as concessões legítimas e aquelas que não podiam ser toleradas? Este era um ponto que não podia ser deixado à apreciação individual, nem mesmo ao sentimento comum de um grupo de religiosos. Foi, contudo, assim que começou a disputa, e as discussões de homem para homem e de sociedade para sociedade geralmente não têm outro resultado senão levar, de ambas as partes, a exageros e violências; essa confusão só fez aumentar quando os olhos da Europa lançaram sobre a questão um público incompetente, enquanto a única autoridade qualificada para julgar em última instância aguardava que informações tomadas na fonte lhe permitissem pronunciar-se.
Não é menos verdade que, graças à interpretação que acreditavam poder dar a ritos que desde então foram declarados supersticiosos, os jesuítas expandiram-se rapidamente na China; os padres Rho e Schall, admitidos na corte, foram encarregados de trabalhar na redação do calendário imperial e, após a revolução que derrubou, em 1644, a família dos Ming, permaneceram a serviço da nova dinastia, que lhes demonstrou a maior benevolência; o imperador Chung-hi, interessando-se pelas ciências exatas e naturais, procurava os missionários cujos conhecimentos em botânica, astronomia e matemática eram apreciados em seu justo valor; o Pe. Schall era presidente do «tribunal de matemática» e honrado com a dignidade de mandarim. Ele havia assim conquistado, para si e seus confrades, a liberdade de pregar o Evangelho; em quatorze anos (1650-1664), mais de cem mil chineses receberam o batismo.
Durante a minoridade de Kang-hi, uma curta, mas cruel perseguição desencadeou-se contra os cristãos; o Pe. Schall foi preso, torturado e condenado à morte; contudo, não foi executado e foi até mesmo posto em liberdade, mas, exausto pelos tormentos, extinguiu-se em 1666, aos 75 anos de idade. O Pe. Verbiest sucedeu-o em suas funções científicas e na confiança do novo imperador, que se mostrou, primeiramente, muito favorável ao cristianismo. Nessa época, a querela dos ritos já havia começado há muito tempo: eram os dominicanos e os franciscanos espanhóis estabelecidos em Fo-Kien, mas vindos das Filipinas, que, os primeiros, tinham ficado chocados com as concessões feitas, sob a forma de casos particulares, às ideias chinesas: a questão fora levada a Roma, a questão fora decidida da mesma forma; em 1645, Inocêncio X condenara as práticas assinaladas pelo dominicano Morales, mas, em 1656, Alexandre VII dera razão ao jesuíta Martini; uma réplica de Morales levara a um decreto de Clemente IX, em 1669, onde era dito que as reformas anteriores visavam casos diferentes e deveriam ser entendidas da maneira como os fatos eram apresentados. Roma mantinha-se na reserva, suspendendo seu julgamento definitivo; no dia em que os fatos fossem estabelecidos com certeza, seria possível dar uma regra geral e impor sua observação.
Mais do que nunca, sentia-se a necessidade de ter, no Extremo Oriente, bispos representando diretamente a autoridade da Santa Sé, mas era preciso contar com as repugnâncias expressas pelas ordens religiosas e, sobretudo, a oposição de Portugal; depois, foi preciso encontrar padres seculares capazes de ir exercer, nas missões distantes, o encargo do episcopado, sempre temível, mas particularmente difícil nas circunstâncias que se apresentavam então. Esses homens encontraram-se na pessoa dos primeiros padres da Sociedade das Missões Estrangeiras de Paris. Em 1658, Dom Pallu foi nomeado bispo de Tonquim, com jurisdição sobre as províncias de Yun-nan, Kouei-tcheou, Su-tchuen e Kouang-si; Dom Lambert foi nomeado bispo de Béryte, vigário apostólico da Cochinchina, Tché-Kiang, Fo-Kien, Kiang-si e Kouang-tong; Dom Cotolendi, bispo de Nanquim, deveria administrar o Petchili, o Chan-tong, o Chan-si e a Coreia, mas morreu antes de chegar. Juris pontificii de Propaganda fide, t. I, p. 313-314.
Os outros bispos, detidos pela má vontade dos portugueses, fixaram-se no reino do Sião, onde o cristianismo desfrutava de completa liberdade. Em 1670, Mgr Pallu retornou a Roma para ali receber instruções; ao retornar à China, tomou mil precauções, pois era necessário evitar o encontro com os holandeses, que enforcavam os padres, ou com os portugueses, que os enviavam para Goa, para as prisões da Inquisição; capturado pelos espanhóis, conduzido como prisioneiro a Madri, investido pelo Papa com a missão de visitador geral e administrador de toda a fé e de todas as missões, ele não pôde seguir esse caminho e foi em 1684 que pôde colher seus primeiros frutos, quando morreu ao fim de alguns meses; seu amigo e confrade Lambert o havia precedido ao túmulo em 1679. Mas a Sociedade das Missões Estrangeiras que eles haviam fundado deveria continuar a obra para a qual haviam dado suas vidas.
