I. ARSÈNE AUTORIANOS e ARSENISTAS. — I. Arsène Autorianos. — II. Cisma dos arsenistas.
I. Arsène, no século XIII, antes de sua elevação ao patriarcado de Constantinopla, levava a vida de um simples monge. Nascido de pais obscuros, realizou seus estudos em Niceia e, após o debate de Georges com o de Gennadius, adotou definitivamente o nome de Arsène, quando seu mestre Alexis, o juiz do hipódromo, tomou o hábito monástico sob o nome de Arsène. Foi no mosteiro de São Lázaro que ele se retirou, ao deixar a capital, para se consagrar inteiramente a Deus, fugindo do mundo. Tornou-se o futuro higúmeno do local sem ter recebido nenhuma ordem. Nosso autor, apesar da embaixada que João III Vatatzès lhe confiou em 1254, junto ao papa Inocêncio IV, não passou de um humilde monge até ter se deixado alistar pelos bizantinos após a queda da cidade em 1204. No retorno, Arsène foi confinar-se em um mosteiro do lago Apoloniátide, na Bitínia, cuja direção recusou assumir. C. N. Sathas, Mésaionikè Bibliothékè, 1894, t. VII, p. 509-511.
Foi lá que os enviados de Teodoro II Lascaris Vatatzès vieram oferecer-lhe, em nome de seu mestre, a dignidade patriarcal, deixada sem titular com a morte de Manuel (1254). Arsène, que permanecera simples monge, recebeu em três dias o diaconato, o sacerdócio e a investidura de sua nova dignidade. A. Miliarakis, 'Iotopía toû BaoiXeíov tîç Nixaíaç, in-8°, Atenas, 1898, p. 545-551.
Criatura do imperador, Arsène não conheceu outra lei senão a vontade imperial. Seu primeiro ato foi redigir uma sentença de anátema contra Miguel II, déspota do Epiro, e todos os seus partidários, além de um decreto de interdito sobre todo o império epirota, rival daquele de Niceia. A. Miliarakis, op. cit., p. 543; A. Heisenberg, Nicephori Blemmydae curriculum vitae et carmina, in-8°, 1896, p. 15 sq. A intervenção de Nicéforo Blemides foi a única que impediu a promulgação desta sentença.
Quando o jovem imperador João II Lascaris, de quem Arsène era preceptor, morreu em 1258, Miguel Paleólogo havia tomado violentamente a tutela, após o assassinato do tutor legítimo, Mouzalon. Mas, quando viu este mesmo Miguel Paleólogo apoderar-se completamente do poder em detrimento de seu pupilo, Arsène, cujas admoestações haviam permanecido impotentes, abandonou Niceia e retirou-se para o mosteiro dos Hyacintes, na embocadura do Drakon. Sem apresentar renúncia, absteve-se do exercício de suas funções. Após vãs tentativas para fazê-lo retomar o poder ou obter dele uma abdicação formal, o imperador e os bispos cortesãos deram-lhe um sucessor na pessoa de Nicéforo de Éfeso. A. Miliarakis, op. cit., p. 560.
O novo patriarca contou tantos adversários quantos partidários Arsène havia conservado; todos foram tidos por estes últimos como inválidos. Ele morreu, aliás, ao cabo de seis meses. Mal senhor de Constantinopla (25 de julho de 1261), Miguel Paleólogo pensou em dar-lhe um substituto. Os partidários de Arsène apresentaram o nome do antigo patriarca, cuja candidatura o imperador acabou por aceitar, sob a condição de que Arsène reconhecesse a validade das ordenações feitas por Nicéforo. Arsène consentiu, mas recusou-se a concelebrar com os novos bispos. A. Miliarakis, op. cit., p. 620.
Retornado a Constantinopla, coroou Miguel pela segunda vez em Santa Sofia, reservando, contudo, os direitos de João Lascaris. Talvez ainda acreditasse na boa-fé do Paleólogo. Toda ilusão caiu quando o usurpador, para afastar para sempre seu pupilo do trono, mandou vazar-lhe os olhos (1261). Irritado, o patriarca excomungou o autor de um crime não menos inútil do que odioso, e não impôs, como condição para reconciliação, nada menos que o abandono puro e simples do trono imperial. Miguel Paleólogo achou, naturalmente, a penitência forte demais e, após dois anos de negociações, mandou depor Arsène no final de maio de 1264. Relegado ao convento de São Nicolau, na ilha de Proconeso, o patriarca destronado morreu ali em 1273.