As discussões que Mgr Pallu estava encarregado de terminar no seio das missões não chegavam ao fim e os diferentes problemas se avolumavam; a divisão se manifestava entre os missionários que todos defendiam com paixão a favor ou contra os ritos. É para pôr fim a essas controvérsias que, em 1701, Mgr de Tournon foi designado por Clemente XI como legat a latere. Juris pontificii de Propaganda fide, part. I, t. II, p. 210-211. Ele deveria, após ter se dirigido a Pequim e, por meio dos poderes extraordinários dos quais estava munido, decidir definitivamente a questão. Vimos como ele terminou em 1704 a questão dos ritos malabares. Ao chegar a Pequim em dezembro de 1705, encontrou um decreto do Santo Ofício de 1701, que proibia todas as cerimônias em honra a Confúcio, bem como o culto aos ancestrais, e reprovava os termos usados pelos letrados chineses para designar Deus; eram os três pontos principais da controvérsia. Ibid., p. 223-237.
Em vez de examinar os pontos litigiosos com os missionários, o legado deixou-se arrastar para discussões com os mandarins e até mesmo com o imperador, a quem deveria propor a nomeação de um superior geral das missões; o resultado foi desfavorável e Mgr Maigrot, das missões estrangeiras, que havia tomado a palavra para expor a doutrina adotada pelo Santo Ofício, foi injuriado, maltratado, preso e banido da China; o legado recebeu a ordem de deixar Pequim, onde se havia detido; foi em Nanquim, em 1706, que Mgr de Tournon publicou, não o decreto do Santo Ofício, o que lhe parecia imprudente no estado dos espíritos, mas um mandamento que promulgava suas disposições essenciais. Assim que o imperador teve conhecimento, ficou tão irritado contra o prelado que o mandou prender e conduzir a Macau, com ordem ao governador de mantê-lo prisioneiro; é doloroso acrescentar que essa ordem foi executada, ibid., 1898, t. VII, p. 80; apesar da notícia de sua elevação à dignidade cardinalícia, o legado permaneceu nas prisões portuguesas onde expirou em 8 de junho de 1710.
Todos os missionários que haviam tomado partido pelo legado foram perseguidos nas províncias de Su-tchuen e presos para serem conduzidos a Macau, onde os portugueses se encarregavam de fazê-los expiar sua docilidade aos ensinamentos da Igreja. A sentença do cardeal de Tournon, tal como havia sido publicada, não era irreformável e um apelo foi lançado a Roma. Um decreto de Clemente XI, de 1710, proibiu qualquer nova publicação sobre o mandamento e todos os pontos da questão. Juris pontificii de Propaganda fide, part. I, t. II, p. 280-283, 296-297, 335. Cf. p. 290.
Uma bula de 1715 impôs a todos os missionários um juramento de obediência, ibid., p. 305-310. Cf. p. 318-319, e como os dissidentes buscavam subterfúgios para elidir a execução da bula, ainda um novo legado, Mgr Mezzabarba, dirigiu-se à China, onde chegou em 1720. Ibid., p. 328-334. O imperador o recebeu com certo brilho, mas não perdeu ocasião de se expressar em termos ofensivos sobre o soberano pontífice. Mgr Mezzabarba concedeu certo número de permissões para autorizar algumas cerimônias, sob a condição de que, ao realizá-las, se reprovaria qualquer ideia contrária à fé, mas não pôde levar o imperador a nenhuma concessão; deixou Pequim em 1721. As querelas continuaram ainda durante anos, cf. ibid., p. 163, até que em 1690 a energia terminasse essa longa querela. Ibid., t. II, p. 73-82. Cf. ibid., p. 210-211: inflexível enquanto se prosseguia a obra de conversão dos infiéis com grande atividade.
A instituição, em 1659, dos vicariatos apostólicos havia causado um vivo descontentamento em Portugal, onde a corte reclamava incessantemente a favor do direito de padroado, direito que, aliás, era incapaz de exercer. Contudo, para evitar abrir mão de uma parte de seus direitos para poder gozar pacificamente da outra, Alexandre VIII consentiu em uma transação em 1690. Os vicariatos de Malabar, da Cochinchina e do Tonquim foram conservados, mas, em contrapartida, foram instituídos em Nanquim e em Pequim dois bispados que o rei de Portugal se comprometia a dotar, mediante o que o direito de nomeação lhe seria reconhecido. Ibid., t. II, p. 126-127.
O efeito dessa concessão foi exatamente oposto ao que se buscava: o arcebispo de Goa pretendeu exercer, por meio dos novos bispos, uma autoridade absoluta sobre todas as missões da China, e Inocêncio XII, que sucedeu em 1691 a Alexandre VIII, resolveu retomar o antigo projeto de divisão do país em vicariatos. Por uma bula de outubro de 1696, oito novos vicariatos foram instituídos e a circunscrição das dioceses portuguesas foi nitidamente delimitada.
Ibid., p. 158-161. Kiang-si foi atribuído a um dominicano, Tche-kiang a um agostiniano, Chan-si e Chen-si reunidos a um franciscano, Hoo-kouang a um missionário secular, Fo-kien ao Sr. Maigrot, membro da Sociedade das Missões Estrangeiras; Yunan, Sutchuen e Kouei-Tcheou foram confiados a jesuítas ou a vigários sem caráter episcopal da Sociedade das Missões Estrangeiras. Essa medida desagradou vivamente os portugueses e explica, sem desculpar, as delongas que o governador de Macau usou, em 1704, em relação ao cardeal de Tournon. É preciso reconhecer que essas rivalidades tiveram, a longo prazo, sobre a obra das missões, um contragolpe deplorável; os padres europeus hesitavam em ir ao Extremo Oriente, menos para converter pagãos do que para batalhar com compatriotas; o seminário das missões estrangeiras contava frequentemente apenas cinco ou seis levitas, e tinha por vezes seus membros vazios.
Em 1722, a Sociedade das Missões tinha apenas dois bispos e dois padres; na China, três padres; no Tonquim, um bispo e três padres; na Cochinchina, um bispo e três padres. Quando Young-tching, sucessor de Kang-hi, morto em 1722, decretou, em 1732, a expulsão de todos os missionários do império e que estes foram reunidos em Cantão, eram trinta e cinco ao todo. O espírito do tempo havia atingido as missões em sua fonte: a fé, arrefecida pelas querelas do jansenismo, não produzia mais aqueles impulsos de generoso entusiasmo que levavam os missionários a renunciar à sua família, ao seu país e às doçuras de uma existência fácil.
Esta crise tornar-se-ia ainda mais aguda durante o terceiro quartel do século XVIII pelas supressões das quais seriam vítimas as missões da Companhia de Jesus e da China, que perdiam seus operários mais ativos, e, quando foi necessário prover a sua substituição, era difícil apelar para as ordens religiosas, vítimas, embora em menor grau, dos ataques do espírito filosófico. Na Espanha, em Portugal, na Alemanha, em um grande número de Estados italianos, o despotismo esclarecido dos príncipes entravava seu recrutamento e ameaçava sua independência. Os lazaristas aceitaram, contudo, missões no Levante e na China, mas a escassez de sujeitos não permitia enviar missionários suficientes para desenvolver as obras; mal se conseguia impedi-las de desaparecer.
Depois veio a Revolução, que fechou os noviciados e os seminários, deportou e massacrou os padres; depois as guerras do Império, que desolaram a Europa e durante as quais o chefe da Igreja, prisioneiro, nada podia fazer pelas cristandades distantes; enfim, após 1815, foi necessário prover às necessidades das igrejas da França, da Itália, da Alemanha, por longo tempo viúvas de seus pastores, curar as feridas que haviam feito os cismas, instruir e batizar vinte gerações que haviam crescido sem culto e quase sem padres. Poder-se-ia cogitar em conquistas em países infiéis quando a Europa saía a duras penas dos desastres que o século XVIII incrédulo havia preparado e que a grande crise revolucionária havia consumado?
IV. Missões no século XIX. Não subsistiam na China, no início do século XIX, senão três dos oito vicariatos instituídos por Inocêncio XII; na Indochina, havia os quatro vicariatos de Sião, Cochinchina, Tonquim oriental e Tonquim ocidental. Um homem de gênio, Mons. Pigneau de Béhaine, bispo de Adran, havia impresso a essas cristandades tal impulso que, muito tempo após sua morte (1799), vivia-se sobre suas tradições, e os soberanos de Sião e do Annam, mesmo quando eram hostis à religião cristã, rendiam um respeitoso tributo à sua memória; se não restavam mais como missionários franceses senão alguns velhos exaustos pelo trabalho, havia ao redor deles um clero indígena formado com zelo que continuava a atender as cristandades.
Na Índia, os portugueses haviam também ordenado padres indígenas ou mestiços, mas a preparação sacerdotal encurtada e a instrução escandalosamente insuficiente de padres "goaneses" dava pouco valor aos serviços desses cooperadores, que, apesar de seu número, forneciam pouco trabalho e contribuíam sobretudo para desacreditar a religião por sua conduta raramente edificante. Quando o Papa Gregório XVI, que, antes de sua eleição, era prefeito da Propaganda, viu que o momento havia chegado de devolver seu antigo lustre às missões do Extremo Oriente, sentiu que era preciso, primeiramente, pôr fim aos escândalos que dava o clero goanês e aos abusos que o governo português não sabia impedir. Começou, pois, a instituir na Índia vicariatos apostólicos e confiou-os a diversas sociedades de missionários. Assim foram estabelecidos, em 1834 e 1835, os vicariatos de Ceilão, de Sirdhana, de Bengala, e em 1836, os de Madras e de Pondicherry; ao mesmo tempo, confirmou aqueles que existiam anteriormente, o de Bombaim, criado em 1720, o do Tibete e do Industão, estabelecido em 1826 pelos capuchinhos nos Estados ainda semidependentes do Grão-Mogol. Juris pontificii de propaganda fide, part. I, Roma, 1893, t. V, p. 95-96, 119-120, 135-136, 167-172, 180-181.
Os protestos de Portugal levaram o soberano pontífice a publicar, em 24 de abril de 1838, o breve Multa præclare, que suspendeu a jurisdição dos bispos portugueses sobre os territórios atribuídos aos vigários apostólicos. Ibid., 195-198. Os portugueses recusaram-se a submeter-se e, após terem contestado o valor do ato pontifício por meio de argúcias jurídicas, chegaram a um cisma formal. Pio IX, após ter reprimido certos atos de revolta, quis tentar um acomodamento pacífico com a corte portuguesa, e após quatro anos de negociações, surgiu a concordata de 21 de fevereiro de 1857. Juris pontificii de propaganda fide, part. I, Roma, 1898, t. VII, p. 316-322.