Arsène escreveu pouco. Citemos, contudo: 1° Seu precioso Testamento, monumento deste período agitado, P. G., t. CXL, col. 947-958. 2° O patriarca Nicéforo II († 1261) atribui-lhe a composição de uma parte do ritual da extrema-unção, P. G., t. CXL, col. 808. Cf. Échos d'Orient, 1899, t. II, p. 197. O Eucológio grego contém, de fato, um cânone cujo acróstico trai a obra de Arsène. 3° Uma Synopsis canonum, escrita em 1255 e publicada por G. Voël e H. Justel, Bibliotheca juris canonici veteris, in-fol., Paris, 1661, t. II, p. 749-784, é atribuída pelos editores ao nosso patriarca, mas erroneamente. O autor desta coletânea é um Arsène, “monge da Santa Montanha”, isto é, do Athos, como traz a subscrição, indicação que não concorda com o que sabemos por outras fontes da vida de nosso Arsène. 4° Por outro lado, temos dele um bom número de bulas. Encontrar-se-á a enumeração delas na obra citada acima de A. Miliarakis, p. 571-576. 5° Os editores da Patrologia creditam a Arsène um pequeno poema anacreôntico sobre o domingo de Páscoa. P. G., t. CXL, col. 937-940. É difícil, para quem conhece a instrução um tanto rudimentar do patriarca, admitir esta atribuição. 6° O ms. 7 da biblioteca Lincoln em Oxford contém o seguinte tratado de Arsène, ainda inédito: Λόγος περὶ τοῦ πότε καὶ ἀπὸ τίνος ἡ τῆς Ῥώμης ἐξέπεσεν ἐκκλησία. Incipit: Πᾶσα γραφὴ θεόπνευστος. Cf. A. K. Démétrakopoulos, Ὀρθόδοξος Ἑλλὰς, in-8°, Leipzig, 1872, p. 46.
— II. Cisma dos arsenistas. O exílio de Arsène havia criado divisões que tomaram, à sua morte, as proporções de um verdadeiro cisma, pois o exilado tivera o cuidado de renovar em seu testamento o anátema contra o imperador e seus partidários. Os patriarcas sucediam-se — houve quatro em dez anos — sem conseguir acalmar o furor do povo, dos monges, dos mendigos, os arsenistas e os josefistas — os bandidos, os grandes, inclusive —, o mundo estava dividido e nem todos sabiam por que entre as duas facções. Os josefistas representavam o partido da corte e do clero oficial: em 2 de fevereiro de 1267, o patriarca José (1º jan. 1267-mai. 1275; 31 dez. 1282-mar. 1283) havia absolvido o imperador, crime imperdoável aos olhos dos arsenistas, fanáticos intransigentes. A morte de Miguel VIII (1282), seguida logo pela de José (1283), deixou o campo livre aos arsenistas: aproveitaram para reclamar ao novo imperador, Andrônico II, igrejas e a depuração do clero culpado de complacência para com a união com Roma, que arregimentava a maioria do alto clero.
O imperador concedeu tudo, e o concílio de Blaquerna (Páscoa de 1283), presidido pelo patriarca Gregório de Chipre (11 de abril de 1283-junho de 1289), proscritos sem piedade os partidários da união. Estas violências não foram suficientes para apaziguar a discórdia entre josefistas e arsenistas.
Foi necessário reuni-los em colóquio em Adramyttion (Ásia Menor). O imperador presidia; os arsenitas redigiram sua profissão de fé e intimaram os josefistas a fazerem o mesmo; depois, remetendo-se ao juízo de Deus, os dois partidos depositaram suas cédulas sobre uma brasa; o fogo respeitaria a boa cédula. Ambas foram consumidas (8 de abril de 1284). Os dois partidos, muito envergonhados, prometeram então viver em paz.
Alguns meses depois, nova briga, seguida pela excomunhão lançada pelo patriarca contra os recalcitrantes. Para acalmá-los, permitiu-se que trouxessem com grande pompa a Constantinopla o corpo de Arsênio, que foi sepultado primeiramente em Santa Sofia, depois no mosteiro de Santo André Criais.
Feito isso, eles exigiram a abdicação do patriarca Gregório. Gregório retirou-se, deixando o lugar a Atanásio I (14 out. 1289-16 out. 1293). Homem de uma impiedosa rigidez, o novo patriarca amotina todo mundo contra si. João XII (Cosmas), que lhe sucede (jan. 1294-23 ago. 1303), por sua vez, apresenta sua demissão sem ter obtido nada. Atanásio retorna (1303-1311) e mostra-se menos severo.
O imperador estima a ocasião favorável para reunir uma nova conferência (1306): ela fracassa completamente. Por felicidade, os arsenitas se fragmentam em dois partidos: os moderados, sob a chefia de Jacinto, e os intransigentes, com João Tarcaniota. Aproveita-se dessa divisão para cobrir os moderados da Igreja de favores, como eles recebem no Estado.
O patriarca Nifão (1311-1315) trabalha pela reconciliação. Ele obtém sucesso, dando a todos a absolvição em nome de Arsênio (11 de abril de 1315), cujo corpo é trazido de Santo André para Santa Sofia. Aqueles dos recalcitrantes cuja obstinação este estratagema inocente não pôde vencer vão engrossar com seu número outras seitas existentes; mas não se fala mais dos arsenitas.
S'jvo^i; ypovtxri, escrita por um amigo de Arsênio e publicada por K. N. Sathas, M.eoaicovtx^ Bi^XioO-r^xrj, Veneza, 1894, t. VII, p. 1-556; Heisenberg, Nicephori Blemmydae, Curriculum vitae et carmina, editada por e Opuscula, in-8°, Leipzig, 1896, p. 1-92; o monge Metódio, De schismate vitando, opúsculo publicado por A. Mai, Script, vet., t. III, p. 240; consultar-se-á sobretudo P. G., t. CXLIV, col. 780-806.
Entre os cronistas e duas testemunhas oculares bizantinas: P. G., t. cit., col. 909-1220, e Jorge Paquimeres, P. G., t. CXLIII, col. 407 sq. ; t. CXLIV, col. 1-930.
Autor original: L. Petit
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