Nessa convenção, a Santa Sé fixava os limites das dioceses portuguesas de Goa, Cranganor-Damao, Cochim, São Tomé de Meliapore, Malaca e Macau; além disso, reconhecia ao governo o direito de estabelecer novas dioceses na Índia, de modo a fazer desaparecer gradualmente os vicariatos, mas sob a condição de que essas dioceses fossem dotadas e que garantias fossem fornecidas sobre o recrutamento e a manutenção de um clero digno de confiança.
Essa disposição, que assustou muito os chefes das missões existentes, mostrava que a Santa Sé não se recusava a reconhecer a Portugal certos direitos sobre os países que seus missionários haviam evangelizado primeiro, mas sob a condição de que esses direitos fossem realmente exercidos; ora, não havia sido assim desde que se esgotara o recrutamento de missionários em Portugal; há dois séculos a diocese de Malaca não tinha titular e o clero goanês atendia quase sozinho as regiões sobre as quais os bispos portugueses haviam estendido sua jurisdição. Em vez de contestar as pretensões de Portugal, Roma o colocava em mora de provar que podia exercer o que chamava de seus direitos; se, após um tempo de experiência, se mostrasse incapaz de usar utilmente de seus direitos, podia legitimamente ser declarado decaído deles. Essa política, ao mesmo tempo hábil e paternal, permitiu regular definitivamente, em 1886, a situação das cristandades indianas; Portugal havia estado impossibilitado não apenas de estabelecer novas dioceses, mas mesmo de impedir os abusos que os goaneses pareciam fazer questão de perpetuar: a instituição de uma hierarquia regular para os países que não estão submetidos politicamente a Portugal veio pôr fim, em 1º de setembro de 1886, a uma contestação que a prudência dos negociadores pontifícios apenas havia impedido de degenerar em um cisma irreparável. — Ibid., p. 349-357.
1º Índia. Não podendo fornecer um histórico detalhado dos trabalhos dos missionários na Índia, indicarei apenas as condições nas quais foram criadas as dioceses atuais.
A província eclesiástica de Agra, quase inteiramente confiada aos capuchinhos, tem por origem a antiga missão desses religiosos, transformada em vicariato do Tibete-Industão, em 1822. Dele se destacou, em 1846, o vicariato do Tibete, confiado às missões estrangeiras. O vicariato de Agra foi sucessivamente dividido, em 1845, para formar o de Patna, hoje Allahabad, ibid., 1893, t. v, p. 351-352, em 1880, o do Pendjab, atualmente diocese de Lahore, em 1887, a prefeitura do Kafiristan e Kaschmir, em 1892, as prefeituras de Radjpoutana e de Bettiah. O Kafiristan é evangelizado pelos missionários ingleses de Mill-Hill; as outras dioceses e prefeituras pelos capuchinhos; o Radjpoutana pelos da província de Paris.
A província de Calcutá compõe-se de três dioceses e de uma prefeitura apostólica e tem por origem o vicariato de Bengala, que foi dividido, em 1850, em dois vicariatos, dos quais o segundo tornou-se a diocese de Dacca, ibid., 1894, t. vi a, p. 88-89; em 1870 um novo desmembramento constituiu um vicariato para os padres do seminário das missões estrangeiras de Milão; é a diocese de Krichnagar. Ibid., t. vi b, p. 91-95. Finalmente, em 1889, a população de Assam foi confiada aos padres alemães do Divino Salvador. A arquidiocese de Calcutá é administrada pelos jesuítas belgas e a diocese de Dacca pela congregação de Santa Cruz de Le Mans, que, após tê-la cedido, em 1875, aos beneditinos, retomou-a em 1889.
A província de Bombaim é inteiramente administrada pelos padres jesuítas. Bombaim foi sede de um vicariato desde 1720 e eram os carmelitas que estavam encarregados dele em 1854, quando, obrigados a retirar-se pelas vexações dos goeses, foram substituídos no sul pelos jesuítas, e no norte pelos capuchinhos, ibid., t. vi a, p. 222-223; depois, em 1858, os capuchinhos, querendo concentrar todos os seus esforços nas províncias do Industão, deixaram o seu vicariato aos jesuítas; estes dois vicariatos formaram as dioceses de Bombaim e de Bangalore. As missões de Madurai e de Trichinopoly, fundadas pelos jesuítas e retomadas por eles em 1848, foram destacadas, em 1878, da província de Pondicherry e dependem agora da metrópole de Bombaim.
A província de Madras, com as três dioceses de Vizagapatam, Nagpur e Haydarabad, é composta pelos territórios destacados, em 1832, da diocese de São Tomé de Meliapor, Ibid., t. v, p. 47. O primeiro vigário, Mgr Polding, beneditino, preferiu ir para a Austrália e morreu arcebispo de Sydney; foi substituído por um agostiniano, depois por um jesuíta; desde 1841, a arquidiocese é confiada ao clero secular irlandês, assistido, desde 1875, pelos padres da sociedade de Mill-Hill. O vicariato, tornado diocese, de Haydarabad foi erigido em 1851, ibid., t. VI a, p. 117, e confiado a Mgr Murphy, que, transferido em 1886 para Hobart-town, Tasmânia, ocupa ainda esta sede e encontra-se sendo, depois de Leão XIII, o mais antigo membro do episcopado; o soberano pontífice e ele eram, em 1902, os únicos sobreviventes dos bispos nomeados por Gregório XVI. Após a partida de Mgr Murphy, o vicariato foi confiado às missões estrangeiras de Milão. O vicariato de Vizagapatam, erigido em diocese em 1886, foi criado em 1850, ibid., p. 90; desde 1845 estava confiado como missão independente aos missionários de São Francisco de Sales de Annecy; a mesma congregação está encarregada da diocese de Nagpur, destacada em 1887 da de Vizagapatam.
A província de Pondicherry, na qual estão compreendidas as poucas possessões que a França conserva na Índia, é confiada inteiramente ao seminário das missões estrangeiras de Paris. Compondo-se dos antigos vicariatos, agora dioceses, de Pondicherry, metrópole, Coïmbatour e Mysore. Por ocasião do estabelecimento da hierarquia na Índia, a prefeitura apostólica de Pondicherry, que, há 200 anos, existia concorrentemente com o vicariato, com jurisdição sobre os brancos e os mestiços ditos «gens à chapeau», foi reunida ao vicariato tornado sede arquiepiscopal. Em 1899, a diocese de Pondicherry, que contava mais de 200.000 cristãos, foi dividida e a parte sul tornou-se a diocese de Kombakonam. A antiga diocese portuguesa de Malaca, confiada às missões estrangeiras, liga-se à província de Pondicherry.
A extremidade sul da Índia forma duas dioceses, Verapoly e Quilon, que constituem uma província eclesiástica florescente sob a direção dos carmelitas, que nela trabalharam quase sem interrupção desde 1651. Os vicariatos instituídos em 1853 tornaram-se dioceses em 1886, e em 1887 a jurisdição sobre os católicos de rito siro-malabar foi destacada do arcebispado de Verapoly para ser confiada a bispos de rito oriental que eram, em 1902, em número de três.
A ilha do Ceilão, separada da diocese de Cochim em 1834, ibid., t. v, p. 119-120, tornou-se, em 1847, o vicariato de Colombo; destacou-se dele, em 1847, o vicariato de Jafna, ibid., t. vi a, p.
41-45, em 1883, o de Kandy e, em 1893, estes dois vicariatos são agora dioceses; três novos bispados foram instituídos em Trincomalee e em Pointe-de-Galle e confiados aos jesuítas. Os oblatos de Maria administram Colombo desde 1847, e Jafna desde 1857; a diocese de Kandy, parte central da ilha, foi confiada aos oratorianos da Itália, depois aos beneditinos silvestrinos. A Birmânia, antiga missão do reino de Arracão, Ava e Pegu, está dividida em três vicariatos desde 1866, ibid., p. 442-443; dois são dirigidos por padres das missões estrangeiras de Paris e um por aqueles de Milão.
Em resumo, sobre trinta e duas circunscrições que dependem da Congregação da Propagação na Índia inglesa: As missões estrangeiras de Paris: 5 dioceses. As missões estrangeiras de Milão: 1 vicariato. Os carmelitas, os oblatos, os missionários de Annecy: cada um 2 dioceses. As missões inglesas de Mill-Hill: 1 diocese e 1 prefeitura. Os Padres de Santa Cruz: 1 diocese. Os beneditinos: 1 diocese. Os Padres do Divino Salvador: 1 prefeitura.
É preciso acrescentar que, nas mais antigas e sobretudo nas mais importantes pelo número de fiéis, já há muitos padres indígenas que, piedosos, instruídos e zelosos, prestam grandes serviços. Isso não prova uma inferioridade da raça, mas uma insuficiência que decorre não do insucesso, mas de uma insuficiência de formação eclesiástica.
Como termo de comparação, digamos que, em 1800, havia na Índia, fora dos bispados portugueses: 1° A missão de Agra, confiada aos capuchinhos, com 5.000 católicos. 2° A do seminário das missões estrangeiras, cuja sede era em Pondicherry, com 42.000 fiéis. 3° A do Malabar, administrada pelos carmelitas de Bombaim, e contendo 80.000 fiéis. 4° A de Bombaim, confiada aos carmelitas, com 8.000 católicos. Ao juntar-lhes a Birmânia (5.000) e Malaca, que contam hoje na Índia inglesa, chegamos a 142.500. O número dos católicos desta parte do mundo decuplicou, portanto, durante o século XIX.
2° Indo-China. As missões da Indo-China francesa, em número de 13, são todas confiadas às missões estrangeiras de Paris, à exceção de três distritos do Tonquim, confiados em 1676 aos dominicanos espanhóis. Eis as datas de criação dos diferentes vicariatos. 1659 Cochinchina e Tonquim. 1673 Sião destacado da Cochinchina. 1679 Tonquim ocidental destacado do Tonquim oriental. 1844 Cochinchina dividida em oriental e ocidental. 1846 Tonquim meridional destacado do Tonquim ocidental. 1848 Tonquim central destacado do Tonquim oriental. 1850 Camboja destacado da Cochinchina ocidental. 1854 Cochinchina setentrional destacada da Cochinchina oriental. 1883 Tonquim setentrional destacado do Tonquim oriental. 1896 Alto Tonquim destacado do Tonquim ocidental. 1899 Laos, destacado do Sião. 1901 Tonquim marítimo destacado do Tonquim ocidental.
Há hoje cerca de 800.000 católicos; em 1800 contavam-se 312.000. Esta abundante colheita frutificou graças ao sangue dos missionários e dos cristãos indígenas. O imperador Gia-Long, amigo do bispo de Adran, morreu em 1824; com o reinado de seu neto Minh-Mang começou, para a missão da Cochinchina, a era dos martírios; de 1833 a 1839, 4 vigários apostólicos, 9 missionários, 20 padres indígenas e um grande número de cristãos pereceram; aqueles que não morreram na prisão, como o padre Odoric, franciscano, sofreram suplícios de uma crueldade inimaginável. Havia, contudo, em 1840, 120.000 católicos, quando uma clareira na perseguição permitiu fazer a contagem.
Tien-Tsi inaugurou, em 1851, a segunda perseguição, mas desta vez a França interveio e, por várias vezes, arrancou das prisões vários missionários condenados à morte; infelizmente, os navios franceses nada podiam fazer para salvar os indígenas cristãos que pereceram aos milhares. Tu-Duc, que subiu ao trono em 1847, superou em crueldade seu predecessor, e o governo de Napoleão III decidiu impor a esse furioso o respeito aos nossos compatriotas e seus discípulos. Uma guerra que durou de 1858 a 1862 terminou com a conquista da própria Cochinchina; mas que represálias foram tomadas nesse período no Annam e no Tonquim! Onze missionários europeus, dos quais 4 bispos, foram martirizados com 116 padres anamitas e 100 religiosas indígenas; 40.000 cristãos pereceram.
Finalmente, após perseguições menos violentas em 1867, 1868, 1873, começou a grande exterminação dos cristãos, vingança tirada pelos príncipes de Hué pela conquista do Tonquim. O ano de 1885 viu o massacre de 50.000 cristãos, 30 padres e 270 religiosas. Cerca de vinte missionários pereceram nos suplícios ou, obrigados a se esconder em regiões insalubres, sucumbiram à febre, à fome ou sob os dentes das feras. Os senhores Gagelin, Marchand, Cornay, Jaccard, Dumoulin-Borie e três dominicanos, NN. SS. Delgado e Henares e o padre Fernandez foram declarados veneráveis por Gregório XVI, em 1840, e beatificados em 27 de maio de 1900, assim como os senhores Schaeffler e Bonnard, martirizados em 1851 e 1852, e um certo número de cristãos indígenas.
3º China. A China contava, em 1800, 3 dioceses, 3 missões e 200.000 cristãos. A perseguição grassava de uma forma quase contínua. Dom Dufresse, morto no Su-tchuen em 1815, e o senhor Clet, estrangulado no Hou-Pé em 1820, foram ambos beatificados em 27 de maio de 1900. O senhor Perboyre, lazarista, como o senhor Clet, e martirizado no Hou-Pé em 1840, foi beatificado em 9 de novembro de 1889. Nessa época, a intervenção da França levou os chineses a dar aos missionários a liberdade de pregar; este compromisso, renovado em 1860, tornou impossível qualquer condenação jurídica, mas não impediu que o sangue dos mártires corresse em abundância, pois é preciso contar com a duplicidade chinesa, que concede uma concessão com uma mão e a retira com a outra, salvo depois para negar energicamente tanto o compromisso assumido quanto o ato que constituía uma quebra de palavra: assim pereceram, em 1856, o venerável senhor Chapdelaine, morto no Kouang-si, em 1861, o venerável senhor Néel, massacrado no Kouei-tcheou, e assim quase todos os anos, até o terrível massacre de Tien-Tsin, em 1870, onde, com dois lazaristas, pereceram nove Filhas da Caridade.
I. O que dizer dos recentes massacres dos quais é impossível ainda contar todas as vítimas? Elas teriam sido mais numerosas quando podiam, se os missionários não tivessem defendido a vida de seus cristãos. Todos leram o relato do cerco suportado por Dom Favier no Pe-tang; apenas fatos puderam criticar essa resistência legítima (veja o volume do pastor protestante, Allier, Les troubles de Chine, Paris, 1901).
Conhecem-se agora as perdas sofridas pelas sociedades de missionários. A Sociedade das Missões Estrangeiras perdeu um bispo, Dom Guillon, e nove missionários; os franciscanos, 3 bispos, NN. SS. Fantosati, Grassi e Fogolla, e 5 religiosos; os jesuítas, 4 missionários; os padres belgas de Scheut, um bispo, Dom Hamer, e 3 missionários; os lazaristas, 4 missionários; os padres do seminário romano de São Pedro e São Paulo, um de seus confrades. Juntando-se a isso 3 irmãos maristas, 7 irmãs franciscanas missionárias de Maria e 2 religiosas da Providência de Portieux massacradas em Moukden com Dom Guillon, chegamos a um total importante de vítimas.
Durante o mesmo período, as missões protestantes perderam 134 de seus trabalhadores não indígenas, sem contar 32 filhos de missionários (80 ingleses, 10 suecos e 44 americanos), 62 pertenciam à China-Inland Mission, 25 à missão da Aliança Sueca, 13 a cada uma das sociedades American Board ou Missão Batista Inglesa, 5 à Missão Presbiteriana Inglesa. Foi a Mongólia que mais sofreu; de 50 missionários, apenas 17 puderam fugir para a Sibéria.
O quadro precedente indica a situação dos católicos da China em 1901 e o quadro seguinte mostra em qual ordem essas missões se desenvolveram (a diocese de Macau à parte) e como elas se repartem entre as diferentes sociedades missionárias: são 4, os franciscanos, os dominicanos, os jesuítas, os lazaristas, nas mãos de sociedades de missões: a de Paris (10), a de Scheutveld (belga) (5), a de Milão (3), a de Roma (1), a de Steyl (alemã) (1). Como foi dito no artigo precedente, o número dos cristãos na China elevava-se, em 1900, a mais de 700 000; portanto, ele mais que triplicou no decorrer do século.
II. Coreia. A Coreia e o Japão trouxeram seu contingente à história das perseguições nos últimos anos. Nesses dois países, a pregação e a profissão do cristianismo foram proibidas sob as penas mais severas, no Japão até 1873, na Coreia até 1876. Havia na Coreia, em 1800, apenas um único padre chinês e 4 000 fiéis, mas esse padre, o Pe. Tsoï, tendo sido martirizado em 1801, o país permaneceu até 1837 sem pastor, e durante esse período, os cristãos não cessaram de pedir que lhes enviassem missionários.
Dom Bruguières, das Missões Estrangeiras, nomeado, em 1832, vigário apostólico, morreu na Mongólia sem ter podido penetrar em sua missão. Dois missionários, mais felizes que ele, os senhores Maubant e Chastan, conseguiram introduzir-se, em 1836, no país, onde encontraram 4 000 cristãos; seu novo bispo juntou-se a eles em 1837, e em 1839 o número dos cristãos era de 9 000. Mas os três apóstolos foram reconhecidos e receberam a palma do martírio em 21 de setembro de 1839.
A Coreia era um país tão fechado que nem os juncos chineses podiam entrar nos portos; era preciso embarcar em pleno mar nos barcos dos pescadores coreanos; pois o caminho de terra era severamente guardado. Dom Ferreol só chegou à missão após seis anos de tentativas; ele trazia consigo o primeiro coreano ordenado padre, André Kim, que deveria ser martirizado no ano seguinte. O senhor Maze levou doze anos para entrar na Coreia.
Dom Ferreol morreu em 1853 e foi substituído por Dom Berneux, que foi seguido por seu coadjutor, Dom Daveluy, e 10 missionários europeus; mas a perseguição recomeçou em 1866 com violência, e no decorrer do mês de março os dois bispos e 7 de seus padres foram postos à morte. Apesar de uma demonstração naval, mal concebida, aliás, do almirante Roze, o acesso ao país foi impiedosamente proibido, todas as cristandades foram destruídas e os principais cristãos foram executados. Dom Ridel, um dos sobreviventes dos massacres de 1866, foi sagrado em 1870 e só pôde retornar em 1876; o sangue não corria mais, mas eles eram detidos, embarcados e proscritos da China. Somente desde a guerra sino-japonesa todas as barreiras se abaixaram e um frutífero apostolado exerce-se sobre uma população que aceita com alegria o Evangelho.
III. 5° Japão. O Japão deu menos mártires neste século; mas da igreja que contou até dois milhões de almas, nada parecia restar; jesuítas, agostinianos, dominicanos e franciscanos tinham sido martirizados ali com 200 000 cristãos; no início e mesmo em meados do século XIX, havia apenas ruínas. Dois missionários, enviados em 1846 por Gregório XVI, foram detidos quase imediatamente; um, o senhor Letord, morreu na prisão, o outro, o senhor Forcade, depois arcebispo de Aix, condenado à morte e conduzido ao local da execução, atirou-se ao mar e ganhou a nado um navio que estava nas redondezas. Foi apenas em 1861 que os missionários puderam estabelecer-se nos portos abertos pelos tratados de comércio.
Pouco depois, Dom Petitjean fez uma comovente descoberta: milhares de japoneses tinham permanecido católicos; embora cento e oitenta anos tivessem decorrido desde a morte do último padre, eles continuavam a rezar juntos e os mais velhos administravam validamente o batismo. Marnas, La religion de Jésus ressuscitée au Japon dans la seconde moitié du XIXe siècle, 2 in-8°, Paris, 1896.
Houve uma última perseguição de 1868 a 1873; seis a oito mil cristãos foram presos, deportados, torturados, dois mil sucumbiram em horripilantes tormentos; depois, deu-se a pacificação e, se o governo japonês, copiando as piores tradições da Europa, proclama-se laico e recusa-se a reconhecer qualquer culto, ao menos deixa aos missionários uma liberdade que apenas é restringida por regulamentos administrativos mais mesquinhos do que maléficos. O Vicariato do Japão, restabelecido em 1846, Juris pontificii de Propaganda fide, pars 1, Roma, 1863, t. V, p. 359, foi dividido em dois em 1876; em 1877, um terceiro foi erigido, depois um quarto e, finalmente, em 1891, uma hierarquia regular composta por um arcebispado e três bispados foi instituída por Leão XIII. É um penhor de ressurreição e de vida para esta igreja há tanto tempo sepultada no sangue dos seus mártires. » Louvet, Missions catholiques, Orient, p. 19
A obra dos missionários no Oriente tomou, desde a origem, um caráter bem diferente do que no Extremo-Oriente. Os muçulmanos são por toda a parte rebeldes ao proselitismo; sê-lo-ão ainda mais no país onde o islamismo é a religião de Estado e onde o Alcorão é, ao mesmo tempo, a lei civil e religiosa. Os missionários renunciaram, portanto, quase por completo a converter os muçulmanos e aplicaram-se principalmente a evangelizar os cristãos; estes formam três categorias: os europeus, os orientais unidos e os orientais separados.
Não se deve crer que o seu papel seja insignificante junto aos seus compatriotas transportados, pelo comércio, para um país distante: o isolamento e o meio corrompido convidam-nos a viver na desordem e, privados de todo o socorro religioso, muitos deles estariam expostos a perder a fé com o que lhes restava de hábitos cristãos; isto é também verdadeiro para outros países, e os missionários tiveram, em todos os tempos, de deplorar os escândalos que lhes eram dados pelos europeus. Como poder apresentar o cristianismo como a regra da virtude quando aqueles que nele nasceram dão o exemplo da irreligião e de todos os vícios?
Os orientais unidos precisam sobretudo de ser instruídos na sua religião, pois, em muitos lugares, o clero indígena não tem ciência suficiente para a poder comunicar; o melhor meio de se substituir aos pastores naturais — deve-se, contudo, evitar comunicar-lhes o saber — é formar um clero suficientemente provido de saber e de zelo. É a missão que se deram os jesuítas de Beirute, os assuncionistas de Constantinopla, os dominicanos de Mossul, os padres brancos de Jerusalém, enquanto se aguarda que os beneditinos sigam os seus passos, como se preparam para o fazer.
Junto aos orientais separados, há que pregar a verdadeira doutrina, seja dando missões nas cidades e nos povoados, seja empreendendo a conversão dos bispos e dos padres; foi assim que se chegou a resultados muito importantes entre os arménios e os greco-árabes; foi assim que o cisma jacobita foi quase completamente eliminado da província da Mesopotâmia.
Mas, ao lado da sua ação sacerdotal, o missionário europeu tem outro meio de estender por toda a parte a sua benfazeja influência; ele representa, no Oriente, não apenas a Igreja católica, mas também a Europa civilizada, ou, pelo menos, a fé e a civilização identificam-se nas suas mãos e são duas formas diferentes de uma mesma verdade. Pelas suas escolas, os seus colégios, os seus estabelecimentos de ensino superior e as suas casas hospitalares, a Igreja alcança todos os orientais, sem distinção de idade, de sexo e de religião; com a instrução que ministra, faz penetrar nas famílias muçulmanas, tal como nas casas cristãs, o respeito pela autoridade, pela família, pela propriedade, o amor ao bem e o culto da virtude.
Assim, os alunos afluem em multidão às classes que se abrem em grande número; os velhos e os enfermos vêm sem desconfiança colocar as suas misérias nas mãos das nossas valentes religiosas; os preconceitos hostis desapareceram há muito tempo, a voz do reconhecimento começou a falar no fundo desses corações endurecidos pelo egoísmo e pela brutalidade; é o caminho da verdade; a caridade, mais ainda do que as pregações, conduz à fé.
Correspondance d'Orient, obras citadas no artigo Chaldée chrétienne, e de um viajante precedente: Eug. S. Bore, Paris, 1840; Lettres édifiantes, 84 vol., Paris, 1708-1776; Picard, Histoire de l'établissement du christianisme dans les Indes, 2 vol., Paris, 1808; R. P. Maffei, S.J., Histoire des Indes orientales et occidentales, Socletas Jesu usque ad effusionem sanguinis, pro Christi nomine, India et aliis mundi partibus, Praga, 1665; P. Paulin de Saint-Barthélémy, carmelita, Roma, 1794; R. P. Touron, O.S.D., Histoire des hommes illustrés de l'ordre de Saint-Dominique, 6 vol., Paris, 1731-1745; R. P. Marcelino da Civezza, O.S.F., Roma, 1859; M. P. Charlevoix, S.J., Histoire du christianisme au Japon, 2 vol., Paris, 1857; R. P. Huc, Souvenirs d'un voyage dans la Tartarie, le Tibet et la Chine, Paris, 1853; Id., Le Christianisme en Chine, en Tartarie et au Tibet, 4 vol., Paris, 1857-1858; Id., L'Empire chinois, 2 vol., Paris, 1854; David, Journal d'un missionnaire, Paris, 1899; Mgr Launay, Histoire des missions, 4 vol., Paris, 1888-1896; Id., Le Brahmanisme dans ses rapports avec le christianisme, 2 vol., Pondichéry, 1884-1885.
Perboyre, Paris, 1877; Bonnard, Paris, 1876; Gagelin, Paris, 1850; Néron, Paris, 1876; Vauris, Paris, 1879; Clet, Paris, 1884; Daveluy, Paris, 1876; Vénard, Paris, 1886; Just de Bretenières, Paris, 1888; Ridel, Lyon, 1890; Delaplace, Auxerre, 1892; Re'ard, Lyon, 1899; Les 52 serviteurs de Dieu, etc., Paris, 1893; Puginier, Paris, 1894; Dumoulin-Borie, Brive, 1897; Mgr Augustin Scheeffler, Nancy, 1900; Mgr Midon, bispo de Osaka, Paris, 1901.
Autor original: P. Pisani
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